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domingo, dezembro 15, 2019

O Natal está a caminho e, com ele, já me chegou um presente de um Leitor


Como contei, ontem cheguei tarde a casa. Quando aterrei neste meu sweet poiso e fui espreitar os mails, foi com ternura que li o mail de Joaquim Castilho, Leitor amigo de longa data que muitas vezes aqui deixava poemas (deixava e ainda deixa, embora, para pena minha, mais espaçadamente) a propósito da minha escrita solta. Bem humorado, dizia-me que o 'livrinho natalício' já lá estava.

Como devem saber os que por aqui me acompanham, desde há algum tempo, pelo Natal, o Joaquim tem a imensa simpatia de se deslocar até um certo lugar para ir deixar-me um presente. Sempre bem escondido, num lugar de que, no mail, me dá conta, deixando a fotografia do esconderijo para não ter como enganar. 

Então, hoje de manhãzinha, receando que alguém o tivesse visto a deixar o volume e pudesse ir lá  surrupiá-lo ou que a chuva miúda o invadisse, fui logo resgatá-lo. Oculto entre a folhagem, bem acondicionado, hermeticamente fechado, lá estava.

Como que embrulhado em sorrisos, Joaquim, ali estava o seu delicado presente. Com que alegria de menina, o encontrei, o desembalei. Havia de ver-me.

Depois, logo ali, fotografei-o. São momentos assim, que me chegam envoltos em delicadeza, que sempre guardarei no meu coração.

Com fotografia da capa do próprio Joaquim, um livro de poemas sobre o tempo, ali estava o meu presente.










Por entre
as esferas imóveis do Tempo
irrompe
como pássaro lento
a luz serena da madrugada

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Muito obrigada, Joaquim. A sua generosidade e gentileza comovem-me.

Daqui lhe envio o meu agradecido abraço.

Ainda é cedo para lhe desejar festas felizes mas envio na mesma: para si e para os seus, tudo de bom.
Saúde, afecto, felicidade.

segunda-feira, dezembro 17, 2018

Chegou o Natal a Um Jeito Manso:
o Poeta Rascunhador deixou um belo presente num lugar muito especial



Num destes meus dias repletos de compromissos e preenchidos, em plena azáfama, chegou-me a notícia de que um presente de Natal me tinha sido deixado num esconderijo. E a indicação de como lá chegar, com elucidativas fotografias. E, como quando era menina e ficava feliz com a perspectiva de receber um presente, assim fiquei eu.

Se há Leitor por quem sempre senti grande simpatia, a quem nunca li uma palavra desagradável e que manteve sempre a capacidade de me surpreender foi ele. Tinha o condão e a arte de me deixar poemas sempre totalmente a propósito, ao princípio com pseudónimo, depois em nome próprio. Quando eu via que tinha chegado um comentário dele, a minha expectativa era grande: seria um poema? E muitas vezes era, poemas lindos que enriquecem quer o Um Jeito Manso quer o Ginjal e Lisboa, a love affair. Se clicarem nos links poderão encontrar todos os posts nos quais existem poemas deste meu querido Amigo, seja no corpo dos posts, seja nos comentários. 


Dizia assim o mail:
Já lá está mais um livrinho natalício [...]. Se não tiver ocasião, tempo ou pachorra para o ir buscar não se preocupe. Alguém poderá vir a encontra-lo e talvez o consiga ler!! 
Continuo lendo-a, com prazer e alguma frequência mas “desaparecido” nos comentários! 
Continue com a sua força, perseverança e qualidade que eu e os seus muitos seguidores, mesmo os sornas como eu, agradecem! 
Um grande abraço

E, portanto, no meio de umas jornadas de verdadeira labuta, tive que inventar um espaço para lá ir. Não podia correr o risco de me atrasar e alguém descobrir o meu presentinho antes de mim. E lá estava ele, o Rascunhos. A capa rabiscada para disfarçar porque lá dentro poemas. Poemas, não rascunhos. Estava com pressa, sim, mas tive que, logo ali, folhear, ler devagar.


A luz dos dias, o prazer da melodia das letras desenhando-se nas páginas, a aprendizagem do rumo certo das palavras, a alegria da descoberta como se fosse aquela criança que tem um pouco do seu sangue a correr-lhe nas veias -- esse é o alimento da alma deste Poeta que, quando o Natal se aproxima, se lembra de mim e a quem eu muito agradeço.

.
Muito obrigada Joaquim. Receba também um grande abraço.

PS: O Mozart lá em cima sabe porque é, não é? Adorava quando dizia que eu era mozartiana e, para mostrar que não me esqueci, aqui está ele, ao pé de si.

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E uma sugestão a todos os meus Leitores: sigam os links que acima vos deixei para descobrirem a genuína espontaneidade e a alegria das palavras do Joaquim

terça-feira, dezembro 19, 2017

Um presente de um Leitor. Um presente físico, material.




Por vezes penso que isto de a gente escrever sem saber quem nos lê e apenas tendo notícia através de estatísticas é uma coisa meio limitada. Contudo, depois, vêm os mails e a gente vê que há gente de verdade aí desse lado -- e sei das suas vidas, das suas hesitações ou ansiedades. Mas, ainda assim, é virtual, ou seja, o contacto é virtual.

A uma, no entanto, por afinidades ou não sei bem porquê, tive vontade de ir mesmo conhecer. E, de certa forma, não tive qualquer problema em que ela me conhecesse. As palavras que atravessam o espaço deixam perceber, por vezes, que há como que invisíveis laços que, de uma maneira incompreensível, parecem unir-nos. Gostei de conhecê-la.


E há outro caso. Um caso que me encanta. Um Leitor, por esta altura, tem a delicadeza e generosidade de se deslocar até um local secreto e lá deixar o livro que anualmente publica com poemas seus.

Ontem à noite, quando vi o correio, lá tinha mail seu a dizer-me que tinha deixado o livro no lugar do costume. Àquela hora já era impossível lá ir e hoje o meu dia estava por demais complicado. E eu com medo que alguém descobrisse o esconderijo e ficasse com o meu presente. Mas vivo rodeada de cavalheiros gentis e logo aquele que vive comigo conseguiu arranjar maneira de lá ir. Depois enviou-me uma sms a dizer que oo resgate tinha sido bem sucedido. Alegria.

Agora à noite já o tirei do invólucro plástico e já aqui o tenho comigo, tendo estado até agora a lê-lo. É um livro com uma bela capa, boa paginação, muito agradável à vista e ao toque. Não é virtual: é um presente de verdade e eu estou muito agradecida. E contém as suas palavras que se juntam de forma harmoniosa, como que atraídas para aquela toada incompreeensível que dá forma aos poemas.

Procuraste as palavras com esmero,
escolheste-as a preceito
com o teu requintado bom gosto
como se fosse u móvel
para pôr na entrada.
Palavras cuidadas, sonantes, originais,
por vezes mesmo solenes,
para que o texto te saísse
limpo, perfeito,
gramaticalmente imaculado
conseguiste mesmo 
um certo toque literário.
Não escreveste um poema, uma crónica,
uma notícia, um romance, um conto,
nem sequer um relatório
ou um artigo de jornal.
Escreveste-te.


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Transcrito, o poema O texto de Joaquim Castilho in 'Outros Poemas'
Lembrei-me do que me dizia, Joaquim, que eu era mozartiana e, por isso, para si: Hiro Kurosaki no violino e Linda Nicholson no pianoforte interpretam a Sonata para Violino em E Minor K304 - Mov. 2/2

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Muito obrigada, Joaquim. Saiba que fico muito feliz por receber esta sua prova de afecto.
E saúde e felicidade para si e para a sua família, nomeadamente para a sua querida Rita a quem o livro é dedicado

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segunda-feira, dezembro 12, 2016

Cem poemas sem recebidos com alegria agradecida
- em tarde de derby cá em casa





Muitos afazeres para este domingo. Para começar bem o dia, de manhã, caminhada, fotografias. E tarefas domésticas e compromissos. Para a tarde estava combinado lanche com toda a gente. A minha filha já tinha alertado: é dia de derby, vê lá isso. O meu marido disse: não dá na televisão. Sms dela: dá na Benfica TV. E alertou que o irmão haveria de querer ver. E o meu filho também. Referia-se ao pimentinha mais velho. Mas Benfica Tv é coisa que jamais poderia haver cá por casa. Passado um bocado, sms do meu filho: o pai podia subscrever a Benfica TV por 30 dias e se for preciso eu comparticipo financeiramente. Ri. Li para o pai ouvir. Reacção imediata: nem pensar! deve estar a gozar! é que nem pensar!

Deixei que se recompusesse. Então, de mansinho pedi para ele ver como é que se subscrevia. Não queria. Tentei acalmá-lo: só 30 dias. Que mal tem? Furioso: é que nem pensar eu ir dar dinheiro ao Benfica... Pedi: para os miúdos verem. Gostam tanto de ver futebol. Pronto. Lá toquei no ponto sensível. Andámos, então, por aqui com o comando à procura, a ver onde se fazia tal coisa -- até que descobrimos. Depois era preciso código. Sabíamos lá do código. O meu marido sugeriu 0000. Nada. Sugeri 9999. Nada. Perguntei ao meu filho. Sugeriu 1234. Nada. Logo a seguir sms dele: 5555. Deu. Subscrevemos, o meu marido revoltado. Não digo os palavrões. Mas basicamente era um queixume blasfemo que continha as seguintes palavras: 'o... benfica cá em casa...'. Ou seja, uma faca entrerrada no peito.


Portanto, a combinação era: lanche reforçado no intervalo mas, à chegada, quem quisesse podia abastecer-se. 

Até que chegassem, mais tarefas domésticas. A semana vai ser preenchida, o fim de semana tem que ser produtivo.

Eis senão quando abro a caixa do correio no computador e vejo um mail que me faz sempre ficar com um sorriso aberto de alegria. Leitor amigo dizia-me que, à semelhança de anos anteriores, tinha-me deixado, no sitio do costume, um livro de poemas, colheita 2016. E enviava-me fotografias de um lugar tão meu conhecido.


Fiquei: ah e agora...? tenho que ir buscá-lo... mas e se eles chegam entretanto...? Mas tenho que ir não vá alguém descobri-lo e ficar com ele...

O meu marido, mais prático: liga aos gajos. vê onde andam, diz que não venham muito antes das seis. E despacha-te.

E assim foi. Despachámo-nos em três tempos, ala moço que se faz tarde, carro, sempre a andar.

Lá chegados, a maravilha do entardecer, o rio feito mar espelhado, a luz suavíssima, as silhuetas recortadas contra a paisagem amena, a cidade a começar a acender-se. O meu marido, puxando-me, despacha-te, vê se queres que os gajos cheguem antes de nós.

E lá fui apressadamente até ao sítio do costume.
Baixo-me, estendo a mão por entre as flores húmidas da neblina nocturna que se aproxima e... la está, o saco de plástico transparente e, lá dentro, o envelope 'para a UJM'. Feliz como uma menina que acabou de ganhar o seu primeiro presente de natal, começo logo ali a abrir o livrinho, a sorrir com o cartão, a sorrir com a dedicatória.
O meu marido puxa por mim, anda,... mas tens que estar a ler já aqui... ? e quase sem luz...? despacha-te.

E mais umas fotografias.

Depois carro. Caminho de regresso. À justa.

Logo a seguir começaram a chegar os adeptos. Primeiro os do Benfica. Logo a seguir os do Sporting.

E depois foi o habitual desgosto dos sportinguistas, a alegria dos benfiquistas. E o lanche. E o jogo das escondidas entre os mais pequenos. E o chinfrin do costume. E as canções, as guitarradas, o sapateado, a alegria de sempre.

No fim ainda houve quem se abastecesse, desta vez com uma sopinha. E depois voltei aos meus afazeres. Pelo meio, ainda fiz o post abaixo com o casal de pombinhos que hoje me enterneceu. Um mel... beijinhos, beijinhos, todos denguice, todos sedução aqueles pombinhos. E ainda voltei às minhas arrumações. E cortei o cabelo. Tomei banho e, com o cabelo molhado, umas tesouradas valentes. De vez em quando apetece-me mudar de pele. Como não sei bem como é que isso se faz, limito-me a cortar o cabelo. Desta vez um corte a sério. Fiquei até com vontade de voltar a pôr-me à rapazinho. Um dia destes, quem sabe.

E agora aqui estou, outra, a ler os poemas do Joaquim Castilho, a ouvir Horowitz a tocar o concerto para piano nº 23 de Mozart, a sorrir, satisfeita. E um calorzinho tão bom aqui na sala. E uma paz imensa instalada no meu coração.

Refugiado 
em ti
nos teus livros
na tua música
nos teus sonhos
nos teus desejos
nos teus medos
caverna translúcida
teu conforto
teu pequeno mundo
dentro de ti.


Obrigada, Joaquim. Muito obrigada mesmo!

Precisei de ler os poemas, sim senhor, para poder dizer com convicção que os achei admiráveis!


E muitos presentes para todos, destes assim, que transportam afecto, generosidade, amizade.

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domingo, março 27, 2016

Uma vez mais:
O que é a arte?
-- a palavra aos Leitores Joaquim Castilho e P. Rufino


Pintura que integrou a exposição 'A felicidade em Júlio Pomar'

 


O que é a arte? Para que serve a arte?


Para que serve uma paisagem desértica ou uma montanha nevada?

A arte, tal como por exemplo uma paisagem, pode transmitir-nos emoções agradáveis ou penosas, evocar memórias, ampliar a nossa sensibilidade, permite-nos ver e sentir para além da realidade racional, objectiva e “ utilitária” do quotidiano.

Contrariamente ao que normalmente sucede com uma paisagem, a arte é uma construção levada a efeito por um produtor, um “artista” que pretende realizar com volumes, cores palavras, com fixações em telas ou em papel fotográfico, por exemplo, as emoções ou uma qualquer mensagem que ele próprio pensa ter descoberto e que julga interessante dar a conhecer a outrem. Esta actividade exige “inspiração e transpiração” e é muitas vezes penosa de realizar até o artista julgar ter conseguido atingir o objectivo pretendido.

Aprendi, como engenheiro de telecomunicações, que para comunicar algo a alguém é necessário um emissor, o artista, um receptor, o público interessado na fruição da obra de arte, e um meio de comunicação, o objecto artístico, mas também uma linguagem que seja compreendida pelo receptor sem a qual não existirá transmissão do que quer que seja.
Se um chinês me comunicar na sua língua qualquer coisa eu não irei receber nada porque não falo chinês.
Se não me for acessível a linguagem utilizada pelo artista, ou se ele não me facilitar essa compreensão, não posso entender o que ele me quererá dizer e não posso fruir a obra de arte.

Muitos artistas constroem uma linguagem que nos é perceptível pelo facto das suas obras nos conseguirem transmitir as emoções que teriam pretendido expressar mas nem sempre são exactamente as que o artista terá querido exprimir mas uma transmissão funcionou.

Ubu Roi III - Miró, 1966

Gosto do Miró ou do Pomar porque sou sensível à sua linguagem reproduzida em inúmeras obras. 

Detesto o Cabrita Reis por não consigo “sentir” o que ele me quer dizer. Chego mesmo a pensar que ele não “fala“ qualquer linguagem. Mesmo os especialistas que a procuram traduzir por palavras escrevem numa linguagem tão hermética que eu sou incapaz de a perceber.


I dreamt your house was a line - Cabrita Reis, 2003

As linguagens vão evoluindo através dos séculos. Há artistas que morreram e outros que continuam vivos porque as linguagens que utilizaram continuam vivas.

É normal que os artistas procurem sempre outras linguagens, sempre foi assim, mas procurar não significa necessariamente encontrar. Um dos problemas da arte contemporânea é que há demasiada sede de procura e raramente se encontram linguagens perceptíveis à nossa sensibilidade de “receptores” comuns mesmo que a procuremos ir educando e façamos um esforço nesse sentido.

Depois aparece a “máfia” dos galeristas, dos colecionadores, dos críticos, dos gestores de museus, curadores de exposições e editores revistas de arte etc. etc. desejosos de “valorizar” as obras de arte dos “se” artistas que ainda complicam mais a situação.
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Acrescento ainda alguma coisa à minha longa “narrativa“ (...) uma vez que (...) talvez seja falando de música, da linguagem musical, que o meu texto possa ganhar alguma verosimilhança! 

O canto gregoriano, a ars nova, as linguagens trovadorescas medievais, as oratórias. os madrigais, o nascimento da ópera, a música pré-barroca, o barroco, a musica clássica, o romantismo, o impressionismo etc., etc.

Linguagens que poderemos ir compreendendo e que nos vão facilitando a recepção de sonoridades diversas, de diversas épocas, que traduzem emoções, memórias, planícies e montanhas que descobrimos e por onde é bom viajar.

Die Lebensstufen (The Stages of Life), Caspar David Friedrich, 1835
Encontrámos desde o século passado o dedecafonismo, a musica minimal repetitiva e outras linguagens como a do referenciado Eric Satie, inclassificável como ele próprio, depois becos sem saída como Scelsi, Stockausen, Boulez, Xenakis que sábia e honestamente tentaram novos caminhos. Novas clareiras com Gubaidulina, Ligeti ou Part e tantos outros que procuram e talvez tenham encontrado e que terão aberto caminhos que os “mais famosos” vieram a revelar.

Botas como as de Van Gogh ou torturadas paisagens como as Caspar David Friedrich enriquecem-nos porque terá havido sempre e continuará a haver alguém que, através da Arte, nos quererá dizer qualquer coisa e nos irá sendo possível sentir o que nos querem transmitir mesmo sem os compreender. Ligação absolutamente necessária entre o emissor criador e o receptor fruidor da obra de Arte .


Texto da autoria de Joaquim Castilho, enviado através de comentários a posts abaixo

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Este tema, sobre o que é a Arte, é muito interessante e estimula uma boa e saudável discussão. 



Aqui há uns bons meses comprei um livro na FNAC que aborda esta questão de uma forma curiosa e mesmo cativante. Uma excelente obra. O autor é Julian Bell e o livro intitula-se, “Espelho do Mundo – Uma Nova História de Arte”. Já conclui a sua leitura há uns tempos e não me arrependi um momento sequer. É um livro grande, de muitas páginas, que leva tempo a ler – com atenção. (...)

No fundo, o significado de Arte tem também a ver com as sensibilidades de cada um. Da percepção que temos de objectos (um quadro, uma escultura, por ex) e sons (música), por exemplo. Mas, julgo também sobre o sentido desses mesmos objectos e sons. Da sua beleza. Da sua capacidade de nos atrair. Daquilo que podem significar e transmitir. E talvez também da dificuldade da sua execução (quer pela duração da sua concepção, quer pelo esforço mental que exigiu, etc).

Há muitas variantes no que respeita ao conceito que nos leva a definir Arte. E a Arte e o seu conceito evoluiu, ao longo dos tempos. E houve momentos em que aquilo que se seguiu, um novo estilo, foi rejeitado de início, para ser admirado mais tarde. Na Pintura (recordemos as primeiras reacções aos artistas Impressionistas, um dos vários exemplos), como na Escultura, como na Música (Stockausen, Xenakis, etc, aqui mencionados por outro Leitor que gosto de ler). Mas, também na Literatura. António Lobo Antunes, se bem me recordo, teve os seus contestatários pela forma como se revelou a escrever, ao não seguir a escrita com a pontuação tradicional (o mesmo para Saramago, que depois foi Prémio Nobel). Nalguns casos, o que chocou o conceito de Arte foi a sua (total) inversão.

Por exemplo, como dizia um crítico, a desconstrução de se conceber Arte.

La soupe - Pablo Picasso, 1902-1903

Picasso e outros foram exemplos disso (todos os movimentos que se seguiram ao Impressionismo, para além do Cubismo, o Surrealismo, o Expressionismo, Fauvismo, Futurismo, etc, ousaram reinventar a concepção de Arte).

Passaram a conceber a Pintura de uma forma até ali completamente diferente. Foram ousados e criaram um novo estilo. Inovaram. Goste-se ou não, ninguém discute hoje as suas qualidades artísticas e o seu lugar – relevante - na História da Pintura.

Le Rêve - Picasso, 1932

Naturalmente que há e houve em muitos casos, na concepção de determinada obra (Pintura, Escultura ou Composição musical), razões de natureza pessoal, experiências ou vivências desse tipo que levaram à concretização dessa obra. Os exemplos são vários, alguns até fascinantes. Agora, também terá de haver algum rigor para se considerar, ou incluir no conceito de Arte, determinada obra. É que nem sempre um excesso de ousadia, ou de inovação, ou de desconstrução, ou de abstracção, pode, ou deve, ser considerado Arte. Ou não deveria. Hoje, todavia, relativizou-se muita coisa, até na Arte. Por mim, desde que uma composição musical, um quadro, uma escultura, um livro, me fascine, pelo gozo que me deu de o desfrutar, já me sinto feliz. 

Les Deux Sœurs - Auguste Renoir, 1881

(PS: tenho imenso respeito por Martin Heidegger (com quem Herbert Marcuse colaborou, em particular num trabalho sobre Hegel – sempre admirei muito Marcuse), mas ainda hoje me custa entender aquela sua atitude perante o Nazismo, sobretudo vindo de alguém da sua estatura intelectual. Ficou a dever bastante a Hannah Arendt (com quem teve um “affair”, a sua recuperação, ou “desnazificação”). Outra nota: embora goste de Van Gogh, prefiro, por ex, Renoir (ou Monet, Manet)).


Texto da autoria de P. Rufino, enviado através de comentário a post abaixo

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Agradeço a ambos os Leitores os seus contributos e espero que não levem a mal que tenha puxado os seus comentários para o corpo principal do Um Jeito Manso.

A selecção de obras que usei para ilustrar o texto é da minha responsabilidade embora tenha sido feita a partir das referências dos seus textos.

A música lá em cima, Magnificat, é da autoria de Arvo Pärt.

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segunda-feira, dezembro 14, 2015

O Natal já se abeirou de mim e eu sinto que nunca agradecerei suficientemente a gentileza do Leitor que me oferece as suas palavras e as deixa num local que me é tão especial


Ainda o Natal mal se acercou e cá em casa as luzes que o anunciarão ainda não se acendem em volta dos espelhos ou da árvore sob a qual os presentes se irão acomodar, e já eu estou a ser agraciada com a gentileza dos meus Leitores. 

Ontem à noite li o mail de um querido Leitor, escrito várias horas antes, no qual ele me dava conta que, num esconderijo, o mesmo de outras vezes, me tinha deixado um presente. Mostrava-me as fotografias do local para que não me restassem dúvidas.

Àquela hora já não consegui lá ir mas este domingo lá fui, sempre com aquela expectativa infantil de quem vai espreitar, a ver se o Menino Jesus lá deixou mesmo o presente que se tinha anunciado.




Tinha chovido, podia ter-se estragado. E já já devia estar quase há vinte e quatro horas, já alguém podia tê-lo descoberto. Ou os gatos poderiam ter-se entretido com ele, sabido que é que são dados a actividades clandestinas.

Segui o caminho, cheguei ao ponto que a fotografia mostrava, baixei-me. E lá estava. Intacto, bem protegido.


Abri logo o invólucro plástico, depois o envelope. Procurei a dedicatória. Gosto tanto de ler dedicatórias; ou melhor, gosto de ler as palavras que uma pessoa concreta, um Leitor amigo, escreveu para mim. Isto do blog, às tantas, é tão virtual... -- pode parecer-vos que eu não existo de verdade e, por vezes, quase penso que vocês aí, meus Caros Leitores, são apenas presenças abstractas. Ora, vendo palavras escritas para mim, para a UJM (que é esta que sou também eu), vejo que, neste meu exercício de escrita, chego mesmo até a pessoas de verdade, pessoas que não se importam de sair dos seus caminhos usuais para vir deixar um presente a alguém de que apenas conhecem as palavras, as opiniões, os gostos.


Depois, enquanto andava, fui logo folheando, lendo os seus poemas falando de rios, de viagens, de silêncios, de caminhos de procura.


Choviscava, as gaivotas gritavam pelos ares, e eu ia andando, transportando comigo palavras de poemas que nunca escrevi mas que chegaram, soltas, até mim.


Quando cheguei a casa, fotografei o livro, a sua capa de papel sedoso, as suas páginas, sentei-me a ler os poemas, a imaginar a delicadeza de quem os escreveu -- a procura permanente da toada que reflecte o pensamento, a junção das palavras que descreve o sentimento. 


Pode a vida não ser sempre feliz mas há momentos de felicidade. 

Pensei que, ao andar, enquanto ia a ler:
Alarga-se o braço
em traços que traçam
no papel em branco
riscos, sombras, volumes,
linhas soltas, livres,
sem destino certo
(...)

uma gaivota, gritando, voou na minha direcção. Apressadamente fechei o livro, apontei a máquina, julgando não conseguir captá-la. Só quando passei as fotografias para o computador, vi, com alegria, que tinha conseguido mostrá-la com os braços abertos num largo abraço.

Se fossem letras
seriam palavras, texto
ou talvez
um poema

....

Muito obrigada, Joaquim. Saiba que me deixa muito feliz com este seu presente. Gostei... e muito.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma semana muito boa -- a começar já por esta segunda-feira.

...

terça-feira, dezembro 09, 2014

O Pai Natal chegou e a autora de Um Jeito Manso recebeu o seu primeiro presente. Aqui deixo o meu agradecimento, que nunca será suficiente, ao Leitor que tão amavelmente me ofereceu um livro seu, Quadras Impopulares, com dedicatória e tudo.


No post abaixo falo dos Métiers d'Art, reportando-me também aos meus dotes manufactureiros e às minhas dúvidas sobre como ocuparei o meu tempo um dia que me reforme. Mas tanto tempo ainda falta que nem vale a pena estar já a especular sobre isso.

Por isso, adiante.

Meu amigo está longe



Foi com emoção que li o mail de um Leitor que me informava ter-me deixado um presente num esconderijo, cuja localização referenciava - aliás, à semelhança do que já tinha acontecido o ano passado.

Já lhe contei a ele, por mail, mas aqui fica descrito. Não descansei enquanto não fui lá. A minha locomoção está ainda um bocado limitada mas, com o carro perto, e o meu marido esperando pacientemente pela minha lenta passada, fomos até ao local.

E lá estava estava ele, bem escondido, embrulhadinho, protegido. E então, trazendo-o comigo, toda contente, logo ali o fotografei junto ao rio, numa tarde fria e luminosa, o Tejo muito azul, cheiroso.


Quadras Impopulares de Joaquim Castilho,
(ainda hermeticamente fechado dentro do saco de plástico).

Um livro com dedicatória. As palavras de um amigo que me agradece como se não fosse que eu que tivesse razões para agradecer tudo, as palavras gentis, a presença, o incentivo, a estima tantas vezes manifestada - e aqui permito-me estender as minhas palavras de agradecimento, que vão em primeiro lugar para Joaquim Castilho, a todos os Leitores que me acompanham de uma forma tão calorosa e afável.


Nestas alturas sou como uma menina que recebe um presente e está desejando de o ver, de o ter consigo. Soltei-o do seu invólucro, e enquanto andava, logo ali o vim lendo, neste lugar tão especial.

Com humor, diz Joaquim Castilho no cartão que acompanha o livro que, numa tentativa de se enquadrar, inventou umas quadras de pé quebradíssimo para manjericos de Santo António ou fadunchos esfarrapados.

Pois que seja; e eu, por ele pedir fados, escolhi Gisela João e a sua forma autêntica de os sentir para nos acompanhar. E escolhi algumas das suas quadras soltas, aquelas para as quais encontrei fotografia minha que me parecesse acasalar com as palavras.



Casa morta, ruína, sombra que voou
Destroços de vidas que terminaram
Um grito surdo que encontraram
Enterrado num tempo, que se acabou.



Eras como um rio lento
Sem ouvir a cor do mar
Meandros mágicos do vento
Histórias, lendas de encantar.



Num mar de longos abraços
Onde um rio se desfaz
Ora vento ora sargaços
Sombras de memória e paz.



Pássaro jovem que voa
Sem nunca aprender a voar
Razão que sempre entoa
Do rio jovem sem ter mar.




Num poema ou fotografia
Uma sombra iluminada
Em tudo ou num quase nada
Um brilho profundo acontecia.



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Todas as fotografias foram feitas no sítio mágico do Ginjal.

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Muito obrigada, Joaquim! O meu Natal já está a ser muito bom.


quarta-feira, agosto 27, 2014

Noites Quentes - 'A arte é uma mentira que nos faz ver a verdade'


Dia de praia, noite quente e eu aqui com um problema. A revolver os livros em cima da mesa para escolher mais algumas leituras, eis que o provável aconteceu: uma pilha desmoronou-se, contagiou outra, na queda roçaram na pilha que estava em cima duma cadeira e agora tenho o chão, debaixo dos pés, pejado de livros. Claro que poderia restabelecer a ordem mas eu, mesmo nas pilhas provisórias, gosto de alguma lógica e não é à uma da manhã que me vou pôr com isso. Caraças. 

Ainda continuo entrincheirada porque ainda subsistem de pé em cima da mesa oito pilhas e meia. O que vale é que o meu marido acabou de sair da sala, senão bem o podia ouvir. Bolas para isto.

Banksy


E está calor e eu tenho preguiça. Deve ser preguiça isto, deve ser. Chego aqui, vou à procura de algum tema da actualidade que desperte a minha atenção e não encontro. Um tédio.

A política nacional e os seus agentes são maioritariamente medíocres, excrescências espúrias de uma sociedade que rejeita a diferença e a qualidade. Percorro os jornais e o que vejo é uma miséria.

Não são só os políticos. Os jornalistas e comentadores, salvo raras excepções, são medíocres, pouco inovadores, pouco rigorosos, em grande parte contribuem para o embrutecimento colectivo. Insuportáveis.

Gente pequenina. Gente de palha.


Rothko
Li há pouco referência à crónica de João Miguel Tavares no Público. Fui ver. 
Não ia a esperar nada de bom, dali parece que só vem cocó na fralda, conversetas para entreter adultos retardados. 
E não me enganei: atira-se a António Costa por nada, apenas porque gosta de dar que falar. 
Não podendo competir com a Fany ou com o Tony Carreira que à mínima saltam para a capa das revistas (e não o faz porque esse não é o seu ramo de negócios, não que não seja essa a sua vocação), arma zaragata escrita com o que lhe parece que está a dar. 
É a irrelevância em forma de comentador. É ele, o Henrique Raposo e tantos outros que por aí andam a poluir a opinião pública.



Há pouco, antes do desmoronamento, na minha demanda por leituras que me motivem, fui folheando um conjunto de revistas literárias e livros de autores portugueses que ainda não li e tudo me parecia mais do mesmo.

Tenho a televisão ligada e também tenho dificuldade em escolher, só treta, banalidade, repetição, mediania.

Momentos de fractura - em que a luz entra límpida, em que a arte assoma despudorada, em que a música é única, melhor que o silêncio ou os sons inocentes da natureza, em que a opinião é despretensiosa e visionária, em que as palavras são genuínas, únicas - parecem raros.


Richard Krush e Sylvie Guillem


As pessoas parecem ter receio de se destacar, temer a crítica das cassandras ou ficar isoladas perante um coro de agoniados e, então, não se arriscam, limitam-se a repetir o que os outros disseram ou fizeram, ou a fazer bonitinho, ou pretensamente alternativo. Uma seca.

Mas talvez seja este calor que me está a cercear a tolerância. Vou beber um sumo gelado e, depois, em vez de estar aqui a destilar impaciência, vou, antes, partir em busca de qualquer coisa que me estremeça, que me leve.

E, antes, vou voltar atrás no que escrevi e vou incluir imagens, ar puro, rasgos. Podem as imagens não ter nada a ver mas ajudar-me-ão a respirar melhor.


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Banksy's "Artist in Residence" Video para o 18th Annual Webby Awards





To accept his Webby for Person of the Year, Banksy made this video about his Residency in New York City.


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Morton Feldman : The Rothko Chapel




La fin de "Rothko Chapel" pour alto, choeur, célesta et percussions, avec sa mélodie d'inspiration hébraïque, composée par Morton Feldman à l'âge de 15 ans.



Sons brancos 
Como que nascidos
De uma fonte exausta.
Coerência baça
Construção exacta
De um quase nada.
Estranha cor
Que risca o silêncio
Antes de se esfumar
Num sensível
E belo
Arrastar do tempo.


(Joaquim Castilho, num comentário aqui abaixo) 

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Suheir Hammad's Gaza Suite | 4: Jabalya




The fourth poem in Suheir Hammad's Gaza series


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Se eu fosse eu - Clarice Lispector por Aracy Balabanian




"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. 


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Agostinho da Silva - Salazar, Capitalismo e CEE




"Conversas Vadias" - Entrevista com Baptista Bastos


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PICO

(Performance Indeterminate Cage Opera)




If you took the musical revolution of John Cage, the radical thinking of Marcel Duchamp, and the media anarchy of Nam June Paik, and put them in a blender... the result would be PICO (Performance Indeterminate Cage Opera).



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Já me sinto um bocado melhor: um ar fresco e limpo já passou por aqui.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira, e desculpem lá esta impaciência.
Deve ser porque o calor da noite não abrandava.

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sexta-feira, dezembro 13, 2013

Sobre um presente inesperado e maravilhoso que a UJM recebeu. E os meus sentidos agradecimentos pela imensa gentileza do Leitor que mo ofereceu.


No post abaixo falo da entrevista de Passos Coelho à TVI/TSF sobre a qual pouco ou nada há a dizer tal a vacuidade. Mas, enfim lá digo qualquer coisa e, de caminho, falo do Passos Coelho do jornalismo televisivo,  o Abreu Amorim do comentário económico. E falo de outros que não têm nada a ver com os anteriores.

Mas aqui, agora, a conversa é outra.

Aqui vou contar-vos sobre o primeiro presente que recebi nesta época natalícia. Mas, primeiro, como música de fundo, que deslize Ariane.





Não vou contar-vos pormenores. Talvez os conte um outro dia. Hoje dir-vos-ei que, por mail, recebi indicações de como chegar ao esconderijo onde tinha sido deixado. 

Gostava de saber dizer-vos da emoção, da surpresa. Enquanto lia o mail ia ficando mais admirada e encantada. Estava ao telefone com a minha filha e contei-lhe logo. Depois, quando falei com o meu filho, também lhe contei. Ficaram os dois enternecidos com a ideia.

Fiquei ansiosa por ir buscá-lo. Apenas contava ir para aqueles lados no fim de semana mas pensei logo que não ia descansar enquanto não fosse lá, tinha medo que alguém o descobrisse, ou que chovesse e se estragasse. Mas durante a semana só de noite e chegar lá, ao esconderijo, de noite, não se recomenda. 

Mas tinha que ser. Lá fomos, pois, os dois, eu e o meu marido, um destes dias.

Era de noite, estava frio, as ondas batiam na amurada, chovia ao de leve. E eu fui resgatar o meu presente.

E às escuras, com a luz do telemóvel a tentar ajudar e sem se conseguir ver nada e depois com a mão a tentar tactear o volume que tinha sido descrito, lá o senti. Intacto. Quietinho à minha espera.

Não sei se conseguem perceber a alegria de receber um presente assim. E o que isso significa, a generosidade de quem ali se deslocou propositadamente para me deixar um presente.

Já o tenho aqui comigo. Um objecto precioso. Um livro de poemas, edição de autor. 


O primeiro presente que recebi nesta época natalícia
e o primeiro presente alguma vez dirigido à UJM, essa outra que sou eu

O DECANTAR DAS SOMBRAS



Rumores de vento
trazidos
nas palavras
que pousas
lentamente
no papel em branco

Versos
feitos de sombras
que colhes ao entardecer

Rasto de um rosto
quando
de ti mesma
te escondes


Estender o braço
por cima do espaço aberto
na minha frente
e tocar
em tudo o que imagino
para além de todos os horizontes

Inclinar o dia
e decantar as sombras
para que o dia me fique azul
e do vento norte
nada mais me reste.
Sem sombras
o riso poderá abrir-se





Uma gata no Ginjal
(oculta, atenta, presente, transparente)

Pouco mais do que silêncio
palavras   sombras do vento

[Gundula Steglitz]



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Muito obrigada Joaquim. Gostei... e muito!

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O poema lá em cima é Ariane de Miguel Torga dito por Inês Veiga Macedo.


A música é Spiegel im Spiegel de Arvo Pärt interpretada por Filipe Melo e Ana Cláudia.


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Há poesia dita também no Ginjal. Hoje é Jorge de Sena e Catarina Guerreiro e une toute petite lumière, just a little light, una piccola...

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira. 

sábado, setembro 07, 2013

Enquanto os meus amores dormem, eu rendo-me ao prazer das palavras inteligentes e luminosas e festejo, como uma menina radiante, os presentes que os meus amigos deixam aqui à minha porta. Momentos bons. __________ [Ontem o Um Jeito Manso recebeu de visita uma capicua - atenção: eu disse capicua, não catatua. Quero eu dizer: tive ontem 1.111 visitas. São sempre muito bem vindos, venham em capicuas ou com catatuas ao ombro. Muito obrigada por tudo!]


Depois de uma noite de quatro horas, de um dia dos danados, uns seiscentos quilómetros de autoestrada, muito falatório em inglês (coisa que, parecendo que não, cansa um bocado mais do que na língua nativa), depois da agitação de tipo hora de ponta a fazer jantar com toda a gente já a querer comer, e depois, à mesa, um a fazer gracinhas como querer atirar a papa pelos ares e outra a querer ir tirar um e outro cafézinho, e depois de muita brincadeira, desenhos, saltos na cama e, para rematar, a história da cinderela, eis que dormem os dois.

Mais doces, mais fofos, uns texuguinhos mais lindos. 




Amanhã juntar-se-ão os primos e a festa será ainda mais animada. Por isso, enquanto a coisa está calma, deixem-me descansar. Peace and love. And quiet night, please.


O mio bambino caro, Puccini pelas Meninas Cantoras de Petrópolis




Entre muitos milhares de sítios e muitos milhares de pessoas, coloca-me a sorte junto à fazedora de poemas que, por vezes, aqui vem deixar a luz das suas palavras. Da primeira vez soubemo-lo depois, porque aqui mostrei as fotografias onde tínhamos estado as duas a escassos metros uma da outra. Da segunda vez, porque conheço o filho (quem o não conhece?) imaginei que seria ela mas não tive a certeza nem vi como me aproximar não tendo a certeza. Ela não me viu nem me conhece. Mas sabe, a posteriori, que eu ando ali por perto, sem que ela me pressinta.

Há coisas que não se explicam.

Em dia de histórias, conto eu, pois, este conto. Era uma vez uma mulher especial com dois filhos especiais que já lhe deram três princesas muito lindas. Nuns dias ela embala as princesas, veste-as de folhos e cores, noutros deixa que os sonhos voem feitos palavras. Tenho a sorte de, por vezes, essas palavras virem aqui pousar. Esta noite tinha estas no parapeito da minha janela:

              Não analises um poema
              deixa que seja ele a explicar-te o som a cor o tamanho das coisas                                  mais banais
              deixa que ele se ilumine
              te ilumine
              e pouco mais...
              despi-lo é violá-lo
              e se o amas apenas tens de senti-lo
              e tão só
              amá-lo


Mas eis que o Poeta-Filósofo me desarma. E eu rendo-me. Touchée.

Diz ele:



Ocorreu-me agora uma coisa sobre a análise poética. 

Há um prazer específico que lhe está associado. 

Esse prazer tem uma natureza infantil e é idêntico ao da criança que, depois de brincar com um certo brinquedo e porque gosta dele, o vai desmontar para ver como funciona. 

Esse desmontar nasce de um acto de amor. O que se pode concluir daqui? Que a análise é um acto infantil. 


Talvez, mas há uma outra possibilidade: pode-se concluir que o amor é uma coisa perigosa. 

Por exemplo, só analiso poemas de que gosto. 

Relativamente à criança o analista tem uma vantagem. O brinquedo desmontado raramente volta ao que era. O poema permanece na sua inteireza. 

Há ainda uma outra coisa, e essa é perversa. Há duas formas de pureza, a da razão e a do coração. 

A filosofia estriba-se na pureza da razão, a sua leitura da poesia, na pureza do coração. 

A análise provoca a contaminação e utiliza a razão para alcançar um excesso de gozo, para um prazer que ultrapassa o prazer inicial.



Com esta argumentação, já percebo melhor a motivação de quem abre um poema para o ver por dentro. 

E que palavras maravilhosas.

Já o jrd tinha concluído e, como sempre, directo e certeiro:

Jorge C. Maia para além de ser um filósofo é também um grande poeta, por quem tenho uma enorme admiração, mesmo quando dele discordo.


Um dia comentei no Kyrie Eleison que "a poesia é uma arma carregada de futuro" (Gabriel Celaya) e ele não concordou. Que fazer, pergunto eu, se os Poetas sabem sentir muito mais do que nós?


Pois é, jrd.

É claro que um engenheiro (engenheiro que é engenheiro é engenheiro toda a vida) fala outra linguagem (mesmo quando também é poeta). E diz: Quando eu era engenheiro de telecomunicações aprendi que para comunicar é necessário um emissor, um canal de comunicação e um receptor e claro, uma linguagem percetível a ambos e capaz de ser transmitida. A arte para mim é essencialmente uma forma de comunicação de emoções, de sensações, de “estados de alma” ( que infeliz esta expressão!!!). Se o emissor não faz a mínima ideia de que está ou o que pretende comunicar e se o canal de comunicação, o texto ,a escultura ,a foto, a pintura não funciona, o pobre do receptor só por acaso poderá receber alguma coisa. E se recebe não é obra do “artista” mas sim do Senhor Acaso.

Quer que eu o rebata, Senhor Engenheiro? Lamento. Não o faço. Concordo.

Paula Rego
(Feias? Macacadas? .... Não acho.
São mulheres normais, apenas isso)

Mas antes já me tinha dado motivos para o fazer. Disse: 

Porque me irritam solenemente o Pedro Cabrita Reis ( com uma sala dedicada na Tate Modern) ou o Julião Sarmento (o artista plástico que mais vende no estrangeiro) ou até a Paula Rego (com personagens sempre horrendamente feias, prefiro de longe as macacadas que fazia anteriormente), a Gabriela Llansol (com tracinhos originais em vez de palavras), o Gonçalo M Tavares (totalmente incompreensível) ou o António Lobo Antunes actual ( um híper chato labiríntico)





E aqui tenho pontos para discordar. Rebato quanto a Paula Rego, uma pintora 'maluca' cá muito da minha estimação, ou a Maria Gabriela Llansol com palavras fantásticas por entre os tracinhos. Quanto aos outros também não rebato, com excepção para as Crónicas de Lobo Antunes.


E depois chega uma pessoa muito querida, tratadora de mantos de anjo, que, por pura generosidade, uma generosidade que agradeço, perde toda a isenção e diz uma enormidade destas:  Parabéns pela escritora, pintora, criadora, etc., que é. 

Aqui é que eu tenho que rebater à séria: pela imensa admiração que sinto por escritores, pintores, criadores artísticos em geral, tenho que dizer com toda a sinceridade: gostava muito de ser isso tudo - mas não sou. Sou uma aventureira, uma descarada, uma inconsciente, sou muitas coisas deste género mas escritora ou pintora, lamento muito, mas não sou. 

Sou uma menina deslumbrada pela arte e pela inteligência dos outros, pela natureza, pela beleza, pelo cheirinho bom dos meus amores pequeninos, pela vida, pelo que conheço e pelo que sei que um dia hei-de ainda conhecer e também pelo que sei que jamais chegarei a conhecer. 

Recebo dos meus amigos presentes valiosos, sorrisos, palavras que me tocam e maravilhas como os vídeos que me foram enviados. Escolho um deles, aquele que representa uma menina como eu.




"Argine" - Wonderful animation


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A fadinha voadora e a bailarina suspensa, penso que já anteriormente aqui mostradas, e que agora se encostaram às palavras do JCM, são pequenos seres que se movem quando a janela deixa entrar a aragem e que, deste modo, espalham graça sobre mim enquanto aqui escrevo. 

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E, por agora, nada mais. Vou descansar porque estou mais para lá do que para cá. 

(সেম কুএরের কার্রেগুই নুমা তেচ্লা আলী এম সিমা এ অ কইসা ইস্টá অ সির আসিম। ক কইসা দ কারাçএস সেরá এস্টা? লেইও আলী ন বতãও ক é অ ত্রান্স্লিতেরাçãও দে পালাভ্রাস এস্ক্রিতাস ফনেতিকামেন্তে এম ইংলêস. দেভে সের দা হরা মাস নãও পের্সেব বেম ক রিও দে কইসা é এস্টা).

Adiante.

Tenham, meus Caros Leitores, um sábado muito bom.