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segunda-feira, fevereiro 20, 2023

Um domingo in heaven.
E conhecemos pelo menos um dos novos vizinhos. Se calhar, dois...



Fomos passar o dia ao campo, coisa breve. Com tanto pinheiro não queremos arriscar outro acidente com as infernais lagartas. Tinha visto que o cozido era prato de dia e resolvemos ir comprá-lo ao restaurante onde às vezes nos abastecemos. O restaurante a abarrotar, gente cá fora, gente lá dentro. Deve haver muita gente a sofrer com a subida do custo de vida e dos juros nos empréstimos mas a verdade é que o trânsito anda que não se aguenta, os restaurantes deitam por fora, as lojas a bombar. E se uma criança faz anos há toda a espécie de cenas com os parques temáticos cheios, apesar do que custam. Não sei. À vista a desarmada diria que a economia está a bombar que é um regalo.

Primeiro que conseguisse chegar ao balcão para fazer o pedido, quase tive que esbracejar tão compacta a amálgama de gente em que tive que penetrar. Quando estava à espera, uma chamada do meu marido: que trouxesse também pão. Perguntei ao senhor que fez um ar desolado. Pode comprar-se tudo menos pão, não há pão para take away. Percebe-se. Mas também devo ter feito um ar tão desanimado que, passado um bocado, quase à socapa, o senhor veio com um pacotinho de papel. 'Foi o que consegui arranjar'. Ao pegar, percebi que era um carcaça. Passado um bocado, o saco com as duas caixas. Estava com vontade de pedir uma sobremesa mas no meio de um incrível reboliço, o senhor, na maior das eficiências, tirou o talão e não estava lá o pãozinho. Disse-lhe e ele encolheu os ombros: 'Deixe lá isso'. Agradeci. E não quis passar pela mesma vergonha de parecer que estava a mendigar uma sobremesa.

Uma dose chegou para os dois e ainda sobrou um bocadinho. Portanto ainda tenho mais um refeição e um pouco de outra no frigorífico.

Para sobremesa apanhei uma laranja.

Quando chegámos, depois de abrirmos as janelas e pormos a casa a arejar, fomos passear por lá. Eu fotografando, aspirando os perfumes de uma primavera que começa a avizinhar-se, o cão brincando (embora pela trela), o meu marido inspeccionando potenciais processionárias.

Estando lá em baixo, reparámos que o novo vizinho cuja propriedade tem, em parte, um dos lados adjacente a uma parte do nosso, uma parte separada por uma vedação de rede, estava a serrar uns troncos. Contudo, ao ver-nos, veio na nossa direcção. Mas veio ele e os três cães gigantes. O nosso, como é óbvio, ficou num desatino, ladrava e saltava como se estivesse possuído. Ou seja, mal nos ouvíamos. Ele chegou-se à rede do lado dele e eu aproximei-me do nosso lado, enquanto o meu marido tentava controlar o urso frenético.

Resumindo: o senhor, de tshirt (enquanto nós estávamos encasacados), apresentou-se, colocou-se ao dispor. Nós também. Trocámos contactos. Depois enviou um mensagem muito amável.

Quando cheguei a casa googlei. E fiquei a saber que é pessoa com uma considerável pegada digital, com um historial de vida que tem que se lhe diga. No carro, de volta, vim a ver uma entrevista sua e vi também a sua biografia na wikipedia. Uma personagem. Comentámos: 'olha, pelo menos, acho que estaremos bem guardados'.

Depois do casal anónimo e ultra discreto, temos agora um vizinho que é o oposto.

Quando ao fim da tarde vínhamos a sair de casa, no carro, cruzámo-nos com um jovem, muito alto, magro, muito louro. Vinha a praticar corrida, com o seu cão ao lado. Nunca o tínhamos visto. Lembrei-me que há uns meses recebemos um contacto no sentido de sabermos se estávamos interessados em adquirir um terreno que, numa parte, também é adjacente ao nosso. Parece que nos terrenos rústicos, antes de se vender um terreno, devem questionar-se os vizinhos pois, a quererem, terão primazia. Em tempos, de facto, tínhamos pensado nisso mas entretanto percebemos que ter um terreno rústico bem cuidado dá trabalho e custa dinheiro. Informaram-nos então que, nesse caso, o terreno seria vendido a um jovem, salvo erro finlandês, que dizia ir dedicar-se a agricultura biológica. Não sei se será aquele rapaz mas talvez seja.

E assim a envolvente vai evoluindo, vizinhos novos com hábitos também certamente novos. 

Mas, dentro do nosso espaço, a paz é a mesma. Há outra vez muitas pinhas roídas e isso vê-se onde antes não se via. Ou seja, já andam em vários locais. Estão, pois, a aventurar-se. Não tarda teremos esquilos por todo o lado. Adoro a ideia.

Voltaram também a ver-se aquelas pegadas grandes e fundas e o terreno lavrado. Voz entendida, há algum tempo, disse que era javali. As pegadas apareciam sempre no mesmo sítio. Qualquer coisa os bichos procuram ali. Penso sempre: se calhar, trufas. Mas agora apareceram também num outro sítio. 

E vi rolas, várias. Não é inédito. Mas desta vez eram mais, muitas.

Penso sempre em como será quando lá não estamos. Deve ser um paraíso absoluto para a bicharada. Tenho muita vontade de que passe a época das bandidas das lagartas para podermos passar lá mais tempo. Agora já podemos.

De volta, um dissabor: a casa dos gelados continua fechada. Nunca mais abre. Como é possível? A falta que um gelado me faz nestas noites de inverno.

Tirando isso, está tudo bem.

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Alegria, Paz.

domingo, maio 02, 2021

Crónica de um dia

 


Comecei o dia com esforços. Fui lá abaixo apanhar pedras para pôr em volta dos canteiros onde plantei as suculentas. Carregar pedras caminho acima, ainda que num carrinho, é puxado. Andei ainda a transportar coisas de casa para o estúdio pois, se vamos para pinturas gerais, é preciso retirar montes de tralha. O meu marido carregou coisas ainda mais pesadas. Sempre que se cruzou comigo e me viu em trabalhos esforçados, avisou-me que depois não me queixe se ficar dorida.

Claro que este é o género de coisas que me entusiasma. A ele irrita. Mas irrita mais ou menos pois a perspectiva de melhorar as coisas acaba por também o interessar só que prefere não o mostrar pois isso retirar-lhe-ia pretexto para se queixar de que não o deixo ter descanso. 

À medida que vou entrando no espírito da mudança, mais coisas me apetece mudar. Tivesse eu tempo, até a pintar móveis eu me punha.

Depois regressámos. Tínhamos um compromisso. 

Embora não ficasse em caminho, deu-me um daqueles súbitos desejos de gelados. Portanto, já em Lisboa, lá consegui que fizesse o desvio até à Avenida de Roma, onde há os melhores gelados. Quando estávamos a aproximar-nos eis que estranhámos tanta polícia. Não percebi. Mas ele sim: conseguiste que viéssemos meter-nos no meio da manif. Temi o pior. Mas, felizmente, não foi grave: a manif ia num sentido, nós no outro. E muita gente, devo dizer. Toda a gente de máscara -- pelo menos foi o que me pareceu. O pior foi que a gelataria estava fechada. Fiquei desolada, aguada. Mas a que propósito está fechada?!, espantei-me. Ao fim de tantos meses, que suprema desilusão. O meu marido disse: 'É Dia do Trabalhador'. Pois. 

É sempre este azar dos Távoras quando o 1º do Maio calha ao fim de semana. Para mim, é sábado mas, de facto, é 1º de Maio e há que respeitá-lo. Mas, bolas, a falta que aquele belo gelado me fez. Já estava a imaginar a desforra, duas ou três bolas, cada uma maior e mais boazona que as outras. Mas não perde por esperar: guardado está o bocado para quem o haverá de comer. Essa é que é essa.

Já cá em casa, estivemos a arrumar os sacos com coisas que trouxemos de lá. Por exemplo, ainda lá estavam os sacos com as coisas que trouxe da empresa da qual saí o ano passado. Como, ao mesmo tempo, mudei de carro, quer a tralha que estava no outro quer os sacos que trouxe do outro gabinete ainda lá estavam. Apareceram coisas curiosas. De tudo um pouco: um perfume de bolsa, lipsticks, uma caneta de brilhantes, uma carta muito, muito, simpática de uma pessoa que não vejo há uns vinte anos, bloquinhos de toda a espécie e feitio, alguns livros, creme de mãos.

Depois recebemos a visita do simpático casal que nos está a ajudar a pôr em desenho algumas ideias aqui para o jardim. 

Quando se concretizar, conto. Pode até acontecer que mostre. Mas só então. Não gosto de falar do que ainda não é. 

Trouxeram desenhos e explicaram-nos a ideia. Gostámos muito. Há ali alguns aspectos um pouco arrojados que me deixam um pouco balançada. O meu marido, contudo, aderiu logo à ideia. Não sei. Mixed feelings. A ver o que os meus filhos dizem. Talvez se encontre uma solução de compromisso.

Depois, o meu marido esteve a montar um novo aparelho: um cortador de relva. Desgostei-me dos jardineiros: não eram jardineiros, eram meros executantes de duas tarefas: soprar as folhas e aspirá-las e aparar a relva. Uma despesa grande para não fazerem qualquer jardinagem. Mandei-os embora. O meu marido discordou, claro. Também achava uma roubalheira o que se pagava por tão pouco serviço mas dizia que não contasse com ele, pelo que alguém teria que fazer isso. Ainda não sei onde vou desencantar alguém que faça jardinagem com cuidado e desvelo. Mas, se é só para limpar o chão, eu varro. Gosto de varrer. E a verdade é que acho que vamos dar conta da relva. Penso que também vou gostar de andar com o carrinho de cortar a relva. Hoje, andámos os dois, eu ao pé dele, na parte da frente da casa. Quando o cesto ficava cheio de relva cortado eu ia despejá-lo. Estava um cheiro maravilhoso a relva cortada. Andámos até já ter começado a anoitecer. Um prazer.

Para o jantar, mandámos vir uma pizza daquelas boas, em forno de lenha. Soube bem. Estávamos os dois cansados. Impossível ainda ir pôr-me a fazer o jantar. 

Agora à noite, estive a tentar perceber como planificar um roupeiro no ikea mas está a faltar-me qualquer coisa. Desisti. Pode ser que este domingo algum dos jovens me ajude.

E é isto. Não comento nada sobre o que por aí vai pois não sei de nada: não tenho visto notícias ou comentários. Mas, salvo raras excepções, geralmente pouco acontece. Só aquela dor pequena e mansa de cada um, a que não vem nos jornais. 

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As imagens vêm na continuação das de ontem. Imagens de conforto que as pessoas mandam para Cozy Places ao som de Les Indes Galantes de Rameau

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Uma floresta tropical num apartamento nova-iorquino


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Desejo-vos um belo dia do domingo

quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Apesar de tudo

 


Sobre o meu dia o que tenho a dizer é que foi quase como os demais. Só que, nas actuais circunstâncias, qualquer quase faz toda a diferença. Reuniões, telefonemas, caminhada, patati-patata. E, às tantas, sem que nada o fizesse esperar, a ocasião surgiu. Alguém disse: se quiser aparecer... E eu, que tinha traçado o caminho dizendo que haveria uma análise prévia e que, só depois de crivado, é que eu me pronunciaria, tive, de súbito, a vontade de me pôr a caminho.

A legislação prevê que se pode sair quando o trabalho a isso obriga. Tenho, aliás, uma declaração que o considera. Portanto, a bem da nação, resolvi ir.

Dei uma quick vista de olhos ao processo e, acto contínuo, passei à fase seguinte: o que vestir. Olhei para os jeans e pensei que não. Olhei para as outras calças tipo jeans e depois pensei que também não. Mas já nada me parecia prático e, estranhamente, parece que já não faz sentido vestir sem ser na base do casual e do prático. Pus-me a olhar para o suporte das calças. Optei por umas simples, pretas. Depois a blusa. Estando mau tempo, uma camisa ou blusinha das que gosto, fininhas, pareceu-me nonsense, tanto mais que iríamos estar a maior parte do tempo ao ar livre. Optei pela que a minha filha me deu pelo Natal. 

Depois os sapatos. Pretos, de salto alto, claro -- mas todos os que cá tenho são altos de mais. Já não me parece lógico. Pensei: os skechers, também presente de natal. Mas recuei. Não, não encaixa na minha imagem de marca a nível profissional. Pensei: os pretos de camurça e meio salto. Procurei-os. Nada. Lembrei-me então que estão no campo, do anterior confinamento; estavam lá para um just in case. Fiquei sem saber como descalçar a situação. Pensei, então, que os sapatos de pele castanhos, com meio salto, são confortáveis... só que, com aquela roupa, só se levasse outra peça que fizesse um mínimo de pendant. Lembrei-me: o blusão de pele castanha. Prático demais...? Sim, mas foi o compromisso possível. No meio da confusão, reparei que ainda estava com os meus soquetes de trazer por casa, hoje, por acaso, uns cinzentos com corações cor-de-rosa e cós em fio prateado. De repente, fiquei sem me lembrar onde tinha as meiinhas transparentes para calçar com sapato alto. Fiquei no quarto a hesitar. Lá me lembrei. 

Depois, ajeitar o cabelo. Prendo? Não prendo? Ao espelho, a ensaiar. Apanhei, desapanhei. E ia passar um brilho nos lábios quando me lembrei que não valia a pena. Depois o perfume. Ah, tão bom, o prazer de me pôr em frente da prateleira dos perfumes a escolher o que tem a ver. Bzzz, bzzzz, um esguichinho aqui, outro ali, bzzz, um suspirinho perfumado, fresquinho, floral, cheirosinho.

E preparei-me para sair, já estava em cima da hora. Só, então, me lembrei da máscara -- voltei atrás. Depois a carteira: qual? A usual? A nova, também presente? Não, já não dava tempo para mudar as coisas. 

Ia a sair... bolas. Outra vez a ter que voltar atrás. Tinha-me esquecido da chave do carro. 

Uma falta de automatismo. Todos os gestos que antes seguiam espontaneamente uma rotina que se repetia dia após dia, mês após mês, ano após ano, agora não acontecem de per se. Após a interrupção que começou em Março e, salvo raras excepções, dura até hoje, com o teletrabalho, tudo mudou. Nas vezes anteriores, sei com antecedência que vou ter reuniões presenciais e, portanto, mentalmente equaciono as toilettes e preparo tudo atempadamente, quase simulando os anteriores rituais. Hoje, como foi tudo de repente, parecia que estava perra. Hesitante demais. Claro que tudo se passou dentro da minha cabeça e durante pouco tempo mas eu que assisti a tudo senti que já não parecia eu, eu antes tão despachada.

Soube-me bem conduzir. 

Acontece que fui a um lugar onde nunca antes tinha ido. Claro que recorri ao GPS mas neste carro ainda não atinei bem com o gps. Aliás, desde que o tenho, pouco o tenho usado. Ainda não descobri como pôr o número da porta. Como aquilo era numa enorme e muito movimentada avenida, vi-me aflita. Passei o lugar, saí da avenida, meti-me numa rua de sentido único, não atinava com o sítio para poder voltar para trás nem havia sítio para encostar o carro. No gps do carro via que estava a afastar-me. Finalmente consegui encostar e recorrer ao maps do google do telemóvel. Lá consegui dar com aquilo. Já estavam à minha espera, claro. 

Mas, apesar de tudo, gostei. Saí. É bom sair.

Todos de máscara. Aqueles cumprimentos normais de quando nos apresentam desconhecidos agora ficam estranhos: nem aperto de mão nem a cara à vista. Tudo bizarro. Mas foi bom estar com pessoas, foi bom conduzir.

Ao sair de casa, recebi mil instruções: não te aproximes, evita espaços fechados, tem cuidado, desinfecta as mãos, não confio nada em ti, esqueces-te, distrais-te. Quando cheguei logo o controlo: tiveste cuidado? desinfectaste as mãos? desinfectaste o telemóvel?

A vida anda estranha. Não gosto de ter medo, não gosto de ter cuidado. 

Gostava tanto de conduzir a ouvir música. Hoje nem isso: para ouvir as instruções do gps, nem música ouvi. 

Em que mês é que os jacarandás estão em flor? Gostava tanto de andar de carro, janelas abertas, a ouvir música, talvez jazz se fosse ao cair do dia. Não havia máscaras, cuidados. Não havia medo, rotinas negativas. 

Mas, enfim, não me posso queixar. A vida há-de voltar a entrar nos eixos mesmo que os eixos sejam outros.

E os dias estão maiores. Hoje às seis e picos da tarde, já em casa, ainda havia vestígios de dia. Mudei de sapatos, fui apanhar uma laranja, fui olhar o céu e as árvores. As luzes do muro já se tinham acendido, as luzes da casa dos vizinhos todas acesas, como é costume, as luzes da vizinha do outro lado acesas no alpendre e uma luz suave lá dentro. A laranja estava fresca e doce. Senti o meu perfume. Apanhei umas quantas camélias caídas. Regressei a casa. Liguei à minha filha, liguei à minha mãe. Liguei ao meu filho. Ia correr com o filho. Àquela hora, já de noite, com o frio que estava. Fazem bem. No outro dia mandou uma fotografia: os dois rapazes depois de terem corrido três quilómetros e meio, o menino todo orgulhoso. 

O jasmim está uma nuvem rosada, cujos botões se metamorfoseiam em delicadas florzinhas brancas. E as magnólias estão a começar a despontar. Emociono-me ao ver os seus botões, ousados, afoitando-se ao mundo, indiferentes às pandemias, aos confinamentos. Não vejo a hora de as ver, certamente umas flores escandalosas de tão belas. 

Malgré tout, este é um mundo com o seu quê de maravilhoso. Acho eu...

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Para a despedida, umas imagens muito bonitas

Missed Nuance - a ballet art film


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Fotografias feitas cá em casa

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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, outubro 21, 2019

Uma cúpula celeste virada para vir beijar este meu pedaço de terra, aqui in heaven





Estava dincerto, o céu ora claro, ora escuro, de vez em quanto gotas pesadas, aragem sempre fresca. Andei a esquivar-me para não me molhar muito, a olhar o céu, a distinguir os verdes, a ouvir os pássaros, a espreitar as novidades -- as tocas, as florzinhas despontando, os ramos que precisam de ser cortados.

Quando vi o céu por entre as copas dos cedros pensei que era a abóbada celeste virada ao contrário porque o heaven desceu a este meu bocado de terra. A cúpula celeste de uma catedral feita de árvores perfumadas. Pensei: esta é a minha igreja, esta é a minha religião.

É que aqui eu sinto este sentimento indefinido que poderia ser pura religiosidade mas que pode ter qualquer outro nome e que se traduz na adoração da natureza, em devoção, em agradecimento pela felicidade que sinto e que sei que vem de dentro da terra. É como se me sentisse tocada pela bênção de estar aqui, de presenciar estas pequenas coisas que me encantam, pequenos milagres. 

Não. Não pequenos. Grandes. Verdadeiros milagres.

E depois é o céu que se transmuta. As cores já são outras, a serra escura, recortada, um corpo imenso, um deus que se aquieta para ditar o silêncio, para garantir que os pássaros que se calam. E nem, de longe, chega o som de um cão que ladre lá do lado da serra nem um sino de uma qualquer de uma das aldeias do longo vale. 

Tudo tão bonito, tão tranquilo, um enlevo para a alma.


segunda-feira, agosto 19, 2019

Sobre mamas ao léu na blogosfera, sobre leituras com voz sumida, sobre mulheres que se objectificam.
E, por favor, ponham aspas no que leram.
E sobre a castração absurda que o politicamente correcto tenta impor a quem é saudavelmente livre.


© Erin M. Riley and P.P.W. , New York


Nas minhas deambulações blogosféricas de vez em quando acontecem-me surpresas.

E, note-se, nisto como em regra, distingo a 'obra' do seu autor. O facto de achar piada a um blog não quer dizer que me identifique com o seu autor (ou autora, bem entendido) em tudo o que faz ou diz.

Gosto sobretudo do que me parece novo. Não me atraem os reciclados especialmente quando não trazem nada de novo ou não são elegantes, inteligentes ou esteticamente suportáveis.

Entendo um blog como um espaço de liberdade em que o seu autor deve poder fazer o que lhe dá na bolha. E quem não gostar, em vez de lá ir despejar fel, tem melhor opção: virar-lhe as costas. Ao fim de algum tempo nisto da blogosfera, continuo sem perceber as pessoas que andam pelas caixas de comentários dos blogs a espalhar ressabiamentos, visões acanhadas, insinuações descabidas e, mesmo, maldade. Já recebi visitas e comentários de gente assim e, muito sinceramente, não percebo o que as move. Uma vez li um artigo, que continha um vídeo igualmente interessante, sobre este tipo de pessoas: são geralmente pessoas solitárias, doentiamente frustadas.

de Harley Weir

Pela parte que me toca, quando percebo que está ali alguém que é geneticamente um (ou uma) hater, desisto de querer percebê-lo/a e, quando acho que o fel é incomodativo de mais, não o quero a conspurcar este espaço que é meu.

Mas, voltando a blogs que, sempre que posso, gosto de visitar posso dizer que talvez tenham em comum a genuinidade, a forma franca e, por vezes, espontânea como usam o seu espaço. Podem ser fotografias, músicas, desabafos, confissões, furtivas lágrimas, impropérios, recomendação de trabalhos alheios, declarações apaixonadas, umas vezes de guerra, outras de amor. Mas usam, muitas vezes, formas invulgares, sobressaltos ditos com irreverência, provocações, e, em geral, são esteticamente impactantes, mesmo que, em alguns casos, sóbrios e minimalistas.

 Marta Bevacqua

O Imprecisões da Alexandra G é um desses casos. Mesmo quando à sua autora lhe chega a mostarda ao nariz e deixa que se soltem raios e coriscos, disparando um linguajar vernacular e sem rebuço, eu acho piada. É genuína. Pode ser destravada mas até a isso acho graça. Não é politicamente correcta mas quem é que tem paciência para os apertadinhos/as que, nos blogs, não partem prato que se veja nem despertam um ah de surpresa?

Um dia destes, a Alexandra, numa fotografia esteticamente interessante, mostrou uma mama -- que, por sinal, parece bonita -- e desafiou os restantes hóspedes a mostrarem também algo de seu. E, do que vi, muitos (ou todos?) corresponderam. Gostei especialmente da série do Luís que não apenas tem uma mão muito bonita como soube fotografá-la de uma forma quase emocionante. Não coloco o link para os posts que refiro pois acho que apenas percorrendo-os a todos se consegue captar a vitalidade daquele blog.

© Foto © Alexandra Von Fuerst/Odiseo, gennaio 2017.

Hoje fui surpreendida de novo ao ler um post em que a brava hospedeira soltava os cachorros para cima de alguém que, supostamente, a tinha incomodado. Fiquei intrigada, Não sabia quem teria sido até ver depois a troca de comentários. Uma pessoa, pelos vistos sua leitora habitual, maçava-a sobre o seu tom de voz, tom esse que acho bonito, a um tempo com um certo toque de inocência e outro de sensualidade. Mas, mesmo que não gostasse, que sentido teria ir maçar a pessoa que, em sua casa, generosamente lê uma coisa para partilhar? Não consigo perceber.

E, percorrendo os comentários, vi que uma outra pessoa quase a insultava, achando que uma mulher fotografar um seio é fazer de si um objecto. Fiquei perplexa. Perplexa e incomodada pois custa a perceber este tipo de pensamento não apenas em tempos como os nossos como desde o início dos tempos. Fico a pensar no que levará alguém a tal distorção no pensamento e não chego a nenhuma conclusão. Parece-me tão estranho.

© “Hermaphrodite”, di Alexey Sovertkov (@le_heretic)

Obviamente a Alexandra G. não precisa do meu apoio para nada pelo que me limito a deixar aqui o meu chega para lá a todos quantos andam de blog em blog a verem com quem podem embirrar, que verrina podem destilar em casa alheia. E um conselho a essas almas penadas: entretenham-se, antes, a ver-se ao espelho e a criticar o que eles vos devolve.

Era bom que toda a gente percebesse que a vida pode ser bem melhor se cada um respeitar a liberdade e os gostos dos outros, especialmente quando não ferem nem a integridade física nem a emocional nem a inteligência dos outros.

De qualquer maneira: força, Alexandra G.

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E, por ora, é isto que se me apraz dizer. Espero que gostem da selecção de imagens (todas provenientes da Vogue Italiana) e, também, de Les Indes Galantes de Jean Philippe Rameau sob condução de Christophe Rousset. Viva a vida em toda a sua maravilhosa diversidade e em toda a sua tocante nudez.


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Seguem-se, abaixo, os considerandos do Pardal e uns breves apontamentos sobre o desnorteado PSD e o revivalista BE -- mas, muito francamente, não sei se ainda há pachorra para tal.


segunda-feira, novembro 26, 2018

Diz que tenho que me esforçar mais





Choveu muito. Ainda não se conseguiu fazer uma queimada com os ramos que cortámos no verão. 

O meu marido, que é madrugador, diz que de manhã cedo não choveu muito. Sai pelo campo ainda deve ser quase de madrugada. Não sei o que faz. Só sei o que ele me conta quando volta a casa. Contou que andou com a roçadora a dar conta do tojo e das silvas. Na brincadeira, em vez de silvas, diz sílvias. Diz: andei a dar cabo das sílvias. Um dia que queira dizer bem já nem se lembra como é. 

Quando me levantei, chovia muito e depois foi em crescendo, o céu tombando em negrume, a chuva desabando com força.


Recebemos o pedido de uma pernada de pinheiro para fazer de pinheirinho. Pode parecer fácil mas não é. Os ramos curvam-se. Ou só têm ramagem de um dos lados. E chovia muito. Andámos à procura de um que pudesse ficar mais ou menos direito e que tivesse a ramagem distribuída de forma mais ou menos equilibrada. Não nos púnhamos de acordo. Mas pusemo-nos. Cortou três pernadas e limpou-as na parte de baixo. Para a semana trazemos para a minha filha. Hoje veio a do meu filho. Trouxe também uma estaca para que o tronco não se encurve.


Também trouxémos também musgo. Penso que nunca fizeram presépio. Nem as crianças devem saber o que isso é. Mas mesmo que não tenham uma Nossa Senhora ou um São José, bebés é o que não falta, nem que seja um Pin y Pon. É que, vendo bem, podem lá pôr quaisquer bonequinhos que ficará bonito na mesma. O importante é a graça de construirem todos, em conjunto, uma coisa, seja essa coisa um presépio, uma quinta, um campo de LOLs ou de jogadores da bola. O simbolismo das coisas somos nós que o fazemos e eu, nisso, sou muito versátil.

O meu filho pediu para eu tentar que a nossa bonequinha mais linda fizesse uma composição com muitas linhas pois no último teste só fez com quatro e era para ser com vinte e, teimosa como é, recusa-se a praticar. No sms o meu filho acrescentou: desde que não encostes o teu cabelo ao dela. Só não dei um salto porque estava amarrada ao banco com o cinto de salvação. Piolhos? Pois sim, respondeu ele.

Estava com o cabelo molhado, já lhe tinham posto o produto. Tinham recebido aviso da escola e estranharam que se coçasse tanto. Tinha mesmo.

Até tremo. Mas, como já estava desparasitada, espero não ter sido contagiada. Só de pensar nisso já fico com comichão.

Fomos para o escritório, para ela fazer uma composição. Dei-lhe um tema bom mas ela disse que primeiro ia fazer uma ficha para mim. Ao princípio não percebi. Depois vi que estava a preparar-me uma ficha para eu fazer: um sítio para escrever o meu nome, a data, um sítio para o encarregado de educação assinar. Eu a dizer para ela se despachar e fazer a composição e ela que primeiro tinha que fazer a ficha para eu fazer. Então escreveu perguntas, que definisse comércio, que dissesse que tipos de comércio existem, fez quadrados com letras para eu completar, mandou-me fazer o desenho de uma sala de aula. E o tempo a passar e ela sem fazer a composição. Fiz aquilo às três pancadas para ver se passávamos à fase seguinte. Não senhora. A seguir foi a vez dela corrigir a ficha. Emendou-me, escreveu as respostas que achava certas, concluíu, por escrito, que para a próxima deveria esforçar-me mais.

Com isto o meu marido já andava a pedir que eu me despachasse, o pequenino já andava a pedir papa e o mano do meio andava a cantar uma cantiga cuja letra era 'eu gostava de ter mais cromos, eu gostava que tivessem trazido cromos...'.

Portanto, não fez a composição. O meu filho gozou, disse que esperava mais de mim, que critico os métodos pedagógicos dele e afinal comigo era aquele insucesso. Reconheço. Um teimoso reconhece e respeita um teimoso ainda maior e acho que aquela menina ali saíu refinada. Nada a fazer. Pegas de caras com ela não resultarão nunca, terá de ser cernelha mas para isso é preciso tempo e eu estava sem muito tempo, ainda muitos afazeres domésticos pela frente.


Mas voltando aos meus passos em terra molhada. Foi pouco o que andei e tive que andar com o chapéu de chuva aberto. A terra ensopada, as árvores escorrendo. Muito bonitos os campos assim. Tudo muito verdinho, tudo muito silencioso, só mesmo o som da chuva e de um ou outro pássaro mais afoito.


Continuam a aparecer novos cogumelos, alguns lindos, parecem nacarados. E tão frágeis. Outros cada vez mais parecidos com folhas de outono. 




A perfeição da natureza emociona-me. Apesar de tudo ser efémero, há um permanente renascer, há uma harmonia e uma beleza que, na sua tocante singeleza, me parece o mais transcendente dos magníficos acasos. Há quem ache que a mão de um qualquer deus está na origem de tudo isto. Eu, ignorante como sou, não sei quem foi, não sei de nada disso. Inclino-me para que não foi ninguém e nessa ausência de responsabilidade parece-me estar a mais divina das inexplicações de toda a maravilha que nos rodeia.

Mas lá está, na volta, para melhor perceber tudo isto, deverei mesmo passar a esforçar-me mais.

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As fotografias foram feitas, este fim de semana, in heaven

Wilhelm Kempff interpreta ao piano Le rappel des oiseaux, de Rameau

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E, por falar em divindades, queiram fazer o favor de descer um pouco mais porque o que ali poderão ver é dessa ordem.

segunda-feira, junho 06, 2016

Chegou uma carta




Gosto muito de escrever. Gosto de escrever a pensar que alguém gosta de me ler. Gostaria de escrever de modo a que cada uma das pessoas que me lê sentisse que era para ela, em particular, que escrevi.

Gostaria que as minhas palavras fossem como uma carta para cada um de vós.

Há muito tempo que não escrevo uma carta à mão para alguém -- ao mesmo tempo que não recebo nenhuma carta pelo carteiro. Por vezes, pelo natal ou pelos meus anos, uma amiga minha manda-me um cartaozinho no qual me pergunta por mim, pelos meus filhos, pelos meus netos, e informa-me sobre o seu filho, sobre ela, a quem sinto cada vez mas sozinha. Fico sempre com pena de as nossas vidas nos terem levado cada uma para seu lado, ela tão frágil desde que perdeu o marido, companheiro e amor da sua vida.

Dantes eu escrevia muitas cartas. Era um prazer. Sentava-me à escrivaninha e escrevia longas cartas. A seguir, ia, à pressa, pô-las no marco de correio já antecipando o prazer de receber a resposta pouco depois.

Agora há os mails. Gosto de receber mails, gosto dos que se parecem com cartas. Não consigo responder a todos nem consigo ser tão extensa como desejaria, mas isso deve-se, sobretudo, a que escrevo aqui. O meu tempo disponível não é muito.

Permitam, pois, que vos escreva. Se fosse por correio, juntaria uma fotografia ou as pétalas de uma flor.


Meu querido Leitor,

Espero que esta carta o/a encontre bem. Não tenho tido muitas notícias suas mas, como se costuma dizer, se não há notícias, isso são boas notícias. 

O verão está à porta e eu, como sabe, gosto de ir para perto da água. Este domingo estive na praia. Não estava muita gente. A água estava muito boa. 

Tinha havido um casamento, havia um toldo e bancos brancos e a areia estava cheia de pétalas. Junto à rebentação, estavam muitas conchas brancas, quase parecia um rasto de espuma para anunciar que por ali tinha passado uma noiva.

Vi também uma mulher que tinha umas ancas muito largas e umas nádegas excessivamente gordas e, imagine, vestia uma tanga de tipo fio dental. Usava um pareo à volta da cintura mas atrás levantou-o para ficar com o rabo ao sol. Ficava muito curioso. Ia andando e era como se tivesse levantado a saia e ficasse com o rabo de fora, um rabo descomunal. Aconteceu uma coisa também curiosa mas essa só a descobri agora. Queria fotografar um casal que, ao longe, brincava na água, aos mergulhos, e eu queria apanhá-los com a paisagem em fundo. Mas veio uma onda e eu desviei a máquina. Agora, ao passar as fotografias para o computador, vi que a fotografia está torta, que desse casal apenas apanhei metade da mulher e que, sem querer, apanhei um homem que estava sozinho na água. Vejo agora que estava nu e com uma erecção. Na fotografia está de perfil. Imagine.

Mas, claro, não mostro essas fotografias aqui. Prefiro mostrar conchinhas ou as flores das dunas, tão bonitas.

De tarde fui comprar uns ténis de rede, frescos. Custa-me sentir calor nos pés enquanto caminho, e não me dá muito jeito andar de sandálias. Fomos também comprar tintas. Escolhi um azul esverdeado e um verde azulado. Vou conjugar as cores para pintar umas paredes lá no campo.

Há bocado fiz sopa e fiz assim: numa panela meia de água e com um pouco de sal, juntei uma beterraba, um bom bocado de abóbora, uma cebola grande, quatro dentes de alho, uma courgette. Noutro tachinho, cozi alho francês cortado fino e feijão verde laminado. Quando estava tudo cozido, juntei azeite na panela e moí bem moído, para ficar bem cremoso. Depois juntei o feijão verde e o alho francês. A sopa ficou cor de vinho e muito saborosa. 

Estive também a ler o livro O copo de cólera e, tal como ontem, gostei muito. De vez em quando aparece uma conjugação de palavras que cintila. E o texto vai decorrendo entre amores e calores, e da escrita transparece a sensualidade de que aquele casal transborda, e a gente a sentir que qualquer coisa ali começa a revelar uma qualquer tensão, nada que se tenha materializado, apenas uma electricidade invisível que parece aproximar-se do casal que faz amor de uma forma tão erotizada. 

Mas estou a falar só de mim e isso não está certo. Deveria falar de si, querido/a Leitor/a, deveria dizer-lhe que gosto que esteja bem. E aproveito para dizer que me intriga não saber há algum tempo do André, que também nunca mais soube da Estrela, que me faz impressão não saber de pessoas de quem a gente se habitua de ouvir as palavras. Em tempos também eu sabia da Leonor, da Margarida, da querida Margarida, do António, e tanto que eu gostava das coisas do António, ou da Maria, sempre tão directa. E de tantas pessoas de quem há tanto tempo não sei se estão bem. Se souber alguma coisa dessas pessoas, diga-me, está bem?

Escolhi para ouvir enquanto lhe escrevo o pianista Alexandros Kapelis a interpretar, de Jean-Philippe Rameau, L'entretien des muses. Espero que goste.

Receba um abraço meu. Um abraço é a casa de que precisamos para guardar o nosso afecto.


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Talvez porque gosto muito de ler cartas, também gosto de as ouvir. Permita-me, pois, que partilhe consigo um vídeo de que muito gosto (e que pertence a uma série relativa, justamente, à leitura de cartas).

Trancrevo a história que prova a importância que, por vezes, a troca de correspondência tem na vida de algumas pessoas.

In September 1943, Chris Barker was serving as a signalman in North Africa when he decided to brighten the long days of war by writing to old friends. One of these was Bessie Moore, a former work colleague. The unexpected warmth of Bessie's reply changed their lives forever. Crossing continents and years, their funny, affectionate and intensely personal letters are a remarkable portrait of a love played out against the backdrop of the Second World War. Above all, their story is a stirring example of the power of letters to transform ordinary lives.
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 Já antes aqui tinha tido Benedict Cumberbatch a ler “My dearest one", uma carta de Chris Barker dirigida a Bessie Moore.

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Hoje tenho Louise Brealey a ler uma carta de amor de Bessie Moore a Chris Barker

"Dearest Chris"


Não é tão bonito?
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As fotografias que usei para ilustrar o texto (excepto, obviamente!, a de Bessie e Chris), foram feitas na Costa de Caparica.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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quarta-feira, maio 11, 2016

A matemática e seus labirintos
(infinitos labirintos, diria eu)


Não sou boa a fugir às tentações. Já aqui confessei, reconfessei e volto a confessar. Hoje foi outro dia. Ainda cá fora: não entro, não entro, não entro.

Depois, já hesitante: só espreitar, que hoje não tenho tempo. Depois, a dois passos de me dispor a ceder: só espreitar por dentro, só, só espreitar, só mesmo folhear.

Depois, já a querer arranjar desculpa, perante a inevitabilidade: oh pá, que coisa, não acredito... Depois, por uma última vez (última até à próxima, claro), já a relevar a insignificância do pecado: olha, que se lixe.

E de lá saí apressadamente. Diria: contente como uma menina que tivesse descoberto o lencinho queimado. Descobri, descobri. Vou a correr para bater na parede. Já bati. Três vezes. É meu! É meu!

O teorema de Descartes no poema de Frederick Soddy

Beijam-se quatro círculos,
quanto menores mais curvados
(...)

(Les Indes Galantes, Danse des sauvages - Rameau)

A música é uma ciência que deve ter determinadas regras. Estas regras devem ser esboçadas a partir de um princípio que terá de ser evidente, e este princípio não pode ser conhecido sem a matemática. Devo confessar que, apesar de toda a experiência que adquiri durante um longo período, foi apenas com a ajuda da matemática que as minhas ideias se ordenaram e a luz sucedeu a uma certa obscuridade de que antes me não apercebia.
[in Traité de l'harmonie réduite à ses principles naturels, Rameau]


Segundo a teoria de Euler-Bernoulli, a forma de uma haste ou vareta elástica flexível, sujeita a uma carga uniformemente distribuída ao longo do seu comprimento, é descrita por uma quártica. Consta que em relação com o projecto da Torre Eiffel foi pela primeria vez reconhecida a relevância prática desta teoria.
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Malthus em 1798 escreveu Essay on Population segundo o modelo euclidiano. Partiu de dois postulados: o homem requer alimento e o nível de sexualidade permanece constante. O desenvolvimento do crescimento populacional e de alimentos assenta em modelos matemáticos.
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O matemático brasileiro Elon Lages Limafaz uma observação muito interessante. Defende que Luís de Camões, no segundo terceto do soneto: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades', introduz o conceito de segunda derivada.

No mencionado terceto, Camões desenvolve a ideia de que tudo é mutável e fugaz,
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades
Continuamente vemos novidades,
Concluindo deste modo o soneto:
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto
Que não muda já como soía.
A mudança da mudança -- já com novas qualidades, diferentes das costumadas -- é a segunda derivada.

Matematicamente, a primeira derivada é a taxa de variação e a segunda derivada a taxa de variação desta taxa de variação.


Fita de Möbius, Coimbra

Nas Poesias de Álvaro de Campos, o heterónimo de Pessoa apresenta o conceito de fractal, como estrutura que se repete em várias escalas:
...E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra,
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
A fractalidade está também presente na seguinte afirmação do poeta:
... conheço-me inteiramente, e, através de conhecer-me
inteiramente, conheço inteiramente a humanidade toda.
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Isto e muito mais, incluindo referências à pintura, à atracção de Jorge Luis Borges pelo infinito e mais, mais, num livro surpreendente: 

A matemática e seus labirintos de Natália Bebiano Providência, uma edição Gradiva.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

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quinta-feira, março 17, 2016

O nome daquele que não tem nome



Como aprender a conhecer o amado?
Jamais o encontrarás no bosque
se não conheceres a árvore
Jamais o encontrarás
se o procuras em abstracções


Essa flauta toca
quer alguém a escute ou não
Quando falamos de amor
é dessa música que falamos
Penetra a espessura
dos corpos
atravessa as paredes
É como se fosse uma teia
com milhões de sóis.

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Fotografia feita no outro dia in heaven agora que a primavera se anuncia com mil flores

Poemas de Kabir no livro cujo título é o deste post em versões de Jorge Sousa Rego

Emmanuel Pahud  toca Jean-Philippe Rameau (Piece de Clavecin en Concert n°5)
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