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quinta-feira, dezembro 02, 2021

Parece que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira




Tenho estado a ver vídeos sobre treino de cães. Depois de convivermos durante quase treze anos com uma boxer obediente, meiga, dócil, agora estranhamos este cachorro que tem nos genes a vida no campo, a condução de rebanhos, a largueza e a posse de espaços. A nossa cãzinha nunca nos rosnou, nunca nos mostrou os dentes ou tentou morder. Esta fera peluda tem tanto de amorosa, brincalhona, e querida como de irrequieta, teimosa e, quando sente o seu espaço ou as suas posses ameaçadas, de agressiva.

Não apenas não estávamos habituados como não nos passava pela cabeça que um cachorro nosso, tratado com todo o mimo, pudesse ser assim. 

Por isso, resolvi instruir-me. Depois de estar há algumas horas a ver vídeos acho que amanhã já saberei lidar melhor com as reacções deste bicho maluco. Não é que sejam frequentes estes comportamentos mas, para nós, são inesperados.

Adiante.

Estivemos no campo. A casa gelada, gelada, um frio húmido e cortante. Muito tempo sozinha e temperaturas baixas à noite dão nisso. As casas são como as pessoas: sem convívio, tornam-se frias.

A terra está a rebentar de cogumelos. Muitos, gordos, uns mais exuberantes, outros disfarçados por entre a folhagem ou sob a caruma. O silêncio é apenas entrecortado pelo canto dos pássaros. A caruma está macia, molhada. De longe a longe vê-se um fio de fumo por entre as brumas da serra. A paz. Se há lugar onde me sinto visceralmente ligada à terra é ali, in heaven. As cores douradas e rubras do outono, os musgos, a natureza a seguir o seu curso em plena liberdade.

Estávamos a caminhar por lá, vi um coelhinho pequenino e fofo, deitado de lado, olhos abertos, morto. Ainda bem que o nosso ursinho peludo não o viu. Fez-me impressão. Tenho ideia que há por aí uma doença que dizima os coelhos. Não sei se terá sido isso ou outra coisa. Sozinha teria muita dificuldade em resolver a situação. Viemos para casa e o meu marido foi sozinho, com uma pá, levantar o frágil corpinho e levá-lo para longe, para onde a nossa fera não o alcançaria. 

Estive a ler mais algumas Crónicas do Zonas de Baixa Pressão António Guerreiro. Gosto muito, é inteligente, acutilante, é como se a sua inteligência fosse uma lâmina afiada que não poupa tolos, parasitas, estúpidos, gente convencida, vulgar. Uma inteligência que é, ao mesmo tempo, um radar que localiza ideias, ensinamentos, excertos, instantes. Lê-lo é um prazer. Tenho vontade de assinalar frases para reler depois ou para as trazer aqui mas são tantas que acabo por achar que não vale a pena, mais vale ter sempre o livro à mão, abrir ao acaso e ler. É sempre bom.

Ao fim da tarde, regressámos e fomos a casa da minha filha. A casa já com as decorações de natal, luzinhas acolhedoras. Os meninos contentes. O mais novo, apesar dos chuviscos, ainda andou com o seu afilhado à trela, no pátio. Apesar do tardio da hora, ainda lanchámos na varanda, ao ar livre. É larga e abrigada. Já era de noite e chovia ao de leve mas ali estava-se bem. No fim, a bola peluda nem queria vir, só a correr e a saltar, na maior alegria com os meninos.

As cidades já estão todas natalícias. Olho estas iluminações tão bonitas com alguma nostalgia. Vai ser o segundo natal condicionado. Sempre pensei que nos teríamos visto livres do bicho neste verão uma vez que a população já estaria quase toda vacinada. Afinal, a imunidade que cai ao fim de poucos meses e as novas variantes continuam a trazer as populações no fio da navalha. 

E muitas pessoas convenceram-se que, tendo a vacina, tudo estava bem. Ainda não há muito estive num evento com umas centenas de pessoas. É certo que o espaço era amplo e arejado mas, ainda assim, a concentração era considerável. Raras eram as que estavam de máscara. Devo dizer que, a dada altura, veio uma pessoa ter comigo, alegre, abraçou-me e beijou-me, um beijinho em cada lado, ou seja, face a face, a centímetros de distância. Não tive como evitar. Tive sorte, não calhou. Mas foi um risco daqueles...

E sei de muitas reuniões presenciais em salas sem janelas em que estão todos sem máscara. Não sei o que passou pela cabeça das pessoas para acharem que o risco tinha passado.

Sei que não deve haver alarmismos. Mas há pessoas que, perante a ausência de advertências, relaxam. E uns servem de exemplos ao outros, especialmente os maus exemplos. 

E os casos começam a multiplicar-se. Portanto, estamos outra vez em Dezembro e de novo a curva começa a empinar. Os casos são menos graves mas um caso menos grave pode contagiar alguém a quem a doença bata com força.

Natal assim -- com distâncias de permeio, sem que possamos estar todos, muitos, em volta da mesma mesa, aconchegados à lareira, os miúdos encavalitados uns nos outros e nós, por perto, a vê-los -- parece que não é Natal. Pelo menos, não é bem Natal. 

E apetecia-me um Natal e um Ano Novo à vontade, sem medos, sem máscaras. E apetecia-me estar de férias, não ter horários, não ter compromissos. E apetecia-me não ter preocupações.

Raios partam a porcaria do corona. Quem o inventou, inventou bem inventado. 


E é isto. Tenho ideia que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira. Portanto, menos mal. Já não falta muito para ser fim de semana. 

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Pinturas de Nazmi Ziya Güran na companhia de Bernardo Sassetti & Mario Laginha & Pedro Burmester com 3 Pianos "Souvenirs pas de deux"

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Um dia bom
Força. Coragem. Esperança. 

quarta-feira, setembro 01, 2021

Antes paneleiro que populista, diz o António Guerreiro


 

Dia de férias. Sem canseiras, sem stress. Finalmente. Ainda assim, foram compradas e depois postas prateleiras na despensa para arrumar melhor os sapatos, cabides para bonés, cabides para panos do pó em uso, um cabide com uma coisa com compartimentos que o meu marido diz que é para pôr sapatos mas que eu não sei se é e usei para acondicionar produtos de limpeza (de madeiras, de vidros, de fornos, de tapetes). E acho que ainda temos que adquirir caixas de arrumação para ter numa as pilhas, noutra as lâmpadas, noutra as extensões, etc. 

De manhã, quando fomos ao Leroy, à cidade mais próxima, quis logo trazê-las mas ele não quis. Aquele é o seu território  e não me quer a arrumar as suas coisas. Diz que a minha lógica não é a dele e teme nunca mais encontrar o que hoje tem à mão de semear. Só que eu olho para aquilo e vejo um caos. Ele espanta-se, diz que durante vinte anos eu não quis saber de nada daquilo e agora quero organizar tudo. Explico que é uma questão de prioridades. Agora já estamos no fundo dos fundos, na despensa.

Quando estávamos a ir de carro para o Leroy ele deu-me uma novidade: 'as gavetas do móvel da despensa estão vazias'. Fiquei sem perceber: 'Quais gavetas?'. Nunca dei por gavetas nenhumas. Ele respondeu: 'Como queres que te responda? As gavetas do móvel'. Não estava a ver. 'Mas onde estão as gavetas?, nunca as vi'. Ele disse: 'Não me admira que não tenhas visto, nunca vês esse tipo de coisas. Como queres que te explique?'. E eu, admirada: 'Mas é que nunca vi mesmo. Parece que aquilo tem só portas e portinhas, umas de madeira, outras de vidro, prateleiras, prateleirinhas e nichos. Explica: estão em cima ou em baixo, entre o quê? Entre portas?'. E ele: 'Sim, isso, em baixo, entre portas'

Aquele móvel imenso, atafulhado de coisas e mais coisas, sempre foi, para mim, território a ignorar. Mal cheguei a casa fui logo conferir. Três grandes gavetas. Como é possível que nunca tenha reparado nelas? Há com cada mistério... E, de facto, vazias. Um desperdício. Portanto, vou dar-lhes um destino. Se calhar, uma vai ser para panos do pó, panos de limpeza e coisas afins. Hoje tenho uma gaveta da cozinha com isso. Outra se calhar vai ser para individuais e/ou toalhas de exterior. A terceira ainda não sei. O meu marido diz que se calhar para papéis que hoje estão em caixas num móvel da cozinha. E na cozinha posso pôr toalhas de mesa que estão num móvel que, às tantas, pode ficar para outra coisa.

Ou seja, a so called despensa que, na prática, é uma arrecadação, está a ficar um lugar bem aproveitado, e, além do mais, civilizado e transitável. 

Tirando isso, os novos habitantes. Estive na espreguiçadeira, à sombra, a ler. Às tantas, levantei-me para ir buscar água e tive uma visão. 

Temos um portão alto que separa a zona das traseiras (se é que, numa casa como esta, faz sentido falar em traseiras). Antes de termos parte da propriedade vedada, pusemos aquele portão para tentarmos que não acontecesse uma coisa que uma vez aconteceu e que nos incomodou bastante. Estávamos na sala, de janela aberta, descontraidamente em família, e, às tantas, ouvimos vozes mesmo ali. Olhámos pela janela e estavam umas pessoas a passear mesmo junto à casa, dá ideia que, inclusivamente, a olharem para dentro. Quando nos viram, disseram com a maior descontração: 'Parabéns, está tudo muito bonito'. Habituados à total privacidade citadina, aquilo pareceu-nos uma tremenda invasão da nossa privacidade. Não me passaria pela cabeça que um dia estivesse a sair da casa de banho, nua, e algum curioso estivesse ali a passar e a observar. Portanto, pusemos um portão para ver se, ao menos, quem passasse na rua se sentisse inibido e sem à vontade para circular por ali, junto à parte mais privada da casa. Mais tarde, quando os caçadores andavam por todo o lado, deixando-nos com medo por causa dos miúdos, vedámos parte do terreno, a parte mais ou menos circundante da casa. O portão intermédio perdeu o seu propósito mas não o tirámos pois gostamos dele. Está, contudo, quase sempre aberto. 

E, então, deitado no chão, no recanto formado pelo portão aberto e pela parede, estava o cão. De vez em quando, damos por ele cá dentro. Parece que está em sua casa. Olhou para mim com interesse. Quando passei lá perto, levantou-se e foi deitar-se num banco de pedra que há colado àquele lado da casa. Mostra conhecer os cantos à casa.

Também vi o gatinho malhado de branco e dourado. Também por aí anda, como se este fosse o seu território.

Tenho estado a ler o livro do António Guerreiro 'Zonas de baixa pressão'. Gosto das suas crónicas. É daquelas pessoas que atravessa o seu caminho sem desvios ou concessões. Diz o que pensa e tenho ideia que, como a malta o respeita, não se vê metido em alhadas ou confusões verbais. É como o Vice-Almirante Gouveia e Melo que soube impor respeito. Aquela maralha do comentário a metro ou os jornalistas de meia-tigela batem a bola baixinho quando falam com ele ou de algum tema que o envolva. E tenho ideia que com António Guerreiro passa-se o mesmo. E nem tem que andar de camuflado.

É daquelas vozes lúcidas, que não vai em modas e que, aparentemente, não tem grande medo de represálias. E é inteligente. E isso, parecendo que não, faz muita diferença. 

Leio uma crónica, fecho o livro e volto a abrir ao acaso. Como se fosse um baralho de cartas que se abre e se distribui a partir de onde calhar. Assim eu a ler este livro de crónicas. Os temas são variados, alguns absolutamente actuais, outros intemporais, e não há cedência ao facilitismo. Pelo menos, assim me parece. 

Leio e penso que deveria ter um lápis para ir sublinhando algumas passagens, talvez para reler, talvez para partilhar convosco. Mas a preguiça tem-me impedido de me levantar para ir procurar um lápis. Portanto, agora, népias.

Aliás, agora que peguei nele reparei numa página a que, à laia de marcação, tinha ao de leve dobrado um cantinho. Transcrevo parte de uma frase:

A natureza gosta de se esconder, tanto quanto a ignorância gosta de se mostrar

Mas é a excepção. Não assinalei mais nada. Aliás, só mais uma. A crónica à qual pertence o título deste post chama-se: 'Se eu fosse...' e numa nota, no seu final, António Guerreiro explica:

No título, a palavra 'paneleiro' é substituída por três pontos. Não por motivos de censura ou auto-censura mas porque seria um foco de atracção dos clicks  Antes paneleiro que populista.

E eu, que sou uma descarada, apesar de também não suportar o populismo, puxei este statement para o título pois acho um daqueles sound bites de estalão. 

The Harbinger of Autumn - Paul Klee

E, por ora, nada mais. Não tenho conseguido dormir a sesta nem, de manhã, dormir até mais tarde. Não sei porquê pois bem precisada ando. Por isso, ainda não pus o sono em dia. Uma chatice. Parece que ainda não fiz o desmame do estado de habituação (ou dependência?) a elevados volumes de trabalho. Nos pequenos momentos de descanso, sinto-me entediada como se a ausência de ocupação útil quase me pusesse doente. Mas pior ainda que isso: sinto-me como que a desleixar-me com as minhas obrigações se, em horário de trabalho, me puser estendida ao sol, a ler. Que coisa esta.

E o tempo que tem estado tão afável, tão a abrir a porta ao outono, tão bom para uma pessoa se sentir serenada... Só me falta mesmo é reaprender a não fazer nada e a gostar disso.

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Pinturas de Paul Klee ao som da Estrela da Carminho

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Desejo-me uma boa quarta-feira
Saúde. Esperança. Ânimo.

sábado, setembro 16, 2017

Alô, alô António Guerreiro! Se o Henrique Raposo é fascista, olhe lá que ele deve é ter um certo défice a nível dos ditos 'colhões'.
O meu marido e a Passadeira Vermelha.
Roupa unisexo para mulheres que gostavam de ser homens
Os cuidados a ter quando se ouve miar no telhado.
Jorge Jesus e a Pley-Steichão.
E, para terminar, um exemplo de publicidade racista

1.

O Henrique Raposo segundo o António Guerreiro





Nos tempos em que eu devia estar parva e que contrariava o meu marido, comprando o Expresso -- ele a achar que aquilo se tinha tornado um pasquim e eu, por inércia, ainda a manter o hábito de comprar o saco -- não conseguia ler aquele sujeitinho que gosta de se armar em MEC do subúrbio, escrevendo porcarias como se estivesse a escrever coisas engraçadas. Pensava: 'Este Expresso, de facto, só pode estar a virar um pasquim, para descer ao ponto de dar coluna em página de relevo a uma coisa como este Raposo'. E não lia. Por vezes tentava, forçava-me, aferia se não seria preconceito meu. Não era.

Nada do que escreve se aproveita: é um palerma encartado que, cá para mim, apenas agrada às sopeiras mentais que, para se armarem em pafiosas, se devotam a ler o Expresso.

No outro fim de semana, para ler a entrevista com a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, voltei a arreliar o meu marido. Ele nem lhe toca (refiro-me ao jornal). Eu não, vou de cabo a raso. Contudo, por higiene intelectual, saltei algumas coisas. E, lá está, deitei o olho à coluna do dito Henrique Raposo. Mas a indigência argumentativa, o desinteresse daquela prosa rasteira, a estupidez metodológica de trazer as teorias para o beco em que a sua mente se move, avacalhando todas as ideias em que toca, tudo isso me faz fugir a sete pés. Aquela prosa agonia.

Foi, pois, com gáudio que hoje vi nos blogs que aqui tenho ao lado referência ao belo artigo de António Guerreiro no Público que, com a sua arte e acutilância, deu o nome aos bois. Como se reconhece um fascista, ensina ele.


A partir de agora não deve haver quem se dê ao trabalho de ler aquelas porcarias que o Raposo babuja sem que, de imediato, se recorde: 'Olha, cá está o fascistazinho'.

Só uma observação. Segundo António Guerreiro, os fascistas gostam de mostrar que têm -- e passo a citar -- colhões. Diz ele: O fascista “tem colhões” e gosta de os mostrar. Isto é suficiente para definir um pequeno fascista. Pois, lamento que aí António Guerreiro tenha sido um pouco ligeiro. Eles gostam de exibir o que, de facto, não têm. Pelo menos no plural. Explico. Sabe-se que, por exemplo, Hitler só tinha um testículo (para além de um pequeno pénis retorcido). Franco também só tinha um, embora aí não fosse de nascença, parece que o perdeu. Por rigor taxonómico não devo incluir o Napoleão neste naipe mas também só tinha um. Portanto, isto de se pensar que todos os que gostam de se armar em machos-alfas são muito bem fornecidos pode ser mero empolamento auto-publicitário.

-----  2.  ----

Passadeira Vermelha na SIC Caras



Estávamos aqui num desentendimento. Nada de jeito na televisão, eu a cirandar na net, ele a ouvir comentários de futebol. Mas a dormir. Subrepticiamente, eu esticava o braço e sacava-lhe o comando. Mal sentia, acordava e agarrava o comando. E ali ficava ele a dormir e eu a ouvir os comentários de futebol. E, meus Caros, aqueles comentários são do mais surreal que se possa imaginar. Riem, zangam-se, insinuam, repetem-se. Uma coisa do além. Até que impus a minha vontade. Pus-me a fazer zapping e deixei ficar no debate. E ele, instantaneamente acordado, todo mandão, que isso é que não. E eu também sem vontade de debate mas a não querer sair derrotada. Pus-me, então, a fazer mais zapping. Se lhe parecia ver o Láparo, a Cristas ou qualquer outro desses, logo: 'Eh pá, isso é que não'. Até que passei pela SIC Caras e estava a dar um programa chamado Passadeira Vermelha. Decretei: 'Pronto. Fica aqui.'. Ele não reagiu. Pensei: 'Agora vais ver a pastilha que eu tenho que gramar...' Ficou mesmo ali. Estava o Cláudio Ramos, uma Liliana qualquer coisa, uma de quem não me lembro o nome mas que tem uma voz meio abrutalhada e cabelo cor-de-laranja e a Luisa Castel-Branco. Pelo cartaz que aqui coloquei, vejo que faltava a Ana Marques, apresentadora por quem tenho simpatia, até pela sua querida mãe. Falavam nem se sabe bem de quê. Pois bem. Dei por mim a olhar para aquilo, estupefacta. E, para meu espanto, o meu marido também acordadinho e a olhar atentamente para aquilo. Gozei: 'Olha, olha... Quem havia de dizer... Olha a atenção dele...'. Assentiu: 'Eh pá, ainda não percebi o que é isto'. Fui eu que não percebi: 'Não percebeste o quê?'. E ele: 'Eh pá, não percebo nada: não sei de que é que elas estão a falar, não percebo nada do que dizem'. E eu: 'Mas olha, vi-te todo acordado a olhar para elas. E ele: 'Eh pá, a ver se consigo perceber alguma coisa'.

De facto. Uma maluqueira sem explicação. Não se aproveita nada.


----  3.  ----

Momento publicitário: Moda unisexo. 

Roupa cor de rosa para meninas que gostam de ser meninas e roupa azul para meninas que gostavam de ser meninos


Models walk the runway at the Pam Hogg show during London Fashion Week
(The Guardian)

----  4. ----

Um gato no telhado


📞 - Alô, é dos Bombeiros?
         🚒 - É sim!
📞  - Ouço um miar debaixo do telhado. O que devo fazer?
        🚒  - É só você tirar a telha que o bichano sai.
📞  - Tá bom, obrigadinho.

(E olha o que aconteceu...)


----  5.  ----

Jorge Jesus, the only and only, explica que isso de ganhar sempre ou de haver sempre goleadas (não percebi bem) não existe, só na PlayStation. E não se preocupa em dizê-lo com sotaque shakespeareano




----  6.  ----

Publicidade politicamente incorrecta

Van Heusen, 1952. ‘The world’s smartest shirts’ -- Life

(Hoje completamente impensável)

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Brinde

Hit the road, Jack --  pelas pouco convencionais Sweet Sisters




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E, para já, é isto.

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sábado, julho 02, 2016

António Guerreiro e os jornalistas




A verdade é que deixei de comprar jornais. Onde trabalho há jornais em papel que também não leio. Jornais, agora, só online e, ainda assim, são percorridos em diagonal, apenas para perceber a quantas ando. Mas logo constato que, se não os lesse, não perdia muito pois, a julgar pelo que leio, não saímos do mesmo sítio. E, também, quem escreve fá-lo, em geral, sem alma ou arte.

Penso que não é nostalgia o que sinto quando me lembro da era antes da internet, quando esperava com gostosa expectativa os jornais em papel, quando os folheava procurando as crónicas de determinado jornalista, as entrevistas, as reportagens, as opiniões. Se calhar sou já vcc (= velha como o caraças) mas eu procurava, por entre as páginas dos jornais, os jornalistas.


Agora não. Os jornalistas foram saindo dos jornais. Tirando o Fernando Alves, senhor tão inteiro que mais parece uma abstração, tirando um bravo e quixotesco António Guerreiro e mais uns quantos outros, talvez aqueles a quem a reforma já dá o conforto necessário à liberdade de escrita, aquilo a que se assiste é ao produto da actividade de entretenimento ou a outra coisa qualquer, que jornalismo não é. A questão é que as redações devem estar rarefeitas com a saída de tantos jornalistas de verdade. Foram ficando os outros. Parece haver agora, sobretudo, agendas escondidas (ou, mesmo, mal escondidas), fretes, repetições frouxas do que os spin doctors debitam para as redacções. E depois textos banais, fraquinhos, cópias quase integrais de notícias de um para outro jornal online.

Talvez seja a juventude dos jornalistas, e quase só ficam os jovens porque baratos (que os mais velhos, os mais caros, esses já foram encostados às boxes), talvez seja o medo que a precariedade traz e que condiciona a criatividade e a liberdade. Não sei. Mas é pena. O jornalismo perdeu o seu lado nobre, vertical, romântico, aventureiro. Parece já quase não haver lugar aos textos burilados, feitos com dedicação e paixão que se encontravam no bom jornalismo.

Estou a ser injusta para os que ainda resistem, eu sei. Mas a questão é que uma pessoa toma a decisão de abandonar um jornal porque a linha geral desilude e, portanto, acabam por ser injustamente castigados os que ainda conseguem manter a integridade.


Vem isto a propósito de mais um honesto texto de António Guerreiro no Público. Transcrevo apenas uns excertos mas aconselho que sigam o link para poderem ler o texto na íntegra.

 A jornalização em curso (2ª parte)


Em 1853, o escritor alemão Gustav Freytag, que nunca ocupou nenhum lugar de destaque na história literária, publicou uma comédia chamada Os Jornalistas que tem uma personagem exemplar, pela qual a peça continua a ser citada. Chama-se Schmock, essa personagem, e a sua réplica mais famosa, a que melhor serve para a caracterizar como um jornalista que se molda a todo os ambientes porque não se sente condicionado por convicções nem princípios, é aquela em que proclama: “Aprendi [...] a escrever para todas as tendências. Escrevi à esquerda e depois à direita. Sei escrever de acordo com qualquer tendência”. A actualidade de Schmock está bem visível na dança frenética de directores, sub-directores, editores, colunistas e outros membros da oligarquia que domina hoje os órgãos de comunicação social: de jornal para jornal, da televisão para o jornal, do jornal para a rádio e vice-versa e em todos as direcções. (...) 
Eles só existem e prosperam no seio de uma cultura decorativa, onde se pode escrever ou programar à esquerda ou à direita, de acordo com a tendência de ocasião. E todo o seu trabalho é dirigido a uma massa informe, em que também os leitores e os espectadores são vistos como receptores acríticos. Eles cumprem uma função que só se pode desenvolver sobre as cinzas do jornalismo e de todo o projecto cultural. Como Lacan dizia do amor, também eles poderiam dizer dos jornais, rádios e canais de televisão que dirigem, por turnos: a nossa missão consiste em dar o que não temos a alguém que não o quer. Sem projecto, sem tendência que não seja a dos ventos da estação, os media ficam ao serviço desta sociedade implosivo-mafiosa: este é o panorama com que estamos confrontados.

(...) Mas os Schmock do nosso tempo – e são muitos – dão a ver também outra coisa: que os órgãos de comunicação social não estão nas mãos dos jornalistas e de quem neles escreve ou produz “conteúdos” (como se diz hoje), mas nas mãos de decisores gestionários. Abaixo desta estrutura gestionária está a massa dos jornalistas proletarizados, sem qualquer autonomia, mesmo que continuem a assinar com o nome próprio: o jornalismo deixou de se conformar às exigências do trabalho intelectual. Foi esta verificação que dois jornalistas franceses fizeram há poucos anos, num livro que tinha um título deprimente:
Notre métier a mal tourné. Isto é: a nossa profissão correu mal. 

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As fotografias que usei são da autoria de Oliver Curtis. Condolence é interpretada por Benjamin Clementine.

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E agora, caso estejam para aí virados, queiram descer e aceitar o conselho sobre alguns dos Livros para morrer antes de ler.
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sexta-feira, maio 06, 2016

António Guerreiro e O Meças de J. Rentes de Carvalho.
E outros escritores, outros críticos literários, outros livros.
E uma Missa Luba e o Grupo Corpo.
E a subjectividade dos gostos e desgostos.


Depois de poemas que me tiram do sério, coisa a meio caminho da anedota ou do desalento, conforme o caso, ficou a apetecer-me falar de prosa. Prosa prosuda. E vem isto de que o António Guerreiro, crítico literário que eu respeito e aprecio, inteligente, de uma lucidez tantas vezes cortante, deu uma desanda pouco meiga no último livro do Patrão da Barca, J. Rentes de Carvalho de seu nome, autor do dito O Meças.


Pois não vou tirar teimas nem meter-me por aí que a minha sapiência é pouca para tão altas cavalarias e, ademais, ainda não li o livro.

O que posso dizer é que, se calhar porque a idade anda a dar cabo da minha bondade ou paciência, já não são muitos os livros-romances que me prendem do princípio ao fim sem que a vontade de saltar o muro apareça para me tentar. Ou é a história que me soa frouxa ou é a escrita que me parece não ter a tessitura da verdadeira literatura. Ou, se calhar, sou eu que me estou a tornar de má boca (literária).

Guto Stresser


Dantes devorava livros como quem devora pãezinhos quentes pela manhã, presa ao enredo, enlevada pela fraseologia, pela semântica, pelo trabalho bem acabado, sem alinhavos à vista (como o ALA gosta de dizer nas entrevistas). Agora, que perdi a inocência dos verdes anos, minha nossa, quase tudo me parece pão de véspera, culinária de brincadeirinha. Muita gente metida a escritora, muitas vacas sagradas, muito ungimento. E, eu, cansada, olho para a obra e não lhes sinto a mão, parece que não detecto arte ou aquele je ne sais quoi que faz a diferença. Escritores portugueses dos que ainda escrevem, então, poucos, poucos.

Emiliano di Cavalcanti
Ultimamente, para aí nos últimos meses, que me lembre, de romances encantei-me com alguns mas não de cá. John Williams com o Stoner e o Butcher's Crossing, Jean Giono com O Grande Rebanho. Veja-se bem o que recuei. Também Mathias Énard com o Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, este recente.

Como tenho dito, agora prefiro ensaios, cartas, diários, entrevistas, apontamentos. Parece que a escrita me soa mais genuína, que se alcança melhor a alma (mas não me perguntem: a alma de quem?) e a arte de escrever parece estar mais limpa.

Quanto aos críticos a coisa também está desengraçada: muita cagança, muita cátedra e pouca vida. Ou sou eu que não os acompanho devidamente. Dantes lia o Rogério Casanova mas tornou-se tão egocêntrico que, em vez de falar dos livros, só falava dele próprio. Gostava de ler a Ana Cristina Leonardo ou o Pedro Mexia mas como deixei de ler o Expresso agora não sei como estão. Aliás, a ela já quase lhe tinham tirado o pio, o que lamentei. O José Mário Silva não apreciava, nunca vi ali verdadeiro rasgo. O Eduardo Pitta escreve em jornais que não leio, nem sei como são agora as suas críticas. Aliás, também já não compro a Ler. Aquilo já não me interessava. E o António Guerreiro escreve no Público e eu não raramente leio o Público. É o que digo: ando arisca, um dia destes hiberno, fujo do que as outras pessoas gostam, deixo de saber de que falam quando falam da actualidade. 


Mas o que estou a dizer não tem a ver com o tema: como disse, sobre a contenda referida que fale quem leu o livro que eu cá não gosto de falar de cor nem sou de clubes ou religiões e, por isso, não vou dizer se o António Guerreiro se passou e embarcou nas suas próprias palavras ou se o Mestre da Barca desta vez não chegou a bom porto.
Seja como for, não gosto de ver violência nas palavras, especialmente quando dirigida a trabalho honesto. Que eu seja virulenta quando falo do láparo parece-me compreensível pois acho que o Passos Coelho deu cabo da vida de parte da população portuguesa e comprometeu muito do futuro do país; mas já me parece desajustado que se invista com agressividade e pouca elegância contra quem se afadiga a escrever, fazendo-o de gosto e não devendo nada a ninguém.
Emiliano di Cavalcanti
Mas, porque não li o livro, avanço na conversa e, se me permitem, desloco-me de novo para territórios mais gerais.

E uma coisa vos digo: por vezes tenho saudades de quando pegava num daqueles brasileiros que me prendiam a atenção da primeira à última palavra. Tenho ali uma estante com umas prateleiras deles. Era eu pequenina e um dos meus tios solteiros, que era todo dado às literaturas, andava a ler 'Olhai os lírios do campo'. Andava entusiasmado, falava muito no livro. Mais tarde, eu já adolescente, foi um dos que li. Mas não sei porquê, talvez porque já vinha com a cabeça feita, o livro não me trouxe uma grande novidade. Mas li outros dele e do Jorge Amado, do Guimarães Rosa, do Gilberto Freyre, do José Lins do Rego -- traziam-me mundos de longe, vozes cantadas, expressões muito de gente humilde ou transbordando vida, uma sensualidade que nascia da intimidade entre as pessoas e a terra ou o mar. Eu vivia imersa naquele mundo enquanto lia.

Não sei como seria se hoje voltasse a pegar naqueles primeiros livros. Talvez já os achasse coisa pouca. Não sei. Se calhar não, se calhar mantinha-se a sensação de estar a olhar para uma imensa catedral feita de palavras.

Mais tarde vieram Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles e o deslumbramento da Clarice Lispector. E a pujança de João Ubaldo Ribeiro. E a salgada, viril e vadia carne de Rubem Fonseca.

E não foram só os brasileiros que me abriram a porta para outros mundos.

Os russos. Ainda hoje tenho presente os dilemas terríveis de O Jogador e a escrita sublime que me consumia as entranhas. Ou os contos do Allan Poe que me arrepiavam, irresistíveis e medonhos. Ou Hemingway que me levava pelos montes, pelos mares, que me tomava nos braços com a paixão com que uma virgem deve ser abraçada. Ou Erich Maria Remarque que me conduzia através da guerra, que me dava a conhecer outros amores, outros horrores. Eu lia e outros mundos vinham até mim.

Inimá de Paula


Agora é raro. Por exemplo, gosto dos corpos suados e da linguagem popular e cubana de Pedro Juan Gutierrez mas a emoção dos primeiros não existiu ao ler o último livro que por cá se publicou. Mas acredito que é capaz de ser meu, o mal.

Geralmente agora o que é posto à minha disposição parece-me fraca história, servida por uma prosa deslavada ou presunçosa. Muitas vezes penso: estarei a tornar-me preconceituosa? Ou apenas mais velha? Será que daqui por uns anos só sou capaz de ler aforismos ou haikus? Quiçá, até, páginas em branco?

Mesmo a Ferrante. Escreve bem, claro. E a história vai, anda, é boa escrita. Mas se me atrai, página atrás de página, ou se me detenho a degustar a elegância da frase, a criatividade da composição? Não. Parece que falta ali oxigénio. Por isso fiquei-me por dois livros. Pode ser que um dia compre os dois últimos. Mas não agora. Cansei-me daquela densidade à qual me parece faltar algum fulgor.

Estava a passear pela internet e vi, na Revista Bula, uma selecção feita depois dos leitores e colaboradores terem escolhido os melhores inícios de livros brasileiros. As escolhas são o que são e sei lá se são os melhores ou se andam, sequer, por lá perto. É tudo tão subjectivo, Mas gostei de ler. Transcrevo apenas alguns.

Tarsila do Amaral

A Lua Vem da Ásia, Campos de Carvalho


Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.

Tarsila do Amaral

O Jardim do Diabo, Luis Fernando Verissimo


Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. Todo homem, depois dos quarenta, abdica das suas fomes, salvo a que o mantém vivo. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça.

Tarsila do Amaral
(auto-retrato)

Dom Casmurro, Machado de Assis


Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

Tarsila do Amaral

O Ventre, Carlos Heitor Cony


Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tor­tura seria interessante se eu a explorasse com critério — mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.


Tarsila do Amaral
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Grupo Corpo - Parabelo


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Lá em cima era Antonella Ruggiero interpretando "Kyrie" (Missa Luba)

As imagens não têm nada a ver mas, uma vez que falei bastante de brasileiros, apeteceu-me ter aqui pintores também brasileiros.
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E, por agora, por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta-feira muito feliz.

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sábado, agosto 29, 2015

De que fogem estas hordas de imigrantes, de refugiados, de invasores esfaimados e aflitos que um dia poderemos ter à nossa porta?


Há dias em que tenho uma em mente mas que me custa tanto que faço de tudo para a evitar. Sei que não conseguirei o tom adequado, sei que posso parecer fútil, leviana, sei que há coisas para as quais não há palavras. Por isso, este é o quarto post de hoje e já andei pelo sex-appeal, pelo humor, pela poesia, pelo amor - tudo para resolver se fujo ao assunto ou se tento abordá-lo. E aqui estou a hesitar. Não sei como mostrar o que penso sem correr o risco de, emocionada que estou, me mostrar lamechas; também não quero parecer panfletária. Ou vulgar.

E, no entanto, já falei algumas vezes disto. Vou falando. Mas acho que me fico sempre pela rama.

Centenas de milhares de pessoas de todas as idades, condições sociais e raças e de ambos os sexos têm vindo a deixar as suas casas e, correndo todos os riscos e sofrendo todos os horrores possíveis e imaginários, põem-se a caminho, morrendo, deixando familiares mortos para trás, em busca de um mundo em que possam viver com dignidade e esperança. Para isso, entregando todas as suas economias e pertences, colocam-se nas mãos de contrabandistas e bandidos e, procurando a Europa - que julgam ser um bom destino - metem-se dentro de barcos ou camiões onde muitos nem respirar podem, ou põem-se a caminho, crianças e velhos ao colo. Imagens que não parecem deste mundo chegam-nos a casa dia após dia, uma sucessão infindável de horrores. O sofrimento daquela gente parece não ter fim. Todos os dias mais dezenas ou centenas de mortos. Afogados, asfixiados. E as estradas cheias, cheias de gente. E comboios pejados de gente assustada, suja, exausta. E acampamentos a deitar por fora. E muros que se erguem. E arame farpado que dilacera os corpos e as almas. 

Andou a civilização a fazer-se, o mundo a desenvolver-se, a ciência e a tecnologia a superarem-se para que tantas centenas de milhares de pessoas passem por isto, como animais fugindo do fogo, como cães esfomeados percorrendo as ruas.

A cambada que ajudou a desestabilizar os países de onde esta gente foge não é agora capaz de ir para lá garantir um mínimo de ordem de modo a que as pessoas não tenham que fugir espavoridas, deixando as raízes para trás, correndo riscos de vida, pondo a vida dos filhos em risco. Ficam-se pelas palavras balofas e de circunstância. Quando foi para decidir ou apoiar as guerras ou os movimentos que provocaram isto, souberam tomar decisões. Agora que o inferno está lá instalado, lavam as mãos e entretêm o mundo com pífias considerações. Um asco de gente.

Não é com conversa que alguma coisa se fará: é indo para lá. Já lá deveriam estar tropas, Capacetes Azuis, não sei - gente que ajude a pôr cobro ao desatino e à crueldade sem rei nem roque que por lá impera.

Não sou capaz de dizer mais que isto porque me faltam as palavras e porque o peito se me enche de angústia. Vou, pois, ficar-me apenas pelas imagens.


De que foge esta gente?



Un drama con rostro

En la imagen, una mujer mira cómo la policía bloquea a un grupo de refugiados que hacen la ruta Macedonia-Grecia. El primero de estos países declaró el Estado de Emergencia el 20 de agosto, abrumado por el número de inmigrantes que llegaban a su país, y movilizó a su Ejército para que vigilara la frontera.


(ROBERT ATANASOVSKI (AFP))


Jugarse la vida

En la imagen, un inmigrante escondido debajo de un tren intenta colarse en él para dirigirse a Serbia, en la estación de Gevgelija (Macedonia). En los últimos días, más de 120 cadáveres de inmigrantes han sido descubiertos en vehículos que se dirigían a Europa y en los que los refugiados viajaban escondidos.


(BORIS GRDANOSKI (AP))


Miles de niños entre los refugiados

Inmigrantes sirios duermen en un parque de Belgrado, Serbia. Son más de 10.000 los refugiados que han cruzado con sus bebés y niños pequeños la frontera de Serbia en los últimos días.


(MARKO DROBNJAKOVIC (AP))

Estado de emergencia

La policía macedonia trata de bloquear a los inmigrantes que intentan entrar en su país. Alrededor de 39.000 personas, la mayoría de origen sirio, han sido registradas a su paso por Macedonia en el último mes. La cantidad abrumó al Gobierno macedonio, que declaró el Estado de emergencia.


(VLATKO PERKOVSKI (AP))


El miedo como compañero de viaje

Reacción de un inmigrante que sostiene a un niño mientras es detenido por las autoridades de Macedonia. Alemania espera este año la llegada de 800.000 refugiados a Europa, “el mayor reto al que se enfrenta nuestro país desde la unificación”, advirtió Sigmar Gabriel, líder socialdemócrata, partido en coalición con los conservadores de Ángela Merkel.


(DARKO VOJINOVIC (AP))


Un hogar en cualquier lugar

Rashina viene de Kobani, Siria. Tiene cuatro años y ha bajado por medio mundo para llegar hasta Europa. En la imagen, descansa en una cama improvisada mientras espera un tren en la frontera macedonia que les lleve a otros puntos de Europa en busca de un lugar donde establecerse.


(OGNEN TEOFILOVSKI (REUTERS))



Fogem de situações como estas, na Síria 




Uma criança síria (Hudea, 4 anos) teria levantado as mãos ao confundir uma câmara fotográfica com uma arma.

(Foto: Osman Sargili)


Homem sírio chora enquanto segura o corpo de seu filho perto de Dar El Shifa hospital em Aleppo , Síria. O menino foi morto pelo exército sírio.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher ferida, ainda em choque, deixa o hospital Dar El Shifa em Aleppo, Síria em 20 de setembro de 2012, após um bombardeio da artilharia das forças do governo sírio na cidade, no norte da Síria.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher chamada Aida chora enquanto se recupera de ferimentos graves após o exército sírio bombardear sua casa em Idlib, norte da Síria em 10 de março de 2012. O marido de Aida e seus dois filhos foram mortos no ataque.

(Foto: Rodrigo Abd)


Um menino chamado Ahmed lamenta a morte do pai (Abdulaziz Abu Ahmed Khrer, que foi morto por um atirador de elite do exército sírio) durante seu funeral em Ibid, norte da Síria.

(Foto: Rodrigo Abd)
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A favor da Síria, pela mão atenta e amorosa de Banksy


[Graffiti artist Banksy has reworked his Young Girl piece for the With Syria campaign, to mark three years since the crisis began. The campaign is a coalition of 115 humanitarian and human rights groups from 24 countries, including Save the Children, Oxfam and Amnesty International. According to the coalition their aim is to ensure this is the last anniversary of the Syrian crisis. At the Zaatari camp in Jordan 100 young refugees lit candle and released red balloons, inspired by Banksy to carry messages of hope to Syrians. Report by Genelle Aldred.]

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Obtive as primeiras fotografias, as que têm legenda em espanhol, no El País.
Obtive as últimas fotografias, da Síria, na Obvious

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Por indicação do Leitor ECD em comentário aqui abaixo fui ler e, de tal forma, me revejo no que ali está escrito que me permito transcrever o artigo quase na íntegra.

Os campos, novamente


ANTÓNIO GUERREIRO in Público


Os campos, sob a forma de centros e lugares de retenção, voltaram à Europa e disseminaram-se por toda a fronteira do Sul da União Europeia. São espaços geridos pela polícia, subtraídos à ordem jurídica normal, que funcionam como diques para reter o enorme caudal dos “fluxos migratórios”. A situação está fora de controlo e assemelha-se àquela “explosão” que se deu no coração do continente europeu entre as duas guerras mundiais, assim descrita por Hannah Arendt em O Imperialismo, num capítulo em que a filósofa analisa o declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem: “[As guerras civis] desencadearam a emigração de grupos que, menos felizes do que os seus predecessores das guerras de religião, não foram acolhidos em nenhum sítio. Tendo fugido da sua pátria, viram-se sem pátria; tendo abandonado o seu Estado, tornaram-se apátridas; tendo sido privados dos direitos que a sua humanidade lhes conferia, ficaram desprovidos de direitos”. E num artigo de 1943, We Refugees, escrito para um jornal judeu de língua inglesa, Arendt terminava em tom de exaltação, como se tivesse acabado de identificar um novo sujeito da história: “Os refugiados representam a vanguarda dos seus povos”. Mas o refugiado que Arendt definiu a partir do modelo do apátrida — produto de uma dissociação entre as fronteiras administrativas do Estado e a realidade política dos homens — implicava, como o nome indica, a ideia de refúgio, tanto geográfico como jurídico: os refugiados judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, conseguiram embarcar para a América tinham um destino que os orientava à partida e contavam com a vontade política de uma protecção. Os actuais “migrantes” que se lançam ao mar para alcançarem o território europeu são, pura e simplesmente, “deslocados”, fogem da guerra e da miséria, na esperança de conseguirem encontrar um lugar, uma direcção, um sentido. Verdadeiros refugiados na Europa, no sentido jurídico da Convenção de Genebra de 1951, são uma ínfima parte deste fluxo de forçados migrantes que, mal entram em território europeu, são ainda menos do que párias: são uma massa incontrolada de indesejáveis estrangeiros, assaltantes contra os quais a fortaleza europeia não consegue erguer muros eficazes nem fazer valer as suas armas de dissuasão. À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, “tudo é possível”. Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica — à política da morte — dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. Não podemos hoje ignorar que há uma lógica terrível imanente ao campo como figura: ele acaba por desenvolver uma zona cinzenta onde todas as situações-limite, à margem de todos os direitos, se tornam possíveis.  (...)

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Permitam que vos informe que a seguir há mais três posts, leves, levezinhos
(uma tentativa de aliviar a consciência)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

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terça-feira, agosto 11, 2015

Alô, alô Leitora Fantástica! Aqui está a o Caderno de Leituras sobre Maria Gabriela Llansol que pediu para ver. E vem com (quase) todos. Uma festa.


Num comentário ao post abaixo, a Leitora Fantástica, autora de A Matéria dos Livros, disse que não conhecia o Caderno de Leituras com textos de Maria Gabriela Llansol. E tem razão. Involuntariamente, induzi os Leitores em erro, pois, na realidade, trata-se de uma Selecção de artigos publicados na imprensa generalista portuguesa em torno de alguns livros de Maria Gabriela Llansol (e não textos da própria).

A Editora é a Mariposa Azual (e o livro custou-me 4.5€). Mais abaixo mostro a capa e algumas páginas interiores colocando ao lado o livro da Clarice Lispector para que se perceba a dimensão do Caderno de Leituras.






Para aguçar o apetite não apenas para este Caderno mas, sobretudo, para os livros de Maria Gabriela, transcrevo uns breves excertos do que alguns disseram, por exemplo de 'contos do mal errante'.


1. De Eduardo Prado Coelho in Expresso em 13.12.1986: o amor ímpar


(...) Esta sintaxe das imagens da atracção e da repulsa traça a moldura do que é o tema fundamental deste livro: a alquimia do encontro. Escreve Llansol: "como se fosse só a beleza das almas convergentes que fosse capaz de cativar e trazer acalmia à desordem do mundo, essa percepção está impregnada de nostalgia e de receio. Nostalgia do momento que há-de vir, em que será manifestada a beleza do encontro, o seu ponto culminante de elevação, como uma epifania vinda de outro lugar, e permitida pela renúncia das vontades; e receio, porque o jogo das forças é frágil quando a falta de habilidade e de rectidão interior provocam danos que podem ser - ou parecem ser - irreparáveis"

Deste encontro a três, na inumanidade cósmica de um amor ímpar, dá-nos Maria Gabriela Llansol páginas extraordinárias que transitam da luminosidade do fogo e da neve até à sabedoria aconchegada de um cântico invernal; mas nenhuma tristeza há neste percurso, antes uma alegria imensa e partilhável: "um cântico invernal não é a morte, nem a imobilidade: é o deixar espalhadas sobre a mesa todas as letras do nome Amor".





2. De Francisco Vale in Jornal de Letras, Artes e Ideias em 13.04.1987: Da atracção dos corpos em caso de amor ímpar


(...) Copérnico amava Isabôl e desde o início soubera que o "o seu corpo lhe interessava mais do que o seu rosto, e que ia dedicar-se a perscrutá-lo com atenção, liberando todos os sentimentos, para descobrir de que volúpia presente seria, no futuro, a causa".

Mas ambos esperavam "um terceiro" nesse tempo de Inverno que os isolava. Esperavam Hadewijch, "oculta" na sua própria ausência.

Olhando Copérnico, com o seu "peito nu, o rosto nu, os olhos abertos com um intenso sinal de vida", Isabôl deseja "poder deslizar do seu peito ao peito de Hadewijch e, um antes do outro, voltar a beijá-los"; e quando pensou em Hadewijch reconheceu que " ele devia poder vê-la naquele instante" e saíu do quarto "sem falar para não interceptar a sua vista"




3. De Maria Teresa Horta in Mulheres em 04.1987: "Contos do Mal Errante" de Maria Gabriela Llansol



É um livro de sabedoria; de uma androginia quase alquímica.

É ofuscante.
         E um livro sem brandura, ferino e obscuro ao mesmo tempo.

De um falso despojamento de escrita e de sexualidade, na mesma medida inventada.

        É um livro de fingimento total, num jogo contido e tenso, naquilo que é cerne e raiva e não se sabe mesmo se crueldade.

          É um livro labiríntico, de um egoísmo feroz. Egocêntrico e redondo, à volta de si mesmo.
(...)
        De onde nasce a paixão? - Não nasce: arquitecta-se a si milimetricamente, medida-escrita, pesada e descrita, até se ver o osso e a paixão, portanto, se extingue em si mesma.

          E se apaga.

      Tal como o desejo, curiosamente à aparência tão importante nesta obra de Maria Gabriela Llansol - desejo nascido com o único fim de logo ser negado?

        Extinto. - Pelo próprio corpo... da escrita.
(...)
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E, agora, as fotografias do Caderno de Leituras de onde extraí os excertos que puderam ler acima e poderão continuar a ler mais abaixo.

Caderno de Leituras - organização de Helena Vieira/Espaço Llansol


"Meditava, pois, que não havia só seres com perfil histórico reconhecido, mas todos nós éramos seres apagados de um momento, e seres vibrantes do outro"

(Regina Louro in "A escrita errante de Maria Gabriela Llansol")


"Causa amante" é o mais frágil de todos os livros, como a escrita (ou o amor) é a mais frágil de todas as matérias

(Regina Louro in  'entre tudo e nada' em 1984)
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4. E sobre Um beijo dado mais tarde, de António Guerreiro in Expresso em 06.04.1991: 'Na margem da língua, fora da literatura' 


(...) As palavras podem então ir à frente, como batedores em busca de mundos possíveis, ensaiando um itinerário de conhecimento. 

(...) Numa formulação mais breve, dir-se-á num dos seus livros: "Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros". A língua tem de ser um mecanismo que permite a aproximação extrema entre os seres e a travessia de diferentes épocas históricas sem outro fim que não seja o de conhecer. Então, "todos os livros, limites e indícios da vida quotidiana me parecem pequenos microcosmos justapostos com o mesmo fim, ou a mesma origem". Como se tudo estivesse em tudo. O Livro pode ser prolongado infinitamente, como uma virtualidade aberta a todos os recomeços.
(...)
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Para acompanhar os excertos usei imagens do fotógrafo russo Anton Belovodchenko que descobri no Bored Panda. E para acompanhar todos escolhi a Buika com o seu Por el amor de Amar.

Sobre o belíssimo bailado do final - que espero que até os mais distantes da arte não deixem de ver porque garanto que sentirão maravilhados - transcrevo o texto de apresentação do vídeo:

New York City Ballet presents NEW BEGINNINGS on September 12, 2013. Filmed at sunrise on the 57th floor of 4WTC in lower Manhattan, this short film captures an extraordinary and moving performance of Christopher Wheeldon's After the Rain. It is a testament to the resilience of the human spirit, and a tribute to the future of the city that New York City Ballet calls home.
Música: Spiegel Im Spiegel de Arvo Part. Coreografia: After the Rain de Christopher Wheeldon; Bailarinos: Maria Kowroski, Ask la Cour
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma dia muito feliz. 
E muita saúde para os que estão assim-assim e esperança para os que estão com medo, e boas notícias para todos. 
E alegria.

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