Hoje tive um dia mais ocupado e disperso do que é costume. Para além disso, um pesadelo acordou-me ainda muito cedo e era daqueles que, de tal forma se enrodilham em volta dos neurónios, já não me deixou voltar a adormecer. Por isso, durante o dia, nos momentos em que estive parada, estive a combater o sono. Mas não consegui: há bocado adormeci aqui no sofá, de forma pesada. A ver se não me vai causar insónia.
O pesadelo foi mais um daqueles que não tem por onde se pegue mas que teve uma ponta final que me deu conta do juízo. Conto. Tinha sido um daqueles dias na empresa que começavam da pior maneira: mal punha o pé dentro, logo alguém se acercava para me atazanar a cabeça com problemas, sem me dar tempo a pousar, a beber café, a ligar o computador. Portanto, tinha largado a carteira e o telemóvel e tinha sido puxada por esse colega para ir ver um assunto urgente. Mas o tema em causa não era no nosso piso: fomos pelo corredor, mas era um corredor comprido que parecia que circulava em torno de muitos gabinetes, até que chegámos a um elevador, no que devia ser a extremidade do edifício; e tínhamos ido para outro andar. A pessoa com quem ele queria que eu falasse estava ocupada e ele sentou-se à espera. E eu pensei que de líder ele não tinha nada pois a pessoa, que hierarquicamente dependia dele, tinha continuado, nas calmas, como se não visse que nós estávamos à espera e como se nem tivesse consciência que ambos éramos pessoas muito ocupadas, para estar ali especados, à espera. E eu com vontade de beber café e a pensar que devia ter trazido o telemóvel. O meu colega, entretanto, tinha começado a contar-me sobre os filhos, sobre o seu amor ao teatro, e falava, falava, falava. E eu a ver o tempo a passar. Às tantas, fartei-me daquele número e resolvi voltar para o meu gabinete. Mas apanhei um elevador que me levou para uma zona que eu não conhecia e que não tinha saída. E não vou estar a descrever o raio do labirinto em que me vi metida. Só que andava por lugares em que toda a gente com que me cruzava me era desconhecida. E eu pensava que àquela hora já o meu marido deveria estar lá em baixo à minha espera pois tínhamos combinado ir almoçar juntos. E eu, sem telemóvel, não tinha como avisá-lo.
E o sonho basicamente foi isto. Mas eu não dar com a saída, andar acima e abaixo, às tantas já andava em monta-cargas, imagine-se, e não dar com o caminho para o meu gabinete, não poder comunicar com ninguém, fez com que acordasse completamente desatinada.
Provavelmente tem a ver com um colega me ter dito que a empresa agora já ocupa mais uma ala do edifício, aliás, se bem percebi, o edifício contíguo, que têm estado a admitir montes de gente, que, se eu lá fosse, se calhar, tirando uns três ou quatro, já não ia conhecer ninguém, que ele, que lá trabalha todos os dias, passa a vida a cruzar-se com gente que não sabe se é de lá ou se são consultores ou alguém de fora que veio para alguma reunião.
Ainda no outro dia, um outro que trabalhava directamente comigo, um dos resistentes, me contava que ia sair dentro de poucos meses, que já tinha tratado de tudo. Eu fiquei muito espantada pois ele está ainda bem longe da idade da reforma. Mas disse-me que começou a trabalhar cedo, tem muitos anos de descontos, e que, sobretudo, que as coisas tinham perdido a graça, que aquilo mais parecia o recreio da escola ou, por vezes, uma esplanada, que 'a malta gosta é de conviver, todos lá muito na curtição deles, ao fim do dia, e ainda o dia não terminou, é vê-los a juntarem-se para irem para o rooftop', que parece que a história e a tradição da empresa se estavam a esvair rapidamente. Quando pergunto por um ou outro, já tudo saiu. Não sei se é a empresa a querer rejuvenescer à força toda, se é a malta mais velha que se cansou.
Mas deve ser por isto que depois, de noite, a minha cabeça se perde em meandros que já não conheço.
Tinha dito que ia tentar partilhar o resto do estudo de ontem sobre a Terceira Idade mas, muito francamente, pouco tempo e pouca disponibilidade mental tive para avançar nisso. E amanhã também não vai ser fácil, mas logo vejo.
Também estou a hesitar sobre se devo partilhar aqui alguma da 'descodificação' dos papéis velhos, velhíssimos, alguns com mais de um século, que trouxe de casa dos meus pais e que pertenceram a bisavós, um de cada lado e que o Claude -- apesar das manchas do papel ou da tinta esbatida ou da caligrafia muito diferente da actual -- descortinou com uma perna às costas. São documentos que têm muito a ver com a história da minha família.
Talvez partilhe amanhã, pela graça -- e porque nada têm de pessoal ou reservado -- o 'Padre Nosso d’um bêbado' e 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança' que um tio-avô ou a mãe dele, minha bisavó -- certamente algum dos dois -- , escreveram, com uma caligrafia espantosa, em 1911. Não sei se é coisa de lavra deles ou se reproduziram alguma coisa que ouviram algures. Por hoje, limito-me a transcrever o remate desses mandamentos:
"Estes 10 mandamentos se encerram em dois: - Comer até arrebentar, beber até cair."
Ora bem!
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| Pintura by ChatGPT (pedida para ilustrar os ditos 10 mandamentos) |
Desejo-vos um dia feliz

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