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terça-feira, março 03, 2026

Shibui

 

Há muitos anos comprei um blusão de pele. É forrado a cetim e tem um feitio intemporal. Sempre gostei imenso de o vestir, sinto-me bem, não é quente nem frio, não é justo nem é largo. Nem é desportivo nem clássico. Portanto, sempre o vesti em qualquer situação.

No entanto, não sei se foi o maluco do cão que, quando era mais pequeno, num daqueles saltos festivos, ferrou o dentinho ou se foi qualquer outro acidente: rasgou-se atrás, um pouco acima do cós. Fiquei passada. Não passada no sentido de zangada, já que acidentes acontecem, mas triste. Pus cola, tentando disfarçar, colando a pele ao forro. Não ficou grande coisa. E acabou por se deslocar e rasgar um bocado mais. Quando o visto, o meu marido diz que já não está capaz. É que, para além do rasgão, o cabedal também já está, em várias zonas, um pouco coçado. Tenho ideia que já a minha mãe também me dizia que o blusão já tinha visto melhores dias e que, se calhar, estava na altura de me desfazer dele.

Contudo, parece que gosto ainda mais dele. Parece que está cada vez mais afeiçoado a mim e eu a ele. E vejo beleza no passar do tempo sobre aquela pele.

Ocorre-me ainda uma outra coisa: há um lugar, in heaven, em que o terreno desce e se encosta à propriedade vizinha, vendo-se para lá e de lá para o nosso lado. Há uns anos imaginei um grande muro que estabelecesse uma barreira visual. Alto e comprido, com várias faces, quase como um grande livro aberto, com folhas desdobradas. A minha ideia era fazer pinturas em cada folha do muro. Poderia ser uma história que se desenrolasse ao longo da superfície ou poderia ser um deslizar de cores em movimento, formas abstractas, subtis. Sonhei com o que lá iria desenhar e pintar. Antecipei o prazer que era, para mim, pintar à mão livre em grandes superfícies. 

Para começar, houve que aplicar primário e, a seguir, umas camadas de tinta branca para que, com a superfície devidamente selada, pudesse, então, partir para as minhas rêveries.

E o que aconteceu é que me apaixonei pelo muro branco. As sombras que lá se desenhavam, as árvores ao lado, os arbustos por detrás, tudo aquilo, na singeleza de um grande muro branco, me parecia muito belo. 

Andei naquela dúvida durante algum tempo: persistir na ideia que me tinha levado a construi-lo ou abdicar dela e aceitar a surpresa da inesperada beleza de uma superfície branca. Ficou assim. Agora a perder cor, com alguns musgos, com aquela patine que acrescenta beleza ao tempo.

E depois há aquelas outras imperfeições que me parecem embelezar e enriquecer os objectos. Vou dar um exemplo do qual já aqui falei algumas vezes. Uma vez fui sozinha, para poder andar com tempo e à vontade, à FIL Artesanato. Já foi na FIL no Parque das Nações mas deve ter sido pouco depois da Expo 98. Saí do trabalho e fui para lá. Tínhamos mudado de casa pouco antes, havia muito por decorar. A feira enorme, cores, criatividade, tudo muito apelativo. Vi coisas giríssimas e fui comprando. Claro que não trouxe tudo aquilo de que gostava mas, ainda assim, muita coisa. Pior: coisas muito pesadas. As coisas mais pesadas, eu pedia para ficarem no stand enquanto ia passarinhar por outros stands. Antes de me vir embora, fui fazer a recolha. Tenho ideia que já eram umas dez da noite, senão mais. Quando me vi com aquilo tudo, percebi o disparate. Pensei que não ia conseguir. Quilos e quilos e quilos. Muitas peças em terracota, espessa, pesada. E peças muito grandes. Não podia deixar cair, senão partiam-se. E quase não conseguia dar passo. Aliás, dava dois passos e parava e pousava tudo. Depois mal conseguia retomar. O carro tinha ficado numa rua perto mas, com uma carga daquelas, era como se estivesse a milhas. Só me ocorria ligar ao meu marido e pedir que me fosse buscar. Mas já era tarde e não ia ficar no meio da rua, rodeada de tralha, assim de noite, para além de que não ia dar-lhe essa colherzinha de chá... 

Mas, não sei como, lá consegui. Cheguei a casa esbaforida, derreada, arrasada, apesar de ter deixado grande parte das compras no carro, para o meu marido lá ir buscar. Escusado será dizer que ficou até assustado com o despropósito de tamanho carregamento. Aliás, já tinha apanhado um susto pois eu nunca mais aparecia e não atendia o telefone. Lá dentro, com o barulho, não ouvia tocar. E, na rua, ajoujada como ia, não tinha mãos para pegar no telemóvel e depois, não sei como, deixei-o cair para dentro de um saco que ficou no porta-bagagem e nessa altura ainda não havia bluetooth. Aquela noite foi um stress do qual jamais me esquecerei

Uma das peças que trouxe é uma senhora a fazer tricot. Andando eu, naquela altura, sempre a fazer tapetes de arraiolos, isto depois do período do crochet e do tricot, achei que aquela mulher era uma bela piada para mim própria. E nessa mesma noite coloquei-a na sala do piso superior. 

Na altura, a nossa cãzinha, a doce boxer cor de mel, estava na flor da sua idade. Dormia na sua caminha, na copa. Geralmente, quando acordava, subia a escada e vinha para o nosso quarto. Mas, na manhã seguinte, acordámos com ela a ladrar furiosamente, como quando alguém tocava à porta. Contudo, o ladrar vinha da sala. Não fazíamos ideia do que se passava, alguma coisa era. Fomos ver, intrigados. 

Estava, então, a ladrar, possuída, aos saltos, junto à senhora que, tranquilamente, fazia tricot. Fartámo-nos de rir. 

Por segurança, tivemos que pôr a nova habitante quase entalada entre um sofá e o móvel-estante, para a proteger, pois a raiva contra o abuso de invasão do seu espaço poderia levar a ex-pacífica cãzinha a atacar a pacífica senhora.

Sempre tive mil cuidados para que não se partisse. Quando mudámos de casa, quase a trouxe ao colo, entre espuma, com receio de algum acidente.

Pois bem... há algum tempo, ao passar por ela, o casaco de malha solto que trazia prendeu-se numa das agulhas de tricot e, pimbas, lá caiu a senhora. Desastre, desastre. Quebrou-se toda. Fiquei cilindrada. Mas por pouco tempo. Resolvi que ainda não tinha chegado a hora dela. Fui buscar cola e tentei recompô-la. Depois, ainda pensei tentar disfarçar as cicatrizes. Mas ficou assim. Acho-a ainda mais bonita, imperfeita, não escondendo as vicissitudes pelas quais passou. 

(ampliem a saia e os joelhos e verão as cicatrizes...)

Quem a veja, pensará que termos, num lugar de tanto destaque, uma peça que se vê que já se escaqueirou toda não tem grande jeito. Mas eu acho que tem.

E, com todas estas minhas particularidades, já concluí muitas vezes que, afinal, se calhar o que há em mim não será tanto uma valente pancada mas uma veia oriental. 

A minha casa não é nada como as casas que no vídeo abaixo se veem, pois resulta de uma vida inteira vivida segundo hábitos ocidentais. Não é uma casa minimalista nem monocromática. Mas, apesar de tudo, é uma casa que privilegia o espaço livre e a entrada da luz. Circula-se abertamente pela casa toda, sem obstáculos. 

E passo a vida a fotografar reflexos, projecções, sombras e luzes vogando sobre os objectos.

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Shibui é a estética japonesa que encontra beleza na simplicidade, na imperfeição e na passagem do tempo. Ao contrário do minimalismo extremo que se concentra no vazio, o Shibui cria riqueza através de materiais naturais, artesanato e uma elegância discreta que se torna ainda mais bela com o passar dos anos.

Principais Características do Shibui

  • Beleza Sutil e Natural: Valoriza materiais naturais (madeira, pedra, algodão) e formas imperfeitas, muitas vezes associado ao conceito de wabi-sabi.
  • Contenção e Moderação: O design é simples, funcional e sem adornos desnecessários.
  • Profundidade: A beleza não é óbvia; é algo que cresce com o tempo e o uso.
  • Cores Neutras: Preferência por tons suaves, apagados ou monocromáticos, como cinza, castanho e branco suave.
  • Elegância Discreta: É o oposto de chamativo; uma sofisticação tranquila. 

O Shibui aplica-se a artes, design de interiores, arquitetura e à vida quotidiana, focando-se no que permanece bonito ao longo do tempo.

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3 regras japonesas para um lar pacífico

Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, outubro 06, 2023

Tostas saborosas em família e um belo, belíssimo, Animaris Rex
Never gonna be alone

 


O dia foi dos bons. Um dia feriado é dia de férias e é bom ter o pessoal todo cá em casa. Almoçaram, descansaram, foram jogar padel, foram dar um mergulho. Depois, de volta a casa, todos os homens fecharam-se na sala de televisão para verem o futebol sem interrupções do sector feminino ou do cão. Mesmo os benfiquistas se solidarizaram com os sportinguistas e permaneceram na sala.

Portanto, o lanche foi dividido entre o que levei para os que estavam fechados e para as meninas que aproveitaram o sol e o ar livre.

Tinha trazido dois pães de forma de Rio Maior que fatiei, um de chia e mais qualquer coisa e um pão rústico, tudo fatiado no supermercado. Não aproveitei as fatias que se partiram ou enrolaram umas nas outras. 

As duas grelhas do forno já não são suficientes para as tostas. Enquanto o pão está no forno, vou tostando mais fatias na torradeira.

Fiz de três tipos. Como todos gostam muito, partilho convosco pois podem querer aproveitar a ideia.

1 - Levo umas fatias ao forno. Quando já estão a alourar, tiro-as e pincelo-as com um pouco de azeite com alecrim. Vão de novo para o forno. Depois de lourinhas, retiro-as. Tiro o alecrim pois já lá deixou o sabor (e não vão eles embirrar com as folhitas secas; se fosse para mim, deixava ficar). Ponho uma fatia de queijo em cada tosta (no caso, era Terra Nostra). Vai ao forno outra vez, para amolecer. Quando está praticamente derretido, tiro do forno, ponho uma fatia finíssima de presunto em cima. Antes de servir, passo por cima, muito ao de leve, uma brisa invisível de azeite e uns quantos subtis orégãos.

Dios pratos, dos grandes, destas.

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2 - Já contei mas, para ficar aqui, repito. Num copo misturador ponho dois tomates de rama, grandes e bem maduros. Ponho um pouco de sal e um pouco de orégãos. Com a varinha mágica, moo muito bem. Depois de moído, junto um fio de azeite enquanto continuo a bater com a varinha, o que faz engrossar. Esta emulsão é muito boa e saudável.

Tiro mais um tabuleiro de tostas do forno e, com uma colher, ponho uma boa quantidade desta emulsão em cada tosta. Por cima de cada, ponho uma fatia de salmão fumado. Em algumas ponho, ainda, um apontamento de queijo mozarella de búfala. Noutras, polvilho um pequeno nada de alface ou de cenoura ralada. Por cima, o mesmo sopro invisível de azeite e uns salpicos de orégãos.

2 pratos destas

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3 - Os restantes 2 pratos são parecidos mas apenas com a emulsão de tomate, umas fatias bem generosas de mozarella de búfala. Em algumas salpico, por graça, com uns discretos toppings de salmão fumado.

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Desaparece tudo, num ápice.

Uns acompanham com bongos, outros com iogurtes líquidos magros, outros com minis.

A seguir, uvas.

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Um pormenor relativo ao almoço. A pedido de várias famílias, tudo o que é doce ou engordativo deve ser banido. Portanto, para sobremesa, fiz assim: para uma taça grande de vidro, cortei aos bocadinhos dióspiros bem maduros, pêssegos maduros e doces, maçãs, muitas uvas inteiras e sem grainha. Depois deitei lá para dentro um iogurte magro de frutos vermelhos e seis embalagens de gelatina sem açúcar acrescentado, de pêssego e manga. Envolvi tudo e coloquei no frigorífico até ser servido. Ficou muito agradável. Gostaram. As crianças assim comem bastante fruta, sem protestarem

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E, para terminar, um momento maravilhoso. A perícia de Theo Jansen é surpreendente pois alia a inteligência da técnica à leveza da poesia.

Animaris Rex

Since the beginning of this summer I have been trying to connect several running units (Ordissen) in succession. Animaris Rex is a herd of beach animals whose specimens hold each other as defense against storms. As individuals they would simply blow over, but as a group the chance of surviving a storm would be greater. It is 18 meters long (5 meters longer than the largest Tyrannosaurus Rex found.)

Theo Jansen


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Lá em cima, obra de Oliver Marinkoski

Jacob Collier - Never Gonna Be Alone (feat. Lizzy McAlpine & John Mayer)

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira
Saúde. Harmonia. Paz.

segunda-feira, setembro 12, 2022

Um domingo tranquilo na despedida do verão



Tenho a dizer que tive um domingo bem tranquilo. No sábado tinha ido sair com a minha mãe, demos um belo passeio ao sol, à beira rio, depois pela cidade e acabámos a lanchar numa esplanada.

Antes já tinha lavado a roupa, tinha arrumado a casa. Tempos houve em que a roupa transitava da máquina de lavar para a de secar. Desde que esta se avariou voltámos ao são hábito de secar a roupa ao ar, no estendal. Dá mais trabalho mas prefiro. 

Mas, portanto, o domingo nasceu sem compromissos. 

Dormi até que o sono me quis, tomei o pequeno almoço nas calminhas. Coisa boa.

Depois, caminhámos e estava um sol bem bom que quase me arrependi de não me ter protegido com o meu sprayzinho SPF 50.

Para o almoço, fiz legumes estufados ao de leve, qualquer coisa a meio caminho entre os simplesmente cozidos e os lightly guisados. Coisa soft. Em cima, escalfei dois ovos pois adoro ovos escalfados com o sabor do molho em que cozinham. Desta maneira os legumes ficaram não-binários, talvez na versão fluida. Ou seja, a ideia é que os legumes dessem quer para acompanhar o peixe do almoço quer carne amanhã. 

Ao lado, numa frigideira, em azeite alourei cebola às rodelas, dentes de alho (aos quais não tiro a casca), louro, uns pezinhos de perfumado alecrim. 

Quando estava tudo já bem lourinho, quase caramelizado, coloquei por cima lombos altos de atum. Por cima dos lombos deitei pedrinhas de sal e raspa da casca de uma lima. Depois, para reforçar, cortei a dita lima às rodelas e coloquei-as na frigideira. Virei os lombos para não ficarem passados. Douradinhos nas superfícies mas rosadinhos por dentro.  Nem sempre é fácil. Com medo que os lombos fiquem crus, frequentemente deixo-os passar do ponto. Mas, desta vez, interceptei-os a tempo. Ficaram au point.

Depois de almoço, estendi-me lá fora a ver se dormia. Mas deu-me vontade de procurar umas coisas na net e passou-me o sono. (Ando com umas ideias e, para não tentarem demover-me, fui procurar às escondidas).

Depois fomos passear para a zona nova da Expo. Ainda lhe chamo Expo porque me parece mais mignon que Parque das Nações. Prédios muito bonitos, todos iguais, uma disposição e uma dimensão equilibradas, bem pensadas. Toda aquela zona tem uma organização muito interessante, com parques infantis, máquinas de desporto, espreguiçadeiras de madeira à beira rio, passeios largos e jardins muito bonitos. 

A turma da minha filha já lá estava. Quando o urso felpudo os viu ficou doido de alegria. Salta para um, salta para outro, abraça um, abraça outro, uma euforia. É um extrovertido.

Na marina, vimos uma coisa que nos deixou cheios de ideias: casinhas-flutuantes. São casinhas e são barcos. Cada uma tem um terraço com zona de lounge, com bicicletas, e, em cima, um outro terraço com espreguiçadeira e cama de rede. Tem motores e volante. Os meninos, habituados a velejar, diziam que devia ter âncora e cabos (ou correntes?) e, perante a perspectiva dos avós saírem pelo rio sem estarem habituados às manobras marítimas, ofereceram-se para ir numa outra casinha para nos irem dando apoio. Mas escusam de se preocupar, não sou de me afoitar mar adentro. 

Se experimentasse era para me manter acostada, só para sentir a leve ondulação, para experimentar dormir sobre as águas e acordar envolta em maresia. Contento-me com pouco.

No regresso, fui ao supermercado fazer as compras da semana.

Para o jantar, comprei massa não de farinha de trigo mas de lentilhas. Trouxe também salmão fumado, bolinhas de mozzarela, salada de alfaces, coentros. O meu marido partiu ainda tostas aos bocadinhos lá para dentro. Croutons, pois então. Temperei a minha salada com molho de manga e lima, um molho que lá vi num frasquinho e que me pareceu que faria pendant com a salada que tinha em mente. O meu marido não vai nas minhas aventuras e temperou com azeite e ketchup. 

E depois de arrumar a cozinha e de pôr mais comida na tigela do cão, desloquei-me até este meu poiso, o sofá onde me sento a escrever estas conversas vadias.

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Como faço sempre que ligo o computador, espreito o que o YouTube tem para me oferecer. Há dias em que abro um vídeo, abro outro. Acontece que o sono que não dormi a seguir ao almoço está agora aqui a puxar-me pela pestana e, por isso, vi o primeiro e gostei o suficiente para ficar por ali. E vou partilhar pois o que é bom para se ver.

Marieta Severo abre sua casa no Rio e mostra coleção de arte popular brasileira | Lar

Em episódio da série documental "Lar: Vida Interior", a atriz Marieta Severo abre as portas de sua casa no Rio de Janeiro e mostra sua coleção de arte popular brasileira. A paixão pela cerâmica começou ainda na década de 70, e só cresceu ao longo dos anos junto com o número de itens. Com obras de artesãos como Roque Santero e Tiago Amorim, a coleção se expandiu tanto que Marieta chamou uma museóloga para catalogar cada obra. Dê play e conheça esse verdadeiro tesouro que a atriz guarda em sua casa!

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As flores nasceram das mãos de Van Gogh e pela mão dos Tindersticks vem For The Beauty

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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boa disposição. Paz.

domingo, agosto 21, 2022

Um susto recheado de guinchos ao dealbar d'aurora e uma açorda algarvia de galinha e grão para o jantar
(receita incluída)

 


A noite passada tinha acordado por volta das quatro e meia da manhã e estava a custar-me a adormecer. Como dormimos com os vidros abertos e persianas com as frinchas abertas, mal o sol começa a raiar já o quarto se ilumina. Não me afecta. Aliás, até gosto. Mas, então, lá fora mas junto à porta, um chinfrim danado, barulho como se de corridas, perseguições, encontrões, e logo uma guincharia terrível, uns estrondos. Claro que o dog de guarda acordou sobressaltado e correu a ladrar que nem um possesso. Ladrou, ladrou, correu de um lado para o outro numa agitação, enervado, um vozeirão, saltos ao pé da porta. Lá fora, o silêncio. 

Eu também intrigada com aquele aparato. O meu marido disse que devia ter sido uma cena qualquer com um gato. Tentei acalmá-lo mas foi impossível (refiro-me ao cão -- não ao meu marido que esse estava calmo, embora chateado por nem ao sábado conseguir dormir).

Contudo, perante o desassossego da fera, não teve outro remédio: foram lá fora, um escoltando o outro. 

No regresso, o relatório: de gato nem sinal mas um ratinho jazia no jardim. O gato com o ladrar da fera deve ter fugido e abandonou o seu troféu. O meu marido distraiu a atenção do urso, não fosse ele querer banquetear-se logo de manhã, ainda por cima com manjar alheio. Quando lá voltou já não viu o rato. Participou-me, a seguir: 'O gato já veio buscar o rato'. 

Contudo, quando, algum tempo depois, eu dei uma volta por outro lado, já o pobre ratinho tinha sido transladado para lá. Pequenino, cinzento muito clarinho, um rabo comprido quase rosado. Um inocente.

Por respeito, não captei a situação. Aliás, nessa altura mal tive tempo para uma fotografia à pressa a uma das belas flores amarelas que sempre me encantam e para aquele ser pré-histórico, uma osga moura que mais parece albina, que agora por lá se passeia, quase se confundindo com a parede 

O meu marido já estava no carro à minha espera com o urso cabeludo no banco de trás. Não dava para um enterro condigno da pobre vítima rabuda. Lá ficou, à mercê. Entretanto, imagino eu, o gato deve ter conseguido, finalmente, resgatar o produto da sua caçada.

É aquela velha história da cadeia alimentar. Que ninguém tenha peneiras: todos somos pasto de algum qualquer outro bicho. Muita prosápia, muito instagram, muita cagança para acabarmos todos da mesma maneira. 

Adiante. Os fins de semana não se querem para altas filosofias.

Passemos, pois, ao que importa. 

Fui ao supermercado que tem carne boa. De todos os que conheço, não encontrei ainda um outro assim. Tem é um inconveniente: ali ninguém tem pressa. Por isso, venho de lá sempre com as narinas a fumegar e a bater com os cascos, tanta a impaciência. Mas hoje nada disso: felizmente hoje não havia daqueles avantajados que enchem o carrinho com quilos e quilos de carne, carne certamente para a arca e para dar para um mês inteiro, tudo cortado a feitio, cada peça escolhida com rigor, um empregado mais de meia hora com cada cliente. Nem apanhei clientes amigos dos empregados, daqueles que conversam nas calmas, perguntam pela família e pelos vizinhos, sem quererem saber das pressas dos outros. Slow living por estas bandas. Mas este sábado a coisa esteve bem. Trouxe um mega frango do campo e meia galinha também campestre. Era para só trazer galinha. Mas galinha, galinha que se visse, em tamanho giga e ar de galinha feita, só havia aquela metade. Portanto, completei com o giga frango, animal a parecer capão natalício. Trouxe também uma farinheira e um chouriço de carne extra. Gosto de enchidos de boa qualidade, especialmente quando há crianças envolvidas do repasto

Sendo bichos do campo, musculados, e daquele tamanhão (refiro-me aos galináceos e não aos clientes), comecei a empreitada logo por volta das quatro da tarde. Slow food, pois.

Fiz assim:

  • Num panelão, coloquei água, um pouco de sal, duas cebolonas novas, muito grandes, cortadas aos bocados, um ramo de salsa, três cenouras de bom tamanho (sim, nas cenouras, digam o que disserem, size matters). Juntei os bichos já devidamente esquartejados (e desculpem-me a violência da descrição) e um pouco de sal. Depois de levantar fervura, baixei e assim ficou a cozinhar, o panelão devidamente tapado.
  • Quando a carne dava mostras de querer soltar-se ligeiramente dos ossos (e, uma vez mais, desculpem se a descrição vos parece gráfica demais), juntei a farinheira e o chouriço. Passado um bocado, o caldo da cozedura tinha adquirido as belas cores dos enchidos e estava na hora de juntar os ovos. Levantando o lume ao máximo, parti lá para dentro -- mas com cuidado para o mergulho ser suave -- seis ovos. Quando voltou a levantar fervura, voltei a baixar e a tapar. Cozeu mais um bocado. Finalmente juntei uma embalagem de grão cozido. Desliguei.
  • Aqui entrou em cena o meu marido. Pedi-lhe que forrasse o fundo de duas travessas com fatias generosas de baguette de pão rústico. 
  • Enquanto isso, preparei o tempero para o piso. Para uma tigela piquei finamente uma meia dúzia de grandes dentes de alho, um ramo de coentros, juntei azeite e envolvi tudo muito bem, pisando um pouco com um garfo. Se tivesse um almofariz teria esmagado mas não faço ideia onde foi parar o dito cujo. Nada de grave. Com uma concha fui retirando caldo da canja e mexendo. 
  • Depois, com uma colher, despejei esse caldo a cheirar a açorda algarvia (ou alentejana) sobre as fatias de pão. Quando estavam ensopadinhas, coloquei os pedaços de galinha e frango e depois o grão, a cenoura, os ovos escalfados e mais caldo. No fim, enfeitei com hortelã. 

Quando estávamos a começar a servir-nos, recebi uma chamada com imagem da turma que anda em turismo por fora, por terras onde o calor ainda aperta com mais força. Mostrámos-lhes as travessas (pois o prato era uma tentativa de reprodução da açorda algarvia de galinha e grão que eles tinham comido a semana passada quando ainda andavam por terras de Portugal). Mas a confusão era grande de um e do outro lado, eles mostravam cocktails, elas falavam de tatuagens, todos a falarem ao mesmo tempo. Portanto, a seguir uma chamada apenas de voz, coisa mais um a um, e fui atender para outro lado. Demorei um pouco. Quando regressei à sala de jantar, os comensais começaram a bater palmas: que a açorda estava mesmo boa, que era das melhores coisas que eu já tinha feito.

E porque é tão simples, tão agradável e creio eu, tão razoavelmente saudável, disso aqui vos quis deixar nota. 

Não usei a linda taça das folhas de couve que está lá em cima e que hoje recebi de presente porque era pequena demais para tanta comida. Fica muito bem como peça decorativa sobre a mesa da cozinha. Podia usá-la como fruteira mas acho que prefiro que fique sem nada pois assim rapidamente a uso como saladeira ou travessa de ir à mesa.

Também recebi um pequeno presépio pois gosto bastante da composição familiar pouco ortodoxa, até une chose a modos que avant la lettre: uma jovem mãe solteira, um homem generoso que lhe deu guarida (e que não sei se seria o pai da criança o qual, para disfarçar a diferença de idades, deu uma de protector), um bebé nascido numa gruta, um burro, uma vaca. Sabendo deste meu gosto, também recebi, pois, o delicado presepinho. Esqueci-me de fotografar (e, acho eu, ... esqueci-me, até, de agradecer...) e agora não dá, senão ainda ia acordar o pessoal todo. Amanhã a ver se duplamente trato disso.

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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Bom apetite. Paz

sexta-feira, outubro 08, 2021

Um novo normal - dias com um cão dentro

 



O dia foi quase normal. Aliás, se calhar, não foi 'quase', foi 'mesmo' normal porque o meu normal agora é o meu 'novo' normal. E botem aspas nisto tudo. É bem verdade, Leitor, um cão muda a nossa vida. Pior ainda se for um cachorro que, na volta, quando veio era ainda mais cachorro do que julgávamos. Diz a médica veterinária que provavelmente tinha sido tirado da mãe há pouco tempo, se não antes do tempo, e que pode ter acontecido que o aparelho digestivo ainda nem estivesse plenamente desenvolvido, adaptado à vida sem a mama da mãe. Não o saberemos. O pastor foi evasivo, disse que achava que, que talvez fosse..., ou seja, na volta, nem dois meses teria.

Conclusão: diarreias e mais diarreias, algumas (para não dizer muitas) dentro de casa. Duas em dois tapetes de arraiolos distintos. Coisa fina, portanto.

Idas ao veterinários várias, rações e latinhas de comida para experimentar o que funciona melhor várias. Medicamentos, análises, sei lá. E eu sempre a fazer figas para que não fique internado como, por três vezes, me disseram que era uma hipótese. Nem quero pensar. 

Uns dias murchinho, quase só a dormir. Depois arrebita e vira a casa do avesso. A casa -- disse bem. De cão de guarda para ficar na rua, em menos de uma semana estava um cachorrinho de casa, coisa mais fofa, bonequinho mais querido da sua dona. 

Agora está mais gordinho e eu fico toda contente quando faz menos cocó, quando o cocó é menos mole ou quando o vejo a portar-se mal. 

E se tem andado a portar-se mal. Como é possível? Esperto que só visto. Digo-lhe: 'anda, vem com a dona'. E ele olha para mim, certamente para ver se é para levar a sério e, depois, quando me vê a ir, lá vem também. Digo-lhe: 'anda beber agüinha' e ele vem e vai beber água.

Quando se apanha sozinho, age por conta própria. Arrasta o saco da ração para o meio da casa, vira a sua cama de pernas para o ar, destrói o caixote de cartão que tínhamos posto a separar a cozinha da sala e aparece-nos deitado ao lado da cama. O meu marido diz que o gajo é escapista. E eu acho que ele é, sem tirar nem pôr, o cão das minhas histórias, o terrível e maroto cão da Princesa Margaret que aparecia sempre onde menos se esperava.

O pior é que também é do caneco. Anda o tempo todo a esgaravatar a terra e a comer tudo o que encontra. Pode ser que as diarreias venham também daí. Ontem, estava no acesso à garagem que é de pedra. Então saltou-lhe mesmo à frente um pinhão, acabado de cair. Num acto reflexo, meteu-o na boca. Quando vi, dei-lhe um grito e ele, antes que eu tentasse impedi-lo, fez um movimento brusco com a cabeça para trás, como quem engole um comprimido sem água. E lá foi o pinhão. 

Quando alguém tenta tirar-lhe alguma coisa da boca, dá sapatadas, rosna, arreganha o dente, tenta morder. Toda a gente se assusta com aquela violência. Dois quilos e tal de cão em que metade é pelo e ali está, destemido e armado em leão. 

Pois bem, antes de ontem, apanhei-o a arrancar uma coisa do chão e a comê-la. 

Já o apanhei com caroços de nêspera, na casa da minha mãe tâmaras velhas, e raízes e toda a espécie de porcarias. 

Mas, então, tentei tirar-lhe aquilo da boca. Supostamente, quando se porta mal, atina se lhe agarramos pelo cachaço como os pais lhes faziam. Então, zanguei-me e fui aplicar-lhe esse correctivo. Eis senão quando o pequeno capeta se virou e me ferrou a mão, de lado, abaixo do polegar. Senti uma dor e, instintivamente, tentei soltar a mão, elevando-a. Pois bem. Veio agarrado à mão. Ou seja, com os agudos dentinhos ferrados na minha incauta mão, voou a metro e tal do chão. Com a dor sacudi-o e ele, então, despenhou-se lá de cima, caindo redondo no chão. Como ali o piso é inclinado, rebolou. Pensei, assustada: não pode ser... matou-se. Afinal, levantou-se meio aturdido, sacudiu-se e ficou como novo. E eu com dois buracos na mão a escorrer sangue. Parece-vos normal? A mim não. Agora tenho aquela zona inchada, meio escura e com dois ferimentos. 

E a brincadeira preferida é mordiscar-me os pés. Salta e corre e eu acho que ri enquanto me mordisca e eu tento escapar, ou correndo, ou sentando-me numa cadeira e colocando os pés em cima de uma cadeira para ele não os alcançar. Hoje, para evitar o desacato, que aquilo arranha e dói, calcei umas meias e substituí as havaianas por uns chinelos que não são de enfiar no dedo. Pois, o safado, ao ver que não tinha a perna ao vivo para se divertir, desatou a latir, a dar gritinhos, todo num frenesim. E puxava e repuxava as meias, uma coisa de não dar descanso.

Estou a ensiná-lo a ficar na cozinha e terraço da cozinha para ver se me deixa trabalhar.

Agora à noite, vindo do veterinário, vim aqui à sala ver o computador, a ver se havia caso. Pois, o danadinho esgueirou-se, deitou-se no chão para receber festa, e, passado um segundo, estava a querer roer os pés do sofá e, pior, o cabo eléctrico. 

E ainda não contei qual a brincadeira preferida: tentar arrancar as franjas das carpetes de arraiolos. Passo-me. Tento convencê-lo a entreter-se com uma corda com franjas que vendem nas lojas para animais mas o brinquedo não oferece os mesmos desafios que dar conta de coisas a sério.

E, note-se, esta sexta-feira faz quinze dias, apenas quinze dias, que vive connosco e, no entanto, os ensarilhanços em que já nos meteu e as peripécias e gracinhas que faz. Acorda-me quase de madrugada, obriga-me a cuidados, faz-me rir, enternece-me.

Portanto, como poderão constatar, este é o meu novo normal. 

Ainda assim, deu-me um daqueles apetites. 
Acho que não estou grávida, que isto é mesmo só gula. Outro bebé agora não vinha a calhar, já basta este mais novo que por aqui anda a dar-me cabo do juízo. 
Então, desviámo-nos -- no meio de uma Lisboa com um trânsito bem assanhado -- para eu ir comer um geladão. Ainda por cima não havia kumquat nem gianduja, os meus preferidos: foi arroz doce e rum com passas, mistura que veio a revelar-se bem virtuosa.

Chegámos de noite. E, porque esta sexta-feira vai ser uma friday à maneira, estive até há pouco a recuperar objectos e ornamentos indispensáveis à minha existência em certos ambientes e contextos. Uma dessas coisas foi a minha aliança. Desde meados de Março do ano passado que não a usava. O relógio também. Sempre que saio, quando dou por mim estou de mãos e braços nus. E gosto assim. São outros tempos pelo que é natural que haja outros hábitos. Mas esta sexta-feira é um dia dos velhos tempos. E eu, nestas coisas, dou muita atenção aos pormenores.

Tirando isso, neste meu dia, pouco mais digno de registo. O que houve foi, para falar curto e grosso, mais do mesmo.

O nobel da literatura foi, de novo, para alguém em quem nunca antes tinha ouvido falar pelo que agora aqui também nada posso dizer. Gostei de vê-lo e ouvi-lo, na televisão, a contar como soube da notícia. É bom quando a gente vê alguém que forçosamente há-de ter algum valor a agir na plena consciência da sua condição efémera e insignificante. Se há coisa chata nesta vida é ter que aturar gente que se acha importante e que se revela inconsciente da sua condição de passageira acidental.

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De Asaf Avidan, Les bal des folles. Peças de cerâmica de Keiko Masumoto

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Peço desculpa por andar a não responder a comentários mas vocês sabem lá o que isto tem sido...

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Desejo-vos uma happy sexta-feira

Tudo de bom: saúde, vida nova, esperança e alegria

domingo, junho 20, 2021

Os Sto Antónios cá de casa

 




Não sou conhecedora da história da sua vida mas tenho ideia que era um homem bondoso e muito culto, com inteligência e dotes de oratória. Mas acho que não é apenas por isso. Admito que seja por um qualquer outro motivo que não alcanço que simpatizo tanto com o Santo António. Fui agora ver em que altura viveu e fiquei surpreendida. Crê-se ter nascido em Lisboa em 1195 e morreu em Pádua em 1231. É, pois, dos antigos. E, no entanto, vejo-o como um moderno.

É ele o Santo Padroeira da Lisboa popular. Haverá quem invoque São Vicente e lá terá as suas legítimas razões mas contra factos não há argumentos. Quem vive no coração dos lisboetas é Santo António e contra isso batatas: não há historiadores ou escoltas de corvos que consigam dar a volta ao afecto alfacinha.

Tenho em casa algumas figuras religiosas. Tenho, por exemplo, vários pequenos presépios. Assim, de repente, sem ir conferir, acho que tenho também duas Nossas Senhoras e tenho dois crucifixos. E tenho uns Santo Antónios. Gosto deles. Aliás, posso dizer que tenho um carinho especial por eles. Mas há uma coisa: por algum motivo que também desconheço, gosto de os ter representados de uma forma pouco canónica. Gosto de versões que transmitam a inocência ou a graça da expressão popular.

Como ontem, em resposta ao Francisco, falei nele como sendo um Santo muito cá de casa, ele teve a gentileza de me enviar fotografias dos Santo Antónios de sua casa. São muito bonitos. O maior, então, é uma maravilha. 

Obrigada, Francisco.


Também tinha dito que fotografava os meus para aqui vos mostrar. Mas, Francisco, vou já avisando: os seus representam o homem da Igreja. Vê-se que cada um dos seus Sto Antónios é bem comportado, piedoso. 

Os meus mostram o homem das ruas, o homem que o povo sente como um dos seus. Pelo menos, assim eu o vejo.

Os Sto Antónios cá de casa são arte popular. Enternecem-me. Um é até feito em crochet mas eu olho para ele e vejo ali a graça da figura cuja devoção tem atravessado gerações. Quando vou a algum lugar onde veja figurinhas artesanais, espreito sempre a ver se descubro algum. Não me perguntem porquê mas tenho esta crença de que uma casa feliz e acolhedora deve ter em si fontes de luz, compaixão, tranquilidade, bondade.

Bem merecestes ter com amor
Em vossos braços o Salvador
Salve, grande Antônio, santo universal
Que amparais aflitos contra todo mal

Desprezando as honras pela sã pobreza
A Jesus vos destes com ardor e firmeza
Bem merecestes ter com amor
Em vossos braços o Salvador




Desejo-vos um feliz dia de domingo

segunda-feira, outubro 10, 2016

A voz interior


Tal como contei no post abaixo, em que falei de mulheres que gostam de mar, tenho estado a ler A voz interior, excertos do diário de Hein Semke. Gosto de ler diários.


Leio-os com curiosidade, estranheza, alguma inquietação.





Quando vejo uma obra de arte, não quero saber da vida do seu autor. Não quero saber nada. E se acontece ler o diário de um escritor, pintor, músico é, como no outro dia já o referi, porque me interessa perceber de que universo de aleatoriedade nasce a obra, porque quero perceber se há génese e logo abandono ou se há carpintaria cuidada, ou se a ideia nasce de outra ideia ou se não há ideia nenhuma. Tal como há pedras parideiras, gosto de pensar que as palavras também o podem ser ou que acordes podem gerar acordes ou traços gerar formas. Ou serão factos que geram arte? É para questões deste tipo que gosto de procurar respostas. Como Miró que salpicava as telas com os pintéis que tinha deixado de molho e que se deixava guiar pelo desenho que assim se formava. Isto já para não falar de Pollack que construía camadas de acasos, num frenesim, como se uma pulsão o conduzisse na direcção de um desconhecido caos. Ou Picasso que, com uma fenomenal energia, copiava dos outros, inventava, distraía-se, divertia-se e, por vezes, apurava-se. 

Eu, apesar de aqui escrever todos os dias como se não houvesse amanhã, poucas vezes me deixo levar pelo lado diarístico. Posso contar um ou outra coisa, por vezes a posteriori falo de alguns acontecimentos mas, em cima do acontecimento, relatar factos puramente pessoais como, por exemplo: Hoje estou cheia de dores, custa-me andar. Vou fazer uma ressonância magnética. Estou preocupada, ou: Tenho um problema com o meu chefe, já não sei o que fazer para me entender com ele ou: Aborreci o meu marido ao falar desabridamente do primo dele e agora não sei como me reaproximar dele sem dar o dito por não dito -- ou outras coisas do género -- isso a mim não me tenta.

No entanto, encontro palavras nesse registo nos diários que leio. E leio-os muitas vezes com uma pena enorme, acompanhando as suas angústias, sofrendo com eles. Sei que não faz sentido mas é o que me acontece. É quase como se tivesse preferido não saber do seu lado humano, dos seus problemas pequenos e vulgares, quase como se tivesse preferido que deles apenas houvesse o lado de criadores.

Hein Semke, que teve uma vida longa, viveu, pelo menos durante parte do tempo percorrido por este diáro, com dificuldades económicas que o atormentavam. E tantas vezes quase sucumbia aos problemas que daí advinham. E preocupava-se por viver com uma mulher com cerca de metade da sua idade, mulher essa que por vezes garantia o sustento da casa. E vivia com a angústia de não comprarem o seu trabalho, de quase ninguém aparecer nas suas exposições. E eu leio essas aflições que causaram sofrimento a alguém há décadas e inquieto-me pela injustiça que todos cometemos para com tantos e tantos artistas, com tantas e tantas pessoas. Não sabemos nem queremos saber o que vai no coração das pessoas nem as dificuldades por que passam.
[Por exemplo, assusta-me pensar que sou lida por pessoas que têm a generosidade de me ler enquanto eu ignoro as dificuldades por que passam. Custa-me pensar que não têm dinheiro para passear ou para ir a restaurantes ou comprar livros e que, em silêncio e alguma tristeza, lêem a minha alegria ao falar do mar, das árvores, dos meus constantes arroubos. Ou por pessoas solitárias que não têm a quem dar um abraço ou em quem nenhuma mão pousa num afago amigo. Como posso eu chegar até essas pessoas? Ignoramos sempre o que é invisível e não sabemos como ver para além da camada superficial. Não sabemos chegar a quem, apesar de estar próximo de nós, se mantém invisível e em silêncio.]
Hein Semke, A dor, 1934
Nos jardins da Gulbenkian
O diário de Hein Semke não fala só dos seus problemas quotidianos. Fala das suas ideias, dos seus projectos, das suas esperanças, expectativas, entusiasmos. A vida das pessoas faz-se de uma sucessão de pequenos factos. Mesmo quando há grandeza na sua obra ou na sua vida, essa grandeza não é um somatório de apenas grandes factos. É, a maior parte das vezes, uma sucessão de pequenos nadas, desencontros, desentendimentos, equívocos, breves gestos de ternura, raros momentos de genuíno reconhecimento, e febres, desconfortos, e alegrias e zangas e recomeços. 

Como de uma vida normal ou onde pontuam depressões podem nascer magníficas obras é o que não percebo. Se eu vir um deus, desligado de mundanidades e acima de minudências, com um intangível corpo, alimentando-se de brisas e acordes divinos, eu, vendo obras de arte que nasçam de si,  percebo. Agora de pessoas tão irremediavelmente normais a mim custa-me perceber que tenham, algures, escondido dentro da sua aviltante normalidade, o dom da criação.

E tudo isto me vai inquietando enquanto leio um diário como este. Vou levada pela mão da escrita, dia após dia partilhando o quotidiano de Hein Semke. E, de vez em quando, tento imaginá-lo a construir a maravilhosa escultura A dor'' que tantas e tantas vezes vejo sem me ocorrer pensar que quem a concebeu viveu uma vida tão humana.

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Hein Semke, Autorretrato, 1934-35

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Uma vez mais, talvez não tenha nada a ver com nada disto mas deixem que partilhe convosco:

Leonard Cohen diz Since You Asked de Judy Collins


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E, caso estejam com vontade de ver mulheres que gostam de mar, queiram, por favor, descer até ao post já aqui abaixo.

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segunda-feira, abril 18, 2016

Solar dos Zagalos
- ou a prova de que somos um povo que não se dá ao respeito, uma gente que não sabe valorizar o que tem de bom, um País que, na maior passividade, despreza o que deveria abraçar, um País sem visão estratégica.
Parece que nascemos para sermos pobrezinhos e parvinhos. Que raiva.


Pronto. Antes dos gregos já tinha feito uma máquina de roupa, já tinha feito sopa e arroz de frango e já tinha jantado. Ainda antes disso, tinha andado na passeota (e já conto por onde) depois de ter ido ver o mar e, imaginem, ter ido almoçar ao sol, refastelada numa esplanada perto da praia, onde se comem belos pitéus gregos. Justamente: gregos. Agora, depois dos gregos e das gregas, já arrumei roupas e papéis, já arrumei tralha que parece que muda de sítio sozinha, já escolhi a farpela para amanhã, já pintei as unhas (cor transparente) e, portanto, já estou de volta ao batente.

De qualquer forma, quem não seja dado a acompanhar os meus passeios, pode saltar já daqui para a palavra de dois ilustres Leitores cujas palavras relativas ao tema 'as mulheres de Atenas' abrilhantam o Um Jeito Manso.

Agora vou, então, dar conta do que visitei hoje de tarde. Volta e meia, do nada, ocorre-me ir ver qualquer coisa. Desta vez nem sabia se estava aberto ao público e, a bem dizer, nem sabia bem onde era. Mas a internet no telemóvel e o gps no carro levam-nos a todo o lado.

Lá fomos. Solar dos Zagalos. A única vez que, já lá vão uns bons anos, quisemos visitá-lo estava fechado, não me lembro se encerrado para obras ou se naquele dia não era dia de estar aberto. Hoje tivemos sorte.



Um guarda à porta, e um senhor simpático a tomar conta. Quando chegámos, estava uma jovem com duas crianças. Depois não a vi mais. Penso que nem terá ido ao primeiro andar. Mais ninguém. Um espaço imenso apenas para nós. Um desperdício.

O solar é enorme, muito bonito, e está inserido num espaço amplo e ajardinado, com múltiplos recantos, com desníveis, muros, bancos, um lago, ampla vegetação.


Por dentro, praticamente vazio. Em algumas salas umas cadeiras absurdas, cadeiras baratas com estofo verde, despropositadas naquele contexto. Tenho ideia que em algumas salas até cadeiras de plástico havia. 

Em várias salas há necessidade de manutenção, humidades, salitres. Dá muita pena ver um edifício destes neste estado de quase abandono.

Tem uma exposição de cerâmica e, numa das salas de entrada, uma exposição temporária com uma meia dúzia de peças bonitas. E penso que essas salas são as únicas que estão arranjadas de uma forma coerente e com dignidade. 




Contudo, o resto é quase confrangedor. Dói ver salas com aquela beleza, tectos pintados, azulejos, belos soalhos, uma arquitectura digna, e tudo vazio, com ar decadente, alvo da indiferença do mundo.

Diria eu, que tanta coisa banal tenho visto promovida a coisa valiosa, que um país ou um município que tenha a sorte de ter no seu património um edifício como este, se deveria desdobrar em criatividade para poder ter um espaço destes sempre vivo, pujante de actividades.


Aqui deveriam fervilhar artistas, actividades culturais de toda a espécie -- sessões e workshops de dança, sessões e workshops de música de todos os géneros (jazz, rock, clássica, etc), de teatro, grupos de leitura, exposições de pintura, escultura, fotografia, cerâmica, aqui deveria haver um bar com produtos de qualidade, aqui dever-se-iam fomentar encontros, palestras. 

Não haverá alguém que se proponha explorar aquele espaço numa perspectiva cultural? Não haverá fundos para a reabilitação deste edifício? 


O próprio senhor que lá estava me disse que as verbas são curtas e que as prioridades serão outras. Percebo. Entre intervenções prementes a nível de saneamento básico ou intervenção social, entre apoio escolar ou reparação de vias públicas, talvez que a recuperação e a activação cultural do Solar dos Zagalos seja prioridade quase nula. Contudo, esta é sempre a lógica perversa da mula do inglês a quem se foi cortando a ração, cortando a ração, até que morreu, ficando o seu dono pior do que estava antes.


O investimento na cultura, acredito eu e já o disse aqui tantas vezes que temo ser maçadora, é um investimento virtuoso. Este é o tipo de investimento que, sendo bem planeado e toda a sua exploração bem acompanhada, vai pagar-se e ainda gerar receitas suplementares. O turismo será sempre, e creio que cada vez, mais uma actividade económica fundamental para o país. E refiro-me não apenas a turismo nacional que tenderá a crescer mas, sobretudo, ao turismo internacional que vai encarando Portugal como um destino de qualidade, seguro, civilizado.


O tecto da sala de cima : Leda e o Cisne

O turismo de qualidade centrar-se-á cada vez mais em torno de actividades culturais ou na procura de lugares com história, onde exista oferta de 'produtos' de qualidade e serviços abrangentes (lugares para dormir, lugares para comer, lugares para fazer compras, lugares para passear, transportes).


No caso concreto do Solar dos Zagalos, há todas as condições para ser um pólo de atracção cultural. Está perto de Lisboa, perto das praias, perto de um grande centro comercial, perto de hotéis, junto a uma via rápida que dá acesso a auto-estrada, a comboios, a metro de superfície, a barcos, está perto do Convento dos Capuchos que pode ser encarado como outro importante pólo cultural.

E é tão amplo o espaço que, provavelmente, poderia albergar uma residência para artistas ou até um turismo de habitação.



Parte do tecto da capela acima

Bem mais de metade do que ganho vai para impostos e não me ouvem aqui queixar-me disso. Acho que esta coisa pública tem andado a ser gerida com os pés (ou melhor: com as patas) e os obscuros interesses financeiros têm posto e disposto, e feito de nós --  e de todos quantos se apresentam como uns mansarrões --  autênticos gatos-sapatos. Mas os mais desfavorecidos, os desempregados ou os que, por circunstâncias da vida, mais vulneráveis estão não têm culpa disso e têm direito a uma vida digna e a ter as mesmas oportunidades que os que têm tido mais sorte. Por isso, se tenho que trabalhar mais de metade do ano para nem cheirar o que ganho, pois que seja.

Parte do imenso jardim: tirando nós, apenas um homem sentado num banco.
Uma desolação ver um espaço desde sem vivalma.

Agora uma coisa tenho que confessar: custa-me ver como são míopes e pouco espertos aqueles que, de uma forma geral, estão à frente dos destinos do País, aos mais variados níveis, custa-me ver a forma pouco inteligente como usam o dinheiro dos meus impostos, dos meus e de toda a gente.

Ainda não há muito tempo estive em Óbidos. Contei-vos. As ruas cheias de gente, as lojas abertas e cheias, os hotéis cheios, os restaurantes cheios. Óbidos soube apostar na cultura, nos seus monumentos, nas livrarias, nas feiras. E ganhou a aposta.

Mas casos destes não são frequentes. De forma geral, o poder de decisão está entregue a burocratas, a funcionários, a gente acagaçada ou a yes men -- não a gente com mundo, com motivação, com uma visão de futuro ou, simplesmente, com os ditos no sítio (e aqui, não me refiro apenas a cidadãos mas obviamente também as cidadãs que, de forma geral, até os têm em melhores condições que os seus congéneres masculinos).
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Apesar de tudo, recomendo vivamente uma visita ao Solar dos Zagalos, nem que seja para verem como tenho razão, que é uma pena que aquele espaço não seja revitalizado. Ou para verem se descobrem maneira de pressionar a Câmara de Almada nesse sentido. Ou se têm qualquer outra ideia. E, de qualquer forma, verão que é um lugar muito bonito e com uns jardinas onde se pode estar no maior sossego a descansar, a ler um livro -- ou a não fazer nenhum que também é bom.


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Lá em cima, a música era Elegie for Viola and Piano Op. 30 de Henri Vieuxtemps, numa interpretação de Robert Diaz (viola) e Robert Koenig (piano)
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Aconselho-vos, ainda, a descer até ao post seguinte e a lerem as palavras de quem sabe do assunto. Dou a palavra a dois Leitores que sabem das Mulheres de Atenas mais do que os que estiveram lá para contar. E se, depois de terem lido o que se segue, ainda pensarem que, a partir do que lá se viveu, se poderão fazer comparações para a realidade actual só vos digo que darei carta branca ao Leitor José Neves para vos dizer que não!!!! até ao fim dos vossos dias. Combinado?

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quarta-feira, janeiro 29, 2014

E se o Cristiano Ronaldo tivesse ido receber a condecoração das mãos de Cavaco Silva vestido de Maria Cavaca? Bom, mas não foi, não foi. Mas aqui fica a ideia para o próximo a ser condecorado. Que ponha os olhos em Grayson Perry que compareceu perante o Príncipe Carlos vestido de Camilla Parker Bowles.


Depois de no post abaixo ter deixado aberto à votação um Referendo sobre o Aborto, um Aborto especial diga-se de passagem, aqui, agora, passo para coisas ainda mais sérias. Hoje não estou para brincadeiras. 

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Grayson Perry, quase a fazer 54 anos, é um artista ingês polifacetado - quase poderia ser um Manuel João Vieira. 


É ceramista, trabalha em tapeçarias, desenho, tecelagem, etc.


Recebeu o Turner Prize em 2003. 





Algumas das suas obras de cerâmica podem parecer clássicas embora coloridas, exuberantes, mas são frequentemente provocadoras, irónicas, muitas vezes com 'cenas' sexuais explícitas.

Dificilmente se pode ficar indiferente perante as suas obras, sejam elas potes ou as suas grandes tapeçarias.

Muitas vezes parecem cartoons ou rábulas, ou simplesmente uma paródia.

Contudo, por vezes, é mais do que isso. Por vezes há ali reminiscências autobiográficas, não apenas na actualidade em que se auto-retrata, como em criança. O pai saíu de casa na sequência de adultério por parte da mulher e isso foi trágico para o pequeno Grayson, então com sete anos. Ficou a viver com a mãe e com um padrasto violento. Grayson escondia-se dele e inventava vidas fictícias em que um ursinho era a figura parental de quem sentia falta. Esse teddy bear aparece frequentemente nos seus trabalhos.

Tapeçaria

A semana passada Grayson Perry foi condecorado pelos seus bons serviços relacionados com a arte contemporânea; é agora Comandante da Ordem do Império Britânico - a Coroa Britânica mostra assim que a modernidade e a diferença são aceites e acarinhadas no Reino de Sua Majestade.


Grayson, que é casado e tem uma filha, tem uma outra particularidade. Volta e meia aparece vestido de Claire, o seu alter ego feminino. Desde sempre gosta de se vestir de mulher ou de menina irrequieta. É até frequentemente convidado para falar de travestismo e vários documentários têm sido feitos sobre isso.

Quando se soube que ia ser condecorado, os amigos e os admiradores desafiaram-no logo: não és capaz de ir vestido de Claire.

Calou-se caladinho e eis que, no tão esperado dia da cerimónia, surpreendeu todos, mesmo os que já se habituaram às suas excentricidades: compareceu na cerimónia não de Claire mas de Camilla, fazendo com que o Príncipe Carlos se fartasse de rir. Respeitador, Grayson disse que não, ora essa, qual Camilla, que ia apenas de mãe de uma noiva italiana. 


Acho o máximo. Quando é que, por cá, temos um acto assim, de graça, de humor, de boa disposição desempoeirada?

Sempre gostava de ver o Cavaco a condecorar o Manuel João ou qualquer outro artista não convencional, a reconhecer o mérito de alguém capaz de romper barreiras, convenções, preconceitos, géneros. E, se um fenómeno desses tivesse lugar, sempre haveria de ver o Cavaco com fair play para agraciar um qualquer Manuel João que lhe aparecesse vestido de D. Cavaca ou coisa do género.

No final da cerimónia, Grayson, já comandante, tirou as normais fotografias de família: ele, a mulher Philippa Perry que é psicoterapeuta e a filha, Florence, que tem 21 anos.



O comandante Grayson e a sua família feliz
[Parecem saídos de uma BritCom -
 mas não, são mesmo assim, estavam era vestidos a rigor para a cerimónia]

(E os chapelinhos? Lindos.
O que eu gostava de poder usá-los, adoro chapéus)


E, agora, eis então o filme do grande momento:

O eterno putativo rei - o sexagenário Prince Charles - e o novo comandante Grayson Perry



Love, love it...!


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Relembro: Para votarem no acima referido Referendo, é descerem, por favor, até ao post seguinte

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E, por hoje, fico-me por aqui. 
Estive a responder a mails (e não a todos... sorry) e a comentários e quase fiquei sem mais tempo para a minha empreitada diária. 

(Verdade seja dita que também comecei tarde e más horas. Hoje comprámos um sofá no IKEA. Aquele a partir de onde o meu marido fazia zapping e invectivava o Passos Coelho, o inefável deputado Abreu Amorim, o insuportável José Gomes Ferreira e outros emplastros, já tinha conhecido melhores dias. Por isso, foi de vela e veio este novo que teve que ser montado. Desta vez a coisa correu bem e já ali está todo bonitinho mas, com estas manobras todas, apanhei o meu turno da noite quase a meio. )

Desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela quarta feira. 
E hoje, para a gente se andar a rir o dia todo, proponho que os homens vão para a rua vestidos de Judite Dartacão e as mulheres vestidas de Manuel Luís Goucha. 
Um país inteiro vestido do avesso.
Boa?