Mostrar mensagens com a etiqueta Contos Eróticos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Contos Eróticos. Mostrar todas as mensagens

sábado, março 22, 2025

Eros... Eros...
[Algumas proezas da menina Vera Mulanver que, como é sabido, é danadinha para a brincadeira]

 

Hoje, de tarde, voltou a passar por aqui uma pontinha de vento que, em pouco tempo, virou tudo do avesso. Não sei como se chama a isto, se é um mini-tornado, se é uma fúria momentânea do vento. O que sei é que até uma mesa de madeira pesada desandou e iria por ali afora não se desse o caso de o meu marido ter posto uma rede a separar o terraço do relvado. 

Desde que o nosso cão mais fofo quase ia morrendo (com a língua inchada e escura) sob efeito de uma lagarta do pinheiro, agora, a partir de Fevereiro, o meu marido coloca uma rede nos acessos ao relvado. Supostamente, já terá terminado a altura das maganas descerem dos ninhos e virem enfiar-se na terra mas no INCF disseram-nos que, dado o mau tempo, admite-se que algumas se tenham atrasado. Por isso, por precaução, a rede ainda ali está. 

E uma cadeira que costuma estar ao pé do sofá comprido seguiu o mesmo caminho e ficou também ao fundo, encostada à mesa. E a mesinha pequena, metálica, idem.

E um dos cadeirões que trouxe de casa da minha mãe também voou e também ficou retido na rede, bem como as as almofadas. E uma almofada grande, rectangular, não sei como mas voou por cima da rede e foi aterrar ao pé de um pinheiro, na subida relvada. 

Depois de toda esta revoada, a ventania acalmou. 

O tempo anda assim, insolente, mais do que atrevido, descarado mesmo. E parece que esta noite a coisa vai outra vez acelerar. 

Gosto de chuva, em especial quando não é demais. Mas tenho medo do vento. É bicho sem dono, sem obediência, sem princípios.

Mas, enfim. É o que é. Fiz a 'reportagem' -- e como o Instagram é mais à base de imagens do que de palavras, coloquei-as lá, quer nas Stories quer no Feed. 

Ainda não ganhei bem a mão àquilo, ao Instagram, dá ideia que o que desperta mais a atenção são as 'lives', os vídeos -- muita gente a vestir-se, muita gente a maquilhar-se, muita gente a fazer ginástica, muita gente a desembrulhar coisas (unboxing, dizem). Mas a verdade é que me ponho a ver e de alguns até gosto, em especial vídeos de decoração, de pintura, de trabalhos manuais, de cortes de cabelo. É viciante. Mas, para eu fazer, ainda não percebi bem o que posso fazer que tenha algum jeito. Quando faço vídeos ficam uma porcaria...

Bem. Adiante. 

Hoje vou falar dos dois livros que têm tido 'mais saída', os de contos eróticos. 

Depois de ter visto as capas, os títulos e as sinopses dos livros 'eróticos' que estão à venda na Amazon, fiquei a achar que os meus, inocentes, são apenas umas gracinhas. Mas já estava, já estavam registados, com aquele número de registo atribuído, o ISBN, já não podia fazer nada. 

Quando o meu filho me informou que não ia ler nenhum dos meus livros ditos eróticos, a minha filha encolheu os ombros e disse que as minhas cenas eróticas são uma coisa assim mais ou menos, mais para o eroticozinho. Pois não sei. Quem se der ao trabalho de ler, ajuizará de si.

Os livros são uma selecção de contos que, ao longo dos tempos, em especial lá mais para trás, aqui fui escrevendo. Mas juntei alguns originais. 

  • Um deles, o da Festa de Beneficência, foi escrito há pouco tempo e inspirado numa festa real, tão bem frequentada quanto a descrevi, com particularidades como ali aparecem. E, se o conto for lido por alguém que lá esteve, poderá confirmá-lo.
  • A do Quarto Escuro foi inspirada por uma coisa que está muito em moda, mas mais para cenas de terror. Ao ouvir as descrições dos sustos que lá apanham, a minha mente -- que é como sabem, dada a desvios por maus caminhos --, ocorreu-me que poderia ser um belo presente de aniversário...

Vou transcrever apenas uns excertozinhos inocentes. Sendo este um blog de família, aqui não posso esticar-me. Por isso, aqui é apenas uma amostrazinha. De qualquer forma, não quero induzir ninguém em erro: que ninguém espere hard porn. Quando muito, soft porn.

Mostro também as capas dos dois livros.

_______________________________________________________________

Uma festa de beneficência

A festa era de beneficência e nela participavam todos os que em Lisboa e arredores nadam em dinheiro mas não gostam de o alardear. Estavam lá também alguns aristocratas que, não tendo grandes rendimentos, têm ainda propriedades e jóias e, sobretudo, um prestígio antigo que dá uma certa patine a estes eventos. Tinham também sido convidados administradores de grandes empresas, daqueles que ganham bem e que, embora nas suas finanças pessoais sejam mais poupadinhos do que os verdadeiramente pobrezinhos, podem abrir os cordões à bolsa das tesourarias já que o dinheiro não é deles e é o tipo de despesas que pode trazer benefícios fiscais às empresas. 

Havia jantar com ementa apurada ou não estivessem algumas das senhoras da organização muito habituadas a seleccionar criteriosamente os caterings dos encontros familiares. E havia música, fado e quartetos de cordas, tudo generosidade dos respectivos intérpretes. E, claro, leilão.

(....)

Eu: ‘Muito bem. Então não quer ser um cavalheiro?’

Ele: ‘Ser um cavalheiro? Como?’

Eu: ‘Sendo. Venha comigo. Acompanhe-me. Não vai deixar uma senhora aventurar-se sozinha pelos misteriosos recantos de uma noite escura.’

Desci a escada de pedra. Ele veio atrás. Avancei pelo jardim. Quando senti a relva, descalcei-me. Com os sapatos pela mão, continuei a avançar. Ele ao meu lado. 

Um pássaro piou numa árvore.

Quase às escuras, avancei até ao lago, até ao banco debaixo do chorão. Ele, em silêncio, ao meu lado.

Quando chegámos, disse-lhe: ‘Então não quer pôr-se à vontade?’

Ele, sem saber o que fazer: ‘Faço o quê? Tiro os sapatos? As meias?’

Eu: ‘Olhe para mim. A luz é fraca, o luar pouco ilumina. Por isso olhe com atenção. Olhe para mim. Veja como eu faço.’

Então coloquei um pé em cima do banco e tirei uma meia. Uso meias com liga de renda com autocolante. Ele sorriu. Passou-me uma mão pela perna. 

Depois tirei a outra meia. 

Disse-lhe: ‘Sente-se. Olhe para mim. Preste atenção’.

Sentou-se. 

Com um pé fui conferir. Estava com atenção, sim.

 

(Continua...)
______________________________________________

_____________________________________________________

O quarto escuro como presente de aniversário

Chega-se àquela fase da vida em que não há nada de material que verdadeiramente se deseje. Pelo contrário, um certo despojamento começa a ser apreciado. Talvez por isso, como presente de aniversário, naquele ano, pedi um quarto escuro. 

Se calhar sempre assim foi e eu é que desconhecia, mas tenho ideia de que, até não há muito, estas experiências não estavam à venda. Não sei. Seja como for, agora tudo se vende. Mesmo o que não faz parte do cardápio, se o cliente quer, logo os fazedores de experiências as customizam. 

E, portanto, quando me perguntaram o que é que eu desejava para festejar mais uma volta em redor do sol, foi isso que me ocorreu.

(...)

Enquanto a música tocava, eu ouvia passos, respirações. Não sabia quem mais estaria ali. Estava com os sentidos todos despertos, inquietos.
 
Então senti um sopro, como uma aragem. Parecia que uma janela se tinha aberto. De facto, logo senti como se fossem suaves afagos. Devia ser uma cortina de seda, adejando, roçando-se no meu corpo. Sem saber o que era esperado de mim, deixei-me ficar.

 Um corpo masculino encostou-se a mim, de frente, roçando-se também. Senti que outro corpo se encostava por trás. Novamente uns seios.

Depois rodaram à minha volta. Quando uns lábios afloraram os meus, não fui capaz de perceber se eram os dele ou os dela. Depois foi uma língua a entrar na minha boca. Poderia, com a mão, ter averiguado. Mas estava quase hipnotizada, obedecia submissamente.


(Continua...)

__________________________________

Podem adquirir-se na Amazon (seja como e-book, seja como livro de capa normal). Junto o link para cada um:



______________________________________

E quero dizer uma coisa. A Amazon apenas me informa qual o país origem das encomendas. Não sei quem encomenda. Portanto, a privacidade dos clientes e leitores está absolutamente garantida.

E quero aqui fazer uma ressalva. Tenho dito que os livros só estão à venda na Amazon mas, há pouco, ao googlar, apareceram-me à venda noutras plataformas. Fiquei intrigada. Depois é que me lembrei que, quando publico os livros, ponho um 'pisco' na opção de permitir que outras empresas de vendas de livros que tenham acordos com a Amazon os possam vender. 

Ou seja, alguns dos meus livros estão também à venda na Waterstones, BAM! Books-a-Million e creio que noutras. Mas funcionam com distribuidoras pois eu só tenho contrato com a Amazon. Para quem compra é indiferente, comprem onde comprarem, os livros são sempre impressos na Amazon.

____________________________________________

E é isto. 

Um bom sábado!

sábado, agosto 12, 2017

Contos eróticos





Bem, hoje está a dar-me para isto, para coligir. A culpa é de um mail que recebi.

Resolvi, pois, colocar alguma organização para facilitar a vida a quem está na praia e se dá ao trabalho de tentar ler histórias que escrevi.

As coisas que eu já escrevi, senhores... Não dá para acreditar. É como quando olho para a quantidade de carpetes e carpetes de Arraiolos que já fiz: como foi tal possível? Terei sido mesmo eu? Acho que faz sentido duvidar.

Aqui tenho andado a garimpar... mas não é tarefa fácil. Já nem me lembro dos nomes que dei a várias histórias. Ao todo, já publiquei cerca de 4.500 posts. Um horror desencantar coisas no meio disto. Por vezes coloquei etiquetas mas em muitas não. Só com alguma minúcia e muita paciência conseguiria organizar isto. Mas isso são características que não integram o meu DNA.


Portanto, depois de ter compilado todos os capítulos de Lu, a mulher infiel e da Dindinha, cansei-me de andar à pesca e lembrei-me de ir à procura de contos mais ou menos eróticos, pensando eu que isso seria canja. Sim, sim... Acho que já escrevi montes deles mas, assim de repente, só desencantei cinco. Imagine-se. Mas lá está: quando me dedicar a escrever argumentos para seriados calientes, logo me embrenho na pesquisa a material histórico. Ou, então, deixo-me de compilar prosa vintage e escrevo mas é mais contos, sempre será material de apanha recente, da saison.


Aqui deixo os respectivos links para os cinco que consegui mondar no meio do matagal que é este blog. Enjoyez.

Contos eróticos



Perigosa sedução
(a 1ª parte do post não tem nada a ver; o conto começa onde se lê: Se eu contasse ninguém me levaria a sério)



Uma historinha de um erotismo muito inocente



________________________

E queiram continuar a descer que, nos dois posts seguintes, como acima referi, há ligação directa a dois folhetins, o da Lu e o da Dindinha.

_____________________________

quinta-feira, junho 25, 2015

Como se eu fosse a árvore e tu fosses um espelho -- [Uma história levezinha entre o poético e o erótico]


Depois de um dia de trabalho, a mulher foi a um debate seguido de concerto. São normais estes convites. O local não podia ser mais agradável. Um edifício apalaçado com um grande jardim mesmo no meio de Lisboa. 

No entanto, tinha estado com uma certa dor de cabeça. Tinha acordado de madrugada, tinha ficado com calor apesar da janela estar aberta. E as muitas reuniões do dia, umas complicadas, tinham ficado a desfilar na sua mente. Isso e outras coisas. Muita vida a decorrer em muito pouco tempo, muitas camadas de vida, umas visíveis, outras ocultas, muita canseira, muito livro para ler, muitas viagens por cumprir, e saudades, e incompreensões e preocupações, e, em cima de tudo, muito sono para pôr em dia; e logo, a meio da noite, o sono haveria de se evaporar.

Finalmente, já de manhã. adormeceu. Passado um bocado tocou o despertador e, obrigada a levantar-se de imediato, não conseguiu ter um despertar progressivo e, logo ali, a cabeça mostrou desconforto.

E foi em crescendo, ao longo do dia. Desabituada de comprimidos, foi esperando que passasse por si. Mas não passou.

Portanto, pouco antes da hora de sair da empresa para atravessar a cidade em direcção ao local do evento, hesitou. Pensou que devia era ir para casa, meter-se debaixo do chuveiro, comer um pêssego e um iogurte, atirar-se para o sofá e adormecer. Mas o programa e o local eram aliciantes. Foi à copa, preparou uma infusão. Sentou-se a bebê-la devagar. Sentiu que talvez estivesse a melhorar.

Foi à casa de banho, viu-se ao espelho, avaliou-se. As olheiras estavam fundas mas nada de dramático. Foi, então, ao gabinete, desligou o computador, avisou que ia sair mais cedo. Entrou de novo na casa de banho, passou uma sombra nos olhos, nos lábios um gloss em tom nude, passou o pente ao de leve pelo cabelo de modo a mantê-lo com ar despenteado. Despiu a blusa, ficou apenas com o top. Desceu à garagem, dirigiu-se ao carro, trocou de sapatos, os de salto alto normal por outros mais elegantes, mais altos.



E arrancou.

Na rua, deixou-se ir com a janela do carro aberta. O ar fresco da tarde sabia-lhe bem. Ajeitou o retrovisor e viu-se ao espelho. De repente, lembrou-se de uma coisa. Que esquecimento. Na estação de serviço mais à frente parou. Tinha uma fita preta, larga, na carteira. Apanhou o cabelo ao de leve com uns ganchos quase invisíveis e prendeu-o melhor com a fita a que deu um nó de lado, as pontas curtas espetadas, quase um turbante. Riu. Será que já não tinha idade para isto? Riu de gosto. Pensou: que se lixe. Arrancou, prego a fundo, a janela aberta.




Na rádio, a Callas interpretava o O mio babbino caro. Perfeito.

Quando saíu do carro, vestiu o blaser. Atravessou a rua. A sala estava cheia. Sentou-se numa das filas de trás. Debatiam a futuro da Europa, falaram da Grécia, uns a favor de uma valente lição a ver se aqueles malandros aprendem, outros que o problema é político e que é melhor não abrir a caixa de pandora. Tretas. O drama grego já a servir de entretenimento de fim de dia a gestores, empresários, advogados, jornalistas. Olhou em volta. Não viu jeito de estarem ali académicos, artistas, gente desempoeirada. Tudo executivos e a fauna que os rodeia. Uma maçada.

Levantou-se, então, e foi espreitar as salas em volta. A dor de cabeça tinha desaparecido. Sentia-se, de repente, aliviada, a cabeça leve. E toda ela se sentiu leve, livre.

Começou, então, a ouvir a música. Era chegado o momento musical. Então parou. A mesma música. Espreitou. Uma jovem cantava o que tinha vindo a ouvir no carro.

Em silêncio foi avançando pelas salas. Esculturas, pinturas, belos cadeirões revestidos a tapeçaria, pesados cortinados, um conforto requintado, uma decoração que preservado a riqueza de outros tempos.

De repente, sentiu-se observada. Um homem estava junto a uma janela mas, em vez de olhar para fora, olhava-a a ela. Sobressaltou-se. Colocou a mão no peito, como se querendo acalmar o coração. Disse: 'Assustou-me...'. Ele disse apenas: 'Não fiz nada'. Ela desculpou-se 'Sou eu, sou assustadiça e também não pensei que estivesse aqui alguém'. Ele disse: 'Se quiser, vou-me embora'. Ela sorriu, 'Que ideia'.

Então ele disse 'Estava a ver o jardim, daqui vê-se um recanto, a esta hora está bonito'. Ela aproximou-se, 'Que bonito, que paz'. Da outra sala chegava o canto, a luz que vinha da rua era uma luz coada, o jardim lá fora estava envolto em dourado: um momento perfeito. A mulher ficou ao lado do homem. Em silêncio. Depois, quando ela se virou para se afastar, o homem começou a dizer qualquer coisa em voz baixa, uma toada. Ela parou, pôs-se a ouvir. Aos poucos a sua pele foi ficando arrepiada. O homem, olhando o jardim, dizia

paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.

A mulher ficou parada a olhar para ele. No fim, como ela o olhasse, em suspenso, ele disse: 'Herberto'. Ela quis sorrir mas estava quase emocionada, e surpreendida. 'E sabe de cor?'. Ele encolheu os ombros, 'Sei algumas coisas'.

Então ela aproximou-se e com ar zangado disse: 'Fez mal'. Ele admirou-se: 'Fiz...?'. Ela confirmou 'Muito mal'.

Sério, ele tentou perceber: 'E posso perguntar o que fiz eu de tão mau assim?'. Ela fez um ar ainda mais zangado, 'Não se faça de inocente. Fez mal e vou ter que o castigar'. Ele sorriu ao de leve, 'Assim? Castigo directo? Sem acusação? Sem culpa formada?'. Ela zangou-se ainda mais: 'Ora, não brinque com coisas sérias; acha que podia dizer um poema destes, num fim de dia destes, com uma música de fundo destas, a olhar pela janela para um jardim destes, e nada lhe acontecer...? Não brinque comigo...!'.

Então tirou a fita do cabelo, apeteceu-lhe sentir os cabelos soltos sobre o rosto. Encostou o homem à janela. Depois ainda ensaiou puxá-lo a si pela gravata mas, vendo o ar assustado dele, desistiu. Resolveu, então, tratá-lo bem. Chegou-se, encostou o seu corpo ao corpo do homem, sentiu que ele estava expectante, sem saber o que fazer. Ela não se importou com o espanto dele. Roçou o seu rosto pelo rosto dele, sentiu o corpo dele no seu, sentiu o calor que vinha do corpo dele, o perfume dele, deixou que ele sentisse o seu.

Depois afastou-se, virou-lhe as costas. Abriu a portada de vidro e foi para a varanda. Ele foi atrás e, cavalheiro, colheu uma rosa branca de um grande vaso; num gesto tímido, ofereceu-lhe.




Ela disse, 'Não pense que é por me oferecer uma rosa branca que está absolvido'. Ele olhou-a, 'Eu? Não penso nada. Deixei de pensar'.

Sedutora, ela brincava com a rosa, mas não abrandou, 'Quê...? Está a querer passar por inimputável...? Não... Vai ter que pagar, não pense...'. Ele disse: 'Grande foi, então, o meu pecado'. Ela assentiu, ar de caso, ' Foi. Foi mesmo. Vai ter muito que rezar'.




Depois afastou-se e virou-se para trás como que querendo, de novo, puxá-lo pela gravata, como se fosse uma trela. O homem hesitou. Ela largou-o. Ele ficou parado.

Ela avançou, entrou noutra sala, escondeu-se. Pouco depois, ouviu-o a entrar. Procurava-a e ela escondida. Quando ele saíu para outra sala, ela foi atrás dele. Via-o procurando por ela. Perseguiu-o. Ele inquieto e ela atrás, predadora.

Até que viu um outro homem, mais jovem. Disse, então, em voz alta para o diseur, que apanhou um susto: 'Então está com medo...? Anda a fugir de mim...?'. O homem disse 'Não, andava era à sua procura'. Ela disse, 'Não se arme em simpático, não pense que escapa ao seu castigo'. 

Ele riu, 'Pronto, rendo-me, faça o que quiser'. Ela disse, implacável, 'Ah pois faço... E sabe qual vai ser o seu castigo?'. Ele sorriu 'Não faço ideia'.

Ela empurrou-o para a sala onde estava o homem mais jovem e disse 'Vai ensinar-lhe um poema para ele também me dizer, quero que me digam poemas, ora à vez, ora em coro, baixinho, quase num sussurro. Quem disser melhor, ganha um presente'. O mais jovem, muito admirado, disse, 'Não sei se vou ser capaz'. Ela riu-se, ficava amoroso com aquele ar atrapalhado, o aprendiz. Ela tranquilizou-o 'Será, será. Cuidarei que o mestre seja paciente. E temos a noite toda para o ensinar'. E, maliciosa, olhou o diseur. Este corou. Ela sorriu e fechou-se lá dentro, com eles.



....

O poema é um excerto retirado de Photomaton & Vox de Herberto Helder.

"O mio babbino caro" da ópera Gianni Schicchi (1918), de Giacomo Puccini é interpretado por Maria Callas em Paris, Junho de 1963.

O vídeo, muito recente, é The AristoCrazy Collection, da campanha Outono/Inverno 2015 relativa aos elegantésimos sapatos de Giuseppe Zanotti.

____

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.

(E não é que escrever esta historinha infantil me fez passar a dor de cabeça...? 
A sério. Passou mesmo. 
Ora aí está: quando tiverem uma dor de cabeça, nada de aspirina ou ben-u-ron: 
basta escrever uma história infantil. Boa. Já tenho matéria para um paper científico)

...

sexta-feira, agosto 29, 2014

Por quem os lobos uivam. Uma história muito estranha. [Ou, talvez, mais um conto erótico numa quente noite de verão]


No post a seguir falo em Judite de Sousa que está de regresso à televisão e que reapareceu pela mão de um jovem de 29 anos, um menino de sua mãe: Cristiano Ronaldo.

Mais abaixo ainda falo também na entrevista que António Costa concedeu a Fátima Campos Ferreira, uma entrevista que ficou bem aquém da personalidade e carisma do candidato à liderança do PS.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é completamente diferente.


Cuidado. Cuidado que eles andam aí.



Cry Wolf

(o som não muito alto, por favor)





Há pouco já o referi. Estive em paz durante o dia, entregue ao prazer de nada fazer, a pele à disposição da doçura do sol que me chega coado através da ramagem fresca da grande figueira. Li, preguicei, estive de olhos fechados a ouvir os pássaros, a aragem nas ramagens, os sons amáveis desta natureza que aqui me acolhe.

Ao fim do dia, a luz fica dourada e há um calor macio que prenuncia o outono. Gosto do tempo assim, apazigua-me, há suavidade no ar e é esse ar suave que eu respiro e que se espalha sobre a minha pele. Posso estar nua para melhor sentir esta doçura pois aqui ninguém passa, a rua fica longe, 

Depois fui a casa buscar um sumo e deixei o livro em cima da espreguiçadeira. Quando cheguei, escurecia, o sol tinha entrado na montanha que me cerca. Não vi o livro. Estranhei. Depois ouvi um som, assustei-me, instintivamente peguei no vestido e encostei-o ao corpo. Reparei então que o livro estava no chão. Intrigada, olhei em volta. Atrás de um tronco, o gato espreitava-me. Ah, o safado do gato. Já nem me lembrava dele, ultimamente não tem aparecido.

Chamei-o, Bchbchbch... Ele arqueou o corpo. Perguntei-lhe, Olha lá, foste tu que vieste aqui deitar o livro ao chão, não? Ele inclinou a cabeça. Não disfarces, gato atrevido, sei que foste. Estou para saber é há quanto tempo estavas aí a espreitar-me, ó gato descarado.

Peguei num figo seco e atirei-lhe. Fugiu. Espreitei. Claro, estava em cima do muro, o muro que separa a paz da minha casa da misteriosa casa onde acontecem as coisas mais inesperadas.

Disse-lhe, Olha, hoje não vou, não me quero meter em aventuras arriscadas. Ele miou longamente. Depois saltou para o lado de lá.

Tinha anoitecido. Enfiei o vestido, enfiei umas sapatilhas e subi à árvore junto ao muro. O gato espreitava-me como se me esperasse. Olha lá, está para lá aquela gente bizarra dos outros dias? Não me quero meter em cenas estranhas, ouviste?

Não me respondeu mas olhou-me com ar desafiador. Hesitei mas depois respirei fundo e saltei. Esta minha maneira de ser, por um lado tão bem comportada e cautelosa e, por outro, tão temerária, com tanto apetite por situações de risco.

Pé ante pé lá fui. As luzes apagadas, tudo escuro. Senti uma ponta de desapontamento mas, logo depois, senti um certo alívio. Nada de mistérios e sustos, desta vez. Sentei-me naquela cadeira onde no outro dia tinha visto a mulher secreta a ser penteada por outra. Deixei-me ficar ali, olhando o muro atrás do qual está a minha casa. Pensei se quem costuma vir a esta casa sabe que do lado de lá vive uma mulher arisca que gosta de se deitar nua ao sol. Olhei em volta, o céu estrelado, a noite quente, os sons dos pássaros da noite, o rastejar de animais entre o mato. Sentia algum receio, aquele receio que me deixa alerta, quase paralisada. O gato veio deitar-se no chão perto de mim e isso sossegou-me, senti que me protegia.

Depois devo ter adormecido. 

Quando acordei ouvi sons estranhos. Saltei da cadeira. O gato tinha desaparecido. Olhei em volta, assustada. De dentro da casa vinha agora luz, uivos abafados. Um arrepio percorreu a minha pele. Ai...

Pensei que devia voltar para casa. Quando comecei a ver se tinha luz suficiente para encontrar o caminho, o coração num sobressalto, vi o gato à porta de casa. Parecia chamar-me.

Estive uns segundos a hesitar mas depois, sem pensar, segui-o. Pareciam uivos o que vinha lá de dentro. Comecei a ficar aterrada mas, quanto mais medo tinha, mais vontade tinha de saber o que se passava.

O gato ia avançando à minha frente, arqueado, alterado, percebi que ia assanhado. Pensei que algo se passava e que tomara que o gato não se virasse a mim.

Então, à medida que, pé ante pé, me aproximava do sítio de onde vinha a luz, os uivos iam sendo mais nítidos. O gato parou e eu ouvi o seu arfar assustador, parecia pronto a saltar. Fiz-lhe um sinal, para que ficasse ali.

Avancei sozinha. Nunca tinha estado naquela ala da casa.


Pela frincha da porta espreitei. 




Numa cama, uma rapariga, cabelos espalhados pela almofada, descansava abraçada ao que me pareceu ser um lobo. Estavam tranquilos. ela parecia olhar um ponto indistinto e o lobo aninhava-se docemente nos seus braços.

Que visão mais estranha.

Mas os uivos continuavam.

Espreitei por outra porta. Depois desviei o olhar. Não percebi mas também não quis perceber.




Era uma mulher quase igual à outra, mas coberta por um casaco de peles, casaco que parecia ter aberto, deixando exposto o belo corpo nu. O grande cão gania, parecia faminto. A mulher olhava-o e não se percebia se era medo, se era neutra aceitação ou se era, mesmo, provocação.

Assustada, o coração numa inquietação, que coisas tão estranhas se passavam sempre nesta casa, dei meia volta, pensei que tinha que sair dali o mais rapidamente possível. Um ambiente de perversão parecia materializar-se nestes estranhos casais. Não queria testemunhar aquilo.

Mas então ouvi um som. Parei. Tu!, ouvi mas era apenas um sussurro. Não fui capaz de me mexer. Tu, sim!, um sussurro de novo

Espreitei.




Não percebi se era um rapaz, se era uma rapariga. O corpo envolto em peles, um quase lobo, olhos claros, lábios desenhados. Olhava-me e não se percebia se era um olhar inocente, se era a pura encarnação do pecado. Quando viu que eu estava a olhar, começou a afastar devagar as peles. Era um jovem quase imberbe, imponente na sua virilidade. Fugi impressionada, cheia de medo.

Mas então, à minha frente, apareceu-me um outro. Quase nu, as calças descaídas, meio coberto por peles. Olhava-me com olhar fixo. Depois uivou.




Um arrepio de medo e não só percorreu todo o meu corpo. Começou lentamente a empurrar as calças para baixo. Depois segurou gentilmente a minha mão. Não sei se estava aterrorizada, se estava mortificada de desejo. Uivou baixinho junto ao meu ouvido. Toda eu estremeci. Despiu-me e eu deixei que me despisse. Não quis saber quem era, se era um lobo de verdade, se era alguém que me mentia, que fingia ser um lobo sedutor numa quente noite de verão. Não quis saber.




Olhei em volta com medo que o gato aparecesse e nos atacasse, mas não o vi. Do outro lado do corredor, vinha agora um uivo que era mais um estertor, o som de la petite mort.

O meu lobo, agora nu, apenas coberto de peles, abraçou-me e eu senti o seu corpo jovem e viril e ele beijou-me e a sua boca sabia a bagas silvestres e eu deixei que ele me beijasse e abraçasse e afagasse. Depois deitou-me e deitou-se ao meu lado e afagou o meu cabelo e beijou-me mais e as suas mãos de jovem fauno percorreram o meu corpo. De vez em quando ele uivava baixinho junto ao meu ouvido, depois pediu que eu uivasse também e eu uivei mas o uivo saíu-me rouco e ele beijou-me com mais força e eu senti-me bem, senti-me bem até ao fim, muito bem. 

A seguir, quando me levantei e disse que tinha que me ir embora, ele separou-se da sua pele e cobriu-me com ela. Depois vestiu-me as suas calças, Depois foi buscar um pano preto e passou-o em volta do meu pescoço.




E disse-me, Fico aqui à tua espera. Vai e volta, traz-me a minha pele que agora é a tua pele, traz-me o teu corpo, o teu olhar, vem que quero ensinar-te a uivar. E beijou-me uma vez mais.

Não sei quem ele é, não quero saber se me mente, se me faz promessas que não vai cumprir, não sei se vou voltar a vê-lo. Não sei se os seus uivos sussurrados no meu ouvido são verdadeiros ou se são puro descaramento. Não quero saber. E, se me está a mentir, pois que minta, que minta para eu me sentir ainda mais livre.


Quando saí, o gato estava à porta. Dormia. Tentei acordá-lo. Ignorou-me. Assustei-me, temi que não estivesse vivo, bati-lhe ao de leve com o pé. Arfou, ameaçador, e voltou a enroscar-se sem me olhar.

Atravessei o caminho que levava até ao muro, a luz das estrelas quase me deixava ver ou talvez estivesse já a raiar o dia. A boca sabia-me e ainda me sabe a amoras.

E aqui estou para vos contar como esta noite dancei com lobos e como me estou a preparar para aprender a uivar.

Uhuuuu, uhuuuuu.......

.

_____________________



Para os mais sisudos, que não apreciam estas minhas derivas nocturnas e tresloucadas, aqui vos deixo um filme maravilhoso. Mete lobos mas não mete maluquice. 


Como os lobos mudam os rios






[When wolves were reintroduced to Yellowstone National Park in the United States after being absent nearly 70 years, the most remarkable "trophic cascade" occurred. What is a trophic cascade and how exactly do wolves change rivers? George Monbiot explains in this movie remix.]


____


A música lá em cima é Melody Gardot interpretando Cry Wolf


A rapariga com lobos é Lara Stone fotografada por Mario Sorrenti.

O primeiro rapaz-lobo é David Fair fotografado por Milan Vukmirovic. O segundo, o eleito, não sei quem é mas sei que foi fotografado por Mario Testino.

As duas últimas fotografias mostram Kate Moss fotografada por Patrick Demarchelier

___


Relembro: se continuarem por aí abaixo encontrarão referência a duas entrevistas: em primeiro lugar o regresso de Judite de Sousa depois do seu período de luto, entrevistando Cristiano Ronaldo; depois a morna entrevista de Fátima Campos Ferreira a António Costa.


___


E, assim sendo, por agora por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
E cuidado com os lobos. 
(....Uhuhuuuuuu.... uhuhuuuuu....)


-

quarta-feira, agosto 13, 2014

Três mulheres disponíveis e um fotógrafo amador. Quase podia ser um quarteto. Mas não é porque há ainda uma fotógrafa acidental e um gato. A história continua a percorrer caminhos muito estranhos. [Poderá isto ser chamado um conto erótico?]


No post a seguir a este, relatei a extraordinária entrevista concedida por Miguel Reis, o advogado que agitou as águas da informação divulgando as Actas do Banco de Portugal, a uma Ana Lourenço (humildemente) surpreendida. Cá para mim, estamos em presença de um maluco que ainda vai dar que falar. De repente, parece que alguém sem medo, com voz própria, se levanta e chama os bois pelos nomes. Ana Lourenço acabou a entrevista fazendo uma vénia verbal, Chapeau, e eu digo o mesmo, Chapeau, Miguel Reis. Demorou...

Mas isso é mais abaixo, a seguir a este. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito outra.


Hit the Ground





Dias mais aborrecidos estes. Nem chove nem faz sol, nem faz frio nem faz calor. Um dia destes estarei de férias mas, por enquanto, ainda ando a amargar. Trabalhar nesta altura é difícil. Começam a chegar, bronzeados e bem dispostos, os que já gozaram o merecido descanso e outros, todos lampeiros, adeus até ao meu regresso e lá vão. E uma pessoa ao serviço, desertinha por se também se pôr ao fresco. Mas ainda faltam uns dias.

Para tentar atenuar o sacrifício, mal saí da empresa ao fim do dia, meti-me no carro e com vontade de ir a voar baixinho mas comedida não fosse ainda ser multada, lá fui para o meu refúgio.

Quando lá cheguei, já começava a anoitecer mas a lua cheia prometia iluminar a estrada deserta.

Antes de chegar à minha casa, passei pela quinta que já não posso dizer que está abandonada, direi apenas que é misteriosa.

Como já expliquei, a casa é recuada face à estrada e há um arvoredo alto entre ela e o muro. Por isso, de fora não há visibilidade do que lá se passa. Sempre pensei que estava desabitada e, afinal, já tive algumas surpresas.

Quando ia a passar no carro, a curiosidade levou-me a abrandar. Tentei espreitar mas não vi nada. Depois saí do carro e espreitei pelo portão. Pareceu-me ver alguma luz através dos cedros mas não consegui confirmar. Um bocado a medo, nunca se sabe que estranha gente lá se acoita, enfiei-me à pressa no carro e segui para minha casa.

Como sempre faço, mal entro em casa descalço-me e é como se baixasse à terra. Na cidade não passo sem saltos altos mas, mal piso porto seguro, a primeira coisa que faço é ver-me livre deles. Depois tirei relógio, brincos, colar, anéis, depois o vestido, depois o resto. Enfiei-me debaixo do chuveiro e ali fiquei uns bons minutos. Eu sob uma cascata, a lavar-me de canseiras, de preocupações. Era bom que fosse no Gerês mas paciência, era na casa de banho da minha casa e soube-me bem.

A seguir enrolei-me numa toalha e, assim mesmo, fui pôr-me à janela a olhar a grande serra que me envolve e ampara. Depois deixei cair a toalha, apeteceu-me sentir-me banhada pelo luar. Tenho destas coisas, nem é bem bucolismo, é mais um regresso às origens, ter vontade de ser pouco mais do que um dos animais que habita aquele espaço.

Passado um bocado, pareceu-me ouvir passos, um restolhar. Assustei-me, ainda pensei apanhar a toalha mas nestas ocasiões o medo paralisa-me. Depois um vulto voou à minha frente. Era o gato que tinha saltado para a árvore perto da janela e, num ramo, desafiador, me olhava. Quando me quer provocar, agacha-se, como se espreitasse a minha reacção.

A seguir deu novo salto para o chão e pôs-se a andar devagar e a olhar para trás, como se me convidasse a segui-lo. À pressa cobri-me com uma capa de pêlo, calcei umas sapatilhas, abri a portada que dá para a rua e segui-o. Claro, dirigiu-se ao muro que separa a minha da outra quinta. Está a tornar-se um clássico. Trepei à árvore, passei para o muro e, arriscando-me a partir um pé, saltei. O gato estava à minha espera.

Só depois de saltar, pensei que uma vez mais estava a arriscar-me demais. Da casa vinha uma luz, várias janelas levemente iluminadas. O gato arqueou a coluna, ergueu a cauda, silencioso, cúmplice, e eu, silenciosa também, fui andando, naquele misto de medo e excitação. Não sei o que me leva a correr estes riscos.

Da casa vinha uma música lenta e eu avancei até à porta. Cheirava-me levemente a tabaco. Não ouvi vozes, apenas uma música vinda não percebi bem de onde, baixa mas audível, envolvente, cheia de silêncios. O gato avançou rente a uma parede e eu como ele, quase como se me preparasse para assaltar a casa. Fui em busca da música, desci umas escadas. Estava agora numa cave. Parecia um outro mundo. Paredes forradas de um papel vitoriano, apliques nas paredes, uma alcatifa do século passado, veludos. A música era agora mais audível. O coração batia-me descompassado, o gato gemia.

De repente dei um salto, o meu coração quase parou. Uma mulher olhava para mim. Imóvel, presa no tempo. Ainda esbocei um leve cumprimento mas era como se não me visse.

Parecia que posava para um pintor ou para um fotógrafo. Com uma lingerie provocante, lábios pintados, olhos pintados, cabelos caindo sobre os seios.

Desconcertante.

Devia ter idade para ser minha mãe. Reparei que tinha uma carteira nas mãos.

A pose era sensual, a expressão também. Mas ignorava-me, como se estivesse em frente de um fotógrafo inexistente.

O gato afastou-se, pêlo eriçado.


Afastei-me.

Mas logo a seguir outro susto. Na divisão ao lado, uma outra mulher, talvez da mesma idade. Se estivesse mais calma ou se percebesse o que estava ali a passar-se talvez conseguisse elaborar um raciocínio e concluir que as mulheres são sensuais em todas as idades. Contudo, apanhada desprevenida, pareciam-me patéticas, talvez mesmo grotescas.

Sobre uma pele de urso no chão, de joelhos, esta outra mulher parecia desnudar-se, seios fartos, olhar disponível, cabelos orgulhosamente grisalhos. Pensei que esta me fosse falar, tentei esboçar um sorriso, aproximei-me com vontade de perguntar o que se passava ali.

Mas a mulher continuou a esboçar um leve sorriso como se não me visse e apenas estivesse interessada em qualquer outra coisa.

Intrigada e trémula, como se qualquer coisa de estranho estivesse para acontecer, afastei-me de novo. Pensei que deveria sair rapidamente daquela casa. De onde tinham saído aquelas estranhas mulheres?

Mas, por uma porta entreaberta, pareceu-me perceber haver ali  uma casa de banho e decidi entrar.

Outro susto, outro salto, e o gato, aflito, gemeu.

Num pequeno alguidar cheio de espuma, uma mulher sentada, nua. De olhos fechados, nem se mexeu com o meu grito. Continuou em pose. Pensei que deveria ter posto um banquinho dentro do alguidar para poder sobressair. A espuma cobria os pesados seios. Pensei, as mulheres ficam com os seios maiores, mais pesados, quando atingem a menopausa. Tinha barriga mas era elegante na forma como elevava os braços acima da nuca e esticava a ponta do pé.

Pensei que pareciam todas a mesma mas não podiam ser. Mas depois pensei que naquela casa acontecem coisas muito estranhas pelo que talvez eu estivesse mesmo perante um fenómeno raro.

Enchi-me de coragem e disse, Boa noite.

A mulher manteve o meio sorriso, a pose, e nada me disse.

Aproximei-me. Peguei numa escova, molhei-a na espuma e passeia-a sobre o seu corpo. A espuma era perfumada. A mulher encolheu-se muito ao de leve mas depois retomou a pose silenciosa e sensual.

Um pouco enervada, perguntei-lhe, Mas o que é que se está aqui a passar? Está tudo doido ou quê? 

Então a mulher abriu os olhos, sorriu e disse, Estamos à espera do Tomás. Uma vez por mês, ele vem. Costuma vir a esta hora, fotografa-nos e depois faz amor com aquela que ele achar que ficou melhor, mais ousada, nas fotografias. Chega e começa a fotografar, não gosta de esperar. Gostamos de lhe agradar. Nos dias em que vem mais bem disposto ou em que nós estamos mais atrevidas, juntamo-nos todos e é uma festa.

Eu nem queria acreditar no que ouvia. Não era possível. Só podia ser piada.

Mas a mulher disse-me, Dispa-se. Tire essa capa. Escolha um quarto e espere também pelo Tomás.

Não o fiz, claro. Mas fui até outro quarto e procurei roupa. Se esse tal fotógrafo obsceno aparecesse não queria que me visse quase nua.

Encontrei vestidos incríveis. Vesti-me, apanhei o cabelo, maquilhei-me. O gato andava à minha volta, inquieto.

Deixei-me ficar assim, imóvel, silenciosa, encostada ao roupeiro.

Passado um bocado, ouvi passos apressados, alguém que descia as escadas quase a correr.

O gato miou, nervoso. O meu coração quase parou. Senti-me gelar de medo.

Ouvi que entrava num dos quartos, ouvi a máquina a disparar. Nem uma palavra nem dele, nem da mulher. Depois ouvi-o a passar para outra divisão. A mesma coisa.

E assim continuou até que, quando ele estava a regressar a uma das divisões onde já tinha estado, talvez a ir ter com a contemplada, e eu já pedia por tudo que ele não me visse, viu-me. Estacou, admirado. Olhou-me.

E eu, vendo-o assim, desejei que ele também me fotografasse. Ele aproximou-se. Perguntou, De onde apareceu você?

Eu, quase sem voz, respondi, Saltei de uma árvore para um muro e do muro para aqui.

Ele riu. Boa explicação. E posso perguntar o que está  a fazer aqui?

Respondi, e o susto já estava a transformar-se em malícia, Quero que me fotografe para ver se ganho um prémio.

Ele riu.

Olhou-me. Sustentei o olhar.

Então disse-me, Tem roupa a mais.

Despi o vestido. Fiquei nua. Olhei-o de frente, desafiadora. O gato gemeu.

Quando ele acabou de me fotografar, eu disse, Agora vou vestir a minha capa e vou-me embora, mas, antes, vou esperar para ver qual a sua escolhida. 

Ele disse, a voz rouca, A escolhida é você.

Previsível. Desiludiu-me, claro, gosto de ser surpreendida.

Tirei-lhe a máquina fotográfica e disse-lhe, Eu não. Eu sou apenas uma fotógrafa amadora. Vá. Quero fotografá-lo enquanto entrega o prémio.

Ele olhou-me admirado. Mas foi.

Foi ter com a primeira mulher.

Fez-lhe uma festa nos cabelos, despiu-se, beijou-a, ela deixou-se beijar, bela, intemporal como todas as pessoas nos momentos de prazer. Deitaram-se.

A mulher ignorou-me, totalmente entregue a ele. As outras aproximaram-se, espreitavam atrás da porta, voluptuosas no seu desejo não satisfeito.

Enquanto isso, eu andava em volta da cama, a fotografá-los. De vez em quando, Tomás olhava-me, tentador, mau rapaz. Captei esse olhar. Captei o seu corpo. Captei-o a olhar-me enquanto saciava a outra mulher.

Depois pousei a máquina, afastei-me, corri pelo jardim, a lua iluminava-o bem, o gato corria atrás de mim, subi pela fonte, trepei o muro, passei para a árvore e agora, coração ainda acelerado, aqui estou para vos contar.

Não acreditam...?


_____


A música é Hit the Ground na interpretação de  Lizz Wright. 

As fotografias, excepto a primeira, são do fotógrafo holandês Erwin Olaf.


___


Permitam que relembre: descendo até ao post já a seguir poderão ler sobre as inesperadas afirmações de Miguel Reis, o extraordinário advogado que chegou com estrondo à actualidade política nacional, numa entrevista de Ana Lourenço na SIC Notícias.


___


E, com isto, me vou. 

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

_

sábado, agosto 02, 2014

Perigosa sedução [ - e a história vai ficando cada vez mais estranha; nem sei até se não abra uma nova rubrica: Contos Eróticos]


No post abaixo escrevi sobre a intervenção estatal no BES 
(quando escrevi grande parte do texto ainda não sabia que já era dada como certa e, no fim, estava a escrever e a ouvir a notícia que a confirmava),
intervenção essa que vai salvar o banco e evitar um muito sério colapso generalizado
(porque se já tivemos em Portugal algum verdadeiro risco sistémico este é, sem dúvida e desde o início, um desses casos)
e já lamentei que à frente das instituições relevantes do País estivessse gente tão mentalmente débil que só percebeu isto depois de milhares de milhões de perdas, e já me indispus com o desavergonhado do Gomes Ferreira a falar como se o que agora apareceu a dizer fosse o mesmo que diz desde o início.

E falei de mais não sei o quê.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Deve ser pela preocupação que este caso de polícia me tem andado a dar, parece que a minha cabeça, quando se quer evadir, só vai para jardins proibidos. Por isso, vocês, meus Caros Leitores, pensem bem antes de vir comigo.


Finisterre




Se eu contasse ninguém me levaria a sério. Por isso escondo e apenas em segredo, aqui à noite, escrevendo quase às escuras num pequeno computador, entre livros, o confesso. Não pretendo que acreditem em mim. Pensem que isto é uma história saída da cabeça de uma louca.

Digo que escondo mas, para ser honesta, não escondo já que não tenho junto de quem esconder. 

Às vezes, para não perder o hábito de falar, leio em voz alta. Outras vezes, converso como se tivesse ao meu lado um interlocutor atento. Por vezes, acabo por me calar pois quase me parece ouvir uma voz respondendo e tenho medo de estar a enlouquecer.

De vez em quando, saio para comprar comida mas cada vez mais me alimento de comida crua, fruta, bagas, coisas assim. A comida cozinhada já me parece um artifício que não se enquadra no meu regime de vida, quase um bicho vivendo em plena natureza. Aproveito também para comprar pão e queijo ou outras pequenas coisas que a senhora do pão traz na carrinha. Por vezes, para não ter que me vestir e pentear e, pior, falar com ela, deixo um saco com um papel e uma nota do lado de fora do portão e ela deixa os produtos e o troco. É uma boa mulher, gorda e asseada, mas muito faladora e a voz humana, de facto, começa a ser-me estranha.

Mas ontem aconteceu algo muito estranho. Estou aqui para o contar e, portanto, estou bem, sobrevivi. De resto, já poucas coisas me afectam.

Depois de almoço, deitei-me numas almofadas que estão no chão, debaixo da figueira. Adormeci. Durmo pouco de noite e, portanto, ao princípio a tarde tenho sempre sono.

Quando acordei, fui dar uma volta pela periferia do terreno da quinta; gosto de ver como as árvores rebentam, as ervas florescem ou secam, descobrir novas tocas, observar ninhos e o voo das borboletas. Por vezes, detenho-me imóvel a olhar a dança das nuvens ou o recorte da copa das árvores e, junto aos meus pés, passam coelhos que já não me estranham.

Ao regressar e estando a passar pelo muro que separa as duas quintas, ouvi estalidos, vozes. Subi de novo à árvore, espreitei. Não vi nada de estranho mas percebi vozes de homem. Tentei ver a mulher de cabelos brancos que talvez fosse a mesma que a mulher vestida de branco que me deu banho no outro dia mas não a vi. Então, sem pensar, passei para o muro e voltei a saltar para o lado de lá. Pensando nisto, percebo que estou a adoptar cada vez mais comportamento de bicho, um dia viverei talvez dentro das árvores ou no desvão de uma rocha.   

Fui andando. A correr vindo não sei de onde, apareceu o gato traiçoeiro. Eu tantas vezes sozinha e ele nem sei onde e, naquela altura que eu queria silêncio, apareceu-me ele. Quis vir roçar-se em mim mas ignorei-o. Tinha todos os meus sentidos apurados para descobrir de onde vinham as vozes, para ver se via sem ser vista. O gato miou num lamúrio. 

Ao de leve subi as escadas gastas, devagar, silenciosa. De dentro vinham risos, homens. Pensei, será que a mulher de branco está no meio deles? Até que percebi que as vozes vinham da grande divisão ao fundo. Esgueirei-me e vi-os. Ouviam música, estendidos, rindo.

Sem pensar, e que bom é não pensar, que bom, que bom, fui até ao quarto da mulher de branco. Pensei, estará lá? Mas não, o quarto estava vazio e desolado como se não fosse habitado há mil anos.

O gato arqueou as costas, roçou-se pela parede.

Abri a arca, escolhi umas peças. Despi o vestido largo que trazia e coloquei uma cabeleira, coloquei colares, enfeitei-me com véus, chapéus. Olhei-me ao espelho. Não era eu de novo. Ou talvez esta, esta que agora se vem fundindo com o céu na terra, seja eu.

Reparei como o meu olhar era desolado.

As vozes dos homens ao fundo não me incomodavam mas sabia que era para eles que me estava a preparar.

Despi-me de novo.

Deixei ficar a cabeleira branca, enfeitei-me de branco, véus, rendas.

Quis-me virgem, puríssima, sôfrega. Olhei-me no espelho.

Os olhos tinham já alguma vida. A pele nua, os risos masculinos, o risco - que melhor alimento para um olhar convidativo? E o meu olhar convidava. Convidava-me a avançar.

Despi-me. Nua, calcei umas botas altas. Gostei de me ver assim.

O gato olhou para mim e começou a lamber-se. Em surdina disse-lhe Não prestas...

Depois, destemida, nua, e como se a minha nudez fosse a coisa mais natural deste mundo, entrei na divisão onde os homens conversavam e riam.

Levantaram-se de um salto. O gato gemeu.

Fiz-lhes um gesto para que se sentassem. Sentei-me também.

Os homens olharam-me em silêncio. Percebi que trocavam olhares intrigados. Um perguntou, De que sonho é que esta mulher saíu? Os outros riram-se, um riso pouco à vontade.

Eu não disse nada, sentia-me como se tivesse vindo, de facto, de um mundo irreal, como se fosse normal não os perceber nem saber falar a língua deles.

Entreolharam-se, um disse, Será que não nos percebe…? E outro acrescentou, Ou não nos ouve…? Continuei a olhá-los como se não os ouvisse ou percebesse. Acercaram-se de mim.

Tapei os seios, cruzei as pernas, um súbito pudor. Um deles deitou-se aos meus pés e eu fiz de conta que isso me deixava indiferente. Mas claro que não deixava. Um outro debruçou-se sobre a mesa onde eu apoiava um dos braços e disse-me Posso ver se o seu corpo é de porcelana ou se é uma mulher de verdade? Continuei a olhar em frente e nada disse.

O homem que se tinha sentado aos meus pés, encostou a cabeça à minha perna nua, desabotoou a camisa. Fiz de conta que o ignorava.

Um outro que bebia sem parar, disse, O que temos que fazer para perceber quem és tu?

Pensei que talvez a voz não me saísse se tentasse falar. Por isso hesitei. O que se tinha debruçado sobre a mesa, disse, Ela não é de cá. O que bebia disse, Talvez seja de um outro mundo mas eu estou com vontade de lhe pôr as mãos em cima.

Então eu disse, Quero armar-vos meus cavaleiros. Vão ao quarto lá ao fundo e vistam-se decentemente. O do vinho soltou uma gargalhada. Os outros levantaram-se, admirados, como se estivessem na presença de uma aparição.

Mantive-me a olhar em frente. Sei que parecia indiferente - mas claro que não estava.

Obedeceram. Os homens obedecem sempre quando pensam que vão receber uma recompensa. Saíram da sala. O gato apareceu, ronceiro, miando baixo, suspirando.

Algum tempo depois apareceram. Vinham com casacos de veludo, alamares dourados, e estavam belos, dóceis, prontos para serem domesticados.

O que tinha estado a beber vinha à frente, descarado, gingão. Castiguei-o, A si não vou armá-lo, não tem perfil para isso. Ele deu outra gargalhada. Perfil? Mas quem é que falou em perfil? Fico mesmo melhor é de frente.

Com o olhar repreendi-o. Volte para trás e vá buscar uma pequena harpa que está junto à porta da entrada.

Ele estacou: Está a gozar comigo! Música? Não. Não sou homem de dar música.

Fui inflexível: Ou isso ou nada. Teria que sair da sala.

Obedeceu mas antes disse: Vai pagá-las.

Secamente respondi-lhe: Vamos ver quem paga a quem.

Algum tempo depois, apareceu com o instrumento musical. Ordenei-lhe: Sente-se atrás de mim e toque qualquer coisa. Desafiador, perguntou: Música celta, pode ser? Disse-lhe que sim, Se é o que sabe tocar. E ele tocou. O meu corpo deixou-se cobrir pela música que vinha dos seus longos dedos.

Os outros aguardavam passivamente. Sempre com um braço a cobrir-me os seios, ordenei-os meus Cavaleiros. Disse-lhes, depois: Sois agora cavaleiros da ordem do Infinito Perfeito. Podem beijar-me os joelhos.

Assim o fizeram. Depois disse-lhes que se sentassem à minha frente, sossegados. O gato gemeu. A seguir disse ao outro que parasse de tocar e viesse também beijar-me os joelhos. Ele disse que sim mas, quando estava à minha frente, pegou no meu braço, o braço com que eu me cobria, e pousou-o no braço do cadeirão. Fiquei assim, olhar indiferente, despida. Quando ia beijar-me os joelhos, repreendi-o de novo, Que falta de educação a sua. Então não sabe que, não sendo Cavaleiro, antes de me beijar os joelhos, deverá beijar-me os mamilos? Notei que enrubesceu. Depois olhou-me nos olhos. Enfrentei o seu olhar. Ele então, com uns lábios delicados e uma língua educada, beijou-me os mamilos. Ao fim de algum tempo, eu disse-lhe, Está bem. Já chega. Pode agora beijar-me os joelhos.

Acabou por lá chegar.

Os outros olhavam-nos sem uma palavra. O gato estava deitado, como se estivesse a dormir mas, conhecendo-o como já o conheço, sei que estava apenas a ser discreto.




__


A música é Finisterre por June Tabor.

As fotografias, excepto a do gato, são de Steven Meisel.

___

Relembro: sobre a nacionalização do BES (as voltas que a história dá) é descer, por favor, até ao post já a seguir.

___


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. 
E, se encontrarem por aí algum Cavaleiro da ordem do Infinito Perfeito, digam para vir ter comigo, se faz favor. 


sexta-feira, agosto 01, 2014

Uma mulher solitária em toda a sua nudez (- ou uma história ainda mais estranha)


No post abaixo já me interroguei sobre o que leva gente inteligente que é tida por boa gente a agir como se de bandidagem encartada se tratasse. E já falei da regulação-ceguinha e da comunicação social-papagaia. E do cherne que agora age como um esmoler. E já deixei mais uns quantos desabafos.

Hoje está a dar-me para o sentimento. 

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora, vou partir para outra. Quando isto me acontece, vou à aventura, sem saber para onde vou. Não sei se vos diga que venham comigo porque não garanto que vá por bons caminhos.





Nos dias de muita solidão, a minha alma fica inquieta. Sinto frio, enrolo-me em écharpes que desdobro como se fossem cueiros e eu um bebé que nenhum colo abriga. Dobro-me sobre mim própria, ouço os pássaros e o sopro das árvores, espero que um canto venha de dentro da terra para me embalar.

Mas não há alento que me acuda. A inquietação invade o meu corpo. Tenho medo. Imagino-me velha, sozinha, doente e abandonada. Ninguém chorará a minha ausência. Há quantos dias aqui e nem uma voz, nem um afago. Será assim até ao fim dos meus dias?


A minha solidão alimenta o meu desânimo.

Já não choro. O choro tem que ter um motivo, querer despertar compaixão ou agredir quem nos agride. Quando se está sem ninguém, as lágrimas secam, tal como seca a saliva que elanguesce os lábios. Tudo seca. O corpo seca. Os meus seios que ninguém contempla ou toma nas mãos secam. Os meus cabelos secam, tristes, incertos. O meu ventre, o meu triste ventre, onde ninguém navega, secou, há muito que perdeu as marés, a espuma luminosa que sabia a mar.

Mas outros dias há, raros, raros, em que um sol mais alegre, um sopro de vento nas árvores que levante uma música alada, um salto mais atrevido do gato, me despertam e me levam a querer sentir o prazer de estar viva.

Nesses momentos, desabituada que estou de me controlar, saio pelos caminhos como um loose cannon, e vou à toa, desatinada, imprevisível como uma louca inocente.

Aconteceu no outro dia e vou contar-vos.

Comecei a correr e o gato à minha volta, eu nua, o gato assustado, e eu a rir, livre, pássaro solto, bicho sem dono.

Depois o gato deu um salto, saltou o muro e eu, sem pensar, peguei no largo lenço que ficara caído no chão, enrolei-o à volta do corpo, afoita subi a árvore junto ao muro, e, louca, louca, saltei.

Do lado de lá, o gato olhava-me, nervoso, pêlo eriçado. Estranha eu nos seus territórios, estranha eu mulher doida, umas vezes toda silêncio e sombras e agora tão infantil e sorridente. E estava sem medo, a vida a correr-me louca nas veias, o cabelo a voar à minha volta como uma alegria sem razão.

Da casa vinha uma música. Lá de dentro. Uma música estranha. Crianças cantando? Anjos brincando? Ou a alucinação de uma louca desbragada que saltava muros, voava como os pássaros, dançava com gatos?

Sem cuidados, quase nua, entrei na casa. É uma casa abandonada, bela e decadente. Fui avançando devagar. Fui vendo as paredes sem tinta, o soalho desgastado, as portas altas com a bandeira oca. Ah que beleza uma casa abandonada. Espreitei por uma das janelas. O mato lá fora mal se via pelo vidro quase fosco de tão sujo. A voz soava, eram anjos, eram, e eu, sem medo, andando pela casa assombrada.

O gato caminhava a meu lado, silencioso, inquieto. 

Então, vi um vulto. Não parecia ser deste mundo. Seria a mulher que vira na varanda? Não sabia. Um vulto branco olhando-me com um olhar branco.

O gato deu um salto e depois atirou-se para o chão, como que querendo deixar de ver.

Fiquei parada. Esperei. Noutros dias teria ficado gelada, morta de medo. Naquele dia não. Ousada, louca, inocente.

Era uma mulher muito jovem, rosto quase de criança. Não disse nada. Segurava um brinquedo e eu aproximei-me para o ver melhor. Sem deixar de me fitar, ela estendeu-me o brinquedo, os lábios entreabertos. O corpo coberto de branco, virginal e impudica, a oferecer-me o seu brinquedo.

Fiz-lhe uma festa na mão como se faz um afago a uma criança ou a um animal desconhecido. 

Depois ela deu-me a mão, levou-me até a uma casa de banho de azulejos verdes e reparei como esta divisão da casa estava tão estranhamente limpa.

Encheu a banheira e esperei. Num canto da banheira estava outro brinquedo. Pegou nele e, sem uma palavra, deu-me.

Enquanto a banheira se enchia, fui brincando com a figurinha colorida. Depois puxou o pano que me cobria e eu fiquei nua, sem vergonha.

Então, levou-me para dentro da banheira, entrou também na água, vestida, colocou o brinquedo aos meus pés e começou a lavar-me. Deixei.
O meu corpo há muito tempo que estava carente, ansiando por um toque humano, por um gesto de atenção, que alguém me lavasse com desvelos mil.
De olhos fechados, cabeça inclinada para trás, senti a água morna a envolver-me o corpo, as suas mãos gentis a lavar-me o pescoço, os braços, o peito, as pernas.

A seguir, saíu da banheira, ajudou-me a sair, secou-me, depois mudou de roupa, voltando a vestir uns estranhos vestidos e aventais brancos e, levando-me pela mão, sentou-me, nua, e começou a secar-me o cabelo. Gosto que me mexam na cabeça. Tão bom.

Reparei que o gato espreitava atrás da porta. Descarado, a cauda empertigada,  todo ele exibia a sua vadiagem. Tive vontade de sair a correr para o apanhar, insultá-lo, gato descarado, sem vergonha, seu bandido que me espreitas e desafias!, mas deixei-me estar entregue às mãos da ninfa bondosa, etérea e branca.

Quando acabou de me pentear, voltou a conduzir-me. Era o seu quarto. Procurou uma roupa igual à sua, vestiu-me, e eu, submissamente deixei-me vestir. Abotoou com cuidado cada botão, ajeitou as fitas, e eu sentia os mamilos arrepiados debaixo do algodão branco, e então vestiu-me uma saia franzida e ajeitou o franzido e eu pensei, estou sem cuecas, mas não achei mal, depois colocou-me uma touca também branca, e ajeitou os bicos da touca, e depois olhou-me com aquele seu olhar abandonado.

Pensei, eu devia agradecer os cuidados que ela está a ter comigo e, então, aproximei-me e beijei os seus lábios. Estavam mornos e sabiam a amoras. Ela deixou que eu a beijasse mas era como se o seu corpo estivesse muito longe dali.

Quando acabei de a beijar, o gato olhou para mim e soltou um miado como se gritasse de horror. Depois saíu a correr e foi pôr-se a gemer na varanda. Quando ia aproximar-me da janela para o ver, a mulher de lábios com sabor a amoras puxou-me pela mão e pôs-se a meu lado em frente a um espelho. O meu rosto tinha-se transformado. Não me reconheci. Tinha perdido muitos anos, toda eu era inocência e espanto. Mas o mais estranho é que estávamos quase iguais e, de facto, não consegui perceber qual das duas era eu.


___


A música é Gallows pelas CocoRosie

As fotografias são da autoria de Steven Meisel

___


Relembro: a seguir a este post, há desabafos e interrogações sobre a natureza humana, sobre a impunidade, sobre a cegueira, sobre a inércia. É o BES, os homens do Espírito Santo, o Durão, o Carlos Costa, os deputados, os pseudo-jornalistas e toda esta triste sina portuguesa. E o novo comissário europeu, a tal mulher que Juncker tinha pedido para a sua corte.

_____

E, por agora, por aqui me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira.
Se puderem, divirtam-se. 
Ah, é verdade: cuidado com os gatos..