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sábado, fevereiro 24, 2024

Debate geral pré-campanha eleitoral.
Para o vencedor, o Carlos Daniel, um post todo florido

 

Apesar de estar aguaceirento, achei que se poderia estender a roupa. O meu marido entendia que era perda tempo pois, não tardaria, a chuva viria. Arrisquei. Entre as sessões de pingaria, a aragem e o tímido sol tratariam da saúde à roupa.

E assim foi. Secou que foi uma beleza. De vez em quando era borrifada mas, logo, logo, vinha um ventinho saudável que a secava.

Não deu foi para me pôr estendida a apanhar sol pois a friagem estava de apertos. Tive que ir buscar uma camisolinha mais aconchegante.

O dia foi a modos que assim, com coisas para tratar, e tratei delas, um conjunto de mails, uns telefonemas, um certo expediente, mas, em relação a algumas matérias, sem saber se alguma coisa vai ficar tratada. Mas paciência, é o que é, há coisas que, se calhar, serão mesmo na base da tentativa e erro. 

As caminhadas também foram híbridas, metade à chuva e outra metade com ela escondida a ver se aparecia. Mas bem belas, fresquinhas, revigorantes.

Mas as flores despontam por todo o lado e até uma que eu julgava que era bonita apenas pela rubra folhagem agora saiu-se com um golpe de mágica e surpreendeu-nos com uma cobertura altamente imprevista. Até tive que ir informar-me para não passar pela ignorância de desconhecer que planta misteriosa aqui tenho. É a Loropetalum chinensis Fire Dance. Quem diria?

[É a primeira fotografia, a que está à esquerda]

A magnólia também está exuberante, flores que parecem de papel, fabricadas por laboriosas mãos. Lindas, lindas.

[É esta aqui ao lado, à direita]

Não falo das camélias. Aborrecem-me. São muito bonitas mas inaceitavelmente efémeras. Não se aguentam bonitas. Atiram-se logo para o chão. 

[É esta aqui abaixo, também à esquerda]

E já nem falo dos jasmins. O amarelo é luminoso mas discreto, não exala aquele perfume que inebria. O outro, o fúcsia e branco, é insolente. Parece coisa miúda mas as florzinhas ficam numa excitação perfumada. Quando passamos por ele não consegue passar despercebido, perfuma o ar que é uma indecência. É um perfume controverso. Ao princípio estranhei. Agora, não é que se tenha entranhado mas aprendi a gostar dele. O meu marido acha que o cheiro é doce e intenso demais.

[É a quarta e última fotografia]

Quando passeamos pelas ruas, em especial à noite, há, por todo o lado, um perfume bom, delicado, um cheirinho suave que se mistura com o mistério das penumbras. Talvez seja a primavera que não consegue esperar pela sua vez, que já aí está.

Tirando isso, o que posso dizer é que parece que continuo a modos que preguiçosa, parece que me falta aquela energia que me levava a fazer mil coisas por dia. 

Por exemplo, tinha pensado ir tirar dos sacos os livros que vieram ontem para identificar os que ainda não tinha cá em casa, para arrumar esses nos sítios devidos, deixando os repetidos numa estante que está na cave para os meus filhos poderem ir escolher para eles ou para ficarem para, mais tarde, os meus netos. Mas não consegui ânimo para tal. Lá continuam.

Em contrapartida, consegui mover-me para a história que ando há séculos a escrever e que já dei por finda mas que tem que ser lida, relida, rerrelida. Mas a verdade é que estou naquela fase em que, para fazer qualquer coisa, tenho que pedir licença a uma mão para poder mexer a outra. Mal me reconheço, confesso.

E não falei ainda dos passarinhos que andam numa animação, esvoaçam e cantam que é uma alegria. E o meu marido ontem disse que tinha passado ali uma andorinha. Fiquei muito contente e a desejar que ocupem um dos ninhos para poder vê-las muitas vezes.

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Quanto ao debate, o que me apraz dizer é que o Carlos Daniel provou ser um dos melhores moderadores da nossa televisão. Esteve sempre bem, muitos furos acima de qualquer dos outros. E, quando me refiro aos outros, não estou apenas a falar dos outros moderadores nos anteriores debates. Refiro-me também aos moderados. Lamento dizê-lo.

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Ludovico Einaudi - Birdsong from DAY 2


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Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Beleza. Paz.

sexta-feira, setembro 15, 2023

Passarinhos (uns esvoaçantes e outros cagões), uma arvorezinha despistada, e eu sem saber como, dentro de água, me manter direita como um fuso enquanto bato pernas e braços

 



Uma amiga disse que tinha uma árvore e mostrou-a de bonita que era. Pelo nome, antevi que cheirasse muito bem. Ofereceu-se para me arranjar uma. Agradeci.

Quando a recebi, linda, não percebi a razão do nome que tinha. Pelo que dizia no vaso, o ilustre nome em latim, percebi que ela estava equivocada. Não era o que ela dizia, era outra, porventura não tão carismática mas mais mimosa, mais bonita.

Está plantada no meu jardim e já deu florzinhas desde que ali está. Tomara que vingue e se faça linda. Para sempre ficará como a ilustração de como é essa minha amiga, generosa, alegre... e um tudo-nada um bocadinho despistada.

Há bocado, ao fim da tarde, fui ver se um mini-sistema de rega estava ligado. Ao aproximar-me, levantaram-se do chão dezenas de passarinhos. Ao vê-los a elevarem-se e, depois, a voarem, pareceu um bando. Fiquei contente por estarem ali no meu jardim. Fico feliz quando vejo que os animais, sejam quais forem, gostam de estar no espaço que habito, admito que seja porque reconhecem que aqui há um respeito absoluto pela natureza.

No entanto, há um mas. Todos os dias de manhã, no terraço, debaixo do alpendre, sempre no mesmo sítio, aparece um grande cocó de pássaro.  Não percebemos onde está o pássaro quando ali vai fazer as suas necessidades. O ninho fica longe, não há onde se apoie e, digo eu, não é provável que faça cocó suspenso no ar, sempre no mesmo sítio. O meu marido fica furioso.

E, por falar em estar suspenso, creio que já referi que optei por outra modalidade de ginástica na piscina, agora em suspenso, sem pé. É mais puxado, cansa um bocado. Mas tal como tive grandes dificuldades quando comecei na outra, dificuldades ao nível da coordenação, agora estou a enfrentar outra complexidade. Ao passo que os meus colegas estão direitinhos como um fuso, na vertical, fazendo todos os exercícios sem sair do mesmo lugar, comigo é uma festa. Passeio pela piscina. Por exemplo, se o exercício for fazer movimentos de abrir e fechar as pernas, isto na vertical e sem pé, relembro, e ao mesmo tempo, com os braços abertos, fazer movimentos circulares de levantar a água, para fortalecer os músculos dos braços, faço tudo mas os movimentos que faço levam-se a deslocar-me. Por vezes vou parar à ponta da piscina. Enquanto os outros estão a fazer um exercício, estou eu a nadar para me reposicionar. Outras vezes tenho que parar para não atropelar os outros que ali estão, verticais e aprumados. Já perguntei a vários deles, incluindo ao professor, qual o truque para não andar de um lado para o outro. Não sabem dizer. Descansam-me, dizem que com o tempo vou conseguir, que é intuitivo. Ora isto é desconhecer que isto é física pura, estamos perante uma questão vectorial, de forças e impulsos. Presumo que tenha que me inclinar um pouco para trás ou para a frente ou fazer qualquer outra coisa. Mas ainda não percebi o quê.

Tirando isso, posso ainda contar que ao jogar ao disco com a minha neta, com receio de atirar para longe, atirava curto demais. 

Ela ficava sempre admirada: 'Mas o que foi isso...? Daqui a nada vou dar-te uma aula de musculação...'. E eu disse que sim, estava curiosa. Mas, afinal, esquecemo-nos. Não faz mal, fica para a próxima.

Resumindo: foi um dia bom.

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Desejo-vos um dia bom

Saúde. Alegria e simplicidade. Paz.

quinta-feira, julho 21, 2022

Isto não é conversa para moi até porque, ao contrário do que há quem pense, não sou uma influencer

 



A água do mar está boa. Estive um bom bocado dentro dela. Sabe bem estar dentro do mar, sentir-lhe as ondas, a frescura. 

Está muito calor. A fera estava connosco. Escava, escava, enche tudo de areia e depois deita-se. Mas, sentindo que a areia não está suficientemente fresca, volta a escavar. Só quando a areia está húmida e mais fresca se mantém sossegado.

Não se sente atraído pelo mar. Assusta-se com o ribombar das ondas e foge quando a água se aproxima. Quando os meninos estão dentro de água, ele, de longe, fica a fixá-los. Se se aproxima alguém ou se vem onda mais forte, levanta-se apreensivo e fica atento até que o forasteiro ou a onda se afaste.

Levámo-lo à noite para o restaurante, uma esplanada, mas não correu bem. Desatou a ladrar de cada vez que o empregado se aproximava. Está cada vez mais territorial. O meu marido teve que acabar à pressa para ir passear com ele para longe. A minha filha mandou-me um artigo onde se refere que, quando os cães estão fora do seu ambiente normal, costumam ficar stressados e que nada melhor do que lhes aplicar uma dose de CBD. O meu marido disse: 'O pior é se ele se habitua'. 

À noite, está um calor tropical. Chega a ser estranho. De dia, tórrido, de noite ainda quente. Não sopra aragem.

Pode saber bem, verão assim sabe a férias e já nem será preciso procurar destinos longínquos. Mas é demais. São temperaturas demasiado altas durante tempo demais. 

O mundo não está preparado para isto. Tanta civilização, tanto conhecimento acumulado e transmitido de gerações em gerações para chegarmos a esta altura do campeonato e estarmos metidos numa guerra medieval, com o planeta exausto e em vias de mandar os humanos às urtigas. 

Enquanto isso, alguns fazem o pino para verem as coisas diferentes do que elas são, outros discutem o fim do namoro de umas so called celebridades ou o novo namorado deste ou daquela, umas bloggers fazem posts a opinar contra quem opina, outras desencantam opiniões de quem se acha mais inteligente do que outros ao prever catástrofes que obviamente vão acontecer pois estão a ser deliberadamente provocadas por um assassino psicopata (o que, por um estranho lapso mental, nessas análises é escamoteado). E, pelo meio, a grande empresária Cristina Ferreira partilha-se em poses pretensamente sensuais, Brad Pitt apresenta-se de saia e Marcelo vai a Fátima de duas em duas semanas. As coisas bizarras sucedem-se e parecem não seguir um sentido lá muito promissor.

E até eu sou vítima destes novos tempos. Exemplifico. Fiz uma encomenda para entregarem em casa. Quando vou atender o entregador, salta ele da carrinha, olha para mim com atenção e pergunta-me: 'É influencer?'. Pensando não ter captado, questionei: 'Desculpe, não percebi'. O calmeirão, estacado à minha frente: 'A senhora não é influencer...?' Eu, pensando que se calhar estava a ouvir mal: 'Influencer...? Não...'. E ele, duvidando: 'Não...?'. Confirmei: 'Não, não sou'. 

Não há explicação. 

Com um mundo tão maluco, com este calor a fritar-nos os miolos, não sei como vamos conseguir fazer alguma coisa de jeito para nos salvarmos.

Mas, se eu não sei, há quem consiga alinhar as ideias de uma forma convincente. Lamentavelmente não há legendas em português mas, pela oportunidade e pela clareza de exposição, ainda assim acho que vale a pena a partilha. 

Yuval Noah Harari: The Actual Cost of Preventing Climate Breakdown | TED

Nobody really knows how much it would cost to avoid the worst impacts of climate change. Yet historian Yuval Noah Harari's analysis, based on the work of scientists and economists, indicates that humanity might avert catastrophe by investing the equivalent of just two percent of global GDP into climate solutions. He makes the case that preventing ecological cataclysm will not require the major global disruptions many fear and explains that we already have the resources we need -- it's just a matter of shifting our priorities.


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As pinturas de Jan Toorop obviamente não têm nada a ver com o texto. 
Mari Samuelsen – Einaudi: Una Mattina

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Boa sorte. Boa disposição. Paz.

quarta-feira, julho 20, 2022

No reino das tretas

 


Devo dizer que sou, naturalmente, poupada. Só perco a cabeça com livros (mas estou muito melhor) ou a oferecer presentes para os descendentes. De resto, desde que me conheço que sou poupada.

Já o era antes de se verificar que, a bem do planeta, deveríamos sê-lo no que respeita, por exemplo, a bens descartáveis.

Sempre me fez muita impressão usar pratos, copos e talheres de plástico que, uma vez usados, iam para o lixo. Achava um desperdício absurdo. Mesmo antes de saber que o plástico, se não for reciclado, levará anos a poluir o ambiente, já eu fazia de tudo para evitar usar e deitar fora coisas de plástico.

Também me faz impressão deixar luzes acesas quando não fazem falta. Acho um desperdício. Por vezes irrito o meu marido tal como antes irritava os meus filhos. 

Acho que só se deve usar o que é preciso. Gastar recursos e dinheiro para nada a troco de quê? Só por desfastio...?

Nas empresas sempre fui minimalista, muitas vezes sendo confundida com frequentar uma onda diferente, estar desalinhada, ser do contra. Num ambiente em que é habitual gastar rios de dinheiro em coisas que me parecem de interesse mais que duvidoso, sempre me mantive fiel aos meus princípios: gastar apenas o necessário e, ainda assim, ter a certeza que é mesmo necessário.

Acompanhei campanhas externas e internas que demonstravam que éramos verdes mesmo quando ainda estávamos longe de sê-lo, páginas de sites e de intranets, campanhas e iniciativas de toda a espécie e feitio. Depois a sustentabilidade. Consultores e mais consultores, kpi's de todos os sabores e paladares, ODS's e mais reuniões e workshops, flyers, mudanças nos sites, mini-sites, slogans, assinaturas. E, calma, eu acredito na sustentabilidade e acho que os ODS são bem apanhados. Mas acredito se forem autênticos, se toda a gente estiver virado para o mesmo lado e todos trabalharem no mesmo comprimento de onda. Senão, é para inglês ver. Rios de dinheiro gastos para fazer de conta.

Agora, a conversa evoluiu. Mas evoluiu, uma vez mais, pour épater les bourgeois. Mais projectos, mais consultoria, mais estratégias de comunicação, mais campanhas de imagem, mais gastação de tempo e de dinheiro. Net zero. Zero emissões. Pureza absoluta, a virgindade ambiental como grande lema de vida. O mundo ideal. 

Era bom e eu gostaria muito. Políticas todas muito racionais, tudo muito bem articulado, tudo muito regulado, tudo muito transparente. Toda a gente muito consciente do que isso implica: formação, educação, novos hábitos, uma aculturação muito bem orquestrada, grandes investimentos nomeadamente em infraestuturas adaptadas e eficientemente localizadas. Gostaria mesmo.

E seria possível. Mas, para ser possível, teria que ser levado muito a sério, concertadamente muito a sério. E isso, levar as coisas mesmo a sério, é o diabo.

Para que algo de eficaz acontecesse teríamos que ter apenas gente idónea a falar e a trabalhar sobre o assunto: não pode ser coisa para debates entre ignorantes e gente exibida, entre engraçados e mentecaptos ambiciosos ou para programas de televisão com Carmos Afonsos, Joanas Amarais Dias, turmas descartáveis como as do Irritações, gente como Ricardos Araújos Pereiras ou Joões Miguéis Tavares, para jovens aspirantes a comentadores ou a quejandos. Temas sérios não são para ser transformados em lérias, em piadolas, em trocadilhos, em estados de alma reprocessados, em chistes, em sound bites, em armas de arremesso. 

Caso contrário, as temperaturas vão continuar a subir, os incêndios vão continuar a lavras nos nossos campos ressequidos, os fenómenos climatéricos extremos vão continuar a acontecer, a água vai continuar a escassear. Não é brincadeira, isto, não.


We Debunk the Latest Corporate Climate Lie | NYT Opinion

Finally, corporations are jumping into action on climate change — or at least that’s what they’d like us to believe. Many of the world’s biggest and most polluting companies have recently promised to curb their carbon output, by reaching net-zero emissions in the next few decades. These sweeping pledges conjure a world where we can have it all: economic growth and global trade — without the global warming that usually comes with that. While saving the planet demands an approach more ambitious than incremental change, these corporate fantasies of the future just don’t stand up to scrutiny. In a new @nytopinon video, we expose three major flaws in net-zero pledges that make them a dangerous distraction from the crisis at hand.


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“Experience” - Ludovico Einaudi, The Beacon Theatre, New York, 06.28.2022

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Um bom dia
Saúde. Harmonia. Paz.

segunda-feira, maio 09, 2022

Dias em família -- e eu à espera de um milagre
(e não me refiro a arranjar um amante mais novo)

 




O Verão chegou antecipadamente, todo ele calor, corpo a pedir pouca roupa, cheiro a terra quente e cheiro a mar, meninos em cima uns dos outros, adultos numa boa onda, todos na brincadeira, dias a crescerem, o ursinho felpudo a brincar e a receber carinho, uma luz doce no ar.

Estive com todos, cozinhei para eles, vi-os a comer de gosto, sentei-me à sombra, ouvi os passarinhos, vi as flores, vi como os meninos crescem de dia para dia, vi como o afecto entre eles se mantém.

E passeei com a minha mãe à beira mar, e fomos às compras e conversámos. Está cada vez mais jovem, veste-se agora como não se vestia quando tinha trinta anos: calças frescas, túnicas claras, ténis brancos, bolsinha no tom. Viu um casaquinho todo aberto em verde entre o alface e o pistachio e logo o agarrou, o provou e comprou. Gosta agora de se vestir com cores alegres e luminosas. O meu marido admira-se por desatarmos a falar quando nos encontramos e seguimos conversando até que nos despedimos. Acho que mais ela que eu. E espanta-se porque isso também acontece entre mim e a minha filha. Não percebe como temos sempre assunto. Ele pergunta: 'Tudo bem?' e, pela resposta -- que pode ser apenas 'tudo' -- ele já se dá por contente. E a verdade é que percebe se é mesmo 'tudo' ou não. Mais do que isto já lhe parece conversa a mais. Outras vezes o cumprimento é ainda mais minimalista: diz apenas o nome da pessoa. Mas a verdade é que às vezes presta atenção à minha conversa com os outros pois ao fim do dia ou no dia seguinte vem perguntar-me o que é que estávamos a dizer sobre algum assunto. Mas é assim. Como espectador à distância ainda vá que não vá. Para mais do que isso já não tem muita paciência.

O urso felpudo a andar em duas patas para tentar ver o cão que ouve na casa dos vizinhos do lado


No sábado a minha filha organizou com a miudagem um Taskmaster. Uma das várias tarefas que foi inventando era ver qual deles me punha a rir mais depressa. Só dela ter essa ideia já me deu vontade de rir. Ainda eles não tinham tentado já eu me desfazia a rir. O que me deu mais vontade de rir foi eles verem-me a rir ainda eles não tinham feito nada. E só de pensar nisto já estou a rir-me. 

Não tentem perceber. Não há explicação. Rio-me só de pensar que queriam fazer-me rir e que, antes de terem começado, já eu estava quase a chorar de rir -- o que os deixou desconcertados sem saberem como superar a prova. E isto dá-me imensa vontade de rir (que querem que eu faça...?)

Portanto, desistiram. Então a minha filha teve uma nova ideia: não era fazerem-me rir a mim, era fazerem rir o avô. E aí a coisa fiou mais fino. O que me ri. Eles a contarem piadas, a fazerem palhaçadas... e  o avô impávido e sereno. Por fim lá assomava um sorriso. E eles queriam que ele risse mesmo. A minha filha disse que o sorriso chegava, que era o máximo que iam conseguir dele. O que me ri...

No outro domingo eu tinha-lhes dado a grande novidade: tínhamos descoberto um programa e tínhamos ambos estado o tempo todo a rir. Claro que eu rio e ele sorri mas, lá está, isso para mim é igual a riso. O Taskmaster. E eles todos: 'Mas está já a acabar! Isso já dá há umas semanas. Não perdemos um episódio. Fartamo-nos de rir.' -- e isto quer do lado da casa da minha filha quer da do meu filho. E, portanto, pelos vistos toda a gente conhecia o programa menos nós dois. Vimos a semana passada e vimos esta, de facto o último episódio. A ver se vem aí nova série pois é divertidíssima. Também tem a ver com o sentido do humor dos participantes. Estes eram mesmo boa onda.

A minha menininha mais linda tinha descoberto uma app que via o match entre um casal. Pensava eu que seria por signos, por algum questionário, qualquer coisa. Mas não, apenas a partir do nome. E, então, estava a mostrar à tia como era e a fazer o exercício com casais conhecidos. No meu caso salvo erro deu oitenta e tal por cento com o avô. Pareceu-me bem. E, por acaso, até acho que os nomes são relevantes. O meu primeiro namorado tinha o mesmo nome que o terceiro, aquele com que me casei. Dois grandes amores. O do meio tinha um nome que não me dizia grande coisa. Ou melhor: que feria a minha sensibilidade. E, no entanto, é um nome normal. Mas uma pessoa com aquele nome não podia ter sido feita para mim. No caso do meu marido, quando a namorada dele da altura estava a descrever o namorado, pela descrição, achei que só poderia estar a falar daquele que me trazia enfeitiçada. E quando lhe perguntei o nome dele e ela o disse, tive a certeza que era ele. Na verdade, ao tê-lo visto e ao ter pensado que era o homem da minha vida, sempre soube que não poderia ter outro nome. Por isso, e não quero cá saber de coisas, também acho que os nomes são determinantes na vida de uma pessoa e na probabilidade de alguma coisa vir a dar certo entre duas pessoas. 

Com estes esoterismos e conversas malucas pode parecer que estou a renegar a minha vida de pessoa racional, dada à ciência e a rigores. Mas não estou. Simplesmente há coisas que não têm explicação.

Tirando isso, já é dia 9 e vamos ver o que nos traz. O que eu queria que trouxesse não posso aqui dizer até porque é coisa impossível. Mas gostaria que trouxesse um milagre. Não acredito em nossas senhoras encavalitadas em cima de azinheiras ou coisas assim. Mas acredito em milagres verdadeiros, sim. Existirmos, cada um de nós, é um milagre. A vida das flores é um milagre. Eu estar a pensar e escrever e vocês aí desse lado a saberem destes meus pensamentos sem saberem quem sou e sem me verem ou ouvirem é um milagre. Tantos milagres. Porque não acontecer um milagre bom que salve vidas e abra espaço para a reconstrução do futuro de todos quantos perderam tudo? 

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Mas, enfim, não dormi muito nem descansei muito neste fim de semana (e a semana tinha sido obra) pelo que passo já para a apresentação de um filme que deve ser uma graça: o amor entre uma mulher digamos que já com alguma vida vivida e um homem bem mais novo. A ver se consigo descobrir como ver este filme.

Se eu, por uma birra qualquer, me separasse do meu marido 

(coisa que me parece improvável pois toda a vida tivemos birras e sempre me esqueço delas na meia hora seguinte. Às vezes tenho a vaga impressão que teria razão para estar chateada com ele mas já não me lembro exactamente porquê. E na hora seguinte nem disso me lembro. Poder-se-ia dizer que é demência, coisa da senilidade. Mas acho que não, sempre foi assim)

e fosse uma separação para valer, acho que, para arranjar novo namorado, teria que ser bem mais novo, talvez uns vinte anos a menos. Senão mais valia fazer as pazes e voltar a aturar o velho, ou seja, o actual.

Les Jeunes amants

Shauna, 70 ans, libre et indépendante, a mis sa vie amoureuse de côté. Elle est cependant troublée par la présence de Pierre, cet homme de 45 ans qu’elle avait tout juste croisé, des années plus tôt. Et contre toute attente, Pierre ne voit pas en elle “une femme d’un certain âge”, mais une femme, désirable, qu’il n’a pas peur d’aimer. A ceci près que Pierre est marié et père de famille.

 

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Fotos feitas cá em casa, aqui na companhia de Ludovico Einaudi com The Water Diviner

Nota: Tentarei responder aos comentários durante o dia de amanhã

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Paz. Esperança. Um milagre

segunda-feira, abril 25, 2022

25 de Abril.
Nome do meio: Liberdade

 


Estes meus dias, o sábado e o domingo, foram dias muito bons. Estive com a família, com os meus meninos. O meu coração abre-se num abraço quando estou com eles. 

Sinto-me feliz e agradecida e gosto de ver que eles também se sentem bem. 

Os primeiros que chegam perguntam sempre pelos outros. Neste domingo não estiveram ao mesmo tempo. Os que vieram na parte da manhã tinham, logo a seguir ao almoço, um programa de festas apertado e que começava cedo. Por isso, quando os segundos chegaram já os primeiros tinham saído. Ficaram com pena. Mas, apesar disso, quer os da manhã quer os da tarde estiveram felizes da vida. Gostam de cá estar. 

Agora, para além dos primos e tios e avós há também este ser felpudo, amalucado e meigo, que fica doido de alegria quando os vê.

Brinca, brinca, deita-se para receber mimo, anda no meio de nós recebendo carinho de uns e de outros. 

Este domingo, o menino mais crescido -- que vai ter teste de português esta semana --, para treinar a composição, escreveu um texto (por sinal muito bem escrito e imaginativo). Eu li o texto, elogiei embora tivesse ressalvado um erro ortográfico e umas vírgulas fora do sítio, e a mãe leu-o também e também fez os seus comentários. Às tantas, vimos a pequena fera de composição na boca. Com tantos comentários, deve ter querido saber se também aprovava. Então, o menino dizia: 'Senta' e ele parava de correr e sentava-se. O menino dizia: 'Fica' e a fera ficava. Então o menino aproximava-se e dizia: 'Larga'. E a fera desatava a correr como se não houvesse amanhã, a composição na boca.

O mano dizia que o seu amigo felpudo era terrível, se calhar saía ao padrasto. 'Ao padrasto...?!'. A mãe perguntou: 'Ao padrinho?'. Sim, era isso, confirmou ele, o padrinho da fera.

De manhã, ao abraçar e beijar o mais novo, disse-lhe: 'Meu menino mais lindo'. E ele disse: 'Os meus pais nem sempre estão de acordo'. Assim, de repente, não percebi. 'Não estão de acordo com quê?'. Ele encolheu os ombros e disse: 'Que eu seja um menino lindo. Eu às vezes sou maroto...'. Abracei-o ainda mais, 'Meu marotinho mais lindo'.

Enquanto isso, a menininha ajudava-me na cozinha e confessava que adora cozinhar mas coisas complicadas, dizia. O irmão do meio, também a ajudar, refutava: 'Mas, mana, se tivermos que fazer o jantar, temos que saber fazer o básico, arroz, mexer um ovo'. E ela, na base do dahhhh...: Ó mano, claro que sei fazer isso tudo...

Todos eles me surpreendem, encantam e divertem, cada um à sua maneira. 

Apontamentos de momentos de maravilhamento e boa disposição. Tomara que sempre os retenha na minha memória e eles na deles.

Mas não me sinto apenas feliz por vivê-los: sinto-me também agradecida. 

Vivo num país lindíssimo, acolhedor. O clima é aprazível. O ambiente é luminoso e descontraído, as pessoas são afáveis e bem dispostas.

Antes espantava-me quando, nos outros países, via as pessoas deitadas ao sol, na relva, em jardins públicos, algumas em fato de banho. Ou pessoas cantando na rua, outras fazendo acrobacias. Pessoas andando de barquinho a pedais em lagos, as esplanadas cheias, gente cantando ou rindo em voz alta. Em contrapartida, por cá, as praças estavam vazias, ninguém se deitava na relva em parques públicos, quase não havia esplanadas e, nos restaurantes, falava-se sempre à boca pequena. Talvez fosse ainda o lastro do regime anterior, soturno, ensimesmado. As pessoas viviam viradas para dentro de casa e para dentro de si próprias. Havia ainda a psicose do que os outros pensavam ou deixavam de pensar. As pessoas tinham medo de se expor pois temiam a censura alheia.

Felizmente a nossa democracia foi amadurecendo. Desinibimo-nos, aprendemos a divertir-nos. E ninguém leva a mal.

Agora somos um país aberto aos outros e à diferença, as ruas estão cheias de vida e de diversidade, há alegria e vontade de partilhar e de conviver com a natureza e com os outros.

Vivermos num lugar assim -- um lugar tranquilo, luminoso, pacífico, cheio de sol e de mar e de jardins e serras e em que se vêem pessoas de todas as cores falando todas as línguas, vestidas das maneiras mais inesperadas, fazendo as coisas mais bizarras -- é uma felicidade.

E, se me sinto feliz por poder viver e testemunhar esta sorte, a verdade é que sei bem o quanto tudo isto é frágil.

Desejo que seja perene e que deixe boas memórias em quem vive estes momentos bons mas não me iludo: de um momento para o outro tudo pode mudar, tudo se pode perder.

Há cerca de dois anos fomos todos mandados para casa porque um vírus ameaçava a nossa vida normal, obrigando-nos a uma adaptação repentina a outros hábitos, longe uns dos outros, sem contacto físico, receando contagiar-nos uns aos outros.

Pelo meio o meu pai morreu e não apenas não pudemos velar o seu corpo (o que não me custou muito pois penso que me teria custado mais estar numa capela rodeada de gente sabendo que o seu corpo frio estava ali, ausente, destituído daquilo que ele tinha sido) como foi muito triste ver chegar a carrinha com o caixão envolto em película aderente e estarmos cá fora, poucos, todos meio abandonados. Pensar que o meu pai estava ali e nós a despedirmo-nos dele tão pouco condignamente causou-me muita tristeza. Mas tudo é relativo. Na morte e nas despedidas há sempre tristeza, de uma forma ou de outra.

Ao fim de dois anos, agora que a pandemia está a dar mostras de acalmia, acontece a invasão de um país por outro que o quer anexar e que, para o conseguir, o bombardeia, assassina pessoas, destrói cidades e obriga a expatriar milhões de pessoas. Famílias inteiras destroçadas. Uma tragédia infinita e imperdoável.

Estou feliz, a minha casa íntegra, a minha família unida. E a primavera aí está, florida, renascida, cheia de flores e canto de passarinhos. 

E eu ando deleitada, fotografando tudo e todos, olhando cada coisa como se fosse a primeira ou a última vez.

Mas sei que tenho sorte e que nada é garantido. 

Mas é bom enquanto dura e sempre farei o que está ao meu alcance para que sejamos felizes, livres, donos do nosso destino. 

E Macron venceu em França e a Ucrânia há-de manter-se um país livre e independente e tenho esperança que conseguiremos voltar a acreditar num mundo sem muros, sem guerras, sem mal.

(E não quero saber se isto soa a ilusão sem sentido. Quero acreditar que será possível sonhar com isso e isso chega-me)

Não tenho cravos para aqui festejar Abril. Mas Abril é um mês que não apenas acolhe todas as vozes como todas as flores e, por isso, termino o texto com uma flor de que gosto muito. Para todos os que por aqui passam.


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25 de Abril sempre

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Um dia bom
Generosidade e afecto. Liberdade. Paz. 

quinta-feira, fevereiro 17, 2022

Algumas casas com recordações dentro

 



Tenho uma memória muito antiga da que foi a primeira casa em que vivi. Lembro-me de como era mas lembro-me sobretudo da minha mãe querer que a casa de banho estivesse pintada em verde-água. Lembro-me dela misturar mais branco na caixa de tinta para ficar uma cor francamente clara. Diria que a pintou ela sozinha, comigo a acompanhar. Se calhar foi nas férias dela pois tenho ideia que o meu pai chegou a casa ao fim da tarde, já a obra estava concluída. Fiquei com a ideia de que ela estava toda contente com essa melhoria lá em casa. Nessa casa, à noite, cá fora, havia pirilampos e eu andava, às escuras, com os meus pais, a tentar apanhar algum. Se conseguíamos, colocávamo-lo dentro de um copo de vidro virado ao contrário. De manhã, em vez do pirilampo estava lá uma moeda que eu guardava no mealheiro.

Da outra casa, a casa onde a minha mãe ainda mora, uma casa construída para eles, não me recordo das obras. Provavelmente ficava em casa dos meus avós enquanto eles lá iam ver o andamento dos trabalhos. Desta casa sempre me ficou a pena de não terem arranjado o sótão, tornando-o uma sala em open space. Sempre acharam que não valia a pena e sempre ficou uma zona em que o meu pai guardava ferramentas ou outras coisas ou ia para lá fazer arranjos ou, depois de se reformar, construir peças em madeira. Por isso, também nunca puseram um varandim em volta da entrada e eu, como sempre tive vertigens, quase não ia lá pois subir ainda subia mas, quando lá estava e olhava para baixo, para as escadas, sem ter um varandim para me apoiar, sentia uma terrível ansiedade, aquilo que quase se sente como uma incompreensível atracção para o abismo. Nem nunca quis que os meus filhos lá fossem com medo que caíssem.

Talvez por isso -- porque nunca percebi o desinteresse dos meus pais por aquele espaço que poderia ter uma decoração interessante e no qual poderiam pôr uma janela de onde se poderia ter a melhor vista da casa -- nunca achei esta casa extraordinária excepto pela vista que essa, sim, o era. Era e ainda é mas, na altura, ainda era melhor, sem prédios a tirarem a vista do rio.

Como desde sempre tive um gosto imenso por casas, lembro-me bem de algumas que, por essas alturas, me deixavam agradavelmente surpreendida. Chegava a casa e contava à minha mãe. Vinha encantada, não me cansava de as descrever.

Uma dessas era a casa de uma colega de liceu. Era o último andar de um prédio muito alto e muito grande. O prédio era dos melhores da cidade e fazia uma meia lua. Em cada andar havia três apartamentos, o direito, o esquerdo e o frente, cada um bastante grande. A casa dela ocupava todo o andar. Era enorme. E tinha um grande terraço, com solário e tinha uma zona com uma enorme claraboia. A zona dos quartos era de um lado, a zona das salas e escritórios era do outro e, a meio, havia a zona da cozinha, copa, lavandaria, despensa e mais não sei o quê. Na zona da cozinha havia um painel de campainhas. Cada divisão tinha uma campainha. As empregadas recebiam os avisos, viam qual a divisão que estava a chamar e iam ver o que era. Andavam fardadas.

Ela tinha um irmão. Quando eu lá ia estava sempre muita gente lá em casa mas tudo maltinha miúda: éramos nós, as amigas dela, era o irmão e os amigos. Pouco víamos a mãe dela. Tenho a ideia que sempre a vi triste. Tinha perdido um filho uns anos antes e parece que nunca tinha conseguido superar o desgosto. O pai ainda se via menos. Era um homem grande, forte e que era simpático, embora distante. A ideia que eu tinha era que ela e o irmão viviam um com o outro e que eram as empregadas que, na realidade, geriam integralmente a casa. A dimensão das divisões, a decoração requintada e a liberdade que ali se vivia eram, para mim, o máximo. Ao passo que a minha mãe e o meu pai queriam saber tudo o que eu fazia e impediam-me de fazer muitas coisas, ali parecia não haver mãe ou pai a controlar o que quer que fosse. Lembro-me do equilibrismo que alguns dos miúdos faziam em cima do rebordo da claraboia ou da forma como trepavam às paredes e até me arrepio com o risco que tenho ideia que se corria.

Ela tinha uma prima, também nossa colega e amiga que vivia numa casa de dimensão normal mas, a meus olhos, também especial. A mãe dela era muito bonita e moderna. Usava uma grande franja, vestia-se de uma maneira muito pouco usual. Ia muito a Londres fazer compras. Fumava muito e parecia que tinha a sua própria agenda, que não incluía os filhos. A casa tinha um pátio interior que eu achava uma coisa exótica. Nunca antes tinha visto uma casa com um pátio interior. E havia uma escada na sala. Essa sala tinha estantes à volta, incluindo debaixo das escadas. Isso parecia-me também uma extravagância. Foi lá que vi a primeira vez uma enciclopédia completa, muitos livros elegantemente encadernados. Quando lá estávamos não nos cruzávamos muito com a mãe e, se calhava ela lá estar, pouco nos ligava, estava a ler, a ouvir música, a fumar, ao telefone. Ou ia sair. Ou chegava a casa, olhando com indiferença para a confusão que lá causávamos. Também parecia que a casa estava entregue à empregada.

Havia também a casa de uma outra colega e amiga. Era uma casa senhorial no meio de uma quinta perto da escola onde a minha mãe dava aulas. Eram seis ou sete filhos. Nunca vi o pai. A mãe também pouco parava em casa. De vez em quando chegava um grande carro e o motorista abria-lhe a porta e ela chegava a casa sem sequer olhar para a miudagem. Havia um laranjal e nós íamos apanhar laranjas para comer logo ali. Lembro-me muito bem dessa casa. Tinha daquelas janelas altas que tinham um banco de pedra de cada lado. E as janelas tinham portadas de madeira. Achava isso muito bonito. Gostava de me sentar nesses bancos e imaginava que, se morasse lá, gostaria de me sentar ali a ler. Mas, quando lá estava, ninguém parava sossegado nem ninguém ligava aos banquinhos pelo que nunca consegui satisfazer esse meu gosto.

Já era eu um pouco mais crescida, uma nova amiga entrou no grupo de amigos inseparáveis. Era muito bem comportada e silenciosa. Tinha vários irmãos e vários primos. Enquanto os primos eram muito irrequietos e brincalhões, ela e os irmãos contrastavam pelo bom comportamento. É médica tal como uma das irmãs e deve continuar a ser calada, bem comportada. A mãe quase parecia avó dela mas também ela era a mais nova, tinha irmãs bem mais velhas. A casa era uma moradia geminada num bairro residencial. A porta estava ao  nível do passeio mas nas traseiras havia um grande quintal. Quando se abria a porta da frente, subia-se um lance de escadas e havia um comprido corredor com divisões dos dois lados e, ao lado, descia-se um outro lance que dava para a cave. Nessa cave trabalhava em permanência a costureira, coisa que eu achava insólita pois era a única costureira privativa que eu conhecia. Era frequente ouvir-se a máquina de costura. 

Uma das particularidades desta família é que tinham uma casa de campo que, do que me lembro, deveria estar a uns dez ou quinze quilómetros da outra casa. No entanto, na altura eu não achava bizarro ter-se uma casa de campo tão perto da casa da cidade. Ao lado da casa dela estava a casa dos primos. No verão iam todos viver para lá. E todo o grupo de amigos também lá estava caído dia após dia. Íamos a pé para lá e tudo aquilo era uma aventura. Na maior parte dos dias, íamos de manhã para a praia e, depois de almoço, para lá. Na altura, eu estava muito apaixonada por um rapaz da minha idade e estarmos os dois lá era, para mim, a maior das aventuras. Nessa casa, na parte da frente da casa, no jardim, havia um coreto com bancos de pedra e uma mesa de ferro forjado ao meio. Foi daí que vi o meu amor fazer cavalinhos e piões de bicicleta, derrapando na areia, caindo e partindo um dente da frente. Nesse dia ele ficou com sangue na boca, com os lábios inchados. Mas, quando passou, ficou o dente partido que lhe dava imenso charme. Lembro-me de termos ido para a casa de banho tratar dele, só miudagem. E, também aqui, não tenho ideia de ver adultos. Só as irmãs mais velhas que nos queriam era à distância. Nessa casa pouco entrávamos, estávamos quase sempre no jardim, em especial no coreto. Ali perto havia uma extensão de campo por onde saíamos a passeio, à descoberta de um convento abandonado onde numa das vezes descobri, escrito ainda de fresco e a todo o tamanho da parede: AMO-TE e, por baixo, o meu nome, também em maiúsculas. Tempos de grande amor.

E vou ficar por aqui pois de todas as casas que, na minha juventude, conheci estas foram das que melhor me recordo. E o texto já vai longo.

[Mas, pensando em tudo isto, tenho também que reconhecer que também eu andava à solta. Desde os meus dez, onze anos que me habituei a ir sozinha para casa dos meus amigos. No verão devia chegar a casa para jantar -- e era tudo normal. E sem telemóveis...]

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A propósito de casas, deixem que partilhe convosco esta moderna casa indiana com um belo lago interior


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Pinturas de Chung Eun-Mo na companhia de Ludovico Einaudi com Flora

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Desejo-vos um belo dia
Harmonia. Tranquilidade. Saúde. Boa disposição.

quinta-feira, fevereiro 03, 2022

A atração pelos transportes públicos, o apelo da liberdade. E o exemplo dos pinguins.

 



De vez em quando apodera-se de mim uma vontade de férias e de passeio e de me meter em novas aventuras que nem sei. 

Hoje, enquanto jantávamos, vimos nas notícias que vão avançar as obras para ligar o Rato ao Cais do Sodré. Fiquei toda contente. Disse ao meu marido: até que enfim...!. Ele ficou admirado, olhou para mim sem perceber o meu entusiasmo. Expliquei: quando me reformar vou tirar um daqueles passes que dão para todos os transportes, se calhar até têm com desconto para reformados, e saio de manhã, de mochila às costas e vou à minha vida. O meu marido respondeu: não te esqueças que quiseste ter um cão. Claro que vacilei. Mas disse: e então? fica no jardim. E ele: fica? durante quanto tempo? E eu: Durante o dia. Até chegarmos. Mas depois, perante tantas dificuldades, disse-lhe: ou ficas cá com ele e eu vou sozinha. Aí já não disse mais nada. Cá para mim tem esperança que, até lá, eu amanse.

A verdade é que começo a ir pensando nisso com uma expectativa fantástica. 

Comecei a trabalhar aos 20, enquanto estudava. Daí para cá tem sido uma sobreocupação permanente, sem tempo para mim. Desabituei-me, até, de pensar no que verdadeiramente queria fazer pois sabia que nunca tinha oportunidade de o pôr em prática. Primeiro as férias são curtas e tínhamos que nos encaixar em função dos miúdos, depois deles se autonomizaram começaram os problemas com os mais velhos: havia sempre uma avó ou o avô doentes que me impediam de ir para muito longe. E as férias continuaram curtas. Depois dos avós, foram os graves problemas de saúde dos meus sogros, depois o avc do meu pai. Pelo meio vieram os netos e as férias continuaram curtas. E a ocupação profissional sempre exagerada.

Portanto, a bem dizer nunca consegui ter actividades complementares para além dos hobbies que podia praticar em casa, fora de horas.

Uma colega que se reformou, uma vez apareceu no escritório para nos vir cumprimentar. Vinha toda gira, com muito bom ar. Quando lhe perguntaram se não se enfadava sem nada que fazer, desatou a rir e disse: às vezes penso que ainda bem que os que trabalham não sabem que é tão bom não trabalhar, senão viviam frustrados.

Uma prima diz a mesma coisa: vai a concertos, a exposições, vai a outros países, vai ao ginásio, ao instituto para massagens. Dizem os filhos que não podem contar com ela para tomar conta dos netos porque nunca tem tempo e pouco pára em casa (isto antes da covid, claro).

A mim, associada à ideia da liberdade, vem esta ideia que a outros pode parecer abstrusa: imagino-me a andar em transportes públicos. Eu que desde há séculos só me desloco em carro... Mas deve ser por isso. Deve ser bom sair de casa a pé, ir para a paragem esperar o autocarro, depois andar de metro, mudar de linha, sempre na boa sem ter que me preocupar com estacionamentos nem com trânsito. Como quando se está em Paris, em Frankfurt, em Barcelona -- em turismo, a palmilhar as cidades, à descoberta, a fotografar.

E imagino-me a andar a saber de actividades de voluntariado e ir ver se é coisa que me agrade (penso frequentemente no apoio à integração de refugiados), a frequentar cursos de jardinagem ou a ir fazer viagens de conhecimento de locais em que a natureza é exuberante ou a aprender a esculpir a madeira. Coisas assim. O que calhar. 

E escrever. E tenho que ter atenção, não posso arranjar tanta coisa que depois volte ao mesmo, a não ter tempo para escrever.

Só espero é poder mesmo ter esta liberdade e esta vontade quando lá chegar. E saúde. E sorte.

A essa minha colega, que tanto desejou a liberdade da reforma e que tão feliz estava, aconteceu o pior : ficou viúva. Ficou por terra. Quando uma pessoa se habitua ao longo de muitos anos a viver em estreita equipa com outra pessoa, parece que perde a capacidade de fazer e executar planos sozinha. Mas, enfim, a tudo toda a gente se habitua. E não são todas as pessoas que sofrem dissabores quando alcançam a liberdade de movimentos pelo que também não vale a pena pensar nisso.

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Voltei a ter um dia complicado. Noto que a impaciência continua a ganhar terreno dentro de mim. Estou a deixar de tentar ser condescendente e a deixar de ter pruridos em mostrar a minha falta de pachorra. Há pessoas que fazem do exercício da lábia o seu modo de vida. Outras são burrinhas todos os dias mas convencidas que são o máximo. Gente assim infecta as organizações. E por delicadeza ou resignação vamos deixando que seja assim. Mas não tem que ser. Não queremos magoá-los. Mas, para não os magoarmos, desmotivamos e prejudicamos muitos outros. E isso é bem pior.

Em tempos trabalhei com um administrador que era bruto como as casas. Quando tinha alguma coisa a dizer, dizia-a onde calhava e da maneira que lhe apetecia. Era mais temido que amado. Respeitado mas temido. Sempre me dei muito bem com ele mas, quando o via assim, fora de si, quase a esmagar quem ele achava que era um estorvo e um atraso de vida, até ficava enervada, com receio do que iria seguir-se. E, no entanto, quase toda a gente o admirava: não perdia tempo com o que não valia a pena, atalhava caminho.

E eu, por vezes, olhando-me de fora, penso que, se calhar, os outros também me vêem assim. E não sei se isso é bom se não.

O pior é que trabalho até bastante tarde e chego aqui, a esta hora, já com a cabeça em água. E depois penso que ainda tenho que fazer isto e aquilo, que não posso esquecer-me de pagar isto e aquilo e de encomendar isto e aquilo e de ainda ir verificar isto e aquilo. 

O meu marido queixa-se do mesmo, que há sempre mais qualquer coisa para fazer, que passa um dia e outro e outro e há sempre coisas para tratar, coisas que não podem atrasar-se. 

Enfim. 

Um dia haveremos de acordar quando acordarmos, sem horários, haveremos de fazer o que nos apetecer, haveremos de nos sentir livres, haveremos de sair de mochila às costas e ir por aí.

Até lá, pensando bem, é só ir levando na melhor.

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Quando aqui chego, espreito as notícias. Geralmente nada de muito empolgante. Então vou colocar-me nas mãos do meu amigo algoritmo e ver o que o Youtube tem para me mostrar. Hoje, dois vídeos maravilhosos. Um exemplo. Instinto de sobrevivência, inteligência, coragem, resiliência, espírito de grupo, altruísmo, determinação. Há aqui de tudo. Uma verdadeira maravilha.



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As pinturas são da autoria do nigeriano Ayoola Gbolahan e vêm, uma vez mais, na companhia de Ludovico Einaudi com Luminous

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Desejo-vos um bom dia
Ar puro. Vida nova. Liberdade. Coragem.

sábado, janeiro 08, 2022

E, face à comprovada inocência de Azeredo Lopes, os seus acusadores e difamadores não vão ser punidos?
-- pergunto

 


De vez em quando constata-se o mesmo: há gente no Ministério Público que parece ter ódio a alguns políticos. Mas poderiam ser 'bem resolvidos', sentirem ódio mas saberem-no gerir, pelo menos conseguirem guardar isso para si. Mas não. São histriónicos e destravados na manifestação dos seus sentimentos. Perseguem aqueles que parecem odiar, desconfiam de tudo, cercam-nos, lançam uma teia de suspeição sobre eles.

Com isso, enlameiam a sua reputação, permitem (ou proporcionam?) fugas de informação para a comunicação social, demoram séculos deixando os suspeitos ou arguidos num limbo, a vida em suspenso, geralmente sem conseguirem exercer actividade profissional e gastando fortunas com a sua defesa.

No fim, quando o processo de desenvolve, chega-se ao fim e acontece isto: os pobres coitados que viram a sua vida interrompida e quase destruída, são declarados inocentes em toda a linha. Não há ponta por onde se pegue. Absolvidos em relação a tudo. 

O ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, foi esta sexta-feira absolvido de todos os quatro crimes de que era acusado no processo Tancos. (...) O coletivo de juízes considerou que Azeredo Lopes não teve conhecimento da existência de uma investigação paralela e do tipo de contactos mantidos para a recuperação do material furtado, além de que não tinha competência disciplinar sobre os militares da PJM.

Mas não são apenas os paranóicos e doentes que trabalham no Ministério Público: é também o Super-Judge Alex (de quem agora o Juíz Ivo Rosa apresentou queixa no Conselho Superior da Magistratura). Sempre que lhe cheira a 'poderoso', o castigador Alex parece que saliva. Cheira-lhe a sangue e ele, ao que parece, gosta de sangue. Não quer saber de fragilidades do processo ou de exiguidade ou nulidade de provas. Aparentemente, ele quer é sangue. Destruir 'poderosos' ou 'políticos', em especial se forem socialistas ou afins.

Mas são também os jornalistas e comentadores que, durante dias a fio, semanas a fio, meses a fio, massacram os inocentes, fazem de tudo para os destruir. São notícias, são debates, são artigos, são reportagens: fazem de tudo, até ao limite, para esmagar aqueles que caíram em desgraça. Não têm sentido crítico, não presumem a inocência, nada. Querem é destruir na praça pública aqueles a quem o Ministério Público decidiu desgraçar. 

Toda essa escumalha -- que é tão lesta a tentar destruir a honorabilidade das pessoas, apressando-se a sentenciar e a culpabilizar os que mais tarde virão a ser declarados inocentes --, quando se comprova o verdadeiro crime de difamação que andaram a cometer, assobiam para o lado e, como se não fosse nada com eles, tudo fazem para passar de fininho junto da opinião pública.

Em vez de fazerem programas e de escreverem artigos para se auto incriminarem e para tentarem perceber como puderam ser tão estúpidos, tão mesquinhos, tão injustos, tão desumanos... não senhor, passam a notícia na maior ligeireza e... está feito.

Não apenas deveriam pedir públicas desculpas àqueles a quem tudo fizeram para destruir como deveriam pedi-las também a todo o público a quem tentaram manipular e incitar ao apedrejamento.

A notícia da total inocência de Azeredo Lopes é de elementar justiça e creio que será uma vida nova para ele. Mas é mais uma página negra na Justiça portuguesa, é uma vergonha muito grande para a nossa democracia.

E todos quantos aceitam isto com indiferença estão, na prática, a permitir a banalização do mal.


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Pinturas de Lee Hae-Kyun na companhia de Ludovico Einaudi com Rolling Like A Ball 

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Desejo-vos um belo sábado