A saga continua. Tudo correu mal. Está provado, comprovado, oficializado. Um desastre.
Apesar de todos sangrentos esbulhos aos que não lhes podem fugir, apesar da maioria que lhes permite governar à vontadinha, apesar de fazerem tudo o que querem, de irem mais longe do que a troika e ninguém lhes pôr travão, apesar de uma oposição bentinha composta por meninos velhos, apesar de uma população submissa como indefesas cobaias, apesar de tudo isto, o Governo falha em toda a linha: o défice não abranda, a economia definha, o desemprego atinge níveis letais e a dívida não pára de crescer.
O Estado não pára de crescer, tudo devorando, um perigoso buraco negro que suga qualquer resquício de vida que encontre à sua volta. O estado transformado no vórtice de uma assassina espiral recessiva.
Estranho? Incompreensível? Misterioso?
Não, que ideia. Tudo previsível. A receita está errada, tanta a gente o viu desde o início: os ingredientes não são estes, a forma como se deveriam combinar está longe de ser esta, os tempos não são estes e, finalmente, os cozinheiros são atrozmente incompetentes. Com esta explosiva mistura de enganos e de incompetências, nunca poderia dar certo.
E mesmo os que incautamente no início acreditaram, logo que as primeiras campainhas começaram a soar perceberam que a rota tinha que ser corrigida. Todos menos Passos Coelho e o grupinho de que se rodeou.
E, de novo, com o País inteiro estupefacto perante tamanho estampanço e tão estrondosa incapacidade em perceber o que se passa, o Governo reage fazendo o quê? Claro, fazendo aquilo que os ignorantes fazem: a mesma coisa, esperando que resulte de maneira diferente.
Ou seja, constatando-se que foi um ano perdido, um ano de inúteis sacrifícios, e em que os objectivos deste ano passam agora a ser os do ano que vem - o mesmo ano que há menos de um mês o Passos anunciou que já não ia ser de recessão - os mesmos incompetentes resolvem aplicar a mesma receita mas agora reforçando ainda mais os ingredientes.
Se antes resultou em comida salgada, pois agora, nada a saber: junte-se ainda mais sal. E, vai daí, novo agravamento no IRS, e isto a somar ao roubo à mão armada dos recentemente anunciados 7%, em cima do aumento do IVA, em cima do aumento escandaloso que se anuncia para o IMI, em cima do roubo dos subsídios para a Administração Pública e reformados.
Se antes a comida estava intragavelmente picante, pois agora, nada a saber: junte-se ainda mais picante. E agora são também as pensões de reforma, com uma dentada que pode ir de 3.5% a 10%.
Tudo isto quase parece já demência. Começo a não ser capaz de formular mais vezes aquela minha dúvida metódica: pode isto ser só incompetência e ignorância ou é mesmo perversidade? É gente apenas incapaz que nem para ser varredor servia (sem desprimor para os varredores) ou é gente a mando de futuros patrões, que quer agora apenas comprar barato o que está a ser vendido ao desbarato?
Não sei. Já me parece incompetência e ignorância a mais. Começo a inclinar-me mesmo para a falta de valores morais, éticos e para tudo aquilo que costuma rodear a falta destes valores.
E, neste momento, coloco no mesmo saco criaturas como o Passos de Massamá, o Vai-estudar-ó-Relvas, o Gaspar-não-acerta-uma e o Paulo Portas. Nem sei se não acho ainda mais indigna a atitude de Paulo Portas. Depois de tudo o que se tem estado a passar consegue ele ainda olhar os seus eleitores nos olhos? Consegue ele ainda manter a cabeça erguida?
Talvez se sinta tentado a isso, o seu gosto pela performance pode levá-lo a isso. Mas aconselho-o a que não o faça. Olhar nos olhos e manter a cabeça erguida são gestos que devem estar reservados a pessoas de palavra.
Entregues que estamos a esta trupe, a única coisa que sinto é que têm que ser afastados o mais rapidamente possível do governo.
Em pouco mais de um ano, a devastação que levaram a cabo revela que não têm escrúpulos e que prosseguirão com o maior dos à vontades.
Ainda hoje vi o Vai-estudar-ó-Relvas, esgargalado, esgar desagradável, dizendo as vulgaridades do costume e, invariavelmente, sinto uma náusea insuportável. Não existe a noção do que é a vergonha, do que é a dignidade. Não existe.
O país vai estando cada vez mais miserável, mais sem soluções, com as principais empresas nas mãos de estrangeiros (de estados estrangeiros em que a democracia não se escreve com as mesmas letras que se escreve por cá), com cada vez mais famílias sem casa, recorrendo à sopa dos pobres, com os jovens a debandarem, com os velhos entregues à sua sorte - e, no Governo, em vez de termos pessoas em quem possamos confiar e a defender-nos, temos gente mal formada, pouco instruída, gente que nos rouba, nos ameaça, gente que nos faz sentir inseguros, indefesos, pobres.
Cavaco Silva que, por muito menos, tudo fez para apear o anterior Governo, assiste seráfico a tudo isto. Vendo o País a desmoronar-se, vendo os apoiantes do PSD e do CDS a retirarem sonoramente o apoio ao Governo, vendo o contrato social à beira de ser rasgado, vendo o bem comportadinho Tozé finalmente a estrebuchar, vendo a Igreja a rebelar-se, vendo os permanentes desacatos levados a cabo pelo bando de desordeiros que mais parece ter tomado de assalto o Governo, deve estar sem saber que volta dar a isto mas esta sua perplexidade é bem capaz de se resumir a preparar palavras para dizer que já disse. O país também já desaderiu dele.
Estamos, pois, num daqueles momentos que são o limbo que precede as rupturas.
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O que deve ser feito a seguir, quando o Estado vier a estar nas mãos de gente de bem?
Bem, receitas milagrosas não as haverá mas há, isso tem que haver, a vontade, a determinação de obter aquilo que se deseja.
E o que eu desejo é isto (e vou escrever à medida que me ocorrer, sem me preocupar em prioritizar):
Olhar o País numa perspectiva integrada, de longo prazo, e tendo por pressuposto basilar que tudo o que vier a ser feito o será em prol das pessoas, pugnando pela melhoria das condições de vida de todas as pessoas.
Aproveitar fundos europeus que não estão a ser aproveitados e, em vez de gastar o dinheiro em subsídios de desemprego e encaixar perdas de IRS (porque os desempregados são, para um Estado, um custo em várias frentes), canalizá-lo para investimentos que gerem trabalho directo e indirecto.
Relançar a economia, lançar um programa de revitalização reprodutível, lançar programas de economia verde, reabilitar edifícios públicos, pontes, prosseguir a reabilitação de escolas, de tribunais.
Apostar em força na educação, na investigação, na formação profissional, lançar um programa de estímulo a quem regresse ao País.
Lançar um programa coerente de estímulos à natalidade.
Lançar programas integrados virados para o mar (pesca, biologia marítima, indústrias ligadas ao mar como, por exemplo, a conserveira, etc).
Lançar um programa de construção de creches, de lares, de espaços para tempos livres de novos e velhos.
Lançar um programa mas um programa a sério para o turismo.
Apostar fortemente na cultura e transformando-a na imagem de marca do País.
Ter como objectivo de base, relançar a industrialização do País, após análise das áreas em que pode haver vantagens competitivas.
E, claro, acabar com toda a espécie de organismos que não fazem falta, reduzir o número de autarquias e de executivos camarários, reduzir o número de deputados (o que é um peanut mas é um exemplo e mal não faz já que metade dos deputados não anda lá a fazer nada), acabar com a pouca vergonha de, para tudo e para nada, contratar consultores e escritórios de advogados, acabar com mordomias abusivas.
E, como é evidente, reorganizar a justiça, trabalhando em conjunto com os seus agentes. É indispensável agilizar e dignificar a justiça.
E voltar a restituir a dignidade profissional a profissões primordiais como a dos médicos e demais agentes de saúde, professores e demais agentes ligadas à aprendizagem e à aquisição de conhecimentos.
E podia continuar mas não vos maço mais. É nisto que acredito e é isto que funciona a bem das pessoas e da sociedade. E económica e financeiramente funciona, balanceia, e permite dirigir o País no sentido do futuro e o futuro é o destino de um País.
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As pinturas são todas de Francis Bacon (1909-1992), pintor inglês nascido na Irlanda, pintor da carne em decomposição, dos corpos que se desfazem, dos corpos putrefactos, infelizes, sem destino, pintor da corrosão, da degenerescência, do fim sem glória, do desolado e solitário fim dos tempos.
A escultura é de João Cutileiro, escultor de corpos com vida, com sensualidade, com amor, e é uma das suas mulheres, mulheres muito mulheres.
O nenúfar foi fotografado por mim este sábado e pretende mostrar que, até num charco, pode nascer uma flor pura, bela, colorida. A vida pode renascer, a esperança e o futuro devem fazer parte de nós.
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Se chegaram até aqui (eu confesso que já estou perdida de sono - e, portanto, incapaz de rever o texto; tomara que isto não tenha as vírgulas todas fora do sítio e letras trocadas), saibam que vos desejo um dia muito feliz, com muita energia e vontade de viver uma vida feliz.