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domingo, fevereiro 08, 2026

A psicologia das pessoas que têm um forte apego aos seus cães

 

O meu filho repreende-me: 'Não fales com ele como se fosse um bebé. Não é. É um cão.'. Bem sei. Mas é também um serzinho dependente de nós, um serzinho que precisa de atenção e de mimo. Claro que depois também é independente, por vezes barulhento, por vezes desaustinado. Mas também nos divertimos com isso. 

E, se o carteiro deixa qualquer coisa, eu sei logo. E, se vem alguém e não ouço a campainha, ele não se cala até eu perceber que alguém está ao portão. E se vou na rua e me cruzo com alguém que, noutra situação, me atrofiaria um pouco, com ele ao meu lado sinto-me segura. 

E a ternura que sinto quando se senta todo encostado a mim e deita a cabeça na minha perna ou quando faz uma habilidade e se vira a olhar para mim enquanto dá ao rabo e todo ele parece rir, isso não tem explicação.

Por isso, no seguimento do post de ontem, não levem a mal se reincido mas gostava que vissem este vídeo:

A psicologia das pessoas que estão profundamente apegadas aos seus cães vai para além da simples amizade. É uma necessidade biológica. Este vídeo explora a neurociência da ligação humano-cão, explicando porque é que o seu cão não é apenas um animal de estimação, mas um "guardião" do seu sistema nervoso.

Se se sente mais seguro com o seu cão do que com a maioria das pessoas, não está sozinho. Neste ensaio visual, mergulhamos nos conceitos de "Corregulação", "Testemunha Silenciosa" e porque é que os cães são essenciais para a estrutura da saúde mental. Discutimos como os cães ajudam a lidar com a ansiedade, a depressão e a solidão, ancorando-nos no momento presente.

terça-feira, fevereiro 25, 2025

O amor de (ou por) um pequeno ser

 

No outro dia, quando, ao fim da tarde, dávamos o nosso passeio, o nosso cão, que odeia outros cães -- cães, género masculino; porque, se forem cadelas, desfaz-se em simpatias, cheira-as, deixa-se cheirar, andam em volta um do outro -- atiçou-se todo contra um outro, pequeno, que andava à solta.

Sendo um cãozito pequeno, não houve drama. Cães à solta são um caso sério, e, ainda mais, se não houver dono por perto para ajudar a separá-los. Já tivemos várias cenas complicadas, com cães que atacam o nosso e vice-versa, e em que nos vimos à nora para os separar. Mas com um canito, a coisa é mais tranquila pois o próprio cão pequeno acaba por ter receio e afastar-se. Mas, neste caso, o problema é que, andando à solta, não apenas poderia afastar-se da sua casa como ser atropelado.

Estava uma outra caminhante a passar e ficou igualmente sensibilizada, com receio do que pudesse acontecer-lhe.

Olhámos em volta e não vimos nenhum portão aberto. Resolvi ir até à zona mais comercial, saber se teria passado por ali algum dono a perguntar por um cão perdido. Não, ninguém sabia de nada.

Telefonei, então, para a Polícia inquirindo o que se poderia fazer. Disseram-me que só a Câmara pode mandar a brigada de resgate de animais mas que, àquela hora, já estariam fechados. Mas avisaram-me que, se o apanhassem, o levariam para o canil.

Enquanto eu tinha ido fazer as inquirições, a outra senhora ficou perto do cão para tentar impedir que ele fosse para a estrada. E o meu marido tinha-se afastado um pouco com o nosso, para não estarem a provocar-se mutuamente.

Quando cheguei ao pé da senhora, já a pensar no que faríamos, já ela andava a tocar às campainhas. 

Numa das casas apareceu um homem que reconheceu o cãozinho e disse que já no outro dia ele tinha fugido e disse qual a casa. Fomos, então, até lá.

Apareceu uma jovem, aflita, com crianças em volta. Andavam à procura dele no quintal e não o achavam. Explicou, então, que o cãozinho se escapava por entre a sebe que serve de vedação e que tem que estar fechado em casa. Mas a filha, pequena, tinha pena dele e abria-lhe a porta para ele brincar no jardim. Agarraram-se logo a ele, felizes.

E eu e o meu marido lá fomos à nossa vida, e a senhora-caminhante lá foi à vida dela.

No outro dia, eu que gosto de dormir com a janela aberta (mas, agora só a abro quando o meu marido se levanta pois ele recusa-se a dormir de janela aberta quando está frio), acordei a ouvir a voz de um homem e a voz de uma mulher a chamar 'Dula!', 'Dula!'. As vozes eram de aflição e percebia que andavam de um lado para o outro. Depois deixei de ouvir.

O meu marido contou-me que eram uns vizinhos de uma casa lá mais para a frente, na rua, que tinham ido buscar uma cadela ao canil mas que ela, nem eles tinham percebido como, se tinha escapado. Foram encontrá-la mais à frente, no quintal de outra casa.

Com este nosso, quando era pequenino, apanhámos um susto. Fugiu para a rua e corria, corria, atravessava a rua de um lado para o outro, numa brincadeira maluca. Eu e o meu marido a mandarmos parar os carros e ele, feito doido, numa brincadeira. Até que o meu marido conseguiu agarrá-lo.

E com a nossa boxer doce como mel também apanhou, ele, um susto. Tinha ido passear com ela ao jardim que havia não muito longe de casa e ela tinha conseguido escapar-se dele. Já era de noite. Ele chamou por ela, chamou, chamou, andou por ali à volta à procura dela. Quando foi para casa, inconsolável por ela se ter perdido, estava a pequena patifa à espera dele à porta de casa. 

A estima que uma pessoa desenvolve pelos animais, em especial pelos nossos, mas, também, de forma geral, por todos, é sempre tocante. É uma questão de respeito, de generosidade, de afecto -- não sei.

O vídeo abaixo é exemplo disso. A natureza é fascinante e quando sabemos respeitá-la e amá-la geralmente ela recompensa-nos.

Homem resgata um colibri preso numa teia de aranha e o que aconteceu depois foi incrível

Um homem compassivo chega a casa e descobre um pequeno colibri preso em teias de aranha no seu jardim. Neste comovente documentário sobre a natureza, testemunhamos uma bela demonstração de bondade humana enquanto ele ajuda cuidadosamente o colibri a escapar da sua sedosa prisão. A sua abordagem gentil com os animais e a sua dedicação à natureza criam um vínculo caloroso, à medida que cria um refúgio seguro para o seu pequeno amigo, com um alimentador para colibris.


Um dia feliz

sábado, julho 08, 2023

Hurricane, um super fantástico cão

 

O nosso amigo, grande amigo, urso cabeludo, está mais obediente e é de uma ternura infinita. Gosta de mimos, gosta de estar perto dos 'seus', gosta de manifestar a sua alegria.

Quando revê alguém da família fica doido de alegria. Salta, abraça, rodopia, dá lambidelas, tudo a grande velocidade e na maior exuberância.

Mas continua excessivamente protector. No outro dia um dos meninos pediu que eu lhe desse uma massagem com um gel. Deitou-se no sofá, de barriga para baixo. E eu de pé, com o frasco na mão, despejei-lhe o gel fresquinho para cima. De cada vez que era atingido, dava um grande berro. Pois imediatamente, o dog de guarda saltou, quase mostrando os dentinhos, para me tirar aquilo da mão. Tive que me zangar, claro.

A minha menina gosta que eu a penteie. Faço-lhe trancinhas, prendo flores, o que me ocorrer. E tudo bem. Mas comprei uma escova grande. E, por algum motivo, quando pego na escova e me aproximo dela, ele fica nervoso e faz barulhos meio intimidatórios ou salta para me tirar aquilo da mão. Se for com um pente não há problema. Mas tomou aquela escova de ponta, vá lá perceber-se porquê.

Ontem estávamos todos numa mesa numa esplanada. Está na maior, todo contente. Mas se, de súbito, alguém vem na direcção da nossa mesa, fica possesso. Tem o meu marido que o agarrar firme ou pegar na trela e afastar-se com ele. Dá ideia que pensa que vêm atacar-nos. Maluco, pá.

Percebe o que lhe dizemos. Até inclina a cabeça para melhor processar o que lhe digo.

Mas a nível de obediência o máximo que faz é sentar-se, ficar quieto ou vir à chamada. E, mesmo assim, vir à chamada só se não tiver melhor alternativa.

Não sei se é dele ser assim ou se somos nós que não sabemos dar-lhe a volta.

Claro que, com a experiência que tenho com o cabeludo aqui de casa (refiro-me obviamente ao cão...), ao ver um obediente de dar gosto fico intrigada. Como é que se consegue uma coisa assim?

Hurricane The Dog is a New Star on AGT 2023

Adrian Stoica & Hurricane Audition AGT 2023


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Um sábado bom

Saúde. Um dia descansado e/ou animado. Paz.

domingo, maio 14, 2023

Robert de Niro, pai aos 79 anos.
Por cá não temos proezas dessas mas temos o Bobi que tem 31 anos.
Só se for a mega hiper casa do Montenegro, uma espampanância que vai lá, vai.
Bem, no Reino Unido têm uma futura rainha a tocar piano na Eurovisão. Também é bom.

 


Enquanto na televisão desfilam os diversos países do festival da Eurovisão, inegavelmente um extraordinário espectáculo de cor, design cénico e luz, depois de ter prestado especial atenção ao coração português da Mimicat, agora passo os olhos pelas notícias.

Se calhar por ter chegado há pouco do campo, por ter andado a cortar rebentos ladrões, a apanhar erva e flores que rebentam no meio dos caminhos de pedra, a varrer e a apanhar doses massivas de caruma e pinhas roídas, estou sintonizada em coisas mais invulgares.

Saber qual o empregador da Alexandra Reis não me assiste. Que fique por lá antes que atire com o governo todo abaixo e, de caminho, ainda leve o Marcelo à resignação. 

Quanto muito detenho-me um bocado naquela do casarão do Montenegro, à beirinha da praia. Não sei se é a residência usual ou se é apenas a casota de praia. 

Como não faço ideia disso de que se fala por aí -- se era obrigado a declarar ou a dizer de onde lhe veio o carcanhol --, agarro-me a coisas na base dos peanuts. Em concreto o que me intriga é para que quer ele uma casa com seis andares, mais de oitocentos metros quadrados de área, consta que com elevador e oito casas de banho, jardim vertical, não sei quantos quartos... Ainda se tivesse dez filhos ou cinco mulheres e tivesse que distribuir a malta por andares... Agora parece que não, que só tem 1 mulher e 2 filhos... Não se percebe. Mas, se calhar, um dia destes ele ainda vai largar aquele sorrisinho de joker dos pequeninos e nos vai contar. 

Agora duas notícias despertaram verdadeiramente a minha atenção.

A primeira é que o fantástico Robert de Niro, 79 anos, acabou de ser pai pela sétima vez. Acho, francamente, o máximo. Deduzo que a mãe da criança seja mais nova e não sei que posição ocupa no ranking das mulheres dele mas isso não interessa pois, apesar de serem muitas, a última é sempre a que vale.

A segunda é que o Bobi, um rafeiro alentejano português, já tem 31 anos. Feito extraordinário. E tanto mais extraordinário quanto nunca comeu ração mas apenas comida normal, a mesma que os donos comem (embora digam que comem comida com pouco tempero). O dinheiro que nós aqui em casa gastamos em ração de boa qualidade, em ossinhos oral não sei quê, nisto e naquilo. Vejam bem.

Tirando isso, o que desejo é que a Mimicat consiga uma boa pontuação. Simpatizo com ela e acho que a actuação foi impactante.

Tenho pena é que o Marcelo não tenha lá ido dar um pezinho de dança. Não fazia mais que a sua obrigação. Ele que ponha os olhos na Kate Middleton que foi tocar um bocadinho de piano na abertura do festival deste ano. Assim é que é. 

[De ser pai outra vez nem falo]


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Um bom dia de domingo
Saúde, Boas vibes. Paz.

sábado, abril 08, 2023

Um urso cabeludo, um coelho aos saltos, um cão imponente, muita natureza, paz e beleza
-- In heaven --

 

Estava a passear ao fim da tarde, passarinhos cantando de dar gosto, olhando e fotografando flores e florzinhas, só eu e o meu urso cabeludo, quando o vejo dar um salto e largar em louca correria. No mesmo instante, vejo um coelho aos saltos, correndo e saltando. Por pouco não fiz o mesmo. 

Em vez disso desatei aos gritos, gritando pelo nome do urso perseguidor. Poderão achar que é exagero meu mas juro que estava arrepiada. Nos momentos em que um crime pode estar em perspectiva todo o meu corpo fica em transe. Finalmente vi o urso deter-se num zona de moita mais compacta e desatar aos saltos, com latidos curtos e bem sonoros. E eu  gritar por ele. Temi até ao último instante que me aparecesse com o inocente coelhinho nos dentes.

Mas o coelho, veloz, deve ter-se enfiado nalguma lura. 

Pois eis que o urso veio a correr, aos saltos, a dar ao rabo, pondo-se de pé, todo ele sorrisos e felicidade. Pela reacção percebi que achou que fez o que achou que tinha que ser feito: rechaçou o inimigo.

O meu marido chegou entretanto e ele fez a mesma festa. Nitidamente estava a dar conta, também ao dono, de que tinha feito uma boa acção.

Depois foi pegar-se com os enormes lobos da quinta lá de baixo. Os três bisontes ferozes encostados à vedação do lado de lá e o urso do lado de cá, uma peleja que só visto. Dos três do lado de lá, há um que é imponente. Quando me aproximo, cala-se e fica a olhar para mim. É um animal fascinante.

Como continuei a minha caminhada não vi o vizinho, apenas ouvi vozes. O meu marido contou-me que o vizinho estava a chegar e, ouvindo tamanho ruidoso concerto, foi ver o que se passava e aproveitou para desejar boa páscoa. Simpático.

Entretanto, andei a apanhar nêsperas e, pelo sim, pelo não, a comê-las. E fiz também os meus telefonemas. E etc.

Já quase noitinha, o meu marido sugeriu que era melhor virmos para dentro e eu concordei porque a friagem começava a descer. Ele foi chamar o cão de guarda que andava desaparecido. Aqui é que o dog anda nas suas sete quintas. 

A fotografia está assim pois foi feita muito de longe, um zoom bem longínquo

Chamou, chamou. Por fim já chamava à bruta, na base da ordem de ou vens ou vais pagá-las. Fui também chamar. E também assobiei (que I know how to whistle). 

Nada de fera.

Passado um bocado apareceu, lampeiro, com as barbas meio molhadas e todo ele se lambendo. Feliz da vida.

Passado um bocado, já aqui na sala, veio pôr ao pé de mim uma corda de brincar. Peguei e ele agarrou com os dentes para eu puxar e ele fazer o mesmo em sentido contrário. E então senti-lhe um cheiro que não identifiquei, um cheiro orgânico, a coisa viva, uma coisa muito disturbing. O meu marido disse: por isso não veio quando chamei por ele. Nem quero pensar no que pode ter sido.

Para além de coelhos há de certeza vários esquilos. 

Debaixo dos pinheiros do costume há um mar de pinhas roídas. Quantos esquilos serão necessários para darem conta de tamanho ror de pinhas...?

Mas lá em baixo, ao fundo, também já vi vestígios deles. 

E sabe-se lá o que mais há de bicharada. Já para não falar nos pássaros. Um chilreio que derrete qualquer coração. Aliás, tudo aqui derrete, afaga e conforta o meu coração.

Tirando isso, fui ao supermercado e fiquei outra vez estarrecida com o que gastei. No fim, olhei para o talão tentando perceber como foi tal possível. As coisas a um preço estúpido. No fim, como que para gozar com a minha cara, aparecia escrito que tinha poupado 19€. Se tivesse apanhado a patroa do supermercado à minha frente capaz de fazer uma bolinha com o talão e, pedindo-lhe licença, fazer-lhe pontaria à cara de pau com que se apresenta a dizer que, nisto tudo, a distribuição está a fazer grandes sacrifícios. 

Mas, pronto, já fiz as compras todas para o fim de semana. Dessa já estou despachada.

Só ainda não contei que depois da visita familiar, da ida ao supermercado e do almoço, viemos os dois até ao sofá, carregámos no botão para o transformarmos em quase cama e, não sei como, quando demos por nós, eram seis e meia da tarde. Não sei quando é que este peso de sono nos vai sair de cima. Imagina se isto nos dava quando ainda estávamos no activo. Havia de ser bonito. Ou então isto não tem a ver com a covid mas com cansaço acumulado durante décadas. Não sabemos. 

Mas há-de passar.

O que sabemos é que há por aqui muito que fazer, muito mato para cortar, muita árvore para podar. Temos que vir com mais tempo. 

E só de pensar nisto me encho de felicidade.

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E, já agora, dois vídeos cheios de muita beleza e que também me trazem felicidade


Julie Gautier. Musica de Carlos Hof do album ADORE.

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Corda flexível de aço @CirqueduSoleil
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Um dia bom
Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, abril 03, 2023

Dias numa espécie de limbo.
E os hábitos e os alimentos saudáveis das pessoas com mais de 100 anos

 



Há bocado o meu filho perguntou se tínhamos ido passar o dia ao campo. Só então me lembrei dessa nossa intenção. Éramos para ter ido, de facto. Acontece que nos esquecemos. Não dá para acreditar mas juro que é verdade. Esquecemo-nos.

No sábado à noite estava tão cansada e fiz um esforço tão grande para não adormecer na sala não fosse depois faltar-me o sono na cama que, afinal, espertei tão radicalmente que voltei a ter uma insónia das brabas. Só adormeci de manhã, provavelmente perto das seis. Horrível. Por isso depois dormi até às onze. 

E, de tarde, depois do almoço, fui até ao cadeirão e adormeci. Devo ter dormido, no mínimo, mais de uma hora. E o meu marido, ainda que em ciclos distintos, também esteve hoje fora de combate.

Pode parecer estranho mas é verdade. A minha filha já sugeriu que fizéssemos umas análises se isto continuar assim. Se calhar. Se nos mantivermos assim na volta teremos mesmo que investigar o que se passa, se isto é normal, esta falta de energia.

Felizmente não precisei de cozinhar. Hoje, quer ao almoço quer ao jantar, comemos restos. Por exemplo, ao jantar e tudo em frio, a minha refeição foi: um bocadinho de arroz, meio hambúrguer (de carne de vaca e porco), meio queijo fresco de cabra (usando o líquido para temperar), uns quantos bagos de uva, uma maçã pequena cortada aos cubinhos, alface, um bocado de paté de frango (1) e o que sobrou da emulsão de tomate (2). Temperei com azeite e orégãos. 

Soube-me lindamente. Cada vez gosto mais de comidas assim, frias, simples, feitas na hora. Misturadas variadas.

(1) Paté de frango, feito para barrar fatias de pão torrado no forno:

Cozi peito de franco com um cebola grande e meio alho francês. Escorri o caldo. Depois moí tudo (carne, cebola, alho francês e salsa) com varinha mágica e fui juntando o caldo qb (que foi quase todo pois cozi com pouca água). Juntei sumo de limão, cebolinho fresco, um pouco de ketchup, azeite. Moí bem até ficar uma pasta cremosa.

(2) Emulsão de tomate, idem para as tostas em cima da qual coloquei salmão fumado:

Num copo misturador, coloquei três tomates bem maduros e moí bem. Depois juntei um pouco de sal, um pouco de coentros frescos e orégão e fui juntando, devagar, um fio de azeite enquanto continuo a bater com a varinha. 

Fizemos duas caminhadas, uma antes de almoço pelo campo aqui perto, outra, ao fim do dia, aqui pelo meio das casas, passeio que adoro fazer. 

Pelo meio só me sobrou tempo para fazer umas pesquisas para me ajudar na mais ingrata das tarefas: a escolha do nome do livro e do pseudónimo. Ontem testei os que tinha escolhido e não fui muito bem sucedida. 

  • No que respeita ao título, eu também não estava muito convencida. Hoje tive um vaipe. Já está. 
  • No que se refere ao pseudónimo é que é do caraças. Claro que o meu marido, em vez de ajudar, só desajuda. Goza, desconstrói, parodia e depois, se quero que leve a sério, já o apanho com a paciência esgotada. A Fátima, estimada Leitora, deu-me boas sugestões mas como agora meti na cabeça que quero um pseudónimo que, eventualmente, venha a vingar doravante, a coisa fia mais fino. 

Cada vez a televisão ocupa um espaço mais diminuto nas nossas vidas. Só à noite a ligamos. Eu vou espreitando enquanto brinco com o computador, o meu marido usa-a para refilar, fazer zapping ou adormecer. Mas há bocado estive a ver, em gravação, a entrevista da Rita Ferro, na sua casa em Salvaterra, com o Goucha. Gostei de ver. É ela. 

O meu marido no fim disse: 'Não acredito em nada do que ela disse'. Fiquei admirada. Eu acreditei em tudo. Ele não. Diz que acha que ela diz o que, no momento, lhe apetece dizer ou que acha que vai produzir mais efeito. 

Fiquei a pensar que isto de existir é uma coisa ingrata: haverá sempre quem não acredite no que dizemos ou que distorça ou desvalorize o que dizemos. Pensamos que estamos a ser genuínos, a falar com o coração nas mãos, e depois alguém diz: 'nada daquilo é sincero'. Ou o contrário: quantas vezes as pessoas encenam uma pose, exibem um personagem, tudo teatro. E, no fim, algumas pessoas concluirão: 'Pessoa franca, exemplo a seguir'.

Enfim. É o que é.

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Partilho um vídeo com hábitos de vida saudáveis

[Tem legendagem em português]

Os hábitos e os alimentos mais saudáveis que estão presentes na vida de pessoas com mais de 100 anos

Como se vive nas Blue Zones?

Have you ever wondered how people in certain parts of the world live well into their 100s with remarkable health and vitality? These people live in the so-called "blue zones" and they have several things in common, one of which is their diet. In this video, we'll be exploring the specific foods that are commonly consumed by centenarians in blue zones and have been linked to longevity.


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Os cães foram pintados por Franz Marc
E, na partida de Ryuichi Sakamoto, Forbidden Colours

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Inteligência. Paz.

quarta-feira, março 01, 2023

Coisas mais fofas

 

Durante quase treze anos tivemos na nossa família uma cãzinha muito meiga, uma santa que, a esta hora, deve estar a olhar por nós a partir do céu dos cães. Nunca desobedecia, nunca rosnava, era uma ternura, uma brincalhona. Os meus filhos adoravam-na e nós também.

Quando o meu filho começou a trabalhar (a minha filha já trabalhava há mais tempo pois é mais velha), deixando de poder levá-la à rua a meio do dia (morávamos num apartamento), passei a ir levá-la a casa dos meus pais à segunda de manhã, indo buscá-la à sexta à tarde. Custou-nos. Mas era melhor para ela.

Nessa altura foram os meus pais que se afeiçoaram fortemente a ela. O meu pai levava-a a passear à praia ou ao campo e a minha mãe dançava sob o seu olhar atento. Contavam-me as suas proezas e meiguices quase como se falassem de um neta mais nova.

Daqui
Depois foi o meu pai que teve o AVC e, com a revolução que isso representou lá em casa, era totalmente impossível ela lá continuar.

Foi uma época complicada para toda a família. 

E para a nossa cãzinha mais fofa também: passou a ficar todo o dia sozinha em casa. Não me lembro se o meu marido de vez em quando dava um salto a casa à hora de almoço. Só que, nessa altura, já ela estava com os problemas de saúde que advinham da sua idade avançada.

Sofri com os seus desmaios, sofri com a sua falta de força resultante de uma anemia, sofri quando tinha que ser internada ficando a olhar-me com tristeza, sofri, sofri muito, mesmo muito, quando aceitámos o que a veterinária nos vinha dizendo, que já não fazia sentido continuar a prolongar-lhe o sofrimento. Chorei como se chorasse a morte de um ente muito querido. 

Durante anos não consegui falar dela, tantas as saudades que tinha e tanto que a nossa decisão me tinha pesado.

Por isso, nem queria pensar em voltar a passar por tal situação, achava que não suportaria outro idêntico sofrimento.

A nossa fera derretida com o mimo de um dos meninos

Até que há um ano e meio, depois de filhos e netos muito insistirem na alegria que seria voltarmos a ter um cãozinho na nossa família, o meu coração abriu espaço para um outro amigo.

Depois de algumas tentativas falhadas, fomos ver um peludinho cuja mãe era pastora num monte alentejano. Quando ligámos ao dono, um pastor, mal o ouvíamos, só se ouviam badalos. Apareceu-nos depois, vindo directamente do monte, e tinha um tufo de pelo no banco do carro. Peguei-o imediatamente ao colo e ele logo se aninhou em mim. Amor à primeira vista.

Um Serra de Aires, um puro cão pastor, não tem nada a ver com uma Boxer. É teimoso, irrequieto, tem uma vontade muito própria, é refilão, de vez em quando mostra os dentes (embora cada vez menos), de vez em quando rosna (embora cada vez menos, cada vez mais baixinho, ficando depois a olhar de lado a ver se ficámos zangados) e tem um energia infindável. Mas é uma companhia alegre, é inteligentíssimo e de uma doçura que talvez supere a da nossa querida cãzinha. É-nos de uma total dedicação e tem manifestações de uma tocante ternura. E adora toda a família.

Sei que um afecto assim dificilmente se compreende por quem não tem ou nunca teve um cão. Mas quem já conheceu o amor verdadeiro e incondicional de um cão certamente compreende.

O nosso urso mais fofo agora com o pêlo em vias de ficar igual ao que era antes da tosquia

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Este vídeo aqui abaixo mostra como são afectuosos estes queridos amigos.

Beije o seu cão e registe a sua reacção


Um dia bom
Saúde. Amor. Paz.

sexta-feira, dezembro 02, 2022

Um dia no spa -- e não venham falar-me em vida de cão

 

No outro dia, pessoa altamente entendida na raça do nosso urso felpudo, vendo-o, considerou que deveria ser tosquiado pois estava com nós no pelo e aquilo já não ia lá com a nossa técnica heurística. Só ultimamente atinámos com a escova-cardadeira adequada. Aquilo não é pelo, é lã e como tal deve ser tratada. Mas tarde demais. Além disso, era na base 'deixa lá a dona pentear' e, quando ele resolvia que já chegava, eu, que não tenho instintos ditatoriais, deixava-o ir. Portanto, aquela farta cabeleira foi-se enleando. De vez em quando, cortávamos os nós. Por vezes, formavam-se quase bolas de pelo. O pelo externo enleado em volta do sub-pelo. 

Percebemos que nada disso, o problema tinha transcendido as nossas capacidades caseiras. Entregámo-lo, pois, nas mãos de um mestre premiado, experiente. Não sabia que os groomers também são avaliados e trofeuizados. Mas são. E este é um desses.

Nós com medo que a fera se lhe atirasse, o trucidasse, o comesse vivo. Zero. Este groomer é daqueles que não dá abébias. Macho alfa. Em poucos segundos estava a pegar na fera, a pô-la em cima da mesa, a laçá-la e a pôr-lhe uma ligadura de gaze em volta da boca. De cada vez que o pobre ursinho tentava revoltar-se, ele punha-lhe o braço em redor, dava-lhe inquestionável ordem de calma, anulava-lhe a vontade de ser rebelde. Fui filmando. O meu filho resumiu: assertividade física. Tal e qual. 

Foi penteado, a lã desensarilhada, tosquiado, foi para o banho, esteve com amaciador e hidratante, foi enxaguado, secado, penteado, novamente tosquiado, penteado de novo. E, durante todo o processo, quase dócil.

Saiu de lá com metade do volume, pelo compacto mas rasteiro, macio. Vison, seda. De vez em quando anda à volta, à procura do pelo, estranha-se a si próprio. E veem-se-lhe bem os olhos, parece outro. Imagino que ele próprio veja o mundo de outra maneira. Há bocado esteve aqui sentado a olhar para mim. E eu para ele. Depois encostou-se, quis que eu lhe fizesse festas. Claro que sim, não as regateio. Não tenho feitio para ser macho-alfa. Por isso toda a gente me diz que eu, para ele, sou uma ovelha. Felizmente, ao meu marido parece que reconhece como pastor.

De casa dos meus filhos iam chegando fotografias dos meninos já com árvores de natal e demais decorações. As casas bem bonitas. Entretenimento caseiro em tempo de viroses. Do lado da minha filha estão em recuperação, embora um ainda um pouco empanado. Gripe A, disse a médica. Fortes, tinhosas, demoradas de curar. Do lado do meu filho, foi um, agora é outro com febre. Vá lá que parece que mais ligeiras que a dos primos. Isto depois da mãe ter tido covid pela terceira vez este ano (estando vacinada e revacinada). Portanto, isto está bonito. 

Agora à noite, depois de os dois (mais o contrapeso, outrora urso cabeludo) termos ido passear na praia e de termos jantado, senti muito frio. Isto, embora não esteja temperatura para isso. Não querendo desafiar a sorte, aqueci-me o mais que pude. Quando me senti aquecida, deu-me o sono. 

A minha filha perguntou-me se já tínhamos feito a árvore de Natal. Não. Nunca tenho paciência para isso. O meu marido é que costuma fazê-la. Eu sou mais para luzinhas. Comprei dois fios com luzinhas que acendem com pilhas. Colocá-las-ei dentro de jarrinhas de vidro ou de copos altos. Acho que farão uns belos pontos de luz em cima das mesas. Também comprei uma grinalda com umas estrelinhas. Pensei pôr à volta do corrimão do rés-do-chão para o primeiro-andar. Afinal é curta, só dá para o primeiro lanço. Mas fica bonito. Também tenho uma arvorezinha estilizada, dourada, com pontinhos de luz. Está na pedra da lareira e fica lá todo o ano. A ver se também se enfeitam as árvores no jardim com bolas grandes. Mas não eu. Quanto muito, ajudo.

Não tenho grande paciência porque é coisa efémera. Se fizesse sentido, deixaria as bolas nas árvores o ano todo, gosto de ver. Ou as luzinhas em casa. Fica a arvorezinha da lareira e se calhar também poderei usar os copos altos com as luzinhas. Mas as do corrimão ou outras não faz sentido manterem-se. Montam-se agora para desmontar a seguir. Não tenho grande paciência.

O que sei é que este feriado me soube a férias e gostava de assim continuar. Há bocado, vi notícia de uma galeria a norte e pensei que me apetecia que nos metêssemos no carro e fossemos até lá. Depois pensei que amanhã (ou melhor, hoje) é sexta-feira, dia útil. Não dia de passeio. Ah, que vontade de ser dona do meu tempo. Caraças.

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As imagens, geradas com recurso a Inteligência Artificial, são da autoria de Kevin Lamb

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Uma boa sexta-feira

Saúde. Animação. Paz.

domingo, julho 17, 2022

Um encontro de cães introvertidos
(e um cãobeludo muito mal comportado)

 

Creio que já toda a gente, alguma vez na vida, experimentou a incómoda sensação de chegar a um lugar onde não se vê ninguém conhecido e onde parece que toda a gente está na mesma situação. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um convite que recebi para um pequeno-almoço para discutir um tema de interesse supostamente emergente. Foi no Carlton que, se não estou em erro, é agora o Pestana Palace ali à Ajuda. Iria estar presente um guru da matéria. Sou muito avessa a estas coisas. Não tenho pachorra. Acho que se dizem muitas banalidades. E há pessoas que as dizem pensando que estão a dizer coisas de jeito o que se torna cansativo e desconfortável. Mas naquele caso, já não me lembro bem porquê, talvez por ter pensado que talvez se aproveitasse alguma coisa, acabei por aceitar. Quando estava a ir, a pessoa que tanto tinha insistido para eu ir, ligou-me para pedir muitas desculpas mas, por um qualquer imprevisto, ia chegar mais tarde.

Portanto, cheguei lá, não conhecia ninguém, era um grupo para aí de dez pessoas, talvez nem tanto. Todos a olharem disfarçadamente uns para outros, alguns a tentarem disfarçar a atrapalhação olhando para o telemóvel. O guru falava em inglês pelo que, por cortesia, as poucas palavras que se ouviam eram em inglês. Até que entrámos para a salinha onde o encontro se ia dar foi uma coisa meio constrangedora. 

Detesto situações assim. Detesto meter conversa com quem não me interessa para falar de assuntos que também não me interessam.

Claro que há o oposto que é chegar a um lugar em que se conhece meio mundo, em que toda a gente fala com toda a gente, um fervilhar de cumprimentos e abraços e tudo meio fugidio pois há sempre alguém a chegar e a cumprimentar e a interromper qualquer esboço de conversa. Os grandes encontros do Grupo são assim: uma festa de superficialidade. Pelo meio reencontram-se pessoas que a gente tem mesmo gosto em rever e com quem gostaria de pôr a conversa em dia mas também há pouca ocasião para isso.

Pior ainda, quando numa situação destas aparece um chato que resolve pôr-se a querer tratar ali de assuntos que não são para ali chamados, assuntos que são uma maçada, que requerem atenção. Deslocados ali, portanto. Mas os chatos acham sempre que tudo é importante e não se calam.

Mas o tema hoje tem a ver justamente com um encontro de seres introvertidos. Todos a evitarem contacto visual, todos a ver se passam despercebidos, todos a ver se podem ir para casa, sossegados da vida, ninguém a querer interagir.


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E hoje fico-me por aqui mesmo. O dia foi uma maravilha, felizmente já sem aqueles calores excessivos, até com uma amena aragem. Dia de churrascada, e oh que bela churrascada com o meu filho em tronco nu e com um avental preto a preceito aos comandos da operação. Como bom caranguejo que é, gosta de cozinhar para os outros. Carnes variadas que, em especial a maltinha miúda, devorou com voracidade. Dia de festa, cantoria, brincadeira, a família toda reunida, as crianças (algumas já francamente com o pé na adolescência) felizes da vida, amigas que dá gosto vê-los. O mais velho aproxima-se a passos largos dos catorze, o mais novo tem cinco. O tempo passa e é uma felicidade ver como crescem, como afirmam a sua personalidade, e como se mantêm tão amigos.


Quem se portou mal -- e foi posto de castigo -- foi o urso cabeludo que, fofo e meiguinho como é, quando lhe queremos tirar alguma coisa vira uma fera. 

Rosnou e tentou mesmo atacar ao querer tirar-lhe uns óculos de sol do menino mais novo. É possessivo até dizer chega e comigo, com a minha filha e com a minha mãe a querermos tirar-lhe aquilo, a cercá-lo, e comigo a zangar-me e a aproximar-me demais, a coisa ficou preta. Dentinhos à vista, rosnar e mesmo saltar para ver se me afastava. Não me mordeu mas assustou-me. O meu marido, quando viu, correu, agarrou-o pela coleira e levou-o à força para casa onde foi posto de castigo, ficando fechado num quarto. Bicho danado. Nunca a nossa meiga boxer fez alguma coisa que se parecesse. 

O menino mais crescido falou numa coisa que ouviu para casos assim, uma coleira com comando que emite um som ou vibra para que passem a associar o receio disso a algum comportamento impróprio. Mas, ao pesquisar, vi que pode ser contraproducente. Pode assustar-se e ficar ainda mais agressivo. 

Temos que ver o que fazer. Ou aceitamos não nos metermos com ele mesmo que o vejamos a fazer o que não deve ou temos que descobrir maneira de lidar com a situação. 

Aceito conselhos.


Enfim. 

Com isto, pouco tive que fazer mas a verdade é que sinto que estou a precisar de ir descansar. Acresce que estou com um joelho a dar de si. Não sei se é de alguns sacos mais pesados com que carreguei, se é de muita reunião e muitas horas sentada, se é de alguma falta de descanso, se é de ter feito ontem uma caminhada grandinha quando ele já estava a querer dar sinal. Tenho esperança que, com uma noite bem dormida, a coisa vá ao sítio. Portanto, inté.

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Os passarocos são colagens de papel pintado da autoria de Sarah Suplina

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Alegria. Paz.

sexta-feira, setembro 17, 2021

Ainda tantas saudades da minha cãzinha querida....

 

Há decisões muito difíceis. No dia em que nos despedimos (e mandámos abater) a nossa cadelinha mais linda jurei para nunca mais. Disse e pensei e disse e pensei e durante anos disse e pensei: 'não volto a passar por isto'.

Os seus últimos anos foram muito difíceis: teve um tumor maligno, foi operada, teve anemias severas, teve que levar transfusões. Teve que ficar internada e era tão doloroso para ela quanto para mim. Ela não devia perceber que estivesse tão fraca e tão doente e que eu a deixasse ali. Olhava-me com aqueles olhos meigos e tristes que se cravavam no meu coração. E eu pensava que sofria tanto por ela quanto sofria pelas pessoas da minha família que estavam doentes. Ou mais porque as pessoas percebiam e ela se calhar não percebia.

Quando estava em casa e estava doente por vezes estava muito bem e, sem aviso prévio, olhava-me e caia, inerte. Eu gritava, aflita, temia que ela tivesse morrido. Depois vinha a ela mas ficava trémula, cansada. Eram simples desmaios mas eu ficava aterrorizada com medo que nos morresse.

Nos últimos dias estava muito mal, não tinha força. Ela, que nunca fizera as suas necessidades em casa, não aguentava e fazia-as na porta do prédio ficando depois muito nervosa e envergonhada pelo que tinha acontecido. 

Lembro-me de num desses dias, nos últimos, eu ir à janela e ver, lá em baixo, o meu marido com ela. Ela quase não conseguia andar, o meu marido quase tinha que transportá-la. Era tão triste. Os dois tão tristes. Eu tão triste vendo-os pela janela.

A médica já nos tinha dito que a qualidade de vida dela estava a degradar-se acentuadamente, que já não havia muito mais que pudéssemos fazer. Estava quase com treze anos o que para uma boxer já era idade avançada.

Naquele dia ela estava mesmo muito mal. Olhava-me com muita tristeza, quase sem conseguir mexer-se. Queria levantar-se e não conseguia. Olhava-me, pedia-me ajuda, e eu tentava ajudá-la mas ela não conseguia. A tristeza dela era imensa. E a minha também. Tinha vontade de chorar só de ver a tristeza dela certamente por não perceber o que estava a acontecer-lhe. Ou, então, por perceber o que estava a acontecer-lhe.

Nesse dia levámo-la, uma vez mais, à clínica veterinária. Eu temia e intuía o que ia acontecer. Nas outras vezes ela levava uma transfusão, ficava a soro, algum tratamento. E ficava melhor por uns dias. Mas eu sabia que já estávamos a prolongar a vida dela para além do aceitável. Sabia que já não havia salvação possível. 

E então cometi o acto mais cobarde e imperdoável da minha vida. Quando lá chegámos, não consegui sair do carro. O meu marido levou-a e ela, milagrosamente, ainda conseguiu ir pelo seu próprio pé. Foi como se o seu corpo, num último acto de resistência, quisesse dizer-nos que ainda não estava no fim. Ficou no passeio parada a olhar para trás. Uma vez mais não percebia. Eu a vê-la a olhar para mim, admirada por eu não ir com ela, eu a saber que devia estar a vê-la pela última vez. Eu a pensar que deveria ir, deveria ficar a abraçá-la. Eu sem ser capaz. Não posso esquecer-me. Por mil anos que viva não me esquecerei dela, virada para trás, a olhar para mim e eu, coração destroçado, fechada no carro, a chorar.

Foi o meu marido sozinho com ela. Ia carregado de tristeza. Não falava. Nenhum de nós conseguia falar. Ele entrou na clínica e eu fiquei no carro a vê-los entrar.

Quando me ligou, já eu estava no meu gabinete. Não conseguia falar. Mas também não precisava de falar. Desatei a chorar. Quando um colega meu entrou no meu gabinete, encontrou-me lavada em lágrimas, destruída pela tristeza.

Ainda agora, enquanto escrevo, não consigo evitar: estou a chorar. Tantos anos depois, ainda não me recompus da perda daquela cãzinha doce e meiga que fez de nós a sua família.

E durante todos os anos tenho pensado: não aguentarei passar por outro desgosto assim.

Mas não posso pensar apenas nos seus últimos tempos pois antes houve todos os anos de imensas alegrias. As vezes que corria na praia, as vezes em que ia no carro e muito anos de chegarmos à praia já estava numa alegria, a animação em que ficava quando íamos para o campo, as vezes que saltava de alegria quando chegávamos a casa, as vezes em que, mal adivinhava que íamos sair, se punha à porta à nossa espera, as vezes em que se abraçava aos meus filhos, aconchegada, recebendo e retribuindo a mais pura ternura, as vezes em que nos desafiava para a brincadeira, as vezes em que mostrava que nos compreendia e nos amava incondicionalmente. Não posso esquecer o afecto que nos ofereceu nem a nossa alegria por percebermos que adorava o nosso afecto.

Ao fim de tanto tempo consigo escrever sobre esse ser tão especial que habitou as nossas vidas.

Se calhar isso quer dizer que, finalmente, estou preparada para ter outro cão.

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O título do post é o título de um livro muito comovente de Manuel Alegre

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Uma boa sexta-feira

terça-feira, junho 22, 2021

Esta é a irmã gémea de alguém que está aí desse lado

 

Há pessoas geneticamente mal dispostas. Gostam de dizer mal, gostam de chatear, só saem da sua zona de conforto para denegrir, insinuar ou, simplesmente, rosnar ou ranger os dentes.

De vez em quando recebo comentários desagradáveis que não acrescentam nada, apenas tentam chatear. Se digo que pus flores numa jarra, logo me aparecem aqui a depreciar ou a dizer que quero exibir a jarra, se digo qualquer coisa da treta logo aparecem a dizer que digo isso porque sou velha. Coisas assim. Mas o pior são os que aparecem a insultar outros comentadores, insinuando as coisas mais absurdas e humilhantes que se possa imaginar. Claro que comentários desses vão direitinhos para o lixo. Tal como na minha casa não abro a porta a gente parva ou tóxica, também aqui só publico comentários que façam minimamente sentido e não sejam ofensivos para quem me lê.

Mas fico a pensar: como serão essas pessoas? Ensimesmadas? Mentalmente perturbadas? Frustradas? E, só de pensar nisso, já me dá pena e já sinto vontade de estender a mão a quem se percebe ser gente mal amada, almas perdidas. 

Hoje vi este ser aqui abaixo e fiquei a achar que, com certeza, é o retrato fiel de alguma das pessoas maldosas que, volta e meia, aqui aparece a destilar fel. Há qualquer coisa de triste, de tédio, de mau humor numa criatura assim. 

Por isso, na volta, da próxima vez, em vez de deitar para o lixo as palavras venenosas que aqui deixam, vou mostrar a minha compreensão para que, numa próxima ocasião, venham antes desabafar, contar os seus traumas, as suas frustrações. Prometo uma escuta activa e toda a minha compreensão.

Nota: este cão é um daqueles a quem os donos colocam perucas, fotografam e partilham. Há mais do género mas iguais a si, Leitor/a que padece de má disposição crónica e que gosta de chatear os outros, não vi mais nenhum.

Por exemplo, este aqui abaixo é seguramente de outro género, uma lady que se quer mais sofisticada, respirando style.


Há nela qualquer coisa de Raquel Strada.

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Mas, pronto, nem todos terão gémeos separados à nascença. Haverá os únicos. One of a kind.


Contudo, se aí desse lado, alguém se achar igual a este, esteja à vontade, diga-o, mostre-se. Estamos cá para aproximar gémeos que se perderam uns dos outros.

😜

sábado, janeiro 23, 2021

O amor incondicional de Boncuk

 

Boncuk é aquele amigo que todos nós queremos ter, aquele que não regateia afecto, que não nos escasseia com cuidados, que está sempre disponível para esperar por nós, que, haja o que houver, não desiste de nós e que está pronto para nos receber quando estamos disponíveis. Amor assim é coisa que não é comum. Quem o vive é, certamente, feliz.

Boncuk é o cão que seguiu a ambulância quando Cemal Senturk, o seu dono, foi levado para o hospital e que, enquanto ele esteve internado, foi todos os dias, sozinho, para ficar, de manhã à noite, em frente do hospital. A filha de Cemal Senturk tentou levá-lo de volta para casa mas ele voltava para lá. Não entrava, apenas espreitava.

E, no dia em que Cemal Senturk teve alta, aí foi a alegria que se pode ver abaixo.

Nestes negros dias de peste, é bom ver coisas assim.


Uma ternura

domingo, setembro 13, 2020

Dia que começou vacilante, com alguma irritação à mistura, mas que teve um final feliz, com os meninos quase a pularem a cerca e até com uma raposa a atravessar a noite





Custou-me a adormecer. Pela primeira vez, hesitava. Sentia-me como se uma corrente me tivesse arrastado e, exausta, incapaz de pensar, tivesse acabado conformada com o lugar onde tinha ido parar. E, de repente, questionava: mas será que este é o momento? será que é mesmo isto que quero? que queremos?

De manhã, eu ainda a dormir pesadamente, o meu marido foi acordar-me. Tínhamos muito que fazer antes que o novo habitante nos viesse ser entregue. Tinha-se levantado cedo, como sempre, já tinha estado a fazer uma série de coisas com vista a preparar o alojamento desse nosso novo co-habitante. Verbalizei: 'Estamos a tomar a decisão certa? Já pensaste bem no que estamos a meter-nos?. O meu marido disse: 'Mal dormi. Não sei.'. Fiquei perplexa. Sempre foi entusiasta de cães, muito mais que eu. Confirmou: 'Não sei mesmo'. De repente, todas as reservas assomavam ao meu espírito: íamos perder a nossa liberdade, a partir de agora toda a nossa vida seria agendada em função do cão. É certo que com a covid pouco se passeia mas a pandemia há-de perder vapor, haveremos de voltar a uma vida em liberdade. O meu filho diz que ficaria com ele, nessas alturas. Mas uma coisa é um fim de semana de vez em quando, outra seria duas ou semanas, duas ou três vezes por ano. E têm lá eles vida para isso? E se o cão fosse de qualidade de dar cabo dos jardins? Do nosso, do dele? Um jardim tão lindo, este meu jardim. E o deles também tão bonito, tão bem arranjado. E ambos só víamos o lado negativo. Claro que o afecto, claro que a segurança. Mas e a perda de liberdade...?

Já tinha nome. Na véspera, quando o tínhamos ido ver, logo eles a fazerem festinhas, logo todos cheios de amor pelo bichinho, o bebé (que já não é bem bebé pois já tem três anos e meio) disse: vai chamar-se Meny que é como os manos me chamam. Disseram-me depois que é Manny que se escreve. Eu não quis fazer nenhuma festa. Senti que, se fizesse, para sempre ficaria incapaz de pensar, para sempre afeiçoada a ele.

E é que, depois, há outra coisa: o absurdo e insuportável fundamentalismo das senhoras das organizações que tratam da adopção de cães. Parece elas que alguém lhes conferiu poder para se armarem em justiceiras, em juízas de costumes, em grandes decisoras, uma espécie de autoridade à direita de deus-pai-todo-poderoso. Querem saber se temos uma família estruturada, se temos uma casa com condições, querem conhecer a casa, querem conhecer-nos a nós, querem que garantamos que as autorizamos a vir cá regularmente a casa verificar as condições em que vivem os animais e, se a coisa não lhe agradar, a virem resgatar os animais. E temos que assinar termos de responsabilidade, dar-lhes a cópia do cartão de cidadão, e temos que aturá-las dissertando como se fossem donas do mundo dos animais. Pensámos: 'Mas vamos alinhar nisto? Vamos meter-nos numa fria destas...?'. E tantas dúvidas formulámos que acabámos a concluir que não. Pelo menos por agora.  Ainda não. E não desta maneira. Telefonei, enviei mensagens. Quando consegui falar com uma delas, toda sentenciosa, respondeu-me: 'Agora não posso falar mas isso não é bom'. Passado um bocado, ligou-me outra, toda prosa, toda doutoral, falando como se fosse a dona de todos os cães do mundo, a dona de todas as verdades, inspectora-mora, magistrada do grande reino dos céus para cães adoptados. Falei cordatamente com ela mas intimamente só me apeteceu mandá-la para um lugar bem feio. Uma das coisas que me chocou foi a exigência de esterilizar os bichos. Mas quem são elas para nos exigir que esterilizemos os animais? Qual a ideia? Dizem que é para evitar que nasçam ninhadas. Ouvi aquilo com uma repulsa que mal consigo aqui descrever.

Quando comuniquei à família a nossa decisão, ficaram decepcionados. Mas acho que perceberam. Sobretudo, senti que acharam muito bem que não assinássemos aquele absurdo termo de responsabilidade. Fascistas, disse o meu filho. Fundamentalistas, disse a minha filha. Gente estranha, digo eu.

De seguida, aliviados pela decisão (mas, intimamente, com pena: o cachorrinho era uma fofura), fomos caminhar pela orla do mar.

Dali fomos tratar das argolas para o cortinado. Como não as encontrámos tão grandes quanto necessitávamos (obrigada, Amofinado, mas precisava de vinte e duas bem grandes, de um castanho envelhecido, nada que o Preço Justo me resolvesse), tivemos que trazer outro varão. Dali seguimos para o supermercado. Almoçámos depois das três. Ainda deu para descansar um pouco. Quando chegaram os primeiros convivas, estava eu a dormitar. O meu marido trouxe para junto do alpendre um grelhador grande que os anteriores proprietários deixaram junto à horta. O meu filho preparou uma bela grelhada mista com carnes que trouxe: piano, bifes de borrego, asinhas de frango, alheiras. Fiz arroz e salada de tomate. Depois houve fruta, gelados e a minha filha fez o bolo de iogurte que fica sempre bom. 

E jantámos no jardim e depois ali ficámos. Os meninos a brincarem às escondidas, a trepar às árvores, a correr, e nós a vê-los. Depois as meninas do outro jardim começaram a meter-se com eles e depois eles com elas e depois foram buscar bancos para espreitar para o jardim dos vizinhos e foi uma festa, uma alegria, os rapazinhos todos malucos com as meninas. A minha filha fotografou-os e é um momento que vai ficar para a história. Uma imagem do mais inocente, divertido e inesperado que é possível.

Quando se foram, por volta das dez da noite, o céu limpo e estrelado, ainda não estava frio. Pouco depois de ter estado, no portão, a despedir-me da minha filha, liga-me ela. Mas não era ela, era o mais crescido ao telefone, todo excitado: tinham visto uma raposa. Ao fim da rua, uma raposa. Grande, um rabo grande e peludo. Tinha estado a olhar para eles. Fotografaram-na. Mandaram-me a fotografia. Fiquei emocionada, arrepiada. Afinal, aquele vulto, no outro dia, com um grande rabo felpudo ali na horta, era mesmo uma raposa. É uma sensação estranha, curiosa. A sensação de um mistério vogando por aqui. 

Vai doce o mês de Setembro. E estes dias, com todos juntos, são ainda mais doces. Dias inesquecíveis.

Parece que o tempo vai mudar. Ainda não vivi esta casa em dia de chuva. Mas sei que vai ser bom, talvez ainda mais acolhedor. Se calhar, quando não pudermos estar no jardim, porque chove ou faz frio, iremos para o sótão que é amplo e, creio, confortável. Esqueci-me de dizer que quer os miúdos quer alguns dos graúdos estiveram de máscara. Eu não. Esqueci-me ainda de dizer que sinto saudades de os puxar para o meu colo, de abraçá-los e cobri-los de beijos. Se tento, logo alguém me diz: 'olh'ó covid...!'. Mas, havendo cuidado, haveremos de nos ir aguentando e logo, logo, já poderei andar agarrada a eles, meus meninos mais lindos, mais queridos.

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E, por hoje, nada mais tenho a declarar a não ser que as pinturas são de Sargent Claude Johnson com Patrick Watson interpretando Good morning Mr Wolf

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Desejo-lhe um feliz dia de domingo

quinta-feira, junho 18, 2020

Contra os chatos e os convencidos
marchar, marchar





Porcaria da internet. Isto hoje está naqueles dias impossíveis. Carrego numa qualquer opção e o ecrã põe-se branco, atordoado dos pensamentos, em total estado de estupor catatónico. Há bocado, estava eu a tentar descortinar uma complicação no meu computador, ouço o bebé: 'Pocaria da internet!'. Perguntei: 'Então, que se passa?'. E diz ele, apontando para o computador que estava a usar: 'Isto não anda!'. De facto. Todo o dia tem sido este desespero. Não mexe. Impossível escrever aqui com isto neste estado, em aberto e acintoso contravapor. Apetece-me desistir.


Enquanto não desisto, conto uma coisa. Quando estavam a sair, digo ao bebé: 'Olha, meu amor, gostei muito que cá tivessem estado' e responde-me ele: 'Nós ainda cá estamos...'. O meu filho disse: 'O tempo verbal que usaste não lhe pareceu correcto'. E fiquei a pensar que a nossa pressa em viver leva-nos a cometer estes erros, a transformar em passado o que ainda é presente. menino mais fofésimo.

Os manos estiveram com aulas e avaliações, tiveram boas notas, brincaram, zaragatearam um com o outro, brincaram com o maninho mais novo e, como sempre, encheram-me o coração. Os pais trabalharam, nós trabalhámos. E o tempo avança.

Entretanto, para além dos números assustadores de países em que a pobreza intelectual ou económica impera, vamos sabendo de novos surtos do corona na China e que, por cá, os números não descem tanto quanto deviam. Na volta, ainda nos arriscamos a ter mesmo a tal segunda onda que nos impedirá de voltarmos tão cedo a uma vida descontraída. Estou bem como estou mas, ao mesmo tempo, penso que qualquer dia vou mesmo ter que voltar a trabalhar em torres de vidro, sem janelas, e isso traz-me uma certa ansiedade. O bebé, quando se fala em escola, muda de conversa, levanta-se. Não lhe agrada. Está bem assim. Eu também estou.


Bem. Hoje vinha para falar de outra coisa. Aliás de duas coisas.

Uma é um mistério: estando aqui sossegada em casa, por que estranha razão não me dá para ler? Volta e meia pego num livro mas, confesso, ao fim de pouco tempo, pouso-o. Não sei porquê. Parece que não quero trazer para dentro desta insólita liberdade que agora vivo nenhum dos meus anteriores hábitos. É absurdo dizer isto a propósito dos livros e, na volta, nem tem nada a ver mas, se não é por isso, por alguma razão é.

A outra é esta: não tendo aqui senão a televisão corrente, quase não a vejo. Não suporto ver gente que se leva muito a sério, gente que se acha, gente que sabe tudo e não se ensaia nada de tecer juízos morais sobre os outros. Parece que toda a gente que ali vai se acha importante, sabedora, superior. Um tédio, uma seca, um saco. Desligo. Mudo-me para a netflix ou vou descobrir vídeos.



E penso: à distância, em reuniões remotas, consigo evitar muitos maçadores. A hipótese de voltar a frequentar a cidade, os corredores, os salões e demais antros de gente parva é daquelas que também me assusta.

Por exemplo, o vídeo abaixo. Uma graça.


Ou este:


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Fotografias de  Fee-Gloria Groenemeyer

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Saúde e alegria para todos

terça-feira, outubro 08, 2019

E, no fim, um milagre







Há pouco os meninos ligaram-me. O bebé informou-me: 'Comi arroz dôche'. Confirmei: 'Arroz doce? Comeste?' E ele: 'Todo!'. Ouvi a mãe a rir. Depois as vozes dos irmãos sobrepuseram-se e já não ouvi bem mas pareceu-me perceber que foi a avó que levou. Deve ter sido. Faz um arroz doce delicioso. Quando há festa, acho que toda a gente já vai a lamber-se só de pensar naquele tabuleiro de arroz-doce. Depois continuou, querendo saber: 'Onde 'tás?'. Respondi: 'Na sala'. Quis saber mais: 'Onde...?'. Esclareci: 'Na sala da televisão, aquela onde estão as mesinhas com que costumas brincar'. Ligeira pausa. E depois: 'Não tás no tânjito?'. Foi a minha vez de processar e, depois, confirmar que tinha percebido bem. 'No trânsito?' e ele 'Xim, não tás no tânjito?'. Desatei a rir. 'Não, hoje não, hoje já estou em casa, estou na sala'. Presumo que tenha sido porque na sexta-feira, quando nos disseram para jantarmos com eles, eu disse que estava no trânsito, presa, sem fazer ideia de quando poderia lá chegar. Não sei se ele sabe o que é o tânjito. Na volta, sabe. Pergunta tudo, sabe tudo.

Mas esta do trânsito por acaso é daquelas que me consome. Sempre no trânsito, todos os dias no trânsito. Os anos de vida que tenho perdido presa no trânsito...

Mas hoje o dia até não foi dos piores mas, de qualquer maneira, é sempre um somatório de momentos por vezes paradoxais, por vezes incómodos. Outras vezes simpáticos.


De tarde, estava um sol bom, a cidade dourada, um céu protector, limpo de sombras. Ponho de lado a apreensão pelo calor deslocado no tempo, pela ausência de chuva, tento pensar que sou mera espectadora de um filme que me é distante. Olhando de dentro, a rua parecia o cenário de um filme tranquilo. E eu pensei que poderia desligar das minhas preocupações -- que, na maioria, seriam escusadas já que são causadas por quem rema em sentido contrário -- e usar o computador para me pôr a inventar histórias ou, simplesmente, a escrever coisas de nada. Mas não, tenho que desviar o olhar e esquecer o apelo que me chega da rua.


Por um momento ainda pensei que talvez pudesse conciliar: ver a apresentação que me enviaram, responder a mails, atender chamadas, despachar umas autorizações e, ao mesmo tempo, ter um documento de word aberto onde, nos intervalos, fosse escrever coisas minhas. Mas, mal pensei nisso, entrou um e sentou-se à minha mesa de reuniões e, sem mais nem ontem, começou a falar e, mal saíu, veio outro perguntar se podia entrar pois tinha um problema para partilhar comigo. E sei lá que mais. Só sei que cheguei ao fim do dia com a folha em branco. Mas também não daria. Não consigo escrever com algum desprendimento de mim se souber que posso ser solicitada no minuto seguinte. Penso que é por isso que me habituei a escrever apenas quando não há movimento de monta à minha volta. Preciso de me sentir alheada.


Agora estou aqui na minha sala e também não estou desligada pois dói-me um joelho. Neste domingo, antes de irmos votar, fomos ter com os outros meninos ao parque. Um lugar idílico onde sabe muito bem estar. Enquanto vou caminhando devagar e conversando com a minha filha, os meninos vão fazendo exercícios nas barras e noutros aparelhos que estão ao longo do caminho. E até aí tudo bem. Só que também me apeteceu fazer exercícios. Não apenas andei a fazer equilibrismo em barras paralelas, várias barras cada uma mais alta que a anterior, como pedalei nas máquinas de pedalar, fiz ginástica às pernas, daquelas em que se faz muita força para as conseguir abrir e fechar, fiz aos braços e aos ombros, baixando e levantando umas alavancas e outra parecida mas com as pernas. Tenho ideia que ouvi a minha filha a dizer ao pai: 'Ai... Amanhã não vai conseguir mexer-se...'. Como é óbvio, não liguei. Tudo o que fiz, fiz sem esforço. Muito menos dor. Nada. Até acelerei nos movimentos. Gosto de fazer exercício e, se ao ar livre, ainda melhor. E tudo tranquilo. Só que, vinte a quatro horas depois, comecei a sentir um certo incómodo num dos joelhos. E agora dói-me mesmo. Já estive a pôr pomada e pode ser que passe mas, quando o joelho dá sinal, eu fico sempre com medo pois já passei por aflições, com ele inchado e eu toda coxa. Isto é o que dá uma pessoa passar os dias no escritório ou no carro e, de exercício, apenas fazer uma simples caminhada diária de uma escassa meia hora. 


E é assim que, vindo eu hoje para casa a ouvir uma bela música na Antena 2, a ver um céu limpo e uma luz dourada sobre o belo casario de Lisboa, desejando chegar a esta minha sala e estar sossegada, longe dos problemas do dia, a ler outros blogs, a escrever palavras também serenas, estou é a falar do meu joelho burguês e sedentário.

E tudo isto, na volta, é mas é para não falar no que interessa. E isto de eu dizer que é o que interessa também é relativo. Aliás, sendo tudo relativo, algumas coisas são mais e outras menos relativas. E esta é daquelas que é coisa nenhuma, é rêverie, é loucura, é tudo.

Mas vou directa ao assunto: estava eu a passear in heaven, descobrindo cada coisa como se nascida no nada, tudo coisa nova, tudo razão para encantamento, tudo milagre. Os meus muros cheios de cor, as árvores que plantei e que estão gigantes como palácios, como castelos, como fortalezas, a glicínia dourada entrelaçada nas ramagens da azinheira que chega ao céu. Os cãezinhos pequeninos que vêm de lá do fundo, da casa do outro lado da rua, e se põem a olhar para mim, muito intrigados.

Fotografei tudo.

E então, neste estado de maravilhado apaziguamento, olhei para o céu e vi. Um milagre. Vi.


A pluma azul tinha derramado a cor sobre a página em branco e agora todo o fundo estava azul. E a pluma estava nua, em toda a sua alvura, em toda a sua pureza. E eu pensei que daquela pluma as palavras haverão de nascer ainda mais límpidas, plenas de luz, inocentes na sua infinita transparência. E eu pensei que só podia ser milagre.

E fotografei para que também possam testemunhar o que os meus olhos incrédulos viram.

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Desejo-lhe um dia feliz