Música, por favor
A veia do Poeta - Rui Veloso e Kátia Guerreiro
Falemos, pois, agora, de cidades cheias de vida, de casas
às cores, de praças com circos, com cavalos que correm nos circos com artistas
vestidos com coloridos trajes; falemos de ruas que se enchem de crianças, de
árvores, de pássaros; falemos de um mundo maravilhoso cheio de sons alegres, de
crianças, de janelas floridas, de jardins e de lagos, de animais verdes e azuis, de céus diurnos com luas poéticas.
Falemos, portanto, de cidades habitadas por pessoas de
verdade, pessoas com um coração transbordante de carinho, com um olhar que se
liquefaz em amor, falemos de pessoas que se amam e que se deixam amar. Falemos,
portanto, de seres apaixonados.
Entremos, portanto, num universo onírico de tão colorido
e festivo que é.
E imaginemos.
A cidade poderá ser no sopé de uma montanha azul e verde. Nessa montanha cujos pontos mais altos parecem azuis de tão perto que estão do céu, pastam tranquilas cabras brancas e, no alto das grandes árvores há pássaros brancos e azuis que transportam nas suas asas pedaços de céu e de nuvens. Mas também pode ser Paris, com a Torre Eiffel, com o arco do Triunfo, com um grande galo colorido que transporta crianças com braçadas de flores. Tanto faz desde que haja pessoas que se afagam, que sorriam no meio de flores e outras cores.
Entremos numa das casas dessa cidade luminosa.
A casa será luminosa e as janelas abrem-se, festivas, aos
sons vitais de uma rua cheia de canteiros e pássaros.
As cortinas claras, de renda, esvoaçam, dançando com a
aragem macia da tarde.
Dentro de casa poderá ver-se uma mesa com uma jarra com
flores frescas, quadros inocentes nas paredes, cadeiras às cores, tapetes de
cores infantis, vasos com avencas e vasos com begónias nos parapeitos e, entrançadas
nos alpendres, cachos de glicínias lilases.
E, a seguir a essa sala na qual as conversas e os risos
se encadearão com olhares cúmplices e com mãos que se afagarão com ternura
adolescente, haverá um quarto. Poderia ser um quarto azul, alfazema e dourado,
quase um quarto de Arles, um quarto de Van Gogh, poderíamos estar a falar du Midi,
de Saint Paul de Vence. Mas poderá ser apenas um quarto pintado de azul claro, com
uma cama coberta por uma bela colcha de renda branca, com cortinas macias e
transparentes que esvoaçam também enquanto os pássaros cantam na árvore que
está no jardim.
Nesse quarto está um casal romântico, apaixonado, um casal que
em tardes ou noites de amor, sai voando, janela fora, cruzando os céus,
aproximando-se da lua, sempre de mãos dadas ou abraçados no dorso de um grande
pássaro, rodeados das flores que sairão dos canteiros e das jarras para os
envolverem enquanto voam.
Cá em baixo, crianças montadas em galos azuis brincarão
enquanto o sol encarnado se põe atrás dos montes e os cavalos sairão do circo para correrem em
volta, trotando e trauteando ao som de cornetas e tambores.
É um mundo feliz, este, um mundo colorido e inocente. É o
mundo de Chagall.
Picasso dizia que, uma vez Matisse morto, apenas restaria Chagall como verdadeiro
conhecedor das cores. Cores luminosas ou lunares, mas cores afáveis,
afectuosas, infantis.
Marc Chagall nasceu Moishe Shagal em 1887 na Bielorrússia,
judeu. Era o mais velho de nove irmãos. Cedo percebeu que a pintura o deixava
sem opção. E, então, pintou, pintou, e
das suas mãos nasciam a esperança, o optimismo, a vida, a poesia. Repartiu a sua vida
entre a Bielorrússia, a Rússia, a França e os Estados Unidos mas, sobretudo a
França. Quando se fala nele diz-se que é um pintor judeu franco-russo.
Pintou, fez cerâmica, tapeçaria, cenários e guarda-roupa
para teatros, vitrais para igrejas, pintou tectos e o que, em cada obra pode
ser observado, é sempre a mesma alegria ingénua, o mesmo lirismo onírico, a
mesma emoção apaixonada – e as cores, muitas cores, cores luminosas, festivas,
cores e desenhos quase infantis de tão puros que são.
Chagall teve na sua vida um grande amor, Bella Rosenfeld, que conheceu em 1910 e com quem viveu até à morte dela em 1944. Bella aparece
em inúmeras pinturas, é a mulher com quem voa pelos céus rodeados de flores, a
mulher com quem noiva.
Mas um ano após a morte de Bella, Chagall volta a viver
um romace, agora com Virginia Haggard com quem vive 7 anos, até ela o trocar
por um fotógrafo, tornando-se, também ela fotógrafa. O queixo proeminente de Virginia revela-a uma mulher determinada, com vontade forte e vincada.
A seguir um novo romance,
agora para sempre, Valentina (Vava) Brodsky e as fotografias mostram-nos sempre como grandes e cúmplices companheiros, é a alegria suave que vem com a idade vivida em serenidade e cumplicidade.
Marc Chagall é, claro, um dos pintores que vive in heaven.
Era o verbo e a manhã
e o princípio que nascia
e a apetecida manhã
na boca que me dizia
a proibida palavra.
E aquela fonte escondida
infinita poesia
ou vida de minha vida
que dentro de mim cantava.
E então por ela eu morria
por ela ressuscitava.
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Chagall - breve apontamento biográfico
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O poema é 'Louvor e simplificação de San Juan de la Cruz' de Manuel Alegre in Livro do Português Errante.
E, já sabem, por falar em poesia: hoje lá no Ginjal e Lisboa, as minhas palavras voam em volta de uma bela poesia de Ruy Belo e as vozes de Placido Domingo e Kathleen Battle descem dos céus para interpretar Rossini.
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E, já sabem também, desejo-vos uma bela quinta feira! Procurem a beleza e a felicidade, meus Amigos.



