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quarta-feira, julho 22, 2026

Maitê

 

A vida das mulheres bonitas ou das grandes actrizes nem sempre é um mar de rosas. Olhando de fora, imagina-se glamour, festa, sucesso e recompensa, rosas com fartura, mesa farta, casas divinas, cabelos sempre impecáveis, pele replandescente, sorriso sempre presente. E, no entanto, pode não ser exactamente assim. A beleza não mostra forçosamente os antecedentes, os sofrimentos, a carne marcada. A arte de bem representar esconde por vezes a força da sobrevivência -- e não são apenas as artistas de cinema, televisão ou teatro que recorrem a essa arte.

Com Maitê Proença a vida começou por ser bem dura, trágica mesma. Mas, talvez porque sempre foi de fibra, a verdade é que foi vingando na vida. E foi desbravando caminhos. E foi trabalhando, lavrando a escrita, inventando, criando. Os anos de vida foram-lhe tanto segurança, ainda mais força, maior capacidade para escolher.

E continua linda. Assertiva, inteligente, leve. Pode não ser exactamente assim por dentro mas, depois de ouvi-la, é isso que parece. Uma mulher muito interessante. E gosto de ouvi-la falar da terra, das coisas simples. Conversa gostosa. É bom ouvir conversar assim.

Maitê Proença: “Acho que quis me matar durante anos, sem saber” | THE BUSINESS OF LIFE

“Acho que quis me matar durante muitos anos, sem saber que queria aquilo,” disse Maitê Proença, aos 66 anos. Relembrando sua difícil história familiar, a atriz revelou que se colocou em situações de alto risco, porque não via tanto valor na vida. “Se eu fosse embora, seria um grande alívio,” afirmou a Nilton Bonder neste episódio do The Business of Life.

Aos 12 anos, precisou lidar com a trágica morte de sua mãe - assassinada por seu pai por ciúmes. Anos depois, em 1989, seu pai se suicidou. Na sequência, seu irmão adotivo também tirou a própria vida. “A morte da minha mãe teve consequências em outras mortes igualmente trágicas. Todo mundo à minha volta foi afetado.”

Maitê Proença contou que precisou criar uma “persona para si” para poder ficar de pé. “Eu não tinha mais família. A família do lado da minha mãe nunca mais falou comigo [após o ocorrido],” por ela ter sido testemunha de defesa do pai no processo. “Escolhi não odiá-lo pois entendi, não sei como, que o ódio não levaria a um bom lugar.”

Após o falecimento da mãe, a atriz morou num pensionato luterano e estudou um tempo em Paris. Indecisa sobre qual profissão seguir, prestou vestibular para várias faculdades, mas resolveu viajar o mundo, indo para diversos países da Europa, África e Ásia. Dois anos depois, retornou ao Brasil e ingressou no teatro, convidada pelo diretor Antunes Filho. Em pouco tempo, estreou na TV: primeiro na TV Tupi, em 1979, com Dinheiro Vivo; depois, em 1980, na Globo, como uma das protagonistas na novela As Três Marias. 

O começo não foi fácil, porque ainda não estava pronta para expor minhas “vulnerabilidades emocionais,” afirmou. “Até meus 20 anos, eu era muito fechada. Achava que, se eu lidasse com o emocional, iria morrer. Aí bebi, me droguei, para dar conta de tudo.” O teatro foi desafiador no início, mas, ao mesmo tempo, maravilhoso. “Fui obrigada a mexer num vespeiro. Se tivesse escolhido outra profissão, teria vivido naquela aridez emocional até hoje.”

Ao longo da carreira, Maitê foi cronista, publicou romances, escreveu e produziu suas próprias peças de teatro. Sobre seu momento atual, ela afirmou: “Graças a Deus envelhecemos, porque as coisas vão ficando mais fáceis.”


Um dia feliz para todos

domingo, dezembro 22, 2024

Temos que esperar pelo menos uma hora para abusar dela -- disse o marido aos abusadores

 

Hesitei em escrever sobre isto. Nem é o ser chocante. É mesmo a impressão que me faz, uma impressão física. O que sinto é difícil de descrever. Parece que o meu corpo se retrai, se anula. 

É que nem é só o tarado do marido que drogava a mulher e aliciava outros homens para abusarem da mulher, é também os homens, 49 homens que acharam aceitável abusarem de uma mulher inconsciente e que alegaram que tinham o consentimento do marido. Estes 49 homens mais 1, o marido, acharam normal servir-se do corpo de uma mulher inconsciente, sentiram prazer nisso e, pelos vistos, não pensaram que estivessem a fazer nada de mal já que era o marido a convidá-los a servirem-se. 

Há qualquer coisa de demasiado sórdido, de abaixo de humano, de inqualificável à luz da normalidade. E, pelos vistos, eram homens normais, com vidas normais.

Nem vale a pena pregar a dizer que a sociedade está doente. Se calhar é mesmo assim, se calhar uma parte das pessoas têm em si uns genes de sordidez, de imunda e perversa animalidade e é só é preciso que apareça a oportunidade para que ela se manifeste.

Pelo que aqui se vê, há outros sites do mesmo género. Não haverá um único Pelicot. Se calhar, a coberto de uma normalidade que os protege, há mais pelicots estão entre nós.

 Ao não querer um julgamento à porta fechada, ao mostrar o seu rosto ao mundo, Gisele Pelicot teve a coragem de trazer a cobardia e a imundície do marido e dos anormais que a violaram para a luz do dia.

‘We have to wait at least one hour to abuse her’: CNN reveals shocking evidence in mass rape case

In a case that’s horrified France and shocked the world, 49 men are accused of raping Gisele Pelicot after her husband, Dominique Pelicot, allegedly drugged her repeatedly and left her unconscious. The abuse took place over nearly 10 years. CNN has gained exclusive access to a police report containing thousands of messages exchanged by Pelicot and the accused in chatrooms, on Skype and over text, revealing how the alleged crimes could have happened. While the website that Pelicot used to allegedly organize the abuse has been shut down, a CNN investigation has uncovered new forums where rape and sexual abuse are still actively discussed


sábado, dezembro 21, 2024

Alô, alô Presidente Marcelo Rebelo de Sousa! Vai permitir que o Mentenegro e tutti quanti do mesmo calibre continuem a envergonhar os portugueses, a semear um clima de desconfiança e a enlamear a boa imagem de Portugal?

 

Ontem, pelo que devem ter percebido, não vi televisão nem li notícias. 

Pois bem, eis que hoje, ao conectar-me ao mundo, sou surpreendida com uma imagem infame: não sei quantas pessoas, uma rua inteira, de mãos contra a parede. 

Nojo.

Inaceitável.

Uma vergonha.

Acho bem que a polícia ande na rua a impedir o tráfico e o consumo de droga a céu aberto. Acho que isso deveria ser constante. Constante, repito. Mas de forma discreta. E a par com a garantia de que há lugares para que os consumidores de drogas pesadas possam ser encaminhados para salas de chuto e, desejavelmente, tratados e acompanhados.

De resto, todo o policiamento, seja pelo tráfico de droga, seja pelo furto ou ou por outras práticas indevidas deve ser proporcional às necessidades, discreto, digno, humano. 

O que as imagens demonstram é o oposto de tudo isso. O que as imagens mostram é inaceitável, é uma violência, é um ultraje.

Por ter autorizado e defendido o que se passou, Montenegro devia ser demitido de imediato. É um perigo para o País. Nas mãos desta criatura -- que parece ser excessivamente propensa a fazer coisas estúpidas, socialmente não aceites e humanamente intoleráveis --, este não é o Portugal bom, ameno, feliz, tolerante, inclusivo que conhecemos e amamos. 

Presidente Marcelo, ponho cobro a isto de imediato. 

quinta-feira, fevereiro 09, 2023

O corpo de Eva a Eva pertence.
[O de Chiara também a Chiara pertence]

 




Continuam a morrer mulheres às mãos dos homens que com elas vivem. São frequentemente pais das crianças cuja mãe agridem, estrangulam, esfaqueiam. Por vezes acontece que o fazem com as crianças a dormir no quarto ao lado, quando não à vista delas. Cegam. Pode ser sob o efeito do álcool, de outras drogas ou por obsessão, psicopatia, tara. E fazem-no, na maior parte das vezes, depois de anos de pressão psicológica, de crises de ciúmes, de ameaça, coação, chantagem emocional, de pedidos de perdão, de juras de amor. 

Fazem-no sempre em nome do que pensam ser afecto e as mulheres, por carência, por medo, por quererem acreditar que são amadas, pelos filhos, para não preocuparem a família, por vergonha perante amigos e colegas, aguentam em silêncio, fingindo que está tudo bem.

Por cada mulher que é assassinada deve haver mais de cem ou mais de mil que vivem um vida de infelicidade e pavor.

Há muito a fazer para prevenir isto, para ensinar o que é o verdadeiro amor, para conduzir à procura de apoio os agressores, os assediadores, para fazer vencer a barreira da discrição da vizinhança que ainda acha que entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, para explicar como as vítimas podem pedir apoio em segurança.

Há muito a fazer para que as mulheres se sintam com direito à sua vontade e para que os homens aprendam que a sua vontade não impera sobre a das mulheres. Há muito a fazer para que a sociedade o assimile na sua totalidade.

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Não foi exactamente por isso que Chiara Ferragni, com uma poderosa presença e intervenção no Festival de Sanremo, se vestiu e falou como as imagens e os vídeos mostram. Pretendeu, sobretudo, alertar para o direito das mulheres a fazerem o que quiserem com o próprio corpo, a serem como são sem terem que ser vítimas de pressão social,  a terem o direito a uma voz independente e forte, o direito a terem os mesmos direitos que os homens, o direito a não serem vistas como as pecadoras que merecem punição.

Ser mulher não é uma limitação.




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E outra Eva foi pintada por Lucas Cranach the Elder e vem na companhia de Melody Gardot e Philippe Powell com This Foolish Heart Could Love You

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Respeito. Paz.

terça-feira, abril 12, 2022

Como se defende a paz quando um assassino, armado, brutal, desumano, nos entra dentro de casa? -- pergunto aos que não conseguem condenar Putin, por acharem que condená-lo é entrar numa lógica belicista

 

Sou pela paz. Totalmente.

A título pessoal o que posso dizer é que nunca peguei numa arma e que sou defensora acérrima da paz e, portanto, acerrimamente contra a guerra. Temos uma caçadeira herdada do meu sogro que quero sempre muito longe de todos e na qual nunca peguei. O meu filho, já crescido, gostava de praticar tiro às latas e às garrafas e eu odiava essa brincadeira. 

Nesta casa, algum tempo decorrido de cá vivermos, ligou-me a antiga proprietária: tinha-se esquecido cá de uma pistola. Fiquei perplexa. Toda a gente circulava por toda a casa e ninguém a tinha descoberto. Disse-me onde estava e... lá estava mesmo. Era pequenina, mais pequena que a palma da mão, uma arma até bastante bonita. A casa tinha estado entregue a uma equipa de pintores durante dias. Podiam circular e mexer onde quisessem. Felizmente ninguém a tinha levado e felizmente estava no lugar onde a tinham deixado. 

Quando cá veio buscá-la, a anterior proprietária andava com ela na mão, no seu estojinho elegante, enquanto conversava comigo e enquanto eu lhe mostrava as minhas decorações. Não sei quanto tempo mas provavelmente mais de uma hora de conversa, ela de pistola na mão.

Não sei se, nessa altura, tivesse entrado um ladrão que nos ameaçasse, ela empunharia a pistola. A mim não me imagino de pistola em riste, disposta a atirar. 

Mas sei lá, as circunstâncias moldam os nossos comportamentos.

Mas imaginemos que estou aqui em casa com filhos, netos, com a minha mãe, e que entram uns bandidos tresloucados, psicopatas assassinos, conhecidos por destruírem tudo à sua passagem e matarem a sangue frio sem dó nem compaixão. Aí que faria eu, eu que sou da paz? Entregar-me-ia e entregaria os meus para que nos torturassem, violassem e matassem à vontade? 

Ou empunharia uma arma e tentaria defender-me e, sobretudo, defender os meus? 

Creio não ter dúvidas.

Mais: se eu soubesse antes que vinha aí um bando de assassinos para nos roubar e destruir a casa e matar-nos a nós, não apenas pediria protecção como imploraria que me dessem meios para nos podermos defender.

É o que se passa com a Ucrânia.

Como pode alguém, nomeadamente as pessoas que ainda partilham as opiniões do PCP, dizer que defende a paz e, em simultâneo, não condenar Putin? 

E como podem não concordar que, não podendo a Nato defender os ucranianos, mais não se pode fazer do que fornecer-lhes armas para se defenderem?

Claro que também devemos ajudá-los de mil outras maneiras (com medicamentos, com alimentos, com meios para poderem fugir, com equipamento médico, geradores, com mediação política, com apelos à negociação, etc). Mas como não lhes dar armas para tentarem defender-se dos assassinos que estão a destruir o seu país, as suas casas, as suas famílias?

Que hipocrisia ou cegueira é esta dos apoiantes do PCP para continuarem a pôr-se ao lado de um regime corrupto, oligárquico, tirano, assassino?

Como podem não se pôr ao lado de um país que quer ser livre e democrático?

Juro que não compreendo.

E não vale a pena virem dizer que na Ucrânia há fascistas. O que sei é que a extrema-direita teve menos de 2% nas eleições. Mas, mesmo que haja fascistas, isso justifica que venha um outro país arrasar a Ucrânia para dar cabo desses fascistas? Em Portugal também os temos. Vamos aceitar que a Rússia nos invada para os eliminar? 

Por exemplo, o Seixal, um dos últimos bastiões comunistas, teve uma percentagem considerável de votos do Chega. Imagine-se que a Rússia resolvia bombardear, esmagar casas e gentes, ocupar o Seixal com o pretexto de dar cabo dos apoiantes do Chega. Faria isso algum sentido? Aceitaríamos isso? Ou, em nome da paz, aceitaríamos ceder o Seixal à Rússia? 

Que cegueira é esta das pessoas que inventam mil pretextos para não condenar inequivocamente Putin?

Só há duas alternativas para voltar a haver paz na Ucrânia: ou a Rússia se retira voluntariamente ou é travada pela Ucrânia -- ou os próprios russos ou o mundo.

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Mulheres indefesas que só querem a paz

Liubov Khomenko reacts as she walks through her destroyed house in the village of Andriivka, in the Kyiv region, Ukraine, April 7, 2022. 
REUTERS/Marko Djurica

Mariya, 77, whose daughter and son-in-law died under the rubble of a building destroyed by Russian shelling, cries in Borodyanka, in Kyiv region, Ukraine April 8, 2022. 
REUTERS/Gleb Garanich

Zinaida Makishaiva, 82, reacts as she recounts how Russian soldiers treated her in Borodyanka, Kyiv region, Ukraine April 11, 2022. Zinaida said "They came to my house and said go to the basement, "bitch".  She put a sign on her house reading "there are people here" Soldiers started to shoot around her to scare her. "God saved my life". 
REUTERS/Zohra Bensemra


Natalia Titova, 62, walks as she shows her house, which was destroyed by Russian shelling, amid Russia's Invasion of Ukraine in Chernihiv, Ukraine April 9, 2022. Natalia and her family were staying in the basement, "When the rocket hit our house, we ran into the street, it was very scary" she said. 
REUTERS/Zohra Bensemra

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Histórias de violência sexual contra mulheres ucranianas por parte dos militares russos - BBC News


As more Russian troops head to eastern Ukraine, horrors are being uncovered, in the villages and towns close to the capital, Kyiv.

The Ukrainian authorities have said they're investigating cases of women being raped by Russian forces during their occupation of parts of the country.  

They're documenting the alleged crimes, which are among hundreds of cases of atrocities against civilians.
  
The Kremlin denies that its troops have committed such offences.  

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Violar, torturar, assassinar. 

Até a estátua do poeta Shevchenko apresenta as marcas de uma bala na testa

Teen sisters 'raped' as horrors from Ukrainian town cut off for 35 days emerge | ITV News

Ukrainian army engineers had built a pontoon bridge reconnecting this small town with the outside world. The relief of those who’d endured 35 days of Russian occupation was obvious - but it’s only when you hear what they’d gone through that you can understand.

Maryna is the deputy Mayor here - and has heard grim accounts of how Russian soldiers treated women in the area.

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É possível não condenar Putin?

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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível

Saúde. Esperança. Paz.

segunda-feira, novembro 29, 2021

Kate Middleton, Letizia de Espanha, Ursula von der Leyen -
- feridas, com hematomas, desfiguradas, vítimas de violência conjugal

 


É tema que já aqui veio várias vezes. É daqueles que receio sempre não saber abordar por não ser capaz sequer de imaginar o que é uma mulher viver sempre amedrontada na sua própria casa tendo que conviver com um homem que a mantém em permanente estado de alerta, sempre com medo de lhe provocar alguma reação que o deixe zangado, sempre com receio de que, a partir de uma qualquer insignificância, se gere uma situação de violência, seja ela física seja psicológica.

O que será viver sempre no fio da navalha, sempre com medo de uma agressão? Sempre com receio de que os filhos testemunhem uma situação que forçosamente os marcará, Receio de que alguém testemunhe a humilhação a que está sujeita. Receio pela própria integridade física. Receio pela integridade dos próprios filhos. Receio de não aguentar. Receio de não ser capaz de escapar. Receio. Receio e vergonha. Vergonha de assumir a situação, vergonha de que os outros tenham pena, vergonha.

O que será viver assim? Como se consegue viver assim? Como se consegue sobreviver assim, debaixo de uma ansiedade escondida, de um permanente terror?

Nem imagino o que será o carrossel emocional de viver com um homem que ora se faz de infeliz, que arranja desculpas para as suas reacções, que ainda quer receber apoio e comiseração por parte da sua vítima, que pede desculpas e até chora e que, dias depois, por um nada, se vira do avesso, amua sabe-se lá porquê, amua e não diz porque está amuado, um homem que desconfia de tudo, que se vitimiza, que tem ciúmes de tudo e de todos, que inventa pretextos para violentar e agredir aquela a quem dias antes jurou amar para sempre. Nem imagino.

Nem imagino como se consegue tentar ganhar coragem para denunciar a situação sabendo que ele pode vingar-se, pode fazer mal aos filhos, pode fazer chantagem, pode fazer-lhe ainda pior se souber, pode agredi-la ainda mais ao sentir-se acossado. Nem imagino a coragem que é preciso ter quando ele não quer sair de casa e ela não tem para onde ir. 

Nem imagino como se consegue suportar a proximidade física de alguém de quem se teme que um dia lhe cause uma dor irreversível, fracturas, ferimentos, denunciadores hematomas, de alguém que quem se teme que seja capaz de lhe tirar a própria vida. Como se suporta partilhar a intimidade com alguém que deveria estar preso?

Como se consegue dormir e continuar a trabalhar, fingindo que se leva uma vida normal, quando a angústia é uma garra que aperta o coração e destrói a alma?

Como se consegue sobreviver quando já se ultrapassaram mil barreiras psicológicas e já se denunciou a situação e, no entanto, ninguém levou a sério nem tomou as devidas providências?

Como se consegue arranjar coragem para continuar a descobrir forças para proteger os filhos e a família, para que não sofram, para que não vivam aterrorizados? Como se consegue?

E como se consegue continuar a ter esperança quando há polícias que não agem rapidamente e juízes que desculpabilizam os agressores e ainda fazem recair sobre as mulheres-vítimas parte da responsabilidade pela violência? 

O que devemos fazer para, como sociedade, não aceitarmos mais situações testas? O que devemos fazer para criar condições para que qualquer mulher que tenha sido ou receie ser agredida saiba como agir para viver em paz e sossego, livre de ameaças e maus tratos?

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As fotografias foram editadas por Alexsandro Palombo, ao que parece sem ter pedido autorização às respectivas figuras públicas. No entanto, estou em crer que não se importarão. Kate Middleton, Ursula von der Leyen, Letizia, Kamala Harris, Christine Lagarde e outras aparecem em nome de tantas mulheres anónimas de quem só se ouve falar quando são assassinadas pelos companheiros.

Esta série, 'She reported him,' não é a primeira. Já antes tinha feito uma idêntica cujas fotografias foram afixadas nas ruas para denunciar a indiferença com que deixamos que estes crimes continuem a acontecer entre portas. Angela Merkel, Brigitte Macron e outras apareciam igualmente com os rostos desfigurados. 

Todos os anos várias mulheres morrem às mãos dos seus algozes. Mas as que morrem são os casos limites. Por cada mulher que morre, muitas outras sofrem em silêncio, escondendo as agressões, disfarçando os hematomas, sorrindo como se não fosse nada, apenas uma queda sem importância..

Nesta campanha Alessandro tenta chamar a atenção para que não basta incentivar as mulheres a denunciar a situação: há que garantir que o Estado as consegue proteger, amparar, dar-lhes sustento enquanto viverem sob resguardo.

Para quem esteja interessado, poderá ver o artigo no qual tomei conhecimento desta campanha: Kate Middleton défigurée par des hématomes, l’image choc d’une campagne contre les violences conjugales

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Agora que falo nisto, a quem subscreva a Netflix quero sugerir a Maid. É daquelas séries que quem vê nunca esquecerá.

É uma série curta e excepcional baseada em situações reais vividas pela autora do livro sobre o qual se fez a série. Não é uma série negra, não é escancaradamente dramática. É contida, é terna, transporta esperança e mostra como a coragem é uma coisa cheia de riscos e retrocessos mas na qual brilha, ao fundo, uma luzinha que indica o caminho de saída. 

E Margaret Qualley, como Alex, a jovem mãe que foge a um companheiro violento e com problemas de alcoolismo e que, para sobreviver e pagar o seu sustento e o da filha, suporta, com brio, todas as vicissitudes de um trabalho exigente e mal pago, é verdadeiramente excepcional. 

Maid

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Sorte. Boa disposição.

sexta-feira, agosto 13, 2021

Las cholitas peleadoras e las cholitas escaladoras
-- um exemplo de libertação no feminino

 

Todos os dias aprendo qualquer coisa. Seja com quem for. Por exemplo, com os miúdos estou sempre a aprender. 

Hoje foi esta que aqui partilho convosco: as cholitas luchadoras. Não foi com os meus pimentinhas mas foi no The Guardian.

Estou espantada com o que estou a ver. Vivendo num meio marcadamente machista, lutando contra dogmas, preconceitos e estereótipos, estas mulheres deram um pontapé em tudo isso e partiram para a acção. Fazem o que querem e ninguém ousa travá-las. Pelo contrário, adquiriram uma projecção com que jamais alguém poderia ter imaginado. 

Transcrevo do Guardian:

Bolivia’s cholitas luchadoras began wrestling in the early 2000s. The women, indigenous Aymara Indians who have traditionally been marginalised and oppressed, took to Mexican-style lucha libre wrestling for mental and physical health – and to stick two fingers up to a culture where wrestling was strictly a male preserve. For many it was also a means of escaping domestic violence. Their choreographed fights in the ring became a dramatisation of day-to-day struggles, all the while adorned in their traditional dress of layered skirts, petticoats and embroidered shawls. Their name, too, subverts and reclaims a term, cholita, that has often been used to demean. But there was also a social and recreational aspect to the wrestling matches that are staged as entertainment, and have grown over the years. Today it’s become a living for many of them, with their fights drawing huge crowds of local people and tourists.
Eu que passo a vida a tentar que os miúdos não se ponham a ver wrestling (porque, senão, tentam reproduzir e correm o risco de se magoarem), desta vez fiquei curiosa. 

Em especial a ideia de que, para além de ser uma libertação a bem da sanidade física e mental, algumas o começaram por fazer para fugirem à violência doméstica parece-me assaz interessante e seria até bom que fosse uma ideia inspiradora para quem sofre violência, física ou psicológica, no interior da sua casa. 


Uma mulher poder virar-se a um patife cobardolas e assustá-lo, ameaçar saltar-lhe em cima, deve ser deveras assustador. Imagino que um zé-ninguém armado em valentão, preparado para dar um par de tabefes numa mulher, pense duas vezes antes de fazê-lo se souber que há sérios riscos de ela o levantar no ar, dar-lhe uns valentes piparotes, acabando a saltar-lhe em cima a pés juntos.

A ideia de que, além disso, isto já é um modo de vida para muitas mulheres parece-me daquelas reviravoltas na sorte destas mulheres que não podia deixar de aqui falar nisto. 

É ver para crer. Contado não se acredita.


Aqui é mesmo o vale tudo, provavelmente até tirar olhos. E o cenário de batalha montado no meio da rua numa zona notoriamente pouco abonada dá bem a ideia de como isto é uma actividade do povo, mais concretamente, de mulheres do povo.. 

Carmen Rosa, cholita peleadora


E aprendi que há também as cholitas escaladoras. Uma lição de força, de libertação, de coragem.

“Cholitas” are Bolivian women with indigenous heritage known for their colorful attire, round top hats and ornate earrings. In the world’s highest capital city of La Paz, Bolivia, 11 Cholitas are on a mission to overcome sexism and discriminatory attitudes and climb mountains in their traditional garb. Led by Jimena Lidia Huaylas, the Cholita Climbers were once high-mountain cooks. But since December 2015, they've been ascending the country's snowy peaks as mountain climbers. United by their love of mountains and a sense of defiance, the Cholita Climbers will stop at nothing to attain the feeling of freedom that comes from scaling great heights.

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A primeira e a terceira fotografias são da autoria de Todd Antony

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Se calhar, por cá as associações de apoio às vítimas de violência doméstica poderiam proporcionar-lhes formação em técnicas de defesa e luta. Tenho ideia que os homens que exercem violência de qualquer tipo sobre as mulheres rapidamente meterão o rabo entre as pernas se se sentirem verdadeiramente ameaçados, nem que seja ameaçados de serem postos a ridículo

quarta-feira, março 17, 2021

Gesto universal para pedir ajuda caso seja vítima de violência doméstica

#SignalForHelp


O meu dia foi tão bom que vim para aqui querendo falar dos meninos, da alegria deles, do mais novo que quer sempre ajudar, sobretudo quando são trabalhos pesados, desta vez a serrar troncos de árvore, ou do mais crescido que tem um sentido de humor e uma ironia que surpreendem e desarmam qualquer um. Ou falar do sol que esteve tão bom. Ou do dia profissional que me começou agreste, cheio de lâminas bem afiadas, mas que, felizmente, se foi compondo, chegando àquele ponto de equilíbrio em que as decisões não pesam toneladas e em que o nome de quem não se suporta, ao surgir no ecrã do telemóvel, não é sinónimo de pegar em cinquenta pedras (virtuais) para atirar à pessoa que está do outro lado da 'linha'.

Também andei a fotografar os meninos a terem aulas ou nos seus tempos livres, na rua ou em casa, ou as flores ou, simplesmente, a luz através das flores. Ou falar do arroz de frango que fiz para acompanhar asas fritas, uma coisa na base do arroz de polvo a acompanhar filetes do dito. Mas, outro dia, logo mostro as fotografias ou logo explico como fiz.

É que, ao começar a cirandar para ver a quantas anda o mundo, dei com uma coisa que desconhecia e que acho que deve merecer toda a atenção do mundo. 

Tem a ver com um tema que me perturba muito e sobre o qual penso que tudo o que se faça para alertar para a chaga social que representa é pouco. Não consigo sequer imaginar o terror, a angústia, a aflição, o desespero de quem é vítima de violência doméstica. Ter que conviver com um verdugo, com um psicopata, alguém que amedronta, que intimida, que manipula, que faz chantagem emocional, que agride, física ou psicologicamente, é daquelas coisas que deve destruir uma pessoa por dentro. Sem ter como pedir ajuda ou sem saber como pedi-la sem que isso signifique mais violência, imagino o sofrimento de quem se sente impotente e à mercê de alguém que diz que ama mas que, na realidade, rouba anos de vida à sua vítima.

O tema da violência doméstica é mais um daqueles que tem sido recorrente no Um Jeito Manso. Contudo, esperando que me desculpem por me repetir, acho que:

  • deve ser assunto de que se fale para que quem seja vítima saiba que não está sozinho, 
  • para que saiba como denunciar, de forma segura, a situação, 
e acho também que:
  • deve ser mostrado desprezo público pelos agressores, desprezo absoluto, deve ser mostrado que são uns cobardes, um merdosos, um lixo.
  • deve ser irrefutável e comummente aceite que não têm atenuante ou desculpa possíveis.

Aquilo a que acima referi foi que descobri que há um gesto universal, silencioso, irrastreável e seguro para dizer que se é vítima de violência doméstica.

E é isso que hoje aqui trago. Só isso. Quem queira que se saiba aquilo por que está a passar, é arranjar maneira de dobrar o polegar sobre a palma da mão aberta na direcção de quem possa ver, dobrando de seguida os outros dedos sobre o polegar. Ou numa fotografia, ou num vídeo ou à janela ou na rua ou onde puder ser. E quem veja este gesto que actue, que ajude, que participe, que faça alguma coisa de útil para ajudar a pessoa que tão corajosamente se expôs.

Violence at Home #SignalForHelp

Isolation can increase the risk of domestic violence at home. If this is the case for you, use this hand signal on a video call to show you need help.

INTERNATIONAL HELP ME SIGN



E tenham, por favor, um dia tranquilo, pacífico, feliz

sábado, setembro 19, 2020

Não foi comigo e, no entanto, também me sinto enojada, enjoada

 

Ela sentiu a língua dele enfiada até à garganta, as mãos dele a percorrerem-lhe o corpo, o rabo, os seios, todo ele agarrado, um polvo alapado do qual não conseguia desprender-se. O asco que sentiu ainda hoje transparece do seu semblante. E eu ouço-a e imagino o nojo, o incómodo, a sujidade a alastrar, a vontade de esquecer. E, agora, a vontade de denunciar, a vontade de envergonhar a besta imunda. 

Transcrevo do The Guardian:

Amy Dorris alleges she was sexually assaulted by Donald Trump in 1997, when she was 24. Speaking publicly about the alleged incident for the first time, the former model claims Trump grabbed her as she came out of the bathroom of his VIP box at the US Open tennis event, forced his tongue down her throat and held her in a grip from which she could not escape. Trump's lawyers said he denied in the strongest possible terms having ever harassed, abused or behaved improperly toward Dorris

terça-feira, janeiro 07, 2020

Resiliência -- para melhor reagirmos às perplexidades que se apresentam pesadas


Sendo um ano que veio para ficar e em que, como tenho dito, acredito que pelos melhores motivos, a verdade é que 2020 começa com o planeta em tumulto. Para além dos inclementes desastres, pairam ameaças no ar, muitas. 

E nós, por cá, pelo nosso luso-burgo -- recanto e refúgio, lugar de hospitalidade e de paz -- temos tido algumas notícias que perturbam.

Os dois crimes que vitimaram dois jovens, dois crimes fortuitos, fúteis, absurdos como são todos os crimes, um em Lisboa, em pleno Campo Grande, e outro em Bragança, inquietam. Ainda por cima, aparentemente, os suspeitos são jovens, alguns ainda menores. A violência banalizada, como um jogo, como um filme. Tão banal agredir, esfaquear, roubar. Matar apenas uma etapa num jogo. Ou isso ou a ausência de sentimentos. Perturba muito.

Depois a morte de uma menina depois de ter tido alta de um hospital privado. Sei que é uma coisa que acontece. Estão sempre a acontecer situações inesperadas e fatais. Mas quando é uma coisa assim, ainda para mais com uma criança, parece que pesa ainda mais. E depois as perplexidades. Ainda não se sabe. Decorrem inquéritos. Mas. São vários os mas, são várias as dúvidas.
Afinal, se calhar, não são apenas os hospitais públicos que não se recomendam. Várias vezes aqui me tenho interrogado sobre o que leva a Ordem dos Médicos ou a dos Enfermeiros a insurgirem-se quanto às condições de trabalho nos hospitais públicos como se nos privados tudo fosse um mar de rosas. Ora, será que é? Pergunto. E o que leva a comunicação social a fazer reportagens desprovidas de conteúdo à porta de alguns Centros de Saúde onde faltam dois médicos e a esquecer-se de averiguar o que acontece nos privados? E a CGTP, que tão justamente luta contra a precariedade e os salários baixos, já alguma vez cuidou de saber o que se passa nos hospitais privados? Ou a sanha acusatória está guardada em exclusivo para atingir o Serviços Nacional de Saúde? Pergunto. E o que atormenta é sobretudo isto: a questão de saúde pública. 
Seria importante para a nossa paz de espírito sabermos que, em caso de necessidade, seremos bem atendidos, por profissionais competentes e cuidadosos, seja em que hospital for, públicou ou privado. 

Mas não quero alimentar especulações: há vários organismos e instituições mais do habilitados para averiguarem e estudarem o que se está a passar e espero que o façam. Rapidamente. Com transparência.

Limito-me, pois, a acabar o meu dia com mais um momento. Resiliência. Paciência e determinação. Força. Inclusão. Música, dança, liberdade do corpo. Leveza para melhor suportarmos os pesos do mundo.

O mundo pode ser um lugar menos perigoso. Mas, caraças, temos que ser exigentes. Temos que querer respostas: respostas sérias, convincentes.  Temos que não descansar enquanto não estivermos esclarecidos, descansados.

Para já, acredito que a música nos ajuda a ser melhores. Ouçamos, vejamos.

Rising Appalachia - Resilient



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Ainda bem que não me perguntam pelas minhas escolhas pois as razões nunca são muito óbvias. 
Desta vez escolhi fotografias da série Sophie by Camille Vivier

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E queiram, por favor, descer até ao post abaixo onde dois gigantes tatuados voam juntos.

quarta-feira, dezembro 04, 2019

A maldade levada a um extremo *



Tenho um amigo que, de um dia para o outro, se tornou vegan. Digo vegan um pouco na dúvida mas penso que seja isso já que também não come ovos. Contudo, sei que, se a ocasião se proporciona, é capaz de se lamber com um belo queijo da serra. Tirando isso, nada que provenha do reino animal. Diz que pensa nos animais quando vivos e que pensar em comer a sua carne, depois de mortos, lhe causa repulsa. Acredito. Se me vierem à cabeça pensamentos mórbidos dessa natureza, capaz de nem ser capaz de olhar para o estufado de borreguinho que comi ao jantar com maçã e salada. 


Mas isto para dizer que, apesar de não ser vegan ou vegetariana, sou incapaz de fazer mal a um animal ou de permitir que, à minha vista, alguém o faça.


Tenho para mim que os animais são tão animais como nós, porventura mais inteligentes que nós. Que os cães pensam e sentem e reconhecem um significativo vocabulário penso que ninguém duvida, pelo menos alguém que tenha convivido de perto com algum.
Eu dizia: vai buscar a bola e ela ia buscar a bola grandinha. Mas se eu dissesse: onde está a bolinha?, aí já ela ia à procura e aparecia-me com a bola pequenina. Eu dizia: sabes do brinquedo? e ela olhava para mim, a cabeça de lado, a pensar, e depois aparecia com uma coisa a que eu não sabia dar nome e a que, por isso, chamava simplesmente brinquedo. Se eu dissesse: E, então, no outro dia o cavalo, hein...? ela rosnava, eriçada, furiosa. É que, lá in heaven, os vizinhos da ponta da rua volta e meia costumavam passar a galope até ao vale e ela, só de ouvir os cascos no asfalto ou por lhe dar o cheiro, saía a correr, desvairada, a ladrar ao longo da vedação. Chegava a casa ainda agitada, a resfolegar, enervada. A mesma coisa se fosse o gato. Na brincadeira, eu dizia: Escuta... Anda aí algum gato...? e ela passava-se, à procura, furiosa, a bufar. Se eu dissesse: vamos à rua? ela ficava numa alegria, corria, até derrapava na curva do corredor, e ia esperar à porta, fazendo barulhinhos a chamar por mim enquanto eu não me despachasse. E conhecia cada um de nós pelos nomes. E tantas mais palavras que ela sabia. 
Minha fofa, que saudades tenho dela. O que gostava dos meus mimos. Eu deitava-me ao seu lado, eu abraçada a ela, ela abraçada a mim, muito quentinha, a minha cabeça colada à dela, a sua pata em volta do meu pescoço. Enchia-a de beijos e ela gostava, ficava quietinha a receber os meus mimos. Com os meus filhos, então, era uma irmã, um ser querido a quem sempre tratámos como um dos mais queridos elementos da família. As saudades que sinto dela. Não passam com o tempo.
Presumo que os gatos também sejam assim, animais inteligentes e emotivos. Quem lida com cavalos diz o mesmo. E tenho a mesma ideia das gaivotas.
Não me quero repetir pelo que não vou voltar a recordar o dia em que uma ficou presa na minha varanda e em que eu, conversando com ela, consegui que acreditasse em mim e deixasse que eu a elevasse até poder voar. Mas não foi só essa. No outro dia, no Ginjal, a gaivota voava sobre o rio e pousava no gradeamento. Uma e outra vez. Eu a fotografá-la e ela a deixar-se estar, eu a aproximar-me e ela na dúvida, hesitante. E eu, cada vez mais perto, a falar baixinho, a dizer que não tivesse medo e ela, de cabeça de lado, a olhar-me com uma atenção humana, a ouvir-me, sem medo. Uma relação surpreendente que sinto que estabeleço com alguns animais.

Imagine-se, pois, a maldade que é preciso transbordar de um corpo humano para se ser capaz de humilhar um animal de grande porte, mais humano que os humanos, um animal forte e digno. 

O grande urso apareceu numa região ainda não identificada na Rússia e tinha sido graffitado. Uma coisa impensável.

T-34, o nome de um tanque da segunda guerra mundial. Os cientistas dizem que o animal deve ter sido sedado para ser tão vilmente vandalizado.  E dizem outra coisa: que dificilmente vai conseguir caçar já que a pintura anulará o efeito de camuflagem.

E eu vejo estas imagens e fico assustada com a capacidade de fazer mal de algumas pessoas. Humilhar um animal...?! Usá-lo com um intuito panfletário...? É medonho, é sinistro, é ultrajante, é criminoso. Nem consigo sequer pensar nisto.


* Coloquei um asterisco no título do post pois esta maldade é um extremo, sim, mas a verdade é que há tantos outros extremos, tantos, tantos que já é difícil saber qual é o limite.

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quarta-feira, novembro 27, 2019

Sandrine Bonnaire perdeu a inocência


Há trinta anos Sandrine já era reconhecida pelo seu talento. 

Lembro-me bem de a ver, rosto de menina, radiosa, cativante. 
A sua beleza inocente -- que poderia, sem esforço, deslizar para a malícia --- encantava quem a via. Era de uma ingénua joie de vivre combinada com uma ambiguidade que fazia prever a capacidade de pecar sem culpa, encarnando aquela duplicidade encantadora que prenunciam o incomparável prazer de seduzir. 
Nessa altura ela ainda não sabia o que haveria de lhe acontecer uns anos mais tarde.

Uma década depois, aquele que foi o seu companheiro e que nos primeiros anos sempre lhe pareceu atencioso, amoroso, uma simpatia, viria a revelar-se possuidor de um amor tóxico, perigoso. Como infelizmente acontece neste tipo de relações, há um dia em que a coisa descamba. E descambou. Veio a violência doméstica. Com os ossos do rosto partidos, oito dentes destruídos, a língua rasgada, toda ela desfigurada, Sandrine desceu ao inferno.

Felizmente, os amigos apoiaram-na e não apenas o criminoso esteve preso como ela se submeteu a cirurgias, ganhando coragem para se reconstituir como mulher e como atriz. Lamenta, claro, que a condenação não fosse senão de dois anos e de uma indemnização para pagar os custos das cirurgias e da terapia. Mas, enfim, pelo menos foi condenado.

No dia 23 de Novembro, em que se gritou o não à violência doméstica e aos assassinatos (em França, os números de mulheres assassinadas também são assustadores), Sandrine desceu à rua e, ao lado das outras mulheres e homens, gritou contra a violência.

É agora uma mulher com cinquenta e dois anos e um rosto que mostra que a vida não lhe foi fácil. Mas está inteira, a trabalhar, a testemunhar a dor e a coragem, a servir de exemplo para que outras, em situações idênticas, não deixem chegar as coisas ao ponto a que com ela chegarem. Sobreviveu e está cá para contar mas poderia ter sido mais uma das muitas mulheres que se entregam e que, acreditando numa ilusão que só existe na sua cabeça, acabam por se ir anulando até que um dia a sua vida pode ser definitivamente aniquilada,

Assim era Sandrine Bonnaire em 1989.


E assim é Sandrine agora, recordando o que lhe aconteceu, numa gravação que dura escassos segundos (e que não sei como pôr em ponto maior). Obtive o vídeo no artigo "J’ai eu tous les os du visage cassés" : Sandrine Bonnaire détaille l'agression de son ex, na Madame le Figaro.



Não fui a nenhuma manifestação mas, uma vez mais, aqui estou a, na fraca medida das minhas possibilidades, pedir às mulheres que me lêem e que não são inteiramente felizes no seu relacionamento e que suspeitam, mesmo que seja uma suspeição que não querem ouvir, que não é um amor totalmente retribuído e de que há alguma tendência para uma agressividade num nível difícil de explicar, ou que, numa fase posterior, já são vítimas de violência psicológica ou física, que não aceitem perder anos de vida a troco de coisa nenhuma. Afastem-se ou, se já for caso disso, denunciem o agressor. Nunca é cedo demais. Pode é ser tarde demais.

Vejam o vídeo até ao fim, por favor. Não é importante apenas para quem vive ou suspeita que pode vir a viver uma situação assim mas também para os outros, para que todos aprendamos a conhecer os sinais e possamos ajudar quem precisa de ajuda mesmo que não saiba que precisa ou não queira assumi-lo.

A história de amor de Jessica


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A bem da felicidade e da paz de espírito.

terça-feira, novembro 12, 2019

Sopa da pedra com um crime napoleónico e um cisne à procura de uma Leda à mistura





Recomeça a semana e só de pensar no programinha de festas que aí vem já me apetece evadir-me para outros territórios, quiçá para o meio da serra, entre arvoredo e sons da terra e dos ventos, quiçá hibernar num mosteiro nas terras frias, entre granitos, uivos de lobos, voos de águias, cheiro de flor de laranjeiras num pátio onde há, a meio, uma fonte de pedra. 

A manhã foi muito ocupada e a tarde de hoje não foi das piores mas, mais adiante, uns gabinetes a seguir ao meu, a coisa esteve preta. Gritaria, discussões acesas. Fiz de conta que não estava a dar por nada e deixei-me estar na minha, resolvi o que tinha resolver, reuni-me com quem tive que me reunir. E fizemos todos de conta que o elefante não estava ali ao lado. 
Não sei porquê, nos últimos tempos parece que não há conversa em que alguém não fale num elefante no meio da sala. As salas de Lisboa a abarrotarem de tanto elefante, nunca se viu coisa assim. Portanto, por contágio, também digo. Já disse, aliás. 

A meio da tarde, um dos envolvidos na refrega veio, num ápice, ao meu gabinete, fechou a porta, meio a correr e meio em voz baixa relatou o forrobodó. Depois saíu, agitado, avisando que a coisa ia continuar. E continuou. Quando saí, desci ao mesmo tempo que um colega que também fez de conta que não tinha ouvido a berraria que se ouviu toda a santa tarde. Falámos normalmente, ele contou peripécias divertidas e rimos. Temos todos esta camada de indiferença em cima de nós que nos impede de nos importarmos com maçadas alheias. 

Quando entrei no carro, era de noite e estava muito frio e uma grande ventania. Ao abrir o porta-bagagens voou de lá um saco de papel que não faço ideia o que lá estava a fazer. E o meu cabelo andou pelos ares, levitando em todos os sentidos. Já no carro, reparei que as árvores tinham a ramagem na mesma, tal qual o meu cabelo mas em verde. E eu pensei que um dia havia de experimentar uma cabeleira a fingir de ramagem de árvore. Tentei perceber que árvores eram aquelas: creio que jacarandás mas ainda longe de estarem floridos. E pensei que uma cabeleira de jacarandá em flor também haveria de ser bonito.


Estreei um casaco lindo, lindo, feito pela minha mãe. Estava a guardá-lo para o estrear numa cena que aí vem mas hoje não resisti. É uma obra de arte. Cor, cor, cor, um gosto. Contei à minha mãe que o casaco estava a ser um sucesso e ela ficou toda contente. Disse-me que nunca tinha feito nada tão difícil, e não pelo ponto em si mas pela montagem das peças. Eu disse-lhe que era uma obra de geometria e ela concordou. E, então, pensei que assim vestida, com aquele casaquinho lindo, ficaria muito à maneira com uma cabeleira feita de jacarandás floridos.

E vinha a conduzir, a atravessar Lisboa à noite, a ver as árvores a esvoaçarem a sua densa cabeleira, a ouvir uma música boa, nestes pensamentos, quando me ocorreu que só me faltava ter ali ao lado alguém que me fosse a ler um livro. Ou, ao contrário, ir alguém ao volante e eu a ler. Um serviço de taxi mas em que o condutor fosse apreciador de leituras e fizesse o serviço a troco de que alguém, a seu lado, fosse a ler. Parece-me uma boa ideia. Car sharing para gente de boas leituras. 
Já contei algumas vezes, acho eu: quando faço viagens maiores com o meu marido, gosto de levar um livro e ir a ler em voz alta. E ele também gosta de ir a ouvir. Acho um momento bonito de cumplicidade. E não sei se diga cumplicidade ou intimidade.

Mas, nisto do car sharing, o difícil seria convergir no livro a ler. Tenho aqui ao meu lado 'A arte da brevidade', contos de Virginia Woolf. Deve ser bom de ler, de ouvir ler. 
Também não sei se já contei que fico sempre um bocado embaraçada, para não dizer desconfortável, quando alguém, achando que eu sou dada a livros ou cinema, vem, todo contente, perguntar-me se já li dado livro ou se já vi dado filme. Geralmente é sempre tudo na base do mainstream. Daqueles que toda a gente lê ou vê. E eu não. E fico sempre com a sensação que a pessoa fica na dúvida se serei mesmo dada a livros ou a filmes porque nunca li ou vi nada do que me perguntam. E, como digo que não, a pessoa começa a gabar o produto, e o elogio é rasgado, coisa do melhor. E dizem: tem que ler. Ou tem que ver. Vai ver que vai gostar. E eu sinto que fico especada, sem saber como reagir, apenas desejando que a pessoa pare com aquilo. E já tantas vezes isto me aconteceu e ainda não aprendi. Não sei como reagir: ser franca? Não pode ser, poderia parecer que estava a menorizar o gosto da pessoa. Ainda passaria por arrogante. Armar-me em fingida e dizer que sim, que vou seguir o conselho? Não sou capaz. Nestas ocasiões sinto sempre que tenho algumas limitações sociais. 
E isto vinha a propósito de quê? Nem sei.


Ah. Outra coisa.

Lembrei-me agora de uma notícia que li, uma coisa sinistra, sinistra. Mas tudo ali puxa para a comédia. Um filme sinistro mas de gargalhada. Oleg Sokolov, um russo, condecorado, figura ilustre da intelectualidade, investigador e historiador. Gostava de se vestir de Napoleão, o seu ídolo, o seu objecto de grande estudo. Sessenta e tal anos. Apaixonou-se por Anastasia, uma aluna de vinte e poucos, uma jovem linda, que até alinhou na fantasia e vestiu-se à maneira para acompanhar o Napoleão. Viviam juntos. Até que um dia, a semana passada, discutem. E a discussão acaba mal. Dá-lhe tiros. Mata-a. No dia seguinte, há uma festa em sua casa. Mostra-se na maior, entretém os convidados, a rapariga morta na sala ao lado. Não contente com isso, sem saber o que fazer, perturbado, no dia seguinte corta-a aos bocados. E aqui entra o meu espírito de curiosa encartada: como é que um tipo normal consegue cortar uma pessoa aos bocados? Falo por mim: para cortar um frango aos bocados, em especial se for dos grandes, do campo, tenho que fazer uma força.... Faria se fosse uma pessoa (ai, credo!, só de pensar...). Bem, muniu-se de uma serra que, mais tarde, foi encontrada cheia de sangue, em casa, ao pé da cabeça da Anastasia que, vá lá saber-se porquê, também foi separada do corpo. Um pesadelo. Mas, então, não contente com  a habilidade, meteu os braços da rapariga numa mochila, juntamente com a arma, e resolveu ir atirá-los a um rio gelado. Só que, como estava podre de bêbado, ao dar balanço para atirar a mochila, desequilibrou-se e caíu ele à água. Nisto, uma pessoa que passava viu a cena e pediu ajuda. Quando estavam a salvá-lo, descobriram uns braços dentro da mochila. Imagino o susto que apanharam. A sumidade, em estado de total perturbação, contou que tencionava a seguir ir suicidar-se em grande estilo, vestido de Napoleão. Uma maluqueira pegada. Pena é a jovem -- ainda por cima, transformou a paródia em tragédia.


Bem.

Estava agora aqui com uma ideia em mente mas este post está tão sopa de pedra que acho que não comporta bife do lombo, que a ideia tem a ver com um livro que aqui tenho sobre Al Berto. Mas nem pensar. Há que respeitar. E é que nem vinha a propósito.

[Nem vou reler nem tentar captar a essência do que estou para aqui a escrever. Sei que não faz sentido mas, se o comprovo, não posso fazer de conta que não percebo que deveria era apagar tudo e recomeçar. Mas recomeçar com cabeça, tronco e membros (ai, bolas, que agora até parece trocadilho com o triste fim da namorada do Napoleão)]

Portanto, adiante.

Que venham os cisnes e que, por via das dúvidas, as Ledas deste mundo cubram as suas partes mais íntimas. Não é por nada mas é que consta que.


E se há por aí algum empedernido que acha que os cisnes não têm feelings pois que ponha os olhos neste aqui em baixo, uma tendresse viral.

A insólita relação entre um cisne nada franquista e o seu cuidador no El Escorial


Bom, não sei se a poesia ou a mitologia têm cabidela neste contexto mas, qual pedra para rematar a sopa, desculpem que aqui traga Leda e o Cisne, uma cena que já por mais de uma vez me inspirou (por exemplo, aqui).

Este é que o Tom O'Bedlam, um dia que me dê boleia numa noite de Lisboa, os jacarandás em plena revoada, havia de me ler baixinho com esta sua voz grossa e rouca, quase ao ouvido (para me fazer arrepiar).


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As fotografias que usei neste post são de alguém de quem as más línguas poderiam dizer que não bate bem da bola. Mas eu não acho. Chama-se David LaChapelle. O Sì dolce è'l tormento de Monteverdi é muito bem capaz de estar aqui a destoar mas o que é que eu hei-de fazer?

Mil desculpas mas hoje não consigo responder aos comentários: é tarde e tenho que madrugar. Aliás, já devia era estar quase a levantar-me. Li todos, gostei de ler, agradeço. Mas já sabem que não consigo responder a despachar e agora não tenho mesmo tempo para delongas.

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E uma boa terça-feira. E tenham juizinho, ok?
Ponham os olhos aqui na je.

quinta-feira, outubro 03, 2019

O sofrido testemunho da deputada que, em silêncio, sofreu abuso psicológico por parte do seu companheiro





O tema da violência doméstica perturba-me. Custa-me aceitar que uma pessoa que, como qualquer outra, tem direito a receber afecto, a receber atenção, a receber a retribuição do apoio que dá ao outro, se veja, afinal, sujeita a receber as migalhas que esse outro entenda por bem dedicar-lhe, sujeita a ter que fechar os olhos à frequente desatenção para que ele não se aborreça não vá a situação ainda piorar, sujeita a ter que disfarçar a ansiedade para que os outros não se apercebam e não se apiedem, sujeita a ter que ceder cada vez mais para poder receber alguma coisa em troca, sujeita a ter que fingir que é muito o pouco que recebe para não ter que aceitar a ideia de que está a ser vítima de uma relação falhada ou, pior, vítima de violência psicológica por parte, tantas vezes, de um narcisista.

Toda a gente tem direito à felicidade mas nem sempre ela vem quando se quer.

Muitas vezes parece anunciar-se de forma promissora, ao princípio parece mesmo que há reciprocidade, que há generosidade, que há genuíno afecto. E, na ânsia de querer que perdure e que seja verdadeiro esse sentimento, a pessoa força-se à cegueira. Constrói uma narrativa na qual é feliz, na qual é amada como num conto de fadas. E mesmo quando percebe que o conto não é de fadas e que aquilo não é amor, força-se a aguentar. A ceder. A esperar que aquilo que parecia promissor volte. Força-se a encontrar explicações que desculpem o desafecto, talvez problemas dele em criança, talvez problemas familiares. Como se isso desculpasse o comportamento, como se isso justificasse o desamor, como se isso fosse razão para aceitar ser vítima, para aceitar desperdiçar a sua própria vida.

Tal como aconteceu com Rosie Duffield, não estou a falar da violência evidente, da violência tradicional com agressões físicas, empurrões, hematomas disfarçados. Não. Falo de uma violência oculta, disfarçada, de uma violência que frequentemente se disfarça de carinho. Fraco e efémero disfarce.

Falo, sim, das pessoas que, tal como Rosie, sofrem em silêncio o desamor, a solidão, a angústia. Falo das que se envergonham temendo ser vistas como falhadas. Das que aceitam que o outro viva em sua casa quase impondo regras e comportamentos, como se a casa fosse também dele, e se esforçam por achar que isso é normal. Das que nada dizem a quem as trata com desafecto, das que teimam em não perceber que o que parece um gesto de atenção do outro é, afinal, quase sempre um disfarce para receber, ele próprio, atenção. Das que teimam em acreditar que é amor o que é apenas uma palavra oca. Das que tudo fazem para acreditar em juras como se não intuíssem que de nada valem. Das que se forçam a parecer felizes quando recebem telefonemas como se os telefonemas não fossem senão um pretexto para os narcisistas falarem deles próprios. Das que quase abdicam das suas relações, dos seus gostos, na tentativa de que, aderindo aos gostos do outro, possam receber dele algumas migalhas. Das que, frágeis, frágeis, temem ficar ainda mais sozinhas se a relação terminar e, por isso, acabam por nem perceber como é patético o seu apego a quem não as sabe amar, a quem não as merece.

Há algum tempo recebi um mail de uma Leitora que me contou o seu caso pessoal. Era também assim. Contou-me como depois de, durante anos, ter fechado os olhos aos sinais de alerta, depois de se recusar a ouvir os avisos de familiares e amigos, depois de se ter forçado a sentir-se enamorada e a viver um romance de amor que era mais imaginário do que real, percebeu que estava a ficar vazia, exausta, sem amor próprio, infeliz. Contou-me como conseguiu coragem para o expulsar da sua vida. Quando li o seu mail interroguei-me: porque aceitou ela aquilo? Não era óbvio que era uma relação que não era saudável? Porque persistiu? Perguntei-lhe. E ela explicou-me. Não conto aqui pois obviamente respeito escrupulosamente o sigilo perante situações expostas por quem tanto confia em mim. Mas percebi como foi difícil esse processo. Percebi e fiquei com muita pena porque é, na verdade, muito triste a situação de quem passa por uma situação assim. E é preciso coragem para sair dela.

E o conselho é sempre o mesmo: não esconder, falar, pedir ajuda, libertar-se, virar a página, recomeçar. 

E esta é também a história que, de forma muito sentida, a deputada Rosie Duffield, deputada trabalhista, contou esta quarta-feira no parlamento britânico. Acabou o seu discurso muito emocionada tal como emocionados ficaram todos quantos a ouviram, incluindo John Bercow. Tal como eu.

Quando procurei fotografias dela para aqui colocar, reparei que aparece quase sempre a rir, a sorrir. Parece tranquila e feliz. Sabemos agora como tentava encobrir o que lhe ia na alma. Ao vê-la agora com a voz trémula, com a boca seca, à beira das lágrimas, melhor ainda percebemos o que ela se deve ter esforçado para conter e disfarçar a tristeza que a minava por dentro. E é isto que, geralmente, acontece. E isso faz com que a ferida seja ainda mais funda.

Que esta forma de abuso seja melhor contemplada na lei, na lei de todos os países, para que os abusadores, mormente os narcisistas que sabem muito bem disfarçar, é muito importante. Tal como é da maior relevância que estes casos, geralmente silenciados, sejam falados publicamente para que toda a sociedade os rejeite liminarmente e para que as vítimas saibam o que fazer, ganhem coragem, lutem pela sua felicidade e afastem de si todos os que não sabem retribuir o afecto que recebem e corroem o amor próprio e a estabilidade emocional das suas vítimas.

O que abaixo verão passou-se há muito pouco tempo pelo que ainda não deve haver nenhum vídeo legendado. Eu, pelo menos, não o encontrei. Contudo, pela força das palavras e porque penso que muitos de vós perceberão o que diz, aqui vos deixo o vídeo com o testemunho emocionado de Rosie Duffield.

Peço a vossa atenção. Por favor, vejam e ouçam uma e outra vez. É importante perceber os sinais para que quem passa por isto reconheça os riscos e para os que não passam estejam despertos para poderem ajudar quem precisa.

Que Rosie, tão, tão corajosa, encontre agora a sua felicidade é o que desejo. Ela e todas as pessoas que passam pelo que ela passou.


As lágrimas amargas de Rosie Duffield e o seu doloroso e corajoso testemunho



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Não são apenas as mulheres que são vítimas. Há-as também narcisistas, agressivas, hipócritas e manipuladoras. Contudo, as estatísticas ou os casos conhecidos parecem indiciar que os casos de violência doméstica (seja ela física ou psicológica) têm muito mais frequentemente as mulheres como vítimas.

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Hoje estava para falar de assuntos da campanha ou para partilhar um vídeo divertido. Contudo, depois deste testemunho, acho que não devo poluir o vídeo que acabaram de ver com parvoíces.

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Um dia feliz a todos e um abraço afectuoso a quem sinta como suas as lágrimas de Rosie Duffield.

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