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sábado, junho 06, 2026

Colheita Feira do Livro de Lisboa 2026

 

Cá estão eles, conforme ontem tinha dito. 

Mas, antes de transcrever uma página de cada, explico porque os comprei.

  • Comprei o livro da Carla Pais e o do Nuno Duarte pois foram vencedores de prémios Leya e tenho curiosidade em perceber que género de livros estão os jurados a valorizar. Em concursos alguns anteriores, li-os e fiquei intrigada pois não consegui levá-los até ao fim, mal acabava de ler já me tinha esquecido do que tinha lido (e até tenho boa memória), e, enquanto os lia, não via interesse nem na história nem no rasgo literário. Claro que pode ser um problema meu, ou pode acontecer que, nessas vezes, eu estivesse a passar por uma crise aguda de exigência. Por isso, vou fazer nova tentativa com os dois últimos.
  • Comprei o '1984' pois acho que já o li mas, ao vê-lo no stand, ocorreu-me a dúvida se o teria. Como estava a um bom preço, pensei que mais valia trazer não fosse já não o ter cá em casa.
  • Comprei o da Lídia Jorge pois acontece que também tenho alguma dificuldade em manter-me interessada quando tento os seus romances. Como fez um grande discurso o ano passado no 10 de Junho, em Lagos, e está incluído neste livro de crónicas e não a conheço enquanto cronista, resolvi trazer.
  • Comprei o da Siri Hustvedt porque tenho simpatia por ela e porque gosto de ler memórias e tenho curiosidade em acompanhar a sua vida, não apenas enquanto mulher e viúva de Paul Auster, mas também enquanto pessoa autónoma e escritora.
  • Comprei o de Leonardo Sciascia porque o Paulo Portas o recomendou e, até ver, quando seguimos as suas recomendações, não nos temos dado mal.
  • Comprei o de Laura Agustí porque gostei da capa e porque fala de flores.

E agora a transcrição de uma página de cada livro. Fotografei e pedi à IA para passar a imagem a palavras. 

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(...) possibilidades: ou a senhora Roscio e o seu primo tinham sido surpreendidos em flagrante crime de adultério, como se diz nos processos verbais da polícia; ou Roscio não tivera qualquer suspeita, mesmo fundamentada, da sua ligação. No primeiro caso, devia reconhecer-se um comportamento muito estranho: ver, declarar friamente ao amante da sua mulher a intenção de o esmagar ali; depois, organizando a vingança, manter com o homem odiado um relacionamento cordial. No segundo caso, ficava por explicar como Rosello tinha sabido o que Roscio tramava contra ele. Havia, é verdade, uma terceira hipótese: que a senhora Roscio, inocente, tivesse sido seduzida, enganada, pelo primo, perseguida pelas suas assiduidades, e tivesse avisado o marido, ou, ainda, que o marido se tivesse apercebido disso. Mas, nesta última hipótese, assegurado da fidelidade da mulher, Roscio ter-se-ia limitado a modificar ou a romper as suas relações com Rosello. A sua compreensão e a sua tolerância para com as paixões humanas, perante esta ofensa irreparável, mesmo que apenas projectada, não podiam ter evoluído até ao ponto de procurar uma vingança irreparável.

Poder-se-ia, todavia, considerar que ele não tinha ido encontrar-se com o deputado comunista a não ser para verificar se este estava disposto à denúncia; que ele não tinha ainda resolvido exercer a sua vingança, e havia, aliás, claramente declarado ao deputado que devia ainda decidir que lhe diria tudo ou nada, segundo... Segundo o quê? Segundo o quê, sob a ameaça, Rosello mudaria ou não de comportamento?

Por conseguinte, ao ameaçá-lo abertamente, Roscio tinha-lhe posto uma condição? Era necessário, neste caso, voltar à primeira hipótese: a uma maneira mais estranha de se comportar, no estilo floreado continental, ou de cinema, da parte de um marido enganado mas apaixonado pela sua mulher, decidido a conservá-la contra todos e contra tudo. E embora Laurana julgasse severamente toda a maneira de viver governada pelas paixões, particularmente pelas do amor-próprio e da honra, não podia fazer de outro modo que o de sentir, na sua hipótese, uma falta de respeito pela memória de Roscio: era por isso que fazia todos os esforços por a demolir, por a aniquilar. Mas seja qual for a maneira como se encare o assunto, este tinha algo de equívoco, de ambíguo: mesmo que não aparecessem ainda muito claramente as relações de causa e efeito, as relações dos protagonistas entre eles, dos elementos de que dispunha com o mecanismo do crime. E no equívoco, na ambiguidade, Laurana sentia-se moral e sensualmente implicado. (...)

in 'A cada um o seu' de Leonardo Sciascia

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Na primavera, o jardim da minha mãe torna-se um espetáculo de calêndulas e outras flores, que crescem com vigor, e ela envia-me sempre fotografias para que eu veja como evolui cada uma das plantas. O jardim, quadrangular e quase tão amplo quanto a casa, tem uma secção dedicada à horta, onde o Francesco, o seu companheiro, planta curgetes, pimentos, tomates, beringelas, alhos e cebolas. Todos os anos acaba por semear mais do que o necessário, e a colheita é tão generosa que a minha mãe costuma repartir as verduras entre as amigas, para que nada se perca. Apesar das suas tentativas de convencer o Francesco a plantar menos, ele entusiasma-se sempre com a horta, como tantos outros reformados que encontram na jardinagem uma forma de se manter ocupados e produtivos.

Quando construíram a casa, a horta era uma das ideias-chave do Francesco. Instalaram mesmo uma cisterna para recolher a água dos telhados e poder assim regar sem depender da rede pública, um recurso especialmente valioso numa província seca como Teruel. Agora estão a pensar em ampliar a cisterna, devido ao aumento de restrições ao consumo de água.

A calêndula, que cresce com abundância no jardim, é uma planta bastante resistente, que não exige muito da terra e tolera bem tanto as geadas como as secas. Além de ser decorativa, tem aplicações práticas: as pétalas podem substituir o açafrão-das-índias como corante, e as propriedades anti-inflamatórias e cicatrizantes fazem dela uma base ideal para a confeção de cremes caseiros. Todos os anos, a minha mãe aproveita a colheita de calêndulas para fazer o seu próprio creme, e eu guardo os boiões vazios do que gasto durante o ano para que ela possa enchê-los com a sua produção artesanal. (...)

in 'Furor Botânico' de Laura Agustí

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(...) corre que se desunha, rapaz, se queremos que aprendas a ler em condições devemos correr atrás dele, quando não, será tarde demais, dizia-lhe isto porque nunca voltava inteiro das ausências, ficava sempre mais qualquer coisa perdida naquele vácuo para onde desaparecia enquanto o Victor lhe enchia o cachimbo com tabaco e o calcava no fundo, era como uma parede a que iam sendo retirados tijolos, seria chegado o dia em que desabaria, e nesse dia não haveria nada mais a ensinar e nada mais a aprender. Não tem filhos?, perguntou-lhe o Victor, e o Ângelo respondeu, tenho três, mas têm mais o que fazer do que aturar um velho rabugento, moram longe, um está na Alemanha, outro no Canadá, o terceiro é professor universitário em Coimbra, vê lá tu, e o Victor disse, o meu irmão vai para a Universidade, não sei se para Coimbra, e o Ângelo respondeu, pois faz muito bem.

O Vicente deu-lhe uma palmadinha no ombro e disse, anda lá, vá, disse-lhe aquilo e ele foi como foram todos, mas o que o apoquentava desde esse dia não era ter ido, era ter sido o último a ir como se algo dentro de si dissesse, fica, fica, fica, a coisa má dos Tirapicos, uma espécie de desejo mórbido de ser preso outra vez, uma vontade de se vingar do flato do pai, ter um filho ladrão e também subversivo, talvez até comunista, porque não?, o que não faltava em Alcântara eram reuniões clandestinas do Partido, se quisesse mesmo muito poderia aderir, fazer parte, mas nesse caso seria o comunista mais estúpido de sempre porque estaria a arriscar a prisão e a tortura apenas e só por despeito a um velho agonizante, e não por acreditar naquilo, sabia lá ele em que é que acreditava, tudo o que conseguia distinguir era aquilo em que não acreditava, sempre era melhor do que nada, e não acreditava nos cabrões dos americanos que diziam que a grua tinha sido verificada na semana anterior. Deu outra vez por si de punho (...)

in 'Pés de Barro' de Nuno Duarte

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(...) escala, sem sabermos como sair deste imbróglio. A questão não é de deformação por uma espécie de justiça essencial como a que movia Maria das Dores, ou pelos sentimentos contrários que tenham a ver com poder ou ressentimento. O problema é da ordem do embate entre o antropológico e o tecnológico em cuja encruzilhada nos encontramos perplexos. Li num artigo assinado pelo jornalista José Vegar que «a quantidade de informação transmitida por telecomunicações durante todo o ano de 1986 poderia ser transmitida em apenas dois milésimos de segundos em 1996».

Vinte e oito anos depois, a estrela irradiante que é a pulsão comunicacional como é descrita? Não tem descrição possível. Um mundo inimaginável de imagens, números e sinais crípticos expande-se pelo universo e leva-nos na enxurrada. O que entra nessa cadeia infinita não se retira mais, ainda que se apague. Esta é a eternidade que criámos. A responsabilidade por colocar mensagens que tenham a ver com a verdade nesta cadeia transfiguradora deveria por isso inserir-se na Ética e na Moral. Mas onde bater à porta de semelhante igreja?

5.

O ano de 2024 que agora entra, se acaso a História continua a ter parecenças com a lógica de uma narrativa, depois dos nós que se ataram, sobretudo desde há dois anos, estas guerras devem começar a ter suas peripécias definitivas e seus desenlaces, ao longo dos próximos meses. É possível (...)

in 'O céu cairá sobre nós' de Lídia Jorge

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(...) que a criança se perdesse no seio dos homens de barba feita e pés valentes, fizera-se ali um lugar para ele por ter aquele dom de falar com as pedras e por trazer àquelas almas uma certa curiosidade envolta de misticismo. Era preciso acolher aquele enviado, vigiar todos os sinais que o corpo transmitisse. Cada palavra, dita ou por dizer, podia significar uma profecia de oráculo que decifrasse a vontade de Alá. Davam-lhe livros sagrados a estudar, a decifrar, a ler em voz alta num refúgio da mesquita a que apenas os homens cultos tinham acesso. Uma espécie de quarto recôndito que se fizera para ouvir e refletir sobre as palavras do Profeta e assim preparar o sermão da sexta-feira para os fiéis. Mohamed fizera-se homem dentro daquele lugar. A cumprir o desejo do pai e a cava fé da mãe, orgulhosa que ficava a olhar para ele como um salvador tocado pela divindade e, por isso, aliviada das possíveis agruras que a vida lhe pudesse reservar. Bastava-lhe aquela ideia de que o filho mais novo trazia consigo as vontades cumpridas de um Deus. Trajado a preceito, com brio e esmero, a crescer sob uma bênção maior. Um saber inteiro que a escola não podia dar naqueles tempos de que só os escolhidos de Alá teriam o privilégio de desfrutar. Mohamed era, portanto, a voz materializada da crença e o menino que havia de estudar mais do que os outros. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, toda aquela doutrina lhe veio acentuar o silêncio e a mudez; foi-se calando ao longo dos anos, governando as vozes dentro de si, emudecendo-as com o passar do tempo, ora de mudos não se rege a religião, por isso, certo dia, o imã chamou o pai de Mohamed para lhe dizer que de nada lhe valia ter ali o filho, que ali só havia lugar para gente que adorasse as palavras e se vergasse às preces do Profeta, o que aparentemente não era o caso do miúdo. Isto, claro está, foi um grande desgosto para a mãe, que até ali via em (...)

de Carla Pais em 'A sombra das árvores no inverno'

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(...) que o que tinham antes. Estavam a dançar à porta do Michel. Ele vive pertinho da Bastilha e telefonou-nos por entre a barulheira toda. Acho que vou deixar a política pelo amor, não são coisas completamente separadas uma da outra, como é óbvio. Contei-te os horrores da minha doença para evocar a tua mais profunda e sincera compaixão pela tua pobre querida no Soho, atormentada por duas aflições: o coração e a cabeça. Espero que tenha resultado. Estás pronto para fugir comigo agora? Contento-me com um café. Que tal um café, sem beijos nem abraços. Pode ser um café perfeitamente espiritual para exibir a minha alma em toda a sua radiosa pureza. Se um café for demasiado íntimo, contento-me com fazer amor ao telefone. Como vai a vida? Esta palermice toda é só para te dizer que parece que passou uma eternidade e que tenho mais saudades tuas por não saber se e quando te verei. Acho que és o melhor do mundo e é muito triste perder o melhor.

Com amor,

Siri

Lembro-me da dor de cabeça. Passou depois de uma violenta explosão gastrointestinal na sanita que me deixou trôpega e zonza, mas sem dores. Diarreia-choque como cura milagrosa.

Demerol? Quando andava na faculdade, um médico receitou-me um medicamento para uma enxaqueca obstinada que continha Demerol, um opiáceo, nos ingredientes. Deu-me sete cápsulas roxas e vermelhas. A dor de cabeça durou mais de um ano e, depois, passou. Guardei aqueles comprimidos para tomar caso tivesse uma dor que me parecesse insuportável. Teria sobrado algum? Parece-me pouco provável. Não me lembro de arranjar uma receita para Demerol em Nova Iorque, mas talvez o tenha feito. (...)

De Siri Hustvedt, em 'Fantasmas, um livro de memórias'

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(...) meia-volta. Um rapaz com cabelo louro e cara de parvo chamado Wilsher, que ele mal conhecia, convidava-o, sorridente, a sentar-se num lugar vago à sua mesa. Não era seguro recusar. Depois de ter sido reconhecido, não podia continuar e ir para a mesa duma rapariga sozinha. Daria demasiado nas vistas. Sorrindo amavelmente, Winston sentou-se ao pé dele. O loiro Wilsher arvorava o seu sorriso parvo e radiante. Winston teve uma alucinação e imaginou-se a cravar-lhe uma picareta no meio da cara. Poucos minutos depois, a mesa da rapariga ficou inteiramente ocupada.

Mas ela devia tê-lo visto avançar na sua direcção, e talvez tivesse percebido a dica. No dia seguinte, Winston teve o cuidado de chegar mais cedo. E de facto ali estava ela, sentada mais ou menos no mesmo local e novamente sozinha. A pessoa imediatamente à sua frente na fila era um homenzinho com movimentos rápidos de percevejo e uma cara achatada, com uns olhitos pequenos e desconfiados. Quando se afastou do balcão com o seu tabuleiro, Winston viu que o homenzinho avançava a direito para a mesa da rapariga. As suas esperanças desvaneceram-se de novo. Havia um lugar vago numa mesa mais à frente, mas algo na aparência do homenzinho sugeria que ele apreciava suficientemente o conforto para escolher a menos ocupada. Com gelo no coração, Winston seguiu-o. Seria inútil se não conseguisse apanhar a rapariga sozinha. Nesse momento ouviu-se um grande estrondo. O homenzinho estava estatelado no chão, o seu tabuleiro voara pelos ares e havia dois jorros de sopa e café a escorrer à sua frente. Levantou-se e deitou a Winston um olhar feroz, parecendo suspeitar que este lhe passara uma rasteira. Mas estava tudo bem. Cinco segundos depois, com o coração a ribombar no peito, Winston estava sentado à mesa da rapariga.

Não olhou para ela. Colocou na mesa o conteúdo da bandeja e começou de imediato a comer. Era importantíssimo falar de imediato, antes que chegasse alguém, mas entretanto apossara-se dele um medo terrível. Passara uma semana desde que ela o abordara. A jovem podia ter mudado de ideias, podia ter mudado de ideias! Era impossível que aquela aventura acabasse bem; essas coisas nunca aconteciam na vida real. Winston podia ter recuado completamente na intenção de lhe falar se nesse momento não tivesse avistado Ampleforth, o poeta de orelhas peludas, a coxear pela sala com um tabuleiro nas mãos, à procura de um lugar

de George Orwell em 1984

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Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, junho 05, 2026

Dia bom, com ida à Feira do Livro (um gelado, vários livros).
E, para acabar, um vídeo todo fake.

 

Pode ser que amanhã mostre os livros que trouxe. Hoje não. Só faço bocejar. Estou com uma soneira tal que nem dá para imaginar. Acordei mais cedo do que devia e, em vez de voltar a adormecer, fiquei acordada a tentar descobrir se estava sozinha em casa ou se estavam apenas silenciosos. Depois ouvi o portão e percebi que estavam a chegar. Tentei perceber se já seriam horas de acordar ou se ainda era muito cedo. Claro que poderia ter-me levantado e ir ver as horas, mas tive receio de espertar. Já houve tempos em que tinha, na mesa de cabeceira, um relógio despertador. Agora, tudo isso caiu em desuso. Quando quero saber as horas, vejo no telemóvel. Mas geralmente não o tenho ao pé de mim.  Com isto, não voltei a adormecer e fiquei com um défice de horas dormidas.

Depois fui à Feira com a minha filha. Ela ainda se lembra das horas abaixo e acima quando ela e o irmão eram pequenos. Também me lembro. Íamos pelo menos duas vezes em cada feira, mas geralmente mais. Por vezes, no fim do dia de trabalho, ia lá numa corrida. Era muito viciada em livros. E lembro-me ainda antes, quando a Feira ainda era na Avenida da Liberdade e eu, sozinha, ainda miúda, por ali andava nas minhas sete quintas. Também me lembro de ir com os meus pais, sempre era uma maior capacidade de investimento do que quando ia sozinha e esticava a mesada para dar para alguns livros.

Agora a Feira está enorme, mas dá ideia que mais de metade dos livros são treta, tanga, muita cor e fantasia, mas conteúdo nulo. Mesmo alguns dos livros mais afamados, supostamente comercializados por editoras 'sérias', abrem-se e o que se vê são redacções básicas, conversa para encher chouriços, palavras desprovidas de vida. No meio daquela barafunda, desfoco-me, desconcentro-me, até porque se me focasse precisaria de muito mais tempo. Mas sobretudo, a falta de sobriedade das capas, o ruído de 'mercado', de feira popular, a confusão, tudo isso me causa algum agastamento. Também me dá um bocado de pena os escritores que ali se põem à espera que lá vão ter com eles. Nunca percebi qual a lógica ou a vantagem. Parece-me uma exposição um bocado artificial, senão mesmo humilhante. E depois há longas filas para pessoas que não se sabe quem são mas que, pelos vistos, vendem livros. Enfim, aquela já não é bem a minha praia. Ainda assim, trouxe sete livros. A ver se amanhã os mostro.

E jantámos em casa da minha filha, naquela sua ampla, bem temperada e luminosa casa. Os rapazes cada vez maiores, já só a quererem laré, cada um com as suas combinações. Ainda não há muito, era a mãe e o tio deles também sempre a saírem com os amigos. É bom que sejam sociáveis, que arejem as cabeças, que pratiquem desporto, que tenham amigos, que gostem de conviver.

Entretanto, íamos recebendo mensagens: o outro futebolista, o mais novo dos três guarda-redes (só o mais novo não saiu guarda-redes, e a menina é do vólei), estava num torneio de dia inteiro, a família foi torcer, e o pai ia dando notícias. Depois um vídeo, ele a defender um penálti, o pessoal a gritar pelo nome dele. Ao fim da tarde, tinha passado e ia para mais um jogo a ver se ficavam por ali ou se iam à final. Foram à final. E, por fim, já bem de noite, a vitória: venceram o torneio. E, para rematar, ele, todo feliz, com a taça na mão. Campeão. mais lindo

Entretanto, nós dois, quando regressámos à noite, ainda fomos passear com o cão mais fofo.

Com isto, só chegámos à sala tarde e más horas. O meu marido ligou a televisão, estava a dar o Eixo do Mal. Fiquei um bocado surpreendida, não sei porquê parecia-me sábado. Depois caí na real, qual sábado?, era quinta-feira. Seja como for, fiz um esforço para não dormir mas a impressão que tive é que não estive sempre acordada pois estou com dificuldade em lembrar-me do que disseram.

Agora liguei o computador e, ao abrir o youtube, apareceu-me um vídeo extraordinário. Às primeiras, vamos na inocência, uma pessoa até fica na dúvida se é verdade. Mas, quando se pára para pensar, percebe-se que é invenção, fake do mais fake que pode haver. Já há algum tempo me tinha parecido no Instagram mas aparece tanta coisa feita por IA que, mal me parece tanga, sigo adiante. Neste caso, fiquei a olhar e a tentar perceber, sob o ponto de vista de programação ou da física, se seria possível e a minha opinião foi que nem pensar. Por exemplo, fazer implantes capilares em segundos? No way. Mas, por via das dúvidas, perguntei às IA's. Embora me digam que já há robots que cortam e  lavam cabelos e massajam cabeças, ainda não fazem tranças nem fazem nascer cabelo. Claro.

Mas a verdade é que se, para já, não existem tais máquinas, a IA já consegue forjar uma realidade em que isso é possível. E, cada vez mais, vai sendo mais difícil perceber com exactidão onde está a fronteira entre o que é verdade, embora extraordinário ou extra-futurista, e o que é forjado.

De qualquer maneira, aqui fica desde já o meu veredicto. Caso haja por aí quem esteja mesmo a pensar fazer máquinas destas: a mim é que não me apanham a enfiar a cabeça numa coisa destas ou a deixar que uma cena daquelas me aspirasse o cabelo sabe-se lá para fazer o quê. Olha se o cabelo se ensarilhava lá para dentro e não conseguia tirar a cabeça a menos que lá deixasse ficar o cabelo todo... Ou se a máquina se engana e me pinta o cabelo de roxo e faz mil trancinhas, impossíveis de desfazer... Ná, not me.

Mas vejam lá o despautério (e não se deixem ir em cantigas, é tudo aldrabice):

Testaram estas máquinas de cabelo do futuro… Ninguém esperava por isto.

As máquinas de cabelo do futuro estão a começar a mudar a forma como o cabelo é penteado. Nesta compilação, são testadas diversas tecnologias capilares avançadas em demonstrações reais.

Desde sistemas automatizados de tranças a máquinas de styling futuristas, estes dispositivos de última geração podem transformar o cabelo em segundos.

Veja o vídeo completo e veja como funcionam estas máquinas de cabelo do futuro na prática.


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quinta-feira, junho 06, 2024

Feira do Livro

 

Sou tão velha, mas tão velha, que ainda me lembro de duas coisas revestidas de muita antiguidade:

1. Ir à Feira do Livro com os meus pais. A escolha de livros sempre foi, para mim, coisa muito minha. Ir com os meus pais significa que era uma altura em que ainda não circulava livremente por Lisboa

2. Ir à Feira do Livro na Avenida da Liberdade, tenho quase a certeza que do lado esquerdo de quem desce para o rio.

Ir com os meus pais não era grande coisa pois cada um tem o seu próprio ritmo e eu gostava de ver cada stand e o meu pai não tinha paciência. Mas tenho ideia de que ali era mais fresco. Não tenho ideia de calorões quando a Feira era na Avenida.

Outra coisa que não era fácil era ir com os meus filhos, quando eles eram miúdos. Aí era barra pesada. Claro que eles não queriam ver aquilo que eu queria. Mas, mais do que tudo, eu tinha pavor de perdê-los. Sempre tive. Então tinha que descurar os livros. Sempre que podia fazia assim. Um dia saía um pouco mais cedo e ia lá ao fim da tarde, fazer uma recolha de catálogos. Era tudo tão manual, tão analógico... Depois, nos dias seguintes, fazia pré-selecções e selecções até chegar a uma lista minimamente comportável. Depois, num fim de semana, arranjava maneira deles ficarem com os meus pais e ia lá com o meu marido. Muito dirigidamente, ia para os stands em questão e abastecia-me.

Nessa altura ainda só conhecia a FNAC de Paris. Ainda não tinha chegado cá. Grande e com uma boa oferta, conhecia a Bertrand ao Chiado, cujos saldos também frequentava. Também não havia cá compras online. Ou seja, a Feira era aquele sonho que se materializava uma vez por ano.

Depois tudo mudou. Começaram as grandes livrarias com cartões de desconto e com promoções várias vezes por ano, começaram a proliferar as editoras, multiplicaram-se os livros que são lixo, as celebridades passaram a ser os autores de referência e tudo se mercantilizou de uma forma exuberante.

Estive lá hoje. Stands que não acabam. As grandes editoras têm montes de chancelas, cada um com seu stand. Há editoras que não acabam, muitas de que nunca ouvi falar. Carradas de stands de livros infanto-juvenis. Por onde se passa, há capas e capas e capas numa disputa de cor, brilhos, letras gigantes sobrepondo-se à bonecada. E há stands cheios de caras que a gente conhece das televisões, quiçá até dos Big Brothers desta vida.

Isto já paar não falar nos stands dados à religião, seja lá o que isso for pois há religiões também para todos os gostos.

Isso e barraquinhas de comes e bebes. Lá em cima, a ligar as duas alas, há um plateau grande, um deck em que estão muitas esplanadas e quiosques de toda a espécie e do qual se tem uma vista fantástica. Provavelmente, está-se lá lindamente. Mas como essa não é a minha praia nunca lá parei. 

E podem chamar-me preconceituosa mas há uma coisa que me incomoda um bocado: andar a ver livros e cheirar-me a bifanas ou a feira popular. Mas pode ser do calor que parece que sinto sempre quando lá ando. 

Conclusão: comprámos uns quantos livros. O meu marido comprou dois e eu sete. 

Ando numa fase em que gosto de ler memórias, apontamentos pessoais, diários, cartas. Parece que é aí que está verdadeiramente a essência dos escritores. Também comprei um livro de contos e outro que é uma espécie de biografia. E digo 'espécie' pois não sei bem se é biografia ou se é uma ficção em torno de uma biografia. 

Vinha cheia de vontade de os folhear a todos mas estou assim, ou velha ou ainda com algumas sequelas covid. Sentei-me no sofá e adormeci. Parece que nunca mais me curo deste sono que, volta e meia, se abate sobre mim. Tinha dormido menos de noite, é certo, mas durante toda a vida dormi pouquíssimo e aguentava todo o dia sem ter necessidade de dormir a meio da tarde. Mas não sei se foi o défice da noite, se foi por andar na Feira para cima e para baixo cheia de calor, a verdade é que adormeci profundamente. Acordei com o meu marido a chamar-me para irmos fazer a nossa caminhada de fim de dia. Portanto, ainda não os folhei. Leitora degenerada.

Só mais uma coisa: apanhámos, de passagem, a Grande Entrevista com o José Gameiro. Muito interessante. O sentido de humor, a graça e a leveza com que ele fala de temas potencialmente sensíveis torna a conversa estimulante. E o Vítor Gonçalves é um bom entrevistador. Ouve, é oportuno, dá tempo. O tema foi a infidelidade. Quem não viu e possa pôr a box a andar para trás, penso que se justifica.

sábado, junho 03, 2023

A Feira do Livro do Parque em Lisboa.
Siri hesita quanto aos conselhos a dar.
Martin Amis felizmente deixou-nos alguns conselhos como este, para se escrever uma frase perfeita

 

No outro dia recebi um telefonema. Na sequência desse telefonema mais dois telefonemas inesperados. De então para cá tem sido uma coisa extraordinária. 

Aliás, quando os recebi disse logo ao meu marido: 'Acabou-se-me o sossego". E não é que o desassossego tenha sido total mas tem sido significativo e, sobretudo, uma experiência fantástica. 

Para começar tem sido um incrível reavivar de memórias, algumas das quais há uns dirias juraria que estavam desde há muito apagadas. 

E, globalmente falando, tem sido muito agradável.

No outro dia também fui à Feira do Livro. São muitas barraquinhas, aquilo. Para mim, tudo aquilo é grande demais,. E cada barraquinha está repleta de cores e cores e cores, por detrás das quais, em alguns casos, talvez haja literatura. 

Mas parece que já me desabituei de muita gente, de muita coisa, de barafundas. Durante a semana não é que estivesse muita gente mas era dia da Criança, havia muito movimento, pessoas mascaradas a fazer alguma animação, estava calor e, sobretudo, eu, como sempre, não tinha levado nenhuma lista e, portanto, não ia para uma visita dirigida.

Mas, também, não tinha feito nenhum estudo sobre a localização dos stands. Por isso, tive que ir à descoberta. Portanto, percorri todo o espaço. Obviamente não parei em todas as capelinhas mas calcorreei toda a via sacra.

Sinceramente, não sei como é possível haver tantas editoras, tanto livro publicado. Se é verdade que os portugueses não são bons de leitura, então qual a justificação para tal fenómeno?

E depois há as capas dos livros. As capas, senhores. Um folguedo. Um festival de exuberância e, tantas vezes, de mau gosto. 

As editoras são empresas, não são associações de benemerência. Por isso, devem saber o que fazem. Provavelmente há mercado para tanto livro. E, provavelmente, quanto mais fotografias, cores, tules e laços, melhor se vendem.

Eu é que, pelos vistos, não percebo nada de nada.

Entretanto, ponho-me a ver o que a inteligência artificial que move o algoritmo do Youtube tem para me mostrar. Acerta sempre. 

Estes dois vídeos são bastante interessantes.

Siri Hustvedt about writing and the idea of success — CHANEL and Literature


Martin Amis: How to write a great sentence 


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Um bom sábado
Saúde. Boa disposição. Paz.

quinta-feira, junho 14, 2018

Qual a maior? A do Marcelo ou a do Tony Carreira?


A do Rei Tony, bem grande

A do Presidente Marcelo, também de bom tamanho
(e nada de o confundir com o senhor em 1º plano que deve ser da Segurança. O nosso Marcelo está lá ao fundo, á direita)


Só hoje é que consegui ir à Feira. Durante a semana é para esquecer, saio do trabalho tardíssimo, incapaz de ir laurear. Durante os transactos fins-de-semana, os afazeres foram outros, mais campestres que citadinos, com os sempre bons compromissos familiares à mistura. Portanto, hoje, finalmente e in extremis, lá estivémos caídinhos.

Mas a malta já não é jove, a malta já não está para as cenas às quais antes se entregava com deleite, sem qualquer sacrifício. O meu marido, no meio da barafunda, volta e meia pergunta-me porque quero eu lá ir. Não respondo porque não sei o que responder. Acho que é a mística. Mas também não sei desenvolver mais do que isto.

Muita gente, muito calor, muito barulho, muito cheiro a farturas. E aqueles stands que me aparecem envoltos em hiper consumo incomodam-me muito, contaminam um bocado a minha disposição.

Mas, enfim, é o que é -- e contra místicas não há cá caguinchices, funfuns ou gaitinhas.

Incomodados e encalorados lá fomos circulando.

Numa mesa, a Maria de Belém, com o esfíngico Eanes ao lado, falava na 'sociologia da carícia'. O meu marido solidarizou-se: 'Parece-me bem. Sociologia da carícia. Estou capaz de aderir'. Não percebemos a que propósito vinha aquilo mas ambos acreditámos que sim. Na volta para baixo já era o Eanes, agora sem óculos e mais gordo de cara, que, com aquela sua voz fechada e semblante igualmente carregado, dizia coisas. Eu disse: 'Está melhor agora que antes' e o meu marido completou 'Especialmente no sotaque'. Dei uma gargalhada.

Noutro stand, uma animada jovem mulher, falava na importância da qualidade do serviço, dizia banalidades, dava o vulgar pontapé 'tem a haver com' e prosseguia, afirmando, com garbo, que até tinha escrito nas redes sociais que o serviço está melhor em Portugal. O meu marido disse: 'Ah, isso é importante'. Na volta para baixo, já era um jovem homem que, com igual entusiasmo, falava do serviço e que tinha tido uma experiência a partilhar: alguém o tinha servido com um sorriso. O meu marido disse, com aquele seu ar de quem não parte um prato: 'Também é importante'. Fosse como fosse, a verdade é que tinha muita gente a assistir.

À sombra de quase todos os stands estava a costumeira mesinha onde uma ou um solitário escritor espera que alguém lhe vá pedir um autógrafo. Por vezes, estão dois e, aí, já podem conversar um com outro. Faz-me pena aquela desolação.

Num daqueles bigs stands com esplanada a meio, estava uma mesa com o Rodrigo Guedes de Carvalho mas, também ele, lá estava conversando com um companheiro, sem quaisquer devotos requerendo dedicatória.

Eu, mal lá chego, para me refrescar o espírito e conseguir suportar a balbúdia das marabuntas, começo por comer um gelado, desta vez um daqueles novos de chocolate e framboesa. Mas não foi suficiente.

É que hoje o contratempo também era outro. Conto: para agudizar a coisa, ando com uma pouca sorte do caneco com as máquinas fotográficas. Tanto que as crianças andam com a máquina dum lado para o outro, tantas vezes que já a deixaram cair. Até ao bebé, como num dia o contei, dei com ele a passear a máquina como se fosse um cão pela trela. Pois fui eu que, no outro dia, lá in heaven, a deixei cair no chão de pedra e parti a lente. Fiquei para morrer. Máquina para o galheiro. Um abalo na minha existência.

Hoje, para a Feira, fui buscar a velhinha Nikon, pu-la a carregar e, esquecida do problema que me levou, na altura, a ter que comprar outra, levei-a. Pois mal tirei uma fotografia, pimbas, bateria esgotada.

Portanto, com vontade de fazer a minha reportagem e sem ter com o quê, vi-me apeada.

E, quando surgiu um motivo mais do que suficiente para ter que registar o momento, não tive outro remédio senão valer-me do telemóvel. Uma infelicidade.

Pois muito bem: vamos, então, ao que interessa.

Conforme se vê na primeira fotografia, aquela lá em cima, uma fila bestial: tudo para o grande escritor Tony Carreira. Os outros escritores às moscas e os fãs do Tony todos alinhados em fila de pirilau para colherem o autógrafo do emérito escritor (escritores em lato sensu, claro, já que qualquer andorinha de arribação que resolva escrever três patacoadas já se acha escritora). O cúmulo do nonsence civilizacional, digamos assim.

E estando eu a divagar sobre a problemática, eis que, no meio da algazarra, de gente vestida de boneco, de gente com barulhentas crianças, intelectuais aos montes, alternativos aos cachos, casais gays a passear caniches, idosos, socialites e etc, no meio da relva, um amontoado. Aproximo-me para espreitar mas, sinceramente, já suspeitando. E não me enganei: era ele. O omnipresente, omnisciente e omnipotente Marcelo. Lá estava. Em pessoa.


No meio do separador central de relva. Distribuía beijocas, abraços e prestava-se às costumazes selfies.

O meu marido disse: 'Este gajo exagera' e deu-me ordem de marcha. Cruzei-me com uma rapariga que dizia, eufórica, 'Tirei uma selfie com ele: es-pec-ta-cu-lar!!!'. Um momento inesquecível na sua vida, deu para perceber.

Lá fui.

O ruído, a barafunda e o calor tiram-me do sério e fico incapaz de ter o sossego de alma que, para mim, é necessário para me debruçar sobre os livros, para mondá-los com a necessária atenção.

Acabei por trazer uns quantos, mas poucos, e fiquei com a sensação que deveria era lá ter ido um dia à noitinha, pela fresca.

Acabei por trazer:
  • Páginas (V) de Ruben A.
  • Páginas (VI) de Ruben A.
  • Alguns motetos de José Bento, selecção e prólogo de José Tolentino Mendonça
  • Contos Naturais de Carlos Fuentes
  • O passo do adeus de Cristina Campo
  • Dacosta em Paris, textos de António Dacosta
  • Animal animal, um bestiário poético, organização de Jorge Sousa Braga
  • Cemitério de elefantes de Dalton Trevisan
  • Cartas de Manuel Laranjeira, prefácio de Miguel de Unamuno
Quando estávamos de regresso, já a tardina avançava, uma fila nova no relvado, a que se pode ver lá em cima, a segunda. Admirada, fui escrutinar. Mantinha-se mais acima a do Tony Carreira, ainda bem composta,  mas esta nova era uma evolução do anterior amontoado em torno do Marcelo. Provavelmente foi ele que, mais do que ter bicho-carpinteiro no corpo, encarna o espírito do dito e resolveu organizar a coisa.


Agora Sua Excelência, our Presidente, estava, pois, debaixo de um toldo e, à vez, os fãs iam ter com ele, ele dava o beijinho da praxe e faziam-se à fotografia. Se alguém se atrasava, o sorridente Senhor Presidente gesticulava, mantava acelerar. E, nos entretantos, voltava-se para trás e falava com os crentes que o chamavam pela rectaguarda.




Uma festa.

O meu marido puxou por mim, zangado, 'E tu parece que achas graça a este disparate'. Acho. Acho graça a tudo o que é exagerado, disparatado e inócuo. Mandei umas fotografias à minha mãe. Respondeu: 'Esse está em todo o lado'.

A mim o que me faz espécie é como é que ele, sempre naquela frenética roda-viva, faz para ir à casa de banho. O dia inteiro no meio de gente de toda a espécie e feitio, como é que ele se aguenta? Juro: faz-me espécie.

Mas pronto, adiante. Lá nos fomos embora. Alguns dos meninos estavam na aula de natação e fomos lá vê-los. Fico sempre feliz da vida quando estou perto dos meus meninos, grandes e pequenos.

E depois viémos para casa. Jantámos, fiz o jantar de amanhã, dei apoio psicológico ao meu marido num trabalho que tinha que acabar hoje, e agora aqui estou com mais esta pilha de livros e sem fazer ideia de onde hei-de pô-los. Ainda sugeri ao meu marido irmos ao IKEA antes de virmos para casa mas ele não deu bola: 'Era mesmo só o que faltava, depois da Feira do Livro, acabar o dia no IKEA'. Percebi. Seria dose.

Portanto, olhem, ficamos assim.

Quanto ao tamanho da fila do Tony e do Marcelo (e atenção, eu comecei com f, disse fila), não as medi mas, enfim, já sabemos: o tamanho não importa.

quarta-feira, junho 14, 2017

E pronto, lá fui ao Parque.
E o que tenho a dizer é que a safra foi exígua: 1+6 livros.
Mas estava-se lá muito bem, não apenas na Feira do Livro em si mas, também, nos jardins e lagos circundantes.


Dia de calor, descanso, indolência.

De manhã, praia -- mas praia para caminhada à beira de água e não praia de estar estendida ao sol. E que bem se estava. E a água do mar, apesar de batida, bem temperada. 

E, ao fim do dia, pela fresca, ida ao Parque. Por muito que esperneie, é certo e sabido que é peregrinação inevitável. 


Esta hora é boa. Pouca gente, pouco barulho, uma aragem que convida ao passeio.

Ia open minded. Tinha um único livro que queria, de certeza, trazer. O resto seria o que viesse à rede.


Mas a verdade é que longe vai o tempo em que tudo o que vinha à rede era peixe e ambos não tínhamos mãos que chegassem para tanto saco. Agora já não. Barracas e barracas de fancaria. editoras de que nunca ouvi falar, autores de que nunca ouvi falar, títulos, aos montes, de que nem quero ouvir falar. Claro que posso cometer injustiças com o meu radicalismo. Se, ao passar, vejo capas espampanantes, livros que, logo na forma como se apresentam, são ruído e mais ruído, sigo sem me deter.

Claro que, com esta disposição, na maior parte não páro nem abrando e a visita acabou por ser até mais breve do que se poderia supor.


Finalmente lá consegui descobrir o livro que justificava a ida. E, tirando esse, apenas trouxe mais seis e todos nos saldos. E isto é o mais estranho: para além desse tal que custou o preço dele, treze euros, salvo erro, os únicos livros que me deram vontade de os ter estavam a preço de saldo. Cinco deles a cinco euros cada e outro a quaro ponto nove. Por que razão o editor os desvalorizou, enfiando-os em caixas de livros baratos, não percebo. Foram dos poucos a que reconheci qualidade.

Para além disso, estou na dúvida se já não tenho um deles. Mas, se tenho, não o descubro. Tenho que fazer uma busca mais sistematizada. Aliás, tenho que reorganizar os montes de livros para que, numa situação destas, saiba a que pilha me dirigir. Mas também não é grave, se o descobrir, dou a um dos meus filhos. 


Mas vim de lá intrigada. Com tanto stand como é possível que não tenha tido vontade de trazer mais livros? Será que, de facto, a grande maioria do que se publica é lixo? Ou sou eu que estou cada vez mais niquenta? Ou será que estou é a ficar demodée, desalinhada face às novas tendências?
Olha, se for, azarinho e que se lixem as novas tendências. Caraças.
O mercado editorial, que desconheço, deve é ser um mundo cão. Neste mundo que privilegia o mainstream, livros de qualidade devem ser coisa vintage, para nichos comercialmente desinteressantes.

Para além desses stands borbulhantes, repletos de livros da treta, há, na Feira, aquilo de que nem vou falar porque me constrange imenso: ver escritores desolados, numa mesinha, a lerem para disfarçar o incómodo e a mais que certa sensação de abandono, sem que ninguém se lhes dirija. 

Lá vi a Hélia Correia que estava bem acompanhada e na conversa com os seus colegas de mesa, e o Rodrigo Guedes de Carvalho com duas ou três pessoas (mas quem é conhecido da televisão tem sempre alguns fãs). Mas, de resto, os poucos que ainda lá estavam, estavam desconsoladamente sós. 



Bonito mesmo está o Pavilhão Carlos Lopes, todo arranjado, muito bem ligado ao Parque. Não sei se já está a ser usado mas tomara que sim pois tem uma localização privilegiada.


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Tirando isto, só dizer que não comi nem prego, nem cachorro nem batata frita nem churros. Continuo firmemente de dieta. Acho que, com o rigor com que tenho levado isto, já devia estar escanzelada e estou apenas ligeiramente mais magra mas, ainda assim, quando me meto numa coisa, é para a levar a sério e, portanto, só páro quando estiver mais elegante que a Elle Macpherson aka The Body. Portanto, limitei-me a um Olá Solero de frutos vermelhos, só água e fruta, sem açúcar e completamente deslavado. Para desforrar, acabei a jantar caracóis mas, enfim, caracóis é bicho do mais enxuto que há pelo que não é por aí.

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domingo, junho 11, 2017

In heaven, entre pequenos lobos, longe do Parque e com os primos da Princesa Margaret





Por incrível que possa parecer, este ano ainda não fui à Feira do Livro. 

Durante a semana é o que é e ao fim de semana zarpamos para o campo e a maltinha toda cá connosco. A casa cheia, uma alegria em permanência tanta a brincadeira, os jogos de futebol, as mangueiradas, todos a varrerem e a apanharem folhas secas, a mesa curta para tanta gente, nós sem sabermos bem o que comem, a estimarmos por cima, e, no fim do dia, espantados por ter sobrado tão pouco, que comem cada vez mais, senhores (e rimo-nos, satisfeitos por vê-los assim, lobinhos esfomeados e cheios de vida, a crescerem a olhos vistos). Por exemplo, o pão. O meu marido de manhã estava na dúvida sobre a quantidade de pão. Eu disse: para aí umas oito ou dez bolas. Eu não como, um miúdo sozinho não come uma bola daquelas, é um grande pão, e os crescidos pouco pão comem, acho eu. Oito ou dez é à vontade. Ele disse: Pode ser pouco. Mas é uma chatice porque se não lhes dá para comer pão, fica aí pão para um mês. Mas no mínimo doze. Afinal, por via das dúvidas, trouxe dezasseis. Achei um exagero, umas saconas enormes cheias de pão. Disse-me que dava já para domingo. Eu não como pão mas ele come. Agora que saíram todos, já jantarados, ao arrumarmos a cozinha, diz ele: Sobraram cinco bolas. Estás a ver, se tenho comprado só oito ou dez?


É verdade. Uma pessoa já tem dificuldade em avaliar. De manhã, chegámos carregados com sacos do supermercado. O frigorífico ficou cheio. Agora está quase limpo. Fico contente. Gosto de vê-los a comerem de gosto. Para o almoço trouxémos peixe, douradas grandes e, em especial para mim, carapaus (gosto muito de carapaus, em especial dos grandinhos), que o meu filho assou lá fora. Quando, antes, tinha perguntado o que queriam para o almoço, a resposta foi a habitual: 'Qualquer coisa. Nada de complicações. Peixe, batatas, salada.'. Fiz também legumes (feijão verde, brócolos, cenouras) e, em vez de apenas batatas simples, também batata doce. E salada de tomate e alface.

Mas, estava o meu filho a assar o peixe, entra o mais pequeno (mais pequeno, não incluindo o bebé, claro): Há tremoços? E eu: Não... Lá foi dizer ao pai que não. Passado um bocado, aparece de novo: O pai diz que já podes dar o chouriço para ele assar. E eu, desolada, Oh amor, não trouxe chouriço.... Lá foi. Passado um bocado, apareceu, foi ao frigorífico buscar uma mini para o pai e disse: E azeitonas, também não tens...?.  E eu, infeliz, que não. Só pãozinho com manteiga. Sempre isto, que eu não complique, que me limite ao básico e, no fim, querem sempre o que não há...

Mas o peixe estava bom, no ponto, e as batatas e os legumes e a salada e a fruta, bem boas. Ao lanche iogurtes, fruta, pão com queijo, sumo. E, para o jantar, caracóis, salada de polvo, tortilha à espanhola, salada de atum com feijão frade, queijo fresco e, lá está, também pãozinho. E fruta. 

Por enquanto, o bebé partilha o convívio apenas indirectamente, já que ainda não se senta à mesa, não joga futebol ou toca guitarra. Sempre na maior, gordinho e sorridente, de colo em colo, sempre feliz com a animação, dá aos pézinhos e aos bracinhos, ri e palra enquanto olha para irmãos e primos. Lá fora, anda de boné, lindo e fofinho. Ainda não pode apanhar sol. Fez quatro meses agorinha mesmo. Depois, dá-lhe o sono e dorme belas sestas de que acorda para mamar até deitar por fora. Os mais crescidos, volta e meia aproximam-se, dão uma vista de olhos, de vez em quando beijam-no e prosseguem a brincadeira.

A mana tinha trazido caderno e livros para fazer os trabalhos de casa e preparar-se para os testes. Temperamental que nem a avozinha quando tinha a idade dela, a coisa facilmente derrapa para a zanga. Escrevi uma história em três linhas onde se dizia que 'a Princesa Margaret tinha ido ao circo com a mãe e com os primos. O cão Quicas também tinha querido ir mas não o deixaram. Por isso, ele foi às escondidas'.  Ela leu. Depois as perguntas de interpretação. Numa delas, escrevi: Com quem é que a princesa Margaret foi ao circo? Ela escreveu: A princesa Margaret foi ao circo com a sua mãe e com o seu cão. Eu disse: A resposta está incompleta. Ela cruzou os braços à frente do peito e disse: Não está nada. Eu disse: Lê outra vez a história. Ela recusou-se. Disse-lhe: Então deixa. Vou fazer outra pergunta. Ela aceitou de bom grado. Escrevi: Os primos da princesa Margaret são invisíveis? Ela leu a pergunta e, no fim, furiosa, pousou o caderno e arrumou o lápis, dizendo: Não faz sentido! E levantou-se, agastada.

O meu filho disse: Não é assim que se consegue alguma coisa dela. Foste provocá-la dessa maneira...


Tem 6 anos, anda no 1º ano, é excelente aluna - mas uma força da natureza que não se dobra com facilidade. Tirando isso, é uma doce, meiga, coquette, uma capacidade de apreensão e uma memória estonteantes.

Mas, portanto, para dizer que, com tudo isto, não tenho tempo e, verdade seja dita, também ainda não senti verdadeira motivação para ir à Feira do Livro. Tanta tralha vendida como se fosse livro, tanta barafunda, anúncios aos microfones como uma feira de diversões. aquele número que me parece sempre meio triste de alguns autores ali ao abandono. Não sei. Devia ser capaz de lá ir um dia de semana mais à noitinha mas não sei. O excesso cansa-me um bocado, parece que fico sem muita paciência para andar a garimpar no meio daquele pechisbeque. Dantes, long, long ago, passava primeiro por lá para as primeiras oportunidades e para recolher catálogos. Depois, em casa, fazia uma selecção. Depois voltava com uma lista, pavilhão a pavilhão,  e regressava carregada de sacos. Agora já não me dá para fazer nada disso. Mas, enfim, a ver se, antes de acabar, lá dou uma saltada. Parece que, se não for, estarei a trair este meu amr aos livros.

Enfim. Entretanto, o sono está a chegar e ainda quero ir ali espreitar o Versailles na 1, antes que acabe. Portanto, para já é isto e pode ser que, daqui a nada, ainda cá volte. Não é que tenha alguma coisa de escaldante para dizer mas, enfim, parece que estou com vontade de escrever mais.

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Um feliz dia de domingo

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domingo, junho 05, 2016

Feira do Livro de Lisboa, 2016 - breve reportagem fotográfica


Bem, agora que já falei da minha caminhada rente ao rio e que divaguei sobre arte, deuses e gatos, voupartilhar convosco a minha incursão pela Feira do Livro. 

Quando para lá vou, vou debaixo de recomendações e protestos. Que não é para passarmos lá toda a tarde, que, se estiver muito calor, é para abreviar, que, com tanto livro ao longo do ano e tantos e tantos por ler, que não me alargue, etc. E eu tento assimilar as recomendações, parecem-me sensatas.

Vou sem listas, sem nada em mente, apenas esperando descobrir alguma coisa que me interesse. E, quando lá chego, não fico especialmente entusiasmada. Estes são os novos tempos e, desde há muito, os livros foram dessacralizados.

Preferia ter livros, só livros -- e, num local bem definido, então, zonas de lazer, barraquinhas de comes e bebes. Mas não, agora os livros estão em stands, em big expositores, misturados com toda a espécie de diversão, quase perdidos no meio de uma multidão. 

Mas, enfim, livros são livros e a Feira do Livro é a Feira do Livro (La Palice não diria melhor). E, no meio de toda aquela gente, ainda se conseguem descortinar algumas pessoas que notoriamente estão ali mesmo só pelos livros (de qualidade) e constatar isso, parecendo que não, transmite-me algum conforto.




Gosto de fotografar o ambiente dos lugares. Por vezes, parece que preciso de ver as fotografias para confirmar que não retive uma impressão errada. Não andei a fotografar os stands porque isso seria desagradável para quem lá está mas fotografei, um bocado ao acaso, o espaço por onde ia passando. O que aqui vêem é isso: o que eu vi (para além dos livros, em si). Não consigo aqui colocar, para a imagem ser mais vívida, o cheiro a fritos que, por vezes, é incomodativo ou a voz que, em permanência, anuncia onde estão os escritores a darem autógrafos ou outras informações.


Ao contrário do que fiz noutros anos, desta vez não fotografei os escritores. Sempre me fez impressão e, por isso, nunca me dirigi a nenhum para pedir autógrafos ou para lhes dizer umas simpatias.

Acho que há qualquer coisa de desagradável nisto de um escritor se expôr na feira, ali sentado à espera que algum leitor lá vá. Muitos ali estão sozinhos. Faz-me impressão, pronto. Outros, coitados, parecem médicos com os doentes a sentarem-se à sua frente e a dizerem coisecas. Acho que isto os fragiliza. Dá ideia, se nenhum leitor lá for, que ninguém os conhece ou lhes liga. E eu, mesmo que os conheça ou lhes ligue, acho que não tenho nada de jeito para lhes dizer, não quero ser simpática por ser, obrigando o pobre escritor a agradecer-me a simpatia. Não gosto. Se calhar eles gostam ou não se importam. Mas a mim isto sempre me fez impressão.


E depois há outra coisa. Grande parte do aparato que por lá se vê são aqueles best sellers da treta, capas aparatosas, alta promoção, escaparates, prateleiras espampanantes. Passo por esses stands e não páro, são muitos, de seguida, com baracas de queijadas e ginjinha de Óbidos, churros, gelados, esplanadas pelo meio. Às tantas nem sei se estou a passar por alguns com interesse mas o calor, a barafunda, os cheiros e tudo aquilo me maça. E escritores de que nunca ouvi falar.


Passo por mesas onde, conforme anuncia a voz, escritores estão disponíveis para dar autógrafos ou conversarem com os seus leitores, e olho admirada: de onde saíu tanto escritor e tanta escritora?

Abri excepção para fotografar este quarteto aqui em cima apenas para exemplificar esta minha dúvida: terei estado uma temporada em Marte para agora, ao regressar, me dar conta que Lisboa foi invadida por dúzias e dúzias de novos escritores? Quem são estas bem dispostas ladies?

Já no caminho de regresso a casa (a casa dos meus pais, mais concretamente), mais umas fotografias para mostrar a parte de trás da feira.


E, à medida que nos afastávamos, os relvados com gente que, essa sim, curtia a frescura da erva e da sombra. Não estivesse eu já com o tempo contado, que vários compromissos ainda me esperavam, e por ali me teria estabelecido, deitada, à fresca, olhos fechados até que o sono chegasse. É que, palavra, tanta gente, tanto calor e tanto stand, estava mesmo cansada, cheia de sono.


Mais à frente, junto ao lago perto da Estufa Fria, ainda se devia estar melhor, tanta a gente que, por ali, estava pousada.

Há por ali um arbustos floridos que, juntamente com os jacarandás lilases, deixam um perfume maravilhso no ar que se mistura com a sombra, entrando de mãos dadas no nosso olhar, na nossa respiração. Só pode ser saudável. E é muito tranqulizante.


Lisboa tem lugares que são muito bonitos, muito bons para se estar, e este é um deles. Mesmo num dia de multidão e calor, é possível encontrar recantos de sossego, frescor e beleza.

Não deve haver lugar mais privilegiado para fazer uma Feira do Livro do que este. O Parque Eduardo VII é lindo -- pela sua vegetação, pelos seus meandros, pela sua largueza, pela sua vista.

E já dispõe de infraestruturas de apoio, como casas de banho. Achei graça ao que Eduardo Pitta escreveu mas, enfim, acho que, apesar de tudo, há ali algum exagero -- um exagero divertido, de qualquer maneira.


Aquilo de me queixo não tem a ver com o lugar, tem a ver com a mercantilização que tomou conta de forma quase avassaladora do mercado editorial. Mas sei que isso é fruto dos tempos - e nada há a fazer. Quem goste de livros de verdade que os joeire.

E joeirei. Na medida do possível, dadas as circunstâncias acima referidas que me perturbam e me deixam sem paciência para andar a furar a multidão. Portanto, estes que aqui abaixo se vêem são o fruto da monda.

Como se vê, trouxe a Sibila. Já o tive. Mas não sei do meu livro, se calhar emprestei-o e não sei a quem. Deixei de o ver. Trouxe-o de novo, não vá o outro ter-se perdido irremediavelmente de mim.

E trouxe também um do meu primo (duplamente afastado, mas primo). Deveria ter trazido em duplicado para dar também à minha mãe. Mas estou na dúvida se não o terei já mas de uma outra editora ou com outra capa. Tenho que lê-lo para ver se me lembro. Para já, à vista ou arrumado no sítio devido, não o encontro.

(Em cima de uma carpete de Arraiolos que fiz quando não me perdia a escrever o UJM)

E já comecei a ler o princípio do pequeno livro de Raduan Nassar, Um copo de cólera, e estou fascinada com o fulgor e a sensualidade desta escrita. A ver se amanhã transcrevo um pouco para mostrar as que não conhecem. Raduan Nassar é o Prémio Camões 2016. Publicou apenas três livros. Mas começa a ler-se o que escreve e não se consegue parar, tal o encantamento: isto, sim, é um escritor.

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Lá em cima Brad Mehldau interpreta Prelude to a Kiss
(e há lá coisa melhor do que o prelúdio de um beijo?)

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E aceitem, por favor, o meu convite e continuem descendo até à beira do rio.
Pode ser que, por lá, encontrem um ET ou um gato.

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domingo, maio 31, 2015

E a Feira do Livro no Parque, pois claro. Apesar de tudo. Talvez já seja mais um ritual que outra coisa mas, enfim, os rituais são para se cumprir. [1º de 4 posts]


Quando eu era miúda ia à Feira do Livro com os meus pais. Era uma alegria. Já adolescente escolhia eu os livros, gostava de andar pelos alfarrabistas, e já nessa altura tendia para coisas pouco óbvias. Os meus pais surpreendiam-se, tentavam exercer alguma censura, mas era pouca a sua convicção e pouca a minha disponibilidade para lhes dar ouvidos.

A carta de alforria veio com a faculdade. Na altura, tinha um namorado todo dado às letras que me ultrapassava pela esquerda e pela direita nisto dos livros. Onde eu andava pelos autores portugueses e pelos clássicos estrangeiros (por clássicos leia-se, por exemplo, Steinbeck, Moravia, Camus, Dostoiévski, etc) e à descoberta de outros, mas à descoberta completamente ao acaso, já ele sabia de alguns de que eu nem suspeitava -- filósofos, linguistas, poetas estrangeiros. Ficava admirada com o que ele sabia e intrigada por não conseguir imaginar onde, como, quando descobria ele tudo o que sabia. (Este sábado, um dos livros que trouxe foi traduzido por ele, certamente mais uma excelente tradução).

Por isso, nessa altura, ir à Feira do Livro era um exercício que ele cumpria com disciplina e satisfação e um prazer cheio de surpresas para mim.

Depois, quando o namorado já era outro, a Feira do Livro era ainda uma alegria, mas uma alegria mais espontânea, éramos os dois à descoberta. 

Depois, pouco mais tarde, vieram os meninos e aí a coisa começou a fiar mais fino. Todos os anos, mais do que uma aventura, passou a ser uma odisseia. Começavam por querer tudo, escolhiam, queriam porque queriam mas, algum tempo depois, já estavam fartos. Ficava então o pai a vigiá-los para não se tresmalharem, enquanto eu me perdia em cada stand, sempre com eles a chamarem por mim, já desesperados.

Quando os meninos passaram a ter voz activa, passaram a ir por eles e eu recuperei a minha maior liberdade de movimentos. Houve uma altura em que trabalhei não muito longe dali e então, ao fim do dia, era por lá que deambulava, carregada de catálogos e sacos de livros.

Agora ainda lá vou mas tenho que confessar que já não sinto aquele velho apelo. Por um lado, os cartões das livrarias já permitem que se usufrua do desconto de 10% ao longo de todo o ano e, por outro, a feira mercantilizou-se e já não é bem uma feira do livro mas quase uma feira popular.

Admito que o mal seja meu que nisto de livros sou um bocado esquisita, exigente, nem sei. Acho que um livro é um livro é um livro. Custa-me escolher livros no meio da confusão entre cheiro a bifanas ou a filhoses ou a ouvir música para ginástica.

Seja como for, lá estive. E até gostei de me sentar a ouvir jazz, é sempre um prazer ouvir jazz numa tarde agradável entre árvores e livros.




(Aqui abaixo não é jazz porque hoje estou numa de Satie)



Tenho algumas saudades dos stands dos Livros do Brasil onde comprei tantos e tantos livros, ou da Guimarães, ou da Dom Quixote quando era mesmo Dom Quixote. Ou da Estampa. Ou de tantas outras. Eram stands discretos, os vendedores lá dentro e nós circulando à volta. Agora, nos maiores, entra-se, e é como se entrássemos dentro de escaparates, e depois vem pagar-se cá fora. Não tem mal mas chateia-me um bocado andar a ver livros em prateleiras que não são prateleiras, são expositores, e em que os produtos expostos podem ser livros ou brinquedos ou o que for. Prefiro os stands mais pequenos onde há pessoas lá dentro para responder às nossas perguntas.

E, por todo o lado, há esplanadas, lojas a vender comida, queijadas de Sintra, ginja de Óbidos, sandes de leitão, bifanas, cachorros de toda a espécie, pizzas, farturas, churros.




E há zonas onde há instrutoras de ginástica a fazer (não me lembro do nome da) dança e tudo aquilo é uma chinfrineira, faz lembrar a animação de beira de piscina de alguns hotéis no verão, uma coisa meio insuportável.




Mas, seja como for, o que eu sei é que até a mim aqueles cheiros já me estavam a dar fome, só via gente a comer e a comprar comida. Às tantas, já dizíamos um para o outro: onde é que vamos mas é jantar? E até já púnhamos a hipótese de ficar por ali. Mas começou a esfriar e resolvemos concentrar-nos nos livros e irmos jantar a outro lado.




E a verdade é que, apesar daquilo já não ser bem a minha praia, ainda trouxe de lá uns quantos livros (incluindo um para cada um dos pimentinhas que, felizmente, têm sido criados seguindo o mandamento de que um livro é um bem de primeira necessidade).




A maior quantidade que trouxe proveio dos saldos da Relógio d'Água, uns poucos a 5 euros cada, e bons. É por oportunidades destas que ainda talvez valha a pena vir à Feira. Se não estivesse já um bocado fatigada e, sobretudo, a ser pressionada para me despachar, ainda garimparia melhor porque também há lá livros a 3 e a 2 euros mas nesses já não andei à pesca.




Talvez ainda lá volte, talvez para o fim de semana que vem lá vá com a maltinha, pelo menos com parte dela, talvez. 

Mas com estas grandes editoras que engoliram outras, com a transumância de escritores entre editoras, já não sei bem onde é que eles estão, tenho uma certa dificuldade em orientar-me da forma espontânea como dantes o fazia.
Aliás, tinha um costume que era, na primeira vez que lá ia em cada ano, fazer uma recolha geral de catálogos. Depois estudava-os em casa e fazia uma pré-selecção. Depois fazia contas e ia cortando. Quando voltava à feira, já tinha um roteiro, por editora/escritor. Agora acho que, em alguns casos, mesmo que quisesse, nem saberia a quem pedir os catálogos, muito daquilo ficou impessoal, mercantilizado em excesso.

Mas, enfim, é o que é. E, se lhes dá mais lucro, é assim que certamente ficará. São os tempos.

Como habitualmente, não pedi autógrafos e até me deu pena ver alguns escritores meio abandonados, lendo um livro para se entreterem, numa mesita triste entre stands. Ou estão ligados a uma daquelas big editoras ou é aquilo.


Feira do Livro de Lisboa no Parque Eduardo VII

com o Marquês de Pombal a olhar o Tejo e a outra banda


E depois, a sombra cobrindo já parte do espaço, viemo-nos embora -- não sem antes eu me deleitar, uma vez mais, com a beleza do lugar e pensar no quão privilegiados somos por podermos usufruir de uma Feira do Livro a céu aberto, num jardim com o rio em fundo, nesta cidade tão luminosa e afável.

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A música é de Erik Satie - Gnossienne No.5

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E, convidando-vos a percorrerem os outros três posts abaixo caso queiram saber das minhas andanças ao longo do dia, por aqui me despeço.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo. 
Sejam felizes -- também com livros.

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segunda-feira, junho 09, 2014

Tarde de domingo com escritores dentro. Teolinda Gersão, J. Rentes de Carvalho, Mia Couto, Rita Ferro, Lídia Jorge, Ondjaki, Mário Zambujal e outros. A Feira do Livro de Lisboa a bombar. E uma dúvida: autógrafos - como pedi-los?


No post abaixo já conversei com a Leitora JV na sequência de um interessante comentário que ela escreveu. Dei a esse post o título Viver ou amar. Ler ou fazer amor. Esperar ou procurar. 

Claro que o 'ou' que usei não deve ser lido de forma exclusiva - mas isso muitas vezes não se escolhe. Por vezes a vida é mesmo avara. No entanto, nada nos impede de reflectir sobre o assunto pois, da reflexão, pode, quem sabe?, surgir uma atitude diferente perante a vida. 
Não sei se sou a pessoa mais indicada para este tipo de reflexões mas isso não me inibe: dou a minha opinião com espontaneidade e sem receio de que alguém possa desdenhar da sua simplicidade porque gosto de pensar que as minhas palavras podem ser de alguma utilidade ou, pelo menos, que sejam um entretenimento razoável enquanto ouvem a música que escolho e vêem as imagens que coloco. 

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


A palavra a um escritor: Bate-me à porta, em mim




Fui à Feira do Livro.

Durante anos e anos percorri uma e outra e outra vez a Feira do Livro. Primeiro, menina ainda, com os meus pais. Depois com um namorado. Depois com um outro que se tornou marido. Depois com os filhos. Depois de novo apenas com o marido. Hoje com o marido, a filha e já os filhos dela (o meu filho não quis ir, achou que ia ser uma aventura conseguir controlar as quatro crianças. Fez bem pois, mesmo só com dois, já foi o bom e o bonito e, pelo meio, até apanhámos um susto que nos deixou gelados: por uns instantes deixámos de ver o mais pequeno, parecia que o tínhamos perdido; o pavor que senti nem queiram saber; mas afinal estava por perto só que, numa fracção de segundo, mudou de direcção e não estava em nenhum dos lugares onde seria expectável que estivesse; mas foi uma sensação de pânico - que a mim me sugou o interior, nem sei explicar - enquanto não o vimos a brincar, na boa, até perto de nós). 

Bom, mas falava eu da Feira do Livro.

Antes não havia internet, o acesso à informação era mais difícil. Então, eu ia uma primeira vez apenas para percorrer os stands e recolher catálogos; nesse primeiro dia, para além dos catálogos, apenas trazia os livros que fossem livros do dia e nos interessassem. Depois, em casa, fazia listas com os livros que eu e o meu marido queríamos e fazia contas, depois voltava atrás e riscava uns quantos até que a selecção fosse comportável. A seguir, passava a limpo e fazia um roteiro. Quando lá voltava já sabia o que queria comprar em cada stand.

Falei no plural mas quem tem mais a pancada dos livros sou eu pelo que, para ele, tudo aquilo era excessivo.

De facto, o meu marido e os meus filhos acabaram por ficar um bocado traumatizados porque quer a primeira incursão quer a segunda implicavam fazer o percurso completo e, às tantas, já estavam fartos, cheios de calor, cansados. E no segundo dia regressávamos carregados como burros de carga. Por vezes, apetecia-me voltar uma outra vez e era sempre uma luta, não queriam, se iam, iam contrariados.

Ultimamente quase não vou lá. A Fnac, parecendo que não, com os seus descontos para aderentes e com as suas promoções e as feiras de livros que volta e meia se encontram por aí, vieram democratizar a aquisição de livros. E, sobretudo, cada vez mais, para comprar um livro, preciso de o folhear, tomar-lhe o pulso, perceber como flui a escrita. Ora, no meio da balbúrdia que é a Feira, isso não me é possível. Só se lá fosse a um dia de semana à noite mas, durante a semana à noite, apetece-me é estar em casa.

Os locais com muita gente parecem-me incompatíveis com a aquisição de livros, coisas que, cada vez mais, gosto de associar a algum vagar, a algum recolhimento. 

Mas a minha filha queria ir com os miúdos e, claro, não conseguiria arrastar para isso o marido pelo que nos sugeriu uma ida dominical. Depois de tanto a ter sacrificado em miúda, não poderia recusar-lhe isso.

Pelo meio compraram-se bolas de berlim da praia, waffles, e houve gelados e, já ao fim do dia, às sete e tal, uma fatia de pizza, e estivemos na relva a lanchar e depois, com os miúdos no parque infantil, e foi, apesar de tudo, uma bela tarde, uma festa para os rapazinhos que até receberam balões.

E, para descansarmos, abancámos debaixo de um toldo onde se vendia o Mar de Ricardo Henriques com ilustrações de André Letria e onde os miúdos estiveram entretidos a fazer um chapéu de pirata e desenhos e recortes.


Eles estiveram entretidos e nós estivemos à sombra, sentados, sossegados e encantados a vê-los a fazer os seus trabalhos. 

O André Letria tem um jeitão com crianças, conseguiu pô-los a trabalhar com a maior das facilidades.


A minha filha comprou uns quantos livros. Eu não. Ela até estava admirada comigo, habituada que está à minha compulsão. Mas não consegui mesmo. Sempre com medo que algum deles se escapulisse, depois ora não queriam andar de mão dada, ora queriam ir espreitar não sei o quê, e depois gente e mais gente. Impossível.

Por isso, com uma mão a ver se segurava algum deles pela mão ou pela gola e com a outra a ver se dava para tirar alguma fotografia, assim foram as minhas andanças.

Mas o que quero referir aqui é outra coisa. Os escritores. Há (sempre houve) o hábito de haver escritores junto aos stands das respectivas editoras a dar autógrafos. Dantes, quando não havia as grandes megas-editoras, eles estavam em pequenas mesas, por vezes com chapéu de sol, ao lado dos ditos stands. Agora as grandes editoras têm grandes espaços com muitas cadeiras, toldos, palcos, onde se concentram, por vezes, vários escritores.


Vejo-me sempre perante uma dificuldade: geralmente já tenho o livro que lançaram recentemente e outros. Por isso, não me faz muito sentido ir comprar livros repetidos apenas para ter um autógrafo.

Depois, é frequente vê-los a conversarem animadamente uns com os outros. Que jeito dá chegar ali, interromper a conversa? Até parece falta de educação. 

Depois há os que estão desoladamente sozinhos, sem que ninguém ali pare. Dá pena. O Embaixador Seixas da Costa também já falou disto. Vários escritores ali à espera que algum leitor se digne parar, sozinhos durante uma tarde inteira; ou, então, com algum amigo que nitidamente ali está para ajudar a passar por aquela provação. Custa-me tanto ver. Por vezes tenho vontade de me acercar mas temo que pareça que o faço por pena, que se sintam envergonhados. Cobardemente, faço de conta que nem vejo.

O meu marido ontem até perguntava, Porque será que se sujeitam a isto? Se calhar faz parte do contrato que têm com as editoras, admito eu.

Mas depois, para quem supera estas barreiras, há o acto, em si, de pedir o autógrafo. O que dizer?


Mia Couto, um escritor/escultor e um homem muito bonito,
aqui a olhar para a minha filha

Hoje à minha filha aconteceu uma coisa. Ela adora o Mia Couto. Quando o viu, foi a correr comprar o último livro e ali foi para lhe pedir um autógrafo. Ela é uma óptima comunicadora e nunca se inibe quando tem que falar seja com quem for. Pois, para seu próprio espanto, sentiu-se tolhida e apenas pediu que Mia Couto lhe assinasse o livro e, com voz quase sumida, pediu para escrever o nome dela e dos filhos. Mal se afastou, já vinha a morder-se por não ter sido capaz de lhe dizer o quanto gostava da escrita dele. Achou que podia soar a bajulação, não foi capaz.

Comigo aconteceria o mesmo. Uma pessoa chega e, do nada, começa a gabar o autor...? Imagino que ao autor a coisa até soe a postiço, ou a vulgar, ou a despropositado. Não sei. Sei é que eu também não sou capaz.

Por todas estas razões, apesar de lá ter visto autores de que gosto e de quem não me importaria de ter um livro assinado, não fui procurá-los. Limitei-me a fotografá-los. Em vez de ter o seu nome escrito nas páginas dos livros, tenho-os aqui, em pessoa (em pessoa é como quem diz: em imagem). Talvez seja a minha forma de mostrar o meu reconhecimento pelo trabalho que têm e pelo esforço que fazem, estando ali presentes durante longas tardes de calor e exposição pública. Um escritor é para mim um ser especial. Os escritores de verdade, claro.


Teolinda Gersão, alguém que pode muito bem ter sido inventado


José Rentes de Carvalho, feições e escrita esculpidas em pedra


Ondjaki,
um escritor especial, com uma presença amena


Rita Ferro, uma mulher carismática, com uma presença forte
 e Lídia Jorge, uma mulher de feições suaves, cara de boneca de porcelana


O sempre jovem Mário Zambujal em contra-luz e Não-Sei-Quem
(mas que também tinha um belo ar, lá isso tinha) -
só que eu, ora bolas!, queria era ver a Helena Sacadura Cabral ...


Para o ano há mais e talvez eu descubra uma maneira de me organizar e de conseguir comprar livros e obter autógrafos. 

Mas, independentemente disso, é um prazer estar num lugar que é muito belo e onde se podem adquirir livros e ver escritores e, não menos importante, estar num lugar que atrai tanta e tanta gente, tão heterogénea mas tão unida pelo gosto da leitura.


Na Feira do Livro de Lisboa 2014 - parte central do Parque Eduardo VII
(e a Estátua do Marquês de Pombal, a seguir a Avenida da Liberdade com o arvoredo central, depois o Tejo, e ao fundo, a Margem Sul)


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O vídeo lá em cima, da autoria de Cine Povero, é Herberto Helder :: Bate-me à porta, em mim / Dito por Luís Lucas

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Relembro: sobre a vida, sobre ansiedades e dúvidas, sobre amor e sobre os dilemas de como o encontrar ou aproveitar, fala-se a duas vozes no post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana já a começar por esta segunda-feira.

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