Aqui no campo, podemos ver todos os canais através da internet, mas, por preguiça, por vezes deixamo-nos estar nos básicos. Eu estava com o computador a ver a conversa que mais abaixo partilho e, na televisão, numa daquelas viagens rápidas em zapping, o meu parido parou no 5 para a Meia Noite no momento em que duas jovens convidadas conversavam com uma outra que nos pareceu residente. As duas, que nunca tínhamos visto nem ouvido falar, foram apresentadas como tendo um Podcast muito famoso. Até já foram ao programa (ou ao podcast?) da Júlia Pinheiro, disseram como sendo a inegável coroa de glória... e, por toda a conversa, parecia que meio mundo corre para não perder o que elas dizem. Isto tudo no meio de risos, conversas sobrepostas, tontices. O meu marido virou-se para mim: 'Já tinhas ouvido falar nelas?'. Nunca. Ele pediu: 'Procura lá aí, para ver se se percebe'. Fui ao youtube e procurei. Abri um vídeo e, ao fim de um minuto, o meu marido sentenciou: 'Pronto. Já chega.' e acrescentou: 'Porra.'
Se eu quiser reproduzir o que elas disseram naquele minuto não sou capaz. Não estou com défice de memória pelo que admito que não consigo porque elas, simplesmente, não disseram nada. Só me ficou que, em cada três palavras, aparece a palavra 'tipo' pelo menos quatro vezes. Pelo meio, 'ya'. Tipo, ya, tipo, ya, tás a ver, tipo.
Riem, interrompem-se, comem -- e não dizem nada.
Para ter a certeza de que não estou a ser injusta, voltei agora a ver mais um pouco e nem um minuto voltei a aguentar. Palavrão da pesada, mas ponham da pesada nisso. Uma vulgaridade, asneiras a granel misturadas com tipo e com ya e com tás a ver. E não passa disso, uma cansativa indigência. A todos os títulos, uma miséria.
E, uma vez mais, parece que há muita gente a consumir uma porcaria sem ponta por onde se pegue. Sinceramente, não sei que retrocesso civilizacional é este.
Elas são a Bruna Magalhães e a Mia Fernandes e o podcast chama-se Más Influências -- uma coisa que, se vivêssemos tempos normais, ao fim do primeiro episódio, por falta de audiência, deixaria de ver a luz do dia. Agora não. Nestes tempos em que reina a estupidez, estas duas criaturas têm audiência e são convidadas para programas de televisão como se fossem pessoas com alguma coisa para dizer. E não têm.
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Felizmente, há o reverso. Foi de gosto que vi e ouvi a conversa entre o Luís Osório e a Violante Saramago Matos, a filha de José Saramago. Ele faz uma pergunta e deixa-a falar, dá-lhe espaço e tempo, ela escuta-o, pensa -- e nós podemos respirar, escutá-los, olhá-los. Há todo um tempo, uma história, um vocabulário, memórias intelectuais e emocionais, um saber pensar, um saber falar.
Claro que, ao olhá-la, me ocorre o lugar comum de que 'o tempo passa a correr'. Aqui está a filha de Saramago já com 78 anos, já com mais 2 anos do que o pai tinha quando recebeu o Nobel... Ainda o tenho presente, as suas palavras, e aqui está a sua filha já a pensar que o fim se aproxima. Inclemente, o tempo.
Falam no Ensaio sobre a Cegueira, livro que ela tem na cabeceira. Para mim também um livro fundamental, daqueles momentos em que se cava um buraco sob os nossos pés para que a literatura desenhe uma nova fundação.
Não é daquelas conversas que se ouça em dois ou três minutos -- não, é para se ouvir com tempo. Falam de muita coisa, incluindo da demagogia do Durão Barroso, para mim uma alforreca com que nunca pude, e da sua mulher, muito melhor que ele e que por ele se apagou, a Margarida Uva por quem sempre tive muita simpatia.
José Saramago só tem uma filha e dois netos. A filha chama-se Violante e é uma mulher extraordinária e discreta. À conversa com Luís Osório. Saramago como nunca o ouviu.
Futilidade: sondagens sobre as Presidenciais quando ainda não se conhecem todos os candidatos e quando os portugueses ainda estão muito longe de se ralarem com tal coisa.
Cábulas de primeira: deputados do Chega que, de cada vez que abrem a boca, revelam que não sabem do que falam
Cábula de segunda: Luís Montenegro que vai para a Assembleia da República armado em bom, em erudito, a citar Sophia de Mello Breyner, quando, afinal, a frase referida era da autoria de José Saramago. Ou o tipo que lhe escreveu o texto quis divertir-se à sua custa, colocando-lhe uma casca de banana debaixo dos pés, ou foi outro cábula que nem se lembrou de confirmar o que escreveu. Seja como for, ele próprio, o Luís, deveria ter tido a lucidez de confirmar o que ia dizer para evitar fazer um papelinho mais do que triste
Cábulas de terceira: alguns dos comentadores deste blog que aparecem aqui não para referirem factos concretos ou para rebaterem, factualmente, o que aqui se diz, se limitam a 'mandar' bocas ou, mais calinamente ainda, vêm revelar que têm uma bizarra fixação em Sócrates.
Incompetente em expoente máximo: Ana Paula Martins. Não há dia em que as notícias não nos deixem estupefactos com as cavalices que se passam sob a égide de Madame Aparelhista
Ridícula: a defesa atotozada dos Anjos que não se calam com a cena do acne. Agora entregaram fotografias que atestam a borbulhagem
Embuste: quando eu trabalhava, sempre que havia actualização das tabelas de retenção de IRS, o que o Departamento de Recursos Humanos fazia era 'carregar' essas tabelas na aplicação informática de processamento de salários e escrever a data a partir da qual a nova tabela vigorava. Se a tabela fosse carregada em Agosto mas com incidência a Janeiro, automaticamente a partir de Agosto apareceria já a nova taxa de IRS e, nessa altura, o sistema calculava retroactivamente o IRS que deveria ser retido, devolvendo o que tinha sido retido a mais. Não havia ciência oculta. O valor retroactivo resultava de uma conta simples: o valor a mais em cada mês vezes o número de meses. Acontece que nada disto acontece com o Ministério das Finanças agora faz: o valor devolvido em Agosto e Setembro é muito superior ao valor resultante daquele referido cálculo. Verifica-se que a partir de Outubro (ordenados a pagar no fim de Outubro, ie, depois das eleições) a diferença no imposto retido é cagagesimal, alcagoitas. Mas o que vão devolver em Agosto e Setembro (antes da data das eleições) são valores simpáticos. Se isto não é manipular as pessoas ou comprar votos, que venham todas as virgens rasgar as vestes e me expliquem qual a lógica matemática desta jogada.
Escapista: Marcelo Rebelo de Sousa, o palrador-mor, o omnipresente e ubíquo Presidente que, depois de ter feito a vida negra a António Costa, com bocas encapsuladas e bocas directas ou indirectas, usando-se a si próprio ou usando a so-called fonte de Belém, e de ter feito o possível e o impossível para correr com o PS e para pôr o PSD no governo, agora, haja o que houver, remete-se ao silêncio. Não é apenas que se tenha tornado discreto, é mais que isso, praticamente desapareceu, emudeceu, empalideceu, quase se tornou um fantasma.
Já o contei algumas vezes. Não era especial fã do Saramago. Tinha lido o Memorial do Convento, gostei, voltei atrás e fui ler o Levantado do Chão. Também tinha a Viagem a Portugal que gostava de consultar. Nos seguintes vacilei, ou pelos livros em si ou porque não era a altura certa para os ler. Desaderi.
Até que, um dia, um amigo, alguém em quem sempre confiei no que se refere a livros, me disse que eu deveria ler o Ensaio sobre a Cegueira. Falei-lhe das minhas reticências. Ele assegurou que eu ia gostar. Acreditei. Fui ler. Às primeiras páginas ainda estava de pé atrás mas, se ele tinha insistido, eu devia afoitar-me até descobrir porquê. E depois não conseguia parar. Livro extraordinário. Lia até de madrugada. No dia seguinte ele perguntava onde é que eu ia. E eu, impressionada, contava. Ele dizia: 'Vai piorar'. E piorava.
Livro mais agarrador, mais arrasador. Aqueles que cegavam podíamos ser nós. E eu alimentava a esperança de ser a mulher do médico, não uma cega. Depois disso, em muitas situações vi retratados os que se deixaram cegar e que viraram animais sem tino, cães esfomeados, sarnentos, sem dono.
Posso dizer que foi dos livros mais extraordinários que até hoje já li.
Depois deixei, outra vez, de ser capaz de ler livros dele. Mas aquele ficou-me marcado.
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E hoje, ao ver o vídeo abaixo, voltei a pensar no livro. Não que haja muitas parecenças no enredo mas porque, na realidade, o pior cego é o que não quer ver.
Todos nos deixámos enganar. Eu deixei-me enganar. Os Serviços Secretos de todo o mundo deixaram-se enganar. Apenas uma minoria conseguiu ter a presciência de ver o criminoso em potência que estava ali. E, no entanto, os crimes já se conheciam (prisões, envenenamentos, mortes inexplicáveis). Mas não queríamos ver. A ideia de haver ali alguém que se dava ares de civilizado, apesar de excêntrico, era-nos confortável. Por isso, íamos dando desconto. Perante todas as evidências, mantivemo-nos cegos.
Vinte Anos de Putin a brincar ao ocidente -- em 3 minutos | NYT Opinion
Vladimir Putin, especialmente nos dias de hoje, é amplamente insultado. Para alguns ele é um criminoso de guerra, para outros ele é um ditador e para muitos ele é simplesmente um homem muito mau.
Mas nem sempre foi assim.
Vasculhámos imagens de vídeo de 20 anos de cúpulas internacionais, discursos e coletivas de imprensa e descobrimos um homem que uma vez foi muito respeitado: aquele que foi pescar e dançar com George W. Bush, que caiu em abraços calorosos com Tony Blair e cujo piadas fizeram os líderes da Nato rebolar de rir.
Como o vídeo revela, os líderes ocidentais já consideraram Vladimir Putin não apenas um aliado, mas também, aparentemente, um amigo.
Mesmo que estivessem simplesmente dando-lhe o benefício da dúvida para fins políticos, estavam fazendo uma aposta ingénua de proporções históricas: seja simpático com Putin, e talvez ele seja simpáticode volta.
É verdade que esse tipo de diplomacia pessoal obteve algumas vitórias significativas de segurança. Tratados de controle de armas foram assinados e Putin permitiu que jatos dos EUA atacassem os talibãs a partir de bases nos estados satélites da Rússia.
Mas quando os tanques russos chegaram à Geórgia em agosto de 2008, Bush descobriu que a sua amizade de oito anos com o líder russo lhe rendeu zero influência sobre as ambições territoriais de Putin.
Embora seja discutível se os governos ocidentais poderiam ter previsto o horizonte sangrento da visão de Putin, agora vamos esclarecer uma coisa: a diplomacia pessoal não funciona quando você mais precisa.
[tradução do google e tentativamente ajeitada por mim a partir do NYT]
Isto no dia em o psicopata assassino assistiu a treinos de simulação de um ataque nuclear. A besta a brincar com o fogo.
Vladimir Putin watched military training drills which intended to simulate a “massive nuclear strike response to an enemy attack,” according to a Kremlin statement
Há pouco contei-vos da inteligência que se percebe no olhar dos animais e mostrei-vos o porte majestoso das aves de rapina de Mafra. Vi-as, altivas, nos claustros do Convento que, este sábado, estive a visitar.
Agora estou em casa do meu filho a tomar conta dos meus fofinhos lindos que já estão a dormir já que os pais foram jantar com amigos.
Antes estive em casa dos meus pais, o meu pai sempre impaciente, com pressa, pressa de jantar, pressa de se despachar, pressa de ir dormir, pressa que eu me vá embora, pressa de tudo, não se percebe porquê mas, enfim, sempre foi apressado e agora, apesar de não ter motivo para ter pressa, continua na mesma. Uma vez, não sei se aqui já o contei, disse à senhora que o lava, levanta e dá de comer: 'Vá despache-se, depressa, vá que eu hoje vou morrer'. Ela desatou a rir 'Oh senhor, então e está com pressa para ir morrer...? Duma destas é que nunca tinha ouvido falar...'. De vez em quando tem destas maluquices. Mas depois, outras vezes, aliás, a maior parte das vezes, tem boa memória e bom raciocínio. Hoje a senhora estava a conversar com a minha mãe e a dizer que a máquina de lavar roupa tinha dado o berro, que, mal a ligava, desatava a fazer barulho e não trabalhava. Pensavam que ele não estava a prestar atenção. Pois saíu-se com esta 'Isso deve ser a correia, ou soltou-se ou partiu-se'. É aleatório, tanto pode dizer coisas normais e estar bem como, sem motivo aparente, estar impaciente, enervado e a dizer palermices.
A minha mãe estava com dores nas costas mas sempre com os seus projectos, a ensaiar alternativas para fazer um poncho de crochet em linha crua para a neta, às voltas com o seu smartphone (ainda não lhe falei nisto aqui...) e sempre com ideias. Se lá apareço com o cabelo apanhado, não gosta, prefere ver-me com o cabelo solto. Ora eu, ao fim de semana, não me apetece ter nada a moer-me a paciência, nem sequer o cabelo a ir-me para a cara, especialmente se estiver vento. Mas hoje fiz-lhe a vontade, soltei o cabelo. Diz que rejuvenesço dez anos. No fundo, acho que ela se esquece da idade que tenho, gosta de me ver de uma maneira que a faz esquecer-se disso.
Antes de lá ir visitá-los e levar algumas compras mais pesadas, tínhamos estado a passear entre a Ericeira, a zona mais campestre de Sintra e Mafra. Ontem tinha-me lembrado de ir visitar a biblioteca do Convento de Mafra e aproveitámos para andar a passear pela região.
E ainda andei à procura dos antiquários que tinha ideia de serem em Odrinhas e que, afinal, parece que são em Sta Susana mas o meu marido, sabendo o programa de festas que tínhamos pela frente, não quis andar a perder tempo à procura -- fica para uma próxima.
A Foz do Lisandro
[Entretanto, já estou em minha casa, já estive a cear (quatro morangos com kefir) e, como é costume, já estou cheia de sono. Por isso, terei que abreviar. Ou seja, vou poupar-vos.]
A primeira vez que visitei o Palácio Nacional de Mafra era pequena. Foi uma tortura, salas e salões, enormes, quase vazios, tectos lá muito em cima, uma coisa interminável. Os meus pais queriam ver a biblioteca e a biblioteca ficava lá no fim de tudo. Ao fim de tantos anos, essa primeira imagem ainda está nítida dentro de mim.
É este e é o de Vila Viçosa. Aliás, na minha cabeça, é frequente misturá-los.
Por isso, hoje tentei ver se já era possível fazer um atalho, ou seja, comprar bilhete só para a biblioteca; mas a senhora disse-me o óbvio: a biblioteca é no fim, para lá chegar tem que se passar por todo o convento. Ou seja, mantinha-se o que, para mim, seria um suplício.
Contudo a nossa percepção das coisas vai-se alterando e desta vez o Convento, sendo mesmo muito grande, já me pareceu de uma escala mais comportável do que aquela que, até aqui, persistia em manter-se gravada na minha memória.
No entanto, tenho que confessar que há aqui, para mim, uma dimensão excessiva, uma certa aridez decorativa (se é que assim me posso expressar), parece que há uma desmesura naquelas dimensões que faz com que se torne um pouco inóspito. Falta-lhe aquela imagem de conforto dos espaços verdadeiramente habitados. Nunca o terá sido a ponto de haver cunho pessoal de forma vivida.
Gostei de ver, e já não me lembrava, a parte das enfermarias e a parte das celas. O edifício é extenso e uma pessoa retém aquilo a que, na altura é mais sensível. Não tinha ideia nenhuma de já ter visto estas partes.
O dinheiro do Brasil era muito e e a obra quis-se imponente, que ninguém se poupasse a esforços. Tivesse eu a cabeça mais fresca e escolheria para aqui uns excertos do Memorial do Convento que o ilustram mas já não dá, estou a precisar de acabar isto e ir dormir.
Por isso, mostro apenas algumas fotografias. Claro que escolhi algumas das partes de que mais gostei. Há tectos fantásticos, há salas bonitas, há corredores lindíssimos no belo lioz rosa e cinza, há quadros de grandes dimensões, há impressionantes candelabros, espelhos, e cortinados que tornam alguns espaços deveras acolhedores, em especial as zonas mais íntimas.
Sala de Música
Candeeiro da Sala de Caça
E a igreja imponente, bela, de uma dimensão impressionante.
Devia ir haver um casamento porque vi estarem a chegar umas pessoas ultra aperaltadas e, não fora o não me poder dar a esses desfrutes dado ter os afazeres inadiáveis de que acima já falei, e teria lá ficado a fazer a reportagem.
Finalmente, então, a Biblioteca. Decepção: só podemos chegar um pouco para além da entrada. Eu queria circular, cirandar, espreitar as lombadas dos livros. Nada. Perguntei à senhora que lá estava a que se devia isso. Respondeu-me que têm falta de pessoal, que não podem deixar circular. Paciência.
As fotografias foram feitas, pois, a partir do exíguo espaço onde me pude movimentar. Mas a Biblioteca é linda, ampla, luminosa, aquelas cores suaves que resultam da pedra, dos livros, do pavimento, das entradas de luz.
É pena que não haja visitas guiadas ao longo dos corredores, varandins e estantes e que não haja leituras de excertos do Memorial do Convento ou música de câmara na sala de música. Mas, enfim, se há área em que está tudo, ou quase tudo, por fazer é na área da Cultura. Tomara que o País acorde para essa imperiosa necessidade.
Seja como for, obviamente gostei muito de revisitar este espaço.
Depois, deu-me a fome e fomos até a uma pastelaria logo ali em frente -- e, sem pestanejar, atirei-me a um fradinho. Retirei-lhe a envoltura e quando o tive despidinho nas minhas mãos, chamei-lhe um figo. Doces mas não muito, húmidos e bem apaladados, os fradinhos comem-se que é uma maravilha. Claro que, com o meu bom apetite e gulosa como sou, estava capaz de despachar meia dúzia de seguida. Mas, enfim, algum comedimento é necessário e, portanto, fiquei-me só por um. O meu marido, que gosta de me ver feliz, ainda sugeriu que os trouxesse eu para casa. Mas não, resisti. Tentações, sim, mas das que não causam grandes estragos. É que com seis fradinhos não sei não, capaz de passar para o tamanho XXL.
No fim ainda olhei para o alto, esperançada que os sinos tocassem. Mas não. Silenciosos. Pena.
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Lá em cima, cantando, segundo leio no youtube é Myriam Madzalik num Concerto de música de Mozart na Basílica do Convento de Mafra.
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Mas este post não ficaria completo sem qualquer coisa sobre o Memorial do Convento. Aqui está.
José Saramago - Memorial do Convento
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E queiram, por favor, descer até às aves de rapina (e a uma recordação minha, sempre tão sentida, da minha cadela mais querida).
A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.
Má para toda a gente, a situação, para os cegos, era catastrófica, uma vez que, segundo a expressão corrente, não podiam ver aonde iam nem onde punham os pés. Dava lástima vê-los a esbarrar nos carros abandonados, um após outro, esfolando as canelas, alguns caíam e choravam, Está aí alguém que me ajude a levantar, mas também os havia, brutos de desespero ou por natureza, que praguejavam e repeliam a mão benemérita que acudira a auxiliá-los, Deixe lá que a sua vez também lhe há-de chegar, então a compassiva pessoa assustava-se, fugia, perdia-se na espessura do nevoeiro branco, subitamente consciente do risco em que a sua bondade a tinha feito incorrer, quem sabe se para ir cegar uns metros adiante.
Diz-se a um cego, Estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, Vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicómio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar. Postados diante do edifício que já arde de uma ponta à outra, os cegos sentem na cara as ondas vivas do calor do incêndio, recebem-nas como algo de certo modo os resguarda, tal como as paredes tinham sido antes, ao mesmo tempo, prisão e segurança.
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O texto é composto por três excertos não sequenciais de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago
As três primeiras imagens pertencem à Parábola dos Cegos ou Cegos conduzindo os cegos, obra datada de 1568 de Pieter Bruegel the Elder
A última imagem é da autoria de Roberta Coni
Dame Kiri Te Kanawa interpreta "Vocalise" de Rachmaninoff
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Sobre a minha excentricidade, queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde o meu irmão gémeo Raul mostra que é tal e qualzinho eu.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.
E desejo outra coisa: que não se encontrem entre os cegos que não sabem para onde ir, que quase preferem ficar aprisionados - e desejo isso para que, no próximo dia 4, consigam escolher o vosso próprio caminho, um caminho alternativo.
Depois de, no post abaixo, ter falado do meu domingo, tão perfeito, tão feliz, agora falo do assunto que está na ordem do dia: a Grécia. Um assunto, pelo contrário, bem triste.
Os algozes impondo o sacrifício dos pobres
Euclid Tsakalotos, Greece's new finance minister with Christine Lagarde, managing director of the International Monetary Fund, at the eurozone finance ministers meeting in Brussels on Sunday.
Assisto, aterrada, ao que se está a passar. Parece que uma perigosa demência colectiva está a alastrar entre a cambada de anormais que se aboletou nos postos de comando desta pobre e fraca Europa.
Although Greece makes up a small part of the overall European economy, the fate of the country is important.
A Greek default would cost European countries much more than extending emergency aid. And a deal is critical for Greece, which needs money to pay its significant debts and other bills. Without fresh aid, the country’s economy, which is already languishing, risks sinking even further. (...)
Suppose you consider Tsipras an incompetent twerp. Suppose you dearly want to see Syriza out of power. Suppose, even, that you welcome the prospect of pushing those annoying Greeks out of the euro.
Even if all of that is true, this Eurogroup list of demands is madness. The trending hashtag ThisIsACoup is exactly right. This goes beyond harsh into pure vindictiveness, complete destruction of national sovereignty, and no hope of relief. It is, presumably, meant to be an offer Greece can’t accept; but even so, it’s a grotesque betrayal of everything the European project was supposed to stand for.
Can anything pull Europe back from the brink? Word is that Mario Draghi is trying to reintroduce some sanity, that Hollande is finally showing a bit of the pushback against German morality-play economics that he so signally failed to supply in the past. But much of the damage has already been done. Who will ever trust Germany’s good intentions after this?
In a way, the economics have almost become secondary. But still, let’s be clear: what we’ve learned these past couple of weeks is that being a member of the eurozone means that the creditors can destroy your economy if you step out of line. This has no bearing at all on the underlying economics of austerity. It’s as true as ever that imposing harsh austerity without debt relief is a doomed policy no matter how willing the country is to accept suffering. And this in turn means that even a complete Greek capitulation would be a dead end.
Can Greece pull off a successful exit? Will Germany try to block a recovery? (Sorry, but that’s the kind of thing we must now ask.)
The European project — a project I have always praised and supported — has just been dealt a terrible, perhaps fatal blow. And whatever you think of Syriza, or Greece, it wasn’t the Greeks who did it.
do lado de cá, a Europa (onde, não nos esqueçamos, estamos integrados) continua entregue a totós que gostam de brincar com o fogo,
Eurogrupo quer transferir activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel
A transferência de “activos no valor de 50 mil milhões de euros” detidos pelos contribuintes gregos para um “Instituto do Luxemburgo para o Crescimento” é uma das condições que o Eurogrupo procura impor à Grécia para iniciar negociações de um terceiro resgate. Este instituto é no entanto gerido pelo KfW, um banco estatal alemão, cujo "chairman" é Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, e cujo vice-chairman é Sigmar Gabriel, ministro da Economia alemão.
(...) A polémica no entanto não fica por aqui. É que além de se tratar de um banco estatal, e além de ter a sua administração dominada pela classe política no poder na Alemanha, também o poder executivo desta instituição vem com um pedigree pouco recomendável: O CEO do KfW é Ulrich Schröder, que fez carreira no WestLB, banco que desde 2008 teve direito a um total de quatro resgates com dinheiros públicos.
A opinião pública mostra sinais de susto, as recordações de um passado medonho parecem aproximar-se. As imposições alemãs são absurdas, prepotentes, perigosas. Começo a recear o que possa estar para acontecer.
La directora del Fondo Monetario Internacional, Christine Lagarde, conversa con el prersidente del Eurogroupo, Jeroen Dijsselbloem.
Quieren que Atenas apruebe leyes de urgencia, en 48 horas. Reclaman endurecer las reformas y recortes que planeaba hacer Grecia en su petición de rescate (entre ellas, en pensiones y mercado laboral). Y plantean incluso la puesta en marcha de un fondo de venta de activos públicos por 50.000 millones, y bajo tutela de la UE, para forzar a Grecia a ir devolviendo la deuda a medida que vaya haciendo caja. La impulsora de esa idea y de la amenaza del Grexit, la canciller Angela Merkel, dijo a su entrada a la cumbre que en ningún caso habría “un acuerdo a cualquier precio”.
Los deberes que la UE pone a Tsipras
Fondo de privatizaciones.Es la principal novedad de las medidas discutidas ayer. Europa propone crear un fondo por valor de 50.000 millones de euros al que Grecia transfiera sus activos privatizables y cuyos beneficios sirvan para reducir la deuda. Aunque ese instrumento quedará en manos de las autoridades griegas, contará “con la supervisión de las instituciones europeas relevantes”, algo que puede resultar difícil de asumir para Atenas.
Cambios en las pensiones. La UE pide “reformas de pensiones ambiciosas” y medidas para lograr déficit cero en las cuentas públicas.
Mercado laboral.Las demandas europeas incluyen un endurecimiento adicional en las leyes laborales. Los socios abogan por “revisiones rigurosas” de la negociación colectiva, la política industrial y los despidos colectivos. Y sugieren “no volver a políticas del pasado”.
Sector financiero. Es el talón de Aquiles griego. Europa pide “medidas decisivas” en los créditos con riesgo de impago.
Privatizaciones. Los socios quieren más privatizaciones, incluida la red eléctrica, que Atenas pretende mantener en poder del Estado.
....
Um atentado. Uma vergonha. Uma coisa inadmissível.
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Mas ouçamos quem fala com palavras que vêem ao longe. Ouçamos José Saramago:
"A democracia em que vivemos é uma democracia sequestrada, condicionada, amputada..."
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A mim, conforme referi no post abaixo, o que a intuição me diz é que a solução digna para a Grécia seria pedir apoio e tempo para sair do euro pelo seu próprio pé.
O atentado à soberania grega deveria merecer um repúdio firme por parte de toda a Europa mas, sabendo que a Europa está em grande parte na mão de uma cambada de pegas, de beatas, de virgens, de vendidos, de sacristãos lambe-cus, de totós, de atrasados mentais, temo bem que nenhum mexa uma palha para se revoltar contra o que está a acontecer. E, face a isso, mais valia que os gregos dessem com os pés nesta tropa fandanga e recuperassem a sua dignidade.
Os gregos e nós e todos os que se têm visto vergados aos pés desta cambada que impõe sacrifícios absurdos à população apenas para benefício de interesses financeiros agiotas, transnacionais, poderosos de tão omnipresentes e invisíveis que são.
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Lá em cima, o vídeo mostra Zorba, o Grego. Ballet por Mikis Theodorakis -
- Sofia National Opera and Ballet
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Relembro que, se vos apetecer espairecer e ver como estão grandes os meus meninininhos mais fofos, mais lindos, e saber como passei o meu domingo, podem descer até ao post seguinte.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta semana.
O meu melhor amigo é o meu oposto. Acabei de escrever isto e já estou a achar que não é nada o meu oposto.
Politicamente somos até muito parecidos. Bem, talvez ele seja mais radical que eu. Tem um ódio de estimação ao Cavaco e eu, nisso, não sou tão violenta como ele: não gosto, não gosto mesmo, acho que foi com ele que o País começou a desandar, mas não me passo só de pronunciar o nome do homem. Ele não me desculpa. Acha que é uma condescendência imperdoável da minha parte. Por isso, quando fala nele, diz: 'o seu amigo'. Nem lhe pergunto a quem é que ele se refere, já sei que é ao Cavaco.
Também é católico convicto embora não concorde com coisa nenhuma daquelas que, até Francisco, eram bandeira da Igreja. Tive grandes conversas com ele sobre essa sua fé. Sendo ele uma das pessoas mais inteligentes que conheço, gostava de perceber qual o raciocínio que o leva a achar que faz sentido acreditar numa abstração como se fosse um ser de verdade. Ele, que até trabalhou naquilo da Energia Nuclear, todo ciência e razão, seria a pessoa certa para me explicar. Mas não, nunca explicou, diz que estas coisas não são para explicar.
É todo cheio de contradições e, de facto, há coisas que não dá para explicar. É um benfiquista ferrenho, ele. Até faz impressão. Toda a sua família é sportinguista mas ele é estupidamente benfiquista. E, sendo uma pessoa racional e inteligente, tem manias inexplicáveis, daquelas superstições que a gente geralmente associa a pessoas completamente burras. Nunca assisti mas ele conta que, quando está em casa a ver um jogo do Benfica, não deixa que ninguém passe entre ele e a televisão. Diz que, se alguém passa, o Benfica sofre um golo. Eu fico perplexa com uma parvoíce destas: Que estupidez. Mas acredita mesmo nisso? Ele responde com inabalável convicção: Com certeza!
Foi ele que me fez ler o Ensaio sobre a Cegueira. Eu dizia que andava sem paciência para os livros do Saramago e ele disse que este eu tinha mesmo que ler. Todos os livros que me recomendou foram, até hoje, do meu agrado. Relutante lá fui ler e fiquei logo agarrada. Ele ia perguntando em que parte é que eu ia. Eu, aflita com a abjecção do género humano, contava-lhe o que andavam os cegos a aprontar e ele dizia-me: Ainda vai piorar. E eu mal podia esperar pela noite para ir saber até que ponto poderemos descer. Ficava a ler até às três da manhã. Foi um dos livros que mais impressão me fez até hoje. Não consegui voltar a ler. Mas está ainda muito fresco dentro de mim.
Este meu amigo é um pândego, tem um sentido de humor delicioso. Quando bebe um pouco para além da conta vai ficando cada vez mais divertido (até que, às vezes, se torna um bocado repetitivo mas, enfim, até nisso consegue ter graça).
Não tendo nada ar de galã, a verdade é que teve até agora uma vida amorosa assaz activa, sendo, de todos os que até hoje já conheci, o bígamo mais descontraído.
Pertence a uma das famílias mais antigas da Linha, uma família conhecidíssima, brasonada e da mais fina flor, gente conservadora e tradicionalista. No entanto, isso nunca o impediu de levar a vida mais plebeia e pecadora que se pode imaginar. Mas a sua superior inteligência e o seu delicioso sentido de humor levam a que seja aceite com carinho e tolerância por toda a gente.
Vem isto a propósito de quê?
Pois bem: é que este meu amigo, que profissionalmente tem uma vida activa e exigente, é, também, um preguiçoso como nunca vi. Diz ele que só trabalha quando é obrigado a isso. Tenho tido oportunidade de o confirmar.
Conta-me que, ao fim de semana, adora ficar em casa sem fazer nada.
Eu pergunto: Mas quê? A ler?
Ele corrige: Mas qual a ler? Nada.
Insisto: Mas nem o jornal?.
Ele responde: Não, nada.
Eu não percebo: Nada? Nada como? A ver televisão?
Ele pacientemente esclarece: Não. Nada.
Não sei o que é isso. Tento perceber: Mas nada como? A pensar?
E ele: Mau. Mas não ouve o que eu estou a dizer? Nada.
Fico admirada: Mas quê? Sentado no sofá? A olhar para a parede?
Ele já impaciente: Sei lá para onde é que estou a olhar.
Não consigo imaginar o que isso seja, estar sem pensar, cabeça parada, sem processar um único pensamento que seja, a cabeça totalmente vazia. Não sei o que isso é.
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Uma das técnicas de relaxamento de que mais se fala e que acho que é bem saudável, uma coisa de tipo reset, é a meditação. Penso que meditar deve ser isto: não pensar em nada. Mas não sei como é que isso se consegue. Eu, pelo menos, nunca tenho a cabeça assim, esvaziada. Mesmo que esteja o mais zen possível, estou sempre a pensar em qualquer coisa.
E tudo isto vem a propósito de quê?, perguntarão vocês.
Ora bem, vem a propósito de eu ter dito que os homens são, de forma geral, mais serenos que as mulheres e que gosto de estar junto dos pescadores - calados, tranquilos, horas à espera que a ponta da cana se agite - e logo um Leitor atento e simpático (a quem, uma vez mais, agradeço) me ter enviado o filme que agora partilho convosco. Convido-vos a ver: penso que a teoria ali explanada tem fortes probabilidades de ser totalmente correcta.
A fábula dos dois cérebros ou a diferença entre o cérebro dos homens e das mulheres segundo Mark Gungor.
Riam-se, riam-se...
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Hoje retomei o meu Ginjal nos moldes usuais. Não sei se vou conseguir a disciplina de por lá ir todos os dias mas vou tentar.
Hoje, enquanto estava a escolher o poema e depois a fotografia, e depois a escrever, estava a dar na televisão o 5 para a Meia-Noite com o Nuno Markl que lá tinha o António Zambujo, o João Quadros e o Gel.
Quando me cheira a maluquice fico logo com a pulga atrás da orelha, não quero perder pitada. Se for outra coisa qualquer, vou escrevendo e ouvindo sem que as duas realidades se misturem (lá está: sendo mulher posso ter várias gavetas abertas ao mesmo tempo e não me atrapalho). Mas, com cenas de humor, alto e pára o baile: as minhas antenas viram-se todas para a risota. Por isso, não consegui ter concentração devida. Ou melhor: demorei séculos a fazer uma coisa que costumo fazer num instante e isso atrasou-me, depois, a vinda para aqui, para o UJM. Enfim, ossos do ofício. Mas fico a pensar que estar, diariamente, a alimentar dois blogues é um bocado pesado.
Mas vocês vão até lá ver o que acham do resultado. A música é Keith Jarrett a interpretar Bach, o poema é de Pedro Tamen e eu solto as minhas palavras na pele de um homem que, às escondidas, olha uma mulher.
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Se agora descerem um pouco mais, poderão ver um vídeo ternurento com animais na mais inesperada e sã convivência (mais um filme enviado pelo Leitor que é um manancial de dicas para todo o gosto), remetendo eu para um local onde poderão ver o oposto e, se assim o entenderem, tentarem fazer qualquer coisa para o impedir.
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E, por hoje, por aqui me fico.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta feira mesmo muito boa.
Hoje cheguei a casa às dez da noite. Agora que comecei a escrever estas palavras são onze e tal; e amanhã tenho que sair de casa às seis e tal para ir para o norte, para uma reunião de onde regressarei à tarde.
Ou seja, não posso mesmo deitar-me às duas porque senão amanhã deixo-me dormir na reunião e não posso, até porque tenho que intervir (além disso, mesmo que não tivesse, ainda não adquiri a habilidade de um colega meu que se põe numa posição tal que parece que está a ler uma coisa e, afinal, está a dormir uma bela soneca - mas, se for preciso, abre os olhos e começa a falar como se tivesse estado a ouvir tudo com muita atenção; juro: não sei como é que ele consegue).
Tenho, pois, que optar: se me ponho na 'palheta' com quem escreveu comentários, dado que os comentários hoje têm que se lhes diga, fazem-se horas de ir para a cama e não escrevo nada aqui.
Ou, então, escrevo aqui e não respondo aos comentários, coisa que me chateia mesmo. Mas vou optar por esta segunda opção pedindo muitas desculpas aos meus queridos Leitores a quem não vou poder responder, pois também me dá pena não escrever nada aqui à frente.
Só que, como sei que estou com falta de tempo, parece que fico com a mão travada... Ou seja, apetece-me dizer muitas coisas e como sei que não me posso demorar, fico aqui a hesitar. Mas, enfim, vou escrevendo até onde der e, quando for tarde demais, despeço-me rapidamente e saio à francesa.
Acho esta jogada do António Costa uma coisa muito estranha e não descortino nela nem utilidade, nem grandeza, nem visão estratégica. Estou neste momento a ouvi-lo na Quadratura do Círculo e continuo a não perceber. Acho que, com coisas como estas, se está a transformar a política num jogo virtual e isso incomoda-me. Danças de salão, minuetes e outros volteios e floreados são 'cenas' nas quais não estava à espera de ver o António Costa a participar.
E tanto mais me irrita isto quanto me enjoa o ar de padreco do Tozé Seguro, a fazer biquinho e a afirmar que é o homem certo para estar onde está. Não tenho paciência. Pode ser uma boa pessoa e se calhar até é. Mas como não estou a escolher um padrinho para um filho meu (coisa que, aliás, nunca fiz porque não os baptizei) mas a ver se serve como candidato a primeiro ministro, olho para ele e acho que não dá. Um primeiro ministro é mais do que um bom rapaz. Além disso, nunca tive grande queda para bons rapazes, ou melhor, para rapazes bonzinhos, muito bem comportadinhos, a fazerem biquinho. Não dá.
Por isso, não percebo porque é que o António Costa, já que as coisas se precipitaram, não avançou de peito feito. Bolas. É pedir muito, pedir que um fulano que admite vir a ser primeiro ministro avance de peito feito?
Já patinou vezes demais para achar que pode continuar indefinidamente neste 'mastiga e não engole', que é como quem diz, 'não dança nem sai da pista', ou, ainda, 'não f.... nem sai de cima' (e desculpem este linguajar mas, com a pressa que estou, não tenho tempo para fazer auto-censura).
E aquilo da remodelação do governo do Doce de Massamá? Entra uma funcionária do BES, entra um que era da SLN, entra um ex-blogger com ar de puto e cuja experiência dá ideia que é andar pelos gabinetes e entra mais três que não sei quem são.
É este tipo de gente que vai apoiar os ministros na governação de um país meio desfeito? Se é, vou ali e já volto. Bolas para isto.
E a conversa do Ulrich que dá vontade atirar-lhe um copo de água à cara a ver se ele acorda do estado de estupidez em que parece que anda enfiado? No dia em que se anuncia um lucro de duzentos e cinquenta milhões do BPI vem dizer que se até os sem abrigo sobrevivem, de que é que se queixam os que passam fome em casa ou não têm o que dar de comer aos filhos? Ai aguentamos, aguentamos. Aguentamos muitos desaforos de banqueiros estúpidos e não sei se devíamos aguentar. Parvo. Os banqueiros deste país, os que mais por aí andam armados em espertos, são os que mais deviam andar caladinhos. Veja-se o Ricardo Salgado do BES, grande moralista e grande influenciador da governação deste país: também se esqueceu de declarar milhões ao fisco. E nós aguentamos. Aguentamos, aguentamos. Agora vem este estúpido com uma conversa abjecta e nós continuamos a aguentar. Santa paciência.
Curiosamente isto ocorre no dia em que leio que: O sector financeiro está a ser taxado abaixo do que devia ser e deve pagar uma "parte equitativa" da crise, afirmou hoje um porta-voz do Fundo Monetário Internacional (FMI), noticia a agência AFP.
Só não aplaudo com força pois sabemos que o FMI fala a várias vozes: os directores têm um discurso lógico, razoável mas os funcionários portam-se como uns tiranetes que só ficam felizes espremendo as populações.
E, como se a parvoíce não fosse ainda suficiente, ouvi na rádio quando vinha a conduzir para casa, que os deputados da maioria resolveram que a televisão deve ressuscitar o TV Rural. Ouvi e não queria acreditar. Gente parva, credo. Isto é lá forma de se resolver o que quer que seja? Primeiro estouraram com a agricultura no país e agora querem fazer um programa para os agricultores? Mas quais? Quais agricultores?! Pagaram-lhes para estarem de perna estendida e agora querem fazer um programa de televisão para eles? Ou é um programa para quem quiser plantar salsa num vaso na varanda?
Daqui a nada digo um palavrão. Ando para aqui a dizer 'bolas' mas acho que bolas não é nada, devia era soltar aqui um vernáculo à maneira.
Paro mas é já por aqui.
Bom.
Aliás, já vai sendo hora de me ir deitar. Nem cinco horas vou dormir, bolas. Mas não quero acabar assim, irritada.
Por isso, aceitem o que escolhi para tentar evitar que saiam daqui a achar que foi uma seca das antigas, como um sopro de ar puro, como uma aragem agradável, auspiciosa, como a prova que o mundo é melhor do que a treta em que nos andamos a deixar enredar, como um sorriso, como um presente, como uma palavra de estima.
Agora, a imagem e a voz de Saramago. Um filme muito bonito.
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As imagens são pinturas e gravuras de Paula Rego, pintora por quem tenho grande admiração. No meio das personagens de Paula Rego aparece uma figurinha: é o novo Secretário de Estado do Turismo e mais não sei o quê. Tem uma carinha engraçada para aparecer aqui. Duvido é que tenha conhecimentos para as novas funções mas, enfim, nos tempos que correm isso não interessa para nada.
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Bem, agora é que vou mesmo dormir e não vos maço mais.
Tenham, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira.
E se estiverem furiosos com alguma coisa ou preocupados ou com algum problema, não sigam a conversa do palerma do BPI, não aguentem. Rebelem-se, lutem, procurem ajuda: tudo menos ficar resignadamente a aguentar.
Hoje, quando bebia o meu café matinal, ao meu lado um cliente dizia ao gerente do pequeno estabelecimento que, na véspera, quando tinha estado no Pingo Doce, não tinha havido distúrbios de maior, que as pessoas é que não sabiam comportar-se.
À saída de um Pingo Doce
Contava, com ar de quem tinha ido à guerra e saído vitorioso, que tinha compensado. Que tinha comprado 10 garrafas de litro de azeite, que agora tinha azeite para 2 anos e olhava sorridente à volta, orgulhoso pelo feito. O gerente dizia que também tinha comprado muito azeite mas que tinha optado por garrafões de plástico, vários, que também lhe iam dar para 2 anos, pelo menos, que o prazo de validade é grande. Quando eu saí ainda eles comparavam o volume de compras que tinham feito.
À saída de um Pingo Doce
Claro que, vivendo com dificuldades, as pessoas não pensam duas vezes e disparam, por vezes sem racionalidade, quando lhes acenam com metade das compras à borla. Claro que, para isso, teriam que efectuar compras no valor de 100 euros, coisa que, já de si, não é pouco mas nem devem ter avaliado o impacto no seu orçamento doméstico de compras da ordem dos cento e tal ou duzentos euros num único dia (numa reportagem de televisão vi um senhor orgulhoso dos 400 euros que tinha gasto, em vez dos 800 que seriam).
Questões de vária ordem poderiam ser analisadas sobre este facto mas quero apenas referir que este é, na sua maioria, o povo votante deste país, o povo que decide o sentido de voto. Pessoas que procuram uma instantânea melhoria nas suas condições de vida, sem se deterem a analisar o porquê, o como, o até quando, etc., pessoas que agem por impulso, sem fazerem cálculos ou sem se deterem em considerações de carácter filosófico.
Foi assim - porque gostaram da cara de quem lhes prometia uma política de verdade, que lhes dizia que não era admissível que se aumentasse mais os impostos ou que se sonhasse sequer em mexer nos subsídios de natal - que deram a vitória nas eleições a uma pessoa como Pedro Passos Coelho, colocando-o a ele e ao Relvas, ao Gaspar e a outros neófitos, ex-jotas e aprendizes à frente da governação deste país.
É fácil, muito fácil, manipular pessoas que, de alguma forma, se encontram fragilizadas (ou porque se sentem inseguras, ou carentes, ou revoltadas, ou doentes, ou desempregadas ou o que for).
*
Parábola dos Cegos - Pieter Brueghel, 1568
Estavam muito perto do supermercado, em algum destes sítios se deixou ela cair, a chorar, naquele dia em que se viu perdida, grotescamente ajoujada ao peso dos sacos de plástico cheios, valeu-lhe um cão para a consolar do desnorte e angústia, este mesmo que aqui vai rosnando às matilhas que se chegam demasiado.
(...)
A claridade do dia iluminava até ao fundo o amplo espaço do supermercado. Quase todos os escaparates estavam tombados, não havia mais do que lixo, vidros partidos, embalagens vazias.
(...)
O cão das lágrimas ganiu baixinho. Tinha outra vez o pêlo eriçado. Disse a mulher do médico, Há aqui um cheiro, Sempre cheira mal, disse o marido. Não é isso, é outro cheiro, o da putrefacção, Algum cadáver que estará por aí, Não vejo nenhum, Então será impressão tua. O cão tornou a gemer.
(...)
Atravessaram o supermercado até à porta que dava acesso ao corredor por onde se chegaria ao armazém da cave. O cão das lágrimas seguiu-os, mas de vez em quando parava, gania a chamá-los, depois o dever obrigava-o a continuar. Quando a mulher do médico abriu a porta, o cheiro tornou-se mais intenso.
[Excertos de uma das cenas pungentes de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, cena em que os cegos tinham invadido o supermercado e depois se tinham precipitado, escada abaixo, caindo uns sobre os outros... e mais não digo porque o que vos aconselho a ler é o livro todo, um dos livros que mais me impressionou desde que me tenho por gente. Digo-vos apenas que é um documento impressionante sobre as baixezas mais torpes e vis de que as pessoas são capazes em situações limite - e que, ao ler, sentimos que nós próprios - bem falantes, bem pensantes - também o faríamos se nos víssemos naquelas circunstâncias]
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Imagem do filme Ensaio sobre a cegueira (Julianne Moore como a mulher do médico, um dos muitos cegos)
Hoje soube-se que o emprego continua a subir. Já vai em 15,3% (e em mais de 36,1% nos jovens) e estes são os números oficiais que são inferiores aos números reais.
Pois ia eu no carro à hora de almoço quando ouço, perplexa, o Secretário de Estado do Orçamento, Luís Morais Sarmento a mostrar-se muito admirado com estes números inesperados (inesperados dizia ele, claro)...!
E concluía a "inteligente" criatura que o que era preciso para resolver isto era liberalizar o mercado de trabalho, flexibilizar ainda mais.
Fiquei de boca aberta. É que, meus Amigos, o problema maior não é só estarmos a ser governados por quem não sabe o que faz: o problema maior é que nem sabem tirar conclusões face às consequências do que fizeram...! Então se o problema é o desemprego estar a aumentar a um ritmo que nem eles percebem, o remédio que lhes ocorre é, justamente... facilitar ainda mais os despedimentos...?!
Ou isto não é nabice da mais pura que há mas, sim, coisa deliberada? Maldade pura?! Defesa de interesses inconfessáveis?! Já nem sei que diga, perante coisas destas.
Quanto ao Álvaro ou a alguém do Ministério das Falências e do Desemprego, nada: estão noutra. Economia e Emprego é coisa que não lhes assiste.
Portugal é o 3º país ex-aequo com o maior desemprego num conjunto de 29 países ditos desenvolvidos, li num artigo do FMI.
O autor, o chinês Min Zhu, questiona-se: ‘desenvolvidos na miséria?’ pois é nestes países que o desemprego mais se acentua e, de entre eles, para nossa vergonha e sofrimento, Portugal, só é antecedido (na desgraça) pela Espanha e pela Grécia (e igual à Irlanda).
Logo no início do artigo, Min Zhu parafraseia uma frase de Frank Sinatra - em que este diz, referindo-se ao casamento e ao amor, que não existem um sem o outro - dizendo que é a mesma coisa em relação ao crescimento económico e ao emprego. Não há emprego sem crescimento, nem crescimento sem emprego.
E mais uma vez recomenda moderação na aplicação de ajustamentos e, também, garantia de liquidez no sistema financeiro. Injecções de liquidez, políticas de desenvolvimento, abrandamento nas políticas de austeridade – só assim se evitará o suicídio.
Mas, claro, nem Passos Coelho nem nenhum do seu grupo lêem este género de artigos. E, mesmo que lessem, duvido que percebessem.
No dia 1 de maio, com ar ligeiro de quem pronuncia uma banalidade irrelevante, Passos Coelho disse que os portugueses se deveriam preparar para mais uns anos de desemprego alto. Ainda não percebeu o buraco em que está a enfiar Portugal nem a miséria para que está a atirar os portugueses.
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Não me apetece falar mais disto que fico indisposta.
Por isso, com vossa licença, para terminar, um bocado mais de Ensaio sobre a Cegueira para que saibam, meus Caros Leitores, que há cegueiras de que se recupera e que há histórias que acabam bem (e, se há lágrimas no final deste excerto, não se admirem, elas são de compreensível emoção de descompressão).
Eu acredito nisso.
Então o médico disse o que todos estavam a pensar, mas que não ousavam pronunciar em voz alta, É possível que esta cegueira tenha chegado ao fim, é possível que comecemos todos a recuperar a vista, a estas palavras a mulher do médico começou a chorar, deveria estar contente e chorava, que singulares reacções têm as pessoas, claro que estava contente, meu Deus, se é tão fácil de compreender, chorava porque se lhe tinha esgotado de golpe toda a resistência mental, era como uma criancinha que tivesse acabado de nascer e este choro fosse o primeiro e ainda insconsciente vagido. O cão das lágrimas veio para ela, este sempre sabe quando o necessitam, por isso a mulher do médico se agarrou a ele, não é que não continuasse a amar o marido, não é que não quisesse bem a todos quantos se encontravam ali, mas naquele momento foi tão intensa a sua impressão de solidão, tão insuportável, que lhe pareceu que só poderia ser mitigada na estranha sede com que o cão lhe bebia as lágrimas.
A tradução destas legendas é pavorosa mas, enfim, foi o que arranjei... O filme é uma adaptação da obra de José Saramago, e foi realizado pelo brasileiro Fernando Meirelles
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Bom. Caso ainda tenham paciência, não quererão os meus Amigos ir dar uma espreitadela lá ao meu Ginjal e Lisboa? Hoje as minhas palavras voam em volta de um poema de que gosto muito de Maria Sousa. Acompanha com Puccini, La Bohème... mas oh que encenação!... Só mesmo visto. A sério.
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E, claro está, desejo-vos uma bela quinta feira, de olhos bem abertos...