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quinta-feira, dezembro 02, 2021

Parece que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira




Tenho estado a ver vídeos sobre treino de cães. Depois de convivermos durante quase treze anos com uma boxer obediente, meiga, dócil, agora estranhamos este cachorro que tem nos genes a vida no campo, a condução de rebanhos, a largueza e a posse de espaços. A nossa cãzinha nunca nos rosnou, nunca nos mostrou os dentes ou tentou morder. Esta fera peluda tem tanto de amorosa, brincalhona, e querida como de irrequieta, teimosa e, quando sente o seu espaço ou as suas posses ameaçadas, de agressiva.

Não apenas não estávamos habituados como não nos passava pela cabeça que um cachorro nosso, tratado com todo o mimo, pudesse ser assim. 

Por isso, resolvi instruir-me. Depois de estar há algumas horas a ver vídeos acho que amanhã já saberei lidar melhor com as reacções deste bicho maluco. Não é que sejam frequentes estes comportamentos mas, para nós, são inesperados.

Adiante.

Estivemos no campo. A casa gelada, gelada, um frio húmido e cortante. Muito tempo sozinha e temperaturas baixas à noite dão nisso. As casas são como as pessoas: sem convívio, tornam-se frias.

A terra está a rebentar de cogumelos. Muitos, gordos, uns mais exuberantes, outros disfarçados por entre a folhagem ou sob a caruma. O silêncio é apenas entrecortado pelo canto dos pássaros. A caruma está macia, molhada. De longe a longe vê-se um fio de fumo por entre as brumas da serra. A paz. Se há lugar onde me sinto visceralmente ligada à terra é ali, in heaven. As cores douradas e rubras do outono, os musgos, a natureza a seguir o seu curso em plena liberdade.

Estávamos a caminhar por lá, vi um coelhinho pequenino e fofo, deitado de lado, olhos abertos, morto. Ainda bem que o nosso ursinho peludo não o viu. Fez-me impressão. Tenho ideia que há por aí uma doença que dizima os coelhos. Não sei se terá sido isso ou outra coisa. Sozinha teria muita dificuldade em resolver a situação. Viemos para casa e o meu marido foi sozinho, com uma pá, levantar o frágil corpinho e levá-lo para longe, para onde a nossa fera não o alcançaria. 

Estive a ler mais algumas Crónicas do Zonas de Baixa Pressão António Guerreiro. Gosto muito, é inteligente, acutilante, é como se a sua inteligência fosse uma lâmina afiada que não poupa tolos, parasitas, estúpidos, gente convencida, vulgar. Uma inteligência que é, ao mesmo tempo, um radar que localiza ideias, ensinamentos, excertos, instantes. Lê-lo é um prazer. Tenho vontade de assinalar frases para reler depois ou para as trazer aqui mas são tantas que acabo por achar que não vale a pena, mais vale ter sempre o livro à mão, abrir ao acaso e ler. É sempre bom.

Ao fim da tarde, regressámos e fomos a casa da minha filha. A casa já com as decorações de natal, luzinhas acolhedoras. Os meninos contentes. O mais novo, apesar dos chuviscos, ainda andou com o seu afilhado à trela, no pátio. Apesar do tardio da hora, ainda lanchámos na varanda, ao ar livre. É larga e abrigada. Já era de noite e chovia ao de leve mas ali estava-se bem. No fim, a bola peluda nem queria vir, só a correr e a saltar, na maior alegria com os meninos.

As cidades já estão todas natalícias. Olho estas iluminações tão bonitas com alguma nostalgia. Vai ser o segundo natal condicionado. Sempre pensei que nos teríamos visto livres do bicho neste verão uma vez que a população já estaria quase toda vacinada. Afinal, a imunidade que cai ao fim de poucos meses e as novas variantes continuam a trazer as populações no fio da navalha. 

E muitas pessoas convenceram-se que, tendo a vacina, tudo estava bem. Ainda não há muito estive num evento com umas centenas de pessoas. É certo que o espaço era amplo e arejado mas, ainda assim, a concentração era considerável. Raras eram as que estavam de máscara. Devo dizer que, a dada altura, veio uma pessoa ter comigo, alegre, abraçou-me e beijou-me, um beijinho em cada lado, ou seja, face a face, a centímetros de distância. Não tive como evitar. Tive sorte, não calhou. Mas foi um risco daqueles...

E sei de muitas reuniões presenciais em salas sem janelas em que estão todos sem máscara. Não sei o que passou pela cabeça das pessoas para acharem que o risco tinha passado.

Sei que não deve haver alarmismos. Mas há pessoas que, perante a ausência de advertências, relaxam. E uns servem de exemplos ao outros, especialmente os maus exemplos. 

E os casos começam a multiplicar-se. Portanto, estamos outra vez em Dezembro e de novo a curva começa a empinar. Os casos são menos graves mas um caso menos grave pode contagiar alguém a quem a doença bata com força.

Natal assim -- com distâncias de permeio, sem que possamos estar todos, muitos, em volta da mesma mesa, aconchegados à lareira, os miúdos encavalitados uns nos outros e nós, por perto, a vê-los -- parece que não é Natal. Pelo menos, não é bem Natal. 

E apetecia-me um Natal e um Ano Novo à vontade, sem medos, sem máscaras. E apetecia-me estar de férias, não ter horários, não ter compromissos. E apetecia-me não ter preocupações.

Raios partam a porcaria do corona. Quem o inventou, inventou bem inventado. 


E é isto. Tenho ideia que foi domingo mas, afinal, foi quarta-feira. Portanto, menos mal. Já não falta muito para ser fim de semana. 

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Pinturas de Nazmi Ziya Güran na companhia de Bernardo Sassetti & Mario Laginha & Pedro Burmester com 3 Pianos "Souvenirs pas de deux"

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Um dia bom
Força. Coragem. Esperança. 

sexta-feira, junho 18, 2021

Noah

 



O dia esteve quase invernoso: húmido, fresco, cinzento. A meio do dia constatei que não estava tão bem quanto desejava, e isso deixou-me um bocado desiludida. E uso a palavra desiludida em consciência: se calhar estava mesmo a querer iludir-me. Nada de transcendente mas, ainda assim, fiquei aborrecida. Sou tão optimista que desvalorizo até o que possivelmente tem mesmo que ser valorizado. 

Portanto, com o dia soturno, com a minha disposição também cinzenta, para piorar só mesmo o suspense em torno de Noah. Sentia-me um pouco ansiosa com aquilo do menino. 

Tenho total pavor do desaparecimento de uma criança. Desde que tive os meus filhos, na praia nunca conseguia estar um segundo descansada: sempre a olhar para um e para outro, com medo de perder algum de vista. Nas feiras ou em lugares com mais gente, sempre a querer que me dessem a mão, sempre com eles no meu radar. O que me tranquilizava era que o meu marido era igual, sempre absolutamente focado neles.

Com os meus netos, a preocupação é a quintuplicar. São muitos, mexem-se muito, difícil andar sempre a verificar: um, ouro, outro, outro, outra. E voltar ao princípio: um, outro, outro, outro, outra. 

Uma vez, apanhei um susto de morte. Digo bem: de morte. Era como se me sentisse a morrer por dentro. A minha filha tinha ido dar uma volta na Feira do Livro e eu e o meu marido ficámos com os dois meninos no pequeno parque infantil que está ali ao lado. O parque estava pejado de crianças e respectivos adultos acompanhantes. Cada um dos meus corria para seu lugar: um para o escorrega, outro para o balouço, depois um subia ao parque dos piratas, depois outro também. Eu e o meu marido aflitos para não os perdermos de vista. Depois ficaram os dois no barco dos piratas. Mas aquilo é grande e tem vários acessos, e, lá em cima, tem a casinha, tem o varandim, e tem não sei o quê. Como eles eram pequeninos, estando lá em cima, a gente não os via. E se um descia pela escada, outro pelo escorrega, cada um por seu lado, ficava impossível segui-los. Dezenas de crianças, dezenas de adultos, uma confusão. Eu deveras assustada, com medo de não conseguir estar sempre a saber onde estavam. Às tantas, o meu marido disse: fixa-te num que eu fixo-me no outro. Só que, de repente, um estava cá em baixo e o outro não aparecia. Perguntámos ao mais crescidinho, que deveria ter uns cinco anos, o que era feito do irmão. Disse que não sabia e foi a correr para outra atracção. E aí foi o pânico. Eu e o meu marido, aflitos, a chamar pelo mais pequeno, às voltas, sempre a querer não perder de vista o mais crescido que não parava sossegado. Eu, juro, só me mantive de pé e a chamar pelo pequenino porque a vontade de o encontrar superava o que o meu corpo queria, que era que eu caísse ali, desmaiada. Não há explicação para o pavor ao pensar que ele tinha fugido, se tinha perdido, que alguém o tinha levado, que ia aparecer ao pé da minha filha com uma criança em falta. Não há mesmo explicação.

O que nós gritámos por ele, as voltas que ali demos, jamais me esquecerei. E, de repente, já não sei qual de nós, olhámos para trás de nós: estava ele, num cavalinho, impávido a sereno. O cavalinho era mais recuado, não sei, não sei como não o vimos.

Não há descrição para o alívio: renasci. Perguntámos-lhe: mas não ouviste chamar por ti? Era pequenino, teria uns três anos, estava na boa, feliz da vida. Não ligou patavina.

Quando contámos, a minha filha ainda se riu: o miúdo mesmo ao pé de nós, provavelmente, sem perceber que desatino era aquele em que os avós estavam e nós, feitos totós, num desespero como se o miúdo não estivesse mesmo ali atrás.

Mais recentemente, apanhei um susto idêntico. O meu filho estava cá em casa. Os adultos conversavam e os miúdos brincavam. Corriam, brincavam às escondidas -- andavam à vontade. Até que os mais crescidos resolveram ir-se embora e tocaram a reunir. E, ao irem, reparámos que o portão que dá para a rua estava aberto. O comando é muito sensível e, sem darmos por isso, o portão abriu-se. Há quanto tempo o portão estava aberto não sabíamos. E aí demos por falta do mais novo. 

Aflição, claro. Pânico, pânico. Todos a chamar por ele, dentro e fora de casa, todos a corremos por todo o lado, o meu filho já na estrada a gritar por ele, os irmãos, em especial o menino, a chorar, aflito, eu outra vez mais morta que viva, sem saber onde mais procurar. Na rua sem sinal dele, o meu filho já para a frente e para trás, já bem assustado.

E, de repente, uns sapatinhos a saírem de debaixo de um arbusto, ali mesmo ao pé de nós. A minha nora é que viu. 

Tinha-se escondido de tal maneira, o maroto, que não o víamos. Só daquele ângulo se viam os pezinhos. E de lá saiu, sorriso maroto, sacaninha. Nós em pânico e ele, feliz da vida, por estar a pregar-nos tamanha partida. No fundo, para ele, nada de mais. Costumam jogar às escondidas em que é suposto, justamente, esconderem-se bem e não se auto-denunciarem. 

Passado não sei quanto tempo ainda eu me sentia a tremer por dentro. Agora ando sempre com medo que o portão se abra. Aliás, passámos a ter mil cuidados com a porcaria do comando. Quando eles cá estão, é o meu marido que o usa e resguarda logo de seguida para evitar que algum toque ou queda ao chão leve a que o portão se abra sem que nós demos por isso. 

Ou seja, por todos os motivos e mais uma data deles, a perspectiva do desaparecimento de uma criança é daqueles terrores em que não quero nem pensar.

Por isso, de cada vez que sei que uma criança desapareceu, por muito remoto que seja o acontecimento e por muito alheio que o assunto me seja, sinto logo aquela angústia que imagino que a família sinta. Angústia, pavor, impotência.

Mas, depois, ao procurar se já havia notícia, vi a fotografia de Noah e pensei: está vivo. Pensei também que pensamentos assim são gratuitos, infundados. Mas, no meu íntimo, pensava que, apesar de não ter explicação para tão clara convicção, sentia que aquela criança estava viva e que seria, toda a sua vida, um bacano, alguém cheio de peripécias e histórias para contar. Vivo, pensava, está vivo.

Desconheço as circunstâncias do seu desaparecimento e do seu aparecimento. Mas fiquei muito contente quando, estando ao telefone com a minha filha, ela me disse que estava a ver, não sei onde, que o menino tinha aparecido. Senti aquele alívio solidário, como se fosse também eu a recuperar a tranquilidade de saber que a criança está de volta, viva e de boa saúde.

Claro que agora haverá que perceber o que aconteceu e se está bem. A vida no campo, em especial entre pessoas que vivem em comunhão com a natureza, não segue a mesma lógica de quem vive em meios em que os receios são constantes. Mas, enfim, o que houver a ser apurado, certamente sê-lo-á. Para já, o que importa é que Noah está vivo e junto aos seus. E essa é uma alegria que tem que ser festejada.

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Pinturas de Luis Rodriguez Noa ao som de Alice por Bernardo Sassetti

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Desejo-vos um dia feliz.

Saúde. Ânimo. 

E ao valente Noah desejo uma vida longa e feliz

domingo, junho 21, 2020

Pedro Lima, Anthony Bourdain e outras pessoas bem sucedidas





Não sigo telenovelas portuguesas pelo que o que conheço de Pedro Lima, enquanto actor de novelas, é o que vejo nos pequenos anúncios aos episódios do dia que, de vez em quando, de passagem, apanho. A ideia que tenho é que tem tido sempre trabalho, o que é natural dado ser um homem muito bonito, um galã que dá sempre jeito em qualquer 'peça'. Tenho também ideia de que, volta e meia, o via, sempre sorridente, em actividades daquelas para as quais convidam os actores. Sem exuberâncias mas com afabilidade. Mas não sei, pois, ajuizar sobre o seu talento. Nunca o vi em palco, no teatro, pelo que, também daí, não poderei pronunciar-me. Pessoa que me é próxima conhecia-o do surf mas também apenas hoje soube disso. 

A ideia que tinha dele é que seria um actor sóbrio, discreto, pouco dado a mediatismos. Mas simpático, sereno. Tenho ideia de vê-lo sorridente. Tenho ideia dele com a mulher e com um bando de filhos. Uma família feliz. Um homem bem resolvido.

Soube também hoje dos seus feitos desportivos. Não fazia ideia. Contudo, com aquele corpo é natural que tivesse força e energia para vencer as provas que venceu e que, por outro lado, aqueles músculos tenham vindo da prática continuada de desporto.


Por isso, o espanto ainda foi maior quando li que aparentemente se terá suicidado. A minha filha esteve a mostrar-me fotografias dele no Instagram. Bem disposto, apaixonado, amável, brincalhão. Tentei perceber se o sorriso e a boa disposição seriam máscaras para algum desconforto ou tristeza mas, nas fotografias, não detectei nada disso. A última fotografia mostra-o escultural, pronto para o surf, festejando o regresso à vida normal.

A mesma surpresa senti quando soube da morte de Anthony Bourdain. Gostava muito de ver os seus programas. Irreverente, empático, amante do insólito, curioso em relação ao pouco óbvio. Dizia ele dele próprio ser uma pessoa cheia de sorte: fazia o que queria, quando queria, onde queria, com quem queria. Com amigos em todo o lado. Um homem de aspecto possante, viril. Uma pessoa absolutamente bem sucedida, conhecida em todo o lado. Brincalhão, bon vivant.

Até ao dia que se soube que, ao contrário do que parecia, era tímido, frequentemente inseguro e com um fundo depressivo. Há um vídeo feito pouco antes de ter decidido pôr fim à sua vida: nos copos com os amigos, divertido. Certamente encobrindo o que lhe ia na alma.

Estava a escrever e a pensar em Bernardo Sassetti, cuja morte também muito me impressionou. Não sei se caíu sem querer ou se também não suportou mais. Mas sei que me custou muito.

Em tempos o vocalista de uma banda suicidou-se e a mulher mostrou fotografias em que ele aparecia pouco antes, com ela e creio que com os filhos. Estava sorridente, parecia feliz. A mulher, em sofrimento, perguntava: vendo-o assim, rindo, em família, quem é que poderia adivinhar o que estava prestes a acontecer?

Não sei causas. Não sei o que se passou com o Pedro Lima. Não sei se foi suicídio (embora as notícias o indiciem) e, se foi, se foi por depressão, problemas financeiros ou outros. Sei que, a ter sido suicídio, deve ter sido pela mesma razão que leva alguém -- mesmo as pessoas mais talentosas, na flor ou a meio da vida -- a pôr termo à vida: não aguentam mais. Quem está de fora não percebe: mas não aguentam mais o quê? Com a vida quase inteira pela frente, amados pela família e amigos, respeitados pelos conhecidos e pelo público em geral, como não aguentam mais? O que lhes falta para que, como a maior parte das pessoas, consigam superar algum constrangimento, algum escolho, alguma ameaça ou temor? O que lhes falta, se os conhecemos tão talentosos e se os sabemos tão especiais?

Não sei. Talvez lhes falte a coragem para pedirem ajuda.

A minha filha referia o caso de um nosso conhecido: pessoa descontraída, praticante de desporto, do mais divertido que há, profissionalmente bem sucedido, na altura com uma namorada linda e amorosa, com uma família que o adorava, com um nível de vida a que nada faltava. E, no entanto, quem poderia dizer que, contra toda a lógica, viesse a ter um problema de droga? Quem poderia dizer que gastava tudo o que ganhava e se endividava por todo o lado, junto de familiares, amigos e sabe-se lá de quem mais, sempre arranjando desculpas convincentes, vindo a ter sérios problemas por não poder pagar as dívidas que ia acumulando? Quem poderia antever que viria a deixar o trabalho e ter que ir viver para um lugar recôndito não apenas para ver se se curava como para os traficantes e demais amigos e inimigos dessas andanças deixassem de persegui-lo? E, no entanto, ninguém, ninguém mesmo, nem mesmo os mais próximos, sequer suspeitaram do que estava a passar-se.

Quem vê caras não vê corações, quem vê sorrisos não sabe o que se esconde por debaixo. A mente por vezes cava sulcos ou abre buracos negros de que é difícil sair. 

Nestas histórias não há, muitas vezes, fins felizes. Há desistência. E muita dor e perplexidade por parte dos que ficam.  E se há alguma coisa que se possa retirar de situações que se aproximam do limite é que há que lhes prestar muita atenção para tentar ajudar. Não é fácil. Quem está com depressões profundas ou quem tem problemas muito sérios frequentemente não quer preocupar a família e os amigos pelo que não quer assumir aquilo por que está a passar, prefere disfarçar, prefere esconder as trevas que os assombram, mostrando uma alegria que é apenas aparente. Estas coisas deveriam ser mais faladas para que as pessoas que sofrem em silêncio se encham de coragem e peçam ajuda, para que pensem um pouco nelas e não apenas em poupar os outros.

A vida breve dos que não aguentam mais deveria ser uma vela acesa na opinião pública para que nunca nos esqueçamos de fazer sentir aos que precisam de ajuda que devem pedi-la: por eles e por aqueles que os amam.


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Pinturas de Mark Rothko que pintou as trevas antes de nelas mergulhar, 
com acompanhamento de Noite por Bernardo Sassetti

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Desejo-vos um bom dia de domingo

terça-feira, junho 04, 2019

Agustina


Fotografia in Folha de S. Paulo



Não posso dizer que hoje tenha tido um desgosto quando soube da notícia. Não tive.

Não que seja fria de coração porque, por vezes, ajoelho de desgosto. Como, por exemplo, o que senti, grande, quando vinha no carro e ouvi que o Bernardo Sassetti tinha caído de uma ravina, tinha morrido. Nem queria acreditar. Gostava tanto de o ouvir e gostava tanto das suas composições que a morte surgiu como um alçapão tenebroso que ia impedi-lo de continuar a compor e a tocar para nós.

Mas de Agustina, hoje, não. Nela eu gostava do que ela escrevia e, mesmo assim, não de tudo. Gostava também de a ouvir falar mas isso era quando ela falava e há alguns anos que não falava. Diz a filha que já antes do AVC ela parecia querer ausentar-se. Isso pareceu-me natural. Depois de uma vida a esgotar-se em palavras pareceu-me legítimo e compreensível que buscasse o silêncio das palavras não ditas. E de escrever também se desligou. Tinha-se despedido com a Ronda da Noite. Anos de palavras a correrem nas veias também cansa. 

Excerto de foto da Impala
Depois do AVC, deixar as palavras a sossegarem numa caverna profunda e inacessível sempre me pareceu nela uma coisa normal. Os AVCs são buracos negros que sugam a matéria e, nela, a matéria era a carne das palavras.

Levantar-se, ter a sua higiene tratada, escolher a toilette do dia, ir passear no jardim, ir para a sala, ficar em silêncio, parecia-me um programa mais do que suficiente para uma soberana em repouso.

E das suas palavras escritas e ditas antes disso eu não preciso de me despedir. Tenho-as perto de mim, sempre terei. Umas estão ali na estante, outras estão num livro que tenho aqui. E há vídeos.

De palavras novas já eu não esperava, pois, há uns bons anos e, no entanto, milagrosamente, elas continuaram a aparecer-me. E sendo, afinal, a caverna -- onde, durante anos, as palavras se acomodaram como letárgicos bichos do mato -- como um rio sem princípio nem fim estou em crer que as palavras continuarão a aparecer, a espreitar o sol, ficando por aí.

E é dessas que eu tenho gostado mais.

Sempre fui mais dada a petiscos que a grandes pratadas. Apanhados de ensaios, de crónicas, de textos, de cartas. Ou biografias que não são nem um bocadinho convencionais sobre pessoas de quem ela gostou muito e onde se perde em memórias, em observações à toa, onde mistura biografia e autobiografia, onde brinca, onde faz voos rasantes sobre a personalidade dos amigos. De tudo isso eu posso petiscar sem ordem definida, banquete informal, dim sum em que posso passar de uns para outros sem quebra ou adaptação, sempre em puro deleite e desconcerto. 

Houve a Sibila, claro. Inaugural. Dolorosa, visceral, telúrica, mística. Mas depois os outros romances não me prendiam. Tenho-os, alguns: debiquei-os. Há alturas da vida para tudo. Se a escrita requer vagar, vida ou tolerância e a lemos entre preocupações por filhos pequenos e depois adolescentes ou entre horários à justa, com certeza que as nossas trajectórias não convergem. Hei-de voltar a estes livros que contam histórias para perceber qual a minha sedimentada opinião.

Agora aquela insolência, aquela ironia truculenta, aquelas observações tão próprias de uma mulher da terra, aquela sabedoria desprovida de laços, venturosa, aquela carnalidade madura que se metamorfoseia em palavras, aquele riso escarninho, aquela farpa oblíqua, aquele despudor tão característico daqueles a quem tudo se permite, aquele desbocamento elegante, pérfido, atraente, tão próprio de quem sabe da inteligência extrair a beleza --- isso eu encontro nos textos avulsos, nos pequenos livros, nas opiniões, nas recordações, nas entrevistas. 

E tudo isso é eterno e cada vez o há-de ser mais pois mais pessoas a irão descobrir e amar e venerar o seu indomável espírito que sempre se manterá moderno e presente entre nós.

Já muitas vezes aqui falei dela e mais vezes haverei de falar pois há em Agustina aquela sedutora fractura, aquele desalinhado e descontraído comportamento e aquele gosto em enterrar as mãos nas vísceras ainda quentes daqueles a quem disseca -- que me são irresistíveis.

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Não sou de saber de cor citações ou de guardar de memória referências que agora me poderiam ajudar a escolher um texto a preceito que fundamentasse na perfeição os meus humílimos encómios. Por isso, fui à estante e puxei o Caderno de Significados, um livro fininho que, lá dentro, teria certamente textos pequeninos, fáceis de copiar. 

E é assim que, sendo que decorre agora mais uma edição da Feira do Livro e relembrando o tempo em que eu começava a visita pelo stand da Guimarães, cá em baixo, á esquerda de quem subia, para ver os livros de Agustina, soberana das letras portuguesas, soberana do seu reino da fantasia, transcrevo:

Feira do Livro

É possível imaginar uma tarde mais doce debaixo dos céus de Lisboa, mas eu não quero imaginar. O Parque Eduardo VII onde se inaugura a Feira do Livro está todo fechado em copas de árvores onde goteja uma promessa de chuva. Há muita gente conhecida e desconhecida. Os bonecos da Contra-Informação recebem os seus amigos e outros. Paira um bom presságio que está às vezes onde menos se espera. Saramago, mais sorridente do que é costume, Lobo Antunes aparece e desaarece. Eu, com os meus pés tenros como espargos, sento-me na cadeira que há no Pavilhão e dizem-me, de vez em quando, que a guerra foi declarada entre editores e livreiros. Napoleão tinha razão, a guerra é o estado natural do homem. Venho verificar isso no Parque Eduardo VII. que é um lugar como outro qualquer para avaliar o mundo e os seus problemas. Um vento carinhoso protege-nos de tudo como se fosse a benção dos escritores que nos olham dos seus placards mais ou menos esvaídos em tinta simpática. Começa a estação da Feira, que em geral coincide com a estação das chuvas. Como se diz em português corrente, 'estes são os gravos da ladeza em que estes lugares da terra de Lisboa daquém mar Ociano hapartam da linha equinocial da ladeza conta o polo' que é o meu Volkswagen.

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sábado, agosto 05, 2017

Estrelas cadentes, desejos, afectos, solidão -- coisas assim
[Com um desfecho inesperado]





Até fiz uma gravação. Se não fosse uma preguiçosa, até aqui a publicava. Mas as manobras de passar o vídeo para o youtube parecem-me cansativas demais para a vitalidade de que, a esta hora, disponho. Mas conto o que eu lá dizia: vínhamos para cá, eu meia a dormir, e o meu marido chama-me: Olha! E olhei e vi uma estrela cadente. Um rasto de luz atravessando o espaço. Pensei que devia pedir um desejo e, então, pedi os três do costume. Depois pensei que a coisa não devia ser bem assim, a estrela não devia despenhar-se no chão senão havia borrasca pela certa -- que apanhar com uma estrela em cima não devia deixar o que estivesse por baixo em grande forma. Fui informar-me e, de várias fontes, transcrevo o que fiquei a saber:
Meteoro, chamado popularmente de estrela cadente ou estrela fugaz, designa o fenómeno luminoso observado quando da passagem de um meteoroide pela atmosfera terrestre.
Ao atingir a atmosfera, a velocidade média da estrela cadente é de 250 mil km/h. A maioria delas são totalmente desintegradas antes de chegarem ao solo, normalmente entre os 90 e 180 km acima da superfície terrestre.
Aliás, do ponto de vista científico, caso o corpo celeste consiga atingir a superfície da Terra a sua nomenclatura muda, passando a ser chamado de meteorito. O termo meteoro ou estrela cadente costuma ser usado apenas para as partículas cósmicas que se desfragmentam totalmente quando entram em contato com a atmosfera terrestre.
Reza uma lenda ocidental que os deuses, muito curiosos, para saber como era a vida na Terra, punham-se a olhar para baixo, e nestes momentos podiam fazer deslizar uma estrela. A estrela cadente simbolizava, portanto, o momento exato em que um deus estava olhando para baixo, por isso criou-se a lenda de que era um bom momento para fazer um desejo, pois ele seria ouvido e realizado.
Vim feliz da vida durante o resto do caminho por ter visto a estrela que não era estrela e por ter aprendido isto. 


Depois de termos arrumado os mantimentos no frigorífico e etc, vim pousar-me aqui. Tenho sempre vários mails. Gosto de os ver a todos mas, tarde como é, para ter tempo de aqui escrever não consigo tempo para lhes responder. Um deles comoveu-me. Tinha fotografias de uma pequena casa numa árvore no meio de uma serra de onde se podem contemplar múltiplos horizontes. Era a propósito de eu, numa noite muito complicada, ter escrito que gostava de escrever sobre as casinhas nas árvores (e acho que deixei perceber que gostava de aqui, in heaven, ter uma). Fiquei a olhar as fotografias com uma emoção talvez inusitada. O encantamento em que fico com coisas assim não o sei explicar.

No deve e haver da minha vida acho sempre que recebo mais do que dou. Talvez por isso tenha sempre em mim este quase insconsciente sentimento de agradecimento.


A semana passada voltou a ligar-me o meu ex-colega que está muito doente, aquele que tem uma doença degenerativa que o condiciona severamente. Pela segunda vez, pedia-me que lhe arranjasse uma consulta de uma determinada especialidade, não relacionada com a principal doença mas para um outro problema que também o condiciona bastante. Como quase não se percebe o que diz e como vive sozinho, penso que não consegue aguentar-se com as marcações via contact center nem deve ter mais a quem pedir. Penso, mas não estou certa. Não questiono. Ele pede-me e eu faço. Na quinta-feira ligou-me de novo. Fico sempre numa aflição porque são chamadas longas em que percebo apenas uma pequena parte e, como não quero dizer-lhe que não percebo, tenho que accionar um descodificador mental para conseguir discorrer o sentido da conversa a partir de uma ou outra palavra que perceba. Pensei que, às tantas, tal como na vez anterior, à última hora tinha desistido. Mas não, era só para me dizer que no dia seguinte, tinha, então, a tal consulta e que estava esperançoso, que acreditava que o médico ia arriscar e operá-lo, que estava desejando de lá ir. Ouvi vozes à sua volta. Perguntei-lhe onde estava. De vez em quando, percebe-se melhor o que diz. No outro dia disse-lhe que estava a percebê-lo melhor e respondeu que é quando está sob efeito dos comprimidos. Respondeu-me, então, com aquela sua voz entaramelada, que tinha ido ver a mãe ao lar. Fiquei admiradíssima. Perguntei que idade tinha a mãe. 94. E que estava melhor que ele. Com aquela ironia dele, acrescentou: Sempre a acusar-me. 'De quê?!' E ele: De tudo. Volta e meia, não me conhece e passa o tempo todo a dizer-me mal do filho. Quando me conhece, acusa-me, diz que a culpa é toda minha. Não sei de que é que sou acusado, se é dela já ter 94 anos, se é de eu estar doente, se é a de a minha mulher me ter deixado. Depois pergunta-me pela família, a memória intacta, o nome dos meus filhos bem presente. Mas sinto que a pergunta é sobretudo um pretexto para se queixar da filha que vive fora e do neto que vê apenas uns dias por ano. Diz que o menino é vivo, esperto, mas que fica sempre um bocado estranho porque vê muito pouco o avô e porque vê o avô naquele estado. Fico sempre com muita pena. Não é só dele, é de todas as pessoas que se vêem sozinhas, debilitadas, a perceberem-se a caminhar para um estado de dependência. No entanto, no meio daquele amontoado de palavras em grande parte incompreensíveis, noto sempre o seu antigo e ainda presente sentido de humor.


Hoje, ao fim do dia, ligou-me de novo. Todo contente. Que tinha gostado muito do médico, muito atencioso. Diz que, por ele, opera e escreveu uma carta para o colega, para que o colega saiba os riscos que ele identifica. Tem riscos mas, se não operar, dentro de dois ou três anos não ando. E eu se não ando, morro. Agora é que me custa cada vez mais que eu, antes, era um galdeirão. Por isso, agora vou ao meu médico a ver o que ele diz. Depois, ligo-lhe a si também para me aconselhar. Não posso fazer ressonâncias magnéticas. E a primeira operação pode não resultar e ter que fazer uma segunda. Mas eu não me importo. Ficar sem andar é que não. E eu ouço e fico numa apreensão, porque o mal dele, o outro, o principal, que é progressivo, também condiciona, e não é pouco, o andar. Mas ele passa por cima disso e agarra-se à esperança de ficar melhor. Tomara que sim. Tomara.


Entretanto, anuncia-se outro fim de semana de calor. É assustador. O mundo não tem cuidado de se preservar. O que há uns anos parecia um prenúncio de terror -- antevendo-se, no futuro, altas temperaturas, secas extremas, o solo gretado -- começa a ser uma realidade. E o terror é tanto maior quanto o gelo, ao derreter, está a deixar à vista os corpos de gente que estava desaparecida há décadas. Antes tinham sido encontrados um casal suíço e dois soldados austríacos da Primeira Guerra Mundial. Agora mais um homem, nos Alpes. O passado regressa para nos lembrar que, durante este tempo todo, andámos a violentar o equilíbrio do planeta. Como é que o mundo não acorda de vez para a necessidade de repensar este modo de vida absurdo e não elege como uma das prioridades máximas a de tentar preservar o respeito pela natureza? Como é que os americanos foram eleger aquele anormal que faz gala em mostrar que se está a marimbar para este tipo de questões? E como é que, depois do que já viram, não arranjam maneira de correr de lá com ele? E a China, com as cidades a rebentarem pelas costuras, quando é que põe em prática os princípios que já percebeu serem incontornáveis?


Mas, enfim, a esta hora já é sábado, não é dia para estar com conversas soturnas. Daqui a nada tenho que estar a pé a limpar a casa, a preparar refeições, a adiantar tudo para, quando chegarem, ter todo o tempo do mundo para eles.

Por isso, fico-me por aqui. Termino com um vídeo extraordinário. Mesmo quem não é dado a ver vídeos, acho que deve ver este. Delicioso. Aliás, mais do que isso. Uma graça e muito, muito trabalho. E muito, muito talento que, para fazer o que aqui se faz, apesar de parecer uma brincadeira de amigos, é preciso ser-se muito bom.

When someone asks if you work out



São eles Harper Watters & Rhys Kosowski do Houston Ballet 

As fotografias são algumas das vencedoras do National Geographic Travel Photographer of the Year 2017

Lá em cima era Bernardo Sassetti em Sonho dos Outros (Timbuktu Solo Sessions #5)

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A si, Caro Leitor que está aí desse lado, desejo um sábado muito bom.

E vai com um abraço, esse meu desejo.

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quarta-feira, junho 14, 2017

Sem rasto





E outro dia veio e, de novo, o formigueiro nos dedos. Começou a habituar-se. Se olhava num relance para o espelho, pensava que as feições estavam outras. Mas também a isso começou a habituar-se.

Porém, um cansaço começava também a dobrar-lhe a vontade. Achou melhor tirar uns dias de férias. Ficava em casa, dormia, olhava pela janela, escrevia, ouvia música. Mal comia. Uma manhã pensou que podia aproveitar para arrumar algumas gavetas.

A casa estava quente e ela estava nua. 

Tirou tudo, espalhou no chão roupas, papéis. Quase não se podia andar, de tal forma a casa ficou caótica.

Foi buscar sacos grandes e começou a separar, para dar ou para o lixo, roupas antigas, extractos bancários, facturas da água, da luz. 

De vez em quando ficava parada a olhar, sem se lembrar de vestidos, blusas, documentos. Encontrou um envelope cheio de fotografias. Custou a reconhecer-se. Não tinha ideia de quando seria aquilo. Com um vestido preto, justo, de alças, muito decotado, todo brilhante, talvez revestido a lantejoulas. Os lábios, pintados de vermelho, pareciam mais cheios. Sorria e seduzia quem a fotografava. Mas quem? Olhou com atenção, tentando perceber onde tinham sido tiradas. Via uma lareira. Numas fotografias estava a dançar mas não se via mais ninguém. Pela pose e pela expressão, era notória a intimidade.

Fechou os olhos, tentando lembrar-se. Mas logo o pensamento deslizou para uma preocupação: seria normal não se lembrar? Estaria tudo bem com ela? Levantou-se, foi até ao espelho, olhou-se bem. Em voz alta, perguntou: Está tudo bem comigo? Ficou a olhar, como se esperasse resposta.

Foi, de novo, até aos armários que estava a tentar arrumar e, de repente, lembrou-se de um dia, muitos anos atrás. Um homem fazia-lhe uma festa no cabelo, abraçava-a, perguntava-lhe se ela não queria pensar melhor. Não. Não precisava. Estava certa. Admira-se agora de como estava tão segura da sua decisão. O homem segurava-lhe as mãos, queria que ela pensasse bem. Depois queria acompanhá-la. Não. Não queria.

Lembra-se bem. Foi sozinha. Quando ia a entrar vacilou. Mas não se deteve. Estava no início. Pensava que ainda não era gente. Nunca mais quis pensar no assunto. Só agora. Tenta recordar-se do ano em que isso teria sido. Teria agora vinte anos, vinte e qualquer coisa, talvez. Não sabe bem. Ocorreu-lhe que nunca tinha pensado se era menino, se menina.

Não sabe também desse homem tão gentil. Porque acabaram? Lembra-se dele. Encostava a sua cabeça à dela, De noite, beijava-lhe os ombros. Disso lembra-se.

Lembra-se que ele, anos mais tarde, lhe telefonava de vez em quando a saber se ela estava bem. Perguntava também pelos pais, pelo trabalho. E ela nunca lhe perguntava nada. 

Continuou a arrumar papéis. Encontrou um com um poema manuscrito.

Este é o labor
de fogo
nesta avidez insensata

de existir

entre a lírica
e o corpo
pela fundura do poço

a navalha da paixão
a rosa do alvoroço

Não reconheceu a letra. Quem o teria escrito? Tentou pensar mas o pensamento não fluía. Não se lembrava nem da ocasião em que o poema aparecera nem de quem poderia tê-lo escrito. Admitiu que podia ser a sua letra. Mas, se calhar, não. Um rosto perpassou-lhe, então, pela memória. Fechou os olhos. Releu. Sentiu que não continha as lágrimas.

Passado algum tempo, disse, então, quase em surdina: Uma vida sem rasto, cada vez mais sem rasto, o rasto a esvair-se.





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O poema que inseri no texto chama-se 'Fogo' e é de Maria Teresa Horta in Poesis, o livro que eu queria trazer, e trouxe, da Feira (e do qual é também o poema que serve de mote ao meu texto de hoje no Ginjal & Lisboa, a love affair)

Lá em cima, Bernardo Sassetti interpreta Noite


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O texto que acabei de escrever vem no seguimento de Naquele Dia.

E continua com Sou aquela que transgride o abismo da paixão

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segunda-feira, maio 15, 2017

O segredo das meninas





Na escola primária onde eu andava, tínhamos aulas de ginástica que eram muito variadas. Umas eram ao ar livre, dadas no campo de futebol que lá havia ao pé, outras no pavilhão desportivo, outras no campo de vólei onde também fazíamos basketball. De vólei nunca gostei mas adorava basket. Também gostava de ginástica. O meu corpo era flexível e ágil e eu gostava de o usar. No entanto, nunca fui capaz de fazer o pino senão com ajuda, parece que tinha medo de tombar para trás e partir-me ao meio. De saltos e corridas também gostava muito. Saltos em altura nem por isso mas em comprimento adorava. No verão íamos para a praia e aí nadávamos e mergulhávamos.


Ele não dava aulas a uma única turma de cada vez. Não. Juntava várias salas e, com a ajuda das professoras, conseguia movimentar toda aquela gentinha, meninos e meninas, uns mais pequenos, outros mais crescidos. Era às quartas-feiras de maanhã, a manhã toda.

Este professor introduziu ainda outra novidade.
Naquela altura, o leite que eu bebia era leite que uma leiteira ia vender a casa da minha mãe. E a minha mãe depois fervia-o num fervedor de alumínio. Quando esfriava, ficava uma película em cima que era retirada. Se calhava eu achar algum bocado daquela pele, eu que odiava leite, ficava agoniadíssima. O leite tinha sempre que passar por um coador. Na escola também nos davam lanche, leite do mesmo género, leite directamente do produtor. Tal como em minha casa, também ali misturavam Ovomaltine para os que não passavam sem isso, tal como eu, senão eram vómitos consecutivos.
Mas esse professor de ginástica trouxe a novidade das garrafinhas de leite Ucal. A meio da manhã de quarta-feira havia um período de descanso. Entre a mudança de actividades, tínhamos que nos sentar e, obrigatoriamente, ir à caixa buscar uma garrafa de leite. Não era daquelas de leite com chocolate que pouco depois conheci e de que fiquei a gostar até hoje. Aquelas eram só de leite e o leite tinha um sabor que me nauseava até às entranhas. Uma professora ensinou-me a conter a respiração e eu assim fazia, tentando beber de penalti numas quantas jogadas. Era o momento de horror naquelas manhãs de que eu tanto gostava.


Mas estes dias tinham uma outra particularidade.

Era normal, na altura, as crianças entrarem para a primária aos sete anos e era também normal algumas não passarem de classe. Tinha colegas uns anos mais velhas, que não ligavam a mínima aos estudos nem se importavam de ser repetentes e isso era coisa que era encarada com naturalidade. Uma delas encontrei há uns anos num restaurante. O restaurante era dela, o marido estava a atender  e ela a chefiar a cozinha. Eu gostava muito dela. Tinha uma irmã gémea, igualmente desligada dos estudos mas que costurava lindamente e fazia fatinhos para as bonecas e para os gatos. Eu achava-as o máximo, sabiam mil vezes mais que eu.


Com rapazes o mesmo. Havia alguns já bem crescidos. Um de que eu gostava imenso fazia toda a espécie de maluquices, andava sempre escalavrado. Uma vez ouvimos bater à porta. A professora abriu a porta e entrou uma senhora, mulher do povo (digamos assim) que, sem o mínimo rebuço, foi lá para pedir à professora para dar ao filho as tareias que fossem necessárias porque a ela, por mais que lhe batesse, ele não lhe tinha já medo nenhum. A professora até ficou emburrada com aquele destempero, dizia que não, que tal não era necessário. E ela insistia que era, que lhe desse com a régua, que lhe desse bofetadas, o que fosse preciso porque, se ele não passasse no exame da 4ª classe, ela tirava-o da escola porque estava farta das desobediências dele. Ele enfiado, os olhos em baixo. Depois do desacato, ela saíu de rompante, da mesma forma como tinha entrado. Fiquei com pena dele. Nunca me passaria pela cabeça que uma mãe pudesse ser assim. Quando contei em casa, a minha mãe também professora, disse com um certo ar de pena: 'Eles, às vezes, fazem-nos perder a cabeça e a vontade é mesmo dar-lhes uns sopapos mas daí até se passar à prática... '

Mas, portanto, nessas aulas a que genericamente chamávamos de ginástica, havia miúdos de diferentes idades. No fim, dividíamo-nos por sexo e íamos tomar banho nos balneários.


E aí era sempre uma festa. Teria eu portanto sete ou oito ou nove anos e estava no balneário com meninas que poderiam ter dez, onze ou doze anos, sei lá se, mesmo mais. O balneário não tinha compartimentos. Eram duas paredes com chuveiros em fiada. Estavamos ao lado umas das outras e de frente para as que estavam na fieira da outra parede. E era uma festa, uma descoberta. Algumas ds mais crescidas, que já começavam a ter maminhas ou pelinhos, tinham pudor, não queriam ser observadas. Mas algumas, mais descaradas, gostavam de exibir o seu desenvolvimento. Por vezes perseguiam as mais pudicas, puxavam-lhes os braços para que todas as pudessem ver. Fugiam umas atrás de outras, havia risos, gritinhos. Lembro-me que, uma vez, uma das meninas mais crescidas não queria tomar banho, dizia que não podia, não queria tirar as cuecas. As outras puxavam-lhe as cuecas, ela já chorava, que não podia. Por vim, já lutavam no chão. Depois, entre lágrimas, ela confessou: estava com a 'coisa'. Eu não sabia do que ela falava. As outras ficaram todas muito curiosas. Ela passou a ser a mais importante. E eu, mesmo sem saber porquê, percebi que isso deveria ser um factor de hierarquização e respeitei, aceitei a sua superioridade, passei a olhá-la com alguma admiração, tentando descobrir mais indícios dessa tal marca distintiva.

Por essa altura o meu corpo era completamente impúbere e era com curiosidade que observava o que se passava no corpo das minhas colegas. Estranhamente não me lembro do que eu fazia nesses duches, provavelmente era um mundo ainda tão distante que me limitava a observar.


Depois dos banhos, umas penteavam as outras. Depois trocavam de roupas, miravam-se, desfilavam, ajudavam-se, umas às outras, a vestir-se. Algumas levavam batons escondidos no fundo do saco de ginástica. Punham umas às outras. Mas a ideia que guardo é que era tudo feito muito à pressa para que ninguém desconfiasse, tudo entre risinhos nervosos e malícias que despontavam. Depois, mal chegavam à porta do balneário, limpavam os lábios, cúmplices. Aí já estávamos todas mais calmas, saíamos de lá a conversar e a rir, desejando que chegasse a próxima quarta-feira.

Nunca comentávamos isto com ninguém. Aquele era um espaço de intimidade e descoberda que era vivido em segredo. Nunca falei nisto até hoje.

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Lembrei-me disto ao ver o vídeo abaixo no qual o fotógrafo Alasdair McLellan fotografa alguns dos novos rostos da moda internacional, aqueles que têm sabido mostrar ter voz própria: The Voices of a New Generation. Algumas dessas modelos estão nas fotografias que escolhi para ilustrar as minhas recordações.


Alasdair’s Girls by Alasdair McLellan and Katie Grand --- para a Love Magazine



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Lá em cima Bernardo Sassetti interpreta Inocência.

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E, se ainda o não fizeram, convido-vos a descer até Silêncio e Tanta Gente.

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quarta-feira, maio 18, 2016

De quantas camadas de pele tem um homem que se despir até que os outros percebam que está em carne viva?


Clara imprimiu uma fotografia de um lugar recôndito da China chamado Yili, um lugar tão lindo que parece um sonho, comprou uma moldura e pregou-a junto à janela, na parede da sala do pequeno apartamento onde Pedro agora vive. É para lá que ele olha quando lhe parece que o mundo escureceu e que um manto de sombras viscosas e doentes se abateu sobre os seus dias. E, por vezes, vendo a poeira dourada que se solta à passagem dos cavalos, quase se sente de novo a cavalgar pela herdade, livre e feliz como então julgava que era. 



Mas depois desvia o olhar. Não quer sonhar sonhos mortos. Prefere olhar o vazio. Há mais verdade no negrume que o circunda do que no rosa florido de árvores longínquas ou no cavalgar ao sol de cavalos que talvez nunca mais torne a ver em liberdade.


De quantas camadas de pele tem um homem que se despir até que os outros ercebam que está em carne viva?

Nos últimos tempos, Pedro foi atravessando, uma a uma, todas as provações que a vida lhe tem reservado.

       Muitos trabalhadores, alguns de tão longa data, estão no desemprego, outros com salários em atraso, outros a trabalharem para novos patrões em condições tão piores que as que tinham. O sentimento de deixar no desamparo aqueles por quem uma pessoa se sente responsável é muito dolorosa. Uma pessoa sente-se desleal, não confiável, um fracasso.

       A mulher de quem já estava quase separado antes de tudo acontecer, moveu-lhe um processo de divórcio litigioso, parece tomada pela insensatez mais absoluta.

       Os filhos parece terem herdado o lado materialista e agressivo da mãe, revoltam-se contra ele, desprezam-no, acham-no um fraco quando antes viviam confortavelmente à sua sombra.

       As irmãs divorciaram-se e ficaram pouco mais que na miséria, para além de deprimidas, meio perdidas, incapazes de se situarem numa nova realidade.

       Vários sobrinhos menores saíram de casa e, por vezes, ninguém sabe bem por onde andam.

      Um dos irmãos suicidou-se, o outro tentou sair do país apesar de proibido e, tendo reincidido, agora está preso.

      A mãe vive num estado de ausência que ninguém percebe se é demência, se é uma fuga à realidade: pouco fala, pouco se queixa.

     E o pai está muito mal, internado, com uma insuficiência cardio-respiratória. Ligaram-lhe do hospital e Pedro, a contragosto, vai visitá-lo.

Antes de ir, uma vez mais, Pedro senta-se em frente da janela, cabeça baixa, e olha o vazio. Por vezes ensaia um sorriso, gostava que o pai o visse forte. Mas logo o sorriso se esvai e fica apenas uma angústia a apertar-lhe o peito.


Embora no desvario que se apossou da família todos culpem todos e, de uma maneira geral, seja sobre si próprio que recaem quase todas as culpas já que, tendo o pai funções não executivas, era ele o administrador executivo com maior poder, Pedro tem dificuldade em assumir-se como inteiramente responsável por toda a hecatombe que, em pouco tempo, submergiu todo o grupo.

À luz do que se passou, não tem dúvidas em concordar que a gestão praticada assentava em bases mais do que frágeis mas a legislação favorecia a não utilização de capitais próprios, as escolas ensinavam que a maximização da criação de valor para o accionista se conseguia quando se recorria a financiamento alheio, nomeadamente ao bancário, os bancos viviam da concessão de crédito, os banqueiros recebiam bónus tanto maiores quanto a carteira de crédito concedida, e assessores e consultores ajudavam na optimização fiscal, na maquilhagem das contas - e o que era preciso era expandir, internacionalizar, e todos os indicadores de gestão assentavam em índices de crescimento que se queriam ousados. 

Não tivesse havido a crise financeira e não tivesse falhado a primeira pedra e todas as outras talvez se tivessem mantido no equilíbrio em que viviam desde há anos. Mas a crise precipitou tudo. E os bancos começaram a executar garantias e, às tantas, já não havia nada material para dar, só dívidas, hipotecas, obrigações a valerem zero, mãos cheias de nada. Os últimos dias foram trágicos com traições familiares, muitos de cabeça perdida, e o pai, prepotente, a fazer disparate atrás de disparate. De quem foi a culpa? Dele? Talvez. Mas de muitos mais. Do poder político, do poder financeiro, da comunicação social que ajudou a manter as aparências, que dourou pílulas que eram tudo menos douradas, da sociedade que fingiu nada perceber. Da família, que se achou dona do mundo. De todos.

Mas, quando o chão foge, fica-se sozinho. Os outros, todos os outros, desaparecem. Quem são? Todos e ninguém. Todos aqueles que, mensalmente recebiam muitos milhares a troco de nada, supostamente a troco de contactos, de uma agenda telefónica bem recheada, esses nem o reconhecem se o virem na rua. 

Por isso, Pedro foi sendo desapossado da sua pele, da sua identidade, da sua auto-estima. Dos seus tão amados livros. Da sua vida. Até das suas memórias. E, as que sobram, ele teima em apagá-las. Em carne viva, agora, Pedro vai visitar o pai.

Clara, uma vez mais, vai acompanhá-lo. Encontram-se em casa dele. Não voltaram a fazer amor mas estão muitas vezes abraçados, em silêncio. Clara tenta animá-lo, sorri enquanto fala e Pedro sente-se mais tranquilo quando ela está por perto.


Pedro não sabe o que vai encontrar no hospital. Não sabe se o pai está lúcido, se também o culpa. Provavelmente sim. É fácil acusar aquele que todos acusam -- e do pai, desde há muito, está habituado a esperar o pior. O velho empresário sempre foi um exemplo para a sociedade mas, em casa, sempre teve um comportamento muito pouco exemplar.

Pedro nunca o disse a ninguém, nem sequer a Clara: na opinião dele, a nível familiar, o culpado de tudo é o pai. As benesses que distribuíu, os contratos ruinosos que fez, as promessas que fez sabendo que dificilmente as cumpriria, o dinheiro que desviou da companhia ainda que de forma que se pode considerar lícita, milhões e milhões, as mentiras que foi contando, a ficção que construiu à sua volta, os investimentos absurdos com que comprometeu as empresas - tudo obra do pai. E ai de quem o contestasse. Talvez só Pedro e um dos irmãos, o Filipe, que não resistiu ao descalabro, soubessem daquela contabilidade criativa e clandestina de que só o pai, na íntegra, tinha conhecimento. Mas também não é agora, em que nada há a fazer e em que não quer correr o risco de precipitar uma morte que se avizinha, que Pedro o vai denunciar.

É, pois, com as mãos transpiradas, ansioso e, até, com medo, que Pedro se aproxima da enfermaria em que o pai está internado. Da porta, olha as camas. Três velhos e nenhum parece o pai. Clara aperta-lhe o braço, tenta encorajá-lo. Ele avança na enfermaria, o coração enervado, sem perceber. Algum daqueles velhos é o pai?

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Lá em cima Bernardo Sassetti interpreta Sonho dos Outros. Com excepção das suas fotografias, as outras que aparecem no vídeo são da autoria de Robert Mapplethorp.
Aqui mais abaixo Kenneth Branagh diz To be or not to be do Hamlet de Shakespeare

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O episódio de hoje vem no seguimento de A primeira noite de amor. De lá poderão ir recuando para os capítulos precedentes. E termina com 'Pedro e Clara - a vida continua'

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Entretanto, aqui já abaixo poderão encontrar um post a que dei o nome de Smile ou Give me a kiss to build a dream on que fala e mostra como é que eu vejo o mar (e quem assim olha o mar fala também da liberdade que sente quanto fotografa, pinta, escreve ou faz tapetes de arraiolos).