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quarta-feira, janeiro 29, 2020

Rui Pinto, a PLMJ, a VdA, a Sonangol, a Isabel dos Santos, as Luanda Leaks, os hackers, os heróis, etc.





Às vezes não há duas sem três. E hoje é dia. Já me deleitei com a graça e com a criatividade da Billie e do Jacob e já falei do Chicão fofinho a ser praxado pelo Miguel Sousa Tavares. E agora vou para a terceira.

No fundo, se me deitasse no divã, quase aposto que o psi descobria que escrever os dois primeiros foi só para empatar a ver se já não chegava aqui. 

E é. A empatar. Porque não sei como dizer. O senso comum aconselha-me a estar sossegada. Até porque, quanto mais não seja, eu é mais bolos. E, quando não é bolos, é rêverie, conversa deitada fora. E, do que não quero falar, nada sei; e não gosto de falar do que nada sei. Intuo. Mas a intuição é daquelas: quer, porque quer, dizer das suas. Há quem diga que é um shortcut que a inteligência usa para chegar lá antes mas há também quem diga que é coisa topológica, bola aberta, coisa intangível, deitação de búzios. 

Mas, enfim, vamos lá. De resto, nada de novo. De umas coisas um recap, de outras meras conjecturas.


Começando pelas conjecturas.
E se isto de ter sido o Rui Pinto a desencadear o Luanda Leaks fosse mera estratégia da defesa para safá-lo, para o apresentar não como um mero hacker mas como um whistleblower? Qual seria o risco disso? 
Vejamos. Um hacker não deixa pistas ou, se as deixa, é para gozar, sabendo que vai chatear o hackeado e que, se tiver juízo, jamais o apanharão. Ou para sacar um resgate. Ou seja, pode ser desporto ou pode ser negócio. Em qualquer dos casos, é actividade de risco. Um hacker não se denuncia. Quando se denuncia, denuncia a sua persona de hacker, não a de cidadão. 

Por isso, não há como provar se foi ele ou se não foi. Se não foi, qual o risco de que se descubra a mentira? Nenhuma. A menos que o verdadeiro hacker (ou hackers) apareça a auto-recriminar-se. Mas isso não acontecerá. O trabalho feito foi obra de pros. E hackers pros fazem da sua actividade um negócio e esse é um negócio que assenta no absoluto anonimato, no sigilo à prova de bala.
  • Portanto, primeira hipótese: não foi o Rui Pinto a hackear (pelo menos sozinho) tudo o que está na base do Luanda leaks. Foram outros, contratados.
  • Segunda hipótese: um rapaz que se dedica a piratear redes informáticas do futebol e que anda atrás de 'podres' para se divertir, para tentar sacar umas massas e para chatear malta com que embirra, não é o tipo de rapaz que sabe exactamente em que redes entrar para denunciar a corrupção em Angola. Portanto, se foi ele, deve ter sido encaminhado. Ou seja, contratado. 
Questão de fundo: quem contratou? 


E agora o recap: quem pirateia uma rede informática de uma empresa não se dedica a uma escolha selectiva, não é pesca à linha -- faz, isso sim,  pesca de arrasto. É mais rápido, mais eficaz. Tudo o que vem à rede é peixe. Se não interessa hoje, interessa amanhã. E pode simplesmente copiar tudo o que está nos computadores das empresas ou pode tentar a sorte e encriptar o que encontra e pedir resgate. Para ganhar uns trocos. E, claro, meanwhile, para um just in case, copia tudo. 
Portanto, se dizem a um hacker: ela trabalhava com os VdA, com a PLMJ, e apanha também tudo o que ela fez na Sonangol e aqui, ali e acolá, é aí que o ou os hackers vão entrar. E não será por acaso que se diz que a Sonangol foi pirateada, que a VdA foi pirateada, que a PLMJ foi pirateada. E, com certeza, mais terão sido. Digo eu. 
E, se as empresas souberam que foram pirateadas, é porque o pirata se manifestou. Ora a forma habitual de um hacker se manifestar é pedir resgate. Se foi Rui Pinto, pediu resgate? E, se o fez, continua a poder ser visto como um whistleblower ou será, antes, um pirata que vende o fruto do seu roubo e, de caminho, ainda pede dinheiro aos assaltados?
E tudo o que estava nos servidores foi, certamente, apanhado. Dos escritórios de advogados certamente os processos de tutti quanti foram apanhados. Do que tinha a ver com Luanda e com meio mundo. Meio mundo.
Admito que terão participado à CNPD e certamente terão informado todos os seus clientes, fornecedores, empregados, etc. RGPD oblige.  E foi, certo? 
Mas não sei se toda a gente terá percebido o significado disto. Será que perceberam que todas as optimizações fiscais, algumas certamente bastante criativas, estão disponíveis e nas mãos de quem pode fazer mau uso delas? Será que já perceberam que todas as movimentações societárias, pagamentos, parqueamentos, encontros de contas e etc, estão onde não seria suposto que estivessem? E isto já para não falar de casos de outras naturezas.
Mas reparem: saber, não sei de nada, tudo isto são meras dúvidas.


E finalmente, volto ao que já abordei acima: pode um hacker ser visto como um herói como a Ana Gomes e outros parecem pretender? A questão não é linear e não é este o local ou esta a hora para dissertações inteligentes, mas a minha opinião é que nem pensar. 

Um hacker é alguém que viola um espaço, que rouba o que encontra. É a mesma coisa que alguém entrar em sua casa, Caro Leitor, roubar o que lhe apetecer e depois vender ou ficar com o que lhe der jeito. E isto já para não falar nos que ainda pedem dinheiro para que os donos possam voltar a usar a  sua própria casa. Claro que, no meio do que encontrar, pode encontrar extractos bancários que levantem suspeitas e que se forem afixados no átrio do prédio ou na parede da sua casa irão certamente dar muito que falar. Mas e daí? Pode admitir-se que alguém arrombe portas, roube coisas, viole a privacidade dos donos?

No dia em que formos permissivos e estúpidos a esse ponto, acaba-se o Estado de Direito.

Quanto ao Luanda Leaks volto à minha: independentemente do mérito da investigação judicial que possa vir a ser feita e das culpas no cartório que venha a provar-se que os envolvidos possam ter, aquilo de que se tem vindo a falar é apenas um cagagésimo da história, de uma história que tem muitas faces e muitos reversos e onde muita gente se esconde atrás de espelhos.

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As mulheres ao espelho foram pintadas, respectivamente, por Korobkin Anatoly, Mose Bianchi, Ferdinand von Lütgendorff-Leinburg, Jean-Étienne Liotard e Gerard ter Borch e vêm ao som de Walking in the air interpretada pela Aurora.

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E queiram continuar a descer para visitar o Chicão e, a seguir, a Billie e o Jacob -- ou, então, não.

E uma bela quarta-feira para si que está aí desse lado.

sexta-feira, janeiro 24, 2020

Isabel dos Santos, Manuel Vicente, Luanda Leaks, demissões, mortes, vinganças, ameaças, etc.
-- aconselharam-me a não escrever mais nada sobre o assunto e, pensando bem, o melhor é mesmo não falar


Hoje disseram-me para não escrever mais sobre o tema. E eu fiquei a pensar nisso.

Quando ouvi que o Nuno Ribeiro da Cunha tinha aparecido morto apeteceu-me não ter escrito o que escrevi ontem à noite. E, quando, sem surpresa, vejo que estão a começar a aparecer coisas que eu antevi, também me apetece não escrever mais nada. 

Agora mesmo alguém espreitou para o que eu estava a escrever e disse: 'Não te disseram para não escreveres mais sobre isso? Pára. Não escrevas mais nada.'. Respondi que não estou a escrever. E não estou.

Hoje também avisei uma pessoa de que, com alguma probabilidade, o conteúdo do seu computador tinha ido na rede de arrasto. E essa pessoa, que já está suficientemente apreensiva com tudo isto, ficou a olhar para mim sem dizer nada. Acho que isso ainda não lhe tinha ocorrido. Não deve ser uma sensação agradável. Mentalmente, deve começar a pensar-se em tudo o que está na mailbox, tudo o que está nas diversas pastas. 

E depois há outra coisa, e nem vou falar no impacto que tudo isto pode ter (e já está a ter) nas empresas portuguesas detidas por sociedades dela, impacto esse que pode não ser coisa pouca: estou a falar nos bancos que financiaram as aquisições dela em Portugal. Na era passista, quando andavam todos a babar de roda dela, todos dispostos a passar tudo a patacos, em especial se fosse para vender a estrangeiros (e tanto que eu aqui clamei contra isso: angolanos, chineses, tudo servia) não pararam para pensar que o risco das operações não estava nela, estava era nos bancos. Não conhecendo eu a situação, prevejo que ainda deve ter grandes dívidas junto desses bancos. Nada por aí além pois alavancagem financeira é o que não falta. Mau é quando as garantias e colaterais são fracos ou, quando necessários, não materializáveis, e quando deixam de ser pago o que é devido de acordo com o plano de amortizações acordadas. E, nesta situação, com o que está a acontecer, como é que ela vai entregar alguma coisa? Mais imparidades para os bancos e tomara que não venha aí buraco do grosso, daqueles que, para evitar perturbação no sector bancário, obrigam a injecção pública de capital. Tomara.

Portanto, read my lips: esta história que é, em primeiro lugar, uma história angolana em que, a ter havido algum crime, ele diz respeito a Angola, pode ainda ter ondas de choque substanciais em Portugal.

Aquilo que eu temia, que as empresas portuguesas onde ela tem participação sofressem com o impacto desta guerra de facções angolanas -- coisa que não diz respeito aos portugueses -- pode muito bem vir a acontecer. E que algumas coisas estranhas começassem a acontecer também.

Depois da PwC e a BCG já estarem a descartar-se, como se tivessem andado a fazer os trabalhinhos de olhos fechados, e alguns dos seus quadros estarem a saltar como se tivessem sido eles a fazê-los sozinhos, à revelia dos partners, ia agora dizer que a VdA também deve estar a deitar contas à vida mas, na volta, não. Isso é polvo que está tão ramificado, defendendo uns e outros e até uns e a parte contrária, que são muito bem capazes de passar por isto sem terem que encolher depois de tão exuberantemente terem inchado -- vidé as suas fantásticas novas instalações. De qualquer maneira, com tudo o que é BCBG a trabalhar com eles, toda a documentação do escritório deve estar na mão de quem mandou piratear todas aquelas redes informáticas. Toda, incluindo documentação de outros clientes, de outras empresas. Mas, claro, isto sou eu a supor.

Mas adiante até porque, de resto, como disse, não quero continuar a levantar pedras pois, de cada vez que o faço, sai de lá um espírito que se materializa pouco depois.

quinta-feira, janeiro 23, 2020

Isabel dos Santos está sozinha no olho do furacão do Luanda Leaks?
Ou, nesta história, dá para brincarem uns com os outros ao 'quem diz é quem é'?
Pergunto.


Nuno Ribeiro da Cunha, diretor do private banking do EuroBic e o gestor da conta da Sonangol que efetuou algumas das transferências suspeitas no caso Luanda Leaks, foi encontrado com ferimentos graves, na casa de férias da sua família, no dia 7 de janeiro. A notícia está a ser avançada pela TVI, que garante que a Polícia Judiciária (PJ) está a investigar uma possível suspeita de tentativa de homicídio ligada ao caso que envolve Isabel dos Santos. O Observador confirmou a informação junto de uma fonte da PJ, que confirmou não estar excluída a suspeita de tentativa de homicídio.
De acordo com a TVI, Nuno Ribeiro da Cunha foi encontrado pela empregada na casa de Vila Nova de Milfontes com ferimentos graves nos pulsos e no abdómen. À PJ, terá dito ter-se tratado de uma tentativa de suicídio ligada a uma depressão. [...]
(in Observador)

Mas isto nem tem nada a ver com o que escrevi ontem nem com o título deste post, é apenas um fait-divers. E provavelmente não vai despertar a empatia de nenhum dos leitores da notícia, tenha Nuno Ribeiro da Cunha sido vítima de tentativa de suicídio, tenha sido vítima de uma tentativa de homicídio. Quando alguém cai em desgraça, meio mundo pisa e salta a pés juntos em cima --  não só dessa pessoa como de todos os que, de alguma forma, lhe eram próximos. É da natureza humana que, como é sabido, é muito próxima à dos ratos.

No outro dia, em conversa informal sobre estes assuntos (e ainda nem tinha rebentado a bronca que dá pelo nome de Luanda Leaks) alguém me dizia: cuidado com esses meninos, é barra pesada, qualquer dia ainda aparece alguém a boiar no Tejo. Pois. Mas, enfim, como se diz, dizer isso vale o que vale. Mera vox populi.

E, estando eu hoje numa de ideias desencontradas, digo também que seria curioso que os senhores jornalistas e senhores comentadores fossem atrás da dica da Isabel dos Santos sobre quem financiou esta so called investigação. Mas sobre isso não ouço falar. Ora, cá para mim, toda esta intriga ganharia uma dimensão mais interessante se se seguisse também essa linha de investigação. Cherchez la couleur de l'argent.

E, diria eu, também seria curioso saber como exactamente é que a coisa se passou: foram contratados hackers, certo? Seria interessante conhcer quem contratou quem. Contrataram hackers que varreram os computadores de tutti quanti (centenas de milhares de documentos obtidos sabe-se lá em quantas redes informáticas de empresas, escritórios de advogados, conservatórias, bancos e/ou computadores pessoais: escrituras, balanços, balancetes, extractos, mas também relatórios médicos, correspondência privada, fotografias de família ou íntimas, etc)? Pergunto. E nisto, que eu saiba, não é cherry picking: é mesmo pesca de arrasto. Tudo. Copiar tudo o que se apanha. Depois como foi? Foi tudo vendido, bulk, aos jornalistas? Pergunto. E eles, os do tal consórcio de jornalistas? Como 'agarraram' nisso? Com que critério e conhecimentos cruzaram informações entre setecentos e quinze mil documentos das mais variadas proveniências? Dedicaram-se a vagaroso puzzling (e atenção à ambiguidade do sentido da palavra)? Ou ficaram-se pelo que dá parangonas bombásticas? Ou pelo que é conveniente a quem financiou a pirataria? Pergunto. Só pergunto. E, ao varrerem toda a informação dos locais pirateados, o que foi feito ao que não dizia respeito à Isabel dos Santos? Destruíram...? Ou é maná, informação que está guardadinha para um just in case? Para chantagearem A ou B? Para extorquirem dinheiro a C ou D? Para ficarem com E e F na mão...? Etc. Mas, enfim, são meras perguntas. Dúvidas minhas.

E pergunto isto sem pôr em causa o mérito de uma investigação séria que venha a acontecer. A quem confunde as minhas dúvidas com o branqueamento da responsabilidade do que quer que tenha sido feito e que venha a ser provado ser crime, esclareço de novo: não branqueio nem desculpabilizo coisa nenhuma. Apenas, como sempre, reservo-me para acreditar apenas no que é provado ou do que foi constatado em pleno acto. Deformação profissional. Neste como em qualquer caso, antes de ser provado, tudo é apenas uma hipótese. E volto a dizer: face ao que se conhece desse caso (a cultura, os hábitos, a envolvente, a entourage, etc) é provável que tenha havido movimentos tocados pela ilicitude. Portanto, a ser verdade, deve ser fácil de provar. E, se for provado, pois que se faça justiça.

Até lá, cuidado com os juízos apressados e primários, cuidado com o maniqueismo, cuidado com as vistas curtas. Cuidado com os jogos de espelhos. Cuidado com as manipulações.

E cuidado com os ratos que fogem e batem com a mão no peito ou com os histéricos que, quais cães a correr atrás de qualquer osso que se atire, agora rosnam contra a Isabel dos Santos e se esquecem dos outros, dos que estão atrás dos espelhos, ou dos outros de que ninguém fala mas que também têm trazido dinheiro para Portugal cuja origem se calhar também está toldada por ilicitudes ou por atentados aos direitos humanos. 

E volto a dizer: quem agora muito saltita e pipila são os pardais, histéricos com este primeiro punhado de grãos de milho que está a ser atirado. Mas há ainda o que virá a seguir... ou o que nunca se saberá. Oxalá é que a atenção da turbamulta se aguente desperta até lá. E que haja lucidez e não o habitual primarismo que é o terreno fértil de que se alimentam os populistas e os vulgares justiceiros populares.

quarta-feira, janeiro 22, 2020

Luanda Leaks: hacking legal, é isso?


Nisto tudo, independentemente do mérito da investigação e do que venha a resultar daqui, ocorrem-me algumas dúvidas: 
  • Como foi mesmo que obtiveram todos aqueles milhares de documentos? Será que foi da mesma maneira que o Rui Pinto obteve os documentos do Benfica? Daquela tal maneira que faz com que esteja preso? Ou há modalidades legais mesmo que sem consentimento do proprietários da informação? Pergunto.
  • E mais: a SIC participou da investigação, não foi? Como? Quem? Se calhar já explicaram isso, eu é que, na volta, não li ou não ouvi. Mas estou curiosa. A palavra de ordem não é transparência? Então vamos todos ser transparentes...? 
  • Outra questão: ouvi bem quando alguém falou nos serviços secretos de Angola metidos nisto? Ou não ouvi?
E uma observação. Uma observaçãozinha mais. Coisa de nada: é que me parece que este assunto não é para meninos. Nem para virgens. Nem para santinhos. Este assunto, cá para mim, é dos cabeludos. Diria mesmo: dos perigosos. Cuidado com o que se está a passar. Mas, claro, isto sou eu a pensar. Coisa de intuição. Provavelmente é o tal sexto sentido, coisa de mulheres. Só isso.

terça-feira, janeiro 21, 2020

Isabel dos Santos, de princesa boaz$nha a bruxa má?


Quem a conhece diz que é simpática, simples, afável. Sei de quem, numa situação em que é usual obter tratamento de privilégio para algumas pessoas, lhe sugeriu isso e ela não o quis, optando por ficar em situação de igualdade no meio de pessoas que, certamente, nem terão reparado que era a 'princesa' que ali estava. Não sei se isto diz alguma coisa sobre ela para além disto mesmo -- mas fica o apontamento.

Sei também de um ou outro caso, e um deles é público. A equipa de gestão que escolheu fez razia. E, no entanto, sabendo-se o que se sabe, não se pode dizer que a razia não estivesse mesmo a pedir para ser feita.

Sei também de quem disse, ao falar-me de um certo lugar de Luanda: um condomínio de luxo, fantástico -- da Isabel, claro.

Sabe-se também como todos queriam usufruir do dinheiro dela. Portugal em crise, endividado até à medula, a economia em seca severa depois da liquidez circulante se ter escoado. Um dia, eu própria sugeri: 'E porque não apostarmos também para Angola? Dinheiro é o que não falta, contactos com ela também não. Ela quer investir, ela quer parceiros idóneos, ela quer ganhar credibilidade. Porque não?' Obtive um liminar não!: 'É nossa política não nos metermos em esquemas'. Contrapus: 'E será que ainda é assim? Ocidentalizada e moderna como é, será que é de esquemas?'. Do outro lado um sorriso: 'Ali tudo funciona com base em esquemas'. Nunca mais toquei no assunto pois os sinais iam chegando de que assim era.

Um dia, uma outra pessoa contou-me: 'Para um casamento da família, um avião fretado só para levar flores da Holanda'. E descreveu como foi. E uma pessoa, ao ir ouvindo, vai-se torcendo. Não era ela mas alguém próximo. Mas nem era isso, em particular: era, isso sim, o modo de vida da entourage. Luxo. Dinheiro. A rodos. Um excesso mas um excesso que custa mais a encarar de frente quanto se sabe da pobreza da população, quando se sabe da perseguição a quem denuncia, a quem se opõe.

É certo que dinheiro gera dinheiro. Os melhores consultores, os melhores advogados, as oportunidades sabidas em primeira mão. Sempre assim foi, sempre assim será: dinheiro gera dinheiro.

Mas eu falo do que sei e o que sei é pouco, é nada, e embora seja fácil admitir que talvez tenha mesmo usufruido de facilidades e de facilitismos, nada sei em concreto do que se passou ou de como se passou. Não parece difícil acreditar no desvio para paraísos fiscais mas deve falar-se do que se sabe e do que se tem como provar. Ou isso ou optimização fiscal. É o que os bons fiscalistas fazem: explicar, a preço de ouro, como é. Ou parquear acções aqui ou acolá, parquear a fortuna aqui e a dívida ali, gerir a política de dividendos com inteligência, umas vezes com ousadia, outras com pinças. É este o mundo dos grandes investidores, dos grandes empresários.

Claro que há os que têm a ética e a consciência social no seu ADN e há os que almejam lá chegar, um dia. Para todos, a sustentabilidade já é palavra de ouro, uns porque sim, porque sempre lhes foi conceito caro, outros porque é moda e querem estar updated, estar naquele ponto a que se chama state of the art. Não é fácil, para quem não está por dentro, distinguir com exactidão os que são e os wanna be. 

Quando uma empresa consulta fornecedores, consultores, advogados ou quer fazer parcerias e tudo vem bem sustentado, as contas estão auditadas, não há risco de crédito, tudo está em ordem, é normal responder e estabelecer parcerias. Não se vai investigar a pureza de intenções nem se tem como investigar a origem do dinheiro. Portanto, é bom que os jornalistas -- que pouco sabem disto -- ou a malta que pulula nas redes sociais não desatem a fazer juízos primários ou numa absurda caça às bruxas como se todas as empresas que têm ou tiveram alguma interacção com a 'princesa' fossem corruptos ou, pelo menos, esquemáticos. Ou seja, haja alguma ponderação e inteligência: não falem do que não sabem nem saiam a disparar para todos os lados.

Não estou a defendê-la, longe disso. Se desviou dinheiro público para contas privadas em offshores, se usurpou benefícios indevidos ou coisa do género, isso é uma coisa e é bom que a justiça investigue a fundo e, de forma célere, isenta e eficaz, faça o seu papel. Outra coisa é andar a malta de faca afiada porque a mulher é rica ou filha do Dos Santos -- como se isso, só por si, fosse crime.

E outra coisa: sobre empresas de diamantes ou imobiliárias ou resorts de luxo no Brasil ou em Luanda ou onde seja ou outras empresas não me pronuncio. Não tenho qualquer informação para além do que se vai lendo. Agora sobre as empresas em Portugal ou outras que tenham participação em empresas relevantes em Portugal, aí já me preocupo. Não nos esqueçamos que isto que se está a passar causa danos reputacionais nas empresas em que Isabel dos Santos tem participação. E os danos reputacionais por vezes matam as empresas. Antes de pensarmos apenas no facto de ela ser, directa ou indirectamente, accionista, pensemos nas pessoas que lá trabalham e que não têm nada a ver com isso, pensemos nas suas famílias, nos fornecedores e clientes dessas empresas. Milhares de pessoas. Não matemos empresas com a mesma leviandade com que o Passos Coelho resolveu matar o Grupo Espírito Santo. 

Finalmente: uma vez mais o Banco de Portugal parece ter demonstrado que é um peso morto, uma mão cheia de nada. Em relação às operações num banco conotado com ela (e, mais do que conotado, diga-se) o Banco de Portugal, não viu, não desconfiou, não previu, não monitorizou...? Nada..? Dizem que não. E isso é assustador. Aparentemente não serve para nada. Não policia coisa alguma. Um regulador de luxo que, aparentemente, não serve para nada.

Algum dos senhores jornalistas que gosta de andar atrás de frioleiras já alguma vez olhou para o orçamento do Banco Portugal? Algum dos senhores comentadores que enxameia as televisões já fez o deve o haver do Banco de Portugal para ver se ficamos a ganhar alguma coisa com a sua existência? Tenho cá para mim que haveria de ser giro. 

Mas, claro, a incompetência e a inutilidade do Banco de Portugal não desculpam nem atenuam os crimes de Isabel dos Santos -- a ser provado que existiram, claro.

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As ilustrações que representam Isabel dos Santos foram obtidas na net sem que tenha conseguido descobrir a sua autoria

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quinta-feira, janeiro 16, 2020

O que custa uma pessoa ter que se levantar quando está no melhor dos sonos


Contaram-me que um tal que saíu de uma das empresas depois de um conturbado processo já se reformou. Como o fez antes da idade certa teve uma penalização considerável mas, como tinha um ordenado base elevado, a redução não lhe faz mossa. Para mais, recomeçou a trabalhar, agora como assessor. Contam-me isto como se fosse coisa boa, invejável, e eu só penso que cada vez percebo menos as pessoas que parece que não conseguem deixar de trabalhar. Disse: 'Eu, um dia que me reforme, nem pensar em voltar a trabalhar. Acho que nem vou querer saber de nada que se relacione com as empresas em que trabalhei nem saber de nada relacionado com as matérias que me têm ocupado em todos estes anos'. Quem me ouviu, reagiu com estranheza: 'Ah, não diga isso... Com certeza que receberá convites. Não vai dizer que não. Não a vejo a querer ficar em casa'. Pois, não quero saber se vêem ou se deixam de ver. Me dá igual.

O que sei é que começa a custar-me ter que me levantar cedíssimo nos dias em que tenho reuniões à primeira da manhã no cu de judas. Não sou de me deitar cedo e nem vale a pena tentar. Se for para a cama sem estar perdida de sono, agarro é uma espertina. Claro que poderia ir recuando nos meus horários mas o meu ritmo é outro, conduz-me incontornavelmente para a noite. E tudo bem se puder dormir, de penalti, aquelas horas que me deixam bem. Bastam-me poucas mas têm que ser de seguidinha e até à hora a que me levanto na boa.


Agora, se a alvorada é de noite, está tudo estragado. Acordar e não ver raio de luz, espreitar a rua e ver as ruas desertas e escuras é coisa que me condiciona o sistema nervoso, o límbico, tudo. Levantar-me a meio do sono, a precisar de dormir mais um bocado, deixa-me incompleta. Pode ninguém dar por isso mas dou eu. Sinto que falo mais pausadamente e os outros pensarão que estou mais ponderada, menos impulsiva. Mas eu sei que é a maneira que tenho para conseguir falar enquanto, por dentro, estou a meio gás. É que me levanto desfalcada de sono e, depois, não mais consigo repôr a energia pois meto-me no carro e aí vou eu para depois entrar num edifício, subir à sala de reuniões e, quando estou é a precisar de me reorganizar mentalmente, tenho que me sentar a uma mesa cheia de homens e desatar a falar de temas que requerem atenção.

Podia, é certo, ir hoje mais cedo para a cama. Mas está bem, está. Agora estou a ver a Isabel dos Santos numa entrevista de qualidade. Inteligente. Bonita, segura e empresária. Empresária da cabeça aos pés, no sangue que lhe corre nas veias. E quanto ao resto a justiça o dirá. Não lhe conheço os balanços nem as demais peças contabilísticas nem as movimentações societárias e/ou financeiras para poder ajuizar. Portanto, limito-me a ouvir. Com interesse.

Enquanto vejo televisão e me queixo destas minhas frivolidades, desloco-me até ao YouTube para pescar uma musiquinha boa. E pimbas, qual big brother escrutinando o que escrevo ou como me sinto, avança com uma sugestão: 

Alarm clock and getting up | Mr Bean Official


E é isto.

Já agora: a senhora a dormir não sou eu até porque não uso camisa de dormir. Quem a caçou naquela falta de compostura foi Francesc Gimeno

Até já.