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sábado, janeiro 21, 2023

As anjinhas da Victoria's Secret antecipam o Dia de S. Valentim
-- quem as viu e quem as vê...

 

Bem sei que a Jacinda Arden teve um gesto insólito e louvável e que merece todos os louvores. E também sei que felizmente a dessalinização em Portugal começa a ser encarada a sério, como um investimento essencial e crítico. E também sei que o Pedro Nunes Santos afinal deu o ok ao meio milhão da Alex Louboutin, outras das ex-tapianas de boca aberta, e que o deu, en passant por whatsapp, tão em passant que a coisa até já se lhe tinha varrido, isto apesar da badalação.

E tantas mais coisas.

Só que tenho que me rebalancear, aprender novos ritmos, costurar novos hábitos. E adquirir doses de paciência para conseguir decantar os excessos, filtrar, esperar que assente, não gastar prosa com o que acabará por se dissipar.

Por isso, lamento, estou outra vez numa lateral.







Estando a aproximar-se essa data extraordinária que tem tudo a ver com a nossa história e a nossa cultura, por via das dúvidas, não vá algum de vós esquecer-se de que é altura de pensar nos preparativos, aqui estão umas fotografias e um vídeo que contém sugestões interessantes. Para todas as idades, para todas as silhuetas. Basta gostar de brincadeira.

Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Bom apetite. Paz.

segunda-feira, outubro 03, 2022

Spray me, dress me

 

Ela caminha, lentamente, com a subtileza silenciosa de uma gata etérea e pouco segura. 

Está quase nua. A mão oculta, sem ocultar, os seios. 

Os homens aproximam-se, cercam-na. Não a olham com curiosidade ou desejo. O olhar deles é técnico. Experimentaram muitas vezes antes o que vão fazer: tudo tem que ser rápido, eficiente e perfeito. 

Bella é, agora, uma tela, a superfície sobre a qual vão trabalhar.

Bella mantém-se imóvel, o olhar distante, o corpo não tem alma, o corpo agora é apenas o objecto sobre o qual o milagre vai acontecer.

E eles revestem-lhe o corpo, aplicam o produto, vaporizam-na. Um graffiti branco, um véu, um tule que se vai transformando.

No fim, uma outra mulher aparece para os retoques finais: uma abertura na saia para que o andar flua como flui o deslizar das gatas, as alças caídas para que os ombros melhor reflictam a luz que a ilumina.

No fim, depois do momento irreal, Bella está vestida, elegante, bela, segura como uma gata feliz. 

Bella Hadid closing the Coperni SS23 show in a dress sprayed onto her live on the runway

Aconteceu no desfile na Semana da Moda em Paris com a marca Coperni. É ciência, é técnica, é arte. E é um salto gigante na indústria da moda e da indústria têxtil. 

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Spray me

sexta-feira, agosto 06, 2021

Depois das cenas mais duras do que puras que vivi durante o dia, só mesmo a Miranda para me fazer rir agora à noite

 


Bem. Se há dias em que tenho pena de não poder ser mais explícita hoje é seguramente um deles. Estive num sítio que faz favor. Não foi em lazer. Foi trabalho. Trabalho puro e duro. Mais duro do que puro. Barra pesada, para dizer a verdade. Se eu aqui contasse não iam acreditar. Cenas do caneco. Mais concretamente: coisas de gargalhada e coisas tétricas, em igual dose. 

Vim de lá às sete e tal. 

Viagem de regresso ainda longazita. Voltei a um dos meus good old habits: aproveitar a viagem para os telefonemas familiares. Quando cheguei e vi as horas, receei que o meu marido me chamasse a atenção para isto de que ando, ando, e qualquer dia estou outra vez a trabalhar muito para além do razoável, quiçá fazendo com que o meu coração se vire outra vez do avesso. Felizmente, estava no jardim a pintar o muro e acho que nem reparou nas horas. 

Vestiu uns calções de praia com que sempre gostei imenso de vê-lo, uns brancos, com umas riscas de tamanho irregular em azul claro e verde claro, que fazem um quadriculado também irregular. Já não têm cordão e por isso já não os usa na praia. Hoje estava com eles com um cinto por cima, todo fashion. Tinha uma tshirt branca justa que usa por baixo das camisolas quando faz caminhadas. No fim de semana tinha começado a pintura do muro e tinha este mesmo outfit. Os netos quando o viram da rua, estava ele de costas, disseram que não podia ser ele, que o avô não estava em tão boa forma. Não costumam vê-lo assim. Quando confirmaram que era ele, até o elogiaram. Não mostrou ficar sensibilizado com o elogio mas sei que ficou. Ao vê-lo assim até pensei fotografá-lo -- de costas, bem entendido -- para fazer a vontade à Lucy. Mas pensei que, se me punha com coisas, ainda ele se distraía do muro e se aborrecia por eu estar a chegar a casa tão fora de horas. Portanto, fiz-me de despercebida e estive foi a gabar a excelência da pintura.

Gostava que ele pintasse também o portão da horta mas não posso pedir muitas coisas ao mesmo tempo senão arrelia-se. Tem que ser coisa a coisa. Mas isso, em mim, é contranatura pois, ao ir vendo as coisas a serem arranjadas, vou tendo novas ideias. Mas se lhe digo: 'Olha lá, e se, aqui em baixo, puser uma carreira de vasinhos?'. Ele passa-se. 'Mais vasinhos é sinónimo de comprar mais vasos, mais flores, andar a pôr terra, andar a regar. Por isso, pára.' Digo assim, como se esta conversa não tivesse acontecido mas aconteceu. E ele mandou-me mesmo calar. Calar e parar. Calo-me mas fico a magicar. Será que ali ficariam bem os tais vasinhos azuis com florzinhas azulinhas? Ou aquelas lindas, etéreas, que no verão ficam cor de rosa, aquelas que estão no jardim dos franceses ali à frente, e que ainda não encontrei em lado nenhum? 

Só tenho coisas que me ralem.

Mas, dizia eu, estive num lugar em que vi e ouvi de tudo e em que tive saudades daqueles meus colegas de tempos épicos em que entrávamos em qualquer lugar, nós, um grupo de quatro ou cinco, e toda a gente sabia que éramos um grupo unido e forte. E, mal saíamos dali, não apenas tomávamos todas as decisões que eram necessárias como nos divertíamos à brava. Agora é tudo gente que se leva muito a sério, ninguém se diverte, ninguém ri com o lado caricatural das coisas.

Os problemas de hoje são, por vezes, o oposto do que eram antes e as pessoas que têm a incumbência de os resolver são também o oposto do que eram. O mundo mudou muito. Está cada vez mais chato.

Por isso, foi com imenso agrado que constatei, uma vez mais, que o algoritmo do YouTube tem bué de inteligência artificial. Descobre o meu estado de espírito e, se é assim-assim, aplica-me o devido antídoto. 

Já me fartei de rir. Era mesmo disto que eu estava a precisar, caraças. Não conhecia a Miss Miranda e esta, sim, esta é cá das minhas.


Estou fã dela. Com este vídeo aqui abaixo até me fez lembrar daquela vez em que, num hotel, me inscrevi, como sempre faço, para uma massagem. Tudo normal até ao dia em que, em vez de uma massagista, se me apresenta um massagista. Tipo indiano ou nepalês. Não sou de ficar a dar risadinhas ou a trocar palavras. Aparento comedimento. Mas, por dentro, numa atrapalhação. Fiquei sem saber se havia de fugir, se deveria aguentar-me ali, estoicamente. Optei pelo estoicismo. 

Nos outros hotéis ou institutos ou whatever, as massagistas saem, dizem para nos despirmos e taparmos com uma toalha e, só ao fim do tempo suficiente, voltam a entrar. Ali, contudo, não. O massagista mandou que eu me despisse. Pensei: Mas vou fazer striptease à frente dele? Está maluco. Perguntei-lhe: Aqui?. E ele que sim. Corajosa, virei-me de costas para ele. Depois pensei: Mas agora vou-me virar de frente e caminhar de frente para ele? É o vais. Hesitei. À distância de vários anos, lembro-me que pensei que deveria era voltar a vestir-me e dizer que massagens só com mulheres ou com gays. Como ele não tinha ar de gay, nada a fazer. Mas depois pensei 'que se lixe, não há-de ser nada'. Quando me virei, estava ele a segurar a toalha ao alto, ele por detrás da toalha. Respirei de alívio e, se estivesse descontraída, provavelmente teria soltado uma gargalhada. Deitei-me e ele baixou a toalha. O que se passou quando eu não estava de olho nele, não sei. Mas, do que vi, foi discreto. Mas que eu estava atrapalhada, lá isso estava.

[Fui agora à procura e encontrei o post. É praticamente como acima o descrevi. Já não me lembrava do delicioso pormenor do soutien. Delicioso. A ver se esta porcaria do corona se evapora para lá voltar a ver se ele ainda lá está]

Aqui a cena não é com um 'terapeuta', é com um médico.


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enquanto Billie Eilish interpreta Lost Cause

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Já adormeci dez vezes e nem consegui ver quase nada do House. Agora nem Netflix tenho conseguido ver. Por isso, só espero que não haja bandos de gralhas

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Uma feliz (thanks god it's ) friday

quarta-feira, julho 03, 2019

Será que ainda sou deste mundo?





Comecei o dia muito cedo e sabia que a coisa não ia ser fácil. Mas foi ainda pior. Na sequência de uma outra faena que tinha sido também bem complexa, ia preparada para esgrimir argumentos num sentido. Acho que sou dura na queda e, se acredito numa coisa, defendo-a com convicção. Mas não ia preparada para mais um flic-flac da outra parte. Suponham, os meus Caros, que, por exemplo, eu fazia uma cuidada e equilibrada dieta mediterrânica e tinha pela frente um pançudo que comia quilos de bifes a escorrer sangue, carregados de molhos picantes e acompanhados de quilos de batatas fritas. Ia preparada para o esclarecer sobre os malefícios do seu regime. Contudo, ao sentar-se à minha frente, para minha surpresa, ele apresentava-se como vegan. Eu a ver que não mas ele, convictamente, a esgrimir argumentos opostos aos expectáveis, a dar-me, a mim, lições de boa alimentação. Desconcertada, sairia dali furiosa. E, dias depois, indo eu preparada para rebater as vantagens do regime vegan, apanho-o pela frente e agora já não é vegan mas adepto de um regime à base de ovos crus e vinho do Porto. Ou seja, uma conversa de surdos, divergente, uma conversa impossível, assente em coisa nenhuma. Assim foi. Um cansaço e uma deprimente perda de tempo.

E quando, depois disto, me preparava para um almoço descansado, ainda que breve, eis que desaba um problema, coisa na base do susto completo: a possibilidade do céu nos cair em cima da cabeça vista de perto. Declaração de situação de emergência, um grupo sem saber bem o que estava a acontecer -- mas que não era bom não era. E sem que quem talvez pudesse ajudar atendesse o telefone. Uns com o telemóvel no silêncio, outros com o telemóvel no bolso e, no restaurante, sem ouvirem.

Depois, finalmente, uma explicação, um grupo de crise montado, a resolução a caminho.

Um almoço a correr, entre telefonemas, mails e mensagens.

E logo de seguida outra reunião e mais situações e diferenças de pontos de vista e mais coisas e mais coisas e mais coisas e mais reuniões nos próximos passos.

E, ao sair, mais uma chusma de mails e recados e problemas e sei lá que mais. E uma constipação a caminho.

Ao chegar a casa, meio exaurida da cabeça e a sentir-me engripada, diz o meu marido: eu se fosse a ti não ficava por dormir como dormes, sem nada por cima, janela aberta: ligava a ventoinha e apontava bem às costas.

É que não apenas sou eu que durmo do lado da janela (aberta) como durmo sem patavina em cima. Ele, ao meu lado, tapa-se com lençol e manta (fininha mas manta). Volta e meia ainda tenta pôr-me uma perna por cima mas tem a perna tão a ferver que o enxoto logo, não suporto dormir com um tição em cima. No inverno, como também durmo com pouca roupa, sabe-me bem encostar-me a ele mas no verão é impossível. 

E, na volta, ele tem mesmo razão, é mesmo capaz de ser o frescor da madrugada, que chega com gritos de gaivotas, que me causou um resfriado. Anda incerto este tempo. Todos os dias, ao ver o tempo que faz no dia seguinte, vacilo entre preparar vestes estivais ou prudenciais.

Mas isto tudo para dizer que há dias complicados, com pouca coisa boa.

Valeu uma coisa: enquanto conduzia, uma reportagem sobre  ECT, tratamentos com electrochoques. Juraria que foi na Antena 2 mas agora, antes de escrever, fui confirmar e não encontro. Para mim, um tema surpreendente. Falavam pessoas bipolares, outras com depressão, um com esquizofrenia. E falavam psiquiatras. E eu ia a ouvir com muito interesse, com vontade de conhecer melhor esta realidade, com muita pena das pessoas que sofrem assim, muitas vezes sentindo-se estigmatizadas, muitas vezes sem compreenderem porque se sentem tão arrasadas.

Pensei numa rapariga que trabalha numa das empresas e que desliza pelos corredores, com ar alheado, muitas vezes como se estivesse à beira das lágrimas. Quando a vejo passar assim, como se não estivesse ali, tenho vontade de a puxar para o meu gabinete e pedir-lhe que me conte o que se passa. Mas não sou psicoterapeuta, receio não saber lidar com o que imagino ser uma situação muito pesada, um outro mundo, um mundo onde não deve ser nada fácil estar, onde não se entra como se de visita -- teria que saber ajudar e temo não saber. 

E agora, enquanto escrevo, está a dar a Prova Oral com o grande Alvim e está lá o Manuel João Vieira e eu simpatizo tanto com ele. No outro dia, eu ia a descer as escadas que mergulham num parque subterrâneo e, à minha frente, ia um homem grande, de físico pesado, chapéu de aba larga. Ao fim do segundo lance, ele entrou para o parque e, nessa viragem, eu, que continuei a descer porque tinha o carro num piso mais abaixo, vi-lhe o rosto: era o Manuel João. E eu, em silêncio, soltei uma exclamação: 'Ah! O Manuel João!' e tive mesmo vontade de ir atrás dele e dizer-lhe: 'Simpatizo imenso consigo'. Mas nunca fiz isso com ninguém, não ia estrear-me logo com ele. Seria embaraçoso para ele e para mim. A fazer alguma coisa, teria que fazer uma coisa lógica, à altura dele, não um elogio dito de forma meio irracional.

No programa está também a Fanny que fala de coisas que não são já bem do meu mundo, diz que faz stories para manter o número de seguidores, e eles, ali no programa, mostram uns pequenos vídeos onde ela faz toda a espécie de parvoíces. Dá ideia que quanto mais parvoíces fazem para postar no Insta mais gente os segue. E nem sei bem que espectáculo é aquele em que ela vai entrar com o José Castelo Branco, fala creio que em roast. Quando lhe perguntaram um momento especial de manifestação de apreço, se foi quando saíu de algum reality show, a Fanny contou que uma mulher pôs uma mama de fora e pediu para ela a autografar. Uma coisa assim talvez fosse à altura do Manuel João. Eu, de salto alto, muito comportada, e fazer-lhe uma destas. Contudo, acredito que ele, na verdade um cavalheiro, ajeitasse o chapéu para disfarçar alguma estupefecção, e, a seguir, talvez mostrasse alguma caridade, talvez me aconchegasse o decote, me pegasse pelo braço e, cautelosamente, me levasse até ao Júlio.


E agora que aqui estou a descansar, percorri as news e dei com outra coisa desconhecida, uma coisa que penso que, se calhar, também já não é do meu mundo. E já nem falo da parvalhona da Ivanka, boneca insuflada, filhinha de papai, levada a passear ao G20, um absurdo que nem o mais maluco se lembraria de inventar. Falo de outra coisa. Falo destas pessoas que aqui abaixo se vêem.

Lil Miquela, Noonoouri, Shudu... Le phénomène des influenceurs virtuels

Aliás, terei que aprofundar porque nem estou certa de ter percebido bem de que se trata. Influencers virtuais. Vi as fotografias e fiquei na dúvida se é gente, se é coisa. Posam, mostram-se com roupas, parece que vão para o exterior, umas stars. Mas leio que é virtual, tudo virtual. Se calhar o exterior também é virtual. Mas têm montes de seguidores e parece que, agora, isso é que importa. E há vídeos com elas. E as casas de moda recorrem a elas. Elas e eles. E eu olho e não percebo o que é aquilo que vejo, nem percebo que descaminho é este em que os humanos parecem que gostam de seres inexistentes que emulam os humanos. Tudo demasiado estranho.


Sinto-me como que incomodada, aquela sensação estranha de não saber bem onde estou. Na volta é aquilo da zona de conforto, ou seja, é capaz de ser caso para dizer que esta gente virtual me tira da minha zona de conforto.

Por isso, fujo.

Leio, então, sobre árvores e livros, sobre lágrimas e terra, sobre coisas de estimação, frágeis, sobre pernas cruzadas que lembram o verão e figos e Godot e o mar, sobre sabores e cores e outros momentos e pensamentos de gente de verdade -- e isso traz-me o meu mundo, um mundo afável, diverso, humano, um mundo com recantos onde é bom estar, que apetece descobrir ou imaginar.

E, de caminho, vou em busca da paz dos bosques, do som da água, do canto dos pássaros, da música tranquila, dos gelados feitos com frutas, flores, vagares e sons familiares e envoltos em harmonia.


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I always wanted,
       to return
to the body
       where I was born.


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As pinturas que intercalei no texto são de Yoo Youngkuk

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Desejo-vos um belo dia. Alegria e saúde. E amor.

quarta-feira, novembro 15, 2017

Where the wild roses grow

-- O FIM --





E, então, Benedita deixou-se levar por aquela estranha intuição que parecia tomar conta dela, como se se visse como a lente de Filipe a iria ver. Sabia escolher o ângulo de luz, sabia elevar o queixo e deixar descair o ombro para que os seios tombassem de forma mais evidente, sabia encostar os lábios para que a inocência fosse mais sentida, sabia deixar esvair o olhar para que a tentação fosse mais subtil, sabia mostrar a curva do torso, a elevação da anca, a melancolia que pede protecção, o apenas adivinhado meio sorriso, o movimento casual do cabelo. 

A música tocava e Benedita nem a ouvia, entregue ao prazer de se deixar capturar. E toda ela se entregava. E se o sabia fazer. Sabia deixar que o corpo se esgueirasse, que a camisa se entreabrisse, que a saia se levantasse num assomo de pecado, que os olhos se toldassem e não por arrependimento, que o coração lançasse um silencioso grito, um apelo sem palavras, só a luz pousada na pele, só o olhar de Filipe pousado nela.


Ao movimentar-se sabia exactamente a forma como a câmara a captaria. Filipe mal se mexia. Se com algumas modelos tinha que circular em volta delas para descobrir a melhor perspectiva, com Benedita não era preciso. Ela transfigurava-se mal sentia a objectiva apontada na sua direcção. 

Era, então, um perigoso felino, uma leoa vagarosa, uma gata dengosa, um cavalo sem rédeas, um pássaro em pleno voo, uma boneca dócil e profana, uma deusa espiritual. Uma wild, wild, oh so wild, rose. Umas vezes, não mais que uma criança vaporosa ou talvez uma mulher com mil histórias; outras, uma alma vadia, uma selvagem tentação, uma perdição consentida.

Não falava. Apenas olhava. 


Ela própria vestia e despia roupas, descobria-se e logo se cobria com véus invisíveis. Sem hesitações ou pudor, o seu corpo aparecia ou encobria-se como se estivesse sozinha. Filipe, como sempre, ficava em êxtase olhando aquele corpo disponível mas inacessível, aquele corpo desejado e sempre negado. Um corpo como um instrumento usado com mestria. Um corpo sem alma, sem rédeas, livre, livre.


Meninha assistia, encantada mas com traços de tristeza no rosto. De todas as vezes que via Benedita a ser fotografada sentia aquele desgosto antigo que feria como uma lâmina já familiar. Gostava de ter um corpo assim. Não tanto o rosto mas o corpo. Gostava de ter uns seios que enchessem as mãos que os segurassem. Gostava de ter umas ancas que ondulassem para que, quando estivesse deitada, se elevassem como uma montanha suave.

Zezinho diz-lhe que é linda assim mesmo, com seu corpo quase liso, que não pense mexer nele. Mas Meninha não quer saber. Anda a juntar dinheiro. Faz maquilhagem, faz limpeza, passeia cão, toma conta de menino, canta em bar, faz o que aparecer. Já andou a informar-se, já foi a médicos. É muito caro mas um dia ela vai ser capaz de pagar para esculpirem seu corpo.

Então, enquanto Beny se perde em seus delíquios, rebolando e se mostrando, insinuando e escondendo, Meninha vai comparando para avaliar o que teria que fazer: enxertar aqui, retirar dali, preencher no cantinho, disfarçar ou acentuar na curvinha.

Nem ouviu quando Filipe lhe disse: 'Vá Meninha, agora tu.'.

Benedita reforçou: 'Acorda, Meninha. Vem. Deixa o Filipe fazer de ti uma diva'.

Meninha despertou. Sem nada dizer, limpou as lágrimas que tinham voltado.


Depois, 'Não. Não, Filipe. Esquece. Não sou lindeza que nem Beny. Continua deixando que Beny dê conta de teu juízo... Eu fico só vendo.' e tentou rir.

Mas Filipe não ligou: 'És linda, sim. Deves pôr a cabeça de muito homem à roda'.

Meninha confirmou: 'Muito homem me quer pegar, sim. Dou desejo nos homens e nem eu sei porquê, que me vejo no espelho e não vejo aquele abismo que puxa os homens. Mas puxa, sim.' E ficou calada. Até que logo depois: 'E muito homem já me pegou, sim. Deixei. Me pagava as conta. Me habituei a não ligar. Deste que deixei de meninar, já eu me entregava. Nem sei. Dez, doze anos. Nem sei. Um corpinho ainda por fazer. A fome faz isso, o abandono, a vontade de uma cama, de um bolo na pastelaria, de um sapato novo.'

Filipe, já aflito: 'Deixa, Meninha, não pensa nisso. Deixa. Não quer fotografar, não fotografo'.


E então Benedita, abraçando Meninha: 'Deixa isso para trás, não penses. Filipe tem razão. Deixa só que ele fotografe teu rosto para veres como és tão linda. E alegra-te, menininha. Não deixes que o passado te deixe triste. Já passou. Olha, sorri. Vai, Filipe, apanha este olhar tão bonito.'

Filipe fotografou. Mas o ambiente estava ensombrado. Meninha ajeitava a juba de Meninha e chamava: 'Vá, Filipe, agora, vá, olha o jeito doce dela'. Depois puxou-lhe a blusa para baixo, de um lado, deixou o ombro à mostra. 'Vá, Filipe, vê como é bonito o ombro dela'.

E, então, como que ganhando coragem, Meninha se pôs de pé. Limpou os lábios, com a costa da mão tirou a pintura dos olhos, quis que seu rosto ficasse nu. 'Vá, Filipe, fotografa.' E começou a despir. Benedita sentou-se, o coração descompassado. O pudor de Meninha não deixava nunca que o corpo se descobrisse. E agora...

'Vá, Filipe, vá disparando', desafiava Meninha, a voz rouca, como se em sofrimento. 'Olha bem, olha pr'a mim, vai, vê o corpo que tanto homem já pegou'.

Filipe obedeceu. Meninha puxando a sua roupa. 'Vá, Filipe, dispare. Apanhe uma wild rose como nunca viu'. O traje caindo devagar. Nem Filipe nem Benedita falavam. Mal respiravam.


Meninha já não falava. O rosto triste, triste. Estava revelando o seu corpo. O seu corpo de menino à vista. Seu segredo exposto. Seu silêncio desnudado.


Encobrindo sua vergonha, de frente, o seu corpo ainda em bruto, ainda por esculpir. Incapaz de uma palavra. Nem Meninha, nem Beny nem Filipe.

Depois, achou a última coragem que faltava e descobriu o que faltava mostrar.

Nenhum falava. Nem uma lágrima ousava correr. Apenas o silêncio ocupando o vazio que, de súbito, tinha ocupado todo o espaço.


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The end

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Meninha
(Filomeno de seu verdadeiro nome; aka Jaye Davidson fazendo de Dil)
interpreta The Crying Game



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O episódio que acabaram de ler, o nono e último do folhetim 'Where the wild roses grow', vem na sequência de:
Oitavo episódio: Memórias com lágrimas
Sétimo episódio: Noite de histórias
Sexto episódio: Noite de juízo
Quinto episódio: A solidão das mulheres bonitas
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios 
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose
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quinta-feira, novembro 09, 2017

Noite de histórias





Benedita foi tomar um duche. Apanhou o cabelo, vestiu uma roupa leve. Jantaram. Benedita e Filipe. Meninha acompanhou-os, bebendo chá e petiscando bolachas marinheiras com compota de laranja. 

De vez em quando o semblante de Benedita toldava-se. Por vezes, dizia em voz baixa: 'Preocupada...' Mas logo os outros diziam: 'Não penses nisso, descansa' Não sabiam mas intuíam que o problema da mãe não devia ser grave. Talvez não soubessem que as doenças da alma anulam a alegria de quem as vive e de quem lhes está próximo. Mas Benedita estava esgotada e qualquer palavra de ânimo lhe servia de âncora ou para a fazer sentir menos culpada por não passar vinte e quatro horas por dia tentando retirar a mãe do poço de angústias em que insistentemente tentava afogar-se.

No fim do jantar, voltaram para a sala. Filipe falava, contava histórias, tentava aligeirar o ambiente. Meninha levantou-se, pediu para ir lavar a louça, depois pediu para ir buscar um pente e pentear Benedita. Explicou: 'Mexer na cabeça, acalma. Deixa eu pentear, fazer trança, escovar'. Benedita, que antes de jantar, chegou a dar uma animada, tinha-se ido abaixo e já não conseguia argumentar. 

Meninha chegou da casa de banho com uma braçada de material. 'Senta numa cadeira'. Pôs-lhe uma toalha pelos ombros e começou a penteá-la. Apanhou o cabelo, soltou, fez tranças, escovou. Benedita deixou. Sentia-se mais tranquila.


Depois Meninha lembrou: 'Queria que eu contasse história, não era, Beny? História eu não tenho pr'a contar, não, mas Filipe que é vivido deve ter. Porque não pede a ele que lhe conte história?'

Filipe não percebeu mas Benedita gostou da ideia. 'Senta-te aqui à minha frente, Filipe, conta-me de ti'.

Filipe obedeceu. Pegou numa cadeira e sentou-se. Os seus joelhos quase tocavam os joelhos de Benedita.

E, então, em voz baixa, de vez em quando fechando os olhos, começou: 'Já vivi muito, sim. Já tive muitas ideias e achava que era especial por ter tantas ideias. Já ganhei muito dinheiro e achava que era rico e que sempre me sentiria motivado a ter mais. E já tive muitos ideais e convicções e achava que isso era um rumo de que nunca me desviaria. Até que percebi que vivia melhor se aceitasse não saber nada. E que vivia melhor se não tivesse que me preocupar com as aplicações do dinheiro. E que vivia melhor se aceitasse que o rumo se fosse desenhando a cada dia. Fui muito bom aluno e tinha orgulho disso. Agora reconheço que pouco me lembro do que aprendi. E era muito ambicioso a nível profissional. Fiz uma carreira internacional. Sacrifiquei tudo, muitas vezes mudei de casa, mudei de país. E mudei de mulher. Cheguei a estar casado e a achar que estaria casado para sempre. Mas tudo foi perdendo relevância. Desabituei-me do afecto. Desabituei-me da mulher por quem me tinha apaixonado ainda adolescente, desabituei-me da minha filha, desabituei-me dos meus pais. Seduzir mulheres passou a ser um hobby. Olhar para elas e pensar: 'De quanto tempo vou precisar para a ter nos meus braços?' e o tempo ia sendo cada vez menor porque fui aperfeiçoando a técnica. Por fim trabalhava em Paris onde tinha um apartamento. Fiz coisas de que hoje me arrependo. Excessos. Abusos. De vária ordem. Depois, um dia, sozinho, senti-me mal. A custo, cheguei ao hospital. Fiquei internado. Não recebi visitas. Longe da família, sem querer ligar a amigos, conhecidos ou namoradas. Os médicos mandaram-me parar com os excessos. Mas não foram os médicos. Fui eu. De repente, parecia-me que estava a fazer tudo mal. Despedi-me. Estive uns meses sem trabalhar. Depois resolvi criar esta minha pequena empresa de consultoria em patentes e marcas. E dedicar-me à fotografia. Calhou, um dia, ver numa esplanada uma figura conhecida do mundo da moda. Pedi para fotografá-la. Foi o princípio. Tenho tido sorte. Sinto-me livre. Reaproximei-me dos meus pais, já tão velhos, reaproximei-me da minha filha. É mais velha que vocês. Está grávida. Vou ser avô.'

Meninha ia entrançando o cabelo de Beny. Pôs-lhe uma fita a fazer de gargantilha, pintou-a, Beny parecia nem sentir. Estava alheada. A mente de novo fora do corpo. E foi deixando que as pernas de Filipe se encostassem às suas, aconchegada e encantada. Tinha, outra vez, vontade de chorar, agradecida por Filipe estar ali, contando a sua vida.

Meninha quebrou a emoção do momento: 'E nunca mais teve vontade de fazer neném, não, Filipe?'

Beny zangou-se: 'Que é isso, Meninha...?'

Mas Filipe respondeu, rindo: 'Ah, isso tenho sempre, Meninha. E se estou perto de mulher bonita não posso dizer que a vontade não espreite. Mas estou mais selectivo. Dantes cada mulher era um desafio pois não descansava enquanto não a sentia rendida. Hoje não, hoje quero sentir afecto de verdade. Respondi...?'

'Não leve a mal, Filipe, mas não acredito em si, não. Não leve a mal mas olho pr'a você e vejo alguém que está sempre pronto pr'a facturar'

'Não, Meninha, estou ficando mais velho, já perdi a pressa. Agora quero vagares. Mas, então, agora conte você'

Meninha se furtou: 'Nada pr'a contar, não, Filipe. Vida de pobre não tem história, só míngua. Não gosto de falar. Me faz regressar e eu isso não quero, não. Conta tu, Beny.'

'Vida de pobre não tem história e vida de mulher bonita também não. Não é míngua mas é fartura, que vai dar no mesmo', disse Beny. 'Mas quero continuar a ouvir a tua voz; Filipe. Sinto que a tua voz me abraça. Pode ser?'. Depois, percebeu: 'Era a tua melhor arma de sedução, não era, Filipe? A voz...?'

Filipe disfarçou, fez ar sério, compenetrado e falou como se estivesse a brincar, 'Não sei. Talvez. Mas mais pelo picante que sei pôr nela. Ou o olhar, diziam que o meu também, mas só quando mostro que quero conhecer a intimidade daquelas a quem olho. Ou a língua, o jeito como, quem querer, molho os lábios, deixando perceber que estão a precisar da outros -- de outros lábios, quero eu dizer.'

Benedita e Meninha ouviam-no, fascinadas. Mas logo Filipe fez género: 'Mas isso era dantes. Agora não gosto de me arriscar, agora prefiro ser seduzido. E já estou velho para isso...'

Sem querer, Beny deixou sair: 'Mostra como é, Filipe. Seduz-me. Melhor: seduz às duas, a mim e a Meninha ao mesmo tempo. Tenta ver se a gente cai nos teus braços.'

Mas Meninha, gemendo: 'Ai... Beny... que é isso...? Sou moça comprometida.... Faz isso, não...'

E, então, Beny: 'Chata que é, Meninha, não quer nada. Não ligues, Filipe. Ou, então, espera, para começar, diz-me um poema. E aviso já: é meio caminho andado'

E, então, Filipe, olhando Benedita nos olhos, disse: 'Para ti, wild rose, minha princesa, para que me deixes depois fazer a outra metade do caminho'. Mas depois sentiu-se indelicado e corrigiu, fingindo que sorria: 'Para vocês, para as duas donzelas do meu coração'. Depois acrescentou: 'Assim de repente, acho que é o único de que me lembro...'


A drowning swimmers dream


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O episódio que acabaram de ler e que acabei de escrever, o sétimo, vem na sequência de:
Sexto episódio: Noite de juízo
Quinto episódio: A solidão das mulheres bonitas
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios 
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose

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quarta-feira, novembro 08, 2017

Noite de juízo





E, então, quando estavam a começar a jantar, tocou o telemóvel. Benedita atendeu. Mal se ouvia do outro lado. O coração de Benedita disparou. 'Mãe....! O que foi...? Fala!'. Silêncio. Depois uns gemidos. 'Mãe! O que foi? Fala!'. Depois conseguiu perceber. A mãe dizia: 'Caí... Não consigo levantar-me...'. Benedita calçou-se, pegou na carteira e na chave do carro e disse: 'A minha mãe. Não sei se é grave. Depois ligo. Fica à vontade, janta, não esperes por mim.' Meninha ainda quis acompanhá-la mas não deu tempo.


Foi numa correria. Quando lá chegou, a casa às escuras. Foi acendendo luzes enquanto chamava pela mãe. Nada. 'Mãe!' Nada. Foi de encontro a um móvel, magoou-se, uma dor no ombro mas nem deu por isso. O coração disparado, uma aflição. 'Mãe!'. Até que, junto à cama, a viu caída. O coração quase parou de medo. 'Mãe!' Nada. O corpo numa posição estranha, torcida. Gelada de medo, Meninha encostou a mão à boca da mãe. Sentiu que respirava. Abanou-a. Bateu-lhe na cara. Nada. Quando, a tremer, tentava marcar o 112, ouviu a mãe a dizer: 'Caí...' De olhos abertos mas desfocados, olhando à toa, Iolanda gemia. Benedita tentou levantá-la. Não conseguiu. A mãe estava transformada num corpo morto. Tremendo, conseguiu a ligação. Passado um bocado chegou o INEM. Observaram a mãe, fizeram perguntas à filha. Depois pegaram nela, puseram-na cama. Tinha-se urinado. Estava molhada, o chão molhado. Benedita ficou envergonhada pela mãe. No fim disseram que ela estava estável, não lhe encontravam nada. Estava sedada, provavelmente tinha abusado na dose. Dormindo, passava-lhe. Devia ter querido ir à casa de banho e, meio a dormir, ter-se-ia desequilibrado. Mas estava em cima do tapete, nem devia ter dado um único passo. Respirava tranquilamente. Os técnicos do INEM sorriram: 'A senhora sua mãe vai dormir o sono dos justos'

Quando saíram, Benedita desatou a chorar. Mais um susto. Quantos já? Quantos mais? Estava cansada. Odiou a mãe por tudo o que a fazia passar. Não era justo. Instantes depois, já mais calma, pensou lá ficar, velar pela mãe, coitada da mãe, tão sozinha, tão triste. Mas depois pensou que a mãe nem dava por ela, estar ou não estar era a mesma coisa. Saiu. Mas antes aconchegou-lhe a roupa da cama, beijou-a na testa.

Mal tinha entrado no carro, o telemóvel. Filipe. Hesitou. Estava sem forças, desfeita. Não tinha disposição para conversas. Mas atendeu. Filipe percebeu pela voz. 'Então? O que é isso? Estás a chorar?'. Benedita voltou a chorar, uma pena crescente de si própria. Não conseguiu falar. Filipe perguntou: 'Onde estás?' Benedita, a custo, disse que ia para casa. Filipe disse: 'Vou lá ter. Conduz com cuidado, vai devagar'

Quando Benedita estava a entrar em casa, estava a campainha lá de baixo a tocar.

Meninha surpreendida: 'Oi! Que animação, esta. Está esperando alguém, Beny?'. Mas Benedita não respondeu. Meninha, já aflita: 'Que foi Beny? Que cara é essa, menina? Que foi que aconteceu? Tá chorando?'. Benedita sentou-se, encolhida, o rosto tapado. Chorava, sim. 'O mesmo de sempre. Mas assusto-me. Tenho medo que um dia nem consiga ligar-me. Não consigo assistir à auto-destruição da minha mãe... não consigo...'.

Chegou, então, Filipe. 'O que é que aconteceu?'. Meninha encolheu os ombros e falou baixinho: 'Qualquer coisa com a mãe. Mas não deve ter sido nada de grave porque Beny foi lá e voltou'.


Filipe sentou-se ao lado de Beny, um braço sobre os seus ombros. Do outro lado, Meninha, fazendo-lhe festas no rosto e nas mãos. Filipe, apreensivo e solidário, aconchegava Beny e, sem saber o que se passava, dizia: 'Então? Toda a gente tem problemas, acontece, não há famílias perfeitas. Ou ela está doente...? Ou houve briga...?'. Benedita apenas chorava. E Meninha dizia: 'Lembra que é uma wild rose. Não chora, não, Beny. Logo, logo tudo fica bom...'

E ali ficaram um bocado.

Depois Meninha disse: 'Seu sushi está esperando por você, Beny. E dá para Filipe.' Depois de uma pausa, completou: 'Fiz uma coisa. Tenho que me desculpar. Não queria lhe dizer. Não quis fazer feio, criar desfeita. Mas não gosto de peixe cru, não. Estava me enchendo de coragem e, por dentro, toda numa ânsia. Ia fechar o nariz por dentro e tragar a coisa. Mas como você não estava, aliviei minha vergonha e deixei de lado. Olha, abusei de sua confiança, Beny, fui no frigo. Tirei um ovo. Melhor: dois. Mexi dois ovos. Me desculpa, Beny'. Benedita sorriu: 'Podia ter dito, que eu tinha pedido chinês, Meninha...'

E então foram os três para a mesa que ainda estava posta. Mas logo Filipe se levantou e perguntou se podia escolher uma música. Beny encolheu os ombros e com o queixo apontou na direcção dos CD's. Filipe escolheu. Nina Simone. Mr. Bojangles. Depois, quando ia sentar-se, disse com aquele seu sorriso feito pedaço de mau bocado: 'E depois da janta, alguma das meninas vai dar-me a honra da uma dança...?' e piscou o olho a Benedita. Mas Beny estava jururu. Disse: 'Estou preocupada. Não sei se não devia ir dormir a casa da minha mãe'. Depois, uma lágrima querendo escorrer no rosto: 'Dança com a Meninha'

E, dizendo isto, espreitou a surpresa dele e, de imediato, o seu olhar incendiou o coração de Filipe. Beny, mesmo estando assim, triste e derrotada, sentia que a wild rose vibrava dentro de si. Mesmo não o sabendo, queria festa, ela. E em segredo, indecente, pensou: a ver se Filipe está à altura.

Depois, o olhar ainda pior, pecaminoso de tão inocente, desafiou: 'Ou dança para mim; Filipe'. Filipe fez um esforço para não se afundar, logo ali, no tentador abismo do olhar de Beny. Mas se susteve. Ainda era cedo.


He looked to me to be the eyes of age
As he spoke right out
He talked of life

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O episódio que acabaram de ler, o sexto, vem na sequência de:
Quinto episódio: A solidão das mulheres bonitas
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios 
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose
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terça-feira, novembro 07, 2017

A solidão das mulheres bonitas





Ao fim do dia, Benedita telefonou à mãe a perguntar se podia lá ir jantar. Sentia falta de conversa de mãe. Não que alguma vez tivesse tido grandes conversas com a mãe mas gostava de pensar que sim.  Inventava memórias com essas inexistentes conversas.

Naquele dia em particular, gostava de poder estar à mesa com a mãe e gostava que ela lhe perguntasse o que se passava para ela lhe dizer que nada, mas, depois, perante o olhar interrogador da mãe, confessar que andava sem rumo. Mas a mãe atalhou o devaneio: que devia ter comido alguma coisa que lhe tinha caído mal, que não ia jantar, só beber chá. Benedita ainda lhe perguntou se queria que ela lá fosse mas Iolanda disse que não, que estava quase a ir meter-se na cama, que ficava bem.

Benedita ficou triste. Pensou que sentir-se carente seria aquilo. Depois, a recordação da irmã. Tão diferente a irmã, tão, tão diferente. Depois de mil aventuras, tinha ido para Barcelona. Pensou, com um sorriso no pensamento, que, àquela hora, andaria ela envolta na bandeira da Catalunha, mais independentista que o mais independentista dos catalães. Como estranhas, pareciam nada ter a ver uma com a outra. Nunca se telefonavam. Viria, talvez, passar o Natal. Contudo, a verdade é que Benedita sentia falta da leveza de espírito e da alegria da irmã. Sempre que pensava nela, recriminava-a: insconsciente, irresponsável. E, no entanto, tanto que gostava de ter herdado um pouco dessa alegre leviandade.

Os avós moram longe. Nunca foram próximos. São pessoas simpáticas mas as afinidades são poucas. Do pai pouco se lembra. 

A verdade é que Benedita tem poucos amigos. De resto, também prefere ficar sozinha, deitada, de olhos fechados, ouvindo palavras na sua cabeça, ouvindo dizer poesia na internet, música, divagações assim.


Outras vezes põe-se à janela a ouvir os pássaros nas árvores ao fim da tarde, ou, mais esporadicamente, vai ao cinema. Não vai muito às aulas nem dedica muito tempo ao estudo. Chama-na da agência para trabalhos e ela vai. Cada vez é mais requisitada e cada vez lhe pagam melhor. Mas é-lhe indiferente. Na verdade, quase tudo lhe é indiferente.

Uma vez, na agência, disseram-lhe que devia mostrar mais empenho. Não percebeu. Não quer mostrar mais empenho, não quer arranjar mais trabalhos, já tem que lhe cheguem. E sabe que, quando a objectiva aponta na sua direcção, alguma coisa acontece porque o seu corpo ganha vida de uma forma que a transcende e os resultados são surpreendentes. Não precisa de se preparar, muito menos de se esforçar. Não quer saber e, talvez por isso, o desconhecimento de si transparece através da sua inocente e total entrega. 

Estava nestes pensamentos, enroscada no sofá, as pernas já tapadas com uma manta, quando o telefone tocou.
Meninha. 'Olhe, Beny, desculpe aquilo lá mas não gostei do avanço daquele abusado.' 
Benedita, seca: 'Não pareceu que não gostasse. Vi-a toda enlevada, fazendo pose, feita romântica'.  
Mas Meninha: 'Sabe, Beny, de início estava gostando sim, sempre sonhei de ser diva, mulher desejada, sempre sonhei que alguém ia descobrir meus méritos, minhas seduções ocultas. Seu Filipe leva tanto jeito, tira imagem mais linda das mulheres que fotografa, já estava me vendo feita primeira página. Mas depois ele veio com aquela proposta, não gostei, muito abusado, não sei se a querer tirar casquinha ou quê'.  
Benedita, quase sorrindo: 'Querer fotografar um corpo não significa que queira tirar casquinha. Um corpo é uma superfície onde a luz se reflecte, um bom campo de exposição. Mil vezes que fui fotografada e nunca nenhum fotógrafo pôs as mãos em mim. O que eles sentem ou pensam ou não quero saber'.  
Meninha: 'Disso eu não sei, não. Só sei que ver meu corpo não é qualquer um que vê. E quis lhe dizer isto porque sei que Filipe para si é especial, bem vejo como sua indiferença é mais forte com ele que com outros, bem vejo como ele se redobra no olhar para lhe pôr ainda mais linda. Não quero estragar essa coisa que vocês fingem que não é coisa.' 
Benedita, então, diz: 'Quer vir jantar comigo, Meninha? Peço um sushi. Quer?' 
Meninha diz: 'Mas depois faz tarde para voltar aqui pr'a espelunca... É perigoso. Nem Zezinho me ia querer atravessando o pedaço aí pela noite. Acho melhor não, Beny. Mas valeu. Obrigada'.  
Mas Benedita resolve o dilema: 'Pode dormir cá, Meninha'.  
Meninha hesita, há intimidades que não gosta de partilhar.  
Mas Benedita insiste: 'Vá, Meninha, venha, venha contar histórias de quando era menininha, conte-me de sua mãe, de seu pai, de seus irmãos'.  
Mas Meninha: 'Ui... isso não, Beny. Tempos tristes. Nem sabe o que isso é. Isso não. Posso contar de outras coisas mas desse tempo eu não vou contar, não.' 
Beny concorda: 'Venha na mesma.'
E logo se pôs a arrumar a sala, e logo encomendou sushi e logo procurou lençóis e mantas e logo viu se tinha chá e sumos. E foi numa ansiedade que esperou que Meninha chegasse.


Mais de uma hora depois chegou Meninha. Vinha numa produção que só vendo. Benedita teve vontade de rir mas não quis ofender. Apenas disse: 'Toda sexy, Meninha'. E ela: 'Ora, Beny, e logo você para dizer isso. Sexy não. Apenas tentando fazer bonito. Vinha em sua casa, bairro fino, vizinhança chique. É ocasião especial, não quis vir de um jeito qualquer.' 


Beny disse: 'E está muito bem, Meninha. Está chique, sim. E vá, entre logo. Venha. Se quiser, pode descalçar-se. Aí em cima desse salto tão alto, nem o sushi lhe vai saber bem. E bora, vamos jantar. Apetece-me ouvir as suas histórias. Conte-me coisas, Meninha'

Meninha sorriu e, abanando a cabeça, mostrou a sua incompreensão: 'Moça mais linda e mais doce... não se percebe porque não arranja namorado que encha suas medidas com as histórias que você quer... Olhe. Porque não dá bola para Filipe, Beny? O que ele daria pr'a estar aqui contando os troços lá dele'. 

Mas Beny não quer ser amada como acredita que Filipe sabe amar e também não sabe explicar as suas razões. 


Por isso, embrulha-se na resposta: 'Filipe e eu andamos em passo trocado. Convergimos numa vida passada e nos iremos encontrar numa outra vida. Nesta agora ele tem mais para dar do que eu posso aceitar. Mas não sei. A minha vida também anda trocada das minhas palavras. Por isso, não faça perguntas, Meninha, que não sei responder. Conte-me é de seus amores, de seus namorados, de sua vida.'

Meninha, tentando fugir ao tema: 'Não quer deixar isso pr'a lá, Beny? Minha vida é tão sem graça... Zezinho é meu primeiro namorado a sério. Antes, só mesmo coisas sem história. Lhe digo, Beny, uma vida meio sem graça '

Mas Beny sente que não, sente que, ao contrário da sua, a vida de Meninha é cheia de graça. E está doida para descobrir.

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O episódio que acabaram de ler, o quinto, vem na sequência de:
Quarto episódio: Actos falhados, sentimentos desencontrados 
Primeiro episódio: Wild Rose

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[E sobre a bela luz e sobre as belas cores de Outono in heaven, queiram descer um pouco mais]

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segunda-feira, novembro 06, 2017

Actos falhados, sentimentos desencontrados





Benedita telefona à mãe pela sexta vez e nada. A manhã vai alta e nem consegue sair da cama. Desde que acordou que está a tentar. Já está deveras preocupada. Tem um compromisso, não pode largar tudo e ver o que se passa e isso deixa-a ainda mais inquieta. Também não está a encontrar o número de telefone da nova empregada que vai lá tarde sim, tarde não. Lembrou-se de lhe ligar e pedir que fosse ver se está tudo bem com a mãe. Mas deve estar a fazer confusão com o nome, não o acha. Que preocupação. Quem veja a bela Iolanda sempre tão sorridente não adivinha o problema que ali está. É bem verdade que a passagem de uma vida de glamour com um excesso de solicitações para uma vida quase vazia não deve ser fácil. É também certo que o ver-se sozinha nesta altura da vida, o saber cada filha para seu lado, também não ajuda. E talvez haja alguma carga genética. As depressões sucedem-se. Ou talvez seja sempre a mesma. No outro dia, quando Benedita lá foi, eram duas da tarde e ainda a mãe estava na cama. Levantou-se a custo, o rosto inchado, olhos sem vida, o cabelo a precisar de lavagem. 


Se a sua fotografia aparecesse assim numa revista ninguém reconheceria nela a bela Iolanda que fazia primeiras páginas e que, até não há muito tempo, aparecia na televisão todos os dias em horário nobre.

Saber a mãe assim preocupa e traz tristeza a Benedita. Parece que, qualquer coisa dentro de si está sempre em alerta, com receio de uma outra recaída, sempre temendo uma má notícia.

Mas, então, toca o telemóvel e Benedita logo descontrai: 'Então, mãe? Já tinha ligado não sei quantas vezes. Onde é que estavas? Já estava preocupada. Bolas! Porque é que não atendes?'

A mãe explica que estava a tomar banho, depois a secar o cabelo; não tinha ouvido. E diz que tem que se despachar para não chegar tarde ao ginásio, que combinou com uma amiga irem, antes, beber um sumo, que já está atrasada. E parece sorrir enquanto fala. Mas mente. Não foi isso. Tinha tomado na véspera à noite uma dose tão forte que agora mal conseguia estar acordada, queria era voltar, o mais depressa possível, para a cama. Tão pedrada estava que nem se dava conta da inquietação da filha, queria apenas acabar a conversa para poder dormir em paz.

Contente por julgar a mãe bem, Benedita ficou instantaneamente mais leve, com vontade de festejar. Num instante toma um banho, apanha o cabelo, veste qualquer coisa.


Na véspera, tinha ficado de passar pela casa-estúdio de Filipe, à hora de almoço, para ver as últimas fotografias, para ajudar na escolha de algumas para o editorial da revista e para ver algumas impressões. Mas, nessa manhã, Filipe ligara-lhe e, num entusiasmo, dissera que tinha recebido uma encomenda para mais um trabalho para uma marca de produtos de maquilhagem, que fosse preparada que aproveitavam e faziam já uma breve sessão para testar umas ideias.

Antes de sair, já toda animada, liga a Meninha: 'Escuta, vou ao Filipe para ver umas provas e para ensaiar uma sessão. Pode vir, Meninha? É uma cena de make up, sem suas mãos não vai ter graça'. Meninha geme: 'Aiii... Tinha prometido ir mais logo dar um jeito na mulher de meu padrinho que eles vão numa tal de vernissage e devo tantos favores pr'a ele... A que horas seria isso, Beny?'. Benedita diz que era logo, logo, que ficariam despachadas num instante, que a seguir Filipe voltaria para as suas patentes, que daria mais que tempo pr'a ir pôr nova a velha. Meninha diz que então sim mas reforça que, logo, logo teria que sair pr'a não deixar pendurada a mulher de seu padrinho.

Quando lá chega, Filipe cumprimenta-a com aquela discrição pudica tão própria dos verdadeiros apaixonados e que bem pode passar por um simples cumprimento profissional. Está desfardado, todo na ganga, aspecto desconstruído, bom para pôr as mãos nele e voltar a construir, pensa, sem mostrar que pensa, Benedita. E mostra a sua admiração: 'Que é isto, Filipe? Não foste trabalhar?'. Filipe está contente: 'Estive a trabalhar em casa. Daqui a nada já me fardo. Vou para o escritório daqui a nada e fico lá até à noite. Pode ser, chefinha...?'

Pouco depois chega Meninha. Vem afobada, tanta pressa que tem. Filipe mostra algum enfado, não estava à espera, pensava que ia ter Beny só para si, mas logo se recompõe e, como se tivesse tido uma ideia, sorri (e sorri com aquele seu ar safado de quem já está a visualizar a cena na qual a sua imaginação ainda só meteu um pé): 'Beny, a tua assistente não quererá participar na sessão? É bonita, tem carisma. Capaz de se tirar muita coisa dela...'

Benedita não presta atenção. Está concentrada em Meninha: 'Menina! Nunca te vi assim... Mas onde vais, tão chique assim....?'

Meninha senta-se a descansar. Depois diz que veio já vestida toda prosa para dali ir directa para casa do padrinho, que naquela casa tem que entrar toda feita madame que padrinho é homem recto, não quer jeito de desaforo na casa onde a esposa exerce suas virtudes.

Benedita ri. 'Mas é que caprichaste mesmo, ninguém ousará dizer que não vais tu também para a vernissage, mesmo para um baptizado... Menina!'

Filipe olha Meninha com atenção. Depois começa a fotografá-la. Benedita espia o olhar de Filipe, quer perceber se é também olhar guloso, igual ao que faz para si. Mas não consegue perceber. Talvez seja olhar profissional, toda a gente diz que Filipe é um artista, mas Benedita não sabe ser isenta. Disfarça apenas.

A seguir, ela mesma, enquanto Meninha faz olhos cândidos e jeito inocente para a objectiva de Filipe, começa a pintar-se. Mas, talvez inconscientemente, decide exorbitar a ver se Filipe percebe que ela está ali, a ver de Meninha percebe que está ali para a ajudar e não para sobressair.


Mas Filipe e Meninha parecem esquecidos dela. Ele aproxima a lente, deixa que a luz incida no cabelo selvagem da morena, foca-a de lado, aponta ao jeito tímido dela. E ela deixa-se estar, gosta de ver como Filipe se interessa pela sua beleza. 

Espiando num canto, Benedita sente a frialdade da inquietação. Até que, com espanto e incómodo, ouve Filipe a dizer com aquela sua voz que se baixa até se tornar uma indecência: 'Gostava de fotografar o seu corpo. Não quer tirar a blusa?'. 

Benedita sente-se ofendida,  tem vontade de o atacar, mas nada diz. E, então, ouve Meninha dizer com voz ríspida: 'Sou moça de me despir com essa facilidade não, viu? Homem que queira ver meu corpo tem que me conquistar muito, sabia? Não quero saber se isso é trabalho, se é arte, se quê, sei é que meu corpo é especial de mais para ser servido assim, com essa facilidade, viu?'. Põe-se de pé e, decidida, pega na bolsinha e sai batendo a porta.

Benedita, sem pensar, faz o mesmo.

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O episódio que acabaram de ler, o quarto, vem na sequência de:
Terceiro episódio: Uma wild rose com red carnations nos seios
Segundo episódio: Beny e Meninha numa tarde especialmente quente
Primeiro episódio: Wild Rose
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