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quarta-feira, setembro 23, 2026

Enquanto houver estrada para andar

 

Tenho tido uns dias ocupados. Como creio que já aqui tinha admitido, cedi à pressão para que a 'nossa' casa de banho fosse reconvertida. Relembro: digo 'nossa' porque é a casa de banho junto ao nosso quarto, já que a outra está bem e recomenda-se. 

E, como sempre acontece, caí na armadilha do 'já agora'. Da base do duche já derivámos também para o lavatório. Novo, coisa diferente. E mexer nestas coisas implica parte do revestimento, parte do pavimento. E, já agora, a torneira do duche também nova, mais para cima. E o pior é que olho para a pobre coitada da casa de banho já com olhos de quem quer ver coisa nova e, portanto, já tudo me parece mal. Já não gosto dos toalheiros onde estão, já não gosto das prateleiras giratórias, já não quero ali o armário espelhado, dito dos medicamentos. Já tudo me parece a precisar de desandar. E o pior, pior mesmo, é que o meu marido não me refreia capazmente.

E o fogão, que já cá estava quando comprámos a casa (já lá vão 6 anos!), um bom fogão mas já certamente com alguns bons anos, também andava a pedir para ser posto em cima de um par de patins. Resisti. Resisti. Até que cedi. Também já encomendámos. 

Todos os materiais, fogão incluído (embora comprado noutro local) só chegam a meados de outubro.

Hoje, enquanto caminhávamos ao luar, eu dizia: 'agora já está tudo encaminhado, tudo o que havia a encomendar está encomendado, já podemos tirar daí o sentido'. Ele disse: 'falta executar'. Exacto. Mas isso também já está contratado. O meu marido lembrou: não o conhecemos, não sabemos como é, vamos esperar que apareça, que trabalhe bem.

Claro. Vamos esperar.

Dá-se também outra circunstância: quando o meu marido se cansa dos programas de televisão comuns, ou vê futebol ou vê cozinhados (ele que pouco ou nada cozinha). Mas agora aparece (creio que no canal 24 kitchen) uma simpática e gravidíssima jovem senhora que remodela cozinhas, Ellen Marie Bennett. Ele ficou entusiasmado e contagiou-me. 

Incrível o que há para arrumar coisas, as ideias, os truques, os apetrechos. Revejo-me nos problemas que levam as pessoas a recorrer a ela. A minha cozinha é aparentemente uma cozinha fantástica: ergonómica, com muita arrumação. Mas, para mim, não é o que eu gostaria. Tem armários até ao tecto, ou quase. Portanto, para chegar às prateleiras de cima só com mini-escadote. Às tantas não faço ideia do que está lá para cima. Mesmo com o escadote, vejo o que está à frente, não o que está para trás. E os compartimentos são um bocado estreitos. Portanto, as coisas estão um bocado salteadas.

A despensa é também um espaço pensado ao milímetro, ultra arrumação: prateleiras altas, fundas, com imensa arrumação. O pior é que são tão fundas que mal tenho percepção do que está lá para o fundo. As prateleiras lá de cima, então, são para mim um mistério. Por vezes, quando me encavalito no mini-escadote, vejo que, pelo menos à frente, estão uns tachos gigantes. Mas está tudo tão inacessível que, na prática me esqueço do que para lá está.

Somos todos escravos do que precisamos / Reduz as necessidades se queres passar bem

O meu marido diz: 'pego naquilo tudo e levo para a cave'. Não me parece lógico. Levar para a cave é, na prática, o mesmo que  nos esquecermos das coisas. E tudo o que voltar a enfiar lá para cima, tem, na mesma, o destino traçado. Por isso, não sei qual a solução. Só se for pôr espelhos na parte de cima das prateleiras....

Outra coisa que agora questiono. Tenho duas gavetas ocupadas com panos de cozinha. Depois de vermos o programa, o meu marido questiona: 'para quê tanto pano de cozinha? duas gavetas desperdiçadas com panos!'. Mas eles existem, têm que estar em algum lado. É certo que estou longe de precisar de todos. Vejo que a dita Ellen, que coloca tudo em caixas e em prateleiras deslizantes ou em prateleiras com degraus, para tudo estar sempre à vista, coloca os panos da louça e das mãos em rolinhos, ao alto, numa cesta, e a cesta está numa prateleira.  Talvez seja uma solução. E fica a gaveta para arrumar especiarias, por exemplo, que hoje tenho os frascos encavalitados em cima uns dos outros, de cada vez que quero um posso ter que tirar os outros todos.

Ou seja, agora olhamos para as coisas com vontade de reformular também tudo. Só que, ao contrário das cozinhas americanas que são gigantes, a minha cozinha é o que é, relativamente estreita, sem margem para grandes reformas. O mais que dá é para reorganizar, repensar as coisas. 

E sei que esta conversa -- no meio da crise energética, no meio dos desequilíbrios de forças a nível internacional, no meio do pântano, que tende a ser infecto, da política nacional, num dia triste em que sentimos a falta do grande Jorge Palma -- é uma não-conversa, é uma futilidade, uma coisa de quem tem pouco com que se ocupar. 

Pois, reconheço que sim -- mas fazer o quê? Sou assim, não sou de me deixar afogar em mágoas ou de me deixar ficar a carpir, sou mais de bola para a frente, enquanto houver estrada para andar acho que a gente deve continuar. Continuar com a vida de sempre, de todos os dias.

Se eu ainda estivesse a trabalhar, iria para o trabalho, trabalharia, embrenhar-me-ia na resolução dos mil problemas que me apareciam. Agora as minhas circunstâncias são outras. Já posso dar-me ao desfrute de me ocupar de temas banais que, provavelmente, são de fazer bocejar o mais careca. Quiçá até o mais cabeludo.

Quem sabe até, um dia destes, não partilho convosco a forma como o meu marido pegou nos meus chás e os arrumou tentando fazer mais ou menos o que viu lá a tal senhora fazer. E depois me dirão se o que ele fez está bem feito. A mim parece-me que tem sérias limitações, mas ele acha que sou eu a embirrar só por ele ter feito aquilo sem me consultar. Claro que não é. De qualquer forma, já arranjou uma solução. Só que, como ele diz, 'falta executar'.  

Enfim.

Enquanto houver ventos e mar / A gente não vai parar

A gente vai continuar -- Jorge Palma

Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, setembro 07, 2026

Como é a casa de uma feminista?

 

Durante muito tempo não quis pensar em mim como sendo feminista. Parecia-me redundante. Claro que era, sempre fui, ferozmente defensora da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, da igualdade de direitos. Mas sempre senti aversão a clubes do bolinha. Lugares só para mulheres, tal como lugares só para homens, é coisa que me parece absurda. Nunca fui capaz de frequentar 'retiros' só de mulheres, causam-me urticárias clubes de leitura só de mulheres, projectos só de ou para mulheres. Ou só para homens. O mundo é plural e as suas múltiplas derivações também o devem ser.

E sempre me pareceu evidente que o mundo caminharia para a rejeição de privilégios (de classe, de género, de 'raça'), para uma rejeição da homofobia, da xenofobia, para uma rejeição de coisas canhestras e ridículas como a defesa de que o papel da mulher é em casa, a tratar de tudo para que a vida do marido seja mais feliz. Tudo isso me pareciam coisas do passado e que já nem valia apena andar a repisar coisas que tinham passado à história.

Só que não, não passaram à história.

Começam a reaparecer saudosismos, ignorâncias, regressões culturais e civilizacionais. Parece-me impossível que isto esteja a acontecer, mas está. Como se uma coisa que se considerava morta e enterrada, começasse a reaparecer de debaixo das pedras, uma coisa com ar meio decomposto, meio infecto.

Quando andei no liceu, havia disciplinas extra curriculares, para quem o quisesse. Como sempre quis tudo, a minha curiosidade era ilimitade e a minha disponibilidade para me entusiasmar era insaciável, inscrevia-me em tudo e mais alguma coisa. Uma em que me inscrevi, porque me disseram que a professora era fixe, foi Lavores Femininos. Supostamente seria para ensinar as raparigas a serem boas donas de casa e boas mães de família, mas disseram-me que não e, por isso, fiquei ansiosa por frequentar. Aprofessora, por sinal casada com um conhecido general, tinha mente arejada. As aulas eram momentos de animada conversa. Foi a ela que ouvi pela primeira vez que o Hitler tinha um único testículo e que, por se sentir complexado, se terá desforrado e exercido tão gratuita e inenarrável violência. Falávamos de tudo, alargávamos horizontes. Portanto, já nessa altura, e há tanto tempo que isso foi, a ideia que havia é que nós, raparigas, podíamos fazer o que quiséssemos. Eu, pelo menos, sempre assim pensei.

Pensar que aos dias de hoje há anormais, perfeitas anormais, que vêm defender o contrário é quase incompreensível, coisa de gente ignorante e burra.

Há dias ouvi uma dessas descerebradas, certamente também psicologicamente perturbada, descrever as feministas como mulheres que viviam para agradar ao patrão, desprezando a vida familiar. Felizmente nunca estive frente a frente com uma dessas anormais, senão haveria de ter muita dificuldade em controlar-me. No mínimo, levantar-me-ia e virar-lhe-ia costas pois com gente estúpida não vale a pena perder tempo a explicar-lhes que tudo o que dizem é mentira, é pura estupidez.

Morreu há dias uma das feministas mais conhecidas, Gloria Steinem. Sempre que falava sorria. Muito longe de quezílias ou discussões estéreis, limitava-se a falar do que importava. Não perdia tempo a rebater A ou B ou a deixar-se submergir pela espuma dos dias: a sua causa era a da defesa dos direitos das mulheres e era nisso que se concentrava. Mulher de cultura mas também de sociedade, elegante, com um savoir faire que ilustra bem que ser feminista não é ser 'radical' ou 'pouco feminina'. Elegante, sempre bem vestida e bem penteada, Gloria Steinmen tem, neste vídeo um colar que eu não me importaria nada de ter igual. E a pulseira também é bonita.

Aqui, ela mostra a sua casa, um apartamento que começou por ser de um piso, depois comprou o piso de baixo e uniu-os por uma escada interior. E tem um jardinzinho, por sinal com a vedação pintada numa cor de que gosto muito. Se um dia repintar a minha casa, esta é uma das cores fortemente candidatas, talvez um pouco mais clara do que a dela.

É uma casa incrível, com muito bom gosto, com muito conforto, com peças interessantíssimas. Claro que já sabem que o meu lado prático me faz sempre pensar no trabalho que dará limpar o pó daquilo tudo. E numa outra coisa: eu adoro tapetes, almofadas, mantas, cortinas. Mas acumulam pó. Tem que se aspirar muito bem, sacudir, lavar com frequência. Senão podem causar alergias. Vou ser muito sincera e temo que me considerem também muito estúpida mas, ao ver a casa, pensei: não é a casa mais saudável e segura para uma pessoa com mais de noventa anos. É certo que tem o jardinzinho, mas ela diz que pouco o frequentava. E vê-se, ao lado dela, uma bengala, por sinal bem engraçada, e isso significa que já tinha alguns problemas de mobilidade. Ora tanto tapete...

Mas o que eu penso ou deixo de pensar não interessa, o que interessa é a diversidade e beleza de tantos objectos que ela tem, é o conforto daqueles sofás, são os tecidos e as cores, são as pinturas, são as soluções engenhosas (como a do quarto extrra). 

Para quem não atina bem com a língua inglesa, relembra que dá para pôr legendas em tradução automática para português.

Por dentro da casa histórica de Gloria Steinem em Nova Iorque | Architectural Digest

A AD tem o prazer de receber Gloria Steinem para uma visita guiada à sua casa em Nova Iorque, onde vive há muitos anos. O ícone feminista mudou-se para o seu duplex num edifício de tijolos do século XIX em 1968, após o estrondoso sucesso da sua reportagem de 1963, "A Bunny's Tale", que expôs o caso do Playboy Club e impulsionou a sua carreira jornalística para novos patamares. Nos 58 anos em que Steinem viveu na sua casa, esta tornou-se a base perfeita para fazer e testemunhar a história. Foi em 1971 que a sua sala de estar recebeu mulheres dos media e da política, e onde nasceu a revista Ms. A casa de Steinem é profundamente pessoal, repleta de memórias fascinantes da sua incansável carreira e ativismo – um espaço luxuoso e colorido, onde é fácil sentir-se acolhida e instantaneamente em casa. Steinem não pretende deixar de receber mulheres influentes tão cedo.


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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

terça-feira, setembro 01, 2026

Slow living in heaven
-- E uma casa muito bonita em Melides --

 

Acordei tarde. Aqui é a regra. Não sei porquê mas aqui durmo muito mais, um sono dos ferrados, dos bons. Sempre assim foi. Não sei se há ainda mais oxigénio do que na outra casa. Mas não deve ser isso, porque ar puro também não falta lá. Mas há qualquer coisa aqui que me traz um sono maravilhoso. Se calhar é porque o meu marido anda pelo campo e, ao não estar em casa, não faz barulho, não me acorda.

Fomos almoçar àquela tasca de uma aldeia a alguns quilómetros daqui. Em boa hora a descobrimos. Come-se francamente bem, é tudo bem servido e os preços bastante razoáveis. Nada a ver com o disparate que se pratica lá pelas minhas outras bandas: preços, no mínimo, o dobro, quantidade se calhar metade. Aqui comemos lindamente e ainda sobrou pelo que trouxémos o resto em caixinhas. O pior é o barulho no início, quando a sala está repleta. A acústica é péssima, um barulho que me incomoda. Há sempre grupos, gente palradora, parece que falam todos ao mesmo tempo. Depois, quando começam a sair, fica bom. Por isso, geralmente vamos mais para tarde porque assim mais de metade do almoço já decorre em ambiente mais tranquilo.

Hoje, por cá, foi dia de rega das valentes. O meu marido queixa-se sempre da água que gasto, diz que choveu, que nem valia a pena regar, e que não era caso para uma rega tão prolongada, que é um desperdício. Mas água dada à terra nunca é água mal gasta. Levo muito tempo, sim, sou cuidadosa, imagino a água a descer, quero que a terra fica molhada até bem fundo. E há muitos pontos para regar aqui do lado da frente e de um dos lados da casa. Não rego atrás nem do outro lado e muito menos rego longe da casa. Mas o curioso é que parece que tudo já se habituou à míngua de água. Algumas plantas, como por exemplo os aloés, ficam com as pontas mais castanhas mas, ainda assim, aguentam-se como uns valentes. 

O meu marido, como sempre, anda de serra, serrote e podão e corta tudo o que pode. Mais uma vez o rapaz que queremos que cá venha dar uma ajuda não pôde vir. Tem outro trabalho e não sai cedo. E os dias estão mais pequenos. Não sabemos de mais ninguém. Há, claro, o senhor da aldeia lá de baixo que cá veio algumas vezes. Dizem dele, os outros: 'Tem um problema, bebe muito, mas quando ele vê que não está capaz, não trabalha. É sério.'. A verdade é que não vinha muitas vezes e, como fazia tudo manualmente, o rendimento era pouco, quase nenhum. Não valia a pena. Ele mesmo dizia: 'Não rende, fica tudo na mesma.' Sério, lá está. 

De qualquer forma, gostamos de nos ocupar. No entanto, fico sempre com a sensação que nunca nada está tão bem quanto poderia estar. Mas a genica já não é tão efervescente como era dantes, e já gosto de me pôr na espreguiçadeira a olhar o céu e as árvores, na mais pura indolência. Dantes não sabia o que isso era, agora sabe-me tão bem...

Estive também a dar xylophene numa cadeira que está na cozinha, de apoio (ou seja, não faz parte das cadeiras em volta da mesa). O meu marido disse que estava a tomar o pequeno almoço e a ouvir um barulho. Apurou o ouvido e percebeu que vinha da cadeira. Espreitou e viu que um dos pés já tem dois buraquinhos. Levou a cadeira para a rua. E estive a dar-lhe umas boas camadas daquilo e ver se os bichos morrem.

Muitas vezes pensamos que havemos de ir aqui ou acolá. Mas depois, não sei se por preguiça ou se até bastante racionalmente, abstemo-nos. Estamos aqui tão bem, gostamos tanto de aqui estar, quando trabalhávamos desejavamos tanto ter tempo para poder desfrutar calmamente deste lugar, que acabamos sempre por achar que não vale a pena andar a fazer quilómetros para trás e para a frente para estarmos em sítios onde não nos sentiremos tão bem como aqui. 

Ao fim do dia, vinha de fechar as janelas na parte antiga da casa, encantada com as florzinhas da buganvília que agora adornam o exterior da janela do quarto que era da minha filha e cheguei ao corredor que estava iluminado pelas cores douradas do pôr do sol e parei: tão acolhedor, tão doce. A luz é um elemento fundamental na vida desta casa. Pela sua configuração, pela forma como se oferece ao sol, a casa vai-se iluminando diferentemente ao longo do dia. Fui buscar o telemóvel e fiz várias fotografias. 

Esta aqui abaixo, certamente por nabice minha, não fixou os dourados brilhantes da luz do sol, parece que ficou tudo rosado. Mas não era assim, era amarelinho, dourado pelo sol. A ver se amanhã tento de novo.

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Agora, ao ligar o computador à noite, o youtube tinha uma casa para me presentear. Teria graça que o youtube sorteasse casas e me tivesse calhado esta que aqui vos mostro. Mas não, limita-se a mostrar, a fazer fosquices. 

É em Melides. 

Ao ver a casa pensei que é muito do género da casa de um amigo nosso: uma casa térrea, ampla, cheia de portas, com amplos terraços, com um belo jardim. Esta casa aqui abaixo dá para os campos de arroz. A dele dá para um campo de golf. Tudo verdinho à frente, quase a perder de vista. A casa dele também é muito especial, obra dele, e tem diversas esculturas e pinturas de grandes dimensões. Também tem peças de artesanato, mas não é uma casa tão 'bonitinha', organizada e arrumada como a que verão abaixo. Ele é apaixonado pela casa e percebo-o. A dona desta casa em Melides também parece bem encantada com a sua casa. Um oásis. Só tenho dúvidas é em relação aos mosquitos. A Comporta, do que conheço, pelo menos até há algum tempo, tinha um bocado esse problema, em especial, que me lembre, mais para o fim da tarde. Estas aqui em Melides, com os campos de arroz, não terão também esse problema? Se calhar não, senão não havia tanta gente a dar fortunas por um terreno ou por uma casa lá, não é?

Por dentro de uma encantadora casa de campo portuguesa, inspirada no estilo Cape Dutch

Combinando o estilo colonial holandês da sua infância com a arquitetura tradicional portuguesa local, a autêntica casa recém-construída de Penny Morrison em Melides é um refúgio relaxante e acolhedor, repleto de peças adquiridas nas suas viagens.

"Vim passar o fim de semana e fiquei completamente apaixonada por Melides", diz Penny ao recordar como mergulhou no projeto de construção na costa portuguesa após uma recomendação de Carolina Irving.


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Desejo-vos uma feliz terça-feira

terça-feira, agosto 11, 2026

Um jardim à maneira para ver se me acalma depois de mais um dia do piorio

 

Dias complexos que me deixam exausta e, à noite, com vontade de descansar a cabeça. Aquela de que não há duas sem três deve ser alterada para não há seis sem sete, quiçá nove sem dez. Sempre a somar..

E, para complicar, vimos finalmente o que se passa com a cauda do pobre cãobeludo. Tirou o colar isabelino, não sei como, e dei com ele freneticamente agarrado à cauda. Fui chamar o meu marido pois eu sozinha nem pensar em conseguir agarrá-lo e voltar a pôr-lhe aquele horrível funil. E, então, vimos uma ferida enorme na parte de baixo, na parte interior, digamos assim, a sair de dentro do pelo, uma ferida horrível, assustadora, grande, gorda e rubra como uma grande ameixa em carne viva. Se nos aproximamos e desconfia que lhe vamos tocar lá, vira-se e rosna, nitidamente apavorado. E não fazemos ideia de como arranjou isto. Só espero que não seja outra pragana. Supostamente um cão resistente, do campo, e, afinal, sempre com mazelas do caraças. E, a ajudar, este feitiozinho de cão. A cãzinha, a nossa saudosa boxer, era uma santa. Nunca tivemos quaisquer problemas destes com ela. Nunca.

Um stress do caraças, isto.

E nós sem carro. Fui ver a questão do uber pet friendly mas não são carros com divisórias para animais, são carros normais em que os motoristas consentem que os clientes transportem os seus animais de estimação. Ora é uma situação impossível, o nosso cão não é motorista friendly. Cravei a minha filha para vir buscar-nos à hora de almoço e nos levar à clínica veterniária. Felizmente está de férias por cá, consegue. Mas é um programa com o qual não estava a contar e eu destesto cravar quem quer que seja, mesmo numa emergência como esta. Detesto mesmo. 

E vai ser um pesadelo no veterinário, temo que tenha que ser sedado. E não sabemos como fazer nos dias seguintes. Tem certamente que desinfectar todos os dias e pôr pomada ou sei lá o quê e não deixa, vira-se imediatamente e tenta defender-se como pode, rosnando e ameçando atacar. Já aconteceu antes e levávamo-lo à escola de treino em que as tratadoras o continham enquanto uma enfermeira veterinária o tratava. Mas isto tendo nós carro para andar nisto. Poderíamos alugar um carro mas ele tem outra particularidade: quando passa por nós uma mota ou alguém a pé que não lhe parece de confiança, salta no banco de trás e desforra-se no que pode, temos os bancos e as portas todas espatifadas. Não podemos arriscar que dê cabo de outros carros.

Podem dizer que está mal ensinado. Sim, sim. Já andou em não sei quantas escolas. Obediente e tal e coiso mas, quando lhe parece que deve ser guardião, cão-pastor, é possessivo, territorial e implacável. É sair da sua alçada.

O nosso carro já é um caso perdido... e pior é que não sabemos quando o teremos...

Um stress. Isto causa-me um stress do caraças. 

Pelo meio ainda veio cá um senhor tirar medidas para uns trabalhos em volta da casa e por dentro, o que, obviamente, obrigou o meu marido a andar com a fera de um lado para o outro pois um homem desconhecido a circular pela casa deixa-o ainda mais reactivo do que ele já está e, se o apanhava, a coisa não ia correr bem. Agora imaginem o senhor a fazer perguntas e o cão aos saltos e a ladrar furiosamente e nós quase sem conseguirmos ouvir o senhor.

O meu filho, quando ligou, estava a pensar trazer os meninos amanhã. Mas, com este cenário de termos que ir para o veterinário, não dá. Não sabemos quanto tempo lá demoramos e, de qualquer maneira, mesmo que fosse rápido, não íamos deixá-los cá sozinhos. Que impotência com tudo isto. Não ter carro para nos deslocarmos, em particular quando há a necessidade de levar o cão ao veterinário e quando ele anda incomodadíssimo, quase não come, anda desorientado com o funil na cabeça e com o incómodo que tem e não dá para adiar, é uma sensação de impotência... E só de pensar que os múdos deveriam estar a contar passar cá o dia e que, afinal, não é possível... Que chatice.

E em cima disto mais não sei quantos contratempos. Às tantas já só me apetecia virar costas, desistir. Talvez, até, chorar.

Agora estou aqui na sala, enquanto ele está deitado aqui ao pé de mim. Mas de vez em quando estremece, agita-se. Deve doer-lhe à brava, coitadinho. 

Para ver se me distraio, viro-me para vídeos 'bonitos', tranquilos, com temas que me agradam, que me distraem e descansam a cabeça. É o caso deste que partilho. Espero que também gostem.

Por dentro da restauração do jardim de Coco Chanel na Riviera Francesa | Architectural Digest

A AD acompanha o arquiteto Peter Marino numa exploração da restauração dos lendários jardins de Coco Chanel em La Pausa, a sua icónica villa na Riviera Francesa. Dos arquivos históricos à plantação mediterrânica, a paisagem foi cuidadosamente reimaginada para honrar a visão original de Chanel, celebrando a beleza do sul de França.


Desejo-vos um dia bom

terça-feira, junho 30, 2026

Madonna mostrou os objectos maravilhosos que tem em casa mas aquele em que eu mais reparei foi no seu novo rosto

 

Aqui há uns tempos, a propósito de coisas de nada, umas três ou quatro pessoas disseram-me: 'Não julgo o livro pela capa mas...' e continuaram, dizendo mal de alguém. Como em todos esses casos se tratava de pessoas que consomem mais Insta do que literatura, admito que tivesse sido expressão que tivesse estado viralizada durante essa altura.

Mas agora, ao ver esta menina aqui abaixo, no lindo estado em que agora se metamorfoseou, foi só o que me ocorreu. Parece mesmo que está a pedir que a gente diga: 'Não julgo o livro pela capa, mas benza-o deus, a menina mais parece um boneco de plástico... e que objectos maravilhosos é que um boneco de plástico pode ter...?'. 

Ou seja, sinceramente, tomada pelo preconceito, fiquei até com medo da bugigangaria que, na volta, invadiria a sua casa. Objectos especiais? Nem imaginava, vendo o que ela fez a ela própria.

Afinal tem uns Frida Kahlo que, caraças, não me importava nada de ter também. Não sei se não se perdem ali, mas, enfim, cada um albarda a casa à sua vontade.

Mas, tirando essas pinturas, em especial a primeira, e talvez a colcha que uma das filhas fez para lhe oferecer, acho que não houve assim nada que me desse vontade de também ter. As esculturas de pénis não me parecem nada de especial. Muito déjà-vu, nas Caldas é o que não falta. 

Tirando isso, nem sei que mais, digno de relato, lá vi. Mas, na volta, não vi porque estive foi a tentar decifrar o que é que ela fez a ela própria. Ruga, nem uma. Mas também não mexe. Os olhos parecem ter sido ali colocados, meios enviesados. O nariz parece um objecto externo. A boca também mal abre. E depois a toilette e o cabelo... Não sei que diga.

Era uma pessoa tão irreverente, tendencialmente autêntica, e agora parece sei lá o quê. O que é que passa pela cabeça destas pessoas para se deformarem a este ponto? Perdem a noção? E a sério que não estou a dizer isto numa de crítica destrutiva, é mesmo uma dúvida que tenho. Será que embarcam numa de se esticar dê por onde der e perdem a noção de que estão é a ficar uma caricatura de si próprias?

Ou sou eu que vivo num outro planeta e já estou orgulhosamente só no grupo em via de extinção das dinossauras que não se esticam, não se insuflam, não se injectam, não se liftam nem se peelam (peelam de fazerem peeling, tal como liftam de fazerem lifting)? Pois não sei.

Mas vejam se gostam. 

Na casa de Madonna em Londres, repleta de objetos maravilhosos | Vogue

A lendária artista e estrela da capa da Vogue Itália, Madonna, abre as portas da sua casa em Londres para a Vogue mostrar alguns dos seus objetos mais preciosos. Começando com um autorretrato de Frida Kahlo, Madonna conta uma história incrível sobre a sua primeira chegada a Nova Iorque e o sonho de possuir esta obra de arte. Exibe também um terço de madeira que pertenceu à sua mãe, uma escultura desenhada pelo seu filho, uma manta de croché feita pela sua filha e um polvo de peluche com um profundo significado pessoal.


Desejo-vos uma boa terça-feira

sábado, junho 27, 2026

Casas com livros

 

Hoje, por cá, foi dia de ponta. E, ao dizer isto, de novo, só me apetece gozar comigo. A mesma pessoa que tinha reuniões de manhã à noite, que tomava decisões com impacto na vida de muita gente ou relativas a negócios de milhões, agora chama dia de ponta a uma vulgar sexta-feita em que as tarefas se reduzem a ir às compras, arrumá-las, pôr a roupa a lavar e estendê-la, trocar parte da terra de alguns vasos e adubá-la, regar, cozinhar para hoje e para amanhã, ir ao ginásio, passear o cão, rever umas prosas -- tudo coisas deste simples calibre. Mas a verdade é que foi o dia todo a fazer isto, fazer aquilo, ir aqui, ir acolá, sem tempo para me sentar ao sol a ler nem por um bocadinho.

Continuo sem um pingo de saudades da minha vida profissional. Gostei muito, sentia-me motivada todos os dias mas, ao fim de décadas, senti que já chegava, que precisava de me libertar das amarras dos horários, das obrigações, do stress de ter que estar permanenetemente a tomar decisões, da prisão que a responsabilidade constituía. E continua feliz, deslumbrada mesmo, com esta minha vida actual.

Mas antes, durante a semana, não almoçávamos em casa, pouco estávamos em casa. Portanto, tinha muito menos compras para fazer, menos refeições para preparar. Agora é uma coisa que me espanta e que, de certa forma, me complica com os nervos: passo a vida a ter que comprar fruta, legumes, iogurte, queijo, peixe, carne. E mil outras coisas. Uma canseira. E, vivendo num apartamento, não havia nada dos trabalhos que hoje temos relacionados com o jardim, e que são permanentes. E não tínhamos cão. Se hoje não o tivéssemos não teríamos os nossos dias tão preenchidos (a todos os níveis) como hoje temos, e adoro, mas o pretexto que nos dá para ir passear com ele é, ao mesmo tempo, um hábito que consome tempo (e, desejavelmente, calorias). 

Resultado: agora ao fim do dia, o meu marido foi buscar o jogo de futebol que só tarde e más horas percebeu que tinha dado.... e, para mim, o som dos jogos de futebol é melodia para adormecer. Dormi profundamente. Só espero que agora não me faça ter insónia na cama.

Mas tinha ideia de ter começado um livro e não consegui. Já tenho várias pilhas de livros espalhadas por vários cantos. Aborrece-me arrumar nas estantes livros que ainda não li, tenho sempre a sensação de que livro arrumado é livro desaparecido, sugado pelos restantes. Mas isso traduz-se em desarrumação.

Estive a ver a casa que aparece no vídeo que aqui partilho e gostei imenso. É o oposto da minha. A minha casa tem cores, é pouco monocromática, e tem alguns pequenso focos de bagunça. Esta que aqui se vê é uma casa tranquila, elegante, muito organizada. A biblioteca é fantástica. Não há nada que dê mais vida a uma casa do que os livros. Uma casa na qual não se veem livros revela que lá dentro há pessoas com a cabeça um bocadinho oca. Acho eu.

Uma bonita casa de campo inglesa repleta de livros e achados vintage | Tour pela casa

Entre numa casa de quinta da década de 1750, maravilhosamente restaurada, na Cornualha, onde a jornalista que se tornou instrutora de Pilates e amante de livros, Christen Pears, criou um lar acolhedor e cheio de personalidade, com design vintage, tesouros colecionados e milhares de livros.

Após anos a viver no estrangeiro, Christen e o marido regressaram ao Reino Unido e transformaram esta histórica quinta de 1750 num refúgio acolhedor e cheio de personalidade, com mobiliário escandinavo de meados do século XX, materiais reciclados, tesouros colecionados e renovações cuidadosas.

Desde a icónica parede com livros de bolso da Penguin e a lareira original do século XVIII à encantadora despensa, ao jardim florido e à deslumbrante biblioteca no celeiro, cada recanto reflete um estilo de vida mais lento e intencional.

Situada na zona rural da Cornualha, a propriedade inclui ainda casas de férias, um estúdio de Pilates, hortas e espaços concebidos para encontros, leitura e para se desligar do ritmo frenético da vida moderna.


Desejo-vos um bom sábado

sábado, maio 23, 2026

Uma casa portuguesa, com certeza

 

Como muito bem sabe quem por aqui me acompanha, gosto de arquitectura, de decoração, de jardins e, em geral, de casas.

Esta que aqui poderão ver é uma maravilha. Mas é uma maravilha por muitas razões -- pelo espaço em que está implantada, pela reconversão do espaço, pela sobriedade, pela elegância, pela beleza de alguns apontamentos -- e ainda por mais uma: é em Portugal.

Os donos, que também são responsáveis pelo projecto de recuperação e pela decoração, já estiveram de visita aqui ao blog creio que mais do que uma vez. Talvez por isso, isto ainda chamou mais a minha atenção. É que o trabalho que já conhecia deles é por bandas bem longe daqui. 

Mas, para melhor contextualizar e para perceberem o meu espanto quando percebi que têm esta casa tão incrível em Portugal, e, sobretudo, quando um deles diz que é português e que os pais são portugueses, fui pesquisar. E transcrevo a informação que o Gemini compilou para mim :

Nate Berkus e Jeremiah Brent são dois renomados designers de interiores americanos, personalidades da televisão e, além de parceiros de negócios, são casados. Tornaram-se um dos casais mais famosos do mundo do design e da cultura pop, conhecidos por transformarem casas com um estilo elegante, funcional e cheio de história.

Aqui está um resumo sobre quem é cada um e o trabalho que fazem juntos:

Nate Berkus

Nate Berkus (nascido em 1971) ganhou fama internacional nos anos 2000 como o designer de interiores queridinho da apresentadora Oprah Winfrey, aparecendo regularmente no The Oprah Winfrey Show.

Estilo: Seu trabalho mistura o clássico com o contemporâneo, incorporando muitas peças vintage, antiguidades e objetos que coleciona em suas viagens pelo mundo.
Carreira: Além de gerenciar sua própria firma de design (fundada aos 24 anos), ele lançou linhas de produtos de grande sucesso para lojas como Target e Living Spaces, e escreveu vários livros bestsellers sobre decoração.

Jeremiah Brent

Jeremiah Brent (nascido em 1984) começou sua trajetória na moda antes de migrar definitivamente para o design de interiores. Ele ganhou destaque na TV ao trabalhar com a estilista Rachel Zoe no programa The Rachel Zoe Project.

Estilo: Seu estilo é conhecido por ser altamente Texturizado, focado na arquitetura do espaço, misturando o minimalismo com o luxo de forma acolhedora.
Carreira: Ele fundou a Jeremiah Brent Design (JBD) com sedes em Los Angeles e Nova York. Em 2024, ele alcançou um novo marco na carreira ao se juntar ao elenco de designers do aclamado reality show Queer Eye, da Netflix.

O Casal e Projetos Juntos

Nate e Jeremiah começaram a namorar em 2012 e casaram-se em 2014, no prestigiado New York Public Library (sendo o primeiro casal do mesmo sexo a se casar ali). Têm dois filhos: Poppy e Oskar.

Juntos, eles transformaram a parceria de vida numa marca poderosa na televisão e no mercado editorial:

Programas de TV: Estrelaram juntos vários programas de reforma de casas, incluindo Nate & Jeremiah By Design (no TLC) e The Nate & Jeremiah Home Project (na HGTV). Também competiram no reality Rock the Block. 

Mas aqui fica o vídeo em que, para além de gozarem com a sua própria homossexualidade e de se divertirem com picardias mútuas, fazem uma visita guiada pela propriedade.

Por dentro da quinta portuguesa de Nate Berkus e Jeremiah Brent | Porta Aberta | Architectural Digest

A AD é recebida por Nate Berkus e Jeremiah Brent para uma visita à sua quinta restaurada com muito carinho em Portugal. Quando o casal de designers de interiores comprou esta quinta com 400 anos, esta estava em ruínas, mas, com muito amor e dedicação, transformaram-na na casa dos seus sonhos para várias gerações da família, ligando-os às raízes portuguesas de Jeremias. Combinando o design rústico com interiores modernos, a quinta é agora um paraíso europeu completo, com cabras, ovelhas e pavões.


Desejo-vos um belo sábado

sábado, abril 18, 2026

Velharias? Ou antiguidades?

 

Por vezes sinto saudades de quando não me preocupava com encher a casa de tralha inútil. 

Sempre gostei muito de decoração, de ter a casa à minha feição, de me rodear de objectos que me parecem especiais.

Aquela lojinha de velharias que havia não muito longe do meu emprego era uma tentação. Comprei lá vários objectos que me encantavam. Um leque antiquíssimo, uma caixinha para guardar cartas. Até uma cadeira que foi arranjada pelos meus pais, até um espelho grande que está agora no meu quarto, até um candeeiro. Ou o galo pintado numa madeira que descobri num antiquário em Amesterdão. Ou objectos que descobria em lojinhas que vendiam peças artesanais. Ou uns copinhos de vidro que desencantei em Les Halles, em Paris, e que levaram o meu marido ao desespero pois não apenas achava que não faziam qualquer falta (e tinha razão, nunca foram usados, continuam o que sempre foram, lindos e apenas decorativos), como não queria andar com peças que se partissem e que obrigassem a muitos cuidados no avião. 

Via peças que me agradavam muito, achava que ia ser mais feliz se me rodeasse delas. E era verdade. Mas depois veio um tempo em que percebi que não podiam estar todas expostas senão a simples operação de limpar o pó tornava-se um inferno. Passei a ter móveis com portas de vidro. 

Quando nos mudámos para esta casa, foi feita uma grande limpeza. Alguns móveis ficaram na cave e, com eles, muitas peças. A minha filha, que é muito mais minimalista que eu, deitou mãos à obra e simplificou o quanto pôde. 

Nunca mais comprei nada. Aliás, só uma muito bonita talvez há mais de um ano. De cada vez que me deixo tentar, penso: 'Vou pôr onde?". E como não quero ter nada ao monte, desisto.

Contento-me em ver vídeos como este que abaixo partilho. Em lugares assim, eu ficaria mil vezes tentada, coisas tão bonitas. Não são velharias, são peças com alma, com uma beleza intemporal.

O que um designer profissional compra nos melhores mercados de antiguidades de Londres | Architectural Digest

Hoje, a AD acompanha o designer de interiores Ross Cassidy pelo Mercado de Portobello Road e pelo Mercado de Antiguidades Alfies, em Londres, enquanto partilha dicas de especialistas sobre como encontrar joias escondidas e tesouros vintage como um profissional experiente. Descubra como comprar antiguidades, decoração vintage e peças únicas para a casa que cabem na sua mala e aprenda dicas de estilo de especialistas usando prata, bronze, arte e iluminação para elevar qualquer divisão.


Desejo-vos um bom sábado

terça-feira, março 24, 2026

Mostra-me a tua casa, dir-te-ei quem és

 

Se no post abaixo abaixo falo da natureza, tão múltipla, tão vibrante, tão divinamente perfeita, e da tocante afinidade que Sir David Attenborough reconhece na expressão de sentimentos entre os macacos, aqui falo de algo muito distante, bem mais comezinho: os objectos que uma pessoa tem na sua casa e que, de certa forma, revelam a sua natureza.

Já falei muitas vezes no assunto. Para mim, estar em casa de alguém pode ser uma experiência simpática mas também pode ser muito hostil. 

Casas escuras em que o pavimento é escuro, as portas escuras, os móveis e os sofás escuros, os azulejos das cozinhas cor de café com leite ou com motivos escuros, tudo é escuro (excepto a casa de banho que é cor de rosa ou verde reluzente), deixam-me atrofiada. Ou casas em que as paredes são maioritariamente vazias e depois, a meio, geralmente mais acima do que devia, está um quadro, por vezes pequeno, por vezes (a meu ver) de mau gosto, ali perdido, deixam-me desconfortável. Ou casas com colchas com folhos e cortinados de cetim, tudo às cores, com almofadas de cetim, também com folhos, em cima da cama, deixam-me incomodada. Nem falo no terror que é ter uma boneca em cima da cama, mas isso, felizmente, ao vivo nunca presenciei. Não consigo conceber como se consegue viver numa casa assim, imagino que isso torne as pessoas infelizes. Ou, então, é porque são infelizes que têm a casa assim. Não sei.

Nem consigo imaginar como se consegue viver numa casa cheia de tralha, carradas de objectos, uma casa impossível de manter arrumada ou limpa. 

Uma vez contei aqui que tinha ido a casa de uma pessoa, um familiar que tinha mudado de casa, tinha mudado de mulher, tinha mudado de vida. A casa foi desenhada por ele, enorme, com múltiplas divisões, algumas ocupadas com os seus objectos de colecção. E vim de lá perdida. Nessa noite quase não dormi, tal o pesadelo. Por todo o lado coisas. Imaginem (e vou dar um exemplo): colecção de relógios. Uma sala enorme, mas mesmo enorme, com relógios de toda a espécie e feitio: de pé, de parede, de móvel, de bolso, de pulso. Muitos, de vários estilos, de várias épocas, de várias marcas. Expositores, vitrinas, tudo cheio. Até relógios de estações de caminho de ferro. Uma coisa inimaginável. Ele feliz da vida. E eu a pensar: mas como é que se limpa isto? Não limpa, é impossível. Ou, lá está, um daqueles pensamentos peregrinos e escusados: um dia que morra, como é que os filhos dão conta de tudo isto? Não dão. Impossível. E, contíguo a esse espaço, havia um ainda maior com outra colecção, peças vindas de todo o mundo, uma coisa que mais parecia um museu. E não vou aqui entrar em detalhes e falar de todas as colecções e de toda a vastidão que é aquele espólio porque, enfim, é um familiar, pessoa estimável, e há sempre o risco de alguém o identificar e achar que estou a ser injusta. Se calhar estou. O dinheiro ali investido nem dá para imaginar e, até por isso, há que valorizar. Mas eu gosto de espaço, de ar que circule, de oxigénio, de luz. Sentir-me-ia apavorada se tivesse que viver ali ou, pior, se estivesse incumbida de manter aquilo limpo. Eu que detesto limpar o pé porque quando limpo é peça a peça, tudo tirado para fora, para limpar por trás e por baixo, não saía dali com vida. No entanto, nitidamente isso não era tema de preocupação nem para ele nem para a mulher. Dá ideia que quem tem muita tralha, colecções infinitas, só pensa em descobrir a peça alemã (é um exemplo), tecnologia xpto, feita no ano de mil novecentos e troca o passo, modelo raro, e vai fazer de tudo para a arranjar, custe o que custar. Não pensa que não precisa dela, que já não tem onde pôr tanta coisa especial, que qualquer dia haverá zonas em que não vai conseguir-se meter um pé e que nem vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, dariam para limpar tudo como deve ser.

Mas isto para dizer que sou muito sensível a uma decoração equilibrada, com apontamentos alegres, talvez inesperados, pontos de cor, espaço para circular, espaço para descansar, espaço para ler.

De manhã, abro as minhas janelas, deixo que a luz entre, deixo que o ar circule. O meu marido, no inverno, zanga-se: 'Queres que a casa fique gelada?' e vai fechar os vidros. Mas as persianas ficam até acima. E todos os móveis estão dispostos de modo a que não haja obstáculos: o ar, a luz, as pessoas e o cão -- tudo pode deslocar-se à vontade. E há cor e, espero eu, beleza.

Bella, pintada pelo pai, Lucien Freud, em 1987
[Note-se que agora, tantos anos depois, parece mais jovem e mais leve do que quando o pai a pintou]


A casa de Bella Freud, que o algoritmo do Youtube hoje me mostra, é, sem surpresa, uma casa muito agradável. Espaçosa, bonita, com elementos que têm uma história, com contornos de boa disposição. Gostei de ver e espero que também seja do vosso agrado.

Por dentro da casa eclética desta designer em Londres, repleta de objetos sentimentais | Vogue

A residência da estilista de culto Bella Freud, no oeste de Londres, está repleta de detalhes divertidos que refletem o seu círculo eclético de amigos e colaboradores. Enquanto nos guia pela casa, Bella fala sobre o seu falecido pai, o seu bisavô (o lendário Sigmund Freud), exibe uma miniatura dourada da mão de Nick Cave e muito mais
.


E queiram descer um pouco mais caso queiram conhecer a história do Pablo

terça-feira, março 03, 2026

Shibui

 

Há muitos anos comprei um blusão de pele. É forrado a cetim e tem um feitio intemporal. Sempre gostei imenso de o vestir, sinto-me bem, não é quente nem frio, não é justo nem é largo. Nem é desportivo nem clássico. Portanto, sempre o vesti em qualquer situação.

No entanto, não sei se foi o maluco do cão que, quando era mais pequeno, num daqueles saltos festivos, ferrou o dentinho ou se foi qualquer outro acidente: rasgou-se atrás, um pouco acima do cós. Fiquei passada. Não passada no sentido de zangada, já que acidentes acontecem, mas triste. Pus cola, tentando disfarçar, colando a pele ao forro. Não ficou grande coisa. E acabou por se deslocar e rasgar um bocado mais. Quando o visto, o meu marido diz que já não está capaz. É que, para além do rasgão, o cabedal também já está, em várias zonas, um pouco coçado. Tenho ideia que já a minha mãe também me dizia que o blusão já tinha visto melhores dias e que, se calhar, estava na altura de me desfazer dele.

Contudo, parece que gosto ainda mais dele. Parece que está cada vez mais afeiçoado a mim e eu a ele. E vejo beleza no passar do tempo sobre aquela pele.

Ocorre-me ainda uma outra coisa: há um lugar, in heaven, em que o terreno desce e se encosta à propriedade vizinha, vendo-se para lá e de lá para o nosso lado. Há uns anos imaginei um grande muro que estabelecesse uma barreira visual. Alto e comprido, com várias faces, quase como um grande livro aberto, com folhas desdobradas. A minha ideia era fazer pinturas em cada folha do muro. Poderia ser uma história que se desenrolasse ao longo da superfície ou poderia ser um deslizar de cores em movimento, formas abstractas, subtis. Sonhei com o que lá iria desenhar e pintar. Antecipei o prazer que era, para mim, pintar à mão livre em grandes superfícies. 

Para começar, houve que aplicar primário e, a seguir, umas camadas de tinta branca para que, com a superfície devidamente selada, pudesse, então, partir para as minhas rêveries.

E o que aconteceu é que me apaixonei pelo muro branco. As sombras que lá se desenhavam, as árvores ao lado, os arbustos por detrás, tudo aquilo, na singeleza de um grande muro branco, me parecia muito belo. 

Andei naquela dúvida durante algum tempo: persistir na ideia que me tinha levado a construi-lo ou abdicar dela e aceitar a surpresa da inesperada beleza de uma superfície branca. Ficou assim. Agora a perder cor, com alguns musgos, com aquela patine que acrescenta beleza ao tempo.

E depois há aquelas outras imperfeições que me parecem embelezar e enriquecer os objectos. Vou dar um exemplo do qual já aqui falei algumas vezes. Uma vez fui sozinha, para poder andar com tempo e à vontade, à FIL Artesanato. Já foi na FIL no Parque das Nações mas deve ter sido pouco depois da Expo 98. Saí do trabalho e fui para lá. Tínhamos mudado de casa pouco antes, havia muito por decorar. A feira enorme, cores, criatividade, tudo muito apelativo. Vi coisas giríssimas e fui comprando. Claro que não trouxe tudo aquilo de que gostava mas, ainda assim, muita coisa. Pior: coisas muito pesadas. As coisas mais pesadas, eu pedia para ficarem no stand enquanto ia passarinhar por outros stands. Antes de me vir embora, fui fazer a recolha. Tenho ideia que já eram umas dez da noite, senão mais. Quando me vi com aquilo tudo, percebi o disparate. Pensei que não ia conseguir. Quilos e quilos e quilos. Muitas peças em terracota, espessa, pesada. E peças muito grandes. Não podia deixar cair, senão partiam-se. E quase não conseguia dar passo. Aliás, dava dois passos e parava e pousava tudo. Depois mal conseguia retomar. O carro tinha ficado numa rua perto mas, com uma carga daquelas, era como se estivesse a milhas. Só me ocorria ligar ao meu marido e pedir que me fosse buscar. Mas já era tarde e não ia ficar no meio da rua, rodeada de tralha, assim de noite, para além de que não ia dar-lhe essa colherzinha de chá... 

Mas, não sei como, lá consegui. Cheguei a casa esbaforida, derreada, arrasada, apesar de ter deixado grande parte das compras no carro, para o meu marido lá ir buscar. Escusado será dizer que ficou até assustado com o despropósito de tamanho carregamento. Aliás, já tinha apanhado um susto pois eu nunca mais aparecia e não atendia o telefone. Lá dentro, com o barulho, não ouvia tocar. E, na rua, ajoujada como ia, não tinha mãos para pegar no telemóvel e depois, não sei como, deixei-o cair para dentro de um saco que ficou no porta-bagagem e nessa altura ainda não havia bluetooth. Aquela noite foi um stress do qual jamais me esquecerei

Uma das peças que trouxe é uma senhora a fazer tricot. Andando eu, naquela altura, sempre a fazer tapetes de arraiolos, isto depois do período do crochet e do tricot, achei que aquela mulher era uma bela piada para mim própria. E nessa mesma noite coloquei-a na sala do piso superior. 

Na altura, a nossa cãzinha, a doce boxer cor de mel, estava na flor da sua idade. Dormia na sua caminha, na copa. Geralmente, quando acordava, subia a escada e vinha para o nosso quarto. Mas, na manhã seguinte, acordámos com ela a ladrar furiosamente, como quando alguém tocava à porta. Contudo, o ladrar vinha da sala. Não fazíamos ideia do que se passava, alguma coisa era. Fomos ver, intrigados. 

Estava, então, a ladrar, possuída, aos saltos, junto à senhora que, tranquilamente, fazia tricot. Fartámo-nos de rir. 

Por segurança, tivemos que pôr a nova habitante quase entalada entre um sofá e o móvel-estante, para a proteger, pois a raiva contra o abuso de invasão do seu espaço poderia levar a ex-pacífica cãzinha a atacar a pacífica senhora.

Sempre tive mil cuidados para que não se partisse. Quando mudámos de casa, quase a trouxe ao colo, entre espuma, com receio de algum acidente.

Pois bem... há algum tempo, ao passar por ela, o casaco de malha solto que trazia prendeu-se numa das agulhas de tricot e, pimbas, lá caiu a senhora. Desastre, desastre. Quebrou-se toda. Fiquei cilindrada. Mas por pouco tempo. Resolvi que ainda não tinha chegado a hora dela. Fui buscar cola e tentei recompô-la. Depois, ainda pensei tentar disfarçar as cicatrizes. Mas ficou assim. Acho-a ainda mais bonita, imperfeita, não escondendo as vicissitudes pelas quais passou. 

(ampliem a saia e os joelhos e verão as cicatrizes...)

Quem a veja, pensará que termos, num lugar de tanto destaque, uma peça que se vê que já se escaqueirou toda não tem grande jeito. Mas eu acho que tem.

E, com todas estas minhas particularidades, já concluí muitas vezes que, afinal, se calhar o que há em mim não será tanto uma valente pancada mas uma veia oriental. 

A minha casa não é nada como as casas que no vídeo abaixo se veem, pois resulta de uma vida inteira vivida segundo hábitos ocidentais. Não é uma casa minimalista nem monocromática. Mas, apesar de tudo, é uma casa que privilegia o espaço livre e a entrada da luz. Circula-se abertamente pela casa toda, sem obstáculos. 

E passo a vida a fotografar reflexos, projecções, sombras e luzes vogando sobre os objectos.

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Shibui é a estética japonesa que encontra beleza na simplicidade, na imperfeição e na passagem do tempo. Ao contrário do minimalismo extremo que se concentra no vazio, o Shibui cria riqueza através de materiais naturais, artesanato e uma elegância discreta que se torna ainda mais bela com o passar dos anos.

Principais Características do Shibui

  • Beleza Sutil e Natural: Valoriza materiais naturais (madeira, pedra, algodão) e formas imperfeitas, muitas vezes associado ao conceito de wabi-sabi.
  • Contenção e Moderação: O design é simples, funcional e sem adornos desnecessários.
  • Profundidade: A beleza não é óbvia; é algo que cresce com o tempo e o uso.
  • Cores Neutras: Preferência por tons suaves, apagados ou monocromáticos, como cinza, castanho e branco suave.
  • Elegância Discreta: É o oposto de chamativo; uma sofisticação tranquila. 

O Shibui aplica-se a artes, design de interiores, arquitetura e à vida quotidiana, focando-se no que permanece bonito ao longo do tempo.

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3 regras japonesas para um lar pacífico

Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, abril 08, 2025

A casa da Anitta

 

Como sabe quem por aqui me acompanha, gosto bastante de apreciar belas obras de arquitectura. Tenho tido a sorte de ter visto de perto o que a arte e o engenho dos (bons) arquitectos conseguem fazer. Não apenas sabem apreender o espírito do lugar como o sentir de quem para lá vai. De espaços pequenos, por vezes com 'morfologia' antiquada, conseguem criar espaços amplos, modernos. De espaços 'apáticos' e banais conseguem fazer nascer espaços únicos, marcantes. De espaços que pareciam sem vida e sem nada que os salvasse conseguem fazer lugares maravilhosos de lazer e convívio. E conseguem trazer a luz para dentro de casa em espaços acanhados e sombrios.

Temos a sorte de ter em Portugal grandes arquitectos e temos a possibilidade de poder admirar grandes obras de arquitectura quer a nível residencial ou empresarial quer a nível urbano.

A casa que aqui mostro não tem o tipo de decoração que mais aprecio pois, embora tenha a grande virtude de parecer de fácil manutenção, parece-me um pouco monocromática, um pouco monótona. Mas a arquitectura é qualquer coisa... E a implantação no terreno parece-me uma maravilha. Aliás, o exterior da casa parece extraordinário.

É da cantora Anitta, que não conheço de ver actuar mas apenas de nome. Parece-me humilde e simpática e gosto do painel de azulejos que está na entrada para  ilustrar a vida na favela, as crianças, os anjos que as protegem. E gostei de ver como ela descreve a interacção que teve com os arquitectos. Acomodar as suas pretensões e sugestões dela deve ter sido um desafio e tanto para eles.

A casa de Anitta na encosta da montanha do Rio de Janeiro

 | Open Door | Architectural Digest

quinta-feira, janeiro 23, 2025

Não tenho muito a dizer

 

Hoje haveria vários temas divertidos para abordar, desde a possibilidade de termos um deputado larápio, um upgrade dos que fanam carteiras no 28, até à graça de ter o delfim Musk a criticar no X uma das mega decisões do Trump.

Mas não estou muito para aí virada. Faz um ano que o telefone tocou à noite trazendo a notícia que eu mais temia. E ainda não consigo perceber como é que já passou um ano nem consigo passar por cima deste grande paradoxo que é a vida humana, tão efémera, tão destituída de lógica. E parece que ainda não há muito andava eu a tentar convencê-la a tomar os comprimidos para aquilo que afinal nem era o principal problema, a rebater os seus argumentos sobre efeitos secundários, efeitos esses que, de tão variáveis e tão erraticamente empolados, eu achava que eram fantasia mas que provavelmente era apenas a sua maneira de desviar a atenção do problema sério que ela escondia, provavelmente até dela própria.

E depois há as saudades. A falta.

Mas o tempo corre, a vida continua. É assim mesmo.

Neste momento, mais dois familiares próximos estão internados e eu espero, espero, que se ponham bons. Mas sei que bons, bons, bons como antes, dificilmente ficarão. 

Mas, ao mesmo tempo, novas crianças vão entrando na passadeira rolante, crianças que riem, que brincam, que aprendem. E adolescentes que se estreiam nas artes do amor. Jovens adultos que progridem na sua vida. 

Portanto, há que saber conviver com memórias, com perplexidades, com preocupações, com saudades e com expectativas e esperanças e com alegrias.

Apesar de estar bem consciente disso, hoje não estou propriamente inspirada ou motivada para grandes conversas.

Mas vi um vídeo que me agradou imenso e que aproveito para partilhar convosco. A dona da casa é artista que admiro e com quem simpatizo. E a sua casa é fantástica.

Isabel Teixeira expõe literatura, arte e história em sua casa! | Pode Entrar | GNT

O lar de Isabel Teixeira se resume à história. Seja de seus avós ou de sua própria caminhada, a atriz tem desde o piano de sua avó, passando pelos livros autografados de Guimarães Rosa de seu avô até a fotografia de seus bisavós❣️

Dias felizes.

E não nos esqueçamos que a vida é para viver.

segunda-feira, dezembro 16, 2024

Uma questão de ménage

 

Vou tendo notícias dos meus amigos e vou constatando o óbvio. E só não digo o óbvio ululante porque prefiro não me esticar no vocabulário. Vou manter-me comezinha. E não é que goste particularmente de me ver aqui comezinha mas foi o que me ocorreu. E o óbvio que vou constatando é que hoje é um que tem uma coisa, depois é outro de quem andávamos sem saber e que, afinal, teve uma cena e está internado, num outro dia é uma que é operada às cataratas, e depois é alguém que conta que vai começar a fazer tratamentos. E já nem falo na tristeza que é quando a gente se lembra de alguém de quem já não sabe há algum tempo e aparece alguém que diz, com ar compungido que essa pessoa, infelizmente, já cá não está. Pois é. Não vamos todos chegar aos 120 nem vamos todos de viagem no mesmo dia. Haveremos de ir aos poucos. Mas, felizmente, a maioria ainda está na boa. Mas isto de estar na 'boa' é relativo pois a verdade é que quando não dói aqui, dói ali. Claro que há dias em que não dói nada. Ou, então, dói um bocadinho e a gente cagua nisso (calma, comezinha me mantenho: educadamente interpus um u entre o g e o a -- ah, que sopinha de letras mais gira...).

Como hoje andava a doer-me um bocado o pé, o meu filho disse que eu deveria era fazer mais exercício, que cada vez lê em mais sítios que a massa muscular é fundamental. Não tenho ido fazer deep mix pois estou cada vez mais avessa a compromissos e a horários. Mas, se calhar, tenho que fazer mais do que caminhadas. A lida da casa não é suficiente para não perder massa muscular. 

E, agora que falo em lida da casa, fico a pensar em que mais é que poderei fazer que me fortaleça os músculos. Uma das coisas que me parece que é boa para os braços é varrer. E com aquela coisa que não é ancinho mas que também não é vassoura, raspo a terra onde a relva seca, e isso requer força. E ando com regadores de água. E gosto de lavar coisas. Mas passar a ferro, que também deve dar músculo, praticamente é coisa que já não se pratica cá em casa. E limpar o pó odeio. Mas isso não deve fazer nada à massa muscular. Andar a lavar casas de banho, o chão, roupa, tudo isso é bom para mim. Mas peçam-me para limpar o pó e fico doente. É que para limpar o pó sou meticulosa, reentrância a reentrância, por baixo, por trás, as pernas das cadeiras, das mesas, as traves. Tudo, coisinha a coisinha. E, por isso, levo horas. E odeio, odeio gastar horas de vida com uma tarefa tão sem graça.

Talvez por isso, quando chego a qualquer lado, uma das coisas em que reparo é se é fácil de limpar. No verão estive na casa de uma amiga onde ainda não tinha ido. Estupidamente em vez de louvar a graça dos objectos, o ambiente acolhedor ou a beleza das pinturas, o que me saiu foi: 'Limpar esta tua casa deve ser uma trabalheira...'. Ela riu-se. Acho que nunca tinha pensado nisso. Respondeu: 'Não sei, é a minha empregada que trata de tudo. Desde que me reformei só lhe peço é que não ande com os tarecos à volta enquanto eu estiver a dormir.'

Por exemplo, ao ver a casa aqui abaixo, sem dúvida uma casa fantástica, ainda por cima principescamente decorada para esta época festiva, o que penso é que é casa em que eu não poderia viver: ou teria que andar lá sempre gente a cirandar e a limpar ou, então, aquilo deveria estar sempre carregadinho de pó.

Mas vejam. E inspirem-se.

Inside Richard E. Grant’s Georgian House at Christmas | Design Notes

Richard E. Grant welcomes us into his London home at Christmas. Filled with an abundance of treasures, Richard’s house sits within a walled garden littered with the dark foliage of evergreen topiary and ivy-clad trees, all providing an atmospheric backdrop for the attractive façade of his Georgian house.

“It looks like something that, I suppose, I have fantasised about living in since I was a little boy,” says the Saltburn actor as he sits in the drawing room of his rectory. Watch the full episode of ‘Design Notes’ as we tour Richard E. Grant’s house in Richmond, which has been given a maximalist boost of lavish Christmas decorations for the festive season.


E uma boa semana para todos

domingo, dezembro 15, 2024

O tocante e digno testemunho de uma mulher sozinha

 

Passei todo o dia num virote. 

Os meninos não dão tréguas. Em especial, ela que que é toda líder, toda voluntarista e determinada, logo que chegou anunciou que vinha tratar das decorações de Natal, dentro e fora de casa. Foi ela para a cave e foi de lá trazendo caixas e baús. 

E foi buscar o escadote e depois, claro, precisou de ajudantes.

E desencantou pais-natais de que se lembrava de, quando era pequena, ver na nossa outra casa, bonecada de que eu já nem me lembrava. 

Mas ela estava feliz pois o rever estes enfeites despertou nela uma certa nostalgia. 

E contou a toda a gente, inclusivamente por telefonema, que tinha descoberto os pais-natais da outra casa, e adorou também encontrar as bolas grandes que ultimamente não tinham saído à cena.

E agora há bolas numa árvore, fitas noutras, uma coroa natalícia num portão e um laço no outro. E há de tudo um pouco e a casa está alegre e festiva, com luzinhas que são uma graça.

E para o jantar anunciou que ia fazer cebola caramelizada para pôr por cima dos hambúrgueres e, sozinha, cortou cebola, muniu-se de ingredientes e fez o que eu não sabia que se fazia assim: com manteiga, açúcar mascavado, vinagre balsâmico. E ficou espetacular. E ajudou a rechear os hambúrgueres feitos à mão com queijo da ilha ralado. Isto com o cão a chatear e a ter que ser posto fora da cozinha.

E depois de ter tomado banho, pediu para lhe secar o cabelo, coisa que faço de gosto e que sempre acorda em mim o gosto de ser cabeleireira.

Os rapazes estiveram mais sossegados, a guardarem-se para atacar à hora das refeições.

Agora já dormem pois amanhã dois deles têm programa bem cedo. E ao almoço já cá estão de volta, desta vez também com os pais. 

E se agora conto isto é porque esta é a minha realidade, diametralmente oposta à de Jenny Jackson. 

Esta mulher já apareceu noutros vídeos desta série e sempre me espanto com a sua franqueza, com a sua incrível humildade e, ao mesmo tempo, orgulho e dignidade. Vive sozinha. Habitou-se a viver sozinha. Gosta de viver assim. Sente-se independente. Mas, ao ficar com muitas dores nas costas, agora que a idade já avançou um pouco mais, sentiu que precisava de ajuda. A forma como ela fala disso, tão sincera, tão espontânea, é tocante.

O vídeo é, em minha opinião um testemunho fantástico, e talvez nos ajude a perceber como podemos ajudar os que estão sozinhos e têm receio de perder a sua independência (ou a sua dignidade) caso peçam ajuda.

Está legendado de origem em português pelo que se vê (e ouve) lindamente.

I OWE you my LIFE

There comes a moment in every life when the weight we carry feels too great to bear alone. In these moments, a choice appears: to keep struggling in silence or to open ourselves to the strength and kindness of others.

This story is about that choice — a journey of discovering the beauty in being vulnerable, and in finding that this simple act can transform not just ourselves but those who stand ready to help.

It’s not easy to let go of the walls we build to protect our independence, but when we do, something remarkable happens. Bonds, delicate yet enduring, can be forged; a quiet, gentle exchange of giving and receiving becomes a shared act of humanity, binding us ever closer to one another and reminding us that we are not alone.

Featuring Jenny Jackson.

Filmed in Hermanus, South Africa.


This is the fifth film that we have made together with Jenny.  If you've missed the others, you can see them here:

quarta-feira, dezembro 11, 2024

O charme discreto da burguesia

 

Como hoje, por aqui, está bastante frio, vesti uma camisola fininha mas quente, relativamente comprida, quase túnica, com bolsos, e com uma gola que pode estar dobrada e fazer um simpático e pequeno decote em bico mas que, na rua, em especial quando o sol deixa de agasalhar e o frio aperta, pode subir e, se eu quiser, fica até um capuz baixo. É muito confortável e flexível. É num tom neutro, mais cinzento clarinho que beige, e sinto-me bem com ela. 

Agora que aqui me sentei, não me apetecendo mergulhar no déjà vu que é o dia a dia do mundo com as suas contradições, umas arrepiantes, outras assustadoras e outras que, de tão boas, quase parecem que a malta anda in the sky with diamonds, resolvi ir de visita à Madame le Figaro. 

E eis que dou de caras com um artigo cujo título refere: "usar uma gola alta em vez de écharpe: o charme discreto da burguesia". Interessante. 

Para além do aspecto histórico das indumentárias com golas bem altas associadas à aristocracia, há agora também a elegância associadas à discrição, permitindo encobrir um pouco o rosto (e que pode ser conjugado com uns óculos escuros que, no conjunto, quase garantem o anonimato).

Victoria Beckham porte un manteau ceinturé au col montant tiré de sa propre marque. (Paris, le 13 novembre 2024.) Marc Piasecki / GC Images

Gosto francamente. 

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Interessei-me também sobre as astúcias de maquilhagem para um olhar de festa. É tema que me motiva (qb, claro...).

Pour les fêtes, on ose le regard œuvre d’art. Plume Creative / Getty Images

Li com atenção o artigo e dali até saltei para outros artigos que contêm tutoriais que ensinam a disfarçar olheiras, papos debaixo dos olhos, rugas e pele baça. Há toda uma longa literatura e talvez milhares de vídeos que ensinam truques e recomendam produtos que tapam, que iluminam, que chamam a atenção para outros pontos, que alongam, que prolongam. Um longo filão. 

Ora, depois de ter visto tudo isto, eis que passo para outro artigo em que uma escritora recomenda um livro. Não a conhecia a ela nem conheço o livro (que deve ser interessante). O que chamou a minha atenção foi outra coisa: as olheiras dela.

Anne Berest, romancière et scénariste. ©Assouline/opale.photo

No mesmo local em que se ensinam truques para que as mulheres tenham um olhar fascinante, aparece esta mulher que parece mal dormida. 

E a verdade é que, apesar disso, acho que é um belo olhar, acho que, apesar de despida de disfarces, tem imenso carisma. Para dizer a verdade, quem é BCBG é mais deste género do que quem tem olhares tão maquilhados que não deixam antever a alma de quem os possui.

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Entretanto, está na altura de se falar das ementas das festas, de como arranjar as mesas, de como levar o ambiente acolhedor e luminoso da época festiva à decoração, etc. 

Dans les chambres et les salons, vases, pampilles et potiches de Bernardaud sont sublimés par les fleurs et les végétaux choisis par Jean-François Boucher, meilleur ouvrier de France, et responsable de l’atelier floral du château. Franck Juery

Também gosto de ver mesmo que, na prática, quando sou eu a tratar do assunto, havendo por cá um bando de jovens ruidosos, alegres e esfomeados, não se consiga seguir a etiqueta dos momentos bem comportados. E é que às tantas uma pessoa até quase esquece de como é a verdadeira etiqueta. 

Nada, claro está, que também não se consiga relembrar:

Découvrons les bonnes manières avec Marie de Tilly

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Desejo-vos um dia feliz