Mal dei pelo ano que acabou. Os dias sucederam-se a um ritmo tal que, a meu ver, mal deixaram rasto.
O que aconteceu a nível político, vendo bem, foram coisas passageiras, pouco marcantes. Os tempos são de futilidade e quase todos os partidos vão cedendo ao facilitismo. As redes sociais vão triturando as mentalidades e, aos poucos, vai-se pensando e agindo em função das reacções que aí se vão manifestando. É um mundo que não me interessa.
A nível profissional têm sido, para mim, tempos esgotantes. Ainda há pouco recebi uma mensagem de alguém que tem partilhado este caminho a desejar-me que o próximo seja menos cansativo. Tem sido uma luta. Nunca antes tinha sido tão permanentemente desafiada. Está muito na moda dizer-se que 'crescemos' com as dificuldades. Eu não sei se cresci. Não o colocaria nesses termos. Talvez me tenha tornado mais dura, mais intransigente, mais impaciente. Mas, ao mesmo tempo, mais humilde. Tantas vezes penso que estou certa e, afinal, a realidade vem demonstrar que só interessa estar certa se o estiver no momento certo, no lugar certo. Mas, se calhar, daqui por algum tempo, tudo isto também tenha perdido relevância.
Mas a nível pessoal aconteceu-me uma coisa muito estranha e dessa eu não posso esquecer-me. Contei-o na altura e já falei várias outras vezes.
Quando li o que estava escrito na documentação da clínica, enfarte agudo de miocárdio, nem queria acreditar.
Mas o que retiro daqui é que, na volta, se não tem sido a coincidência extraordinária de fazer um electrocardiograma no justo momento em que a coisa estava a dar-se, ainda corria o risco de ir desta para melhor... sem dar por isso. E isso dá-me uma perspectiva algo perturbadora do acaso que é a vida. Mas, curiosamente, no bom sentido.
A possibilidade de a morte ser assim -- uma coisa inesperada, indolor, rodeada de estupefacção -- não me desagrada.
Tenho para mim uma coisa que me é muito clara: o que for, soará. Não quero fugir ao meu destino. Quero ajudar a fazê-lo, é certo, mas apenas no que me for natural. Ter medo de morrer para mim é sinónimo de ter medo de existir. Por isso, não tenho medo. Gosto de existir, sem medos, e aceito o que a existência me reservar.
E sinto-me é agradecida, mas mesmo muito agradecida, pelas felizes coincidências que, na volta, me têm salvo a vida.
Por isso, se alguma coisa posso concluir é que bom, mas bom mesmo, é a gente viver cada bocadinho da melhor maneira possível. Nunca se sabe quando é que isto vai acabar. Portanto, é de vivermos em paz connosco e com os outros, na boa, agradecidos pelo que temos, não o desperdiçando com situações e pessoas que não interessam.
Está quase a acabar este ano. Não se sabe o que aí virá. Os tempos são de areias movediças.
Mas se for assim, um dia de cada vez, e nós conscientes do milagre que é estarmos vivos e da responsabilidade que isso comporta, amigos daqueles a quem queremos bem, exigentes para connosco e com os outros, em especial com quem nos governa -- que se zele para que cada geração deixe o planeta melhor do que o recebeu, que se zele para que cada geração deixe uma sociedade mais justa, mais inclusiva e feliz do que a que recebeu -- então, estaremos bem.
E, quanto ao resto, bola para a frente porque para a frente é que é caminho.
Feliz Ano Novo. Tudo de bom para vocês. Felicidades.