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domingo, novembro 26, 2023

O do costume + heaven, oh so beautiful.

Ponto. Parágrafo. Espaço. (para não contaminar o resto do post)

Os passistas, os moedistas, os rangelistas, os cavaquistas, as galinhas histéricas e a múmia que foi abençoar os mencionados mais o risonho Montenegro com o seu pouco saudável bafo

 

Havia um ténue cheirinho bom a queimada. Quase parecia um cheirinho a lareira vindo de longe. Tudo bom, tudo bonito. Adoro lá estar. Adoro, adoro.

Mas tivemos que vir. 

Lanchámos com parte da família. Chegar e abancar soube-me bem. Tínhamos pensado parar algures para não aparecermos de mãozinhas mas recebemos indicações de que era para levar nada, nada. Portanto, foi isso. O meu marido disse: 'Bom, se já lá há lanche, só se formos comprar menus do mcdonalds...'. Informei, não fosse isso causar algum mal-estar. Mas também fomos impedidos. 

Portanto, de mãozinhas mesmo, foi mesmo apenas lanchar. E o lanche bem bom.

O pior foi o telefonema. A crise, o desespero, o alarme, o drama de sempre. Depois, ao tentar perceber o que se passava, já não era bem aquilo, era coisa que, a meus olhos, é menor. Ainda por cima, omite indicações que ajudam a dimensionar o que diz. Reporta as coisas descontextualizadamente, exageradamente. E, na cabeça dela é, como sempre, como todas as vezes, uma situação terminal. Para a equipa clínica deve ter valido zero pois não me ligaram e o médico nem a foi ver. Já devem estar a perceber o que se passa pois nos primeiros dias ligavam-me sempre. 

A verdade é que, apesar de ser o mesmo todos os dias de há bastante tempo a esta parte, fico num stress, preocupada, sem saber o que devo fazer, sempre no receio de que desta vez seja a valer. Bem que a família me diz que agora já não sou eu que tenho que fazer alguma coisa pois por alguma razão ela agora está num sítio com equipa clínica diária. Mas como o médico não a vê todos os dias (porque já deve ter percebido que nada daquilo corresponde ao drama que ela pensa que é), fica ainda mais insegura, exponenciadamente aflita, com medo de estar a ser descurada. E então ainda mais empola e dramatiza, certamente para conseguir que o médico vá lá amanhã de propósito (como já aconteceu no fim de semana passado).

Bem posso tentar relativizar mas é uma pressão tão, tão, permanente, tão, tão, em crescendo, que a minha cabeça não tem tempo para se restabelecer antes do drama que se segue (porque não há um dia, um só dia, em que ela não pense que está em estado gravíssimo, sem retorno, e que aja como se quisesse convencer-me de que devo tomar imediatas providências -- mas quais...? quais, senhores...?).

Mas, enfim, adiante. Adiante. Adiante. Adiante. (Tenho que me puxar da fossa em que parece que estou a enterrar-me). ´

Entretanto, ligou-me há pouco uma amiga que, ao contar-lhe eu esta situação, me perguntou se não seria já uma forma de demência. Os meus filhos e o meu marido acham que é. Eu não. Mais me inclino para depressão, paranoia, coisa assim. O raciocínio dela e todo o discurso bem como a memória estão intactos, tudo funcional, surpreendentemente bem. Dizem-me todos que pode ser algum tipo de demência em que não controle as emoções nem consiga raciocinar para relativizar os medos. 

Contou essa minha amiga que o pai, um dia, do nada, saiu-se com uma conversa desprovida de sentido deixando todos sem perceber o que era aquilo. E que, a seguir, se tornou agressivo, desconfiado, via coisas, imaginava coisas, tornou-se uma ameaça. 

Ora isso corresponde ao tipo de demência que se identifica enquanto tal, ao passo que, no caso da minha mãe, se é demência, nunca de tal tipo ouvi falar.

Mas, pronto, vou parar com isto. Stop. Stop. Stop. Interrompam-me, digam-me que não volte a falar nisto, enfiem-me numa camisa de forças.

Vá, adiante. 

Cá vou.

Já em casa, a jantarmos uma pizza que comprámos pelo caminho, vimos parte das notícias.

E não dava para acreditar no que via. Em Almada, o encontro dos festivaleiros laranjas. Tudo gente datada, fora de prazo. Montenegro, sorrisinho matreiro, a dizer insanidades, disparates atrás de disparates. Depois vi o Rangel a fazer olhinhos e trejeitos enquanto o Montenegro esparvoava. Provavelmente, também falou e imagino bem os trocadilhos, os esgares, a vozinha escaganifada. Ou seja, a barraquinha ainda deve ter sido maior. E, se calhar, enquanto falava, estava o Montenegro com aquele seu sorrisinho de quem não percebe nada do que se passa à sua volta pelo que mais vale sorrir a ver se disfarça.

Ouvi também o Moedas e é outro daqueles esganiçados que não dá para levar a sério. Cantam de galo mas não passam daqueles galinhos da Índia que fazem muito barulho mas a que ninguém, na capoeira, presta qualquer atenção.

Para cúmulo dos cúmulos, vi que apareceu por lá a célebre múmia que, de vez em quando, aparece a dar à mandíbula, parece que quer ganhar balanço para bolsar a azia em forma de palavras, com aquele arzinho ressabiado de quem não consegue conviver com a vida real. Falou, falou e não conseguiu dizer uma que se aproveitasse. Contudo, atrás dele, o Montenegro parecia satisfeito por ter recebido a visita daquela assombração e isso diz muito sobre ele. Se fosse eu corria a sete pés. Foge. 

A seguir, a televisão mostrou o omnipresente Ventura a troçar, de alto, do Montenegro e do PSD no conjunto.  Não sendo nada, o Chega, fruto de ser permanentemente levado ao colo pela comunicação social, consegue parecer que é alguma coisa. Um partido fascistóide, populista, vazio de propostas concretas, constituído por gente desclassificada, vários a contas com a justiça, e aí anda sempre nos écrans das televisões. Uma aberração parida sobretudo pelas televisões.

O IL a desfazer-se, o CDS inexistente, o Chega que não passa de um populista com um bando de saudosistas de outros tempos atrás, e, para ajudar à festa, um PSD que mais parece um conjunto de salvados de um naufrágio qualquer. Até a Marilú dos Swaps eu lá vi naquele circo que montaram em Almada. 

Face a este pindérico panorama, teria o PS que se pôr a dormir na forma para não agarrar uma maioria confortável nas próximas eleições -- e isso não vai acontecer. 

Tomara é que a abstenção, em especial por parte das pessoas que têm neurónios, não dê cabo da lógica. 


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As fotografias, como é bom de ver, foram feitas in heaven. Como poderão reparar, apesar de não serem um luxo, não as quis contaminadas pelo bafo do Cavaco nem pelo dos seus descompensados apoiantes. Por isso, coloquei-as fora dessa parte do texto. 

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Isto está um bocado maçador, não está?

Se estiverem de acordo, vamos mas é dançar. Boa?

Paolo Conte - It's wonderful - Via con me


Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Ânimo. Paz.

quinta-feira, novembro 23, 2023

Impotência

 

No outro dia, ao vermos fotografias do nosso casamento, o meu marido disse: 'O chato disto é que metade da malta já cá não está'. Pois é. Eu, ao ver-nos nas fotografias de grupo, também tinha pensado exactamente isso. Não sei se é metade, se é um terço. Sei que são muitos. Avós, quase todos os meus tios, todos os do meu marido, sogros, o meu pai.

Deve ser o que acontece em todas as famílias ao fim de um período longo. É a tal lei da vida. A malta chega ao fim da passadeira rolante.

No entanto, é também certo que tantos dos que hoje habitam o nosso coração ainda não existiam nessa altura. E isso é uma alegria. De certa forma, a passadeira está sempre cheia. Saem uns, entram outros.

Não têm sido nada fáceis estes tempos para mim. 

Em todos os casos anteriores, quem saía da passadeira estava doente, sabia-se o que se passava. 

No caso que agora me é muito próximo, não se sabe o que se passa. Supostamente, há uma condição física que estará controlada. 

Contudo, antes, o receio exacerbado dos medicamentos sempre a tinha levado a evitá-los (não dizendo a ninguém que o fazia). Sempre zelou em absoluto pela sua independência, estou agora em crer que para garantir que ninguém percebia que não tomava o que devia. E, se se via forçada a tomá-los, imediatamente sentia todos os efeitos secundários que tinha lido na bula. E tão convincente era, tão mal se mostrava, a tantos médicos dizia que ia que, segundo ela, lhe diziam que suspendesse os medicamentos, que não havia como ser eu a questionar o que me era apresentado como decisão dos médicos.

Até que a situação se agravou e passei a acompanhá-la às consultas e a garantir que não falhamos nenhuma e que a medicação é seguida. Contudo, para ela isto foi como uma sentença de morte. É como se estivesse a ser forçada a ser envenenada. Em vez de aceitar que, tratando-se, lhe é garantida uma sobrevida de qualidade, não. Leu todas as bulas e, de imediato, mais uma vez achou que ia morrer dos efeitos secundários.

Tem lutado por todos os meios para trocarem ou retirarem ou reduzirem a medicação. Contudo, para seu desespero, os muitos médicos ouvidos confirmam que a medicação é a correcta e que, sob risco de vida, não pode ser suspensa. Nos últimos dias, um outro médico, mais um, o confirmou. Para ela, foi uma tremenda desilusão. Não sei porquê, pensava que este ia ceder. Ficou para morrer com a indicação dele de que deveria continuar a tomar aqueles medicamentos. A sua condição de saúde parece que se agravou ainda mais ao saber disso.

E, em estado de enorme exaustão, queixa-se de mil sintomas que atribui aos medicamentos e que os médicos juram a pés juntos que não pode ser. Mas a verdade é que está a piorar de dia para dia. Nenhumas análises, nenhuns exames, identificam o que quer que seja. Tudo está normal. Mas o declínio é evidente. De dia para dia, decai mais e mais. Sempre cheia de medo, descontrolada de medo e fatalismo, como se estivesse a morrer e ninguém ligasse, já sem força, exausta, é já uma sombra do que era. 

E queixa-se de tantos sintomas, tantos, que, às tantas, agora que tem enfermeiros e médicos a olharem por ela, está a ser medicada para o que não tem. A mim diz que não se queixou daquilo, que eles é que perceberam mal. Mas a eles não tem coragem de dizer que era a fingir, e toma mesmo. Mas já ninguém percebe o que é que tem de verdade, pois tão depressa sente tudo, de uma forma absoluta, com manifestações exuberantes, como, pouco tempo depois já não é aquilo, é outra coisa. 

Mas, neste processo, desgasta-se, esgota-se, fica exaurida. E eu vejo que, mesmo que tudo o que ela sente seja uma somatização, a verdade é que está a destruí-la. E aparentemente ninguém consegue resolver isto.

De dia para dia a situação agrava-se. Está rodeada de pessoal clínico e todos continuam a dizer que, de físico, concreto, não se percebe o que possa ser, mas a depauperação do estado geral é gritante. E eu sinto-me impotente, sem saber o que fazer. O meu marido e os meus filhos dizem que obviamente não sou eu que posso resolver o que quer que seja, que só o pessoal clínico é que poderá. Só que eu tinha esperança que, entre enfermeiros e médicos, soubessem lidar com uma situação que me ultrapassava, e estou a ver que não.

Creio que é um caso em que fica muito evidente o que a mente pode fazer ao corpo. 

E eu peço-vos desculpa por estar a voltar a este tema. Não queria estar a importunar-vos com o que começa a ser recorrente. Quem por aqui me acompanha sabe que detesto falar dos meus problemas. Tem morrido quem me é próximo, têm estado doentes, eu própria por vezes tenho tido alguns problemas e pouco ou nada falo disso. Não gosto de carpir, não gosto de me lamentar. Só que, desta vez, esta situação está a submergir-me, quase não me permitindo respirar. Bem tenho tentado falar de outros assuntos mais animados ou mais simpáticos mas, lamento, não estou a conseguir.

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PS: Volto a este post para escrever uma nota a posteriori. Quando escrevi o texto que acabaram de ler e que, de vez em quando releio para constatar que aquilo que eu sempre temia -- que um dia houvesse uma situação séria da qual nem eu nem ninguém se apercebesse -- aconteceu. Ao escrever o que acima escrevi jamais poderia supor que dois meses depois a minha mãe estaria morta. 

terça-feira, outubro 31, 2023

A casa de Bella Freud, filha de Lucien Freud, neta de Sigmund Freud
(para ver se me redimo de vos maçar, outra vez, com os meus problemas...)

 


Estou um pouco esgotada. E o 'pouco' é, claro, uma maneira de dizer. Já passei por tanta crise, tanta situação difícil, por vezes por dentro de situações limite que nunca esperaria viver, e nunca me senti tão exausta e sem saber como dar a volta às coisas como agora.

Ao longo de toda a minha vida, mesmo no meio de furacões ou terramotos, sempre me mantive relativamente serena, com a perspectiva do que fazer para escaparmos o mais incólumes possível. Sempre reconheceram em mim a característica de não perder o pé, não perder o rumo, não perder o sangue frio, não perder o optimismo. Por vezes, eu própria me questionava se isso não seria sinónimo de inconsciência.

Pois, neste momento, isso não acontece.

Quem me veja a lidar com a situação talvez ache que, apesar das circunstâncias, consigo manter o racionalidade, a tranquilidade. De facto, tento manter a argumentação, tento convencer, tento aguentar as coisas, tento mostrar-me calma. 

Mas, por dentro, sinto-me quase derrotada, pois todos os dias, várias vezes durante o dia, sou submersa pela mesma onda, sempre a mesma onda, cada vez mais forte, cada vez mais alta. Como se eu não tivesse dito nada antes, como se antes não me tivesse esgotado em explicações, em argumentações, como se não lhe tivesse feito a vontade e falado com médicos, uma e outra vez, ido a consultas, etc. Sempre a mesma conversa, as mesmas queixas, o mesmo choro, a mesma postura, a mesma respiração de quem está muito mal, e as mesmas reivindicações, a mesma atitude que, sinceramente, já não sei se é genuína ou se é também uma (talvez inconsciente) manipulação para tentar levar-me a fazer exactamente tudo o que quer (e digo isto pois sintomas que eram gravíssimos, insuportáveis, no dia seguinte, por milagre, já desapareceram dando a vez a outros, ou desaparecem se falo com os médicos conforme ela queria, embora no dia seguinte possam reaparecer, já que os médicos nunca dizem o que ela quer ouvir). 

Por mais que lhe evidencie que nada disto faz sentido, que nos últimos tempos isto repete-se diariamente e que a resposta que obtém de todos quantos a examinam é sempre a mesma, não se convence. Ninguém presta, ninguém sabe, ninguém quer saber, nem quem a examina e, certamente, nem eu.

Hoje foi a um outro médico, um que não tinha nada a ver com nada disto, mas a quem, inacreditavelmente, foi contar a mesma história, recorrentemente contada, a de que os medicamentos estão a acabar com ela. O médico, certamente pensando que isto não tem sido objecto de não sei quantas idas a médicos e urgências, disse que ela devia pedir uma segunda opinião. E, então, a seguir, a conversa era esta, a de que este médico tinha aconselhado isto e que era isto que se devia fazer. Ora isto como se já não tivesse pedido mais de umas vinte opiniões. 

Quando, já exausta, lhe digo que, em vez de andarmos nisto, nesta insanidade, se ela quer deixar de se tratar, que tome ela essa decisão pois, como já constatámos, nenhum médico lhe retira ou altera a medicação pois é a indicada (todos o confirmam). E, se os médicos o dizem, não sou eu, que não sou médica, que vou fazê-lo.

Nessa altura, aconteceu o que acontece também frequentemente: que ela não quer fazê-lo, eu é que percebi tudo mal, eu é que não presto atenção ao que ela diz, que eu é que invento coisas. 

E não saímos disto. 

Porque, de facto, o que se passa é que anda obsessivamente a arranjar sintomas e argumentos para justificar que, com carácter de urgência, continuemos a tentar descobrir um médico que faça o milagre de a pôr vinte anos mais nova, sem necessidade de qualquer medicamento. Ora como não sei onde descobrir tal médico, vou continuar nisto. 

Os meus filhos dizem-me que não ligue, que não me deixe abalar. Dizem-me até que lhe diga que não quero falar mais de doenças ou que, se é para continuar com a mesma conversa de sempre, não estou disponível para isso. Ou seja, acham que não devo alimentar a conversa pois é um loop do qual não saímos. Mas é impossível fazer o que sugerem pois ela chora, simula que mal respira, queixa-se de tudo como se estivesse numa fase terminal, sendo que os sintomas, como já aqui referi, vão literalmente da cabeça aos pés e, segundo ela, tudo indicia uma coisa de gravidade extrema. Ora, perante este cenário, como é que posso dizer que não quero falar mais disto? Até porque sei lá se é a pancada de sempre ou se, algum dia, está mesmo doente. 

Hoje voltei a perceber que o que queria mesmo era voltar a ser internada para ser examinada  em contínuo, todos os dias, exames integrais, de todo o tipo. Mas isso não existe, não vou chegar às urgências e dizer um disparate destes. Então fica num desespero como se eu não quisesse que se soubesse o que tem para poder tratar-se como deve ser.

Receio, sinceramente, dar em maluca com isto. 

Mas, enfim, hoje tinha resolvido não falar deste mesmo tema, ninguém tem que estar a levar com coisas tão chatas. Mas como a última cena foi mesmo há pouco e como estou deveras apreensiva sem saber como resolver esta situação, voltou a sair-me esta prosa... 

Garanto que amanhã não vou reincidir... Já dou com cada seca aos meus filhos... Era o que faltava terem vocês que estar também a ser sacrificados. 

Não falo no meu marido pois ele assiste diariamente a esta crise permanente, cada vez mais aguda, cada mais consecutiva, e, portanto, não o massacro a relatar o que se passa pois ele, coitado, também anda a passar por ela. E se, por um lado, é adepto do que os meus filhos dizem, que não devo alimentar a conversa, pois acha que se eu me recusar a falar sobre o mesmo de sempre talvez ela acabe por 'atinar', por outro, percebe que é praticamente impossível, concretizá-lo. Talvez algum psicólogo saiba desviar a atenção de alguém que obsessivamente se alimenta destes medos. Eu não sei. Mas já andou uns meses numa psicóloga e não descansou enquanto não a largou, achando-a incompetente, com conversas parvas que não levavam a lado nenhum. Por fim até ficava quase agressiva quando eu lhe recomendava que lá voltasse.

Bem. Calo-me já. Caraças. Peço mesmo desculpa. Vou arranjar um automatismo para, se um dia destes me der para voltar a falar do assunto, um martelo automático entrar em acção em cima das minhas mãos.

Nem eu já me aguento... Sorry.

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Para ver se me redimo, vou partilhar um vídeo em que Bella Freud (que aparece nas pinturas lá em cima), filha do pintor Lucien Freud (com quem aparece na fotografia aqui mesmo acima) e bisneta de Sigmund Freud, mostra a sua casa e fala do pai. Tem peças interessantes e até tudo muito engraçado.

Está legendado mas algumas palavras, na tradução, saem um bocado ao lado, há que dar o devido desconto.

Inside this Designer’s Eclectic London Home Filled With Sentimental Objects | Vogue

Cult fashion designer Bella Freud's west London abode is filled with playful details that speak to her eclectic circle of friends and collaborators. While taking us throughout the home, Bella talks about her late father, her great grandfather (the legendary Sigmund Freud), shows off a mini golden replica of Nick Cave's hand, and more.


Desejo-vos um dia bom
Saúde. ânimo. Paz.

domingo, outubro 29, 2023

Desbastar árvores.
Tentar controlar exacerbados medos (alheios)

 

Estava ainda na cama, comecei a ouvir um barulho. Claro que a essa hora o meu marido já estava levantado há não sei quanto tempo, já tinha regressado do seu passeio matinal com o urso felpudo. 

Apurei o ouvido. Percebi que estava a trazer qualquer coisa da cave.

Depois ouvi abrir a porta da frente. E um ruído metálico. Depois ele a dizer à fera que se desviasse.

Estremunhada, um sino tocou na minha cabeça. Ia desbastar as árvores do jardim junto à entrada.

Num salto, apeei-me da cama e, à trouxe-mouxe, enfiei uma roupa qualquer. Num ápice, estava fora de casa

Já ele tinha desdobrado a escada, já estava encavalitado, lá em cima, em acção, com serrote e podão de cabo extensível.

Concordei que fosse podar aquela profusão de ramos pois as duas árvores estão gigantes, compactas, não deixando passar o sol e impedindo o desenvolvimento da relva por baixo. E provavelmente a falta de sol ia atrofiar a magnólia. Mas não quero é que ele faça isso sozinho. Primeiro, receio que a escada resvale ou que ele resvale e que eu não esteja para acudir. Depois, receio que corte o que não deve pois, estando lá em cima, no meio dos ramos, perde a perspectiva e pode cortar a eito. Acresce que há uma trepadeira que dá flores muito bonitas que se suporta nos ramos da árvore. Por isso, não se pode cortar nenhum ramo em que ela esteja presa, senão é para a desgraça.

Portanto, andei a ajudá-lo, não só apontando para os ramos que podiam vir abaixo como, depois deles cortados, puxando-os e arrastando-os para um monte.

Foi mais de uma hora, talvez mais de duas, não sei, de volta daquela árvore. Ainda podia tirar-se mais uns quantos mas já não são alcançáveis com a escada.

Talvez este domingo se trate da outra árvore.

Este é o tipo de coisa que gostamos os dois de fazer: desbastar árvores. 

Sempre gostei embora na base da cabeleireira. Aparar, cortar umas pontas, com um gentil podãozinho. Batia-me por elas quando o meu marido queria reduzi-las a metade do volume, de serrote e podãozão em punho. Mas agora já percebi que, se não tentamos conter a natureza, ela acaba por nos devorar. E, com sensibilidade e bom senso, as coisas podem parecer em estado natural e, ainda assim, estarem sob controlo.

Claro que este foi o momento levezinho pois houve também o momento denso com a minha mãe. Nada de diferente dos outros dias. Mas uma pessoa chega a um dia em que parece que atinge o limite das suas capacidades.

Não consigo perceber se ela sempre foi como é agora, embora tivesse mão em si própria (e, portanto, fazendo com que não nos apercebêssemos), ou se está mudada. Não consigo perceber. Os meus filhos acham que está mudada, dizem que a avó não era assim. Eu não estou certa disso. O que sei, e disso tenho a certeza, é que o medo que tem de estar doente e o medo de não estar cabalmente diagnosticada, associado ao medo de fazer os exames como deve ser e, sobretudo, tudo potenciado pelo medo de tomar medicamentos, dão-lhe cabo da cabeça a ela e a mim. Por mais exames que faça, acha sempre que ainda não foi devidamente avaliada. Ou acha que os médicos não prestam. E, sempre que lhe receitam alguma coisa, faz de tudo para não tomar os novos medicamentos. E faz de tudo, mas tudo, para convencer toda a gente, nomeadamente os mil médicos a que já foi, que os medicamentos que está a tomar a deixam mais doente do que se não se tratasse. Isto apesar dos exames todos demonstrarem que não tem nada a não ser a doença para a qual está a ser tratada.

Como também tem medo de tomar ansiolíticos, fica muito difícil de lidar com a situação (difícil, muito difícil, para ela e para quem lida com ela, nomeadamente, eu).

Tantas vezes, tantas, tantas, parece estar muito mal, convence-se que está muito mal, transmite-me e mostra-me que está nas 'últimas' e tantas, tantas, tantas vezes não é nada -- e, mal se distrai ou abstrai, fica como se nada fosse --, que fico sempre a achar que é mais uma das suas crises exacerbadas. Mas receio que um dia seja a sério e que eu erradamente desvalorize. Mas, quando estou nesta preocupação, passado um bocado já ela está noutra. Noutra... pois, logo de seguida, já está outra vez muito, muito mal, mas com um outro sintoma.

Hoje disse-me que os meus tios é que têm sorte de ter uma filha médica pois assim a minha prima sabe sempre avaliar o estado de saúde dos pais. Pois. Infelizmente não posso fazer nada para resolver essa pouca sorte dela. Não apenas não tenho conhecimentos médicos como, além disso, ela não liga patavina ao que eu digo. Por vontade dela, para ultrapassar as minhas limitadas competências, todos os dias eu pegava nela e levava-a para as urgências. 

Muito complicado. 

De facto, nunca pensei que se transformasse desta maneira. Não quer fazer tricot ou crochet, diz que não tem paciência, diz que nada na televisão lhe interessa, não pega num livro, não conversa de outra coisa que não das suas doenças. Em cima disso, sabe de cor as bulas dos medicamentos, pesquisa no google tudo sobre doenças ou tratamentos e... fica com todos os sintomas que lê. 

Desperdiça estupidamente estes seus anos. E, por mais que a tentemos convencer a tratar-se da ansiedade, não quer, irrita-se comigo, fica furiosa: acha que está tão mal, fisicamente tão, tão mal, e eu, insensivelmente, a desvalorizar. Isto apesar de todos os médicos lhe dizerem o mesmo. Mas depois acha que eu é que influencio os médicos. Por mais que lhe diga que não falei nisso aos médicos, não acredita.

(Enfim, é o que é. Escuso de para aqui estar nesta lamúria porque é o que é. Além disso, acho que só que quem passou por isto é que consegue perceber como é.)

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A conversa hoje está pouco animada, não está...?. E eu não gosto de vir para aqui chatear os outros com as minhas minudências. Por isso, pedindo-vos desculpa pela conversa, bora mas é lá dançar.

Play by Alexander Ekman


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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Ânimo. Paz.

quarta-feira, maio 17, 2023

Receita para curar hipocondríacos

 


Por acaso, e pelo menos até ver, não sou hipocondríaca. Mas sei bem o que isso é pois tenho convivido de perto com quem o é.
 
Não é coisa de que se deva gozar pois é uma doença se calhar pior do que as doenças de verdade. 

As pessoas hipocondríacas julgam que estão doentes (talvez porque tenham um medo descontrolado de estar) e, a partir daí, desenvolvem toda a espécie de sintomas que comprovam que têm mesmo essa doença.

O google e a própria bula dos medicamentos incentivam bastante este tipo de problemas. Para quem sofra desta síndrome, os sintomas aí estão à disposição. À la carte.

Quando dizemos a essas pessoas que o problema delas é a ansiedade e que deveriam procurar apoio psicológico ou tomar um ansiolítico ofendem-se e rejeitam liminarmente essas sugestões pois temem que, com isso, desvalorizemos os seus sintomas ou que, ao ficarem menos ansiosas, os sintomas fiquem ofuscados. 

Durante as fases de hipocondria aguda, as pessoas que disso padecem ficam voluntariamente entregues, quase a 100%, a si próprias, a olharem para dentro de si, tentando identificar e caracterizar os sintomas, validando na documentação a que acedem que esses sintomas confirmem a doença, tentando identificar outros que o reforcem, tentando verificar se também os sentem.... etc. 

Não querem conviver pois não querem perder de vista os seus sintomas não vá a coisa agravar-se, não querem que os outros digam que é tudo inventado (ou imaginado). Geralmente ficam deprimidas, mal encaradas. Comportam-se como se estivessem mesmo mal e melindram-se com o descaso que verificam nos outros.

A hipocondria pode focar-se em maleitas distintas que vão variando. Um dia estão muito mal, com todos os sintomas, com um problema na cabeça, e não descansam enquanto não são vistos por um médico e não fazem exames. Mal sabem que estão bem todos os sintomas desaparecem, sendo desvalorizados. E nem querem que se fale no assunto. Pouco tempo depois, estão com outra doença, sempre grave, localizada no peito, com sintomas irrefutáveis. Podem descrever de tal forma o que têm que a única solução é ir para as urgências. Dias depois tudo isso se varreu e já estão noutra. 

Quando lhes dizemos que padecem de hipocondria mórbida negam em absoluto, dizem que ninguém no mundo quereria mais não padecer de nada do que eles. Falam como se um hipocondríaco fosse alguém que gosta de estar doente. Não é. Um hipocondríaco é alguém que desenvolve medos quase paralisantes de estar doente.

Uma pessoa hipocondríaca não é apenas uma pessoa que destrói a sua própria qualidade de vida como a dos que a cercam pois, quem está por perto, teme sempre o dia em que algum daqueles sintomas seja real e que, por o ter desvalorizado, fique responsável por a pessoa não ter sido acudida a tempo. E, por outro lado, não é confortável ficar no papel de quem é insensível e inconsciente a ponto de não prestar atenção a alguém gravemente doente. Mesmo perante o hipocondríaco que se sente portador de doença grave e/ou terminal, como ficamos se mostramos que aquilo não passa de mais uma daquelas invenções habituais e transitórias?

Por isso, que não se menospreze o poder devastador da hipocondria.

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Mas passo a palavra ao ChatGPT

Eu:

O que é, a que se deve e como se trata a hipocondria?

ChatGPT:

A hipocondria, também conhecida como transtorno de ansiedade de doença, é um transtorno psicológico caracterizado pela preocupação excessiva e persistente com a possibilidade de ter uma doença grave, mesmo na ausência de evidências médicas que justifiquem essas preocupações. As pessoas com hipocondria geralmente interpretam sintomas físicos normais como sinais de doença grave e tendem a buscar constantemente exames médicos e investigações para confirmar suas preocupações.

A causa exata da hipocondria não é conhecida, mas acredita-se que seja uma combinação de fatores genéticos, ambientais e psicológicos. Pessoas com histórico familiar de transtornos de ansiedade, traumas passados ou experiências negativas com doenças podem estar em maior risco de desenvolver hipocondria.

O tratamento da hipocondria envolve uma abordagem multidisciplinar que pode incluir:

Terapia cognitivo-comportamental (TCC): A TCC é uma forma de terapia que visa identificar e modificar os padrões de pensamento negativos e distorcidos associados à hipocondria. O terapeuta ajuda a pessoa a examinar e desafiar as crenças irracionais relacionadas à saúde, desenvolvendo estratégias para lidar com a ansiedade e reduzir os comportamentos de busca por reassurance médica.

Terapia de exposição: A terapia de exposição gradualmente expõe a pessoa a situações temidas, como consultar médicos com menos frequência ou adiar a procura de informações médicas, com o objetivo de reduzir a ansiedade associada à hipocondria.

Medicamentos: Em alguns casos, medicamentos como antidepressivos ou ansiolíticos podem ser prescritos para ajudar a reduzir a ansiedade e os sintomas relacionados à hipocondria. É importante lembrar que os medicamentos devem ser prescritos por um profissional de saúde e seu uso deve ser acompanhado de perto.

Além dessas abordagens, é fundamental o suporte de uma equipe médica e profissionais de saúde mental especializados no tratamento da hipocondria. É importante que a pessoa com hipocondria tenha um ambiente de apoio, com familiares e amigos compreensivos, para ajudar na superação desse transtorno.

Se você ou alguém que você conhece está lidando com a hipocondria, é recomendado buscar ajuda de um profissional de saúde mental para obter um diagnóstico adequado e um plano de tratamento personalizado.

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Uma outra abordagem 

- que entre a malta da Porta dos Fundos

Segundo o Google, tenho apenas mais dois dias de vida. Tudo começou com uma coceira de nada no pescoço, cocei tanto que desloquei meu ombro e chamei meu amigo Jorge para colocar no lugar. Ele não conseguiu ajudar e devia estar gripado, pois agora também estou espirrando e com uma dor de garganta muito forte. E juro que não tem nada a ver com a mamada que eu dei nele na hora. Adeus, mundo!

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