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sexta-feira, setembro 08, 2023

Serei um dia pescadora?
[E conversas com António Lobo Antunes e Arturo Pérez-Reverte]


À beira mar havia uma névoa leve, branca, quase transparente. Caminhávamos dentro de um tule húmido quase sem darmos por isso. 

Não estava frio nem havia vento. 

Muita gente a passear e muitas línguas diferentes, muita gente a fazer surf, muita gente a fazer skate, a correr, alguns de bicicleta. O mar muito bonito, quase tranquilo de lindo que estava. 

Há sempre homens à pesca. Duvido que consigam pescar alguma coisa mas eles não desistem.

Às vezes penso que um dia gostaria de voltar a pegar numa cana, de voltar a sentir o peixe a picar, de voltar a puxar a linha, de voltar a tirar o anzol da boca do peixe. Se eu soubesse que conseguia descobrir um sítio onde fosse certo que conseguiria ser bem sucedida, arriscaria. Pensando bem, deve ser bom estar à beira da água, quieta, ouvindo apenas as ondas, à espera que um peixe ceda à tentação. E depois amanhar esse peixe com as minhas mãos, e depois cozinhá-lo e comê-lo. Deve ser bom.

Mas depois há aquilo de a maior parte do tempo não vir peixe nenhum... e isso deve ser frustrante.

E já estou a fazer aquela ginástica aquática feita com os pés no ar, coisa que tem dado uma luta... O professor diz que é mesmo assim, às primeiras custa a manter o equilíbrio enquanto se está naquele folguedo de pernas para a frente, pernas para um lado, braços para o outro. Diz que trabalha os abdominais e tomara que sim. 

E tenho conversado muito com amigos improváveis. E a minha empreitada agora anda meio interrompida pois deitei mãos a outra coisa. Não muito convictamente, diga-se. Uma coisa é ficcionar à mão livre. Outra é escrever sobre o que está a passar-se sobretudo porque não sei qual o day after.

E depois há isto. Alguma marosca há pois abro o youtube e aparecem-me escritores falando do seu ofício. Adivinha-me os pensamentos. António Lobo Antunes a ser o António Lobo Antunes e Arturo Pérez-Reverte com uma outra atitude. São estilos, não interessa. Cada um é como cada qual. 

Entrevista exclusiva a António Lobo Antunes

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Entrevista a Arturo Pérez-Reverte

Arturo Pérez-Reverte considera-se um marinheiro-leitor que acidentalmente escreve romances. Até agora, foram 34. Traduzidos em cerca de 40 idiomas, chegaram a mais de 20 milhões de leitores em todo o mundo e vários deles foram adaptados ao cinema e à televisão. 
Pérez-Reverte possui um olhar de uma lucidez extraordinária sobre o ser humano, que deve aos 21 anos em que foi repórter de guerra – aí, nas trincheiras, todos são iguais e nem sempre é claro qual é o lado bom ou o lado mau. Escreveu Linha da Frente, o romance sobre a Guerra Civil Espanhola que acaba de lançar em Portugal, como consequência da situação política em Espanha, esperando contribuir para a reconciliação nacional. E está a consegui-lo.
Quando vem a Portugal, vem à sua pátria. Defende que uma Ibéria unida seria uma grande potência frente e esta Europa que olha para o sul com desprezo. Crítico da desvalorização da História, avisa que estão a criar-se gerações de órfãos de memória, facilmente manipuláveis, excedentes em sentimentos e carentes de razão. 
Está convicto de que, no dia em que deixar de escrever romances, será esquecido, e não vê mal nenhum nisso.  Sente-se realizado, porque é lido em vida, e grato aos seus leitores, porque lhes deve a sua liberdade.


Desejo-vos uma feliz sexta-feira
Saúde. Serenidade. Paz.

sábado, setembro 15, 2018

António Lobo Antunes, a Pléiade e, finalmente, um Nobel*


Tal como os antigos comentadores biblícos, Borges e Scholem debateram a questão fundamental: 
A que sucesso pode aspirar um artista? 
Como pode um escritor alcançar o seu propósito, quando tudo o que tem à disposição é a ferramenta imperfeita da linguagem? 
E, acima de tudo, o que é criado quando um artista parte para a criação? 
Será que surge um mundo novo e proibido, ou será que um espelho negro deste mundo é erguido para nos vermos reflectidos nele? 
Será uma obra de arte uma realidade duradoura ou uma mentira imperfeita?

in "Embalando a minha biblioteca", Alberto Manguel

[O excerto acima vem mais ou menos a despropósito da mais recente parvoíce de António Lobos Antunes: 
Para Lobo Antunes esta publicação numa coleção tão especial, desde a encadernação ao papel bíblia, tem um valor comparável ao prémio da Academia Sueca: "Estar na Pléiade é como receber um Nobel." Acrescenta: "É uma biblioteca onde se encontram vários Nobel da Literatura."
António Lobo Antunes garante que este era o seu sonho de adolescente "porque é o maior reconhecimento que algum escritor pode ter". ]

* Um Nobel à medida dele, claro. Só me pergunto: teria ele necessidade de dizer estas parvoíces? Ficar contente e orgulhoso é normal -- mas não consegue sentir o reconhecimento sem se sair com a parvoíce do Nobel? Que raio de ego ele tem, senhores.

quarta-feira, maio 23, 2018

Júlio Pomar, o homem que sempre gostou de riscos



Conheci o seu trabalho quando recebi uma vez, de presente, uma edição encadernada a pele verde, um livro grande, muito bonito, com umas extraordinárias ilustrações de Júlio Pomar. Foi fascínio á primeira vista.


Depois, encantei-me com as suas pinturas de Graça Lobo. Humor e sensualidade em cores fortes. Ela a falar dele, qualquer coisa de apaixonante. Ela a fazer-se de indignada, aqueles sorrisos bem humorados: 'Cuidado... nem todos os cus eram meus... quer dizer, alguns eram mas aqueles assim mais... com pilinhas... esses não eram meus... ou ménages à trois... cuidado... esses não eram meus'.

E aquela dos falos, ele a rir, divertido, contando do marchand a perguntar para outro: 'Olha lá, tu eras capaz de ter um c... na casa de jantar?'

Depois os bichos. Depois as touradas.

E tudo. Uma tal liberdade, uma tal joie de vivre.

Uma vez fui a uma festa muito bonita. Havia o lançamento de um livro especial e ele era um dos convidados. Muita gente presa às suas palavras. Conversa boa a dele, toda rolando risos e irreverências entre as palavras, ironia, graça.

Não há muito tempo andei pelo seu Atelier-Museu e disso aqui dei conta.

Muitas vezes o trouxe aqui e, certamente, muitas mais hei-de trazer, assim me mantenha eu por aqui. 


Como sempre, saí muito tarde e, como sempre, nada sabia do que se tinha passado à superfície da terra. Foi a minha mãe que, mal me atendeu e, em resposta à minha pergunta habitual ('Então? Tudo bem?'), me disse logo 'Olha, morreu o Júlio Pomar'. Como se fosse um amigo. E eu senti um baque. 'Ah... mas de quê? Estava doente?'. A minha mãe disse: 'Tinha 92 anos. Estava no hospital'. Depois pensei que era irrelevante. Saber a causa da morte para quê? Pena é ter deixado de existir um pintor tão extraordinário. Havia ele, há a Graça Morais, há a Paula Rego. Grandes vivos poucos mais há. Muito poucos. Alguns estão ainda a fazer-se, outros nunca serão nada mais senão o seu efémero nome. Júlio Pomar é enorme, eterno.

Li há não muito um livro sobre ele, uma espécie de entrevista. Luminoso. Gosto de ler as palavras dos pintores. Quando verdadeiros artistas, os pintores são geralmente pessoas modernas. Júlio Pomar foi um moderno. 


Este documentário é imperdível. Gostei muito quando o vi pela primeira vez e gostei muito de agora o rever. Não, acho que agora ainda gostei mais pois revi algumas pessoas de quem já sentia saudades. Gostava muito que o vissem também.

Júlio Pomar -- O risco



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quarta-feira, fevereiro 07, 2018

O pénis de Trump. As mãozinhas de Trump.
(Does size matter...?

[E, a despropósito, a pilinha-leiteira do António Lobo Antunes no Palácio de Belém]



Um artista quase à altura do Bruno de Carvalho. 


Sobre o tema não tenho inspiração suficiente. Posso apenas dizer que acho mais piada a homens com mãos grandes. Se vejo um homem com umas manitas de boneca fico um bocado descoroçoada pois intuo que não está ali o valentão que se anunciou. Não sei. Preconceito, talvez. Um homem de bom tamanho, voz grossa, armado em bom e a gente olha e repara que as mãozinhas parecem as de uma pequena Barbie. Mas pronto. Se calhar não quer dizer nada. Sei lá de que tamanho eram as mãos do Tarzan. E quem diz o Tarzan diz outros.

Agora veja-se. Se este meu preconceito é com as maozitas, imagine-se com o resto. 

Pezinhos de bebé num corpanzil de gigante, por exemplo. Não sei. Não acho graça. Fico apreensiva. Parece que tem que haver proporcionalidade. Não sei. Pezinhos de pequena bailarina num corpalhão de atleta olímpico, já viram. Parece que não augura boa coisa. 

Ou com outras coisas.

O coração, por exemplo. Um homem leaozão e vai daí e a gente repara que tem um coraçanito de peixe, pequenino, quase invisível. Não sei. Capaz de não ser bom indício. Homem que se quer homem deve ter coração grande. Mas pronto. Deve mesmo ser preconceito.

Agora, preconceituosa como sou, imagine-se com o resto.

Mas pronto, lá está. Racionalizando. De facto, não interessa (muito). Há outros atributos. Especialmente se for coisa 3D. Não é só o comprimento: é também a largura e a altura. Por exemplo. Mas deixem para lá. Não interessa. É um não-tema.

Vejamos, antes, o testemunho de várias mulheres.

Atenção, homens. Ontem o tema era: homens, temos que falar. Agora é: homens, vamos lá a ouvir.


A prova de que o tamanho não importa?

Ei-la.


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Obtive a foto do tarado e narcisista bufão com a fita métrica (bufão como lhe chama Roth) no The Guardian.

Esta aqui já acima foi feita em Dusseldorf há coisa de um ano.

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PS: Ok, não vem a propósito deste post mas deixem que aproveite o ensejo para dizer que folgo em saber que o apelo a que os homens se cheguem à frente e contem as suas experiências de assédio está a resultar. De forma bastante gráfica e perante uma ilustre plateia, António Lobo Antunes contou como foi assediado por um professor de Moral. Não agora. Não quando era peludo como o Cid -- mas, na verdade, quando era pequeno e ainda não sabia algumas coisas sobre o seu corpo. Parece que os padres e os professores de Moral são danados para a brincadeira. Mas, enfim, não vi nenhum estudo estatístico pelo que mais vale não me aventurar por terrenos arriscados.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

O debate entre Santana Lopes e Rui Rio e a cara de Vítor Gonçalves depois de ter entrevistado a Carla Bruni.

[E os dilemas intransponíveis que se levantam quando penso em tornar-me escritora]

-- E William Burroughs, John Irving, George Steiner e António Lobo Antunes --





Nem sabia que havia o debate. Quando percebi que estava a haver, o meu marido não quis ver. 'Era o que faltava.'. Insisti. Apetecia-me ver se, olhando para aqueles dois marretas durante uns instantes, conseguia perceber qual deles será eleito. O meu marido aborreceu-se: 'Tencionas votar neles?'. Percebi que não valia a pena explicar que se tratava apenas de uma questão conceptual. Disse apenas: 'Põe na 1 e cala-te'. Ripostou arreliado: 'És parva' e, para me ser simpático, lá mudou mas, lamentavelmente, o debate estava a acabar. Apenas vi o Rio a enterrar o Santana Lopes com base na vez em que Santana se enterrou a ele mesmo. Logo de seguida, o Vítor Gonçalves acabou o debate com um sorriso preso ao rosto. O meu marido disse: 'Aquele gajo, desde que entevistou a Bruni, ficou assim'. Olhei e achei que ele tinha razão. Quando vimos a dita entrevista, fartámo-nos os dois de rir com o baile que ela deu ao pobre coitado.

Pronto. A seguir ao debate, vieram os comentários mas, como é bom de ver, fugimos deles. Se eu fosse sipatizante do PSD andaria à nora: entre a fome a vontade de comer, escolher o quê? Velhos e relhos -- e nem tem a ver com a idade biológica dos dois. Comida da véspera. Roupa velha. Já os conhecemos, já os papámos noutras eras. Outra vez não. Não é possível que as hostes laranjas nestes anos todos não tenham parido ninguém que se afirme e que tenha sangue novo. Nada... nada...?

Felizmente não tenho nada a ver com aquela tristeza. Quem fez a cama que se deite nela.


Com isto e andando sem motivação para falar de nulidades, pus-me, como sempre, a cirandar pela net. Como já o contei, parece que apenas me sinto atraída por coisas bizarras. Volta e meia vejo links para outros blogues nos blogues que acompanho. Fico espantadíssima porque eu nunca descubro nada do que as outras pessoas descobrem. Em contrapartida, entretenho-me com coisas inenarráveis. É como quando os meus colegas ou amigos falam dos livros que andam a ler e todos os conhecem menos eu. Em contrapartida, se quiser limpar a face e não passar por completa iletrada, não apenas geralmente não me lembro do que ando a ler como, caso me lembre, ninguém nunca ouviu falar nos escritores que refiro.

Enfim.

Por exemplo, estive aqui a ver um vídeo que mostra a casa de William Burroughs e mais não sei o quê.

E estava a ver o vídeo e a pensar no que, na véspera, me tinha ocupado a mente na viagem à noite para casa depois de ter feito os meus telefonemas do costume. Conto. Vim a pensar que, um dia que tenha tempo, gostava mesmo de escrever. E, como sempre acontece, de imediato a minha mente mostrou como é fútil. Em vez de pensar no género que iria abraçar, nos temas que me cativariam, na disciplina que teria que ter, etc, não senhores: pus-me a pensar onde é que me iria instalar. E, como sempre, vou elencando possibilidades: na secretária do escritório? Não. Teria que limpar a secretária que está cheia de tralha (até um monitor dos antigos ainda lá jaz), teria que arranjar outra cadeira (a cadeira que lá está é muito clássica, de pele, pouco ergonómica), teria que arranjar um melhor candeeiro (o que lá está é lindo demais, tem um abat-jour em tecido plissado e um elegante pé de vidro mas é desapropriado para iluminar uma escritora). Depois pensei que me sentiria ali sozinha. Não gosto de me sentir sozinha. Talvez preferisse trabalhar na mesa redonda que está junto à janela aqui nesta sala mas, lá está, teria também que arranjar outra cadeira já que as cadeiras desta mesa são cadeiras seculares, que já vieram de casa dos meus avós. Mas não sei se aqui nesta sala teria concentração. Para já também que teria que tirar de cima da mesa todos os livros que ali se foram alojar. Aliás, estou a precisar de uma estante adicional. Mas não sei onde metê-la. Pensei então que o melhor mesmo seria se conseguíssemos comprar o andar ao lado do nosso, depois abrir passagem de uma casa para a outra e usar a outra como local de trabalho. Nessa altura, já estava a pensar onde haveria de abrir essa passagem e nenhum ponto me parecia adequado. 


Como se os dilemas não fossem poucos, dei comigo a pensar numa outra questão: se ficar em casa a escrever, será que depois tenho motivação para me levantar, escolher toilette, arranjar-me? Ou ficava com roupa caseira, confortável, cabelo apanhado, sem uma sombrazinha nos olhos? Esta hipótese, que me parece a mais provável, incomodou-me. Então toda a minha roupinha ficará, forever, inútil, arrumada no roupeiro e sem qualquer préstimo? Nem uns brinquinhos, nem uma pulseirinha a fazer pendant? E eu toda mal amanhada, fechada em casa, apenas transitando do quarto para a sala, da sala para a cozinha? Não...

E, conduzida por estes racicínios, pareceu-me que escrever, afinal, seria uma actividade desinteressante para mim.

E, ao chegar a esta conclusão, desiludi-me comigo. Mulherzinha fútil e burra. Então é com estas pepineiras que uma candidata a escritora se preocupa...?

Então, para tentar arranjar uma tábua de salvação, derivei. Devia era viver numa casa maravilhosa, no campo, onde tivesse uma espécie de um estúdio para onde pudesse ir como se fosse para o trabalho e onde pudesse abrir a janela e ouvir os pásaros. Mas, aí, pensei: mas, espera lá, já tenho uma casa no campo e até lá há um estúdio assim. Mas ia para um estúdio onde ficasse sozinha? Nem pensar. Mais: aposto que, em vez de ir escrever, ia mas era varrer, limpar as teias de aranha, dar cera de abelha nos móveis, lavar e estender roupa. Ou, então, tinha que ir inspeccionar o que o meu marido andaria a fazer. Às tantas andava de roçadora a cortar mato, levando alfazema, alecrim e orégãos tudo à frente. Nem pensar em ficar fechada num estúdio com ele à solta, a fazer estragos por todo o lado!


Portanto, já à chegada ao meu destino sem ter conseguido chegar a uma conclusão construtiva, vinha incomodada. Querem lá ver que não conseguirei ser escritora só porque não consigo escolher o lugar onde escrever...? E concluí: 'Não me parece normal. Coisa mais patética'.

E juro que isto se passou assim, tal e qual. Parece-vos normal? Acham que com esta cabecinha oca alguma vez daqui pode vir a sair escrita que se veja...? A mim não.


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John Giorno mostra o bunker de William Burroughs
[Step inside ‘The Bunker’ in New York, the windowless former apartment of the legendary writer William S. Burroughs, and let yourself be guided around – from Burroughs’ typewriter to his shooting target – by its current resident, the iconic poet John Giorno. (...)]


E John Irving em casa


E acabei por ir dar a Steiner. E se gosto de ler o que ele escreve, não é menos bom ver os seus olhos cintilantes e o seu rosto com um sorriso gaiato e ouvir as suas palavras sempre certeiras. O vídeo está legendado.

Aqui Steiner conversa com António Lobo Antunes


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As fotografias,  tão lindas que quase parecem abstractas, são da autoria do fotógrafo e arquitecto Tugo Cheng e mostram um método tradiconal de pesca no sudeste da China.

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sábado, abril 22, 2017

Pecar contra os deuses
[Gonçalo M. Tavares e António Lobo Antunes]




Para se ver como tudo é tão relativo. E, atenção, nisto que vou dizer não há ponta de certezas absolutas. Aliás, se eu tivesse levado a catequese a sério, a esta hora era muito bem capaz de estar para aqui arrependida... e ainda nem pequei. Que isto que estou a pensar deve mesmo ser pecado. E, se não é, para lá deve caminhar. Só pode.

Estou com paninhos quentes. Em vez de ir ao assunto, estou para aqui com rapapés. Já devem ter reparado.

A questão é que quero primeiro pôr-me no ponto para não irritar as leitoras catequistas que preferiam ver-me aqui a carpir, a contar do desgosto que me dá a minha celulite
(mas, azarinho, não a tenho) 
ou a chorar a minha neura e insegurança,
(azarinho, também não sinto tal -- e já bati, outra vez, três vezes na madeira não vá alguma leitora diabólica tecê-las), 
em vez de me verem a opinar toda sentenciosa. 

Por isso estou aqui nas boxes a ver se perco gás antes de começar a escrever. Mas isto custa.

Não quero irritá-las mas também não posso ficar o resto da noite para aqui a bater mea culpas no peito. Que maçadoras que são as catequistas moralistas. 


Quando agora forem ensinar o milagre da Nossa Senhora a aparecer aos pastorinhos, devem ficar a fazer figas para os meninos não andarem a ler os jornais porque isto de os padres e bispos andarem para aí a dizer que claro que Nossa Senhora não apareceu em Fátima (ia lá a Senhora vir por aí abaixo, a descer dos céus, para se ir pôr a atazanar o juízo a três pobres pastorinhos?) e que a palavra correcta não é aparição mas visão imaginativa, deve deixar sem chão muita catequista penitente.

Mas então onde é que eu ia?

Ah, sim. Não ia em lado nenhum.
Andei a passear à beira rio e depois fui jantar à praia e fiz cinquenta mil fotografias... e devem estar tão lindas... e eu sem energia para ir buscá-las à máquina. Tenho que me encher de coragem e ir porque, se não, que imagens vou eu usar aqui? 
Só coisas que me ralem.


Bem. Mas o tema hoje era para ser a subjectividade. Ou melhor: a subjectividade dos leitores ao apreciarem a qualidade da escrita. Podia ser doutra coisa qualquer mas hoje era sobre a escrita.

A questão é que não pode ser o mundo quase inteiro a estar errado e eu certa. Pois se há estudos, cátedras, adaptações a peças de teatro, prémios, traduções all over, a culpa só pode mesmo ser minha. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

E ainda não saí do ponto de partida. E isto tudo para não confundir a inteligência das minhas catequistas de estimação. Imagino as pragas que elas, a esta hora, já me estão a rogar.

Mas vá. Já chega de atirar bolas para o pinhal. Está mais do que na hora de chutar à baliza.

Pronto. Lá vai.



Gonçalo M. Tavares. Primeiro chuto.

António Lobo Antunes. Segundo chuto.

(Sei que nenhum dos chutos foi à baliza mas aí, lá está, já seria esperar de mais.)

Qualquer destes escritores dedica a vida à escrita, qualquer deles escreve que se farta, qualquer deles é incensado aqui e além mar, qualquer deles pode ser considerado um escritor de culto. E, no entanto, eu acho que o que eles escrevem é ilegível, ilegível no sentido de ser uma coisa maçadora, páginas e páginas de falta de assunto, páginas e páginas de uma escrita ora redonda, ora vazia, ora redundante, ora destituída nem sei bem dizer de quê.
Não se assemelham entre si, um inventa maluqueiras desprovidas de sentido e avança sem nada dizer, personagens com nome e histórias de vida desinteressantes, e uma escrita que se nos varre da ideia à primeira aragem. O outro fala, fala, intercala falas, rodopia, volta atrás, intercala pensamentos, anda para o lado, intercala falas alheias, deita-se de costas, deita-se de frente -- e não passa disso.
Em qualquer dos casos, no meio daquilo, podem aparecer coisas bem apanhadas. Também, em tantas centenas e centenas de páginas, era melhor que fosse tudo esfumável no instante seguinte. Não. Mas, no cômputo geral, vou ali e já venho.


Porém, se me ativer ao êxito alcançado ou ao interesse que uma certa intelectualidade lhes dedica, sou levada a acreditar que me falta o neurónio descodificador daquilo. Quiçá, se eu fosse dada a tomar, cheirar, inalar ou injectar, pudesse olhar aquelas páginas e ver rios de talento, luz a irradiar das frases, pepitas a brilhar ao sol por entre os calhaus. Mas não sou dada a isso. O que a mnha mente capta é, tão só, o que os meus olhos lhe levam. O mal, cá para mim, não deve estar no que eles escrevem mas em mim que não li a Odisseia de cabo a raso, o Ulisses do Joyce, os vários tomos de Proust, a meia dúzia de livros da Ferrante, a Bíblia grega e as outras -- e, confesso, até o Rogeiro eu costumo evitar ouvir, desinteressada que sou de me instruir.

Portanto, atalhando razões: isto é tudo relativo e nunca se sabe se a culpa é do pecador, se é da catequista, se é do próprio pecado.

Ámen.


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Lá acabei por ir buscar as fotografias à máquina. Mas com que esforço...

(A primeira fotografia não foi feita ao cair do dia: foi feita de manhã, quando fui ver como estava o tempo.)

E eu estou a dedilhar no teclado e a dormir... e não faço ideia de que é que estou a escrever pelo que se a escrita estiver ainda mais ensarilhada do que a dos dois génios acima referidos, queiram sentir compaixão por esta vossa pecadora encartada.

Three Little Birds encontra-se aqui integrada no projecto Playing For Change

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NB: Nada contra as catequistas em geral. Acredito que haja muitas que o são por devoção e generosidade. Aqui refiro-me àquelas que o são porque não podem ser da polícia dos costumes, aquelas que se pudessem instituiam a lei do pensamento único e do sofrimento colectivo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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sexta-feira, outubro 28, 2016

João, o mano de António





Só para dizer uma coisa. Qualquer coisa me caíu mal aqui há algum tempo, pouco, tenho ideia que um sumo frio a meio da digestão de umas ostras, ou coisa do género. Sentia-me mal, a desmaiar (a minha tensão, sempre baixa, quase tangencia os níveis de desmaio com alguma facilidade). Fui às urgências. Quando lá estava, entre meias palavras de alguém, percebi que ele tinha passado mal, que havia qualquer coisa de grave.

Tempos antes, quando andava por lá por altura da artroscopia aos joelhos, via-o passar, silencioso, quase esvoaçante na sua bata branca. 

Via-o, então, mais magro, envelhecido.


E lembrava-o anos antes, bem mais novo, mais encorpado, sorridente, ar sedutor, no 31 da Armada, logo ali abaixo. Por vezes, via-o à noite na televisão, contando a sua experiência americana, as suas expectativas na medicina de cá, as inovações que tinha trazido. Confiante na televisão, confiante ali, encantando a companhia de mesa. À porta do 31 há buganvílias bem coloridas e ele passava por elas, homem bonito, e eu pensava nele como o irmão do António. A família Lobo Antunes tinha produzido meia dúzia de rapazes talentosos. Aquele era o bem sucedido neurocirurgião, irmão do irreverente e então bem mediático escritor.


De vez enquanto, nos anos que medeiam as recordações, lia testemunhos agradecidos, falavam da sua atenção, da sua dedicação, do apoio humano que prestava aos que dele se abeiravam para cirurgias críticas.

Quando o via atravessar o amplo recinto da recepção principal, ar quase tímido, a bata aberta esvoaçante, pensava que deve ser ainda mais duro para um médico ver o mal a tomar conta do corpo e nada poder fazer para o impedir.


António, que sempre pouco falou com os irmãos mas que tanto gosta deles, vai ficando mais sozinho. E eu, que não gosto de aqui falar dos que se vão, confesso que sinto pena.

Tal como me senti triste quando morreu Margarida Sousa Uva, uma mulher que abdicou da sua vida e que se manteve sempre delicada e silenciosa, um sorriso sempre um pouco triste. Senti pena que tivesse estado doente, que tivesse sofrido. Li que morreu em casa e penso que deve ser muito triste para quem vê extinguir-se a vida de alguém que muito se ama. Os filhos vendo a mãe a sofrer, a ser abandonada pela vida. Custa-me muito pensar nisso.

Lembro-me dos meus tios que, com a mesma doença, se foram tão rapidamente e quase de seguida. Quando ainda não se sentia muito mal, o meu tio gracejava: 'não podemos rir-nos um do outro'. E soltava a sua gargalhada mas agora, em vez de longa e sonora, breve. Como se rindo de uma ironia, o riso era breve. Uma dor grande a deles, a dos meus primos, a minha, a dos meus pais. As operações, a aflição à espera do resultado dos exames, a aflição ao saber que o fígado já estava afectado, depois que já se tinha espalhado, o corpo cansado, o já mal poder andar, o cansaço na voz, o a gente sentir que já não duravam muito. Falava com eles e pensava que não sabia se voltaria a fazê-lo. Ainda agora, às sextas feiras ao fim da tarde, volta e meia penso 'antes, a esta hora, eu pensava que não podia esquecer-me de ligar à minha tia'. Ou quando eu andava a ver com a Embaixada de Cuba como fazer para o meu tio ir lá tratar-se, parece que tinham um tratamento promissor, e na segunda-feira iam ao médico para ver como; e o meu primo ligou-me à hora do almoço e eu pensava que era para me dizer o que é que eu tinha que tratar mas ele estava a chorar e quase não conseguia falar e era para me dizer que o pai tinha morrido. E depois tive que ir dar a notícia à minha mãe e ela chorou tanto e eu não queria que ela sofresse e ela também não sabia como dizer ao meu pai para não o fazer sofrer porque eles eram tão amigos.


E o susto com a minha mãe. A voz dela, nervosa, a dizer que tinha que falar comigo, que tínhamos coisas a combinar. E eu a chegar lá a casa, eu com a aflição a apertar-me o pescoço, e ela a dizer que tinha cancro, que tinha que ser operada e a chorar, e agora o que vai ser do teu pai? E depois uma pessoa a agarrar-se a cada esperança, que era só ali, que era dos melhores, que se tirava tudo. Mas depois, para a operação, mais exames e os exames a terem que ser repetidos, uma mancha suspeita, e logo a esperança a desaparecer, e a aflição sempre presente, quase sem se conseguir respirar, a inquietação, a ansiedade. 

Ficou bem. Mas o medo. O medo.

E lembro a cunhada de uma amiga minha. A cunhada mais nova, vinte e poucos anos. Um caroço. Ela a dizer-me que estavam muito preocupados e que a cunhada já se tinha informado, já sabia o que tinha. Estava em casa dela pois eram do Alentejo e tinha que ir ao IPO. Eu lá em casa e a mãe a dizer-me que não, com certeza apenas um gânglio, que tinha apetite, bem encarada. E eu cheia de pena.

Piorou, experimentou tratamentos em Londres, fez quimioterapia, perdeu o cabelo, andava com um lenço quase turbante, bonita, jovem, ninguém diria. Voltei a vê-la num verão, em Vale de Lobo. Biquini amarelo, lenço amarelo com moedas douradas como uma cigana, e ela rindo, de pé entre amigos, feliz, exuberante. Ninguém diria. Sentia-se bem, talvez se tivesse curado, pensava.

Poucos meses depois, no início do ano, encontrei a minha amiga na Avenida da Liberdade. Estava magra, mal encarada, triste. A cunhada tinha morrido lá em casa dias antes. Foi horrível, contou. Para todos um grande sofrimento, nem imaginas, dizia-me ela, exausta. Contou-me: pelo natal quis um blusão de pele, vê tu. Estava de cama, muito mal, sem força, e quis um blusão de pele. Fizemos-lhe a vontade, claro. Contou a minha amiga, um fio de voz. Fez-me impressão. Perguntei-lhe se a cunhada tinha chegado a vestir o blusão. Desatou a chorar.


Leio que morreu em casa, o doutor João Lobo Antunes. Talvez as abas da sua bata branca se tenham aberto como asas, talvez seja agora um anjo. E sei que talvez não faça sentido eu dizer isto. Mas quem sabe se faz.


Uma vez o meu pai dizia, com muita pena, que se não tivesse sido a pneumonia, o meu avô não tinha morrido. Morreu aos noventa e tal, o meu avô, não sei exactamente quantos. Eu respondi: 'Mas quê? Vivia até aos duzentos?'. A minha mãe desatou-se a rir e o meu pai também sorriu. Todos, um dia, nos vamos. Com sorte, iremos sem sofrimento depois de uma vida feliz. Mas custa-me especialmente quando uma pessoa vê o seu corpo a ser progressivamente minado pela doença, sente que está a dar trabalho e a causar sofrimento aos outros, vê que os outros percebem a sua finitude, vê a pena nos olhos dos outros, percebe que não vai estar para acompanhar a vida dos que ama. Isso custa-me muito. Os leigos talvez alimentem uma esperança. Os médicos sabem que não, conhecem as fases, sabem que vai ser sempre pior até ao fim. E confirmam isso no olhar daqueles que os amam.


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Não gosto de falar dos que partem. Não sei dizer palavras de circunstância nem sei esconder as emoções. Por isso, raramente falo. E comecei este texto a dizer que era só uma coisa, não queria alongar-me. Mas agora já não me lembro que coisa era.

Talvez que me lembro dele, no verão, sorriso luminoso, a passar entre as buganvílias em flor.


[Desculpem-me este texto tão sombrio].

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As imagens mostram como somos no mais íntimo de nós. 

A beleza que a compaixão de João Lobo Antunes soube compreender.


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Desejo-vos a todos, meus Caros Leitores, um dia feliz.

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sexta-feira, março 28, 2014

"Amo-te tanto que não te sei amar" - o emocionado testemunho de Maria Rueff sobre o pai e sobre o seu médico, António Lobo Antunes, o escritor-psiquiatra


Abaixo poderão ler vários posts, 

  • um sobre a conversa de treta que é isto do passo em falso que terá sido o briefing das Finanças com a Comunicação Social - e que, para dizer verdade, mais me parece uma manobra de diversão para irem passando informação que revoltaria as hostes, mas de uma maneira que as hostes nem se apercebam bem disso, concentradas que estão na barraquinha armada ou encenada
  • outro sobre Stieglitz e Rentes de Carvalho (a dívida, a austeridade e a ostentação)
  • e, finalmente, um sobre a reeleição de António Saraiva à frente da CIP


Mas isso é a seguir. Aqui, agora, quero deixar-vos com um vídeo que não pode deixar de nos tocar. 

No Dia António Lobo Antunes (ALA) no Centro Cultural de Belém, o escritor foi 'visto' pelos seus leitores, entre os quais Maria Rueff.


Falou ela do seu pai, à data do relatado, internado no Miguel Bombarda onde ALA era médico, falou da gentileza do médico a cuja porta bateu, falou do médico que era giro todos os dias, falou do livro que tantas vezes a salvou. 

Assim é o poder das pessoas que trabalham com palavras - e não me refiro apenas a ALA mas também a Maria Rueff que é uma artista ímpar e que usa as palavras com uma vibração e contenção notáveis. Diz que controla a sua esquizofrenia com metáforas em vez de lítio. Mulher inteligente e com quem não se pode deixar de sentir uma imediata empatia.

No vídeo não se ouve António Lobo Antunes. Parece um pouco ausente e isso deixa-me um bocado inquieta. Mas talvez seja por alguma timidez.



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Continuem a descer, por favor.


quinta-feira, março 27, 2014

Mário Crespo reforma-se e a SIC não renova o contrato com ele - ouvi a despedida e fiquei com pena. Logo agora que eu estava a ficar fã dele, é que ele se vai embora...? Quem é que agora vai fazer oposição a sério ao gang encabeçado por Passos & Portas....? Convido-vos a verem o vídeo com a emocionada despedida de Mário Crespo e, também, uma entrevista de Mário Crespo a António Lobo Antunes.


Andava eu agora sempre a ver quem é que o Crespo levava para se desbocar contra o Governo, já um bocado cansada da Constança que fala a uma velocidade estonteante e, portanto, a virar para a SIC Notícias e a ficar surpreendida com a assertividade e acutilância do Crespo, e eis que hoje sou surpreendida com as despedidas emocionadas que entendeu por bem fazer em directo, evocando os primórdios da sua profissão e alguns entrevistados que o marcaram.

Não se faz.





Não era antes pessoa que me cativasse mas a verdade é que se tornou uma bandeira contra este governo desgraçado. Estava a tornar-se um must.


SIC não renova contrato com SIC

Li agora que Mário Crespo, tendo atingido os 66 anos (pensei que fosse mais novo - está bem conservado!), tinha metido os papéis para a reforma e que, na sequência disso, a SIC N não renovou o contrato.


Pode ser que alguma outra televisão o contrate.

Entretanto, porque António Lobo Antunes foi um dos convidados que ficará na memória de Mário Crespo (referiu-o na despedida como um dos que gostaria de voltar a entrevistar) - e porque eu própria gosto de ver o escritor-psiquiatra a falar, blasé, nonchalant - aqui vos deixo com uma das entrevistas que este lhe fez no final do ano passado.


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António Lobo Antunes no Jornal das 9 SIC Notícias com Mário Crespo



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segunda-feira, janeiro 06, 2014

"Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança?", isto pergunta-se António Lobo Antunes. E eu pergunto-me: terá ele dúvidas idênticas quando essas funções são exercidas por mulheres?


Bem, no post abaixo já falei no acontecimento que, ao longo de todo o dia, tem mobilizado as televisões de uma forma compulsiva: a morte de Eusébio. Mas, não me sentindo especialmente habilitada a falar dele nem gostando de fazer coro em situações destas, sobretudo escrevo acerca do que, em minha opinião, é o mundo perverso do futebol.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Vamos lá.

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  • Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos?
  • O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa.
  • Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não lêem revistas de golfe nos domingos de chuva.
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É certo que gestores, administradores, directores, banqueiros, etc, é gente que anda com a fama pelas ruas da amargura. Não há sindicato que os defenda, não costumam ter spin doctors para lhes dourar a imagem como aos políticos (bem, alguns têm: o Mexia-dos-Chineses está aí para o provar) e, geralmente, a vox populi associa-os ao que de pior tem acontecido à superfície da terra (ok, alguns têm a fama e tiveram também o proveito, lá isso é verdade). Mas esse não é o ponto. O ponto aqui é outro.


Porque é que se acha que esta gente é toda do sexo masculino? E se, em vez de falarmos de economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros, falarmos antes de gestoras, administradoras, directoras, banqueiras?

Será que inspirariam o mesmo desdém? E causaria a mesma curiosidade saber com que sonhavam elas quando eram crianças? E identicamente querer-se-ia saber com que sonham os maridos de mulheres assim? Imaginar-se-ia que sonhariam com coelhinhas da Playboy?

Será? E se as gestoras, directoras, banqueiras, etc, forem elas próprias umas verdadeiras coelhinhas da playboy? É que podem ser. Ou não? Terão que ser umas matafronas, machonas, que, em dias de chuva, se põem a ler revistas de golfe?

Não sei, não.

Por algum motivo que não percebo, a literatura e o cinema interessam-se muito pouco pelas gestoras, directoras, administradoras. O imaginário corrente associa estas profissões a homens frios, egoístas, ambiciosos, desprovidos de qualquer outro interesse na vida que não o de fazer dinheiro, homens que não são casados ou, se o são, traem inescrupulosamente as mulheres.

Mas, sendo uma mulher, o figurino será o mesmo?

Estive a ver se me lembrava de filmes com uma mulher executiva e não tenho ideia que haja muitos. As mulheres de que me lembro são megeras ou carentes e quase sempre trabalham em áreas ligadas à moda ou à edição. Parece que os autores têm dificuldade em imaginar uma mulher em funções de gestão que seja equilibrada, confiante, bem disposta, bem sucedida nas diferentes vertentes da sua vida.

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Em Disclosure, Demi Moore é uma mulher inteligente, sedutora, solitária e ressabiada que resolve envolver Michael Douglas numa acusação de assédio sexual, quase o destruindo. Do que me lembro assim de repente, é a única que não trabalha na indústria da moda ou edição: aqui ela é vice-presidente de uma empresa de informática.


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Em O Diabo veste Prada, Meryl Streep é Miranda Priestly, poderosa editora da revista Runway, uma mulher temível, implacável, que tem uma vida privada cheia de frustrações e tristezas.


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Ou seja, na ficção há, a este propósito, um vasto mundo por desbravar. Pode ser que algum escritor me esteja a ler e se inspire. Gostaria. Desde que não se chamasse Valter Hugo Mãe, é claro.

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E, para os maridos das economistas, directoras, gestoras e etc - que, sendo elas inevitavelmente umas sensaboronas, feias todos os dias, cinzentonas... - têm forçosamente que ocupar as mentes com coelhinhas (que não sejam da família do passos coelhinho, claro!!!!), aqui deixo de novo a Kate Moss. É certo que não terá as curvas voluptuosas que alguns apreciarão mas, ainda assim, tem um certo charme. E charme, meus Caros, vale mais que muita outra coisa.




Kate Moss, 40 aninhos, aqui é fotografada pela dupla Mert Alas e Marcus Piggott com styling de Alex White para a edição dos 60 anos da Playboy.


As citações lá em cima em itálico fazem parte de um pequeno livro de capa cor de laranja, uma coisa engraçada parecida com uma agenda, que tem 365 citações de António Lobo Antunes, uma para dia de 2014. As citações são extraídas dos Livros de Crónicas.


A citação de hoje, dia 6 de Janeiro, é: (não consigo gostar de uma pessoa que não respeite e admire)

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E, a propósito de admiração e respeito, tenho uma pessoa de que justamente gosto muito, Adélia Prado, a falar sobre o Amor no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Convido-vos a irem até lá para a ouvir. É um prazer.

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E, por agora, é isto.
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma semana muito feliz a começar já por esta segunda feira.

quinta-feira, outubro 31, 2013

O bando de meninos vestidos como se fossem para um baptizado e que, afinal, foram para o governo de Passos Coelho - governo esse que, de resto, não existe [palavras de António Lobo Antunes na Visão]. E o Guião para Matar Ideias, essa salganhada ignorante, uma coleção de chavões e banalidades, o fim da linha [palavras de André Macedo no DN e no Dinheiro Vivo]



Peço-vos que, a seguir, não deixem de descer até ao post seguinte onde há dois filmes muito elucidativos sobre a dívida pública. Vejam-nos por favor.

Agora, aqui, continuo com a voz lúcida de outros que contrasta com a galhofa despudorada com que Passos Coelho e os seus ministros de Estado, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque se apresentam na Assembleia da Repúbica.

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Na Visão, António Lobo Antunes diz que "não existe governo nenhum", mas sim um "bando de meninos":


"Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre.  Qual Governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento". 

António Lobo Antunes começa assim a crónica desta semana na VISÃO que chega esta quinta-feira às bancas, inteiramente dedicada a esses "garotos".

"Existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal", escreve ainda. 


(e continua)

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E André Macedo, director do Dinheiro Vivo, escreve aí e no Diário de Notícias um artigo a que chama Guião para Matar Ideias e que me permito transcrever na íntegra:


Paulo Portas quer ser o Giorgio Armani da reforma do Estado. Todos os anos o estilista apresenta os novos modelos e acaba com uma frase cintilante, um laço que embrulha o conjuntinho: "Proponho para esta estação una donna moderna però rinovata." Portas também deseja um Estado moderno (alguém deseja um Estado antigo?!) e renovado (alguém quer um Estado parado?!), mas não vai além disso. Não vai, aliás, a lado algum.

As "110 páginas úteis" do guião, como lhe chamou ontem, são de uma pobreza inacreditável. Não é sequer um catálogo de pronto-a-vestir político. É uma loja dos 300 onde, no meio de ideias copiadas, avulsas e superficiais, encontramos um ou outro ponto que é possível debater, mas apenas por causa do nosso desespero coletivo. O que resulta dali é tão-só uma salganhada ignorante, uma coleção de chavões e banalidades que não são mais do que a redação pueril de um candidato a uma juventude partidária que passou os olhos na biografia de Hayek , a da Wikipédia.


O célebre guião, este guião, esta coisita, não é um ponto de partida. A ser qualquer coisa é um ponto de chegada. É o fim da linha. É o epílogo que arrasa as últimas aparências que ainda restavam sobre este grupo de estagiários que o País tragicamente elegeu. É a prova documental de que o Governo não sabe o que está fazer - cumpre metas impostas externamente - e nem imagina para onde irá a partir daqui.

O texto que demorou dois anos a produzir é tão rudimentar que na verdade é apenas embaraçoso. Ontem senti vergonha alheia por Paulo Portas - o presidente do CDS acabou. Não compreendo, a não ser por vingança, raiva e desprezo profundos, como Passos Coelho foi capaz de o autorizar a apresentar esta manta de retalhos, este patchwork - Portas deve apreciar a palavra - que era suposto criar as bases para a mudança que o País terá um dia de enfrentar.


Não há quadros comparativos, não há estatísticas que permitam ver de onde viemos e para onde podemos ir, não há pensamento algum, referência alguma, não há estudo, não há trabalho. Nada. Ao pé disto o trabalho do FMI, o de janeiro, é um luxo científico. Talvez por isso, talvez porque aqui cabe mesmo tudo, Portas tenha conseguido enfiar esta frase grotesca: "(...) esta maioria tem uma matriz identificada com o chamado modelo social europeu." Tem, tem; e Portugal vai crescer 0,8% em 2014 e muito, muito mais em 2015...

Pior do que este declínio penoso do Governo é a situação em que ficamos. Ontem, em vez de sublinharem o desrespeito que este guião simboliza e revela, os partidos exibiram a habitual indignação como se aquilo fosse trabalho sério. 

Disseram: atenção, isto é a privatização da Segurança Social, da saúde e do ensino! Que horror! Algumas destas, digamos, ideias estão lá, sim, mas é o habitual bricabraque decorativo. A melhor maneira de matar uma ideia é apresentá-la assim - mal e porcamente

Ontem, quem ouviu Paulo Portas só teve uma reação: apagou a luz. Repito: isto por mim está visto.


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Nem mais.

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E eu pergunto: riem de quê estes sujeitos aqui em cima? Riem de quê?

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Relembro: descendo um pouco mais, encontrarão dois vídeos muito elucidativos sobre a dívida pública.

domingo, outubro 13, 2013

"Barómetro Literário" do Expresso. O PSI 20 dos escritores portugueses segundo os críticos literários do Actual, Clara Ferreira Alves, o dito José Mário Silva, Pedro Mexia, Luísa Mellid-Franco e Ana Cristina Leonardo. Muito bem. Gostei. E belas ilustrações de Gonçalo Viana. Estão de parabéns.






Depois de ter já aqui algumas vezes desfiado o meu desagrado pelos fretes que as revistas e suplementos literários fazem às editoras ou ao público mainstream (que consome tudo o que é vendido com roupagens propagandísticas bem engendradas), eis que hoje o Expresso me surpreende agradavelmente.

Por causa das doze páginas que o Viegas deu ao Valter não comprei este mês a Revista Ler tal como não compro Jornais de Letras ou o que quer que seja que estenda passadeira vermelha a artistas que se convencem que são escritores mas que, hélas, não passam nem por lá perto.


No outro dia fiquei passada com o José Mário Silva no Actual, todo ele a enroupar aquele fulano que gosta de andar nu e assim deveria ser mostrado. Quando um crítico literário louva os Valtinhos desta vida, eu, a partir daí, deixo de considerar a sua opinião e, por arrastamento, descreio dos jornais ou revistas que contratam críticos de gosto tão duvidoso. Não é por nada mas como é que, a partir daí, posso fiar-me no que dizem?

Claro que, em relação ao Expresso, não posso ser tão purista pois, não tendo eu tempo para ler jornais diários, tenho que me desforrar ao fim de semana e, além do Actual, gosto de ler todo o resto (excepto o que se refere a desporto).


Posso achar que o Ricardo Costa gosta de se armar em profeta - e de, a partir daí, se ver na necessidade de provar que tem ou vai ter razão ou de justificar porque é que não a teve - e que, pior ainda que isso, tem pouco sentido crítico, não é intuitivo, se um palerma qualquer diz uma parvoíce qualquer, ele não duvida. Posso também achar que é de gosto muito duvidoso ter lá uma criatura como o Henrique Raposo, que é vulgar e de um reaccionarismo primário, ou um Daniel Bessa que defende uma coisa e o seu contrário, tudo sempre fora de tempo e dando palpites sempre ao lado, ou um Henrique Monteiro que escreve banalidades com ar proficiente, demonstrando que é tão influenciável que até chateia - mas, enfim, tem também uma Clara Ferreira Alves, agora um Pde José Tolentino Mendonça, um Nicolau Santos, um João Garcia, um Fernando Madrinha, um Pedro Adão e Silva e outros cujas opiniões gosto de ler, mesmo que nem sempre concorde com o que escrevem.


Por isso, reportando-me agora apenas à crítica literária, não é uma andorinha como o José Mário Silva que estraga a primavera e, portanto, de forma fiel, lá continuo todos os sábados a ler o Expresso.


Mas, dizia eu, esta semana surpreenderam-me e redimiram-se. Com um trabalho como o de hoje o Expresso fez um favor aos seus leitores.

A ideia do Expresso foi dar oportunidade aos críticos literários residentes de, no que à literatura portuguesa diz respeito,  separarem o trigo do joio, indicando quais, em sua opinião, são os escritores mais sobrevalorizados e quais os mais subvalorizados. 


E, ao fazê-lo, revelaram a sua própria qualidade de críticos literários. 

Os leitores do Actual do Expresso agradecem esta separação de águas.

Não apenas é interessante confrontarmos a nossa opinião pessoal com a deles como ficamos a perceber melhor quais os seus referenciais.



Clara Ferreira Alves coloca Alexandre O'Neill e 'Subvalorizar "novíssimos"' no grupo dos que deveriam merecer mais atenção. 


E, de forma clara, aponta o dedo aos jogos de interesse que proliferam nos pequenos meios literários que sobrevalorizam uns, impedindo a valorização de outros que a mereceriam. 



Refere explicitamente que a LER é um produto de lobby, o de Francisco José Viegas com o seu index de inimigos e desagrados


Concordo com ela.


Por outro lado, coloca Miguel Torga e Valter Hugo Mãe no grupo dos que são sobrevalorizados. Sobre Miguel Torga não sou tão justiceira como ela mas, sobre o segundo, faço minhas as suas palavras: é um dos exemplos mais cómicos do cabotinismo literário lusitano.


Com José Mário Silva não me identifico, excepto talvez no que se refere a Carlos de Oliveira que acha que é subvalorizado face ao que vale. Não me revendo nas suas restantes opções, passo à frente.



Pedro Mexia deixa-me curiosa com as suas escolhas sobre os que acha que mereceriam melhor reconhecimento: Rui Knopfli e Teresa Veiga. Conheço mal o primeiro, não tenho, pois, ideias formada sobre ele, e não conheço Teresa Veiga. Tenho um único livro dela e acho que ainda não li. Tenho que ir averiguar. Prezo a opinião de Pedro Mexia (apenas uma vez achei que estava a fazer um frete mas percebi depois que, a ele, a amizade por vezes tolda-lhe a isenção e, enfim, sendo isso raro e sendo por uma boa causa, por aquela vez passou).


Quanto aos que acha que valem menos do que o valor que lhes é atribuído, acho que Pedro Mexia foi um cavalheiro: sobre Luis Sttau Monteiro cingiu-se à peça 'Felizmente há luar' e, ao referir Florbela Espanca, falou da sua vida complexa e tempestuosa que despertou uma atenção tal que ajudou a sobrevalorizar a sua obra. Concordo.


Luísa Mellid-Franco escolhe Fernando Campos e Pedro A. Vieira como os mereceriam mais atenção mas não posso opinar: não conheço a obra de um e outro. 


Nos que considera sobrevalorizados coloca António Lobo Antunes (com excepção para os três primeiros livros). Eu juntaria às excepções os livros de Crónicas. Os restantes livros são como diz Luísa Mellid-Franco: circulares, déjà vu. Junta J. Rodrigues Santos como um dos que não merece a fama que tem. 


Custa-me ver António Lobo Antunes ao pé do gnomo no jardim, parece-me que, apesar de tudo não há comparação. Mas, enfim, embora guardando as devidas distâncias, concordo que o primeiro é sobrevalorizado no que toca aos romances a partir dos três primeiros e concordo que o segundo não pode ser considerado escritor.





Finalmente Ana Cristina Leonardo. Gostei das suas escolhas. Nos que considera que deveriam ser melhor divulgados, refere Teresa Veiga, tal como Pedro Mexia o fez. E junta Ferreira de Castro, o que me agradou muito. Li a obra inteira de Ferreira de Castro ainda era menina e moça e acho que foi com ele que conheci a vida dos que, vivendo em condições difíceis, conservam a dignidade, dos que têm a sabedoria da vida em tempos de neve, nas serras, entre pedras, mãos calejadas, aventuras e sobrevivência a par de uma vida dura. E a Selva, que tenho em luxuosa edição, capa de pele e ilustrações de Júlio Pomar, que me ensinou o que é natureza humana quando a sobrevivência tem lugar na solidão de uma natureza cuja vida rebenta por todo o lado, a toda a hora. Gostei muito que Ana Cristina Leonardo se tivesse lembrado de Ferreira de Castro.



Como concordo com as duas estrelas de pechispeque que a falta de exigência vigente confunde com estrelas de verdade: José Luís Peixoto e Valter Hugo Mãe. Sobre o primeiro gostei, salvo erro, do Nenhum Olhar e gosto de um ou outro poema. Mas de todos os outros penso que são puro pastiche, lugares comuns, kitch, coisa armada nem sei em quê, uma repetição saturante. Sobre o segundo, o homem do sexo lavável (vá lá, ao menos é limpinho), faço minhas todas as palavras de ACL (nomeadamente quando diz que, se toda a literatura é fake, convém que não se note logo).

Ana Cristina Leonardo é uma arretada do caraças (e agora falo também da sua vertente pessoal, que conheço através do seu Meditação na Pastelaria). Tirando as vezes em que se atira, sem dó nem piedade, à jugular do colega de profissão, Eduardo Pitta - faz-me impressão aquele destratamento impiedoso para com um colega; acho que poderia ser crítica sem ser tão cruel ou, se sente mesmo necessidade de o mutilar, então que o fizesse em privado - geralmente estou de acordo com ela e até acho piada à forma desabrida e destemida como dá o peito às balas. Acho que conserva aquele despudor e aquela irreverência próprios das adolescentes difíceis - e isso tem graça.



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Como referi no título da mensagem, está também de parabéns o ilustrador Gonçalo Viana. Belo trabalho. 


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A música é Sou tua numa interpretação de Marta Dias com António Chainho. Gosto muito da voz de Marta Dias. Escolhi-a porque queria uma música portuguesa pouco conhecida e interpretada por alguém que não fosse maisntream - e foi logo dela que me lembrei


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E, por agora, por aqui me fico. Tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo.