Estava a andar lá em baixo, longe, sozinha, devagar, por entre as árvores, alheada de tudo, vendo as florzinhas, a luz a dar num caule, a translucidez de uma folha trespassada pelo dourado do fim da tarde, as pétalas derramadas sobre a rocha ainda molhada pela chuva de ontem, baixando-me para fotografar rente ao chão ou para passar a mão e sentir o perfume quando despertei para os sons ocultos.
Um pássaro soltando as asas para se ajeitar devagar dentro da árvore, duas rolas afastando as ramagens para voar para longe, um rastejar ao de leve, pequenos sons de algum pequeno animal que se esconde, um insecto que vagueia por entre as flores. Sons íntimos, quase inaudíveis. A caruma molhada está macia, abafa o som dos meus passos vagarosos, sou apenas uma sombra que desliza em estado de puro encantamento.
Antes tinha estado deitada na espreguiçadeira sob a figueira grande. Quando o sol estava franco, despi-me e fiquei a sentir o sol. Colocava o livro em frente para conseguir ler e para me fazer sombra na cara e, às tantas, pousei o livro aberto para me tapar os olhos e adormeci. Já aqui o disse muitas vezes mas digo-o de novo. Gosto muito de estar deitada, à tarde, a ler, ao sol, e depois sentir o sono a chegar devagar. É como se o estado de inconsciência viesse devagar, pelas mãos condescendentes da minha consciência.
Quando acordei, estava frio e o sol estava escondido atrás de uma nuvem escura e grande. Tive que me vestir. E ali fiquei a ler, tranquila. Tenho este livro comigo há que tempos e abro e leio ao acaso e a descaso e sempre me agrado com a inteligência e mestria do seu autor. E elegância e sensibilidade. Por vezes leio e sei que já li antes. Mas leio na mesma, não me canso. Há uma tal fertilidade no verbo que é como a natureza, por muito que a contemple, sempre tenho é vontade de ver mais de perto. Por vezes, pego no telemóvel para ver as pinturas de que ele fala. Releio o texto depois de ter visto a imagem, releio com outro olhar, depois vou ver de novo a imagem e vejo-a já com outro saber. Há nesta delonga um duplo prazer, o da arte nas palavras e o da arte nas imagens.
E, então, à medida que ia saboreando devagar cada palavra, fui-me dando conta, de novo, dos sons. Poderia dizer: do silêncio. Mas não, não é silêncio. É o canto dos pássaros. É o que parece ser riso de uma criança, muito ao longe. Apuro o ouvido: é mesmo a voz de uma criança. Deve vir da aldeia lá longe, a uns dois ou três quilómetros, com um vale pelo meio. E o som da sua voz chega até aqui. Depois um sino ainda mais longe. Talvez venha da serra. Depois um cão que ladra não se sabe onde. Envoltos em silêncio, chegam-me, suaves, os sons do campo nestes dias em que a vida, por todo o mundo, se recolheu. A natureza está entregue a si própria, em liberdade, como se estivesse a regressar ao início dos tempos.
Passado algum tempo, como já estivesse a ficar frio, fui a casa agasalhar-me e voltei para a rua. Fui caminhar lá para baixo.
O tempo vai passando devagar. Já lá vão quatro semanas. Nunca antes aqui tínhamos estado tanto tempo de seguida. Tantas vezes, nesses longínquos tempos antes do covid, desejei não ter que me ir embora naquela hora em que o sol, pondo-se na serra ao longe, derramava uma luz dourada que vinha de lá, lentamente, pelo vale, até aqui. Tantas vezes quis estar aqui, sem pressa, sem ter que abandonar a quietude e as cores e o canto dos pássaros. E agora aqui estou.
Fui, pois, lá para baixo. Gosto de respirar fundo enquanto caminho. Inspiro profundamente, retenho, expiro devagar. E de novo. E de novo. E de novo. O ar puro e perfumado circulando dentro de mim. Cheira a eucalipto, cheira a pinheiro, cheira a alecrim, cheira a rosmaninho, cheira a caruma molhada, cheira a voo de borboleta, cheira a canto de passarinho, cheira a luz acobreada do sol a pôr-se, coalhando em mil brilhos sobre os cedros e sobre as flores.
E, então, indo eu nesta levitação, sinto-me olhada. Parei.
O gato branquinho e cor de mel raiado estava parado no caminho, um pouco mais à frente. Sem se mexer. Eu também parada. Depois veio, devagar, na minha direcção. Eu arrepiada. Ele a olhar para mim, andando devagar. Eu sem saber o que fazer.
Muito devagar, com medo de o assustar e quebrar o feitiço, levantei a máquina e fotografei. Nessa altura mudou de ideias, voltou atrás, devagar. Ainda fiz bjjjjj-bjjjjj-bjjjjjjj, baixinho, baixinho. Olhou para trás, parou, depois seguiu. Virou à direita, para outro caminho.
O gato branquinho e cor de mel raiado estava parado no caminho, um pouco mais à frente. Sem se mexer. Eu também parada. Depois veio, devagar, na minha direcção. Eu arrepiada. Ele a olhar para mim, andando devagar. Eu sem saber o que fazer.
Muito devagar, com medo de o assustar e quebrar o feitiço, levantei a máquina e fotografei. Nessa altura mudou de ideias, voltou atrás, devagar. Ainda fiz bjjjjj-bjjjjj-bjjjjjjj, baixinho, baixinho. Olhou para trás, parou, depois seguiu. Virou à direita, para outro caminho.
Senti que um dia, talvez não falte muito, virá mesmo ao pé de mim. O que farei eu, se isso acontecer? Baixo-me? Espero que se abeire, que se encoste a mim? Faço-lhe umas festa? Nunca fiz uma festa a um gato. Gato é bicho arisco. Tenho medo. Talvez não medo, talvez respeito. Um dia uma pessoa muito especial disse-me que os gatos são deuses. E eu acreditei. Não se faz uma festa a um deus. Não sei o que farei se o gato cor de mel vier ter comigo. Não sei o que espera ele de mim. O cão é bicho mais humano, sei lidar com cão, cão é bicho igual. Gato não, gato não sei, é bicho distante, bicho superior, desconheço o íntimo de bicho assim, bicho que tem o seu quê de melancólico, não sei como pensa, não sei como sente.
Depois regressei a casa. O sol estava a pôr-se. Os pássaros cantavam com maior alegria. Talvez seja a forma de se despedirem antes de se recolherem. É a hora mais misteriosa, a hora dos segredos, dos murmúrios, da saudade.
Quando regressei, fui fechar o portão que dá lá para baixo. Em tempos, antes de termos a vedação em parte do terreno, este era o único portão. Era uma maneira de tentarmos evitar que os caçadores se acercassem da casa. É um portão alto, de ferro, desenhado por mim. Agora não tem grande justificação. Mas ainda mantemos o hábito de o fechar.
As luzes da casa já estavam acesas e eu, de fora, fotografei os reflexos na porta de vidro. O meu marido admira-se, nunca percebe o que ando eu a fazer durante tanto tempo lá por baixo, lá por tão longe, diz sempre que eu não devia. Mas devia, devia sim. Os sons do anoitecer atraem-me. Tudo o que desconheço me atrai.
Quando regressei, fui fechar o portão que dá lá para baixo. Em tempos, antes de termos a vedação em parte do terreno, este era o único portão. Era uma maneira de tentarmos evitar que os caçadores se acercassem da casa. É um portão alto, de ferro, desenhado por mim. Agora não tem grande justificação. Mas ainda mantemos o hábito de o fechar.
As luzes da casa já estavam acesas e eu, de fora, fotografei os reflexos na porta de vidro. O meu marido admira-se, nunca percebe o que ando eu a fazer durante tanto tempo lá por baixo, lá por tão longe, diz sempre que eu não devia. Mas devia, devia sim. Os sons do anoitecer atraem-me. Tudo o que desconheço me atrai.
E agora que coloco aqui a fotografia vejo que o céu que se vê está azul claro como se não estivesse a anoitecer. E, no entanto, a penumbra já tinha descido da serra. Um milagre. E é nestes milagres que eu acredito, os que trazem os mistérios envoltos em surpresa e beleza.
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E, por falar em beleza...
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A todos desejo um sábado muito bom













