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sexta-feira, junho 20, 2025

Podem desmentir-me se quiserem

 

Isto é uma catedral

Gosto agora muito de me sentar no jardim ou no campo, em especial à tardinha, a olhar para o ar, para o céu, para as árvores. 

No jardim há agora um perfume novo, creio que a mistura de várias flores. É um perfume floral, isso sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, doce e íntimo. Os pássaros também gostam. Descem e vêm passear perto de mim, entretendo-se a debicar o que encontram na terra. 

Se estou sob as árvores gosto de as admirar, vendo-as de baixo. Não existiam e foram-se tornando a maravilha que são. E gosto de ver as flores através da luz. Ou a luz através das flores. Parece o mesmo mas não é. 

As nuvens também me cativam. São efémeras como uma aragem. Não têm a noção do tempo nem do espaço, são livres como uma partícula elementar, como uma palavra solta ao vento, como espíritos vogando por aí.

Isto é um deus, e creio que daqueles que não são particularmente santos
(honi soit qui mal y pense).

Muitas vezes tenho um livro comigo mas, se o livro não tem nada que me impressione (e impressionar no sentido em que a luz impressiona a película, nela gravando imagens, sombras, movimentos), fecho-o e deixo-me estar.

Isto é um milagre. Inexplicável. Fruto da inspiração de uma inexistente divindade

Tenho saudades de fotografar com as minhas máquinas fotográficas. Foram-se estragando e, depois, para quê continuar?, já tinha milhares de fotografias. Faz sentido continuar a acumular fotografias? Não vou voltar a vê-las. O que gosto é do momento em que capto a imagem. A partir daí já não me interessam. Agora uso o telemóvel. E vou apagando pois estou sempre a precisar de mais espaço.

Isto é uma obra de arte. Fortuita. Com a vantagem de não ser um Miró 

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Já contei muitas vezes que, quando fazemos as nossas caminhadas nestes dias de calor, mal transpomos e entrada do nosso jardim, sentimos a frescura que nele se acolhe. A temperatura está uns graus abaixo da temperatura fora dele. São as árvores, as trepadeiras, as flores, é o carinho que retêm.

In heaven a mesma coisa. Vou andar lá em baixo e, no meio das árvores, é outra a geografia. 

Em qualquer dos casos, o tempo suspende-se. 

Hoje estava sentada no meio das flores, o cão deitado, os passarinhos a cantar. Pensei que poderia ficar assim saecula saeculorum. Talvez bastasse não me mexer. O mundo à minha volta a girar e eu ali, parte do tempo, imóvel como o tempo, uma partícula imaterial suspensa na infinitude do espaço.

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E para que não protestem com o teor da conversa, para quem prefere temas mais concretos, aqui está um vídeo que poderia muito bem servir de inspiração a quem tem a responsabilidade de melhorar os espaços públicos.

THE MINI FOREST - Rewilding using the Miyawaki Method

Terrell Wong is about to plant 100 trees in her small Toronto backyard, a dense mini forest based on the Miyawaki Method. What at first seems like a simple act soon evolves into a complex story about dirt, lawns, fungus, wildlife, native species, and finally the human brain. An anti-lawn anthem from director David Hartman, The Mini Forest explores this innovative form of afforestation and the importance of restoring the native woodlands that once covered so much of Canada and the World.


Uma boa sexta-feira

quarta-feira, novembro 01, 2023

Nudez e cumplicidade nos balneários.
E receita rápida e boa para um jantar de halloween

 


Os balneários da piscina são todo um mundo. Em locais assim, mesmo sem querer, fico 'antenada'. As conversas são uma delícia. Muitas vezes acho que são altamente disparatadas, outras que são cúmplices e interessantes.

Há agora muito mais pessoas que antes. Hoje, quando cheguei já o meu cantinho estava ocupado, tive que ir para uma zona para onde nunca tinha ido, para junto de pessoas com quem nunca antes tinha falado.

A zona dos duches já não alberga todas ao mesmo tempo.

Continuo a não ser capaz de me pôr nua no meio das outras. Passo-me por água com o fato de banho vestido. Mas ao meu lado, a escassos centímetros e a toda a volta, as minhas companheiras ensaboam-se alegremente, lavam a cabeça, põem amaciador, viram-se e reviram-se. Algumas levam aquelas coisas que não sei como se chamam (não é esponja, mais parece uma espécie de rede plástica). Há uma senhora, diria que talvez mais velha que eu, que é relativamente baixa e muito gordinha, aliás bastante, bastante gordinha. Para lavar o rabo e os genitais faz uma ginástica extraordinária, baixa-se, curva-se toda, para conseguir chegar com aquela redinha cheia de espumada às partes baixas... E, enquanto está nestas acrobacias continua a conversar como se nada fosse. Fico espantada com o à vontade delas.

Hoje, já no balneário, uma mulher simpática, neste caso bem mais nova que eu, conversava comigo sobre o peso que já perdeu desde que faz hidroginástica e natação livre. Contava-me que todos os dias, à hora de almoço, vai para ali, dois dias de hidro e três de natação. Que gostava de fazer caminhada mas estava com excesso de peso, doíam-lhe os joelhos, deixou de caminhar, cada vez mais sedentária. Então resolver mudar de maneira de viver. Mudou a alimentação, começou com a piscina, ao fim de semana caminhada. E dez quilos já lá iam... E, enquanto conversava comigo, toda nua, aplicava hidratante em todo o corpo, na maior das calmas. E eu, com uma toalha gigante cobrindo a minha nudez e vestindo-me, por dentro da cortina do toalhão. Não sei porquê isto. Que pudor meu é este que não me deixa despir-me, lavar-me, hidratar o meu corpo em público?

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Hoje o meu dia foi mais tranquilo. Mas ando num estado em que parece que estou sempre em estado de alerta total, sempre à espera que as coisas descarrilem e que me veja, uma vez mais, em stresses. Por isso parece que não chego a desfrutar bem os instantes de tranquilidade. Até o meu sono anda inquieto, sempre com sonhos em que há situações de preocupação ou susto, acordando meio sobressaltada. Por isso, quando acordo, agora, volta e meia, estou com dor de cabeça.

Mas, enfim, hoje não foi mau de todo pelo que tenho é que aprender a conseguir desligar nos momentos tranquilos, nem que seja para recarregar baterias para quando tiver momentos intranquilos.

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Antes de terminar, conto o que cozinhei agora para o jantar, num instantinho e que ficou bom.

Tinha trazido lombos de atum congelados.

Descongelei. Numa tigela, coloquei cebola-doce cortadas às rodelas, os lombos de atum, mais rodelas de cebola, salta picada, um pouco de sal, um pouco de azeite e o sumo de duas limas. Ao fim de um bocado, se calhar aquilo estava ceviche e comer-se-ia bem assim. Mas não arrisquei.

Depois coloquei num tacho azeite e a cebola que estava a cobrir o atum e, em lume muito brando e com o tachinho tapado, deixei a cebola amolecer. 

Entretanto, noutro tacho cozi batata com casca cortada em rodelas largas. Quando estavam cozidas, escorri, temperei com azeite e orégãos.

No tacho em que estava a cebola, coloquei os lombos de atum marinado, depois piquei um tomate grande, maduro e esguichei um pouquinho de ketchup. Em lume brando, tapado. Ao fim de uns minutos, não sei se chegou aos cinco, desliguei. Deixei ficar tapado, envolvendo tudo bem, umas coisas nas outras.

Digo-vos que estava mesmo bom. O atum mal passado, macio, a saber a lima e ao tempero bom, o tomate picado ainda com leve sabor a fresco, as batatinhas com todos os sabores absorvidos.

E foi num instante...


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Ainda há bocado estiveram a tocar-nos à campainha. Devem ser os miúdos aqui do burgo. Ao fim da tarde, noite cerrada, vimos dois grupos de fantasminhas, serezinhos diabólicos, ruidosos mascarados. 

Para descelebrar o dia, plantei aqui graffitis que talvez tenham alguma coisa a ver com o dia das bruxas, Creio que são da autoria de Plast (Buenos Aires). 

Acompanha-nos Philip Glass com Musicbox.

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Serenidade. Paz.

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

Aquele que se dilacera nas coisas e em seguida se consome nelas. O anjo despedaçado.

 


... Ah, os poemas são tão pouca coisa quando os escrevemos cedo. Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida, e esta ser tão longa quanto possível, e então, mesmo no fim dela, talvez se pudesse escrever dez linhas que fossem boas. Pois os versos não são sentimentos (esses têm-se cedo que baste) -- são experiências. Por causa de um verso tem de se ver muitas cidades, pessoas e coisas, tem de se conhecer os animais, tem de se sentir como os pássaros voam e de saber os gestos com que as pequenas flores se abrem pela manhã. Tem de se poder voltar com o pensamento a caminhos de regiões desconhecidas, a encontros inesperados e a despedidas, que se viam a vir, -- a dias da infância ainda por decifrar, aos pais que tinham de sentir-se magoados quando davam uma alegria a um filho e ela não era entendida (ficava para outro --), a doenças infantis que tão estranhamente surgiam com tantas transformações profundas e graves, a dias em espaços silenciosos e reservados e a manhãs junto ao mar, sobretudo junto ao mar, a mares, a noites de viagem que se elevam tão alto por ali fora e voavam com todas as estrelas, -- e ainda não é bastante que se possa pensar nisso tudo. Tem de ter-se lembranças de muitas noites de amor, cada uma diferente das restantes, de gritos de trabalhos de parto e de mulheres que dão à luz, leves, brancas, adormecidas, e se fecham. Mas também se tem de se ter estado junto dos moribundos, de se ter ficado sentado ao pé dos mortos, no quarto, com a janela aberta e os ruídos intermitentes. E também não chega que se tenha lembranças. Tem de se poder esquecê-las se forem muitas e tem de se ter a paciência de esperar que elas regressem. Porque as própria recordações ainda não são nada. Só quando se tornam sangue em nós, e olhar e gestos, já sem nome e impossíveis de distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, desponte no meio delas a primeira palavra de um verso e delas se desprenda.


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Diz Pierre Mertens de Rilke, l'ange dechiré: (...) Rilke parece que se dilacera nas coisas e em seguida se consome nelas. Não é um génio dado, é um génio obtido, um génio adquirido, um génio lentamente elaborado em que o trabalho da vida finalmente coabitou com um estranho e lancinante trabalho de luto. Foi aí que, nele, o anjo se despedaçou.



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Estive a ler. Uma cadeira branca ao sol. Os pássaros a cantarem. 

Pelo meio fui apanhar uma laranja que comi logo ali, doce, doce, sumarenta, e uma tangerina para levar para o jantar e um pouco de hortelã para perfumar a sopa.

Fotografei as flores, cozinhei, caminhei, li.

Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke, tradução, prefácio e notas de Vasco Graça Moura.



E foi deste livro que, ao som de The Poet Acts de Philip Glass, na interpretação de Katia Labèque, extraí os dois excertos que acima transcrevi, de um dos quais respiguei o título deste post. Lendo aquelas palavras não pude deixar de pensar num outro anjo despedaçado; mas há pensamentos que não são para aqui chamados.

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Já agora, para não ser só prosa:

You who never arrived 
de Rainer Maria Rilke

You who never arrived
in my arms, Beloved, who were lost
from the start
(...)


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Desejo-vos uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira.
Saúde. Alegria. Ânimo.

domingo, junho 14, 2020

Dia de Sto António in heaven





O calendário surripiou-me um feriado. Por pouco poderia ter sido uma semana folgada, com três feriados e, afinal, o Sto António foi calhar-nos a um sábado. Não está certo. 

Mas não fez mal. Se o Dia de Portugal, que, certa vez, o outro evocou como o dia da Raça, foi o dia em que aqui tive a descendência reunida (e digo descendência para não dizer 'os que me são arraçados'), o Dia de Sto António foi o dia em que conseguimos arrancar a minha mãe de casa. O meu filho foi buscá-la logo cedinho e um bocado depois já a carrinha estava aqui a apitar, ao portão. Meia dúzia. Todos de máscara -- e percebe-se. Acabou o confinamento mas não acabaram os cuidados a ter, em especial num espaço fechado como é um carro. E trouxeram carne e peixe e uma caixa de cerejas e uma sacada de carvão. E massa para pão pronta a enfiar no forno. E a minha mãe bolo de cenoura com cobertura de chocolate.


E assim foi que hoje voltou a ser dia de festa. Os primos felicíssimos, uma brincadeira e uma alegria que desconhece distanciamentos. Novas cumplicidades, novos interesses, uma estima que se reforça, uma energia transformada em alegria, inocência e graça.

E há quanto tempo a minha mãe cá não vinha. Espantou-se com o tamanho das árvores. Até eu, que cá estou, me espanto. De vez em quando, dentro de casa, ia dizendo: 'olha, esta mesa que o pai arranjou.' ou, na rua,  'olha, este não foi o banco que o pai fez?'. Numa das vezes, disfarçou mas eu vi. Fiz que não vi. Depois, quando conseguiu falar, disse: 'Fazia estas coisas, ficavam perfeitas'. E é verdade. Aquela mesa tinha sido a máquina de costura de uma das minhas avós. Em vez da cabeça da máquina ele colocou um tampo com azulejos e vidro. Um trabalho difícil que, de facto, foi executado com perfeição. 


Quando se sentou no cadeirão numa das cabeceiras da mesa, reconheceu-o: 'olha, estou a conhecer'. Tinha sido da mobília da sua sala de jantar de quando eu era miúda. Depois trocaram de mobília e aqueles cadeirões foram para casa dos meus avós paternos. Quando o meu avô morreu e a casa teve que ser esvaziada, os cadeirões foram para casa da minha avó materna. Quando ela morreu, eu quis ficar com eles. Mas desde essa altura a minha mãe não tinha voltado cá. 

Eram de madeira escura mas levei-os ao marceneiro de uma aldeia aqui perto e ele limpou-as, tirou-lhes o tingimento. Estão agora da cor original da madeira, mais bonitas. Mas ela reconheceu-os. Disse: 'Olha, o estofo ainda é o mesmo'.


Quando estávamos lá em baixo, no lugar a que chamamos campo de futebol, nós duas sentadas num banco de pedra que está sob uma aroeira, disse-me que se costuma dizer que a vida passa a correr e que isso é mesmo verdade, que não percebe como é que já tem a idade que tem, que ainda lhe parece que não foi há muito tempo que era miúda e que, afinal, a sua vida já está perto do fim. Não disse com fatalismo, disse como uma mera constatação. Respondi-lhe que é bom sinal a vida passar assim, na boa, que a vida é boa quando não se arrasta, quando não custa a passar. Mas disse isso como poderia ter dito outra coisa pois, por dentro, estava a pensar que é mesmo isso, uma coisa absurda isto da vida, uma coisa aparentemente sem grande lógica, a gente saber que vai acabar quando tem ainda tanta vontade de aproveitar o que há de bom para viver. Mas, como o momento não era para filosofias, desviei a atenção para o resto do pessoal que brincava ao 'mata', a tentarem acertar uns nos outros com uma bola, correndo e dando saltos e rindo e, acto contínuo, já nos estávamos as duas a rir, divertidas com as brincadeiras deles. 

Para mim foi um dia ainda melhor porque o almoço esteve a cargo do chef. O meu filho tem mão para a culinária e sai-se bem em grandes quantidades. Tudo no ponto, saboroso, guloso. As sobremesas estiveram a cargo da minha filha que fez tarte de pêra em massa folhada, uma delícia, e um leite creme que também desapareceu rapidamente.


A casa rapidamente ficou com aqueles cheiro bom do pão feito em casa, dos doces com canela, dos assados no forno ou no barbecue. Toda a gente tem um apetite que quase prega rasteiras a quem planifica as doses. Por acaso chegou e ainda sobrou um pouco, quer ao almoço quer ao jantar, mas nada como o que se supunha ao ver a sacada de carne ou o tamanhão absurdo do peixe que eles trouxeram.


No fim, foram apanhar algumas ameixas que já começam a estar doces e depois, já a noite a cair, todos de máscara posta, lá partiu a carrinha. O bebé já coloca a dele sozinho, com mestria, e não protesta, para ele a covid é coisa com a qual facilmente aprendeu a conviver.

A minha filha e os miúdos ainda cá estão a aproveitar mais um pouco a largueza do campo pois se o irmão vive numa casa com jardim onde os meninos podem ter alguma liberdade de movimentos, ela vive num apartamento em plena cidade o que, em teletrabalho e com os meninos com aulas por computador, não é fácil.


Algum tempo depois da carrinha ter largado, enviei uma mensagem a perguntar se estava tudo bem. A minha mãe tinha chegado há poucos minutos a casa, ia lavar-se e enfiar-se na cama. Deve dormir como um bebé tanta a agitação e animação do dia.

E eu a ver se também durmo bem. Prefiro não pensar muito, nem na finitude da vida nem nisto tudo que me espera nos próximos tempos nem no quanto me apetecia poder continuar in heaven, rodeada de flores, de passarinhos, borboletas e lagartixas, nesta santa existência onde tudo é paz e harmonia.


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A todos desejo um belo dia de domingo

segunda-feira, janeiro 27, 2020

E assim foi este meu fds





Não tenho conseguido responder a comentários e tenho sido um bocado menos prolixa que o costume porque tive um fim de semana digamos que um pouco atarefado.

Conto.

Na sexta-feira saí um pouco mais cedo do que o habitual pois ia ter jantar cá em casa. Muitos. E a freguesia deu para tarde e foi uma festa e a costumeira confusão pois, sempre que os meninos se juntam, é o que é.

A seguir ao jantar, a minha filha lembrou-se de pôr a 'Música no coração'. Os meninos não conheciam mas os crescidos, sim. Uma alegria, claro está.

Parte da turma ficou cá em casa. 


Na manhã de sábado houve compras para fazer, nomeadamente mantimentos. Fomos todos e encontrámo-nos com os que não tinham dormido. Depois fiz o almoço, pus a adiantar o jantar e almoçámos à pressa pois, de tarde, parte da turma tinha um baptizado. 

No meio de tudo, ao início da tarde, ainda consegui ir ao cinema. Assim que estávamos para entrar para a sala, lembrei-me. Um sobressalto. Perguntei ao meu marido: 'Desligaste o fogão?'. Ele: 'Não. Está-se a ver que tu também não.'. E o enervante nisto é que ele, mal acabámos de arrumar a cozinha, tinha querido desligar o fogão pois dizia que eu iria esquecer-me. Afiancei que não, que a carne precisava de mais tempo de cozedura e que não iria esquecer-me, desligaria antes de sair. Está bem, está. Uma data de gente a sair de casa à pressa, lembrei-me lá eu da panela ao lume. Com ar desalentado, disse-me que ia a casa. Não tentei ir eu em vez dele pois sei que é mais ágil na condução do que eu. A minha filha lamentou: 'O chato disto é que sobra sempre para o pai...'. E é, tem razão. A minha filha observou ainda: 'E é que é perigoso...'. Mas que querem que eu faça? Desculpei-me: 'Mas lembrei-me. Já viste se não me lembrava...?'. Pois, pois.

Estava a primeira parte a acabar quando ele reapareceu. Tinha apanhado um engarrafamento, ainda por cima.


Depois fomos para o resto do programa. 

Quando o menino mais crescido, já vindos do baptizado, entrou no carro, disse: 'Pensava que a água benta era uma água especial. Mas afinal é água normal, podia ser água do luso, mas na qual se incorporaram uns espíritos'. Desatei a rir. Já, à ida, ele ia a comentar com o irmão: 'Acho que, basicamente, o que vai acontecer é que vão despejar água na cabeça da bebé'. Acrescentei que também fariam uma cruz na testa com óleo. Não ligaram, deve ter-lhes parecido uma informação inútil. 

E lá regressámos a casa. Acabei o jantar, a carninha estava mais cozidinha que só visto. O resto da turma juntou-se-nos. Mesa cheia, de novo, e a alegria do costume.


A seguir ao jantar, a minha filha voltou ao ponto em que tínhamos ficado na Música no Coração. A sala cheia, os sofás poucos para tanta gente, alguns meninos no chão. Por vezes, o público fazia coro com o filme. Lembrei-me que era eu pequena quando vi pela primeira vez este filme. A minha filha disse que não se lembra de, quando era pequena, vermos muitas vezes. Expliquei que nessa altura não havia televisão por cabo ou box para haver esta faculdade de se ver o que se quer quando se quer. O mundo era outro. A tecnologia tem coisas boas.

Até o meu filho que não liga muito a este género de filmes, e estava entretido com outras coisas, acabou por prestar alguma atenção. O meu marido é que nem por isso. Aproveitou para se encostar a descansar, num sofá mais afastado. Pelo meio, nos momentos mais chatos do filme, mormente quando as freiras cantavam, os rapazinhos resolveram fazer moche ao avô. E dançaram, lutaram, um pôs-se a compor uma canção no iPad, depois mostrou-a e os outros desataram a dançar como se tivessem levado uma injecção de saltos. Uma animação pegada.

Lá para o fim da noite, parte do pessoal foi para sua casa e outra ficou de pernoita.


O domingo amanheceu branco. Tínhamos a ideia de ir para a praia mas com um nevoeiro tão cerrado pensámos que era melhor não. Mas depois viu-se que na praia não havia névoa e lá fomos. Passeámos, apanhámos sol, os meninos brincaram. Depois viémos para casa, fizemos o almoço, almoçámos. De tarde, quem ia à sua vida arrumou pertences, recolheu haveres. Preparei a marmita com parte do que tinha sobrado. E lá foram.

Entretanto, já só os dois em casa, fizeram-se máquinas de roupa, arrumou-se o que era de se arrumar e, como geralmente acontece depois destas lidas, deitámo-nos, cada um em seu sofá, e, claro, foi tiro e queda. Nem consegui ir a casa dos meus pais; mas a minha mãe até se zanga de eu, em fins de semana assim, querer ir, diz que não me estafe, que não é preciso porque eles estão bem, que não ande sempre a correr para conseguir fazer tudo, que descanse. Por isso, segui o conselho, não fui e descansei. Mas acordei com frio e dor de cabeça. Fiz uma infusão de erva-príncipe e fiquei bem, devia estar a precisar de uma bebida quente.


E já arrumei roupas, já preparei a indumentária de amanhã, já passei um brilhozinho nas unhas, já vi as fotografias que fiz nestes dias, e, por acaso, já tentei ler mas pouco consegui. Perco-me, distraio-me, desconcentro-me. Acho que a minha cabeça, a esta altura do campeonato, não está para assimilar literatura, nem tão pouco voar sobre ela.

Salva-me o Habitualmente:

Há pedras habitadas. Pássaros que não migram
só para não sofrerem a partida

Esperam um ano a fio pelo regresso dos companheiros.


Bonito. Um bálsamo para os neurónios.


E assim foi o meu fim-de-semana. Muito bom. Uma alegria.

Está a começar nova semana, já estamos a caminhar para o fim de Janeiro. É impressionante como o tempo anda depressa. Razão para agarrarmos bem cada instante.

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As imagens representam fragmentos da obra de William Morris e vêm ao som de Lavinia Meijer a interpretar Koyaanisqatsi ('Life out of Balance') de Philip Glass. O poema chama-se Pedras e pertence ao livro 'Um dia tudo isto será meu' de João Habitualmente.

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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

segunda-feira, dezembro 31, 2018

Bye-bye 2018





A manhã foi atarefada. Toda ela daqui para ali, a tratar das mil coisas que, ao longo dos dias de trabalho, vão ficando para trás. Quando à hora de almoço liguei à minha mãe e contei das minhas andanças ela disse: 'a vida dos reformados é isso, a andar de um lado para o outro a tratar de coisas'. Respondi que a diferença é que podem ir fazendo, diluindo os afazeres ao longo de dias, enquanto eu tenho que tratar de tudo num único dia, por atacado.


Depois, já tarde, fomos almoçar à praia e dar um passeio à beira-mar. Mas, às tantas, deu-me uma tal pancada de sono que não via a hora de chegar a casa e dormir um pouco. Só que, já perto de casa, apanhámos um estúpido de um carro mal estacionado que nos impedia a passagem; por muito que apitássemos -- e para meu desepero e fúria do meu marido -- não apareceu o dono. Parece que há cada vez mais pessoas que não se importam de incomodar os outros. Intriga-me esta tendência. As pessoas está, genericamente, a tornar-se cada vez mais egoístas e parvas? Não sei. O que sei é que, se estivesse sozinha no carro, a esta hora ainda lá estaria travada, sem conseguir passar. O que nos valeu foram as peripécias e manobras de alto risco empreendidas pelo meu marido, incluindo pôr-me a mim a mandar parar o trânsito numa rua para ele sair em sentido proibido. Enfim, lá conseguimos resolver o imbróglio e chegar a bom porto. O problema é que, com isso, espertei. Ainda me deitei mas debalde, o sono tinha-se esvaído.


Daqui a nada tenho que me ir arranjar para me preparar para os festejos da passagem de ano. Mas parece que não estou muito convencida, como se ainda não estivesse completamente certa de que já passou um ano desde a última vez. Isto parece que está a andar depressa demais. Nem sei bem com que é que me distraí para o tempo ter passado sem ter dado por ele. 

Sei que foi, para mim, um ano do caraças sendo que, em boa verdade, com os dados de que disponho não possa dizer que foi mau pois pode muito bem ter acontecido que o valente pontapé que dei no que se estava a perspectivar tenha surtido efeito e que, no acto, e até involuntariamente, tenha aberto portas que antes nunca tinha pensado sequer que poderia transpor. Mas não sei. Se há coisa que posso concluir é que nunca se sabe tudo e que o que parece pode não ter nada a ver com a realidade. Há jogos de espelhos, silêncios, segredos, jogadas palacianas -- dos quais raramente alguém se apercebe. Penso que posso também concluir que, em não querendo alinhar com alguma situação, mesmo que isso implique correr todos os riscos, não deveremos claudicar. Se o não é para ser não, que o seja de frente, sonoro, inequívoco. E, se o que queremos é outra coisa, então que avancemos, sem medo, com convicção. E digo isto sem saber qual o desfecho da minha petite histoire mas também não me preocupo pois o que for soará e cá estarei para fazer frente aos imprevistos e para lutar pelas minhas ideias.


De resto sei outra coisa. Os mais flexíveis, os que têm a coluna vertebral muito dúctil, os que gostam de ser informadores, conselheiros e que dão tudo para comer à mão do dono são os que se aguentam melhor nos corredores, bastidores e ratoeiras. Podem vir vendavais e tormentas que todos soçobrarão menos eles. Mas um dia virá em que a maré muda e que quem vem de novo não se queira ver rodeado de lambe-cus. E então serão inapelavelmente despejados no esgoto dos irrelevantes que não ficam na história.

Fica o quê?


Ficam as boas pessoas, as pessoas generosas, bem intencionadas, bem formadas, boa onda, com sorriso franco, com sentido de humor. São essas as pessoas que realmente interessam. Percorro de memória as pessoas com quem lidei neste ano que está prestes a passar; seja em contexto pessoal, social, profissional ou virtual, confirmo: há qualquer coisa que separa as pessoas de personalidade informe, as que são tóxicas, azedas, paranóicas, vulgares, das pessoas genuínas, simpáticas, francas, com sentido de humor, inteligentes. À medida que o tempo passa por nós, passa cada vez mais depressa. É, pois, natural que nos vamos tornando mais selectivos, manifestando as nossas preferências pelas pessoas junto das quais nos sentimos bem, cujas palavras nos tocam, acordam, incentivam ou abraçam.

É a pensar nas pessoas boas que me têm acompanhado nesta minha jornada que escrevo este post.


Não sei se escreverei mais algum post ainda em 2018. No dealbar de 2019 tentarei aqui vir para vos desejar um bom ano novo. Mas, até lá, vou já formulando votos de que nos continuemos a encontrar por aqui, com saúde, com alegria, com disposição para ir em frente. E que os que estão doentes melhorem ou, pelo menos, sofram menos, e que os que estão tristes voltem a encontrar os caminhos da felicidade e que os que estão desmotivados descubram como arrncar de si o torpor e o desalento -- e que todos os dias que aí vêm sejam dias que valham a pena ser vividos.

E agora, co vossa licença, vou ali passar o meu lindo vestido a ferro para estar apresentável quando o Novo Ano der as caras.


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[Mais imagens no Bored Panda]

quinta-feira, agosto 30, 2018

Do lago saíram dois cisnes mas, afinal, o cisne negro não era um cisne:
era Leda


O homem estava à beira de um mar tranquilo como um lago. Era um homem grande que, numa quente tarde de verão, olhava o azul imenso. Olhar perdido nos veleiros, nas gaivotas, talvez nas memórias.

Até que viu o cisne. Ah... 




Fascinado, ficou preso à elegância com que ele deslizava sobre a subtil ondulação das águas. Um cisne branco passeava sob o olhar seduzido do homem que tinha chegado de terras longínquas. Seria guerreiro, o homem? Seria um navegador solitário?

Jamais o saberemos. Sabemos, apenas, que não mais conseguiu desviar o olhar do gracioso cisne que, à sua frente, o envolvia num bailado todo ele inocência e tentação.

Mais surpreso ficou o homem quando viu que havia um outro cisne, um cisne negro. Saídos das águas, sinuosamente ondulando pelo areal, deslocaram-se ambos até mais acima, até onde uma quase cama os esperava. 

Ao sol, o cisne branco e o cisne negro. Elegantes, belos. O cisne negro dado à leitura, o cisne branco apenas aos banhos de sol. 

Mas, olhando com atenção, poderia reparar-se no olhar pouco amigável do cisne branco. Talvez despeitado. Enquanto isso, o cisne negro, inocentemente entregue à leitura, não se apercebia dos riscos que corria. O cisne branco, balouçava-se e talvez não fosse apenas pela aragem: era um cisne ameaçador que esperava a oportunidade para atacar.


E, de repente, já não eram dois cisnes. Agora a mulher era Leda e o seu belo corpo preguiçava ao sol, e toda ela absorta, entregue às palavras, ao romance. A seu lado, o cisne desviava o olhar da escultural mulher que resplandecia ao sol. 

O tempo passou, entardeceu com vagar, a luz dourada e morna fazendo brilhar o maravilhoso ébano  da pele de Leda.

Terá adormecido, terá sonhado? Leda não saberá dizê-lo.

Num momento era um cisne que a olhava e não olhava e, no instante seguinte, ao despertar, já era um homem que se curvava sobre ela, a mão na sua coxa, palavras tentadoras, sorriso perigoso. 

Entre eles, o cisne silencioso baixava a cabeça. Talvez já fosse apenas um invólucro vazio, talvez se tivesse transformado no homem que tenta e é tentado por Leda.

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.







terça-feira, novembro 28, 2017

Eu perguntaria:
somos um corpo com um software exclusivo que é desactivado logo que o corpo se desliga ou somos uma alma transitoriamente alojada num corpo?
(Não sei é se atendem chamadas de outro país)



Há coisas extraordinárias. Esta que se pode ver no vídeo lá mais abaixo, a da Biblioteca Pública de Nova Iorque ter um serviço personalizado em que qualquer pessoa pode telefonar para colocar uma pergunta e haver sempre alguém a responder, é, nos tempos que correm, do além.

Explica uma das funcionárias que talvez sejam pessoas que não têm acesso às tecnologias ou, então, pessoas que gostam de ter alguém que fale com elas.

Acho isto tão bonito, tão bom, tão genuinamente humano que nem sei bem como exprimir-me. A partilha do conhecimento através de um interface humano parece coisa quase ficcional. E, no entanto, até há não muito tempo era assim que as coisas funcionavam: através do contacto humano.


Sou do tempo em que a internet começou a aparecer nas empresas. Ao princípio nem se percebia bem o alcance da coisa. Havia um motor de busca de que eu gostava muito. Chamava-se, se não estou em erro, Altavista. Parecia-me uma fantástica janela aberta para o mundo. E sou do tempo ainda mais antigo em que, para saber coisas fora do meu alcance, subscrevia revistas estrangeiras ou era-me dado conhecimento do índice dos livros novos que chegavam à biblioteca, livros, bem entendido, dentro do meu intervalo de interesses. Já, por essas alturas, eu andava em busca da inteligência artificial, de modelos complexos, de coisas assim. 

Outras vezes, ligava para a bibliotecária, senhora muito low profile, quase parecendo esvaída tanta a sua vasta erudição, e colocava-lhe questões complicadas. Dizia-lhe o que gostava de saber sobre um assunto e pedia que ela espreitasse livros que tratassem disto ou daquilo. Depois ela ligava-me, contava-me sobre as suas pesquisas e enviava-me, por envelope interno que um contínuo distribuía pelos gabinetes, fotocópias de algumas páginas. Com as suas pesquisas, tantas vezes 'ao lado', aprendi também muita coisa pois, mesmo que as fotocópias não contivessem bem aquilo que eu procurava, não raramente introduziam-me noutros mundos.

E eu gostava de falar ao telefone com ela. Na altura, eu tinha um telefone dos modernos. Era cinzento e tinha teclas. Muitas outras pessoas tinham telefones pretos com um marcador de andar à volta, com o dedo preso no buraquinho correspondente ao número.


Enfim. Se eu contar isto aos meus pimentinhas acharão que é mais uma das minhas histórias, daquelas que gostam de me ouvir contar e que invento à medida que vou contando. Mas aconteceu. Numa outra era.

Agora, enquanto escrevo -- e a propósito daquilo de as pessoas ligarem talvez porque gostam de ter alguém com quem falar -- estou a lembrar-me da minha tia, a tia que, por tanto gostar dela, convidei para madrinha de casamento e a quem ela, eu ainda uma miúda, tinha convidado para madrinha da sua filha. Telefonava-lhe todas as sextas-feiras. O meu primo trabalha, claro, e tem uma profissão sem horários. A minha prima vive numa oura cidade. O meu tio tinha-nos abandonado havia pouco,  uma morte súbita que o poupou a maior sofrimento, deixando-nos todos muito tristes e a ela ainda mais. Ela não queria ir para lado nenhum, queria estar em sua casa. Cada vez mais doente, cada vez mais fraca. E todas as sextas feiras, ela cada vez mais débil, me falava da sua falta de forças, me falava da nora que era tão impaciente com o meu primo e de como lhe custava ver aquela rapariga gritar com o 'parvo do teu primo, que aceita que ela fale com ele daquela maneira', me falava dos netos, tão espertos, e da neta bebé da minha prima, filha de uma segunda relação, e quem ela tinha pena de não poder ir ajudar, 'faço ideia aquela casa, os filhos do rapaz, as filhas dela, tanta gente, e mais os cães, e uma casa tão grande e ela que nunca gostou nada das coisas da casa, faço ideia, faço ideia'. E, sem forças, toda se emocionava por não poder meter-se na camioneta e ir ajudar a filha. Eu conversava com ela de coração partido. Sentia que as forças estavam a abandoná-la. Comecei a convencê-la a ir para um lugar onde tivesse assistência. A minha mãe, com alguma ginástica e aflita por deixar o meu pai durante tanto tempo, conseguiu ir vê-la nesses últimos dias. Veio de lá, cheia de lágrimas, 'Coitadinha... Já não dura muito... Coitadinha... Para andar, já só dobrada e encostada aos móveis... Já não dura muito'. E não. Morreu pouco depois.


E eu, durante muito tempo, chegava a sexta-feira à tarde e sentia a falta de falar com ela. Sempre que eu me despedia, ela dizia: 'adeus, minha querida, obrigada por ligares sempre'. E tratava-me pelo meu diminutivo. Ela dizia que ficava à espera que eu ligasse e eu ficava à espera de serem horas de lhe ligar. Já foi há algum tempo mas continuo a lembrar-me disso. Sinto a sua falta. Era tão alegre, tão moderna, tão para a frente, as tuas palavras tão humanas. Tão consciente da sua finitude. Tão corajosa..

E isto que estou a dizer não tem a ver com o google humano ou com a função social dos bibliotecários. Foi assunto que chegou enquanto eu escrevia. Tem a ver apenas com as saudades que sinto de uma pessoa de bem, que sempre conheci sorridente, boa companhia, muito amiga. Gostava de me sentar ao fim da tarde das sextas-feiras, marcar o seu número e ficar ali a ficar com ela. Ainda não apaguei dos meus contactos no telemóvel o número de telefone lá de casa. Há pessoas de quem me custa pensar que desapareceram para sempre. Preferia acreditar que a alma delas vive agora num outro corpo qualquer. Poderia até ser no corpo de um animal. Ou numa árvore.

Talvez um dia ligue para a Biblioteca e pergunte: 'Por onde anda agora a alma da minha tia?' ou, então, 'As palavras que troquei com a minha tia naquelas tardes de sexta-feira desapareceram no imenso cemitério das palavras mortas, ou andam ainda por aí, acompanhando-me ao longo desta minha caminhada?'

Se um dia o fizer, o que será que a Rosa Caballero me dirá...?


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O Google Humano da Biblioteca de Nova Iorque



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Já agora, se me permitem, algumas outras bibliotecas maravilhosas

(entre as quais a que acima se mostra)


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E mais livros, desta vez livros proibidos, uma instalação também extraordinária. Na Alemanha.


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Junto ao texto, as imagens mostram esculturas digitais de Chad Knight

Música de Philip Glass para harmónica de vidro

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quarta-feira, outubro 25, 2017

Voar sem rede


E não me perguntes porquê. 
    E não queiras que te conte de mim. 
       E não tentes encontrar a ponta do fio. 
Não há fio. Acredita. 
Não há ninguém por detrás de mim. A sério. 
E não há razões. Não há. Sobretudo isso, não há razões.

Sonha. 
Sonha que me sonhas. 
Sonha que sou um sonho. 
Sonha que desço do teu sonho para me deitar ao teu lado. 
Sonha. E eu vou sonhar também.




Desvenda os segredos que trago sobre mim. São véus invisíveis. Um a um, retira-os.

Procura com as tuas mãos a pele que me cobre, sente a carne macia e sumarenta que espera por debaixo.

Adivinha que caminhos em mim percorre o fio de luz que me chega vindo não sei de onde, talvez do nada, talvez de um outro tempo.

Adivinha onde se vai ele acolher. Adivinha. Adivinha com os teus dedos, deixa que eles sigam o seu caminho. Ou deixa que o insolente fio de luz os guie.


Olha-me nos olhos. Vem. Não te desarmes. 

Olha lá bem no fundo. Não te percas no abismo que talvez adivinhes no intangível ponto onde a luz se faz nada. 

Olha os meus olhos. No fundo deles há um lago imenso que me transporta até ao mais fundo do mundo. O lugar da perdição. O meu olhar.

Não mergulhes. Não percas o pé. Não te percas. Olha-me apenas. Pressente-me. Não te percas de mim. Nunca te percas de mim.


Ouve como respiro.
Ouves? Ouves?

Voam dentro de mim mil pássaros, mil anjos, mil sonhos. 
Ouves?

Estende as tuas mãos e toca-me. 
Sentes-me?

Sente como as ondas de cor e de luz me envolvem. 
Sente como as tuas palavras me beijam. 
Sentes?

Sente como do teu olhar se desprendem abraços, sorrisos, laços, laços tão suaves, laços tão leves, tão infindos que chegam até mim. Inconfessáveis. Imaculados. Tentadores.

E agora vai. 
Esquece. Esquece-me.
Guarda dentro de ti todos os mistérios, os meus, os teus, todos os secretos desejos, os nossos. Não existem. Nunca existiram.
Mas guarda-os. Guarda-os para sempre. Guarda para ti, para mim. Memórias, histórias, sonhos, rastos de luz, vislumbres, jardins suspensos que talvez nunca tenham existido, o cheiro do meu corpo apenas sugerido, o cheiro do teu apenas adivinhado, os nossos olhares para sempre enleados. Guarda-me dentro de ti. 

Mas não me perguntes. Não sei de nada. Acredita: não sei de nada.

Existo? Existes?

Não sei.
O que achas, tu?

Eu acho que talvez não. Acho que te inventei e que, depois, enquanto sonhava, me inventei a mim.

A sério.

Não.
A sério, não: a brincar.

Estou a brincar. Até tenho vontade de sorrir.


Vou sorrir para ti. Escorrem-me dos dedos sorrisos, provocações, inocências.

Vês-me? Sentes-me?




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segunda-feira, setembro 25, 2017

Panorâmico de Monsanto: a beleza e a tristeza da decadência


No post abaixo poderão ver a extraordinária vista a partir do Panorâmico de Monsanto, o primeiro dos três edifícios que visitámos durante este dia de domingo, no âmbito do Open House Lisboa.

Aqui, agora, vou tentar dar uma ideia do estado de triste abandono a que está votado há anos depois de nenhum destino lhe ter assentado bem. 
Fez-me lembrar aquelas mulheres muito bonitas e desejadas, as Marilyns desta vida, que toda a gente acha belíssimas e que, não obstante, não conseguem acertar na companhia, não alcançam uma vida feliz, sentindo-se frequentemente solitárias, mal amadas e tendo, frequentemente, destinos trágicos ou, pelo menos, desoladores. 
Assim o Panorâmico: talvez belo demais, talvez bem situado demais, talvez com uma vista deslumbrante demais, talvez com demasiado potencial. 

E, no entanto, quanta beleza na sua decadência. Abandonado, maltratado, riscado, partido... e cheio de vida impressa nas suas paredes. E tão elegante nas suas curvas, no equilíbrio dos seus volumes, na distribuição entre desníveis e recantos, no balanceamento feliz entre a luz e a sombra. Tão belo apesar de tão sem destino, tão sedutor apesar de tão esquecido, tão promissor apesar de num tão triste estado de acentuado declínio.

O que eu faria com ele se pudesse decidir já o disse no post abaixo. Não há dinheiro? Há. Há sempre dinheiro quando o retorno é garantido. Mesmo em épocas de crise (e estamos a sair dela), dinheiro é o que não falta para bons investimentos.

Não falei ainda de um outro aspecto: o local em que está implantado. No meio da Serra de Monsanto, num dos seus pontos altos, entre arvoredo, frondoso arvoredo. Um local que parece fora de Lisboa. E, no entanto, dentro de Lisboa. Dali deveriam partir caminhos pedonais, caminhos para bicicletas (até caminhos para se andar a cavalo ou de atrelado).

O Panorâmico de Monsando deveria ser um ex-líbris de Lisboa e não a quase ruína que é.


Mas vejam o que os meus olhos viram.

























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Vejo um lugar assim e, apesar de me deixar entusiasmada com tanto que ver e fotografar, sinto pena. Penso que, com excessiva facilidade, se deixam perder preciosidades que, em tempos, alguém sonhou e desejou. Penso que se deixam perder oportunidades que, certamente, outros agarrariam e estimariam. Que se deixam perder ideias, riquezas, tesouros -- como sempre o fizemos, nós os portugueses que parece que nos desinteressamos da nossa história e das nossas heranças e que, desprendidamente, tudo deixamos esvair por entre os dedos. Perdem-se as memórias e os valores e nem se percebe porque se perdem. E o tempo passa e vai levando consigo quem se lembra dos sonhos que em tempos alguém sonhou. Ficam, depois, apenas frágeis memórias.

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Nem sei se vem a propósito mas apetece-me ouvir:

"What We Lost" de Michael Ondaatje (lido por Tom O'Bedlam)



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Pensava que teria tempo para falar dos dois outros lugares que visitei mas fica para amanhã
(embora um ou outro tema da actualidade me estejam a convocar).
Verei como me organizo.

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E queiram, por favor, continuar a descer para testemunharem as belas paisagens que do Panorâmico se avistam

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