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terça-feira, agosto 22, 2023

No escritório de Agustina

 

Gostando tanto de cuscar as casas dos outros, naturalmente gosto ainda mais da casa dos escritores. Aliás, tenho um livro muito bonito, com fotografias, sobre a casa de vários escritores.

Ainda tenho aquela coisa mítica... ah e tal... os escritores... os hábitos, como é, onde estão, como fazem...

E, na volta, uns são assim e outros são assado e sobre uns há coisas para mostrar e sobre outros não há nada porque escrevem no computador, em qualquer lado, sem rotinas ou casa arrumada que se possa mostrar.

Seja como for, apareceu-me o vídeo abaixo e estive a ver de gosto depois de ter visto uma entrevista longa com a própria Agustina.

Estive também a ver uns sobre e com o Luíz Pacheco. A vida desgraçada que levou... Talentoso mas um caso perdido a nível da vida pessoal. E, no entanto, como tantas vezes acontece com quem tem vidas desventuradas e amalucadas, ele próprio virou um extraordinário personagem. E foi ele, através, sobretudo, dos seus diários, que lhe desenhou o enredo.

Agustina está nos antípodas do Pacheco. Atinada, organizada, uma vida familiar e social estável, bem definidas. Tinha uma base sólida sobre a qual erigir a sua obra. Pacheco, pelo contrário, sem alicerces, sem estrutura de sustentação, teve uma vida familiar, social e literária caóticas.

No caso de Agustina gosto de ver a filha, Mónica Baldaque, falar das coisas da mãe. Não há veneração. Há pragmatismo e admiração. E isso soa agradável.

Foi neste escritório que Agustina Bessa-Luís escreveu a maioria das suas obras, marcando de forma indelével o panorama literário português do século XX. Mónica Baldaque conduz-nos numa visita guiada às memórias guardadas nos objectos da mãe, ainda expostos como no tempo em que Agustina vivia na casa da Rua do Gólgota, no centro do Porto.


Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Tranquilidade. Paz.

quinta-feira, junho 09, 2022

Paula
-- ser, recordar, brincar, desenhar, encenar, pintar

 



Não foi desde sempre que gostei da Paula Rêgo. Lembro-me de um dia me cruzar com uma prima, dada às artes, que ia a entrar para o CCB e eu a sair. Eu tinha vindo de um daqueles eventos em que se comia muito bem e, ao sair, ia apressada para não sei onde. Ela disse-me que ia ver a exposição da Paula Rêgo. Eu disse que não achava muito piada e ela ficou muito admirada, acharia que eu gostaria bastante. Mas eu que não, nem por isso. Tudo meio estranho, devo ter dito.

Fiquei a pensar naquilo. 

Quando a gente não está predisposta a encarar a diferença ou está sem disponibilidade para ver com olhos de ver o que não é vulgar, acontece isto. Achamos que as coisas não nos dizem nada e seguimos adiante. Mas não são as coisas que não dizem nada, a gente é que não pára para as ouvir.

Algum tempo depois, tive ocasião de ir ao lançamento de um livrinho maravilhoso com ilustrações dela sobre texto de Tabucchi. Foi no Palácio Fronteira e tudo ali era maravilhoso: a luz, o ambiente, os sorrisos, a afabilidade que circulava entre todos. O sorriso da Paula Rêgo e a forma como olhou para mim quando lhe disse o meu nome. Não me esqueço. A simpatia doce, inocente, a surpresa. Fez-me sentir ainda mais que o meu nome era inseparável de mim.

Por essa altura já eu tinha despertado para a beleza insólita dos seus desenhos, para a forma impactante como as suas figuras chegavam até nós, para os pormenores desconcertantes, para os franzidos das saias e para as sombras nas rugas dos tecidos, para a pele imperfeita das mulheres, para a rudeza e para a má sorte, para a carnalidade, para a perversidade de alguns personagens.

Aos poucos fui ficando incondicional. Cada pequeno detalhe, uns olhos muito abertos, um corpo abandonado, um movimento atrevido, a ruralidade assombrada, o abandono dos corpos à sua sorte, a força, a destreza, a ousadia das mulheres. O sangue, o olhar, as pernas grossas, o cabelo apanhado das mulheres e a sua manha, a malícia das crianças, a fragilidade de alguns homens.

Nessa altura já me era difícil compreender os que diziam não gostar da sua obra. Esquecida da minha anterior cegueira, não percebia a cegueira dos outros.

Agora continuo a não perceber. Mas já aceito. Há vários tipos de cegueira. A da ignorância, a do desdém, a da indisponibilidade para ver, a da superficialidade. Mas é a vida: uma mescla de tudo. E tudo é relativo e tudo é passageiro.

E, para além da obra, há a autora. As suas entrevistas, o documentário que o filho fez sobre ela, a  aproximação de Agustina* -- tudo foi construindo, em mim, a imagem de uma mulher admirável, meio louca, meio menina, meio diaba, meio de outro mundo, meio desbocada, meio dramática, meio divertida, meio sofrida, meio desabrida, muito vivida.


Mesmos os deuses não são eternos. Chegaria o dia em que Paula Rego partiria. Mas parte o invólucro que, como em todos nós, era perecível. Fica a sua vasta obra -- e isso é uma dádiva sua para connosco que nunca poderemos agradecer como deveríamos pois é uma dádiva demasiado grande -- e ficam as suas palavras nas entrevistas que podem ser lidas e vistas em vídeo. 

A sua obra, intemporal, imoral, amoral, moral, imensa, tem ainda uma característica especial: é intrinsecamente portuguesa. 


E, por isso, por sentir essa proximidade com estas mulheres que saíram da imaginação, da memória e das mãos de Paula Rêgo, a admiração que me desperta é ainda maior.


Maravilhosa e eterna Paula Rêgo. 





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Mas As Meninas não são crianças. Estão sempre alerta, sabem coisas proibidas, em volta delas as mulheres conspiram, inspeccionando a sua roupa de baixo. As Meninas são profundamente perigosas. Não devem andar pela cozinha nem pelos lugares desertos da casa. Sabe Deus que coisas podem fazer…

[Palavras de Agustina em as Meninas

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Desejo-vos um dia bom

Saudade. Agradecimento. Saúde. Paz.

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Uma fenda minúscula

 



Um escritor inglês, Henry Blackwood, tinha uma teoria singular: ele dizia que sempre à meia noite se formava uma fenda minúscula entre o dia que acabava e o que começava, e que uma pessoa que conseguisse deslizar nessa frincha sairia do tempo e encontrar-se-ia num reino independente de todas as mudanças que nos acontecem; nesse lugar encontram-se todas as coisas que nós perdemos.


[Excerto de Sapatos de Corda - Agustina de Mónica Baldaque, ao som de Night Song por Nina Simone e na companhia de Night Blue de Mak Rothko]

segunda-feira, novembro 30, 2020

Gente odienta que dorme sobre os próprios joelhos e existem como cães, encolhendo-se na chuva, quase se cumprimentando como os cães!

 



Gente odienta que dorme sobre os próprios joelhos e existem como cães, encolhendo-se na chuva, quase se cumprimentando como os cães!

E que mulheres! Azuis, verdes, amarelas, com cabelos encaixados como perucas -- Deus lhes perdoe, Em que mundo vivemos, que mundo nós fazemos! Há alguma coisa de deteriorado dentro desse mundo para que tais narizes, rugas, peles, dedos, surjam à luz do dia. Oxalá eu saiba sempre pensar com asas para que a minha auréola continue. Oxalá eu saiba ter sempre olhar de lince, mesmo quando descaia no espírito do macaco.  O olhar de lince é coisa importante, mais do que a razão.

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Penso constantemente em que devo ganhar uma fortuna para não ter que me preocupar com a proximidade de ninguém. O maior luxo do mundo é estar só; ricos são os que não têm amigos solícitos e boas intenções à sua volta.

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Não faço outra coisa senão escrever, e faço-o com a gana de destruir e escavacar todos os obstáculos. Não há ninguém vivo neste mundo. É um rebanho podre de macacos a rapar as próprias chagas com um caco, como aquele Job, que tanto se lhe dava como se lhe deu. Não percebo o que fazem cá na terra, nem eles percebem.

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Raramente consigo essa solidão absoluta, esse desprendimento de pensamento e de razões práticas e que constitui a mais grata das felicidades. Às vezes apetecia-me envelhecer depressa, para depressa adquirir uma serenidade, e indiferença pelo actual, que não tenho ainda. 

Transcrição de algumas [Cartas à Mãe] de Agustina in 'Sapatos de Corda' de Mónica Baldaque

Fotografias aqui de casa ao som de Casta Diva na interpretação de Montserrat Caballé

segunda-feira, novembro 16, 2020

Uma gata in heaven tendo por companhia uns Sapatos de corda.
[Com vossa licença, vídeo da autora incluído]

 



Um passo atrás, e regresso a sábado. Dia tranquilo, de passeios vagarosos por entre as árvores, pisando o musgo, a caruma molhada, a terra macia e perfumada.  

A casa estava fria depois de ter estado fechada durante duas semanas. As casas entristecem quando se sentem sozinhas. 

Quando entro, sinto logo aquele cheiro tão característico. Parece que ainda guarda, meses após, o registo olfactivo dos últimos aconchegantes calores da lareira. Ou talvez seja da lenha que ainda ali está, a lenha dos cedros que o meu marido desbasta. Ou das azinheiras. Madeira tão perfumada e boa. Abro portadas e janelas, quero que entre a luz. Sinto a felicidade do reencontro. Admiro-me: deixei a almofada fora do sítio? Deixei. Recordo-me que não tive tempo de deixar tudo em ordem. Depois não quero saber, mal posso esperar por sair e ir ver o que há de novo.

Ontem não contei que voltaram a aparecer aquelas grandes pegadas. Um bicho que escava a terra nos sítios em que a terra é mais fofa. Tenho ideia que é na altura em que os cogumelos rebentam da terra que aparecem as marcas daquele bicho misterioso. Javali, talvez. O J. diz que sim, que aquilo é obra de javali, e eu acredito. Não sei onde se esconde. Talvez na gruta maior, mas não averiguamos. Há mistérios que não devem ser desvendados. 

Depois, volto a casa. A sala de baixo, desde que a minha filha a transformou, está agora um elegante e clean lugar de tranquilidade. Apetece estar. Foi dia de leitura. Reclinada no cadeirão, uma mantinha macia no colo, aquele calorzinho bom das tardes de outono. Nas mãos, Sapatos de Corda. Mónica Baldaque fala das suas memórias, fala dos seus pais. Gosto do que ela diz da mãe. As filhas podem ser intransigentes, pouco benevolentes para com as mães. Por vezes guardam memória de apontamentos insignificantes que as marcaram sem que as mães sequer tenham ideia de que falam. Idealizam uma mãe perfeita e as mães são como elas são enquanto mães, mulheres normais, esforçadas, dedicadas e cheias de amor, mas humanas, imperfeitas. Mas Mónica, quando fala de Agustina, não se coloca como uma filha que avalia ou julga a mãe, muito menos como uma filha que acerta contas com a mãe que habita o seu passado. Não. Há ali uma muito genuína e muito profunda admiração. Mais do que como mãe, ela vê Agustina como um Ser. 

Minha Mãe, mais do que uma filha, uma mulher, uma mãe, era um Ser. Um Ser raro, indefinível, pairante, impossível de encaixar em qualquer modelo. Exercitou a paciência para com Deus e a Vida, e sempre procurou o sentido dela e das criaturas que a habitam.

E fala do pai também com admiração, como se fosse outro ser especial, um guardião da liberdade e da criatividade da mãe, alguém que também reconheceu na mulher aquele toque da excepcionalidade que se presencia de perto once in a lifetime e, por tê-lo reconhecido e venerado, lhe deu todo o espaço e tempo do mudo. Viveu até ao fim, serenissimamente devotado à mulher da sua vida.

Para entrar na vida de minha Mãe, arrumou o seu próprio passado, não sei se com um sentimento de culpa, e caminhou ao lado de sua mulher. Aceitou partilhar um destino, construiu-o, por amor a minha Mãe e à inspiração que ela transmitia, e sustentava os sonhos.

Lê-se o livro e reconhece-se que Agustina paira naquelas memórias. São as memórias de Mónica a propósito da mãe e a influência daquela mulher misteriosa e ímpar está marcadamente presente.


De vez em quando saí para ver os verdes das árvores, dos arbustos, dos musgos ou o rubro das folhas das parreiras, aspirar os odores da terra e ouvir os pássaros. E, contei-o também, voltei a ver o gatinho. Não sei se é sempre o mesmo. Deixou-me chegar muito perto. Eu aproximo-me e ele, ou ela, deixam, expectantes. Há curiosidade de parte a parte, um namoro longo.

Fiz um vídeo. Não está capaz. Não sei filmar, já se sabe. Mas mostro-o, ainda assim. Talvez um dia volte a mostrar outro, já eu a fazer uma festa no enigmático animal que me espia. Senta-se a olhar para mim. Talvez ache estranho que, de vez em quando, ali apareça esta que passeia como se flutuasse, em estado de encantamento, olhando tudo como se fosse a primeira vez.

Uma gata in heaven

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Voltei às minhas fotografias: já consigo passá-las para o computador e é com gosto que as partilho.

Joana Gama interpreta Für Alina de Arvo Pärt

E era bom que alguém ouvisse o meu apelo do post aqui já abaixo

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Desejo-vos uma semana feliz -- a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Força. Boa disposição.

quarta-feira, junho 05, 2019

Não vou falar do Panteão dos Corações porque os escritores não precisam de túmulos de pedra, precisam é que leiam os seus livros.
Falo, sim, de uma bela livraria: a Livraria da Travessa.
E, de passagem, falo num certo Manual de Etiqueta





Agora que o nosso Marcelo lançou a sound bite do dia, permitindo que a consciência colectiva fosse a enterrar devidamente paramentada com um pensamento enternecedor e indulgente, passo à frente porque conversa de Panteões mesmo que venha enfeitada com corações não me apetece a propósito da Agustina.

Agustina é mais do que isso, é espírito vivo e terra e fogo, não é corpo morto em pedra fria. Agustina é mãe de palavras infinitas, não memória enclausurada em monumento. Acho eu. Marcelo não fez por mal, acredito, falou porque tem que falar sempre. Mesmo quando a hora seria de silêncio, até para respeitar o silêncio de Agustina, Marcelo quis fazer bola de efeito. Mas não é por mal, é apenas defeito que ainda não aprendeu a curar.


Sigo, pois, em frente. Enquanto houver estrada para andar eu vou continuar. De tantos e tantos livros de Agustina, só tenho uns muito poucos e desses ainda mais poucos li. E, no entanto, bato-me por ela onde quer que eu esteja. Bato-me, certa de que estou a bater-me por um nome maior das letras portuguesas -- mesmo que torçam o nariz achando que não, mesmo que achem coisa datada, escrita rebuscada com tiques de antanho, mesmo que achem que não passa de obra parada numa tela de Oliveira.

E, para meu pessoal conforto, terei palavras novas de Agustina para ler pela vida afora. 

Só desejo é que todas as televisões façam muitos programas sobre a sua obra. Digo sobre a obra e não apenas sobre a autora. Que se ouçam as palavras que escreveu, que quem ouça tenha vontade de ler mais, de ler muito. Isso é que desejo. Das pessoas que conheço poucas leram Agustina. Muito poucas. E isso é que me dá pena. Não sabemos amar quem honra de verdade a nossa língua nem quem tem a genialidade da escrita íntegra. 


No outro dia queixei-me aqui, e foi há pouco tempo, destas livrarias cheias de lixo em que a gente tem que garimpar muito primeiro que apareça livro que valha a pena. E o pior é que nem a gente sabe como procurar, só lixo à vista, na estante, na bancada, na prateleira, no topo. Desejei uma livraria que me ajudasse a aprender quais os livros bons, uma livraria despoluída e atraente por onde eu pudesse ser guiada até onde as palavras límpidas me aguardassem.

Pensei que estava a sonhar. O mundo perfeito não existe. Se calhar nunca existiu. Pode parecer que me iludo mas não, tenho os pés na terra.

Mas afinal essa livraria existe. Estive lá. Um lugar de serenidade e paz.


Não fui à Feira do Livro. Estava muito calor e, nos últimos anos, a barafunda, o barulho e a confusão incomodaram-me demais. Livraria boa pede recolhimento, não liturgia mas recolhimento, quase silêncio, se música, então, musiquinha boa, e pede frescor e pede uma quase média luz, algumas zonas de sombra, alguns recantos para alguma escrita que requeira algum recato.

A Livraria da Travessa tem isso. Situa-se num dos lugares especiais de Lisboa, o Príncipe Real, e é de uma sobriedade, de uma elegância, de uma largueza, de um bom gosto que dá vontade lá ir todos os dias.


E trouxe de lá alguns livros. Livros que sabia que existiam e nunca tinha visto à venda. Andava eu por um lado, o meu marido por outro, ambos à descoberta. Deles darei conta um dia destes. Livros que me enchem de alegria só por existirem e estarem aqui à minha beira, à minha espera. O meu marido já leu parte de um e gostou, diz que está bem escrito e que é um bom retrato de época.

Eu ainda não li nenhum mas agora peguei no Manual de Etiqueta do mesmo autor e estive a folhear para ver se poderia ser de utilidade para alguns dos que pacientemente me acompanham aí desse lado. E confirmo: da máxima utilidade.


Por facilidade transcrevo apenas dois conselhos e escolho-os apenas pela dimensão pois há casos em que, atestando que o tamanho importa, a minha escolha recai nos mais pequenos.

O hipismo

Para se fazer hipismo é necessário ter prática e ter também um cavalo ou uma égua. Quando um casal faz hipismo o cavalheiro vai do lado direito a dama do lado esquerdo. O cavalo vai sempre por baixo. (É uma velha tradição que fica bem respeitar).



O beijo-paixão

Este género de ósculo fica muito bem às senhoras tipo mulher fatal, de cabelos pretos e olhos verdes. A etiqueta exige para tal cerimónia o baton cor de sangue, fundas olheiras e pálpebras semicerradas de míope. Sendo este dever social considerado de grande cerimónia, jamais o cavalheiro o praticará com o chapéu na cabeça.


[O autor é o Vilhena e forçosamente a ele terei que aqui voltar um dia destes]



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É de um brasileiro esta bela livraria de Lisboa. 
Pelos vistos gosta da língua portuguesa e gosta de literatura e de livros -- e é isso que é preciso. 
Espero que tenha muito sucesso pois quero ir e ir e ir e voltar a ir a esta Livraria da Travessa.

terça-feira, junho 04, 2019

Agustina


Fotografia in Folha de S. Paulo



Não posso dizer que hoje tenha tido um desgosto quando soube da notícia. Não tive.

Não que seja fria de coração porque, por vezes, ajoelho de desgosto. Como, por exemplo, o que senti, grande, quando vinha no carro e ouvi que o Bernardo Sassetti tinha caído de uma ravina, tinha morrido. Nem queria acreditar. Gostava tanto de o ouvir e gostava tanto das suas composições que a morte surgiu como um alçapão tenebroso que ia impedi-lo de continuar a compor e a tocar para nós.

Mas de Agustina, hoje, não. Nela eu gostava do que ela escrevia e, mesmo assim, não de tudo. Gostava também de a ouvir falar mas isso era quando ela falava e há alguns anos que não falava. Diz a filha que já antes do AVC ela parecia querer ausentar-se. Isso pareceu-me natural. Depois de uma vida a esgotar-se em palavras pareceu-me legítimo e compreensível que buscasse o silêncio das palavras não ditas. E de escrever também se desligou. Tinha-se despedido com a Ronda da Noite. Anos de palavras a correrem nas veias também cansa. 

Excerto de foto da Impala
Depois do AVC, deixar as palavras a sossegarem numa caverna profunda e inacessível sempre me pareceu nela uma coisa normal. Os AVCs são buracos negros que sugam a matéria e, nela, a matéria era a carne das palavras.

Levantar-se, ter a sua higiene tratada, escolher a toilette do dia, ir passear no jardim, ir para a sala, ficar em silêncio, parecia-me um programa mais do que suficiente para uma soberana em repouso.

E das suas palavras escritas e ditas antes disso eu não preciso de me despedir. Tenho-as perto de mim, sempre terei. Umas estão ali na estante, outras estão num livro que tenho aqui. E há vídeos.

De palavras novas já eu não esperava, pois, há uns bons anos e, no entanto, milagrosamente, elas continuaram a aparecer-me. E sendo, afinal, a caverna -- onde, durante anos, as palavras se acomodaram como letárgicos bichos do mato -- como um rio sem princípio nem fim estou em crer que as palavras continuarão a aparecer, a espreitar o sol, ficando por aí.

E é dessas que eu tenho gostado mais.

Sempre fui mais dada a petiscos que a grandes pratadas. Apanhados de ensaios, de crónicas, de textos, de cartas. Ou biografias que não são nem um bocadinho convencionais sobre pessoas de quem ela gostou muito e onde se perde em memórias, em observações à toa, onde mistura biografia e autobiografia, onde brinca, onde faz voos rasantes sobre a personalidade dos amigos. De tudo isso eu posso petiscar sem ordem definida, banquete informal, dim sum em que posso passar de uns para outros sem quebra ou adaptação, sempre em puro deleite e desconcerto. 

Houve a Sibila, claro. Inaugural. Dolorosa, visceral, telúrica, mística. Mas depois os outros romances não me prendiam. Tenho-os, alguns: debiquei-os. Há alturas da vida para tudo. Se a escrita requer vagar, vida ou tolerância e a lemos entre preocupações por filhos pequenos e depois adolescentes ou entre horários à justa, com certeza que as nossas trajectórias não convergem. Hei-de voltar a estes livros que contam histórias para perceber qual a minha sedimentada opinião.

Agora aquela insolência, aquela ironia truculenta, aquelas observações tão próprias de uma mulher da terra, aquela sabedoria desprovida de laços, venturosa, aquela carnalidade madura que se metamorfoseia em palavras, aquele riso escarninho, aquela farpa oblíqua, aquele despudor tão característico daqueles a quem tudo se permite, aquele desbocamento elegante, pérfido, atraente, tão próprio de quem sabe da inteligência extrair a beleza --- isso eu encontro nos textos avulsos, nos pequenos livros, nas opiniões, nas recordações, nas entrevistas. 

E tudo isso é eterno e cada vez o há-de ser mais pois mais pessoas a irão descobrir e amar e venerar o seu indomável espírito que sempre se manterá moderno e presente entre nós.

Já muitas vezes aqui falei dela e mais vezes haverei de falar pois há em Agustina aquela sedutora fractura, aquele desalinhado e descontraído comportamento e aquele gosto em enterrar as mãos nas vísceras ainda quentes daqueles a quem disseca -- que me são irresistíveis.

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Não sou de saber de cor citações ou de guardar de memória referências que agora me poderiam ajudar a escolher um texto a preceito que fundamentasse na perfeição os meus humílimos encómios. Por isso, fui à estante e puxei o Caderno de Significados, um livro fininho que, lá dentro, teria certamente textos pequeninos, fáceis de copiar. 

E é assim que, sendo que decorre agora mais uma edição da Feira do Livro e relembrando o tempo em que eu começava a visita pelo stand da Guimarães, cá em baixo, á esquerda de quem subia, para ver os livros de Agustina, soberana das letras portuguesas, soberana do seu reino da fantasia, transcrevo:

Feira do Livro

É possível imaginar uma tarde mais doce debaixo dos céus de Lisboa, mas eu não quero imaginar. O Parque Eduardo VII onde se inaugura a Feira do Livro está todo fechado em copas de árvores onde goteja uma promessa de chuva. Há muita gente conhecida e desconhecida. Os bonecos da Contra-Informação recebem os seus amigos e outros. Paira um bom presságio que está às vezes onde menos se espera. Saramago, mais sorridente do que é costume, Lobo Antunes aparece e desaarece. Eu, com os meus pés tenros como espargos, sento-me na cadeira que há no Pavilhão e dizem-me, de vez em quando, que a guerra foi declarada entre editores e livreiros. Napoleão tinha razão, a guerra é o estado natural do homem. Venho verificar isso no Parque Eduardo VII. que é um lugar como outro qualquer para avaliar o mundo e os seus problemas. Um vento carinhoso protege-nos de tudo como se fosse a benção dos escritores que nos olham dos seus placards mais ou menos esvaídos em tinta simpática. Começa a estação da Feira, que em geral coincide com a estação das chuvas. Como se diz em português corrente, 'estes são os gravos da ladeza em que estes lugares da terra de Lisboa daquém mar Ociano hapartam da linha equinocial da ladeza conta o polo' que é o meu Volkswagen.

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domingo, março 25, 2018

Champanhe para Agustina. Tchim-tchim!



(A filha, Mónica) vem todos os dias à casa do Gólgota ver se está tudo em ordem, agora que só cá vive a escritora, sempre acomponhada por uma senhora que toma conta dela e a segue como uma sombra. "Nunca a sua presença foi tão forte na casa. Sentimos a sua força, a sua intensidade, só que agora já não interfere. Só há o silêncio. Às vezes é muito desconcertante.", diz. Como um enigma.

Confere que a mãe acabou de almoçar e bebeu uma taça de champanhe. Faz questão de beber uma taça ao almoço e outra ao jantar, um hábito que adquiriu desde de que estabilizou depois do AVC, naquele acto de voluntarismo que espantou a neta. A filha interpreta esta vontade de champanhe a acompanhar cada refeição como a celebração de mais um dia. 

Das imagens mais fortes que guarda de Agustina é dela na sala, a escrever com uma prancha em cima dos joelhos, papel e caneta na mão. Mónica entrou de repente na sala, a mãe interrompeu-se e deu-lhe atenção, depois regressou ao texto, numa expressão que a filha estranhou, "como em transe". Como se tivesse passado por um mundo diferente.



[Excerto do artigo "Agustina íntima" de Ana Soromenho, no Expresso deste sábado que comprei de propósito para ler este artigo.  As fotografias obtive-as eu na net, ou seja, não integram o artigo]


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Já agora permitam que partilhe um vídeo que estive agora ver: 

Agustina, no Porto, à conversa com Manoel de Oliveira




E, uma vez mais, o documentário "Agustina Bessa-Luís - Nasci Adulta e Morrerei Criança"



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Tchim-tchim!

O dia em que Alberto, depois de, dois dias antes, ter estendido um tapete vermelho para Agustina, a deixou sozinha na sala





Com 94 anos [Alberto Luís, marido de Agustina] parece ter a energia renovada na urgência em deixar pequenas coisas prontas. Um arranjo nos degraus de um corredor interior para atenuar a descida que liga a ala da mulher ao resto da casa, agora adaptados ao andar de passarinho de Maria Agustina. O trabalho terminou na sexta-feira ao fim da tarde, quando a madeira foi coberta por um tapete vermelho. Uns dias antes, Alberto andara com o jardineiro a passear pelo jardim e tambémlhe dera indicações; a laranjeira velha teria de ser deitada abaixo, as hidrângeas secas deveriam ser substituídas por outras novas, talvez em Setembro voltassem a florir o jardim do Gólgota. 

Sábado à noite, telefonara a Mónica, a única filha do casal Bessa-Luís, por causa de uma série de fotografias de viagem que estão a organizar. Mónica não conseguia identificar algumas pessoas e ia levá-las para o pai a ajudar. Era o trabalho para o dia seguinte. Para esse domingo de 12 de Novembro de 2017.

Às dez da manhã, quando Agustina acordou, já havia um burburinho pela casa. Tomou o pequeno-almoço e decidiu a roupa que queria vestir, como sempre faz. Depois foi para a sua sala, onde ela e o marido passaram juntos os últimos onze anos, ele a ler e a trabalhar, ela sentada na sua mesa de trabalho, no lugar onde sempre escreveu. Só muito tempo depois perguntou: "O Alberto?". Quando lhe contaram que o marido tinha já morrido, ficou serena, expectante do momento seguinte.




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Tal como no post abixo, o texto em itálico é um excerto do artigo 'Agustina íntima' de Ana Soromenho no Expresso de dia 24 de Março de 2018. A bela primeira fotografia é uma das que ilustra o artigo. As duas outras, obtidas na net, mostram Agustina e Alberto.


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E queiram descer até ao post que se segue caso tenham vontade de festejar cada dia de vida de Agustina com um copo de champanhe

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segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Elegante demais para viver




(...)

Nestas páginas vemos bem, como uma sombra clara, a figura desse rapaz elegante demais para viver.

Eu vi-o pela primeia vez, num sofá de hotel, em França, penso que foi. Tinha um ar infantil e doce de quem espera protecção. O cachecol branco acentuava a requintada pose sem ser pedante. 

Vinha de casas grandes, avós ríspidos e ricos, férias no parque, qualquer coisa assim. Era tão bonito e apaixonado que se via logo que nada daquilo ia ter qualquer arranjo com a realidade.

Para mais, faza poesia.

O espelho que o acompanhava sempre era como o caixão que a Sara Bernardt levava para toda a parte. Servia-lhe de moldura para a morte.

Há pessoas que contratam um suicídio logo que nascem. Há um prazo para comparecerem, seja pelo efeito duma doença, ou dum desastre. Não pensam sequer em faltar, dar desculpas, atrasar o relógio. Vê-se-lhes nos olhos que obedecem a um prognóstico perigoso, o prognóstico da infância perdida.

Basta ler os relatos de Al Berto, tão bem acentuado na biografia-tese feita por Golgona Anghel, para ver que a pele dele ficou em partículas arrancadas pelos espinhos das flores daquele jardim da avó inglesa. O que restou foi um corpo em carne viva que teve que suportar o crescimento e a idade adulta. Mas trouxe com ele as brutais alegrias da criança, as curiosidades obsessivas que o fazem seguir passo a passo o vulto de Genet, de quem ele esperava revelações obscuras, febres de desejos obscuros, práticas de um sexo alvoroçado e sedento. 

Essa infância persegue Al Berto, enrola-se-lhe nas pernas como um cão que corre doido de prazer. Ele não pode viver como um homem; não tem lugar no mundo, nem carreira, nem amor para com nnada; é um especto de si próprio, um espelho sem reflexo nenhum. É um Dorian Gray por dentro.

Eu própria fico aflita de o ver tão feliz chegar ao jardim inglês. A felicidade é uma coisa que começa mal; não pode ser servida em quantidades tão grandiosas, ter os perfumes das rosas e dos lilases, o sol nos olhos, nas tardes frutuosas de segredos como Al Berto viveu. Aí está tudo; depois é o caminho ligeiro para a morte.

(...)

Cativante e errante num mundo sujeito a outras versões da felicidade que lhe não serviam e que ele ignorou.


[Excerto do Prefácio de Agustina Bessa-Luís ao livro 'Eis-me acordado muito tempo depois de mim', uma biografia de Al Berto, de Golgona Anghel]

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eis-me acordado
com o pouco que me sobejou da juventude nas mãos
estas fotografias onde cruzei os dias
sem me deter
e por detrás de cada máscara desperta
a morte de quem partiu e se mantém vivo



[De Al Berto, O Medo]






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[Fotografias feitas este domingo in heaven]

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terça-feira, março 28, 2017

Sophia por Agustina
[E reparem num dos motivos pelos quais gosto tanto de Agustina:
dizia ela que
"não há nada pior do que o fastio de se ser sensato"
e isso, claro está, é música para os meus ouvidos]






Aquilo que me ligou à Sophia de Mello Breyner não foi a amizade, que resulta dum contexto de ideias ou duma compatibilidade histórica; quer dizer, do facto de sermos contemporâneos, sujeitos a uma mesma disciplina moral e cultural. Não era isso. Nós tínhamos a capacidade de nos impressionarmos; como as crianças têm. 

Thomas Mann, a dado momento da sua vida, ao ver uma criança a repetir sempre a mesma brincadeira, pôs-se a reflectir sobre isso que lhe parecia extraordinário. Era assim connosco. Tomávamos a sério coisas que no fundo nos divertiam. A Sophia e eu não sabíamos o que era a solidão. O concreto era a aventura, e a poesia era a sua forma de ser concreta.

Falando-lhe eu um dia do Marquês de Pombal e da atitude pessoal que teve no processo dos Távoras, simplesmente não me quis ouvir. Não gostava de discutir as coisas que não eram da sua linhagem intelectual.

Ela dizia que há sempre um pouco de vingança na boa conduta de alguém. 

Debatíamos isto, ela a tomar chá e a fumar. 

Eu replicava que não há nada pior do que o fastio de se ser sensato. Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Às vezes pedia-me conselhos e dizia-me: "Não quero bons conselhos, desses estou até aos olhos. Antes aqueles conselhos que se esquecem depressa como o vento que nos desarruma o cabelo.". Era assim que nos entendíamos. Mas raramente conversávamos. Dava muito trabalho defendermo-nos do ciúme de quem disputava a amizade dela. A outra amizade.

Uma coisa era certa. Acabávamos sempre por estar de acordo sobe o Marquês: "Um chato."

Era assim connosco. Era bom.



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Tal como no post abaixo, no qual Agustina fala de Callas, também aqui a selecção das músicas e as fotografias é coisa minha.

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Maria Callas segundo Agustina



Há um ponto de apoio imaginário que dá para levantar o mundo: é a indignação. Nas mulheres, esse ponto obscuro no coração delas, que as faz profundas e sedutoras, é também a indignação. 


Foi assim que aconteceu com a Callas. Tentem compreendê-la e não conseguem. Tentam interpretá-la na sua carreira amorosa e no discurso da sua arte. Não chegam a conclusão nenhuma. Ela foi uma mulher arrebatada pela própria humilhação. Traída, apreciada, castigada e caída em desgraça, a Callas perdura como a pessoa indignada que foi. Não contra os homens, os sistemas, os factos. 


Simplesmente porque o seu ponto de apoio era o canto e este é, confidencialmente, a indignação pura que até o céu comove.


[in 'Caderno de Significados', Agustina Bessa-Luís]


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Vissi D'arte por Maria Callas



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A escolha das fotografias e do vídeo é de minha lavra.

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sábado, janeiro 14, 2017

A boa companhia que fazem as mulheres livres e inteligentes




Vagueio entre Agustina e Paula Rego. Leio textos de uma, respostas de outra. Que véus se soltaram de sobre os pudores de uma e outra para assim falarem? 
As suas palavras fascinam-me. Há nelas a raiz da fala, da escrita, do pensamento. E há também a seiva original da voz, do canto, da expressão dos sonhos, do esconjuro dos medos. Não são palavras produzidas: são palavras nascidas. Palavras que nascem do corpo de duas mulheres raras e com qualquer coisa de indefinível em comum. 
Percursos de vida que não se intersectaram mas em que a força do imaginário bem português sempre esteve presente.
O tempo passa. Não é mau que passe. É como um filme, nós passageiros efémeros e também efémeros espectadores. Há treze anos de diferença entre ambas: Agustina está com 94 e Paula prestes a fazer 82.


Agustina cansou-se das palavras, deixou de falar, deixou de escrever. Paula parece ausentar-se, de quando em vez, para o seu mundo povoado de histórias e medos. 

E, no entanto, quando Agustina ainda gostava de provocar, as coisas que ela dizia. Parecia soltar palavras ao vento e elas que se juntassem a seu bel-prazer. Só que as palavras, elegantes, sabiam arrimar-se com estilo. E do estilo nascia o sentido. E, depois, lendo melhor, o sentido sempre lá estivera. Liberdade. Prazer. Uma vontade de sacudir o pó à prosa molestinha que os medianos produziam. Ela não. Prosa rija, desempoeirada, lavada de fresco, posta a corar ao sol, bem cheirosa, reluzente, tratada com cremes caseiros ardilosamente preparados com pólen, flores de laranjeira, verbena, jasmim, risos cristalinos cruzando os jardins, segredos desfiados em surdina nos corredores escusos, bolsinhas perfumadas, recadinhos indecorosos escondidos em envelopes de seda. E setas certeiras atiradas ao som de irrefreadas gargalhadas. Prosa gostosa a de Agustina.


Como as pinturas de Paula. Por ali habita gente oriunda de dramas camilianos, de bruxedos, de sibilas agustinianas, de sustos, e lobos uivando na noite escura, meninas matreiras, sargentos com grandes botas, mulheres-cães, avestruzes bailarinas, mulheres parindo em camas antigas, homens bebés entregues aos carinhos maternais de matronas condescendentes, anjos a fingir, cães rosninhos, saias drapeadas, luas prateadas iluminando a noite escura. E ela, Paula, inventora desbragada, rindo, riso de menina malvada, de menina perigosamente inocente.

Leio uma, leio outra. Pelo meio, olho a janela, vejo os desenhos que a luz e as sombras desenham no vidro.


Faz um calor bom. A salamandra distribui um calor suave e um perfume azinho na sala. E o sol que entra em casa sobe-me pelo corpo, sabe-me bem. 

Faço um chá. Um amigo deu-me ervas suas. E eu agora preparo uma infusão. Misturo lúcia-lima e hortelã-pimenta no pequeno depósito rendilhado, mergulho-o na água fervente. Deito um pequeno pingo de mel. Fica muito bom. Agarro a caneca quente com as duas mãos, aqueço-me. E volto a Agustina. E volto a Paula. Há uma autenticidade sem véus, há uma aceitação sem amarguras, há uma sinceridade substantiva. Sinto-me bem entre gente assim.


Fotografo, então, enquanto o sol não se põe, o pequeno painel de azulejos onde fiz escrever os versos de Sophia que tenho como lamento-desejo meu:

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

As mulheres inteligentes e livres têm uma força que os homens -- ainda que também inteligentes e livres -- não conseguem ter. Mulheres assim não têm medo, são bravas, expõem-se sem rebuços, ousam. Os homens não, os homens raramente conseguem ser completamente livres, temem expor a sua fragilidade, temem ser alvo de chacota, temem a rejeição. Disfarçam então, mostranto-se violentos, desinteressados, superiores. As mulheres não precisam de escudos, entregam o peito às balas. Estão habituadas a abrir as pernas para que a vida por lá entre, para que a vida por lá saia, para que os médicos por lá espreitem. O seu corpo é um campo de batalha, um campo de glória, um pátio de prazeres. Habituadas a não temer a invasão das entranhas, as mulheres nada temem. Pelo menos as mulheres livres, com cabeça.


Ler ou escutar mulheres assim é uma lição, um exemplo, um prazer. Agustina e Paula, minhas companheiras de um dia no campo, in heaven.


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De novo aqui comigo

O mundo de Agustina




É assim Paula Rego




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Porque o mundo tem mais graça se às mulheres livres e inteligentes se juntarem homens também com um toque de diferença e graça, trouxe aqui David Gilmour, rapaz que já vai nos 70, com Smile.


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E queiram prosseguir, meus Caros Leitores, para um encontro com Amadeo, no Chiado


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domingo, dezembro 11, 2016

Inacabado. (Im)perfeito.





Uma palavra por dizer. Um passo por dar. Um caminho por percorrer. O acaso por desafiar. Uma tarde a escurecer. O dia sem todos os seus momentos. Um hiato. Um buraco no peito. O peso de um silêncio em excesso. Uma distância não querida. Um livro a meio. Um sorriso sem retorno. Um beijo em suspenso. Um voo interrompido. Uma nuvem quebrada. Um rasto que se dissipa em azul. Uma estrela quase esboçada.


O inacabado. A perfeição antes do fim. O ser antes antes de acontecer. A respiração antes do seu alvorecer, a madrugada que se anuncia no calor da noite. Fragmentos. Breves instantes. Afinidades longínquas. Destinos que parecem cruzar-se. Lá longe. Lá longe. Silêncios. O lamento do violoncelo, o murmúrio do piano. Palavras adivinhadas. A infinita incerteza.
Como hoje, em que subitamente, sem desígnio celeste, nem interpretação moral, nos inscrevemos na hospedaria do desencontro, onde nada se acha do que nos sucede, mas só a poeira dos pequenos incidentes humanos que não tiveram história.
A intervenção do súbito no sentido das coisas que nos aplicamos a descobrir é a assinatura indecifrável que só a elas próprias compete. E do romance nada resta, excepto o idioma em que ele é escrito.

(In)significâncias. (Im)perfeições. O (in)finito contido no seio de cada pequeno instante. Cruzamentos.

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Em itálico, palavras de Agustina citadas por Silvina Rodrigues Lopes no prefácio de Elogio do Inacabado.

Fotografias feitas esta manhã.

Numa interpretação de Camille Thomas e Beatrice Berrut, de Brahms, a Sonata op.38 1st mvt 

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