Mostrar mensagens com a etiqueta George Clooney. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta George Clooney. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, agosto 22, 2024

Bom demais para ser verdade.
Correcção: bons demais para serem de verdade

 

Podia estar a falar do Barack Obama. E estaria correcto. Bom demais para ser verdade. Ou da dupla Barack e Michelle Obama. Também estaria certo. São bons demais para serem de verdade. 

Do que vi e ouvi das suas intervenções naquela magnífica arena só posso dizer que tudo aquilo foi extraordinário. Na verdade, naquelas pessoas, independentemente do alto gabarito, do dom de palavra, da visão, da fantástica capacidade de análise e de síntese, há a intuição para o momento certo, para o gesto certo, para a pausa certa, para o olhar certo. São aquilo a que na gíria se chama 'animais de palco' mas animais de palco com conteúdo (e um bom conteúdo). Magnífico. Em cima (ou ao serviço) do génio dos oradores há uma vertente de grande espectáculo, de grande escala, de grande profissionalismo em tudo aquilo. Há pouco, o Luís Paixão Martins falava na preparação milimétrica, na cuidada realização, nada deixado ao acaso. 

Mas este post não é sobre os Obama. Ando cansada, sem tempo e com muito sono. Não dá para temas que requerem alguma reflexão. Por isso, indo à boleia da silly season, confesso: quando digo que são todos bons refiro-me ao Brad Pitt (claro, tinha que ser, é o melhor dos melhores) e ao George Clooney. Fazem uma dupla que é qualquer coisa. Nem imagino como é que uma mulher normal fica se der de caras com estes dois. Mas, lá está, até bastaria um. Brad Pitt. Se eu me visse frente a frente com ele, como reagiria? Acho que ficava bloqueada. Com receio de fazer uma figurinha miserável, haveria de ficar congelada. Mas, mesmo assim, não me importava nada.

Naquelas perguntas parvas: se fosse para uma ilha deserta, o que levaria consigo? acham que eu ia levar o Ulisses? Ia, ia... Só se fosse parva... Partindo do princípio que não poderia levar um deles em pessoa, levava era este vídeo. 

Brad Pitt & George Clooney's GQ Cover Shoot | Behind The Scenes

Brad Pitt and George Clooney are GQ's September cover stars. The iconic Ocean's duo are back, this time roaming through the rolling hills of the South of France.


E tenham um belo dia

terça-feira, outubro 18, 2016

O dinheiro faz bem aos dentes
... e ao cabelo...
e, a bem dizer, a tudo


CR7, na pose de sexy boy quando o dinheiro já tinha feito
o seu trabalhinho

Cristiano Ronaldo: os abdominais já ali estavam
O pior eram os dentes



Ncolas Cage:
até parece que a cara
era do feitio da boca e dos dentinhos
Nicolas Cage: bem melhor agora que já compôs os dentinhos




Céline Dion: tadinha, tadinha.
O cabelo, a pele, os dentes amarelos. Até os chumaços.
Credo.

Céline depois do money-money ter entrado em acção
Mais compostinha à medida que vai amadurecendo


George Clooney em novo:
 pimba, pimba, mas tão pimba,
oh my dog!


George Clooney: o dinheiro dá-lhe cá uma pintarola...!
(emboa a patine da idade também estejam a dar uma preciosa ajuda)


sábado, setembro 03, 2016

E porque hoje, dia 3 de Setembro, é o Dia das Barbas, vamos lá a isso:
Estão ou não na moda? Valorizam ou não quem as usa?
Eu demonstro a minha teoria com casos práticos


Depois de, no post abaixo, ter escrito sobre as desconformidades do Rangelito, do mau olhado permanentemente lançado pelo Láparo e das vacuidades da candidata a Rainha da Sucata, pus-me a circular pela televisão a ver se descortinava alguma coisa que se visse. 

E fui dar com a Cristina Ferreira e as suas danças e, claro!, com a Madame Teresa Guilherme com as suas meninas esbraseadas e os seus calmeirões tatuados. Não sei se aquilo é peixe fresco ou do gelo (e que me perdoem as analogias piscícolas mas, já sabem, é a minha orgulhosa alma de peixeira*...). Começaram novos programas iguais aos anteriores ou isto são repetições? A sério que não faço ideia. Até o Zezé Camarinha lá vi. Ou foi uma cena de déjà vu que me assolou ou é aquela coisa da roupa velha. Zapping. 


Depois apareceu-me o Baldaia, olheirento, e pensei que estava a falar de política. Pensei: 'deixa cá ver qual a cena dele agora'. Mas não, estava a falar de futebol. Em vários outros canais a mesma coisa: a falarem de transferências e de um, acho que nao jogador, que saíu do Porto, não sei nem me interessa saber porquê nem porque é que isso é importante. Mas se calhar é. Zapping.
Agora o que me pareceria boa ideia é que isto da época das transferências fosse extensível aos partidos. Por exemplo, acho que o Rangelito seria um sucesso entre as miúdas que parece que agoram pululam no CDS. Daqui lanço, pois, o repto: madame dona cristas não quer contratar o galinho rangélico? Ou, para o PSD, que tal o láparo contratar a meireles para ambos rodarem, de noite, filmes de terror para assustarem as criancinhas no dia seguinte.
Mas não quero perder mais tempo com isto. Não é coisa que me assista, como dizia o outro, o campeão da reboleta estrada abaixo.

Vou então falar do que aqui me traz -- um tema biblíco. Bem, não sei se bíblico será o termo. Talvez histórico. Havia aquela do outro que cortava as barbas ou aquilo de pôr as barbas de molho. Na volta ainda é tema lançado pelo vaganau do Homero, que parece que foi quem esteve na génese de tudo. Portanto, por prudência, vou antes dizer que o tema que aqui me traz é clássico. 

Pronto. Feito o enquadramento, vou a factos.

 

Ficam os homens melhor ou pior com barba?


Como este texto está a seguir um rumo rigoroso, acho que devo plasmar já aqui um disclaimer. Tive, em tempos idos, um intenso coup de foudre, de que ainda hoje não me curei, quando um desconhecido, barbudo como um guerrilheiro, pousou em mim um olhar descarado. Depois disso, já tentou várias vezes despir-se dela. Ainda no outro dia. Por precaução, deixa o bigode. Diz que é só para a cara apanhar sol no verão. Ora não acho bem. Portanto, a ousadia dura um dia. Por isso, escuso de dizer mas digo: sou a favor.

Ao meu filho nunca influenciei. Tambem não é rapaz de ir em influências da maezinha. Mas usa uma bela barba. O cabelo agora quase escuro, sempre curtíssimo, os olhos claros, esverdeados, e uma barba arruivada. Não desfazendo de vocês, Caros Leitores, ou dos vossos filhos, que são todos certamente bem jeitosos, mas o meu filho é um belo barbudo. Felizmente, nisso, a minha filha não sai ao irmão. Nem nisso da barba nem, fisicamente, em quase nada, que toda ela é mais parecida com o pai: uma morena de alma e coração.

Bem. Onde é que eu ia? Ah. Estava eu aqui e recebo uma mensagem da minha nora. Tinha uma fotografia do meu filho em grande plano com os meninos ao pé e dizia ela que ele era capaz de ser o rapaz mais giro da festa (e incluía aqui um smile), qual João Ferreira. Já algumas vezes aqui falei que o PCP tem homens bonitos e referi o João Ferreira como um belo exemplar. Estavam na Festa do Avante, claro. 


João Ferreira - não está mal, não senhor, mas tomara ele ter tanta pinta como o meu filhão


A seguir, começo a deambular pela leveza internética e não é que, na Madame Figaro, dou com um artigo sobre as barbas? Sério. Para começar, para quem não saiba, este sábado é o Dia das Barbas.

 

[Alguém sabia que também havia o Dia das Barbas? Eu não. Há dias para tudo, caramba].

O artigo diz tudo logo no título:


De facto, a barba transversalizou-se, virou tendência, não é coisa de velhos em tempos revolucionários, de guerrilheiros ou de malta do reviralho. É simplesmente uma coisa que valoriza os homens. Talvez, no fundo, a barba transmita uma ideia de virilidade. Acho que sim. Mas é mais que isso, tem a ver com a maneira de ser e, talvez que, uma vez mais, os homens com barba pareçam mais homens que os outros. Mas je ne sais pas. É talvez apenas uma quelque chose, aquilo do je ne sais quoi. É que não é a barba em si que confere o atestado de virilidade mas o all in. Mas pronto, não sei. É sabido que não sou uma pensadora militante, sou mais na base de atirar bolas para o ar.

Bem, adiante.

Uma ressalva: se forem apenas três pelos, coisa rala e triste, pois mais vale que não. Agora se a barba é franca, pois que se aceite que ela embeleze o rosto em que cresce. Contudo, não gosto de ver o pescoço descuidadamente peludo. Acho que abaixo da linha do rosto, o pescoço deve ser barbeado.

Por exemplo, este jovem aqui abaixo vai lindamente com a sua barba mas já o pescoço estraga tudo, dá-lhe um aspecto descuidado.


O artigo tece razões e ouve entendidos, uma historiadora, um youtuber e um barbeiro. Eu como não tenho competência para dissertar filosoficamente sobre pilosidades faciais, limito-me ao que sei: ver.

E o que vejo é bom de ver. A Madame Figaro escolheu uma mão cheia deles para mostrar como ficam a ganhar com o uso da barba. Eu mostro apenas uma pequena amostra e cada um que conclua por si.

George Clooney, sempre bem

George Clooney - mas com barba ainda melhor

Jon Hamm, um belo homem

Jon Hamm, muito melhor com barba

Robert de Niro, um clássico, sempre bem

Robert de Niro, verdadeiramente charmoso com barba


Bradley Cooper mas, sem barba, até parece estrábico
(coisa que não tem mal nenhum, até pode ter uma gracinha suplementar)

Bradley Cooper mil vezes melhor com barba


Portanto, declarando a amostra como significativa, decreto a conclusão: a barba valoriza os homens. E daqui lanço um desafio: que hoje, sábado, Dia das Barbas, todos os meus Leitores que ainda fazem a barba todos os dias, ousem tornar-se barbudos: mas barbudos civilizados, if you please.

_____

E queiram, se, claro, a tal vos aprouver, deslizar até ao post abaixo, texto esse que ofendeu a sensibilidade de Leitora que o considerou grosseiro tendo, no fim, condimentado o seu comentário com um desabafo quase filosófico: *uma peixeira é uma peixeira. Ide e vede, meus Caros. E se a vossa opinão for coincidente com a da Leitora, pensem bem: como é que se pode falar do Rangel, do Láparo ou da Cristas mantendo as pérolas elegantemente pousadas sobre o regaço?

____

sexta-feira, dezembro 06, 2013

Leonor - jantar de Natal e noite de amor






Nem pareceria que já estamos em época natalícia se não se fizesse sentir este friozinho agudo, este sol que não consegue esconder a humidade das folhas caídas. 

Por ali, então, a névoa matinal, o frio que se entranha, a neblina que envolve o entardecer, as noites gélidas são a regra. Faz parte da mística do lugar, dizem.

O grupo está, uma vez mais, reunido na grande casa que se esconde entre altas árvores, muralhas, escadarias e muros cobertos de hera. Lá dentro a grande lareira está acesa como sempre mas agora há também aquecedores a gás espalhados pela casa. O frio parece emanar das paredes de pedra e, sem um suplemento de aquecimento, o lugar em vez de acolhedor seria inóspito. A sala brilha agora com os dourados envelhecidos de uma grande árvore de natal decorada com objectos antigos, raros. E existem mais velas acesas do que é costume, o que transmite um ar de ainda maior aconchego e, num recanto, está o presépio que a mulher de Manuel arranja em conjunto com a cozinheira e restantes empregadas da casa.

Por esta altura reúne-se aqui o grupo do costume mas agora com os respectivos cônjuges. É o jantar de natal. Leonor é a única mulher da equipa de gestão e não traz companhia. Aliás, os colegas, por vezes, na brincadeira, insinuam estranhas preferências como justificação para o facto de não ter companheiro que se lhe conheça. 


Estão, portanto, as mulheres dos colegas; já se conhecem umas às outras e é costume, mal se encontram, retomarem, com animação, a conversa que tiveram na ocasião anterior em que se estiveram juntas. Falam quase ininterruptamente, reportando os acontecimentos familiares desde a última vez ou comentando as notícias que preenchem os tempos que correm: filhos que estão a estudar ou a trabalhar fora, as conversas via skype, as saudades, o receio de que por lá fiquem, e espantam-se com a imbecilidade destes ministros, riem-se da imaturidade e cretinice de alguns secretários de estado, e mostram preocupação pela devastação que o governo está a levar a cabo e que empobrece toda a gente e o país no seu conjunto. 

Leonor enturma-se com elas. Nota-se nas senhoras uma certa curiosidade em relação a esta colega dos maridos. Leonor fala também de assuntos correntes, desliga-se de assuntos profissionais quando conversa com elas. De resto, se há várias que não trabalham nem sabem o que isso é, outras há que são médicas, professoras ou reformadas e que, portanto, têm uma visão muito concreta do que é a vida.

Está também a mulher de Duarte embora ele não esteja. Foi ela a atracção principal no início da conversa. Toda a gente se lhe dirigiu para saber como está ele. Maria João explicou que está bem mas que não o tem visto, que não recebe visitas, que está a fazer uma cura de sono, que teve um esgotamento e dos sérios, que os médicos recomendaram um internamento para poder dormir, descansar, desligar-se de tudo. As outras mostram preocupação, querem saber pormenores. O que sentia? Como estava? Não tinha percebido? Como foi?


Maria João explica que foi progressivo. Que o marido chegava tarde a casa, que andava cansado, irritadiço, que tinha insónias, que andava desconcentrado, que os comprimidos que tomava parece que já não faziam efeito, tomava mais e nada resultava e que estava a emagrecer a olhos vistos. Que, a dada altura, chegou a desconfiar que ele tivesse outra mas que afinal ele estava mesmo era arrasado. E que parecia que não conseguia relativizar os problemas, que tudo era motivo para o deixar ainda mais em baixo. E que, depois, outras vezes andava eufórico, que até custava a aturar de tão doido que ficava. Que chegou a temer que ele se tivesse tornado bipolar.

Enquanto Maria João falava, Leonor temia que ela, na sua inocência, voltasse a falar em cortes de ordenados ou coisas do género que levassem as outras a perceber que a história estava mal contada. Mas ela não falou no assunto e Leonor descansou. Mas receava também que alguém, ao ouvi-la, através de um sorriso ou palavra em falso, cometesse um deslize e ela percebesse que, sim, que ele tinha mesmo outra, sempre, já muitas, ou que alguém piedosamente lhe explicasse que ele namorava como se tivesse necessidade de se sobre-ocupar a todos os níveis, e até a nível amoroso. Mas não ocorreu nenhuma inconveniência e Maria João, com naturalidade, foi prosseguindo a sua conversa. Aliás, num aparte, Maria João tinha-se chegado a ela e, num tom de voz muito baixo para que ninguém ouvisse, tinha-lhe pedido desculpa por aquele telefonema de dias antes, que naquela noite estava assustada, tão preocupada, sabe lá o que aquilo foi.

Leonor disse-lhe que ela não tinha que pedir desculpa, que percebia perfeitamente, que a vida no mundo doss negócios, especialmente agora, é muito stressante e que, às vezes, as pessoas se vão abaixo, mas que tudo ia ficar bem, que ele, repousando, estando uns tempos afastado do stress do dia a dia, iria ficar bom.

Duarte tinha aceitado tratar-se com a condição de ninguém, nem no trabalho nem na família, saber qual a verdadeira causa do problema. Leonor tratou de tudo, falou com médicos, acompanhou, aconselhou e apoiou Duarte. Para todos os efeitos, diriam que ele ia tratar-se de um esgotamento nervoso, que iria ficar internado para fazer cura de sono. Depois teria um período de baixa para continuar a ser seguido.
Entretanto, Duarte tinha começado a dizer que ia largar o emprego, que iria viver para o campo. Mas quer os médicos, quer Leonor o aconselharam a que deixasse os planos para depois.
Maria João não soube o que se estava a passar tal como não soube da intervenção de Leonor. Aliás, ninguém soube.
Por várias vezes Afonso tinha perguntado a Leonor se sabia o que se passava com Duarte e ela tinha mantido a mesma versão: parece que estava à beira de uma depressão ou de um esgotamento, seja lá o que isso for, e de tal forma devia ser, que os médicos o mandaram internar.


Neste jantar não está também a mulher de Afonso. De resto, foi uma surpresa para toda a gente. Quando não a viram, toda a gente lhe perguntou por ela. Com ar descontraído, informou que se estavam a separar. Os próprios colegas ficaram a saber naquela altura com excepção de Manel a quem ele tinha dito antes. Algumas senhoras ensaiaram um ar compungido mas alguns dos colegas levaram o caso para a brincadeira, Pois o que seria de esperar? Quem é que atura um tipo destes? E outro, mais malandreco acrescentou logo, Parece que a coisa correu tão, tão mal que ela até terá trocado de gostos: parece que o trocou por uma e não por um. Afonso riu-se, via-se que era assunto que não o incomodava.

Leonor ouvia e sorria, como se o assunto para ela fosse tão irrelevante como para cada um dos restantes.

O jantar foi requintado como sempre mas, desta vez, houve uma inovação: juntou-se à cozinheira um chef conceituadíssimo que preparou algumas iguarias de tipo cozinha de fusão e, em conjunto, serviram uma surpreendente ementa de degustação. A qualidade e criatividade das receitas animaram ainda mais o ambiente que, no entanto, se manteve no mesmo registo suave, adoçado pela luz das velas.

Mais para o fim do jantar Leonor sentiu um pé a subir pela sua perna. Afastou-o quase sem se mexer e continuou a conversar como se nada se passasse. Admitiu que fosse Afonso mas ele também conversava naturalmente com as pessoas do lado e nada no semblante o poderia denunciar.

No final, a cozinheira e o chef vieram saber se tinha estado tudo bem e toda a gente louvou e agradeceu a arte e a perícia que eles tinham demonstrado na confecção da refeição. Depois, na mesa da sala, havia uns saquinhos com umas lembranças.

Despediram-se com boa disposição e, em alguns casos, com verdadeira estima pessoal. Leonor lamentava que o seu amigo Dr. Lampião e a mulher, uma senhora muito querida, não estivessem, mas era sabido que, mal Dezembro começava, eles não descansavam enquanto não rumavam a norte. Por lá as temperaturas exteriores são frias mas o seu coração aquece-se com o calor do reencontro dos seus. Nem a ele, nos mails que trocam, Leonor tinha contado o que se estava a passar com Duarte. Dir-lhe-á mais tarde, e só a ele, pessoalmente.

Quando se estavam a despedir uns dos outros, Duarte que, como de costume, estava de moto, como quem não quer a coisa disse a Leonor, Hoje está para além de boazona. E esse vestido fica-lhe a matar… Posso ir conferir como estamos de underwear?

Leonor com o ar mais normal do mundo, os outros vendo-os a conversar daquela forma pensarão que estão a falar de trabalho, respondeu-lhe, Hoje quero serviço de massagem. Tem competência para isso? Se tiver, dispenso o massagista brasileiro que contratei e arrisco pôr-me nas suas mãos.

Pelo caminho, noite fria e escura, estradas ladeadas por grandes árvores, Afonso foi a serpentear na estrada, ora ultrapassando o carro de Leonor ora deixando-se ultrapassar.

Leonor entrou na garagem, Afonso estacionou no passeio.

Quando Afonso tocou à campainha já Leonor o esperava. Afonso zangou-se, Mas o que vem a ser isto? Já despida? E toda despenteada? Querem ver que me atrasei...? Já aqui esteve o massagista brasileiro ou quê?

Leonor olhou-o e, em voz baixa, perguntou, Estou mal?
- Não... Mas é que estava tão boazona, queria tê-la assim só para mim. E queria ser eu a despi-la devagarinho. 
Olha para ele, que abusador... Mas ainda não percebeu que está aqui só como massagista? Por isso, vá lá, profissionalismo, se faz favor.
- Então, vá, vamos tratar do ambiente. Vou escolher uma música apropriada. Vá-se pondo a jeito. Já sei, Agnes Obel. Vai gostar. Ouça. Deixe-se ir.






 
- Vá, não lhe disse para se pôr a jeito? Deite-se de barriga para baixo. E feche os olhos, não olhe assim para mim... senão não respondo por mim. Sinta as minhas mãos no seu corpo. E descontraia. 
Leonor respondeu, Eu estou descontraída, você é que está desfocado. Concentre-se na massagem e pare você de olhar assim para mim.
- O que é que quer? Sou um simples amador. Se quer profissionalismo, se calhar é melhor chamar mesmo o brasileiro.
Leonor disse, toda ela malícia, Já é tarde para isso senão chamava-o e você ficava a ver... para aprender. Mas daqui a nada você tem que se ir embora, e ainda temos que dormir alguma coisa. 
- Mas, ó Leonor..., nem hoje me vai deixar ficar cá a dormir...?
Nem pense. E vá, se não tem competência para me dar uma massagem, ao menos dispa-se e venha aqui para o meu lado.


Afonso despiu-se, pegou num papel e num lápis que estava na mesa de cabeceira, e provocou, Sim, doutora. Diga lá então o que é que quer que eu faça agora, mas diga tudo, step by step, dite que eu escrevo que é para não falhar nada.

Leonor olhou-o nos olhos, toda ela entrega, sedução, gozo, Largue o papel. Não vou dizer nada. Improvise. Faça o que quiser. No fim logo toma nota de algumas acções de melhoria. Agora não. Agora limite-se a provar do que é capaz.

E ele assim fez.



THE END


*****

As músicas são, respectivamente:
  • Have yourself a little Merry Christmas, por Melody Gardot e 
  • Close Watch por Agnes Obel

Este é o último episódio desta história. Dei-lhe o nome de Leonor e Afonso e pode ser lida de seguida, (do primeiro ao último episódio, de baixo para cima, claro) se procurarem esse título nas etiquetas aí em baixo do lado direito. Se quiserem ler apenas o episódio de ontem, está aqui: Duarte - a queda do belo albatroz 

*****

Sobre a morte de Madiba poderão descer um pouco mais que está já aqui a seguir.

*****

E, por hoje, é isto.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira!

sexta-feira, novembro 29, 2013

Leonor, a mulher


Depois de uma tarde cheia de maçadas, telefonemas desagradáveis, gente a queixar-se, gente desmotivada e até desentendimentos entre colaboradores que acabaram em lágrimas, Leonor foi refugiar-se junto do seu amigo de sempre.

Sô Tôr...
- Qual Doutor... Antes enfermeiro.
Senhor Engenheiro, então…
- Senhora Engenheira…! Muito suspira a minha amiga…
Antes fosse engenheira.
- Está como eu. Engenheiros financeiros era o que devíamos ser.
Pois é… Mas, se não quer que o trate por doutor e também não por engenheiro, trato-o como? Por lampião?
- Lampião no bom sentido: sempre! Sou fiel aos meus amores.
Seja. Senhor Lampião… conte-me coisas boas. Estou precisada.
- Ah, está a pedir-me muito. Gosto muito de a ver feliz mas, desgraçadamente, boas notícias é coisa que não abunda por aí. Mas vejo-a com ar cansado, doutorinha. O que se passa?
Nada de especial. Estou cansada. Mas nada de mais. É o costume, muita coisa. E aí umas coisas com o Duarte. 
- Com o Duarte? Então?
Nada de especial. Se calhar não é nada. Mas estou cá com um feeling. Não sei. Mas tomara que não, senão não saberia o que fazer. Mas deixe lá, não é nada.
- Já hoje me apareceu por aqui o Manel também preocupado e também me deu a entender que era qualquer coisa com o Duarte. Será é a mesma coisa?
Não, acho que não, mas não sei o que é isso que preocupa o Manel.
- Já no outro dia a minha mulher encontrou a mulher do Duarte na Bertrand e ela fez um comentário que deixou a minha mulher muito admirada. Atribuí a que tivesse ouvido mal. Tomara que não haja problema nenhum com ele. É um bom tipo, gosto dele.
Então e eu? Claro que gosto imenso dele. Temos os nossos desaguisados mas é tudo da boca para fora. Mas olhe, deixe para lá. Rica vida é mas é a sua que já está reformado e só cá vem por desporto.
- Qual desporto? Venho porque não sei fazer mais nada e, ao menos aqui, a minha mulher não me atenta o juízo. Assim, aqui, posso olhar pela janela, pensar na vida, fazer umas pesquisas, dar uns palpites a quem mos pede, organizar aí umas coisas. Sou amigo do Manel e agora, que as coisas estão bravas, não quero virar-lhe as costas. E daqui vejo o mar, não se está mal. Além disso, enquanto aqui estou a minha mulher  faz a vida dela, também sem ter que me aturar. Quando nos encontramos ao fim do dia, já estamos cheios de saudades e é uma festa. 
Boa. Deve ser esse o segredo para ter tão bom ar e para ter um espírito tão jovem. 

- Ná. Isto foi das cachimbadas. Um verdadeiro elixir da juventude.

Está bem, mas ainda bem que deixou de fumar. Mas e agora outra coisa. Conte-me lá. Que livro anda a ler? E que músicas me recomenda? Sigo os seus gostos com devoção, já sabe. Nunca falha. Não quer enviar-me uma listinha com algumas dicas?
- Mando, sim senhora. Mando já amanhã porque no fim de semana vou até à Dinamarca e fico lá até ao fim do ano.
Sortudo. Quem me dera… Mas então amanhã venho cá despedir-me, está bem?
- Fico à espera. E descanse, descontraia, divirta-se. Não gosto de a ver com esse ar arreliado. Prefiro vê-la sorridente e combativa. Acha que há alguma coisa que justifique que ande a cansar a sua beleza...? Nada!
Acho que tem razão. Vou pensar nisso. Beijinhos à sua mulher.
- Serão entregues. Mas, como de costume, para mim nada...?
Leonor levantou-se, Sempre reivindicativo..., deu-lhe um beijo na face e saíu.

Ia mais confortada. Dali nunca saía aborrecida. Se há pessoa com bom coração, bom senso, inteligência e elegância é aquele seu colega. Junto dele procura apoio sempre que precisa.

Quando chegou ao estacionamento, mudou de sapatos, tirou o casaco grosso do porta bagagens e conduziu até à beira do rio.

Pelo caminho ligou o Afonso e, como de costume, deixou que o telemóvel tocasse duas vezes antes de desligar.

Noite cerrada. Um frio antárctico. Fechou o casaco até acima, enfiou as mãos nos bolsos e fez-se ao caminho. A meio caminho sentiu um braço por cima dos ombros e alguém a querer enfiar-lhe uma coisa na cabeça.



*



*

- Se não fosse eu o que seria de si?
Ai! Assustou-me! Um gorro? Ai que bom… e que quentinho que é. Estou melhor assim, sim senhor.
- Sou ou não sou aquilo que lhe faz falta? Confesse.
Então não? Um amiguinho que me apareça a meio da noite para me enfiar um gorro… Toda a gente precisa disso. Mas olhe lá: não tem frio? Todo esgargalado...
- Estava aqui à sua espera para não a deixar andar por aí sozinha. Mas espere um bocado para eu ir ao carro buscar roupa para a neve.
Quando regressou, já agasalhado, Leonor voltou à conversa, Mas, então, dizia você que me faz muita falta porque me põe gorros na cabeça... 
- E faço outras coisas.
Sim...? Diga lá a ver se há alguma de que eu precise. 

O passo ia acelerado, Leonor gosta de caminhar durante uma hora ao fim do dia e se está frio tanto melhor. A proximidade do rio, o silêncio da noite, as sombras furtivas, tudo aquilo lhe tira toneladas de cima dos ombros. E a companhia de Afonso também não é má de todo. Geralmente não falam de trabalho, vão na brincadeira. 
Afonso sorria, Leonor... Leonor... Está a pedir que eu lhe diga uma ou duas, não está?
Diga. Pode ser que acerte.
Afonso hesitou, Eu digo mas depois não se queixe, é você que está a pedi-las. Vou dizer. Dar-lhe um banhinho quente… pode ser?
Banhinho...? Banhinho, inho, inho… ah como está todo mariquinhas… um banhinho... E depois mais alguma coisinha, inha, inha…?
- Está a pedi-las, ah está, está.
Pois, bem que eu as peço mas você não se chega à frente…
- Essa é boa. Não me chego à frente? Está sempre a dar-me para trás e agora diz que não me chego à frente…?
E não chega mesmo. O que é que hoje já fez por mim para além de me enfiar um gorro pela cabeça abaixo?
- Leonor…Leonor… Não me desafie…
Desafio, desafio…
- Veja lá não se arrependa…
Mas eu sou lá pessoa de me arrepender? Mas está bem, já vi que consigo é só conversa.
Afonso parou. Mau.
Mau, mau Maria, disse Leonor a rir e parou também. Depois puxou-o para si e beijou-o. Ele abraçou-a com força enquanto se beijavam.
Quando pararam, ele disse, Que você é mazinha, ó Leonor…
Mazinha, eu? Mas porquê?

- Gosta de fazer sofrer, não gosta?

Eu? Nãããoo... Mas pronto, vá lá, eu agora sou boazinha. Vamos acabar o passeio e depois aceito o banhinho. E mais qualquer coisinha. Inha, inha. 


Afonso tirou-lhe o gorro, fez-lhe uma festa nos cabelos e disse, Deixe-me olhar para si Leonor. Que bonita que está, tão calma. 
Olhe bem que não é certo que depois de amanhã me volte a ver de tão perto, respondeu Leonor.

Afonso, abraçou-a, Cale-se, não diga disparates, limite-se a beijar-me.


E beijaram-se de novo, um beijo que parecia não acabar.


***

Este episódio é a continuação do de ontem intitulado Leonor, Duarte e Afonso, o qual, por sua vez, já era continuação de outros. Caso vos ocorra ler de seguida a história até ao ponto em que vai, poderão procurar aí de lado, lá mais para baixo, a etiqueta 'Leonor e Afonso'.

A música lá mais acima é Our love is easy de Melody Gardot (que, como não consegui incluir aqui na versão cantada por ela, coloquei uma versão interpretada por Clementine Noordzij (La Clé de Soul)).

**

Não quero estragar o climinha mas, se me permitem, deixem que vos informe que, a seguir, poderão saber (se é que ainda têm dúvidas) o que penso do Paulo Portas, Pires de Lima, Aguiar Branco e outros que hoje me apareceram na televisão todos contentes quando, se tivessem um pingo de vergonha na cara, pintavam-na de preto, enfiavam-se debaixo de uma mesa, fugiam para Espanha, uma coisa qualquer. é só descer um pouco mais.

***

E, por hoje, é tudo. Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira.


quinta-feira, novembro 28, 2013

Leonor, Duarte e Afonso.





Duarte, que é Duarte Maria, transborda de energia. Onde chega espalha charme, alegria, distribui piropos às mulheres, dá palmadas nas costas dos homens, diz piadas, senta-se à secretária e roda-se na cadeira, pede café, pede telefonemas, chama colaboradores ao gabinete, responde a mails e, pelo meio, ainda consegue enviar sms picantes à namorada.

Escusado será dizer que as mulheres se derretem com ele. A idade nele é um luxo que veste com a mesma elegância com que veste fatos feitos por medida, camisas com monograma, sobretudos que lhe caem como a um modelo Armani.

A manhã foi passada no frenesim habitual, a Secretária numa azáfama. As outras invejam-na. Não há por ali quem tenha melhor chefe que ela. Ele repara no que ela traz vestido (e o que ela se produz…), repara no corte de cabelo, repara se a pintura ficou um tom acima ou abaixo (Olhe que o cabelo mais claro a torna parecida com aquela daquela série, e toda ela se enleva; ou, Sim senhor, mais morena… e nem sei se não lhe fica melhor…, e ela sente-se aliviada porque aquela cor não deveria ter ficado tão acentuada), elogia-lhe os sapatos, detendo-se a olhar para as pernas e ela até acha graça a tanto descaramento, desfaz-se em mesuras de cada vez que lhe pede mais um café, pergunta-lhe pelo filho, pergunta-lhe pela mãe e tudo no meio de telefonemas e outras conversas.

De cada vez que ele, apressado, passada longa, atravessa o open space o mulherio estremece. E à sua passagem fica um rasto de perfume e sedução.

As picardias entre Duarte e Leonor são conhecidas. Dir-se-ia que há ali uma relação de amor-ódio que os anos não resolvem. Profissionalmente têm desentendimentos e discussões que ficam para a história da empresa. Ela acha-o superficial, gabarolas, gosta de armar show off, diz-lhe a ele próprio que ele se acha melhor do que aquilo que é. Ele diz-lhe que ela é intolerante, germânica, militarista, insuportável. Ela gosta de tudo bem explicado, gosta de avaliar planos antes de avançar, gosta de cumprir ao milímetro os planos e não tem paciência para as ligeirezas e imaturidades dele - isso é um facto.

No entanto, é reconhecido que se admiram mutuamente e que, até, se estimam. Mas, vá lá saber-se porquê, de vez em quando fazem faísca de uma maneira que os outros até se afastam. Deixá-los, dizem os outros, que se entendam.

De tarde, Leonor avançou para o gabinete dele. A Secretária apareceu para saber se queria um chá, Leonor disse que sim, de camomila. A Secretária disse, O doutor foi só ali, não deve demorar. 

Leonor percebeu que teria ido à casa de banho. Tinha-o visto a chegar de almoço.

Pouco tempo depois chegou ele, todo gingão, todo na animação do costume. Desatou-se a rir. Ela riu também, Qual a piada?

Mandaram-me uma coisa por mail e estava a lembrar-me: como noticiariam hoje os nossos media a história do Capuchinho. 
- Como era?
Não me lembro de tudo. Mas, ao dizer isto, já se ria como um perdido. Leonor também já se ria.
- Vá, diga lá…
Por exemplo: o Correio da Manhã diria ‘Governo envolvido no escândalo do Lobo’ e, ao dizer isto, ria-se à gargalhada. 

A revista Maria diria ‘Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama’ e já chorava a rir, e só de o ver a rir assim, também já ela se ria de gosto. Com muito esforço, ele continuou, Ou a Bola, ‘Lobo Mau será reforço de inverno na Luz’

Entretanto a Secretária chegou com o chá para Leonor e um café para Duarte e interrompeu a galhofa.

Duarte, entretanto assoava-se. A Secretária disse, O doutor continua com alergia…’. Duarte explicou, Não, estou bem, é de me ter estado a rir.

Quando a Secretária saíu e ele se voltou a sentar à mesa, Leonor disse-lhe, E sobre aquilo de ontem?

Duarte, de repente entre o nervoso e o agitado, Já disse que é um mal entendido qualquer. Não me lembro bem o que terá sido mas dê-me tempo que eu explico tudo. Não vale a pena dramatizar uma coisa que é uma porcaria sem importância nenhuma. Não sabe como tem sido a minha vida? Road shows, reuniões e mais reuniões, um dia cá, outro noutro sítio… 

Leonor mostrou boa cara, Não estou a dramatizar. Se alguém dramatizou a coisa, não fui eu, pois não? Um ataque de histeria ou o que foi aquilo e eu é que dramatizo? Ora, poupe-me. Resumindo: vai explicar ou resolver ou o que for, certo? Até quando? Até amanhã?

Duarte, ar aborrecido, Até amanhã? Está a brincar comigo ou o quê? Até amanhã? E fica você agora aqui a aturar os chatos que aí vêm? Ou vai você com eles à noite ao Eleven? Poupe-me você. Para a semana a coisa está esclarecida e até lá deixe-me trabalhar em paz que é aquilo de que preciso.

Leonor levantou-se e com uma voz muito calma respondeu. Na segunda feira venho aqui ter consigo e fechamos o assunto.

Passado um bocado, depois de ter feito um breve ponto de situação com os colaboradores mais directos, Leonor voltou para o gabinete.

Pouco tempo depois entrou Afonso. Esteve com o Duarte, não esteve?

Leonor respondeu, Bolas. Temos controlo operário, ou quê? 
- É, não operário mas da NSA, e dizendo isto, riu-se e fez adeus para o tecto como se por ali estivessem a ser filmados, espiados.  Mas, depois, continuou. Olhe, ele falou-lhe em alguma coisa do que se passou?
De que é que está a falar?, perguntou Leonor e via-se que tentava disfarçar a curiosidade.
- Hoje de manhã, estava eu no gabinete do Manel, ligou-lhe aquele japonês que cá esteve a semana passada e parece que disse qualquer coisa do Duarte que deixou o Manel em polvorosa. 
Sim? O que foi?
- Não sei, não me contou, mas ficou para morrer. O Duarte a si não tocou no assunto?
Não. Estava na maior das boas disposições.
- Ah, isso anda ele sempre. Aliás demais para o meu gosto.
Não seja implicativo. Olhe, mais logo vem comigo?
- Mas vai? Mesmo? Tem a certeza disso?
Claro!
- Claro...!? Não sei se é assim tão claro. Com um frio destes, ir andar para a beira do rio à noite não sei se é boa ideia.
Eu vou. Você se quiser venha, se não, tudo bem. E agora vá-se embora que tenho que trabalhar.


*

> Para os new comers: este episódio vem no seguimento do de ontem, intitulado, 'Leonor em toda a sua nudez' que, por sua vez, já era seguimento de outro.

> A música é Another Brick in the Wall dos Pink Floyd (vejam vocês bem do que eu me fui lembrar)

> Informo também que, fresquinhos, fornada do dia, há mais 3 posts por aí abaixo e são para todos os gostos (digo eu).

> Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem-me no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje Benjamin Schmid tem uma nova excelente interpretação no violino e José Agostinho Baptista me leva a percorrer corredores vazios cujo chão está repleto de pétalas secas de uma certa rosa.


Nota: Estou perdida, completamente perdida de sono, não vou rever o que escrevi mas aviso já que pode muito bem estar carregadinho de gralhas de toda a espécie. Relevem, está bem? Amanhã ao fim da tarde logo tentarei rever.

*

E pronto, c'est ça. Desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela quinta feira.

terça-feira, novembro 26, 2013

Leonor e Afonso





Uma casa com história, grande, escondida do exterior por um grande muro, paredes cobertas de hera, pátio interior, escadaria de pedra com fetos tombando dos vasos, lá dentro grandes pinturas a óleo, tapeçarias, mesas com toalhas de linho, copos de cristal, uma grande lareira acesa.

As vozes são civilizadamente alegres, fala-se baixo, há cumplicidades antigas no ar, uns sentam-se nos grandes sofás, outros olham as estantes enquanto conversam, encadernações antigas, e os tapetes são de lã, e são macios os pesados cortinados, e tudo parece abafar o ruído e o ambiente fica íntimo, e há jarrões brasonados e janelas por onde se espreita o frio húmido do exterior. Tudo transmite a ideia de conforto com muita patine.

Não tarda, duas empregadas servirão os amuse-bouche, depois, então, o consommé, as excelentes iguarias, a perdiz é sempre uma delícia, o vinho apropriado, e as conversas evoluirão entre sorrisos, palavras soltas, gestos discretos. 

A mulher não merece mais atenções que qualquer dos homens, está habituada a ser uma entre iguais.

Se alguém olhasse de fora perceberia, contudo, que há amizades desiguais, jogos disfarçados, interesses a serem negociados entre sorrisos, e talvez algo mais.

Quem será esta mulher que parece estar em casa, sorridente e afável, distribuindo palavras distendidas, no meio de um grupo de homens?, talvez se perguntasse esse alguém.

Contudo, minutos antes, quando circulava pela casa procurando um telefone fixo, Afonso viu numa outra divisão, num relance que não soube interpretar, alguém que parecia querer alcançar o braço desta mulher. Mas logo a porta se fechou e ele não conseguiu ver nada mais. Depois, à medida que se afastava, pareceu-lhe ouvir vozes quase em surdina, como que querendo abafar uma discussão.

Distraído que ficou, perdeu-se pelo casarão e, quando regressou, já ela estava sentada na sala, calma, bem disposta, petiscando e sorrindo enquanto conversava.

Afonso tentou reconhecer o braço que a queria agarrar mas todos os braços lhe pareceram iguais e em nenhum dos presentes percebeu qualquer inquietação.

À mesa, uma grande mesa redonda com um grande e alto castiçal de prata aceso a meio, a conversa fluíu com naturalidade, um ou outro toque de jocosidade: a recente reunião em Zurique, depois a conversa com o ministro que pouco acrescentou (é melhor que o outro?, e risos), as parcerias em análise, o parecer que, afinal, é tudo menos conclusivo pelo que será melhor pedir outro, e os financiamentos, e o recurso a fundos: isso anda ou não anda?, e a fiscalidade que é de gente doida, e ainda algum futebol (o Ronaldo, o Mourinho, o Blatter, mas também o João Moutinho, quem diria?), e sempre o frio e a humidade que aqui sempre se sente, e umas intrigas de salão sobre o orador que dentro em pouco se lhes juntaria, e também o jantar de Natal que se avizinhava. O costume, portanto.

Enquanto isso, as empregadas deslizavam em silêncio servindo, retirando, repondo. No final, cumprindo o ritual, a cozinheira veio à mesa perguntar se estava tudo bem e todos disseram que, como sempre, estava tudo óptimo, que não se come melhor em lado nenhum do mundo. E ela retirou-se feliz, faces coradas, a sensação de reconhecimento perante um dever mil vezes cumprido.

Durante todo o almoço, Afonso tentou descobrir em Leonor alguma alteração, alguma troca de olhares suspeita com qualquer dos presentes. Mas nada. Ela participou nas conversas, tranquila, sorridente, como se nada a afectasse. Tentou também detectar algum nervosismo em algum dos homens mas, identicamente, todos pareciam bem dispostos. De todos, o único que parecia estar nervoso era ele próprio, Afonso.

Quando se levantaram, Afonso abeirou-se de Leonor. Aquele perfume tão seu conhecido, aquele sorriso tão dúbio, aquela segurança vagamente intimidante. Então, tudo bem? Ainda não falámos…

Leonor respondeu, sorridente, despreocupada. Não? Não falámos? Não dei por isso. Achei que já tinha falado com toda a gente. Mas está tudo bem, sim. E consigo também?

Quem a veja nestas situações e ainda a não conheça pode pensar que se trata de uma mulher frívola, mesmo ela parece gostar de induzir nesse sentido, por vezes finge que não percebe, pergunta, faz-se de ingénua. Mas a frivolidade em Leonor é apenas aparência, toda a gente sabe disso muito bem. Afonso atalhou a conversa de circunstância, Há bocado, lá dentro, pareceu-me vê-la e ouvi-la a discutir com alguém. Passa-se alguma coisa? 

Leonor arqueou as sobrancelhas, abriu os olhos como que de espanto, A mim? Viu-me…? Que disparate! Depois alisou a interjeição, não fosse ele ofender-se, Olhe que não, doutor, olhe que não. Não saí da sala. Na volta sonhou. E em voz mais baixa, como que simulando uma indiscrição, Anda a ter sonhos comigo, doutor…?

Afonso ficou de semblante carregado. Não tinha dúvidas de que era ela que tinha estado naquela outra sala mas percebeu que não valia a pena insistir.

O convidado tinha chegado, veio sorridente beijar a mão de Leonor, cumprimentar os restantes e todos se dirigiram à pequena sala onde iria decorrer a prelecção e a troca de impressões.

*

A música é de Brahms, Sonata Nº 1 para Violino interpretada por  Augustin Dumay e Maria João Pires.


Leonor é representada por Kate Winslet. Afonso é representado por George Clooney, aqui fotografado por Annie Leibovitz.


*

Já agora: descendo um pouco mais poderão ler, ver e ouvir: Santa Joana Princesa. Momentos de suavidade em tempos de agruras.

*

Convido-vos ainda a visitarem-me no Ginjal e Lisboa onde Benjamin Schmid interpreta Korngold. E José Gomes Ferreira faz-me sentir saudades como se, de facto, tivesse eu saudades.

*

E, por hoje, fico-me por aqui. Desejo-vos, meus Caros Leitores uma terça feira muito agradável.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Nova Receita de Homem ou aquilo que as mulheres devem requerer de um homem - Os 10 mandamentos e o tão desejável bónus

 
Que sejam os homens a declarar o que, em sua opinião, torna uma mulher interessante.

Mas sobre o que uma mulher prefere nos homens vou aqui dar a minha opinião, ou melhor, vou fazer um refreshment (em tempos escrevi uma Receita de Homem, Aula Teórica e Casos Práticos e uma Adenda e até hoje tenho imensas visitas a essas páginas (devem ser os homens a ver se aprendem a lição).

Pode rever aqui. Desse post poderá saltar para os outros dois que o precederam (poderá encarar-se como uma sessão de coaching em três actos).

Agora não vou ser muito original porque penso o mesmo há muitos anos. Talvez varie a minha tolerância ou intolerância mas, no essencial, a coisa mantém-se quase inalterável. De qualquer forma, vou escrever livremente e nem vou ver o que escrevi há um ano atrás, para não me sentir condicionada.

Vou ilustrar com figuras ligadas ao cinema e espero que volte a ser um colírio (vidé um dos comentários da Dona da Casa)  para os olhos das meninas (ou de alguns meninos - tanto se me dá).

As fotografias são, na sua maioria, da Annie Leibovitz, claro; também há uma uma de Irving Penn e há outra cujo autor não identifiquei.

Mas então cá vamos.

.1.

Clint Eastwood por Annie Leibovitz

A inteligência é talvez o mais importante e é absolutamente indispensável. O amor, tal como a paixão, tal como o sexo, é una cosa mentale. Nunca se esqueçam disso.


.2.

James Gandolfini, Tony Soprano, por Annie Leibovitz

O sentido de humor, que é uma manifestação superior e saudável da inteligência, talvez venha logo a seguir. Um homem que faça rir uma mulher está no bom caminho. Se você que é homem, é desprovido de sentido de humor, esqueça.

.3. 

Johny Depp por Annie Leibovitz

Ter um q.b. de malícia, de preferência uma malícia requintada (e não me pergunte o que é isso porque é indizível) é muito importante. Saber olhar, saber mostrar que quer, saber dizer que quer – sem ser vulgar, maçador, cola – é indispensável. Se você que é homem, é um tímido incorrigível, se tem vergonha de olhar, se tem medo de dizer, esqueça.


.4.

John Malkovich


Ter interesses, de preferência interesses inesperados, é um plus que não se dispensa. Se você que é homem não é capaz de se interessar por coisa nenhuma, se não consegue ter uma conversa de jeito, esqueça.

... Ter interesses, sim, mas nada de exageros, nada de obsessões porque se monopolizar uma conversa com citações, nomes de autores, nomes de livros, anos de edições, pormenores fastidiosos quando desfiados com ar erudito, ou nomes e hábitos de passarinhos, ou se souber tudo o que há para saber de marcas de carros, motores, cilindradas, provas de condução, ou quaisquer outras manias levadas ao exagero, esqueça.


.5.

Sean Connery por Annie Leibovitz


Ser razoavelmente culto, com curiosidade por aprender e com consciência das normais limitações de qualquer ser humano, gostar de partilhar generosamente os conhecimentos e as dúvidas ou as perplexidades, são coisas imprescindíveis. Gente ignorante, gente que acha que já sabe o suficiente ou gente que não tem noção de que o que sabe é uma infinitésima parte do que há para saber, gente que não gosta de ensinar ou discutir humildemente, ouvindo as opiniões alheias, é coisa que não se pode suportar.


.6.

Daniel Day-Lewis em The ballad of Jack & Rose

Ser carinhoso, afectuoso, meiguinho (mas não carente, melga, pegajoso) é obviamente indispensável. E deve perceber que a vida a dois deve ser uma relação win-win. Não é uma luta corpo a corpo, olho por olho, dente por dente. Amizade, afecto, compreensão, respeito, tolerância são as buzz words a fixar. E deve perceber que deve ser capaz de olhar com doçura, ter um abraço aconchegante, ter um beijo insubstituível.


.7.

Jamie Foxx por Annie Leibovitz
 
Vestir-se bem é muito importante mas, apenas, se tiver o cuidado de não se perceber que tem cuidado com isso. Um homem que vista um fato de riscas com camisa de riscas ou quadrados, ou uma camisa assim e gravata às bolinhas, ou um homem que use uma gravata shining cor de rosa ou amarelo bebé, ou que use alfinetinhos de gravatas, ou um anelinho no dedo ou uma pulseirinha ou outras coisas do género, só se tiver como target uma mulher desesperada que esteja por tudo. Um homem quer-se sóbrio, discreto, deve fazer-se notar por si mesmo, quanto muito pela forma como a roupa lhe cai bem e não pela roupa em si. Homens com manias de modas, de marcas, todos com coisinhas, são para esquecer. Já agora que saibam que calças desportivas, de sarja de algodão ou bombazina não se usam com vinco, please...


.8.

George Clooney por Annie Leibovitz



Os homens não devem ligar mais do que o socialmente tolerável a gadgets. Os que os exibem a torto e a direito, já viram o meu iPad?, já viram o meu relógio?, já viram a minha caneta? já sabem da minha mota? - só me fazem lembrar aquelas meninas parvinhas com estojos cheios de lápis, canetinhas, apara lápis, tudo da Hello Kitty. Meninas fujam dessas fracas cabecinhas!


 .9.

Alex Atala, um chef, por Annie Leibovitz

Homens que saibam cozinhar têm uma óbvia vantagem sobre os outros (desde que preencham os pré-requisitos anteriores, claro...!). Se, então, souberem fazer uma comida requintada, gourmet, isso será ouro sobre azul mas há que não querer o impossível.

Por isso, se souber fazer uma coisa simples já se aceita. Mas se nem isso, ao menos que faça uma salada decente, bem apresentada. Ou que saiba, no mínimo, preparar uma tábua de queijos ou, vá lá, ao menos apresentar um prato de pão devidamente cortadinho e organizado. Mas alguma coisa deve ser capaz de fazer. Se você que é homem, não está nem aí e é daqueles que, chegada a hora, se apresenta, todo lampeiro, para papar, quase que para lhe darem a papinha à boca, esqueça - será descartado na primeira oportunidade.

.10.

Damien Hirst por Annie Leibovitz

Um homem deve ainda portar-se mal de vez em quando, dizer disparates injustificáveis (de vez em quando), deve ser capaz de se rir de si próprio, deve ter um toque de louca imprevisbilidade, deve, sobretudo, ser capaz de mostrar que é humano e imperfeito. Meninos da mamã, tozés-seguros e outros betinhos que tais, são uns maçadores sem pitada de graça.


 .11.
(Bónus)

Al Pacino que dançou um dos melhores tangos da história do cinema
aqui por Irving Penn

Já agora, uma coisa que faria toda a diferença mas aí já eu acho que, nós, mulheres, temos que condescender - seria a cereja em cima do bolo se soubesse dançar tango com garbo, sensualidade, malandrice.

Mas isso, se há homens que cumprem com estes 11 requisitos, quem os descobre, fecha-os a sete chaves. Nunca vi nenhum. Consta que há uns quantos enclausurados em caves, tipo Natasha Kampush, não vá alguma outra mulher deitar-lhes logo a mão. Eu deitava.


&&&&&&


E é isto, meus Amigos do sexo masculino (e que gostam de agradar a mulheres), aprimorem-se, treinem.

E vocês, minhas Amigas casadoiras, sujeitem os candidatos a um testezito psico-técnico para não levarem um gatinho mal amanhado em vez de uma lebre ou melhor, (não vá as lebres serem todas do sexo feminino), em vez de um tigre.


Divirtam-se e tenham uma boa semana!