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sexta-feira, outubro 02, 2026

Administração Pública: em grande parte, uma máquina de arrasto chamada burocracia

 

Hoje não me apetece escrever, estou arreliada. É o tipo de coisa que me tira a boa disposição, me mói, quase me esvazia. Decorrente da morte dos meus pais tenho enfrentado a grande, a devoradora, a verdadeira máquina de arrasto que é a Administração Pública. É certo que isto se passa porque herdei. Certo. Mas isso não é mal nenhum, pois não? 

Tal como grande parte das famílias portuguesas, os meus pais tinham casa própria. Ora porque a casa, uma moradia bi-familiar, foi construída para o meu pai e para o meu tio, e respectivas mulheres, num terreno que os meus avós paternos ofereceram aos filhos, incialmente foi registada na Conservatória como prédio único, embora na Câmara, no projecto e confirmado na vistoria, constasse que se tratavam de dois fogos, em regime de propriedade horizontal. Pouco depois, os dois jovens casais, foram ao Notário e fizeram uma escritura de aquisição de coisa comum. Os meus pais compraram aos meus tios a casa em que viviam e os meus tios compraram aos meus pais a casa deles, cada uma das casas com o respectivo logradouro. Depois foram à Conservatória e o artigo inicial deixou de existir e deu origem a dois artigos: o da casa dos meus pais e o da casa dos meus tios. Artigos separados. Foram às Finanças e nas Finanças dividiram o artigo inicial em dois. Tudo certo, sem qualquer problema. 

Entretanto, há uns anos, por obra e graça, nas Finanças alteraram a matriz quer da casa dos meus pais quer da casa dos meus tios e passou a vigorar o artigo inicial da Conservatória, anterior à divisão. E, também por obra e graça, os meus pais e os meus tios voltaram a ser todos proprietários de tudo.

Quando isso aconteceu, o meu pai já estava acamado. A minha mãe é que tentou tratar de tudo: foi às Finanças pedir para corrigir. Disseram-lhe que não, que tinha que ir pôr a casa em propriedade horizontal na Câmara. Na Câmara disseram que na Câmara o que já figuravam eram dois fogos, com pavimentos separados e mais não sei o quê, que a casa tinha sido projectada e construída nessa base. Foi às Finanças que lhe recomendaram que fosse então à Conservatória. Na Conservatória disseram-lhe para dizer nas Finanças que se deixassem de coisas e corrigissem, que o erro era deles, que na Conservatória já não havia nada que se pudesse pôr em propriedade horizontal pois as casas já estavam em artigos distintos. Voltou às Finanças. Disseram que não podiam fazer nada. 

Os meus tios fizeram as mesmas démarches e igualmente sem sucesso.

A minha mãe contratou um advogado que, do que sei, andou a calcorrear as mesmas capelinhas. Sucesso: zero.

Entretanto morreu o meu pai, depois a minha mãe. 

Iniciei eu o calvário. Exactamente a mesma coisa, nada a fazer. 

Entretanto, não consigo dispor da casa pois está como se apenas fosse dona de metade. Mais recentemente faleceu a minha tia. Resta o meu tio mas que, tendo problemas diversos de saúde, não quero incomodar com coisas que o perturbariam e confundiriam.Portanto agora a casa que era dos meus pais agora tem como donos eu, 50%, o meu tio 25%, e a herança da minha tia os outros 25%. Ou seja, a confusão amplificou-se.

E não faço ideia de como resolver isto pois, aparentemente, quem poderia resolver, a Conservatória, recusa-se pois diz que o que está, está bem feito e que as Finanças estão equivocadas, e que lhes compete a eles colocar nas Finanças o que está na Conservatória. E o que sei é não saímos disto. Já fiz, junto das Finanças, não sei quantas exposições, requerimentos, reclamações, recursos, sei lá que mais. Nada. Sempre a mesma resposta: não podem fazer nada.

Quando for a vez da minha prima herdar na totalidade vamos continuar na mesma, ambas donas da nossa casa e da casa da outra, sem que ninguém consiga fazer nada para corrigir a situação.

Como se deve classificar isto? Kafkiano? O reino do absurdo? A prepotência cega de uma máquina destruidora?

E como isto tenho enfrentado toda a espécie de buracos burocráticos onde se cai sem saber como, e sem se saber como se sai de lá. Por exemplo, a minha mãe tinha irs a receber no ano em que morreu. Portanto, herdei esse crédito. Ninguém imagina o que penei para o receber. Tive que ir presencialmente à repartição à qual a minha mãe estava adstrita preencher não sei quantos papéis, tive que pagar imposto de selo, que afinal era zero, tive que passar por todos os passos, declaração disto e daquilo e do outro. Meses. Meses. Era pouco, e mil vezes me diziam 'esquece isso, andas a maçar-te dessa maneira por uma coisa de nada'. Mas, para mim, era uma questão de princípio. Porque havia de abdicar de uma coisa que era devida à minha mãe? 

Dir-me-ão: sorte a tua porque herdaste. Certo. Mas, primeiro, não herdei milhões, não herdei fortunas, não fiquei milionária, e, segundo, fosse o que fosse, o normal é que, depois de ter tratado da habilitação de herdeiros, do imposto de selo e de mais não sei o quê, não tivesse que passar por um calvário para conseguir dispor das coisas. E, passado não sei quanto tempo, continuo com isto da casa tão embrulhado como no princípio e sem conseguir ver a luz ao fundo do túnel.

Imagino o que passam famílias com mais herdeiros ou com mais bens herdados ou que herdam quotas de empresas. Imagino também a quantos funcionários estamos nós a pagar para nos andarem a complicar a vida. Imagino ainda o que é isto a uma escala nacional, esta máquina trituradora que nos faz consumir tempo, dinheiro, paciência, que aniquila a produtividade nacional pois são não sei quantos funcionários que não geram riqueza, só empatam, só complicam, só fazem a vida dos outros andar para trás. Infernal.

Não anda para aí um ministro qualquer que supostamente ia acabar com estas máquinas de causar encrencas? Tenho ideia que ouvi falar nisso mas a verdade é que, se anda, não sei por nada.

Enfim.

Mas percebem porque é que hoje não me apetece escrever...? É que estou verdadeiramente maçada com isto, o meu dia foi passado a tentar avançar nem que fosse um milímetro... e não consegui. 

Dou em doida com isto. Juro.

sábado, setembro 26, 2026

A contradição do silêncio

 

Francamente nem sei bem como se me têm esgotado os dias que desaparecem ainda mal eu estou com vontade de os começar. Tenho tido afazeres, assuntos a tratar, e tudo o que mete tefonemas traduz-se num exagerado consumo de tempo. Aliás, ainda estava a dormir, um telefonema de que eu estava à espera (mas que não esperava que fosse tão cedo), que durou um bom bocado e que foi rematado com a combinação de uma video chamada para daí por um bocado. Felizmente tenho facilidade em passar do estado de sono profundo para completamente desperta numa ínfima fracção de segundo pelo que acho que ele nem percebeu que me acordou. 

Fui a correr dizer ao meu marido pois era importante que ele estivesse nessa reunião. Estava a entrar com um podão, certamente já tinha cortado vários ramos sabe-se lá do quê. Respondeu que queria ir passear o cão, ir à ginástica, etc, etc, pelo que me entendesse eu sozinha com o outro. E eu que nem pensar, que se deixasse de coisas, que tinha que estar. E ainda estávamos nisto, eu sem roupa, acabada de sair do quarto, sem as minhas abluções matinais, toca outra vez o telefone. Chamada de vídeo. Imagine-se. E eu naquele estado. Nessas alturas fico assarapantada, com medo de tocar sem querer na aceitação e aparecer em estado de imprópria para consumo à pessoa que está a ligar. Virei o telemóvel ao contrário não fosse o diabo tecê-las, fui a correr enfiar um vestido, apanhar o cabelo, chamar o meu marido. Tinha começado a barrar o pão, que ia comer, não eram horas para video calls, que tratasse eu do assunto. E assim teve que ser. Mais um tempão. 

Ou seja, só depois disso me fui higienizar, preparar, pôr-me apresentável. E tomar o pequeno almoço. Conclusão: uma boa parte da manhã à vida.

Para além disso, os afazeres domésticos. E a ginástica. E os passeios com o cão. E telefonemas. À tarde mais mails, papelada, coisas para assinar, para tratar. Coisas assim, nada de transcendente, mas que consomem tempo. E, com isto, os dias passam a correr, evaporam-se.

Nestes últimos dias nem num livro tenho pegado. Parece que faltam componentes no dia. 

Já para não falar que, de novo, depois de almoço me deu uma daquelas pancadas de sono que me põem ko. Gosto de ir para a espreguiçadeira lá fora, mas agora, com tanta mosca, é difícil. Já usémos aquelas fitas onde elas ficam agarradas mas ainda não noto a sua eficácia. Por isso, deitei-me sobre a cama do chamado quarto das meninas. Com o estore levantado e a janela basculante, o jardim praticamente dentro do quarto, é uma maravilha. Ponho-me a olhar e adormeço em três tempos. Não foi muito tempo mas foi reparador. Mas foi mais uma parcela do dia que desapareceu.

Este sábado vai ser diferente. Não vai evaporar-se. Talvez depois conte um pouco dele.

Já passa das duas da manhã e não quero deitar-me tarde pois não posso levantar-me tarde, nem quero levantar-me mal dormida. E ainda tenho que equacionar se amanhã faço uma revelação, se não. Tendo sempre para o não. Pode parecer que sou extrovertida, mas há em mim uma parte que é absolutamente reservada. Conto muita coisa mas não a toda a gente e, certamente, não exactamente tudo. Portanto, vamos ver.

Deixo-vos com um bailado que já vi umas duas ou três vezes. Vem a calhar. O coreógrafo já não vinha aqui há algum tempo e é pena pois tudo o que faz é incomum. E gosto particularmente da expressão 'contradição do silêncio'. 

The Contradiction of Silence by Alexander Ekman

Inspirada pela beleza serena e tranquila das florestas, lagos e vastos céus da sua terra natal, a Suécia, a conceituada empresa de design Bolon orgulha-se de lançar a sua nova coleção, 'Silêncio'. Já conhecida pelos seus trabalhos com designers e arquitetos como Missoni, Paul Smith e Jean Nouvel, este lançamento apresenta uma colaboração criativa de um tipo diferente, mas igualmente entusiasmante: com o aclamado coreógrafo Alexander Ekman. Famoso pelas suas interpretações modernas da dança clássica, os seus trabalhos anteriores incluem projetos com a Boston Ballet Company, a Sydney Ballet Company, a Juilliard School e o Royal Swedish Ballet.


Desejo-vos um sábado muito feliz

sexta-feira, setembro 25, 2026

Envelhecer

 

Das melhores coisas que ouvi sobre o envelhecimento foi que envelhecer é o que acontece quando tudo corre bem.

Concordo plenamente. 

Aparareceu-me, no Instagram, a Bárbara Norton de Matos dizendo mal de umas e outras que não assumem que fazem 'picas' e que tentam fazer crer que estão lisinhas e esticadinhas sem nunca terem ido às 'picas'. Ela, pelo contrário, assumia que ia regularmente e que eram (e são) picas por todo o lado. Dizia que obviamente não tem um pele impecável, sem olheiras e sem rugas, só por si, que é muita pica all over. Não ouvi tudo, há em mim qualquer coisa que, mesmo que surpreendida com o que ouço, rejeita ficar a ouvir. Penso: 'quanta futilidade, credo!', e desando. Mas depois fico a pensar que o mundo é inclusivo, há pessoas de toda a espécie e feitio, e ainda bem que há tanta diversidade. Seria um tédio insuportável se toda a gente fosse como eu. Mas, portanto, retomando: não me informei sobre o que era e eu é que fiquei a perder, agora não sei dizer, tenho ideia, mas não garanto, que são injecções de botox, de ácido hialurónico e de mais qualquer coisa. Isto tendo ela quarenta e tal anos. Dir-se-ia que não precisaria de se injectar toda. Mas aos quarentas e tais pelos vistos quer-se parecer ter vinte. E, pensando bem, qual o mal? Nenhum.

Na volta há aqui um preconceito meu que me leva a compreender que ideia é esta de as pessoas quererem envelhecer parecendo sempre jovens. Mas, dito isto, tenho que confessar que, por vezes, olhando-me ao espelho, penso que, na volta, estou é a ser parva pois, se calhar, com meia dúzia de picadelas ficava com uma aparência mais juvenil. São contradições, bem sei. Felizmente, ocupam um espaço diminuto na minha cabeça. Penso e, mal desvio o olhar do espelho, já se me varreram da ideia.

Não sou de filosofar pelo que não vou pôr-me para aqui a dizer que envelhecer é uma maravilha, só sabedoria. E não digo porque não acredito nisso. Desde que nascemos que não fazemos outra coisa senão envelhecer e, depois, não ganhei sabedoria nenhuma, ganhei foi cada vez mais consciência da minha ignorância. De resto, gosto do que gostava, embirro com o que embirrava, desato-me a rir com o que sempre me fez rir, emociono-me com totozices que não lembram a ninguém e parece que me mantenho calma quando toda a gente está em ebulição.

A nível de saúde, tinha, com alguma frequência, dores inflamatórias em algumas arrticulações, à vez. Por exemplo, às vezes calhava ser um joelho. Mas também aconteceu uma vez num pulso. Sem se perceber bem o que teria desencadeado isso. E isso incomodava-me um bocado pois pensava: será que, quando for mais velha, vou ter isto com alguma frequência e fico impedida de fazer caminhadas, de ir ao ginásio, de nadar? Felizmente comecei a tomar meio comprimido por dia -- metade de um comprimido que é minúsculo (a minha nora deu-me uma caixinha-guilhotina, verdadeiro ovo de colombo, para resolver a dificuldade de partir ao meio um nano-comprimido) -- e não voltei a ter qualquer problema. Uma coisinha ínfima está a resolver um problema que, quando aparecia, me incomodava bastante. Deixa-me cá bater três vezes na madeira que isto de a gente se gabar parece que atrai. Mas isto para dizer que o que era uma chatice, até parece que se evaporou. Na volta, a menos que seja um problema daquelas que a gente se verga de medo, vai havendo solução para tudo, pelo menos para que vamos conseguindo levar a vida na boa. É não desistir, procurar solução. Não pensar: 'ah, isto é natural, é da idade'. Da idade, o escambau. Se é chato, tem é que se resolver.

Penso que já contei que durante muitos anos, muitos mesmo, sempre que encontrava alguém que não via há anos, essa pessoa olhava para mim e dizia com ar admirado que eu estava sempre na mesma. Nunca levei muito a sério pois não podia ser verdade que parecesse ter congelado no tempo. Mas é um facto que creio que a partir da covid me mofifiquei. Não sei por passar tantas horas sentada, ao longo de meses, em teletrabalho, em reuniões ao computador, se alguma vez teria que fisicamente ceder à passagem do tempo. No entanto, creio que continuo a ser a mesma pessoa a nível de descomplicação, de relevar os disparates, os meus e os dos outros (os disparates inofensivos, bem entendido), de seguir adiante e nunca ficar a empreender nas coisas, de gostar de coisas novas, de me perder de encantamento com a arte, com a beleza natural, com os meus. 

E deleito-me com a tranquilidade da imagem de dois patos a deslizarem num lago ao por do sol, com um passeio num caminho ladeado por conjuntos de ciprestes. Coisas simples. Vim do passeio de alma lavada, feliz da vida.

E estivemos, eu e o meu marido, a escolher caixas de arrumação e frascos para diferentes fins, a medir gavetas e prateleiras, a pensar no que lá vamos colocar -- e pode parecer estúpido eu dizer isto, mas é verdade: gostei. Só pensar em como vai ficar tudo tão mais organizado já me dá prazer.

Como se levanta bem mais cedo que eu, quando acordei, o meu marido avisou, no gozo: 'se precisares de ajuda no percurso dentro da cozinha, diz'. Percebi logo que tinha andado, outra vez, a mudar o sítio das coisas. Fui abrir armários e várias coisas desapareceram, outras estão acomodadas noutros lugares. E, misteriosamente, sobra espaço. Como fiquei tão agradada e o vi tão orgulhoso dos seus feitos não quis entrar em pormenores. O que desapareceu? Para onde foi? -- Foram perguntas que não fiz pois as respostas poderiam causar-me frenicoques. Assim, olha, deixa andar. Que está muito melhor, está. E que vai tudo ficar melhor com as caixas, de diferentes tamanhos e materiais, tenho a certeza que sim. 

E faz sentido eu ficar tão bem disposta com uma parvoíce destas? Pois... se calhar não. Mas quem é que disse que tudo tem que fazer sentido?

Hoje ao fim da tarde, ao virmos para casa, o sacrista do carro voltou a acender todos os alertas e a perder força, e estávamos a ver jeito de não chegarmos a casa. Mas chegámos. Não sabemos é se amanhã trabalha ou se tem que ir outra vez de reboque. No sábado tenho uma deslocação imperiosa e não ter carro vai ser uma maçada das antigas. Devo ter que ir e vir de uber o que é chato porque é longe que se farta, não me apetecia nada. Só conseguimos marcar para o concessionário para meados do mês que vem. Deve ser uma avariazeca da treta, um mau contacto elétrico ou coisa do género, pelo menos assim o esperamos. Só que é intermitente e na oficina multimarcas onte vamos não conseguem descobrir. É uma chatice mas, enfim, há coisas piores e não vou estar a apoquentar-me com isso. Mas esta atitude não tem a ver com a idade pois, noutros tempos, eu não conseguiria viver sem carro. Hoje consigo. Mas os tempos são outros, se antes o carro tinha um problema, era problema que não era meu: um motorista enarregava-se de tratar do assunto, de me entregar um carro de subsituição, e eu nem queria cá saber o que é que o carro tinha ou deixava de ter. Agora estamos por nossa conta, essas mordomias acabaram-se. Mas aprendemos a viver sem elas, e tudo bem.

E agora vou mas é dormir que estou com a impressão que este texto andou para aqui aos ziguezagues. Sono, sono, sono. 

As imagens foram geradas, segundo requisitos meus, pelo ChatGPT.

Deixo-vos com o Luís Osório que é menino para uma prosa bem mais burilada do que a minha.

Envelhecer | Postal do Dia | Luís Osório | Antena 1

Envelhecer é tramado e uma oportunidade. Ser velho é tudo e o seu contrário. Mas é o único tempo em que a Sabedoria pode ser alcançada, a capacidade de estarmos para lá do corpo.


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quinta-feira, setembro 10, 2026

Coisas da minha vidinha

 

Por vezes leio trechos escritos há cem ou mais anos em Portugal ou num outro país e as palavras descrevem um desconsolo grande, um desacreditar no futuro, um grande desconforto perante a regressão qualitativa dos novos políticos e dirigentes em geral. Dá ideia que desde sempre há a percepção de um caminho descendente, de uma decadência que é fatalidade.

Por isso, tendo a tentar relativizar o pessimismo com que encaro a incompetência e indigência cultural e ética de Montenegro e da maioria da sua equipa ministerial, tal como tendo a querer desdramatizar as desgraças e os retrocessos civilizacionais a que se assiste um pouco por todo o lado (Estados Unidos, Rússia, tendências do Reino Unido, em França, na Alemanha, no Brasil, etc). 

Identicamente, sei que, sempre que há uma fractura tecnológica, a sociedade reage com um medo existencial: e, no entanto, apesar dos sobressaltos e do grande número de vítimas, o mundo tem seguido adiante. Com a Inteligência Artificial, em que, na realidade há riscos de dimensão incalculável e razão para fundados temores, também quero convencer-me que apesar de vir a haver vítimas, muitas, em primeiro lugar a nível de emprego, mas, acredito, também a outro nível, o mundo, depois de solavancos e erupções, saberá reencontrar o seu ponto de equilíbrio e seguir adiante.

Não sei se por isso ou se porque quero manter a minha disposição estival e despreocupada, a verdade é que, apesar das múltiplas barracadas a nível interno, algumas, para mim, insustentáveis, e apesar da gravidade de tantas coisas a nível internacional, tento manter-me na minha própria bolha de peace and love e seja o que deus quiser. Bem sei que, por outro lado, há em mim um grilo que me alerta 'fia-te na virgem e não corras, não...' mas, em vez de, por exemplo, vir para aqui zurzir nas palhaçadas que vários membros do governo e da AR nos têm proporcionado ou fazer-me eco dos alertas de mais um dissidente da Open AI ou da Anthropic sob os reais riscos para a humanidade do crescimento desenfreado, desregulado, dos modelos de Inteligência Artificial, ou vir lamuriar-me sobre o tiro no pé que deram os pobres, desfavorecidos e ignorantes que votaram na AfD sem conhecerem o seu programa, venho, antes, falar de coisecas da minha vidinha.

A saber: Apesar de pelo telefone eu ter dito que, do que já sabia, seriam, muito provavelmente, necessários dois motores com comando para os estores, o senhor que cá apareceu só trouxe um, e, além disso, apesar de já cá terem vindo várias vezes e saberem que estes estores são barra pesada e de eu o ter lembrado por telefone, em vez de dois, como é costume, veio apenas um que percebeu que sozinho não conseguiria lidar com os bichos. Portanto, educadamente, pediu para ver tudo o que estava carecido de intervenção e que voltaria com um colega e o material necessário. Resultado: zero. Tudo na mesma. Tínhamos posto tudo a jeito para poderem trabalhar, afastado coisas, retirados outras, etc, e, tivemos que voltar a pôr no sítio sem que nada se tivesse alterado. A ver quando é que agora cá aparecem de novo. 

E já o contei: o meu marido meteu na cabeça retirar a banheira da nossa casa de banho, e digo nossa porque é a que 'serve' o nosso quarto, e substituir por um duche. Já dei de barato. Mas só de pensar na chatice de ter gente que, em vez de aparecer num dia, só aparece depois porque têm sempre contratempos, que em vez de trazer o material, vai e volta a ir buscar o material, perdendo tempos infinitos, que me há-de deixar a casa de banho numa confusão sabe-se lá durante quanto tempo -- tudo isso me faz ter vontade de atrasar isto lá para as calendas. Quando tirar a banheira não deve ter mosaicos no chão por debaixo nem azulejos por detrás. Depois não deve haver material igual. Os enxertos devem ficar uma porcaria. Falta-me a pachorra para isto. 

No entanto, ao mesmo tempo, recordo-me que, na nossa primeira casa, na primeira mesmo nossa, resolvemos remodelar a casa de banho principal, pôr uma bancada grande em vez do lavatório que tinha, acabar com o bidé, mudar azulejos e mais não sei o quê. Tínhamos duas crianças pequeninas, trabalhávamos, e, no entanto, nada me assustava ou chateava e tudo se fazia. Agora não me parece indispensável fazer isto e a perspectiva de obras dentro de casa maça-me à brava. 

Sobretudo, há uma tremenda falta de mão de obra e não conhecemos ninguém de confiança em quem possamos confiar para nos aconselhar na escolha das melhores soluções. O meu marido, como é seu hábito, é meia bola e força. Para cada potencial problema que eu identifico, arranja uma solução que, em meu entender, ficaria um despropósito. Com ele, e é ele que quer avançar com isto, ainda não começou e já quer é acabar. Se não há mosaicos iguais para o chão, faz em fibrocimento e já está. Se não há azulejos iguais, põe não sei o quê por cima naquele sítio e está a andar. Ou seja, uma coisa improvisada e mal parida. Não quero. Portanto, estamos nisto e eu sem grande vontade de ultrapassar o impasse.

Há também a suspeita de que pode estar uma telha partida no telhado e, portanto, temos que arranjar quem lá vá inspeccionar e, se for caso disso, trocá-la. Lá no campo, até há algum tempo, o meu marido ia ele lá acima, limpava o telhado e tratava disso. Agora já não queremos arriscar. A limpeza de algumas caleiras a que chega com a escada ainda vai, mas lá mais para cima, não. O telhado desta casa tem que se lhe diga, há zonas muito altas e uma queda seria muito perigosa. Quando vieram cá cortar árvores e pedimos para também limparem as caleiras, os rapazes treparam e andaram lá por cima na maior descontração. Não sei se é destreza se é inconsciência, mas, enfim, é o que é. Seja como for, temos que desencantar alguém antes que venham as chuvas.

De resto, o que mais dizer? Nada de especial. Ginásio, religiosamente. E continuo sem encontrar um livro que me encha as medidas. Tenho vários para começar mas não tem estado a correr de feição. 

E mais? 

Só se for que fiz um estufado de legumes -- cebola, alho francês, tomate, alho, salsa, cenoura, feijão verde, beringela e batata doce -- com uma mistura de carne picada, porco e vaca. Tudo cozinhado a baixa temperatura, apuradinho. Estava mesmo bom. Comidinha de conforto, cheirosa e saudável. Ficou com um molho bom. Ensopei uma fatia de pão que me soube mesmo bem. Por mim, teria ensopado uma meia dúzia, adora pão ensopado em molho. Mas como quero ver se me mantenho nos cinquenta e nove e picos, esforço-me por não abusar. Antes de férias, não chegava aos cinquenta e nove. Depois das férias e dos mil aniversários estava nos sessenta e um e tem sido um castigo para descer dos sessenta. Estes quilos a mais quando se instalam é um caso sério para uma pessoa se ver livre deles. Caraças.

E é isto. Enquanto falo destas coisitas, não queimo neurónios com coisas que não consigo controlar. O mundo anda perigoso. Mas será que alguma vez não o andou?

Desejo-vos uma feliz quinta-feira.

quarta-feira, setembro 09, 2026

A minha casa

 

Esta casa, ao contrário da outra em que vivi antes durante vinte e dois anos e da outra, antes, em que tinha vivido também um ror de anos, e da casa de campo, tem muita manutenção. Já cá vivemos há seis anos e ainda estranho isso. Provavelmente tem a ver com as decisões dos anteriores proprietários que automatizaram tudo. Um dos filhos era todo engenhocas e, talvez por saberem que tinham sempre quem lhes resolvesse os problemas, não se importaram de 'artilhar' tudo e mais alguma coisa. O senhor também gostava de construir coisas, era todo dado à bricolage, aos arranjos de coisas. Também optaram por soluções robustas, de boa qualidade mas que requerem, também elas, conservação. Por exemplo, os estores são como nunca vi coisa assim, um material e um peso que não imaginam. Funcionam com motor elétrico, com comando. Aparentemente tudo bem. Mas, se falha a electricidade, não há estores para ninguém. Ou se falha um motor. E não há como levantar à mão. Os homens dos estores, quando cá vêm, dizem sempre que é raro ver-se estores assim, dizem que são de alta segurança, que por estas janelas não entra ninguém. Amanhã temos cá outra vez uma intervenção, provavelmente mais dois motores novos. E há mais uns quantos estores que precisam de ser alinhados pois são tão pesados que, volta e meia, algumas lâminas parece que desandam ligeiramente, e depois já não fecham bem. Juro: sinto falta de puxar pela fita e conseguir levantar ou baixar uma persiana, sem qualquer ciência.

O portão dos carros a mesma coisa: todo xpto. Agora parece que está com qualquer coisa a fazer mau contacto, e abre e fecha quando lhe apetece, tivemos que desligar, e temos que esperar que cá venha alguém especializado nesta coisa.

Dos sistemas de aquecimento nem é bom falar. Todos integrados e automatizados com uns a serem backup dos outros: painéis para isto e para aquilo, caldeira a gás e a pellets, salamandra elétrica, duas lareiras com recuperador de calor, uma delas dupla e outra com saída de ar para duas divisões.  E tudo ou quase tudo com termostatos, válvulas motorizadas, e sei lá que mais.  O meu marido queixa-se de carregar com os sacos das pellets ou com a limpeza das caldeiras, volta e meia lá tínhamos que andar de volta dos manuais a perceber como é que aquilo estava regulado ou programado. Uma canseira. E depois era preciso virem cá fazer a manutenção disto, daquilo e do outro. Muito bem.Vamos instalar um ar condicionado potente na sala principal, com potência para aquecer essa sala e o piso de cima, coisa sem ciência nenhuma e que seja só de carregar no botão. Para a semana vai ser instalado e que se lixem as complicações. 

Claro que ainda subsiste o sistema de aquecimento de águas sanitárias com os painéis e os tanques e com um sistema de válvulas e redundâncias do caneco mas isso agora parece que está estabilizado. Esse, quando a temperatura não está à temperatura suficiente, faz accionar a caldeira de gás, mas isso, até ver, está a funcionar bem. Mas, caraças, houve uma altura que sentia cá umas saudades do velhinho sistema de esquentador que era tão simples e tão funcional... 

E nem falei no quadro trifásico com tantos disjuntores que mais parece um piano e em que, volta e meia, andamos a tentar perceber o que é que está pendurado em cada fase, ou, quando alguém vem fazer qualquer coisa que mete electricidade e nos faz perguntas e é sempre uma charada pois, para além do quadro principa, ainda há um no primeiro andar e outro na cave e mais o quadro da iluminação exterior e mais o quadro do sistema de rega. E também penso como era tão bom (e ainda é, no campo) em que há um único quadro elétrico, simples, com dois ou três disjuntores. As coisas simples são tão boas.

Enfim. A verdade é que ou para manutenção preventiva ou para reparação ou para instalação de novo, parece que há sempre gente a ter que vir cá fazer qualquer coisa e há sempre dinheiro extra a gastar. É chato. Felizmente, in heaven, o que há é cortar mato, desbastar árvores, varrer e limpar. De resto é tudo básico. Nem estores há, são portadas que é ainda mais simples.

Dito isto: gosto imenso desta casa, desde o primeiro dia em que a vi senti que tinha chegado a casa. Tudo me parecia fazer sentido, todos os meus móveis e quadros pareciam encontrar aqui o seu destino.  Gosto da arquitectura, gosto dos materiais, gosto da forma irregular, gosto da luz a toda a volta da casa, gosto do jardim. Gosto que seja fácil de limpar. Gosto de me levantar e abrir a porta da cozinha para sentir o ar da rua e apanhar com o sol na cara, gosto de abrir as janelas e parecer que estou a trazer o jardim para dentro de casa. Gosto de fotografar o reflexo da luz nas paredes, nos espelhos, nos vidros. Gosto de tudo. Só gostava mesmo é que fosse mais simples, mais fácil de manter.

terça-feira, setembro 01, 2026

Slow living in heaven
-- E uma casa muito bonita em Melides --

 

Acordei tarde. Aqui é a regra. Não sei porquê mas aqui durmo muito mais, um sono dos ferrados, dos bons. Sempre assim foi. Não sei se há ainda mais oxigénio do que na outra casa. Mas não deve ser isso, porque ar puro também não falta lá. Mas há qualquer coisa aqui que me traz um sono maravilhoso. Se calhar é porque o meu marido anda pelo campo e, ao não estar em casa, não faz barulho, não me acorda.

Fomos almoçar àquela tasca de uma aldeia a alguns quilómetros daqui. Em boa hora a descobrimos. Come-se francamente bem, é tudo bem servido e os preços bastante razoáveis. Nada a ver com o disparate que se pratica lá pelas minhas outras bandas: preços, no mínimo, o dobro, quantidade se calhar metade. Aqui comemos lindamente e ainda sobrou pelo que trouxémos o resto em caixinhas. O pior é o barulho no início, quando a sala está repleta. A acústica é péssima, um barulho que me incomoda. Há sempre grupos, gente palradora, parece que falam todos ao mesmo tempo. Depois, quando começam a sair, fica bom. Por isso, geralmente vamos mais para tarde porque assim mais de metade do almoço já decorre em ambiente mais tranquilo.

Hoje, por cá, foi dia de rega das valentes. O meu marido queixa-se sempre da água que gasto, diz que choveu, que nem valia a pena regar, e que não era caso para uma rega tão prolongada, que é um desperdício. Mas água dada à terra nunca é água mal gasta. Levo muito tempo, sim, sou cuidadosa, imagino a água a descer, quero que a terra fica molhada até bem fundo. E há muitos pontos para regar aqui do lado da frente e de um dos lados da casa. Não rego atrás nem do outro lado e muito menos rego longe da casa. Mas o curioso é que parece que tudo já se habituou à míngua de água. Algumas plantas, como por exemplo os aloés, ficam com as pontas mais castanhas mas, ainda assim, aguentam-se como uns valentes. 

O meu marido, como sempre, anda de serra, serrote e podão e corta tudo o que pode. Mais uma vez o rapaz que queremos que cá venha dar uma ajuda não pôde vir. Tem outro trabalho e não sai cedo. E os dias estão mais pequenos. Não sabemos de mais ninguém. Há, claro, o senhor da aldeia lá de baixo que cá veio algumas vezes. Dizem dele, os outros: 'Tem um problema, bebe muito, mas quando ele vê que não está capaz, não trabalha. É sério.'. A verdade é que não vinha muitas vezes e, como fazia tudo manualmente, o rendimento era pouco, quase nenhum. Não valia a pena. Ele mesmo dizia: 'Não rende, fica tudo na mesma.' Sério, lá está. 

De qualquer forma, gostamos de nos ocupar. No entanto, fico sempre com a sensação que nunca nada está tão bem quanto poderia estar. Mas a genica já não é tão efervescente como era dantes, e já gosto de me pôr na espreguiçadeira a olhar o céu e as árvores, na mais pura indolência. Dantes não sabia o que isso era, agora sabe-me tão bem...

Estive também a dar xylophene numa cadeira que está na cozinha, de apoio (ou seja, não faz parte das cadeiras em volta da mesa). O meu marido disse que estava a tomar o pequeno almoço e a ouvir um barulho. Apurou o ouvido e percebeu que vinha da cadeira. Espreitou e viu que um dos pés já tem dois buraquinhos. Levou a cadeira para a rua. E estive a dar-lhe umas boas camadas daquilo e ver se os bichos morrem.

Muitas vezes pensamos que havemos de ir aqui ou acolá. Mas depois, não sei se por preguiça ou se até bastante racionalmente, abstemo-nos. Estamos aqui tão bem, gostamos tanto de aqui estar, quando trabalhávamos desejavamos tanto ter tempo para poder desfrutar calmamente deste lugar, que acabamos sempre por achar que não vale a pena andar a fazer quilómetros para trás e para a frente para estarmos em sítios onde não nos sentiremos tão bem como aqui. 

Ao fim do dia, vinha de fechar as janelas na parte antiga da casa, encantada com as florzinhas da buganvília que agora adornam o exterior da janela do quarto que era da minha filha e cheguei ao corredor que estava iluminado pelas cores douradas do pôr do sol e parei: tão acolhedor, tão doce. A luz é um elemento fundamental na vida desta casa. Pela sua configuração, pela forma como se oferece ao sol, a casa vai-se iluminando diferentemente ao longo do dia. Fui buscar o telemóvel e fiz várias fotografias. 

Esta aqui abaixo, certamente por nabice minha, não fixou os dourados brilhantes da luz do sol, parece que ficou tudo rosado. Mas não era assim, era amarelinho, dourado pelo sol. A ver se amanhã tento de novo.

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Agora, ao ligar o computador à noite, o youtube tinha uma casa para me presentear. Teria graça que o youtube sorteasse casas e me tivesse calhado esta que aqui vos mostro. Mas não, limita-se a mostrar, a fazer fosquices. 

É em Melides. 

Ao ver a casa pensei que é muito do género da casa de um amigo nosso: uma casa térrea, ampla, cheia de portas, com amplos terraços, com um belo jardim. Esta casa aqui abaixo dá para os campos de arroz. A dele dá para um campo de golf. Tudo verdinho à frente, quase a perder de vista. A casa dele também é muito especial, obra dele, e tem diversas esculturas e pinturas de grandes dimensões. Também tem peças de artesanato, mas não é uma casa tão 'bonitinha', organizada e arrumada como a que verão abaixo. Ele é apaixonado pela casa e percebo-o. A dona desta casa em Melides também parece bem encantada com a sua casa. Um oásis. Só tenho dúvidas é em relação aos mosquitos. A Comporta, do que conheço, pelo menos até há algum tempo, tinha um bocado esse problema, em especial, que me lembre, mais para o fim da tarde. Estas aqui em Melides, com os campos de arroz, não terão também esse problema? Se calhar não, senão não havia tanta gente a dar fortunas por um terreno ou por uma casa lá, não é?

Por dentro de uma encantadora casa de campo portuguesa, inspirada no estilo Cape Dutch

Combinando o estilo colonial holandês da sua infância com a arquitetura tradicional portuguesa local, a autêntica casa recém-construída de Penny Morrison em Melides é um refúgio relaxante e acolhedor, repleto de peças adquiridas nas suas viagens.

"Vim passar o fim de semana e fiquei completamente apaixonada por Melides", diz Penny ao recordar como mergulhou no projeto de construção na costa portuguesa após uma recomendação de Carolina Irving.


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Desejo-vos uma feliz terça-feira

segunda-feira, agosto 31, 2026

Breves e soltinhas

 

1º acontecimento

Ontem aconteceu uma coisa que me alegrou bastante. Com sol não consigo andar sem óculos escuros. Não é só o facto de a luminosidade intensa me incomodar, como, sendo eu míope, os óculos são graduados. A minha miopia reduziu-se, é baixa, mas, ainda assim, fico mais confortável usando-os a eles e não uns não graduados. Uso-os há bastante tempo, gosto da armação. São simples, mas sinto que me assentam harmoniosamente. Tenho uns outros, mais fashion, de que também gosto, mas não são tão versáteis e, sobretudo, tenho receio do prejuízo se os perder. Nestas coisas sou muito controlada. Por isso, só os uso quando vou a algum lugar especial. Manias minhas.

Pois bem. Fui ao ginásio, cheguei lá e guardei-os na mochila. Saí de lá, como sempre coloquei-os. Depois do almoço fui sair e não os encontrei. Corri tudo. Nada. No entanto, quando chego a casa, de forma mecânica, descalço-me, pouso o telemóvel, as chaves e os óculos no mesmo sítio. Portanto, não conseguia perceber como poderiam os óculos ter-se evaporado. Mas nada. 

Tive que levar os óculos de reserva. Quando regressei a casa empreendi nova busca: virei e revirei tudo, mesmo os lugares mais improváveis. No dia seguinte continuei à procura, revirando o que já tinha revirado. Já estava a achar que me tinham voado da cara, quando vinha do ginásio.

Pois bem, ontem de tarde pensei: só posso ter feito um movimento não usual e, no acto, impensadamente, pousei-os sem dar por isso. E tendo pensado isto, como se fosse guiada, dirigi-me ao aparador da sala de jantar e levei a mão ao naperon, junto à taça que está a meio. Tal e qual, Teleguiada. E a mão foi pôr-se em cima dos óculos. Fiquei espantada e felicíssima. Ele há coisas, disso não há dúvidas.

Depois, recordei-me: tinha visto que uma bandeja com umas peças que, em vez de estarem no aparador, estavam numa mesinha de apoio. Tinha sido, no almoço de aniversário da minha filha, que, para colocar as bebidas, se tinha retirado parte do que estava no aparador. E, por algum motivo que não atinjo, corrigi o facto quando ainda estava com os óculos. Não consigo perceber pois, sempre, s-e-m-p-r-e, tito os óculos mal entro em casa, tal como pouco as chaves e o telemóvel. Mas não há dúvida: os óculos estavam ali. E encontrei-os, e isso é que interessa.

2º acontecimento

E hoje tive uma fantástica surpresa. Andava a ver como está frondoso o meu diospireiro. Apesar dos calores e de temporadas sem ser regado, está verdejante, farta folhagem. Já por diversas vezes pareceu estar ás portas da morte e o meu marido, como sempre, já o quis cortar não sei quantas vezes o quis cortar dizendo 'não está aqui a fazer nada'. Mas eu não sou fatalista, acredito em milagres. A forma como rejuvenesceu e se revitalizou é um fenómeno. Há uns meses deu uns belos dióspiros, que me consolaram. E estava eu a filmá-lo e ia contar que na última vez que aqui tínhamos estado, me cheirou a dióspiro e vi um no chão e um, todo madurinho, que de imediato comi. Já nessa última vez estavam a nascer fora de época. Mas não cheguei a contar isto porque dei com outro. Ainda verdinho e rijo, ainda pequeno. Ora, que eu saiba, já passou a época deles. E nisto começo a ver outro e mais outro e mais outro. O diospireiro está carregado de dióspiros. Nunca teve tantos. Mas reparem: jáé a terceira vez este ano que isto acontece. Juro, não sei que fenómeno é este.

Só me lembro de uma tia do meu marido, uma muito, muito queridíssima, por vezes lembro-me dela e custa-me a crer que já não exista. Tão alegre e querida que era. Uma vez estava cá e ela viu uma pereira pequena com umas quantas peras grandes. E eu disse: 'quando para cá viémos, estava tão raquítica, parecia que não ia vingar, e agora desatou a dar peras'. E ela riu e disse: 'as árvores percebem quando lhes querem bem'. Nunca mais me esqueci. Quando vejo a forma desabalada como tudo aqui cresce, neste terreno pedregoso, e como tudo fica carregado de fruta, penso nisso. Será que sentem que eu adoro tudo isto, que adoro a natureza, que me encanto com as árvores, com os frutos? Não sei, não tenho como saber. O que sei é o que constato.

A chatice é que ainda estes dióspiros, fruto que está entre os meus preferidos, estão pequenos e verdes. Impossíveis de comer. E quando regressarmos, já terão caído. Tenho que avaliar ainda  qual a melhor opção. Por mim, ficaria aqui a vê-los fazerem-se maduros, bons para virem passear dentro de mim.

3º acontecimento

Devo ainda actualizar a situação do meu cabelo. Os meus dilemas nunca duram muito. Aliás, encaminham-se rapidamente para a resolução mal falo deles. 

No dia seguinte, pensei que só um problema sem solução (se é que é um problema, diga-se). Ou seja, o magno problema do rabo de cavalo não tem que ser incompatível com um encurtanço considerável do tamanho do cabelo. Nada que não se resolva com engenharia. Engenharia capilar, mais propriamente. Então peguei na grande massa de cabelo e prendi-a em cima com uma mola das grandes. Depois puxei os cabelos de baixo, junto à nuca, para fora da mola, Tirei uma boa quantidade deles. Prendi-os, resguardadamente. Ao cabelo sobejante, apanhei num rabo de cavalo alto. Peguei nele e com a tesourona da cosutura, que é grande e corta bem, e pimbas, lá vai disto. Um pedação valente. Voltei a soltar tudo, o cortado e o resguardado. E voltei a fazer um rabo de cavalo. Funcionou, consegui, os cabelos de baixo chegaram até ao elástico lá em cima. O rabo de cabelo agora já está bem mais pequenino, nada que se pareça com o que estava, mas não está mal. Depois soltei o cabelo todo e vi como ficava. Bem. Acertei umas pontas para ficar igual dos dois lados. Como tenho muito cabelo, disfarça tudo. Claro que o meu marido ainda nem reparou. E quando lhe perguntar vai dizer que está igual. Só repararia se eu o rapasse à escovinha. Mas, pelo menos, já não vai achar que o cabelo está anos 80.

4º acontecimento

Não é um, são vários. Várias, melhor dizendo. 

As minhas azinheiras estão cada vez mais lindas. Lembro-me bem de quando eram umas moitinhas informes e eu persistia em podá-las para elas ganharem forma de árvore. Foram crescendo, nós ajeitando, e elas retribuindo o nosso cuidado. Estão gigantes, dão uma sombra maravilhosa. E eu deleito-me a olhar para elas. Sentada num banco de pedra, ao pôr do sol, tudo dourado, uma temperatura amena, uma aragem leve, pensei que poder estar aqui a ver e sentir tanta beleza e tanta paz é um privilégio que não tenho como agradecer.


5º acontecimento

Ontem à noite, lembrei-me de tentar descobrir nas redes sociais uns amigos com quem nos dávamos muito na nossa juventude e com quem acabámos por perder o contacto quando os filhos, adolescentes, já tinham, cada um, programas para seu lado. Ora eram namoros, ora eram provas desportivas, ora tinham teste, ora tinham uma festa -- sempre tanta coisa que era impossível encontrar um dia, ao fim de semana, em que todos estivéssemos disponíveis. Progressivamente a coisa foi-se espaçando até que se espaçou de vez.

Encontrei aquele que era o mais popular. Está igual. Ficámos contentes. O meu marido disse logo: 'Manda-lhe uma mensagem, manda-lhe o número, diz qu enos ligue'. Mas reparámos depois que não mexe naquilo há já uns anos, portanto já nem deve ir ver. Vi, lá, os filhos. A mais crescida, da idade do meu filho, já com filhos e um marido já com cabelos brancos; o puto, que era pequenino, já um homem, parecido com o pai, e a mais nova, a que nasceu quando a minha amiga se julgava na menopausa e já de cinco meses ainda andava preocupada por achar que não andava bem do estômago, já uma mulher. Deles, saltei para uma outra nossa amiga, uma bacana. Também muito parecida com o que era. Mais velha, claro, e loura, jamais a imaginaria loura, mas, apesar disso, parecida, o mesmo sorriso. E estávamos a olhar para ela no meio de um grupo em que não reconhecemos mais ninguém, e a dizer que o tempo passa mas que até a tinha poupado. E nisto, ao mesmo tempo, reparámos melhor no velho ao lado dela. Não saltei porque estava sentada. O meu marido apenas soltou um lamento: 'É pá...', desconsolado de todo. Eu nem queria acreditar. Era mesmo ele?!?!? Sim, vendo bem, era mesmo. O velho era o marido, nosso amigo. Mais gordo, mais velho, outro, irreconhecível. Só pensei: 'será que, aos olhos dos outros, nós dois também estamos assim...?'. 

Caraças. O tempo, às vezes, é uma coisa do caraças, mesmo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

sexta-feira, agosto 21, 2026

Dia de cão com ovos

 

Não sei porque escrevi aquilo ali em cima. Não faz sentido. Geralmente começo a escrever sem saber bem para onde os dedos me vão puxar e, só no fim, quando percebo o que saiu, tento resumir, dando à prosa um título. Hoje a coisa virou-se de pernas para o ar e comecei pelo fim. Se calhar tem a ver com um pensamento que me assolou esta tarde. Estava num sítio, parada. Estava uma aragem e as árvores ondulavam ao de leve. Tudo o resto parecia imóvel. Pensei: o tempo está em suspenso. Depois pensei que deveria corrigir: talvez não seja o tempo pois, a ser, a terra teria interrompido o seu incessante movimento em volta de si própria e do sol. Depois pensei que, se um dia disparar o gatilho da gravidade e esta desaparecer ou for neutralizada, deixaremos de estar todos atraídos para o centro da terra e passaremos a flutuar por aí, talvez nos percamos pelos vastos mares do infinito, ideia que tem o seu quê de tétrico e de maravilhoso.

E começando assim o texto de hoje até se poderá pensar que o dia foi tão flauteado que até me está a dar para a poesia. Pois não foi. Foi mesmo um dia de cão -- no mau sentido, claro.

Para começar tinha vários assuntos críticos e urgentes para tratar e tudo a requerer computador. Com o meu avariado, há mais de quarenta e oito horas sem tugir nem mugir apesar de mil manobras de eanimação, tive que tentar ultrapassar a terrível condicionante com o telemóvel e com o anquilosado computador cujo techado cobre parte do écran, nomeadamente o que deve estar a descoberto, e onde só se consegue escrever, e mal, uma tecla a seguir à outra, com minutos de intervalo entre cada. Um desespero que me deixa agoniada. 

Várias coisas desagradáveis mas, porque existem, incontornáveis. E sem carro, ainda por cima.

Mas, no meio das chatices que queria ter resolvido rapidamente e que, para mal dos meus pecados, não consegui resolver, aconteceu que, ao fim do dia, ligaram a dizer que já se poderia ir levantar o carro. Tinham resolvido o problema, espero que de vez (e já bati três vezes na madeira não vá o dizer isto dar azar e amanhã já não pega novamente). Portanto, já montada nele, fui logo com o computador à loja das reparações. E lá, começou por não me deixar ficar mal e não arrancou mas, ao fim de uns minutos, arrancou. Se eu estivesse dentro de uma série humorística, naquela altura teria pegado nele e tê-lo-ia atirado ao chão e saltado em cima dele. Caraças. 

Mas o rapaz, sem se rir, disse:'Talvez esteja alguma coisa a bloqueá-lo'. Pensei que só me faltava mesmo era aquele toque de ironiazinha, a falar como se o computador também precisasse de fazer terapia para se livrar de bloqueios. Mas depois percebi que estava a falar num registo puramente técnico. Andou a ver, vasculhou tudo, e, no fim, ambora deveras céptico, disse que talvez um determinado software estivesse a bloqueá-lo e eu disse que não me fazia falta e ele desactivou-o. Portanto, trouxe-o de volta e ele aqui está, nas minhas mãos, lampeiro, ladino. (Refiro-me obviamente ao computador, não ao jovem da loja). 

Os meus dados saltitam de tecla em tecla e quase nem sei por onde eles andam, já conhecem os cantos à casa.

Com as voltas que ainda demos, e demo-las graças a termos a voiture, só chegámos a casa perto das dez. Pelo caminho apanhámos uma pizza que nos soube maravilhosamente, tamanha a fome que trazíamos.

E agora aqui estou, a adormecer entre cada palavra, quase derrotada pelo sono. Para além do dia ter sido arraçado de coisa ruim, também estava eu a dormir, de manhã, ouço a campainha, uma e outra vez. Vesti-me à pressa, pensei que o meu marido estava no seu passeio matinal com o dog, mas depois ouvi a voz dele. Dele, do meu marido. Aliás, dos dois, pois o cão (está melhor, obrigada, Maria Martins. mas ainda lhe dói quando se limpam algumas das feridinhas) ladrava furibundamente como sempre faz quando alguém assoma ao portão, mesmo que do lado de fora. Tinham vindo trazer os ninhos para chapins. Devem ter começado a entrega por nós pois aquilo não eram horas para fazer levantar uma pessoa da cama. O pior é que obviamente já não dormi, tanto mais que o meu marido veio dar-me a boa nova: 'Já chegaram os ninhos para chapins'. Vai pendurar nos pinheiros, aqui e in heaven, pois, ao que consta, os chapins comem as lagartas-do-pinheiro. A ver vamos.

Obviamente não consegui, nem consigo agora, responder aos vossos comentários. E não consigo já falar das coisas mirabolantes que um dos meus netos nos contou na quarta-feira, ao almoço. Coisas verdadeiramente estapafúrdias. Estávamos todos perplexizados. Fica para outro dia. Hoje vou para vale de lençóis. Aliás, não: durmo destapada.

domingo, agosto 16, 2026

Mais um dia sem carro, sem computador e com um cão-fera que tem que ser tratado

 

Continuo naquela marezinha. O computador, que levou séculos a arranjar, veio de lá entre o deficiente e o telhudo. Eternidades para despertar. Da oficina, a quem já reportei, disseram que o levasse lá. Expliquei: em onda de azarinhos, não podia faltar o carro empanado (nota: continua à espera que lhe peguem). Como acabava por se ligar, eu dava o desconto e ia aguentando. Mas este sábado deu bote: não arrancou. Estou outra vez no telemóvel o que me desmoraliza: coisinha pequenina não é para conversa longa. Depois, quando concluir o que estou a escrever, vou ao outro computador, o esclorosado e idoso, o do teclado virtual, e formato minimamente o texto. Aliás estou a ser injusta, o idoso estava nos trinques até que apanhou água. E da oficina dizem que, dada a idade, se calhar não vale a pena. Mas, na volta, um dia destes avanço mesmo para um pedido de orçamento. Quem sabe não é o drama que pintam.

Sem carro, sem o meu computador, sinto-me limitada. Tínhamos pensado que se não nos dessem o carro na sexta-feira, requesitaríamos um de substituição. Mas vacilámos. Receamos seriamente que o animal dê cabo do carro. A maior necessidade era irmos com ele aos tratamentos. 

Mas hoje resolvemos que haveríamos de dar conta do recado. As feridas estão mais secas. Apenas uma está ainda num estado um bocado estranho. Achamos mesmo que ele arrancou um bocado. Depois há umas duas ainda assim-assim. Mas as outras estão no bom caminho. Portanto, suportaria melhor a desinfecção. 

Se não estivesse aqui a escrever numa coisinha na palma da mão, contaria o festival que foi até que, já quase a entregar os pontos, lhe fiz mil festinhas. Estava mesmo com pena dele, mais do que mau feitio, o que ele tem é medo de ser magoado. Aí acalmou-se. Nessa altura o meu marido deu-lhe um apertão sem hipótese, agarrou-o sem margem para se virar e deu-me um grito a mim: 'Pega-lhe no rabo e trata-o!' e eu obedeci e, nem sei como, o canito, fofo, nem estrebuchou. É que, na volta, eu sou parte do problema. Tenho medo de magoar, não consigo, nem quero pensar que vou fazer doer e, por isso, deixo passar todas as oportunidades e ele, que é esperto, mete a cauda toda entre as pernas, senta-se em cima e eu fico sem acesso. Já para não falar que rosna, salta, tenta virar-se, mostra os dentes. E, ao mesmo tempo, o meu marido quase faz o mesmo em direcção a mim porque está a agarrá-lo e a arriscar-se e eu ali feita maricas, sem me mexer. Mas, pronto, acabou por correr bem. Desinfectei, limpei com gaze, devagarinho, e ele deixou, sem estrebuchar. No fim quisemos recompensá-lo com um biscoitinho mas fechou a boca, virou a cara, disse que o comessemos nós.

De qualquer maneira, agora está a pôr o sono em dia. Dorme, dorme. E, ao vê-lo já a deitar-se, tranquilizo-me, significa que o incómodo que o impedia de ter sossego já está a passar. Coitadinho do meu bichinho.


Mas o dia foi bom. Jardinagens, regas, limpezas, leituras, passeios a pé. Gosto dos dias assim. Não sei porquê mas até me parece que estou ainda mais de férias. Só me faz falta o computador para escrever umas coisas mas, enfim, há coisas piores. 

Continuo a ver pouquíssima televisão. Não me dá jeito ver televisão de dia. Só enquanto almoçamos é que a ligamos, mas saltamos crimes, choradinhos, catástrofes, doenças, conversas religiosas ou pseudo-intelectuais. Por isso, com bastante frequência desligamos de seguida. Depois, só volta a ser ligada depois do passeio nocturno. Mas, ainda assim, nessa altura, aproveito para dar uma espreitadela nas redes sociais. 

De vez em quando há coisas que não se entendem. Ontem publiquei no instagram uma fotografia do cãopeludinho a passear à trela levado pelo meu marido. Hoje apareceu-me uma mensagem a dizer para eu tirar um pouquinho para festejar porque aquela publicação já tinha sido vista mais de 3.600 vezes. Fui verificar e era mesmo verdade. Agora já passou as 4.100. Para a maioria das pessoas se calhar não é nada, se calhar tudo o que seja menos de 100.000 é pouco. Mas para minzinha, desconhecida, sem vender nada, sem patrocínios nem conversas de influencer, publicar uma fotografia simples com meia dúzia de palavras e isso ser visto mais de 4.000 vezes é uma coisa que me espanta.

É como aqui no blog. Apesar de já por aqui andar há tanto tempo, ainda me surpreendo quando constato que agora há sempre cerca de 5 ou 6.000 visualizações todos os dias, quando não mais. Sinto-me agradecida, muito, mas deveras surpreendida. Tantas pessoas aí desse lado a ler o que aqui eu e o meu marido vamos escrevendo...

Bem. Fico-me por aqui. Agora vou para o pico-pico, sarapico, no tecladozinho virtual do computador -- que geralmente teima em pôr-se em cima do que estou a escrever -- para formatar isto.

Às vezes penso que tenho ali o tablet da minha mãe, nestas alturas era capaz de dar jeito. Mas ainda não consigo vencer a barreira, também ela virtual, de usar uma coisa que ela tanto usou. Enfim, lá chegarei. 

Desejo-vos um bom domingo.

sexta-feira, agosto 14, 2026

Notícias do cãovalescente

 

Estou menos preocupada mas estou cansada. O bichinho ontem só adormeceu depois das duas e tal da manhã. Na prática, deixou-se cair -- e ali ficou. Tenho que confessar que até fui fazer aquilo que, à socapa, pela calada da noite, fazia com os meus filhos e que ainda faço com os meus netos: fui confirmar que estava a respirar. 

Já contei várias vezes: na minha vida profissional e mesmo na vida normal há quem me ache destituída de medos. Na verdade sou muito de me atirar, sem medo. Quando quero uma coisa, vou, e acredito que acabarei por conseguir. Até por vezes me arreliava, intimamente, por ser tão destemida. À minha volta ficavam passados, achavam que eu não avaliava os riscos, que parece que não via as confusões em que me ia meter, os obstáculos que iria enfrentar. Mas eu avaliava, simplesmente tinha confiança em que eu e os que eu arrastava nas minhas empreitadas haveríamos de conseguir. E conseguíamos. E mesmo a outros níveis: não tenho medo de ir ao dentista, quase adormeço, nos exames médicos mais longos também quase adormeço de tão descontraída que estou, fui fazer artroscopia aos dois joelhos ao mesmo tempo sem consultar segunda opinião e sem medir consequências e, na véspera, estive aqui até às tantas a escrever como se nada se fosse passar. Sou assim. Mas quando a coisa tem a ver com filhos ou netos sou a mais maricas de que há memória. Chicken mais chicken não pode haver. Também me preocupo com o meu marido, claro que sim, mas não é aquela coisa absolutamente visceral que é com a descendência. Com os meus pais também havia aflição, por vezes bem grande, mas acho que era uma aflição misturada com ansiedade, com um temor de outra ordem --  não exactamente a mesma coisa que medo. 

E com o meu cão-bichinho há uma coisa que também não é fácil: quando o vejo aflito. é a sensação de preocupação misturada com responsabilidade e, também, aflição. Ele não sabe explicar-se, eu tenho que adivinhar, e, se interpreto mal e tomo a decisão errada, ele não pode defender-se. Claro que nisto há uma responsabilidade partilhada com o meu marido. 

Dito desta maneira parece que com os demais não há essa responsabilidade partilhada. Talvez haja mas de maneira diferente. Ele confia, ele desliga. Eu não. Quando os meus filhos eram adolescentes e saíam à noite, ele adormecia na boa. Eu não. No caso da minha filha, por vezes ele levantava-se às três ou quatro para ir buscá-la. Mas, antes disso, dormia. Eu não. Mesmo com o meu filho, já adulto, enquanto vivia lá em casa, eu não dormia, via as horas a passarem, numa inquietação, num sobressalto. Tinha que me conter porque se o meu marido se apercebia disto dizia que eu era maluca (e virava-se para o outro lado, a dormir). No entanto, muitas vezes em certos aspectos, era pior que eu. Eu sabia que eles não queriam que eu ligasse e, por isso, continha-me. O meu marido se acordava e via que era mais tarde e que eu estava numa inquietação, queria que eu ligasse. Eu não queria e ele inistia tanto que eu acabava por ligar. O pior era se eles não atendiam. Aí a coisa virava pânico. E, então, voltava a ligar. Quantas vezes eles depois se aborreciam por verem que eu já tinha ligado carradas de vezes... Enfim. Lembro-me do meu filho me dizer que eu tinha que aprender a controlar-me. Aí o meu marido fazia-se de santinho, todo sonso, como se não fosse ele também a picar-me para eu lhes ligar.

Pois bem. O meu cãobeludinho fofo ontem, tarde e más horas, depois de longas horas de calvário, a andar de um lado para o outro todo o santo dia, sem se deitar e, muito menos dormir, acabou por capotar. 

Pus o despertador para ligar para a clínica logo na abertura. A veterinária do outro dia não tinha chegado e ainda bem. Marquei para uma outra que, felizmente, estava de tarde e que é muito mais soft, mais open mind, menos quero-posso-e-mando. De seguida liguei para a jovem que vinha buscá-lo para ele ser tratado. Relembro: continuamos sem carro. 

A oficina ainda não conseguiu pegar nele. Escassez de mão-de-obra por todo o lado. E ainda há gente estúpida que não percebe que mais mão de obra houvesse e mais a economia cresceria.

Felizmente o meu filho conseguiu abrir alas nos seus compromissos da tarde para vir cá buscar-nos, levar-nos lá e depois trazer-nos. E, pelo meio, abusei como já tinha feito com a minha filha: pedi se, enquanto estávamos lá dentro, podia ir ao supermercado. A minha filha está habituada a fazer compras, ir com uma lista de compras não é transcendente. Mas ele não, lá em casa dele só encomendas online. Por isso, vi o sobressalto que se lhe estampou no rosto quando eu lhe pedi isso. Talvez não ponha o pé num supermercado há anos. Mas, pronto, lá foi... De resto, em qualquer dos casos, a minha ideia original era pedir que parassem por uns minutos que eu ia. Mas, no caso dela, ofereceu-se para ir durante a consulta. No caso dele, disse que tinha que ir abastecer de combustível e, portanto, aproveitei essa brecha que ele abriu.

Esta veterinária da tarde esteve a ver no sistema e, quando o observou, até achou que não estava tão mal como esperaria vendo o descritivo que a colega tinha escrito. O bichinho hoje estava mais tranquilo pois resolvemos seguir o conselho da primeira: que antes de ele lá ir, três horas antes, lhe dessemos um ansiolítico. E demos. Por isso, estava menos reactivo, menos apavorado. Quando a vet desinfectou as múltiplas feridas ganiu, saltou, tentou fugir e, se apanhasse alguém, ter-se-ia vingado, mas nada que se parecesse com o pesadelo de quando a outra médica o torturou no primeiro dia. Ou porque estava mais calmo, ou porque esta o desinfectou de forma mais gentil ou porque as feridas já estão melhor, a verdade é que a coisa foi controlada. A veterinária deu-lhe uma injecção de anti-inflamatório pois a inflamação nitidamente estava a incomodá-lo bastante. E usou um produto mais neutro na limpeza das feridas.

Explicou-me que o exsudado, em especial, o purulento, cria uma crosta que, se não for retirada, os tecidos debaixo ficam necrosados e a pele pode não regenerar. Mas que não tem que ser esfregado ou esfolado. E o líquido a usar não vai ser o betadine ou o outro de que não sei o nome mas que também lhe deve arder para caraças mas sim um que lhe vai dar uma sensação de frescura sem ardor.

Vamos ver. Espero que tudo, a partir de agora, corra melhor. 

No entanto, chegou a casa e pôs-se outra vez às voltas pela casa, de vez em quando parado a olhar fixamente para nós. Agora veio pôr-se aqui encostado a nós, de pé, para lhe fazermos festas. Estávamos a ver que ia ser a mesma coisa. Mas não. Por volta talvez da meia noite e tal, perto da uma, creio, eu disse-lhe: 'vá, agora vai beber aguïnha e vai fazer ó-ó'. Se estivesse aqui o meu filho repreender-me-ia: 'não é um bebé... falas com ele como se fosse...'. Mas sai-me assim, que hei de fazer?. Eu disse-lhe aquilo e ele ficou um bom bocado parado a olhar para mim. Depois saiu da sala, ouvimo-lo a beber água e já não voltou, está a dormir. Felizmente. Também já vai no terceiro dia de antibiótico, há de ir melhorando. 

Entretanto, vai abrir um novo espaço veterinário não muito longe daqui e estou tentada a mudar. Estas agora onde vamos são experientes, a clínica está bem equipada, etc. Mas a veterinária chefe, a dona, é linha dura, para ela os animais não são gente. E para mim são. Como no outro dia citei: cão como nós. E acrescentei: e nós somos gente como ele. 

Tenho que agradecer os comentários tão simpáticos que me deixaram e os mails identicamente queridos, com conselhos e dicas. Não respondo individualmente porque estou muito exausta, a modos que esgotada. Muita contrariedade em simultâneo. E o facto de ter andado, há alguns dias, a dormir muito menos do que necessito, retira-me, ainda mais, a energia.

Esta coisa de estarmos sem carro é uma delas: faz-me sentir dependente e isso deixa-me doente. Amanhã o meu marido vai fazer um ponto de situação com a oficina e provavelmente vamos activar o carro de substituição. Mas não sabemos por quanto tempo. Receamos fortemente que ele, o crazy dog --que, quando vai no carro, quer atirar-se aos motoristas, em especial aos de uber ou glovo, e, como não consegue, se desforra mordendo o estofado das portas ou dos bancos --  dê cabo do carro de substituição e nos vejamos metidos em sarilhos. Irei atrás agarrada a ele. Poder-se-ia pensar que, por ter o colar isabelino, não consegue fazer estrago. Mas a verdade é que ele consegue tudo, já aprendeu os ângulos em que consegue chegar onde quer. Felizmente, até ver, não consegue chegar ao próprio corpo e isso é a principal prioridade neste momento porque, se apanha a cauda, nem imagino o estrago que fará.

Mas, portanto, muito obrigada, do fundo do coração, pelas vossas mensagens amigas. Perceber que aí desse lado estão pessoas com um coração grande dá-me muito conforto.

E vou esperar que nos próximos dias as coisas se vão endireitando. O meu optimismo deve ser a última coisa a morrer. Se calhar, quando estiver com os pés para a cova, ainda vou estar a dizer que o mundo é maravilhoso, as flores um encantamento, e que, vão ver, vai tudo correr bem. 

Tenham um dia muito bom, ok?

segunda-feira, agosto 10, 2026

Um dia com cantorias, bela comida e milagres e experiências novas. E, agora à noite, em descaminho, comento um comentário do outro dia.

 

Os Leitores que comentam são sempre bem vindos mesmo quando comentam parvoíces e me forçam a esconder o que escrevem. Foi o caso de ontem. Estavam danadinhos para a brincadeira. Esticaram-se cá de uma maneira. Tive que os deixar de castigo, claro. 

Outras vezes escrevem coisas que me parecem surreais, tão surreais que nem sei o que responder.

Acresce que tenho andado com o problema do computador. Uns fanicos que não se entendem. Este domingo, quando o liguei, nada. Nada. Não estava falecido que eu bem via uma little luzinha bruxuleante a circundar o botão (Mr. Jorge de Sena, chapeau). Mas nada. Escuridão absoluta. Com a ajuda do Gemini, fui tentando fazer manobras de reanimação. Reset energético, nada. Acordar a placa gráfica, nada. Reactivar a partir do botão de arranque de reserva, nada. Sei lá que mais. Nada. Nada. Sugestão: levá-lo de novo ao lugar de onde veio (mal) reparado.

Agora imaginem. Sem carro. 

E estamos na época dos leões. Uma das hipóteses era fazer os festejos cá em casa. Mas sem mantimentos para tanta gente e sem carro para ir ao supermercado, como? Compras online, dir-me-ão. Mas não é de um momento para o outro, certo? Portanto, fomos nós os convidados. Ou seja: programa de festas -- Ir a umjantar de aniversário e antes ir levar o computador de volta à oficina.

Uber. Pela segunda vez na vida, uber. Tudo bem. 

Chegámos à oficina dos computadores. Tiro o desfalecido paciente do saco, ponho-o no balcão, descrevo a situação: veio ontem de cá, tenho aqui a guia da reparação, e hoje não arranca nem por mais uma. Nada. 

"Vamos lá ver", diz o rapaz. Abre a tampa e... o computador normal, a funcionar. Juro: a funcionar!

Estão a ver a minha cara? 

Estão a ver a cara de gozo do meu marido? No caminho veio a gozar e a dizer que eu tinha carregado no botão errado. Como errado? Não há erro possível: só tem um botão. E, aliás, nem é preciso carregar em botão nenhum, liga-se mal se levanta a tampa.

Explicação? Não tenho. O rapaz diz que é como quando é para ir ao dentista, passa logo a dor de dentes.

Depois era para ir para casa do aniversariante. Pensámos: Uber? Ou a pé? 

Resolvemos: a pé. Coisa para uma meia hora. Faz-se bem, pensámos.

O pior foi para sair de lá a pé. Pela primeira vez na vida estavamos ali a pé. Sempre para lá fomos de carro. 

Parecíamos, certamente, uns saloios. A olhar para todo o lado sem saber para onde ir, muito menos como apanhar a estrada por onde era suposto irmos (a pé). Tudo vedado. Um trânsito do caraças em volta. Canteiros, bancos de jardim, e junto às estradas tudo vedado. Para mais acima, tudo vedado. Em direcção à outra rotunda: tudo vedado. Resolvemos, então, ir à papo-seco. E, atravessando aqui e ali, lá demos connosco do outro lado e lá iniciámos o caminho. De saco ao ombro, com o computador lá dentro.

'Porque não pediram boleia? Porque não chamaram um uber?', perguntaram-nos quando lá chegámos Mas não, uma bela caminhada. Experiências novas.

O jantar estava óptimo, a companhia o melhor possível, a cantoria uma animação, a divertida toilette do aniversariante um espectáculo (dentro do género, claro). Sempre uma festa.

De volta a casa, de novo uber. O preço muito mais alto. É a lei da procura e da oferta, disseram. Claro, pois então. Queixei-me: um balúrdio, isto. Encolheram os ombros, acham que é o que faz viver afastada da realidade.

Correu bem com o insignificante senão de não conseguirmos abrir a porta, quando o carro lá foi ter connosco para nos apanhar. Nunca tínhamos andado num carro daqueles, o fecho invisível, a forma de funcionar do puxador deveras atípica. O meu filho estava à varanda, perdido de riso. Mas entrámos. E viemos cá dar. É o que interessa.

Há pouco, liguei o computador. Vinha com o credo na boca, receosa de que estivesse outra vez em greve. Mas não. Em contrapartida sem rede, sem acesso às redes, a qualquer rede. Praguejei mentalmente. Not again, filho da mãe. Reiniciei-o. Aleluia. Funcionou.

Amanhã será a saga do carro. Pelouro do meu marido. Todos nos dizem: comprem outro. Não concordo. Estou cada vez menos consumista. Quando trabalhava, de três em três ou quatro em quatro anos, andava com carro novo em folha. Zerinho. Se havia problema, arranjavam-me carro de substtuição, se era preciso garagem, um motorista levava. Nunca me preocupava com tal coisa. Com o meu marido era o mesmo. Agora é toda uma outra cena, transtornos e obrigações por nossa conta.

Por mim, usava o mesmo carro durante mais vinte anos. Quando digo isto, o meu marido, alerta: 'Não te esqueças da idade que tens'. Mais uma razão. 

Ao passo que os meus colegas vibravam com os carros, escolhiam e reescolhiam, avaliavam, faziam testes, discutiam e analisavam entre eles, viam os acessórios e sei lá que mais, eu era assim: 'o que é que há para entrega?'. Ou 'o que é que há em escuro, de preferência preto?'. Depois, quando vieram as modernices, o requisito era outro: 'o que é que há que ainda tenha mudanças?'. Um castigo, já era tudo automático, e automático eu não queria, fazia-me confusão conduzir sem os 3 pedais e sem as mudanças. Portanto, estão a ver, não quero cá saber de carros xpto nem de carros novos. Tenho esperança que a avaria deste seja simples e que o carro dure pelo menos mais os ditos 20 anos. Mas, de preferência, mais que isso.

Mas, voltando ao tema dos comentários. 

No outro dia, alguém escreveu isto: 

"Por aí...até acho que o que Costa fez com a imigração em massa foi um crime. Em quatro ou cinco anos fez entrar nesta terra cerca de um décimo de população. O dobro dos retornados em 1975. Pior ainda, imigração que na larga maioria não serve para nada em tempos de revolução no trabalho com a automação e a IA. Os empresários agrícolas alentejanos precisam de gente para apanhar fruta? Vejam o youtube e a maquinaria inteligente que já por aí há. Precisamos sim de mão de obra qualificada. Mas essa ou não vem para cá ou está na sala de partidas do aeroporto de Lisboa." 

E eu li e pensei que devia ir buscar os óculos, não devia estar a ler bem. Então esta pessoa ainda não viu quem é que está a manter os hotéis e os restaurantes a trabalhar? Acha que poderia prescindir destas pessoas, em favor de malta das IAs? Ou não sabe quem é que lava e desinfecta os hospitais e quem é que dá banho e muda as fraldas a doentes e idosos em hospitais e lares? Acha que é malta das IAs? Ou já viu quem é que trabalha nas obras? É a malta das IAs?

Mais: este comentador não sabe quais os empregos mais sacrificados com a IA? Não sabe que é a malta formada, engenheiros, arquitectos, advogados, informáticos, gestores, financeiros, etc? Não sabe que a malta do trabalho braçal é a malta que se vai safar?

Se não sabe, então faça o favor de se informar. Ora veja.

Em que mundo vive esta pessoa e todas as que condenam a imigração? Não conseguem perceber que grande parte dos sectores económicos assentam em mão de obra que já é, na maioria, imigrante, e que, se deixar de existir, lá vai a economia para o galheiro? Qual IA qual carapuça nas actividades em que a mão de obra imigrante hoje trabalha... E se não forem eles quem é? Temos cá gente em número suficiente para se ocupar destes trabalhos? Claro que não. 

A minha filha costuma passar uma semana num turismo de habitação que este ano não conseguiu manter-se aberto no regime habitual porque não tem quem faça o trabalho, os pequenos almoços, etc. Não arranjou ninguém.

Eu, no meu latifúndio campestre, em que caíram carradas de árvores e pernadas, ainda não consegui tirar de lá grande parte daquilo porque não arranjamos quem o faça. Há lugares em que a imigração ainda não chegou e em que não se arranja ninguém para fazer este género de trabalhos pesados e debilmente remunerados. Dirão os mais simples de espírito: pague-se mais. Não resolve. As pessoas que há são pessoas de idade, que já não são capazes de trabalhos mais difíceis, ou pessoas que estão a trabalhar, sem tempo livre para uma segunda ocupação.

Tudo isto me parece óbvio. Mas, então, porque é que ainda há tanta gente com medo dos imigrantes? Em vez de estrem agradecidos (eu estou), falam mal deles, querem vê-los pelas costas. Estupidez? Deficiente informação? Espírito caguincha, medo de tudo?

Ainda não leram sobre a preocupação que vai nos Estados Unidos com os industriais a queixarem-se do abrandamento económico por falta de mão de obra, nomeadamente imigrante?

Há gente que tem uma mente tão fechada e tão deformada que nem consegue raciocinar, vivem alimentados pelo medo, medo dos imigrantes. Como se nós, portugueses, não fossemos imigrantes em todos os países por onde nos espalhámos. 

Caraças. Coisas tão simples de perceber.

Bem.

Fico-me por aqui. O dia foi longo (bom! -- mas longo).

Tenham uma bela semana, ok?

domingo, agosto 09, 2026

Explicação sobre a indigência deste pobre post

 

A minha maltinha regressou toda de férias, todos de volta a casa depois de uns belos dias a banhos e em viagens. Sabê-los de regresso, sãos e salvos, por muito palerma que possa parecer, é para mim um alívio. Eles bem me dizem que a segurança deles não depende de mim. Concordo. Sei disso. Os meus filhos há muito tempo que não são adolescentes a meu cargo e os meus netos têm os respectivos pais para se responsabilizarem por eles. Mas o que é que posso fazer? Mãe é mãe e o meu instinto maternal que sempre foi agudo, extremo, indomável, mantém-se igual ao que sempre foi. Não descanso enquanto não sei que estão bem. É ridículo? Pois, na volta é. Mas tenho que me render às evidências: face à minha provecta idade e face a não ter detectado melhoras ao longo dos anos, acho que é matéria em que não é expectável que haja cura. É saber viver com isto, tentar controlar os meus receios, disfarçar para não parecer atrasada mental.

Enfim. 

Mas para nós dois o dia foi do piorio. Nada de grave e dramático mas, tudo junto, deu-me vontade de dar meia volta, fazer reset. O computador já está reparado mas veio desconfigurado e, para não ter que lá voltar, estive para aqui a fazer coisas que detesto fazer. A meias com o Gemini, lá consegui dar conta do recado. Mas detesto ele lado das informáticas, configurações, testes, coisas que não resultam. Sei que não devo mexer à maluca pois posso estragar ainda mais mas a perspectiva de o mandar de volta à oficina e esperar séculos pelo orçamento e depois pela reparação já estavam a stressar-me. Lá consegui resolver. 

Acresce que comprei um carregador pois o que tinha estava com a ponteira murcha e, logo, potencialmente danificadora da porta de entrada. Venderam-me um universal que supostamente dava para o computador. Depois de horas para ser atendida, sem que algum funcionário aparecesse, acreditei que sim, não exigi comprovação, e trouxe-o. Cheguei a casa e, claro, não dava. Furiosa, contrariada, voltámos lá. O dia nestas porcarias. Um mal nunca vem só: na ida o carro vacilou, mensagens más. À vinda, vacilou ainda mais. Depois -- felizmente, já aqui em casa -- pifou de vez, já não arranca. Podia ter sido na autoestrada, e isso seria pior. Mas não é bom. Não dá sinal. Vai ter que ir para a oficina, vamos ver quando e por quanto tempo. Em tempos, tinha cada um seu carro. Agora, como nos tornámos siameses, só temos um. Portanto, agora estamos apeados. Um lindo serviço.

Para as coisas não se ficarem por aqui, o cão não faz outra coisa senão lamber a cauda, uma coisa por demais. Frenético. E, estuporzinho como é, não deixa mexer. Queria ver o que se passa, mas não deixa. Rosna, mostra os dentes e, se nos atravessarmos, não se ensairá em fazer valer o seu aviso. Como isto costuma levar a feridas, a antibiótico e a um sarilho do caraças para o tratar, pusemos-lhe já o colar isabelino. Se tivermos que ir ao veterinário, só se sairmos de véspera para irmos a pé. Sem carro, ir a algum lugar transforma-se numa odisseia. Metermo-nos num tvde com ele, só se quisermos correr riscos de que coma o condutor e destrua o carro. Quem ele não conhece e está por perto, é inimigo a abater. Para ele, cão-pastor, nós somos ovelhas e qualquer pessoa que não lhe seja familiar, é lobo. E, caraças, não se fica. Não há lobo que se arrisque a aproximar-se. Por isso, metermo-nos num carro em que o pescoço do condutor esteja ao alcance dos seus dentinhos, está fora de questão. Nem com açaime: salta, ladra e tenta por todos os meios arrancar o açaime. E às vezes consegue. Portanto, estão a ver.

E ainda houve mais um ou outro contratempo mas já nem vou aqui falar disso, já estou cansada de tanta chatice. 

Dir-me-ão: há males maiores. Claro que há. Sei muito bem disso. Mas nós, nós todos, funcionamos por planos. E no plano das coisas domésticas, da vidinha do dia a dia, ou as coisas funcionam normalmente, ou há um cúmulo de atentados à rotina que nos estraga completamente as actividades banais e os gestos que fazemos sem sequer pensar neles. E isso corrói a tranquilidade básica sobre a qual é suposto assentar tudo o resto.

Enfim. São dias. Ou fases.

Quanto aos comentadores, bem os tenho topado -- uns animadamente admiradores do Neves e das suas chico-espertices (e ai de quem não aprecie as chico-espertices do Neves, é logo conotado com o Ventura), outros animadamente a favor do Montenegro (ui... tão melhor que o Costa... ui, ui...) , outros ainda dramaticamente fixados em Sócrates (o que será que o Freud diria de tamanha fixação? Gente ainda na fase anal, perdão, na fase anual? Gente que em pequenino não se sentia suficientemente amado pela mamã? What?) -e a sério que gostaria de responder. Mas, depois de tanta chaticezeca, estou mesmo um bocado exausta. Mas podem continuar a dizer de vossa justiça pois os vossos argumentos têm graça, alguns têm mesmo muita piada. A sério que sim. Alguns comentadores mostram-se picados com outros e eu poderia não publicar para não causar arrelias, mas hoje não estou para usar o lápis azul. Só digo uma coisa: piquem-se à vontade que o vosso picanço também tem graça. Mas não se levem demasiado a sério, não vale a pena.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, agosto 05, 2026

Tenho provas de que Trump está a afundar-se no fracasso

 

Continuo sem o meu computador habitual. Já recebi o orçamento -- upa, upa, é caso até para pensar duas e três e quatro vezes --, mas acabei por respirar fundo, dar o ok e pagar, e agora é esperar que fique pronto.

Mas, portanto, continuo limitada. Estou a escrever no telemóvel e isso, para mim, é completamente dissuasor.

Hoje, enquanto varria e andava com um ancinho a raspar os musgos velhos e a terra, andava a pensar em mil assuntos para deles aqui dar conta. Depois lembrava-me do meu severo handicap e, mentalmente, retrocedia.

De tarde tive que escrever um mail que tinha que invocar outros mails enviados antes (há serviços públicos que são um buraco negro, kafkianos, levam o mais resistente ao desespero, dão vontade de desistir, consubstanciam um total desprezo por nós, cidadãos, contribuintes, utentes). O que eu penei para o fazer... No telemóvel seria uma dor de cabeça e no computador deficiente que agora me serve de bóia de salvação e que só funciona, e mal, com um teclado virtual (que se sobrepõe ao texto a menos que o ponha minúsculo) foi um sufoco. O meu marido, quando me vê indisposta com estas provações, decreta: "compra um computador e acaba com isso!". Não compro. Outra vez configurar tudo, passar coisas de um lado para o outro, habituar-me a novas manhas. Não quero.

Espero que sejam mais uns dias. Só mais uns dias.

Por isso, até lá mantenho a minha verve refreada. Por exemplo, apetecer--me-ia comentar as últimas parvoíces do Trump e o mal que ele espalha à sua volta. Está maluco, em decomposição, mas a verdade é que a sua ordinarice, incompetência, falta de vergonha e pulsão para aldrabice compulsiva e descarada continuam a servir de exemplo a estupores e mentecaptos em todo o mundo.

A conversa abaixo entre David Rothkopf e Joanna Coles é, como sempre, muito elucidativa e interessante. Aconselho.

I Have The Proof that Trump is Drowning in Failure | The Daily Beast Podcast

David Rothkopf junta-se a Joanna Coles para analisar mais uma semana extraordinária no mundo de Trump, desde as crescentes dúvidas sobre a gestão do presidente em relação ao Irão e o aprofundamento da crise de política externa até às alegações de corrupção, disfunção política e o impressionante colapso da confiança pública reflectido em novas sondagens. Abordam a combativa aparição de RFK Jr. na CNN, as consequências em torno do congressista Max Miller, o mistério da longa ausência de Mitch McConnell, as últimas reviravoltas na batalha pela confirmação de Todd Blanche e as crescentes fissuras dentro do movimento MAGA, com Tucker Carlson, Laura Loomer e JD Vance em conflito. Além disso, examinam o mais recente espetáculo do Truth Social de Trump, o seu autoproclamado triunfo no golfe e porque é que os apresentadores argumentam que o caos em torno da sua administração só se está a intensificar à medida que se aproximam as eleições intercalares.


Um bom dia!

terça-feira, agosto 04, 2026

Ah, a difícil vida no campo...

 

De manhã, o tempo estava fosco, fresco, e chegou a chuviscar. Da terra molhada subiu aquele perfume bom que faz sempre lembrar-me a longínqua e tão presente emoção do regresso às aulas.

Depois abriu, o tempo aqueceu. 

Há folhas secas por todo o lado. A caruma parece que atrai toda a espécie de folhagem. Estávamos a contar que o rapaz conseguisse cá vir soprar e aspirar o espaço em volta da casa e alguns caminhos. Afinal, mais uma vez, não conseguiu. Por aqui é muito difícil encontrar quem faça estes trabalhos. Por isso, mais uma vez tive que voltar à minha vassoura. É daquelas volumosas, pesadas, com as franjas em aço. As mais leves não têm força para isto. Ao fim da tarde já tinha a feridinha do costume na mão. O meu marido continuou a sua árdua tarefa de transportar os troncos cortados para junto da lenha e as ramagens que estão espalhados por todo o lado para junto dos montes imensos que, quando puder ser, serão queimados.

Pelo meio, frágil pecadora, fui-me enchendo de figos. Estão dulcíssimos, gordos, suculentos, irresistíveis. Não sei quantos quilos a mais já coleccionei. Depois, há um fenômeno que penso que deveria ser seriamente investigado: se eu comer meio quilo de figos, engordo um quilo. Se, no dia seguinte, comer mais meio quilo engordo mais quilo e meio, que se soma ao quilo da véspera. Uma coisa exponencial, muito dif´cil de controlar. 

Acresce que fomos almoçar a uma tasquinha numa aldeia vizinha. Puseram na mesa uma cesta de pão e broa e uma tigelinha de azeitonas bem temperadas. Marchou tudo. É certo que a dividir por dois mas, ainda assim, um estrago adicional. De entrada, não resistimos a ovos com farinheira. Pior um pouco. O prato nem digo o que foi, muito menos falo das deliciosas batatas fritas e da saborosa maionese caseira. No fim, deveria ter-me feito rogada a uma tarte de amêndoa com uma bola de gelada. E fiz-me. Só comi metade. Mas de certeza que aumentei mais dez quilos. 

Portanto, não sei como, mas vou ter que arranjar forças para me embrenhar num jejum. Mas não é daqueles a fingir, tem mesmo que ser a doer. Vai é que ter que ser como o voto de castidade do Santo Agostinho: mas ainda não, mas ainda não...

Já agora, a propósito dos figos diabólicos, vou aqui reincidir num texto maravilhoso do D. H. Lawrence sobre como comer um figo. Os apertadinhos tapem os ouvidos. Avisei.

Cena de Mulheres Apaixonadas

Dias felizes