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segunda-feira, abril 07, 2025

O rapaz-pássaro

 

Samuel Hendersen tem 11 anos e imita, na perfeição, o canto de 50 pássaros. É autista e tem síndrome de Tourette e, no recreio, isolava-se dos colegas para ensaiar o canto dos pássaros. Por isso, os outros meninos não conheciam as suas habilidades.

Quando se colocou a hipótese de o levar a um palco onde pudesse mostrar o seu talento, a mãe morreu de medo com medo que as outras crianças troçassem e o fizessem sofrer.

Mas o que aconteceu foi que, depois da estranheza, os colegas ficaram surpreendidos e rendidos. 

Samuel, o menino um pouco peculiar, é agora o mais conhecido da escola.

E eu comovo-me quando vejo crianças que, por serem um pouco diferentes, são olhados com estranheza fazendo com que os pais se sintam ainda mais angustiados.

Não sabia que um rapazinho desta idade poderia ter Síndrome de Tourette mas, pelos vistos, pode. Contudo, neste caso, os sons que emite são o canto de pássaros.

11-year-old boy who can imitate 50 birds wows at school talent show

quarta-feira, março 26, 2025

Um dos homens mais poderosos do mundo, num jantar de gala, entretém-se a brincar, à mesa, com avioezinhos feitos com os talheres

 

Vê-se e custa a acreditar. Em Mar-a-Lago, num jantar de gala, uma vez mais sem respeitar o dress code, Elon Musk mostra as suas dificuldades em portar-se 'normalmente'. Com uma faca e colheres em equilíbrio ali está entretido a fazer uma gracinha. 

Claro que isso poderia não ser problema nenhum, cada um é como cada qual, não fora dar-se o caso de Trump lhe ter concedido poderes ilimitados. As decisões mal fundamentadas, irracionais e tantas vezes desumanas de Musk têm-se revelado um poço de problemas não apenas -- e sobretudo -- para as vítimas mas também para os republicanos, para o próprio Musk (veja-se a pancada que as contas da Tesla estão a levar) e, espero bem, para o Trump.

sexta-feira, janeiro 03, 2025

Vêm por aí não um mas dois malucos? E andam à solta...?


Reconhece-se logo um maluco? Não sei.

Até há algum tempo eu achava que ele era 'apenas' um tipo com um QI acima da média, um visionário. Com um transtorno do espectro autista era um caso típico em que, pela inteligência e foco absoluto nas matérias que os seduzem, conseguem altas performances. 

Com uma infância marcada por um pai agressivo, num ambiente toldado pela violência doméstica, Elon agarrou-se à mãe de quem se tornou muito próximo.

Nada de extraordinário.

Portanto, eu -- e provavelmente meio mundo -- ia acompanhando os sucessos empresariais de Musk sem antever a deriva a que agora assistimos.

E o drama é que esta deriva acontece com um tipo doido, destravado, lunático, que se aliou a um narcisista, louco, parvo, um aldrabão sem vergonha (mais um à frente de um país) que agora vai ficar com os destinos dos Estados Unidos nas mãos. Os destinos do mundo.

Não sei no que isto vai dar mas claro que todos os receios são fundados.

 Elon Musk: How did he get close to Donald Trump? - BBC World Service


sexta-feira, maio 10, 2024

Savant

 

Ao aparecer-me um dos vídeos que partilho abaixo lembrei-me daquele meu extraordinário colega a quem estou em dívida quanto a um telefonema. É das pessoas mais desconcertantes que já conheci.

Começa-se a falar com ele e, de início, não se percebe que há ali qualquer coisa de especial. Ou melhor, perceber até se percebe, não se percebe é o quê. Aliás, eu própria comecei por dizer que achava que havia ali qualquer coisa que não batia certo. Não sabia definir o quê mas intuía que qualquer peça, naquela cabeça, parecia estar um bocado fora do sítio. 

Mas, por acaso, no bom sentido.

Muito inteligente, de uma inteligência rápida e bastante holística. Mas, mais do que a nível profissional, era nas conversas sobre outros temas que se percebia que estávamos em presença de uma pessoa incomum.

Sobre história, sabia tudo. Mas, quando digo tudo, quero dizer tudo, mesmo tudo. Com nomes, com datas, com locais. Sobre qualquer assunto, o conhecimento dele era infinito e relacional. 

Mas a nível de literatura, no que lhe interessava, também nunca conheci ninguém, assim. Ele sabe os títulos, as editoras, as datas das edições e, mais que isso, ele sabia partes inteiras de cor. Não sei, porque nunca ousei testar, se não saberia os livros inteiros de cor. Dos livros não portugueses que lhe agradam, ele conhece as várias traduções, compara-as, tem preferências.

Em poesia, do que gosta, sabe não sei quantos poemas de cor e, por exemplo, no caso de Borges, não apenas os sabe em português como os sabe no original.

A nível político, falar com ele é quase diabólico pois lembra-se de cada peripécia que envolva um e outro, acordos, derrapagens, passos em falso, notícias que saíram, resultados das eleições, ano a ano. Nem sei. Tudo.

Contudo, a nível profissional, sendo um trabalhador incansável, não é, contudo, apreciado. O problema é que se torna compulsivo. É capaz de refazer dezenas de vezes um relatório ou uma apresentação pois descobre sempre qualquer coisa a melhorar. É frequente, no meio disso, perder-se nas versões e já não saber a quantas anda. Acontecia, em reuniões, em vez de ter enviado a apresentação de véspera como era habitual, só a enviar de madrugada, por vezes de manhã muito cedo, evidenciando que tinha estado toda a noite de volta daquilo e, no fim, por vezes acontecia enganar-se e enviar a versão errada.

Os subordinados impacientavam-se com ele. Uma arranjou uma depressão e saiu da empresa em total estado de desespero. Já não conseguia aguentá-lo pois ele exigia-lhe a perfeição mas uma perfeição tão exagerada que chegava a ser irracional.

Sendo pessoa com saberes enciclopédicos, era, no entanto, incapaz de fixar os nomes de algumas pessoas com quem lidava mais de perto e que, por algum motivo, ele achava que eram pessoas sem valor acrescentado. Causava embaraço ver como ignorava o nome de pessoas com quem trabalhava todos os dias desde há que tempos. Mas não era só o nome, eram as próprias funções. Não conseguia fixar o que faziam nem como se chamavam e, por ele, podiam sair da empresa que nem daria pela diferença. As pessoas só não se sentiam lixo pois conheciam as suas  particularidades, alguém cuja 'normalidade' era muito discutível.

Acontecia também, quando contrariado, ter fúrias, atitudes despropositadamente agressivas que deixavam toda a gente perplexa. Sendo uma pessoa educadíssima, gentilíssima, de repente, por  coisas de nada, ficava possesso, inconveniente, gritava e, no meio de reacções explosivas, na prática mandava as pessoas embora. 'Saia da minha frente!', 'Vá para casa e não volte a aparecer!'. 

Depois caía nele, aceitava bem as críticas, e acabava arrependido e a pedir desculpa. Mas eu percebia que era qualquer coisa que fugia ao controlo dele.

Do que lhe conheci, não tinha vida afectiva apesar de ser uma simpatia. Mas tudo nele era tão excessivo, tão obsessivo e tão desconcertante que dificilmente arranjaria alguém que conseguisse viver uma vida partilhada com ele.

Depois de muito termos especulado entre nós que raio de pancada ele teria, acabámos por acordar que, muito provavelmente, será um savant. 

Tive divergências profissionais com ele resultantes da sua forma obsessiva e compulsiva de lidar com as situações. Mas sempre as superei pois os seus lados positivos superavam os negativos. Pessoalmente sempre me dei muito bem com ele, éramos amigos, sempre houve do meu lado muita empatia pois conseguia perceber como, sendo ele como era, vivia as situações.

E o que posso dizer é que pessoas assim são fascinantes... e um desafio para os outros.

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Autistic savant Daniel Tammet on ‘the language of numbers’ - BBC Newsnight

Am I capable of being loved? - Daniel Tammet 

Diferenças entre o Autista e Savant | ANA BEATRIZ


sábado, janeiro 20, 2024

Lucy



Antes que pensem que pirei, digo já eu que talvez sim. Por isso, vou já dando a razão a quem se mostrar apreensivo com os meus últimos posts. 

Contudo, que não se retirem conclusões precipitadas. Não virei gata assanhada nem vovó matando cachorro a grito. Apenas pratiquei em mim mesma uma espécie de lobotomia. Imaginem que se consegue fazer um furinho, rearrumar os neurónios que estão ensarilhados, injectar um cheirinho de oxigénio, de preferência em versão perfumada, quiçá floral, e que, uma vez tapado o buraquinho, a pessoa está mais leve, menos assustada, menos triste. E, nesse estado, consegue fazer posts como os três últimos. É isso.

Mas agora apeteceu-me mostrar que ainda consigo tentar fazer posts menos azougados. E, assim sendo, permitam que aqui traga, uma vez mais, alguém que me deixa sempre comovida, estupefacta, rendida. 

Lucy is completely blind and has a chromosome 16 duplication, which is a rare condition affecting mental health with autism traits and affecting overall communication. Lucy is hypermobile and suffers with CVS. She is in remission from bi-lateral retina-blastoma and is globally developmentally delayed.

However, Lucy has an extraordinary talent and it is by using this natural talent, Lucy is able to communicate. (...)

O vídeo abaixo mostra uma pessoa extraordinária, a todos os títulos extraordinária. Lucy, a menina cega e autista.

Blind girl, Lucy, with neurodiversity stuns crowd with Chopin piano performance!

‘She’s a miracle!’ Viewers break down in tears over ‘beautiful’ Chopin performance by blind girl, 13, at Leed's train station.

Viewers were left in tears after watching a blind 13-year-old girl flawlessly perform Chopin on the piano at a train station in Birmingham.

Budding pianist Lucy took to the keys on an episode of Channel 4's The Piano, a talent show hosted by Claudia Winkleman and judged by pop star Mika and concert pianist Lang Lang. 

The show involves pianists performing at Birmingham New Street and London St Pancras stations in front of crowds while the judges watch in a secret room, before selecting one pianist at the end of each episode to perform on stage.


The Amber Trust - Lucy's story

This film is about teaching a blind child with severe autism and exceptional musical potential.

It features Lucy, who is 10 years old, blind, with autism and severe learning difficulties but exceptional musical potential, with her teacher Daniel, and Adam Ockelford, founder of The Amber Trust.

Lucy’s story is a part of ‘Amber Sound Touch’, The Amber Trust’s online resource for teaching music to blind and partially sighted children and young people, including those with additional disabilities. 

The Amber Trust was founded in 1995 to provide blind and partially sighted children, including those with additional disabilities, the best possible chance to meet their musical needs and aspirations and fulfil their potential. Amber aims to enhance the lives of as many of the 25,000 visually impaired children in the UK as possible through music, and to promote high quality music provision.


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Caso prefiram um outro tipo de música e de performance, queiram descer até onde se usam umas elegantes calças justas

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sábado, março 18, 2023

Lucy

 

Tenho a informar que, certamente fruto da sessão de hidroginástica e da meia dúzia de braçadas de ontem, esta sexta-feira dormi até depois das onze da manhã. Nem mais. Acordei e vi as horas para avaliar se ainda era boa hora para dar meia volta e dormir mais uma ou duas horas. Onze e vinte. De penalti, desde que me deitei, às duas e pouco, até às onze e vinte. Se não tivesse visto as horas de certeza que o sono se prolongaria, o corpo pedia-me mais. Levantei-me com sono. 

De tarde, tanto era o sono, fui para o meu cadeirão reclinável, puxei uma mantinha, fechei os olhos e foi imediato, boa noite cinderela. 

Infelizmente o cadeirão está junto à janela de que o urso de guarda fez guarita. Assim, mal passa um carro ou uma pessoa ou mal o cão do lado se mexe, aí está a fera a ladrar como se não houvesse amanhã. Por isso, a sesta, se existiu, foi de minutos. 

E o dia foi completamente improdutivo. Uma ressaca a preceito como se um ontem tivesse sido um dia de excessos. Mal dá para acreditar.

Parece que continua um qualquer bicho dentro de mim a sugar-me a carga da bateria. Ando sem pilha. O olfacto e o sabor estão repostos, a tosse foi-se e só de vez em quando fico com algum pingo ou alguma sensação de estar como que a resfriar-me ou a começar a doer-me a garganta. Coisas breves, episódicas, mal vêm assim se vão. Agora esta falta de energia mantém-se. É uma estupidez sem explicação

Apesar disso, entre uma breve caminhada a meio do dia (na verdade, a seguir a ter tomado o pequeno almoço) e a do fim do dia, fiz mais de dez mil passos. Mas esta última, debaixo de vento e frio, foi feita a pensar no bem que ia saber-me a caminha daí por mais um bocado. E sinto as pálpebras pesadas como se estivesse com défice de sono. Dá para entender...? Não dá.

E o meu marido está na mesma. Continua a levantar-se cedo, mas, de dia, passa largos períodos deitado no sofá (hoje, por exemplo, a rever os penaltis do jogo de ontem e, provavelmente também a dormitar) e agora, depois de se ter deixado dormir há séculos, já foi para a cama.

Claro que não fomos ao ginásio. Constatámos o óbvio: é melhor deixarmos passar mais uns dias.

Caraças para esta falta de energia. 

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E depois do boletim clínico (sorry por abusar da vossa santíssima paciência), vamos ao que interessa. 

Lucy. 13 anos. Um talento increditável.

O cérebro humano, esse vasto universo desconhecido, é extraordinário. Dá ideia que, nos casos em que os recursos não são distribuídos como usualmente, em vez de se perderem, não: são alocados a outras zonas. 

O caso de Lucy (tal como, por exemplo, o de Kodi Lee), é ilustrativo dessa hipótese. 

Lucy também é autista -- autismo severo --, e cega. Ainda quase bebé teve que ser operada a tumores malignos nos olhos. Tem também algum atraso no seu desenvolvimento. E, no entanto, apesar de parecer viver isolada do mundo, tem um dom extraordinário. Toca piano de uma forma absoluta. Todo o seu corpo vibra. Não se consegue dizer se é ela que procura a música para se entregar ou se é a música que a procura a ela para a envolver e conduzir.

O professor de piano, Daniel Bath, descreve o peculiar e difícil método de ensino. Diz também que nunca trabalhou com ninguém tão talentoso quanto ela. Ele toca, ela reproduz. Ela engana-se, ele põe as mãos dela sobre as suas. Ela escolhe o que tocar. Ou Bach ou Chopin. Ou Debussy. Outras vezes jazz. Intercala. E improvisa. 

Vê-se e ouve-se e não se acredita. Muito comovente. 

Mika e Lang Lang, que fazem parte do júri, também se mostram surpreendidos e emocionados.

Para assistir com o coração.

Lucy 
Ao vivo no Royal Festival Hall na  final de "The Piano"


E abaixo um vídeo em que se percebe melhor

The Amber Trust  -- A história de Lucy


Um bom sábado
Saúde. Amor. Paz.

sábado, fevereiro 11, 2023

Kodi Leeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee...!

 

Quem é Kodi Lee?

Kodi Lee é um músico e performer americano que ficou conhecido pela sua participação no programa de talentos "America's Got Talent" em 2019, onde venceu a competição com a sua habilidade para tocar piano e cantar. Kodi é cego e autista e a sua performance emocionante e talentosa inspirou muitas pessoas ao redor do mundo. Desde então, ele tem-se apresentado em vários eventos e continua a encantar o público com a sua música.

Quantos anos tem?

Kodi Lee nasceu em fevereiro de 1996, o que significa que ele tem 27 anos em 10 de fevereiro de 2023.


[Respostas dadas pelo ChatAGT. Ando a testar a esperteza do bicho...]

domingo, maio 08, 2022

A consciência como uma pequena vela, uma pequena luz no vazio que não queremos que se extinga

 

Não frequento o Twitter, não tenho conta, não tenho curiosidade. 

Não tenho (mas até nem me importava de ter) um Tesla. 

Não penso ir a Marte nem me apetece pensar que um dia colonizaremos esse planeta. 

Ainda não tive vontade de perceber bem o que vai ser o Optimus, o robot humanoide de que se aguarda o protótipo este ano e a comercialização para o ano que vem (talvez porque receie que venha abrir uma porta muito perigosa). 

Também nunca me debrucei muito numa hipótese que me perturba -- que sei que é uma hipótese realista e assustadora: fazer o download do cérebro de uma pessoa e integrá-lo num robot.

A Musk pouca atenção tenho, pois, prestado.

No entanto, de Musk muito se tem falado, sobretudo agora por ter comprado o Twitter. 

Contudo, penso que mais se deveria saber. 

Creio que é o homem mais rico do mundo mas ele diz que Putin é mais rico que ele. Não faço ideia. Mas que é muito, incomensuravelmente, rico, isso creio que não oferece dúvidas.

Do pouco, muito pouco que sei dele, não me tenho sentido especialmente ameaçada. Tenho ideia que pende para o lado bom das coisas. Preocupa-se com o planeta, por exemplo. Contudo, mexe com coisas demasiado perigosas. A inteligência artificial, os poderosos meios de computação de que dispõe, a indústria de topo que tem ao seu dispor, o domínio da Física que subjaz a muitos dos seus empreendimentos, o imenso capital de que dispõe, um certo lado solitário e, por vezes, rebelde, e a sua infância que certamente lhe deixou marcas -- parecem-me ingredientes de um cocktail potencialmente perigoso. Até ver, não me parece daqueles malucos maléficos que não se ensaiam nada em destruir a humanidade. Pelo contrário, tem dado mostras de se preocupar com ela. Mas creio ser uma pessoa dotada de uma curiosidade insaciável, de uma vontade imparável, de uma inteligência arguta e, por ter meios para ir atrás das suas ideias, pode aproximar-se de portas que, uma vez abertas, jamais se fecharão. E não sei se, estando perante essas portas, não será sempre tentado a abri-las. E, solitário como tende a ser, não sei se haverá ao seu lado alguém que o segure quando chegar o momento de o segurar.

Já teve vários casamentos e relações (uma das últimas terá sido com a polémica e ambivalente Amber Heard, agora muito nas bocas do mundo devido ao mediático processo que a opõe a John Depp) e já teve oito filhos (mas apenas sete estão vivos), o último dos quais com um nome do além, X AE A-XII. 

Aparentemente agora não anda com ninguém pois foi à Met Gala com a sua bela, jovial e bem disposta mãe, uma modelo com uma grande pinta, Maye Musk.

Há algum tempo Elon Musk anunciou que lhe foi diagnosticado autismo --  o que não estranho. 

E, se não tenho tido curiosidade em saber muito sobre as suas actividades pessoais e sociais e sobre a sua extraordinária carreira, não deixo de pensar que estas pessoas que se tornam tão poderosas e que operam em sectores tão novos e tão desregulados, um dia podem tornar-se, mesmo que não voluntariamente, demasiado perigosas e, se isso acontecer, ninguém saberá como lhes deitar a mão. 

[Estou a escrever e a pensar em Putin. Não terão muito que ver um com o outro. Mas Putin também meteu umas ambições na cabeça e, por ser poderoso e por não haver a seu lado quem consiga travá-lo, está na bárbara deriva imperialista em que está sem que o mundo saiba bem como travá-lo]

Hoje tive curiosidade em ouvir Elon Musk. A entrevista é interessante. O entrevistador tem pinta, sabe ouvir, sabe questionar.

Elon Musk diz coisas curiosas (o título deste post foi extraído de uma destas entrevistas). E di-las com alguma contenção e sem aquela segurança com que habitualmente falam os que se encontram no patamar em que ele está (Bill Gates, por exemplo). 

Ao contrário de Bezos ou Gates que falam como quem já atingiu objectivos inimagináveis, Elon Musk fala como se ainda estivesse a dar passos no sentido dos objectivos que gostaria de alcançar. E isso ainda me parece mais preocupante. 

Mas pode ser que esteja a preocupar-me à toa.

Elon Musk On Twitter Fame, Loneliness, And AI


Elon Musk On Putin, Nuclear Power, And Love


E ainda esta: 

Work every waking hour  - Elon Musk



Desejo-vos um bom dia de domingo

sexta-feira, outubro 01, 2021

A vida e o amor dos pouco normais

 



Quando deixei o ensino e entrei no mundo das empresas sofri um choque monumental. Vinha fresquinha da faculdade e do mundo civilizado e fui parar a um antro de velharias. Havia gente nos escritórios em número que me parecia irracional, trabalhavam de maneiras que me pareciam irracionais, falavam uma língua que, toda ela, me parecia irracional. 

Do terreno, de manhã cedo, chegavam resmas de papel com os 'apanhados' do dia e noite anterior. Os papéis eram distribuídos por aquela gente toda que os 'tratava' noutros mapas. Tudo manual. 

Para mim tudo aquilo era um pesadelo. O ambiente era óptimo, muita gente nova, mas os novos encaixavam naquela máquina trituradora a que os mais velhos se tinham fortemente apegado. Toda a gente a fazer 'mapas' à mão, quanto muito com a ajuda de máquinas de calcular. Os 'mapas' finais eram enviados para a dactilografia para seguirem em letra de forma para os escritórios centrais. 

Quando me viam mais aborrecida com aquele atraso de vida, diziam-me que era mesmo assim mas que, rapidamente, eu seria transferida para os escritórios centrais onde me esperava um daqueles desafios que aparece uma vez na vida, aquele para o qual tinha sido contratada. 

Nessa altura conheci pessoas incomuns. Uma das mais estranhas era o Doutor Figueiredo. Avisaram-me que era uma pessoa difícil, que não valia a pena contar muito com ele. Mas, para um determinado assunto, só ele me poderia elucidar. 

Fui ao gabinete dele. Era um homem estranho. Amorfo. Um vago sorriso. Praticamente não falava. Pedi que me explicasse o assunto. Fazias pausas longas e desconcertantes, falava de forma vaga, outras vezes entrava num pormenor tão exaustivo que se perdia a noção do que se estava a falar. Ao fim de horas, exausta, saí dali sem perceber qual era o problema dele.

Todos os dias a meio da manhã e a meio da tarde juntávamo-nos na copa e era uma risota, um mundo de histórias para comentar. Os mais novos animavam o grupo mas por lá passavam todos, incluindo os mais velhos. Quem nunca lá punha os pés era o Dr. Figueiredo. Chegava de manhã, estava fechado no seu gabinete até à hora do almoço, depois ia almoçar ao refeitório, sempre sozinho, regressava ao gabinete e saía sempre à mesma hora. 

Enquanto lá trabalhei, raramente o via. Ninguém falava dele. Penso que toda a gente se esquecia da sua existência. 

Anos depois, quando alguém me falava daquelas instalações da empresa, eu perguntava: 'Que é feito do Dr. Figueiredo?'. E a resposta era sempre a mesma: 'Lá está'. Mil reestruturações se faziam, mudanças, promoções, transferências. Toda a gente, de uma maneira ou de outra, toda a gente mudava. Excepto ele. Acho que se esqueciam da sua existência. 

No outro dia uma ex-colega ligou-me. Falámos de mil coisas e, às tantas, diz-me ela: 'O sogro do meu filho é que teve Covid. Ninguém sabe como ele a apanhou pois nunca sai de casa e não se dá com ninguém.' Depois lembrou-se: 'Se calhar, lembra-se dele. É o Dr. Figueiredo' Fiquei banzada. 'O Dr. Figueiredo? Mas casou-se? Teve filhos? Como foi isso possível?' Ela riu-se: 'Agora está viúvo. Mas a mulher ainda era pior que ele... Uma coisa mesmo estranha... Quer dizer... a gente acaba por se habituar àquilo... Mas tiveram uma filha. A minha nora. Uma rapariga inteligente, bem disposta. É professora.'. Eu estava pasmada: 'Não falava, não interagia. Como arranjou mulher?' Ela ria. Confirmou: 'Um mistério. Não fala, nisso está igual. Mas havia de vê-lo com os netos. Brinca, deixa-os arranjar o jardim com ele. Os miúdos gostam muito dele'. Disse-lhe: 'Nunca percebi como é que uma pessoa tão estranha foi capaz de tirar um curso'. Ela disse: 'Tirou. E lê muito. E, sabe lá, toca muito bem piano'.  Ainda fiquei mais espantada. 'É autista?'. Ela confirmou: 'Sim. Mas não há muito tempo que se sabe disso. Sempre passou por ter um feitio esquisito. Diziam que era autista mas era no gozo, sem saberem o que diziam. Afinal é mesmo.'.

Como a prima silenciosa do meu pai. Nunca falava. No verão, juntavam-se os primos no Algarve. Toda a gente falava, eu e os outros miúdos faríamos barulho, era uma animação. Grandes mesas com comida feita no fogão de lenha, uma alegria. E ela, sorrindo, muda. Cresci a pensar que ela não falava mesmo. Toda a família pensava que era atrasada. Foi mais tarde, quando teve cancro e esteve internada na Palhavã (como, na altura, se designava o IPO), que, indo a minha mãe lá visitá-la, ela a surpreendeu, falando. Afinal falava, afinal não era atrasada. A minha mãe disse que o que ela era, era autista e que nunca ninguém quis saber de procurar saber alguma coisa sobre o assunto. Achavam que ela era diferente, esquisita, e aceitaram isso sem querer aprofundar o assunto. Vivia fechada dentro dela própria. Mas sorria, um leve e ausente sorriso, ouvindo as conversas.

E uma coisa é certa: se tantas vezes não nos entendemos a nós próprios, se temos reacções que nos surpreendem, se tantas vezes não entendemos as voltas que a mente dos que nos são próximos dão, se o cérebro é ainda um território por descobrir, imagine-se a dificuldade em perceber os que preferem não comunicar. 

Claro que o autismo já não é hoje o mistério que era há uns anos. Mas, ainda assim, não deixa de ser difícil lidar de perto com quem não segue o padrão de comportamento dito normal, sendo, tantas vezes, emocionalmente inalcançável.

O vídeo abaixo, que muito vivamente recomendo, é emocionante, em especial nos momentos em casal. Há ali uma comovente fragilidade mas, ao mesmo tempo, uma extraordinária força. 

Que sabemos nós do que é ser ou não ser 'normal'? 

How Autism Feels, From the Inside


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Pinturas de Leonora Carrington ao som de Brightside pelos The Lumineers

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Desejo-vos uma sexta-feira à maneira. 
Tudo de bom. Dia de borga.
Peace and love.

segunda-feira, maio 17, 2021

Não liguem ao que eu digo mas ao que eu, aqui, hoje, partilho convosco

 

Dia bom. Começámos por varrer as folhas do jardim. A árvore que eu tanto tenho querido preservar dizendo que é icónica, a adoração dos meninos que gostam de lhe andar em cima, dá-nos conta do juízo. As folhas caem, caem. Também nascem. Uma produção de que não se dá conta. Desesperamos: ou deixamos que o jardim fique submerso ou não temos descanso. Começa a formar-se na minha cabeça a ideia de que não pode ser.

No outro dia, o meu menino mais crescido dizia que se amarrava à árvore se me passasse pela cabeça cortá-la. E eu, só de ele dizer isso, fiquei logo com vontade de tudo desculpar à estouvada que tanto trabalho nos dá. Mas os sacos que se enchem com as suas folhas puxam noutro sentido.

O arbusto dos escovilhões está bem florido mas os filamentos encarnados vão caindo. Por baixo, o chão está coberto de uma camada que parece de veludo. Isso não varri, acho uma beleza.

Depois chegou o meu filho e a sua turminha para virem andar de bicicleta. Não estiveram muito tempo mas deu para os abraçar e para me encantar.

Depois, fizemos a nossa caminhada. Para o almoço fiz maruca cozida com batata, batata doce, cebola, cenoura, feijão verde e ovo.

A seguir, fomos buscar a minha mãe e fomos passear com ela. Mas estava um céu abafado e cinzento, o tempo ventoso, quase frio, não estava agradável para andar a cirandar na rua. Pelo menos, a minha mãe foi ver uma vila onde já não ia há muito tempo e que já mal reconheceu e um lugar bonito onde nunca tinha ido. 

Depois de a deixarmos em casa, fomos ao supermercado. E, depois das coisas arrumadas, fiz sopa. 

Estava a sentir-me um bocado cansada, a pensar que precisava de dormir nem que fosse por uns dez minutos. Mas não deu: tinha ainda muita coisa para fazer desde regar os vasos, arrumar roupa, tratar de uma papelada, etc.

E, por estúpido que possa parecer, ainda quero ir fazer umas coisas e já passa da uma da manhã. Portanto, o dia foi bom mas o meu marido tem razão quando se queixa: um gajo não consegue descansar. É mesmo.

Mas se o que tenho a dizer sobre o meu dia é mais do mesmo, não se poderá dizer o mesmo do que aqui abaixo partilho convosco. Momentos de beleza, de assombro, de reflexão, de pura genialidade. Espero que gostem.


The Making of
Rodin review – the sculptor in a ghostly new light

The Making of Rodin is a show almost entirely composed of plaster casts: fragile and small, delicate or solid, heavyweight, lifesize or gargantuan. It is thronged with figure groups, solo statues, trays of hands and feet in glass cases. Smooth, chipped, marked up in pencil for rearrangement or enlargement, provisional studies or final casts – they are all uniformly, overpoweringly white.



Ikebana -- Arte floral japonesa



Stuff everywhere! Bags, clothes, cars, iPads. We love our stuff. And over time, we’ve come to believe that this 'stuff' is what defines who we are. But our possessions will never fully satisfy the inmost desires of our soul. They never have. And they are not about to start. In fact, most of the time, it distract us from the very things that bring meaning to our lives.
Instead, our lives are defined by the choices we make.  It is these choices that define our character, our authentic self.  So choose wisely.  Do not miss out by placing importance on things instead of people.  Pursue beauty, hope, love and kindness. Pursue opportunity to improve this world for somebody else.  Let’s be simply beautiful. 


Jorja Smith – Home


Derek Paravicini e Adam Ockelford: In the key of genius
Born three and a half months prematurely, Derek Paravicini is blind and has severe autism. But with perfect pitch, innate talent and a lot of practice, he became an acclaimed concert pianist by the age of 10. Here, his longtime piano teacher, Adam Ockelford, explains his student's unique relationship to music, while Paravicini shows how he has ripped up the "Chopsticks" rule book. 

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Desejo-vos uma boa semana
Saúde. Alegria. Afecto.

quinta-feira, julho 11, 2019

Kodi Lee, o extraordinário autista cego e savant




Sou muito adepta de receber estagiários. Muito do rejuvenescimento das minhas equipas acontece por essa via. Aparecem desejando aprender, mente aberta a tudo, a receber ensinamentos, a interiorizar experiências, a pôr em prática o que aprenderam. E aparecem sem vícios, verdinhos, prontos para os primeiros passos, dispostos a fazerem-se à vida. E não sou de querer moldar nem de ser dirigista. Naqueles assessments de que muitas vezes aqui falo, durante os quais somos avaliados sob todas as perspectivas por subordinados, pares e  hierarquias e virados do avessos por psicólogos, é unânime que o meu estilo de liderança é outro: não sou de dirigir, de mandar fazer isto, aquilo e o outro, não sou de andar em cima. Pelo contrário, sou de lançar desafios, alguns de loucos, atirá-los para a piscina, pô-los a fazer aquilo com que nem sonham. E não ando em cima a ver como estão a desembrulhar-se: nem quero saber. Vão à procura, peçam ajuda, o que quiserem. Limito-me a perguntar se está quase, se está tudo bem. E quando vejo que a coisa já está quase no ponto, peço para ver o que fizeram, dou uns palpites, umas sugestões. E mal acho que a coisa está como eu a idealizei (e tantas vezes além do que idealizei!), atiro-os para a frente, quero que sejam eles a apresentar o trabalho que fizeram, dou-lhes visibilidade. 

E vejo-os felizes -- e tenho cá para mim que não há nada mais aliciante na vida do que a gente perceber que é capaz de se superar.

E depois tenho uma coisa e digo-o com toda a sinceridade (aliás, sempre o faço): acredito que uma pessoa é gente de pleno direito desde que nasce. Quando eu pedia a opinião aos meus filhos não o fazia por maneirismo, fazia-o porque genuinamente queria conhecer a sua opinião. Desde pequenos, sempre os respeitei. Pensem de maneira diferente ou idêntica à minha, eu aprendo sempre com eles. Acontece-me o mesmo com os meus netos, mesmo com o pequenino de dois anos. Gosto de saber o que pensam, admiro-me com o que sabem, com o que são capazes de fazer.

E com os jovens estagiários a mesma coisa: quero ouvir a sua opinião, quero que sugiram maneiras diferentes de fazer as coisas. E surpreendo-me com a qualidade das suas ideias.

Mas tem-me acontecido uma coisa de que já aqui falei algumas vezes. 

Quando seleccionamos os jovens nem sempre tenho oportunidade de estar presente. Mas tento. E acontece tantas vezes aparecerem jovens que surpreendem pela impreparação para a vida, incapazes de mostrarem um querer, uma vontade, de saberem o que querem na vida, que falam dos pais como se ainda fossem crianças pequenas e, no entanto, já andam pelos vinte e tais, que querem saber como se vai de casa para lá mesmo quando vivem perto, como se não estivessem habituados a andar de transportes. Com muita pena, muitas vezes não os quero. Tenho arriscado em casos em que aparecem cheios de timidez, ainda sem saber estar, sem à vontade. Mas se sinto que são lutadores, em especial se sinto que vieram de longe, que passam dificuldades, que fazem de tudo para se virar, aí sinto imediatamente que tudo farei para que 'vinguem'.

Mas há casos e casos. 

Há tempo apareceu um jovem que, na entrevista, falou pelos cotovelos, quis impressionar, mal eu começava a falar já ele estava a responder mesmo que não àquilo que eu tinha perguntado. Um jovem inquieto, desconcentrado, nervoso. Tentei acalmá-lo, tentei tirar a pressão. Impossível. Notoriamente um caso problemático. 

Ficou.

E foi um caso muito sério. Nunca conseguiu fazer um trabalho, nunca conseguiu prestar atenção a nada do que se lhe dissesse. Brincava com o telemóvel, sempre a fazer jogos.

Entrava e saía do elevador, atropelando toda a gente, auscultadores, isolado do mundo, agarrado ao seu brinquedo, aos joguinhos. Outras vezes, se era chamado à atenção, por instantes desligava-se do telemóvel mas, nessas alturas, as suas inabilidades sociais eram ainda mais gritantes: interrompia toda a gente, inoportuno, inconveniente.

Muitas vezes nos interrogámos se não seria autista. E todos dizíamos que autista ou outra coisa, alguma coisa era, normal é que não era.

E eu pensava tantas vezes na preocupação da mãe dele. Tanto que ela deveria querer que ele aproveitasse a oportunidade que lhe estávamos a dar.

Grande parte dos jovens estagiários acaba por ficar e tomara eu que não mudem de ideias. Já lá esteve um, talentoso, uma inteligência rara, tímido que só visto mas um diamante em bruto. Toda a gente o queria. E ele não quis. Queria ir fazer mestrado para Praga, queria conhecer mundo, não queria emprego fixo. Por mais que o aliciássemos, nada. Até que desistimos, percebemos que nada a fazer, era pássaro de arribação, nada o atraía para ficar. Desejámos-lhe felicidades e que voltasse para nós quando quisesse.

Mas com aquele jovem problemático foi o oposto: não pôde ficar, não conseguimos que se interessasse por nada, que aprendesse a fazer o que quer que fosse. Impossível. Deveria ter apoio especial, tratamento, acompanhamento especializado. Não sei que tipo de tratamento ou acompanhamento mas sei que ele não tinha a mínima possibilidade para se aguentar no mundo do trabalho.

E eu continuo a pensar no que será o futuro daquele rapaz e na preocupação terrível que os seus pais devem ter vendo-o já na idade adulta e ainda com um comportamento tão pouco responsável, tão indiferente ao meio em que se insere.

Mas mesmo que fosse mesmo autismo, nem todos os tipos de autismo são assim. É sabido que empresas como o Facebook ou a Google gostam de contratar autistas: penso que, quando se focam num assunto, não largam e, além disso, como pouco socializam, não apenas são muito produtivos como não conversam nem contam o que andam a fazer.

E depois há o Asperger, versão mais ligeira, como ainda no outro dia aqui o referi a propósito de Greta Thunberg. Mas há também os que sofrem de autismo profundo, vivendo num mundo só seu. Imagino como os pais devem sofrer por não conseguirem entrar no mundo de um filho impenetrável.

O vídeo que abaixo mostro impressiona muito. Emociona-me. É extraordinário sob todos os pontos de vista e peço que o vejam. Mas não é apenas o Kodi Lee que me emociona: é também a sua mãe. A presença daquela mãe, a alegria dela, o orgulho dela. E a reacção dele, no fim. Tudo me perturba, tudo me faz pensar que não sabemos nada da natureza humana, que não somos capazes de aceitar as diferenças em toda a sua maravilhosa extensão, que, ao sermos preconceituosos, mostramo-nos mesquinhos, limitados, imperfeitos.

Kodi Lee ganhou um botão dourado


[E se o vídeo do post a seguir alcançou mais de três milhões em menos de um dia, este aqui abaixo já vai em quase trinta e oito milhões de visitas em cerca de mês e meio]



Kodi Lee is a 22-year old blind and autistic musical prodigious savant. Kodi’s truly remarkable gift lies within his musical expression, perfect pitch, and passion for music in all forms. He has been performing his singing and piano expertise all across the globe for many years. His musical repertoire ranges from rock, to jazz, to R & B, and pop. Plus his mastery of the classics such as Bach, Beethoven, Chopin, Mozart and the list goes on. But he doesn’t stop there. He recently has picked up tap dancing and he continues to amaze with his musical expression through dance and vocalization. Kodi’s story and inspirational determination has been featured in Orange County Register, LA Times, numerous broadcast television features and documentaries. Born with optic nerve hypoplasia, surviving a life saving surgery at 5 days old, and being diagnosed with autism at an early age has never stopped Kodi. Kodi continues to pursue his musical career and his dream is to be a “rock star!"
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Usei pinturas de Bang Hai Ja para dar alguma cor às minhas palavras

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E a todos desejo um dia feliz

terça-feira, abril 23, 2019

Como uma miúda com Sindrome de Asperger está a agitar o mundo



Devo dizer que não engraço especialmente com miúdos com conversas de adultos, muito espevitados, muito sabichões. Também não acho grande piada à mediatização de talentos infantis. Por isso, quando comecei a ouvir falar na pequena Greta, não me interessei muito.


Até olhar mais atentamente e perceber que não existe ali vedetismo, não existe pose, não existe narcisismo. Greta não se arranja de uma forma apelativa, não se esforça para ser uma influencer ao estilo fashionist youtuber, apesar de muito solicitada não faz vida de selfies e likes, não se mostra deslumbrada com o palco que lhe dão nem com a adesão por parte de jovens um pouco por toda a parte do mundo dito desenvolvido.

Ouço-a e não há ali cedências ao facilitismo, não desloca a sua preocupação nem um milímetro da sua causa para si própria. Ela preocupa-se genuinamente com o que os adultos estão a fazer ao planeta. É uma lutadora implacável.

Frágil, uma menina. E, no entanto, a força da sua convicção está a agitar consciências e a despertar o mundo para a urgência na conservação do planeta.

É, na actualidade, um dos líderes mais carismáticos do mundo. 

Peço que vejam o vídeo abaixo. Nele Greta diz, com desarmante naturalidade que convive com o síndrome de Asperger e que talvez seja por isso que se entrega de uma forma tão intensa à causa do clima e do ambiente em geral.
A síndrome de Asperger é uma perturbação do desenvolvimento que afeta as capacidades de comunicação e relacionamento.

As crianças com esta síndrome exibem dificuldades no relacionamento com terceiros e interessam-se de um modo intenso por matérias muito específicas.
Quantas vezes se encara o futuro das crianças com Asperger com ansiedade, como se fossem incapazes de socializar ou de virem a afirmar-se por si próprias. Basta pôr os olhos em Greta para se perceber que não é bem assim.

Mas, independentemente dessa sua condição, há que pensar no que Greta diz. Poluição de qualquer tipo, falta de cuidado com os rios, com a qualidade do ar, falta de atenção à sustentabilidade dos recursos --- de tudo isto se fez o desenvolvimento industrial e o crescimento económico de muitos países. E tudo isto ainda acontece em muitos países, nomeadamente nos maiores, sem qualquer consciência, sem qualquer cuidado pelas gerações vindouras.

Por isso, muito gostaria que os jovens de todo o mundo obrigassem os adultos a reflectir e a mudar as suas más práticas, Com carácter de urgência. Como se a casa estivesse a arder.

How a 16-Year-Old Is Leading a Global Climate Movement

For hundreds of thousands of young people around the world, Greta Thunberg is an icon. In August 2018, dismayed by adults’ lack of action on the global climate crisis, the teenager sat herself down in front of the Swedish Parliament, pledging to strike from school every Friday until Sweden aligned its policies with the Paris Agreement. Greta’s actions have earned her a Nobel Peace Prize nomination and speaking engagements at the World Economic Forum and COP24—but most importantly, they’ve encouraged students from all over the globe to stand up for Earth and their futures.


E agora vejam, por favor, o emotivo e potente discurso de Greta aos líderes da União Europeia

Greta Thunberg's emotional speech to EU leaders

A sometimes tearful Greta Thunberg criticised EU leaders in Strasbourg for not taking the threat posed by climate change seriously enough. The 16-year-old activist said: 'If our house was falling apart our leaders wouldn’t go on like we do today ... if our house was falling apart you wouldn’t hold three emergency Brexit summits and no emergency summit regarding the breakdown of the climate and the environment.'


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terça-feira, junho 17, 2014

"Dentro da NSA inglesa" [ou de como alguns estranhos critérios de selecção são usados para admitir funcionários na GCHQ, o lugar na Europa onde toda a informação que circula na internet é passada a pente fino - ex: homens, jovens, brancos, um certo grau de autismo. Ou de como a ética se vai diluindo até ser um conceito vago relativamente ao qual os quase-hackers precisam, de vez em quando, de ser aconselhados - sabe-se lá de que forma]


No post abaixo já vos presenteei com a minha douta opinião sobre a humilhante goleada de 4-0 da Alemanha sobre Portugal. Talvez agora a infantil euforia que parecia ter tomado conta dos media esfrie um bocado e deixe a equipa concentrar-se no que tem que fazer dentro das quatro linhas (como sói dizer-se). Alguma maturidade e capacidade de reflexão não fazem mal a ninguém.

Admirados com esta minha ousada incursão...? 
Se o Professor Marcelo pode estar meia hora a dissertar sobre futebol em horário nobre na TVI, disputando o lugar aos comentadores encartados, porque não hei-de eu, que também sou especialista em generalidades, dizer o que me vem à cabeça, ora essa? 
Não sou de andar a enviar piu-pius pelo espaço galáctico nem selfies enternecedoras pelo facebook ou blogosfera, nem a distribuir likes e outros fogachitos por amigos e afins mas, enfim, não sou de ferro: também tenho os meus momentos de fraqueza. E é assim que, não resistindo a cavalgar a onda, me permito pôr-me para aqui a opinar sobre o 1º jogo da selecção neste Mundial. 
Não sou dada a pressentimentos, a nada disso, mas qualquer coisa me andava a dizer que isto tinha tudo para ser um flop. Não ouço vozes do além (credo, vade retro) mas, no meio dos meus voos planados, acho que consigo captar a fragrância do ar do tempo, juntar um e um e, por vezes, até intuir que a coisa é bem capaz de dar dois. E, se não der dois, dá onze que é quase a mesma coisa.

Mas isso é no post a seguir. Aqui, agora, a conversa fia mais fino.

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Andava a prometer-vos isto há que séculos mas queria traduzir e ainda não tinha conseguido tempo para isso. É hoje. Mas agora, para o conseguir acabar, vou confessar: tive que fazer batota. Substituí uns dois ou três parágrafos, ou quatro, nem sei, por uns pontinhos entre parêntesis - caso contrário ainda não seria hoje e já me sentia uma vendedora de banha da cobra. De qualquer maneira, no final, vou deixar-vos o link para o artigo original (até para que, quem se entenda razoavelmente bem com a língua inglesa, possa ler exactamente o que o autor escreveu já que eu, inadvertidamente ou por nabice, posso ter subvertido alguma parte do texto ao traduzi-lo apressadamente). 

Os links que aparecem no texto são da minha responsabilidade. Usei graffitis do grande Banksy, de quem tantas coisas já aqui publiquei, respeitando o espírito do artigo original que apresenta um recorte de um graffiti que lhe é atribuído. Usei também duas outras imagens que são de artistas de rua inspirados nele (e que encontrei num livro que aqui tenho e que se chama Planet Banksy - The man, his work and the movement he inspired). E usei duas fotografias que encontrei via google para ilustrar a GCHC e a máquina usada para decifrar as mensagens nazis.


A detail from graffiti art is seen on a wall near the headquarters of Britain's eavesdropping agency, Government Communications Headquarters, known as GCHQ, in Cheltenham, western England April 16, 2014. 

British media have attributed the new work to acclaimed British street artist Banksy



Mad Rush para nos acompanhar, por favor

[Philip Glass]



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Depois de uma hora a secar com dois oficiais de comunicação, o acesso a Doughnut – o maior edifício de serviços secretos construído fora dos Estados Unidos e onde trabalham 4.000 empregados – foi assegurado.

Os telemóveis são confiscados e cartões de acesso e respectivos códigos de acesso são emitidos.

Imediatamente à nossa frente, encontramos na parede o emblema da Sede de Comunicações do Governo (GCHQ), que está sedeado em Cheltenham, Gloucestershire em Inglaterra. Depois de subirmos por uma escada mal iluminada, estreita e em espiral, chegamos ao que se chama 'A Rua' (‘The Street’) no 2º andar. The Street, ocupada por agentes, é como que um caminho largo e comprido, mais de 500 metros de comprimento, decorada com palmeiras e sofás e cadeiras confortáveis, circundando o interior do edifício.

A primeira paragem é o Museu de Criptografia, onde se encontra a famosa máquina Enigma, para lembrar como uma anterior versão da GCHQ descobriu os códigos nazis na II Guerra mundial. É também uma recordação de como o mandato do CGHQ se ampliou e de como a tecnologia se desenvolveu.  

Escondidos em pisos bunckerizados nos pisos imediatamente abaixo estão os muito criticados super-computadores que podem coligir e armazenar 21 petabytes de dados por dia (192 vezes o conteúdo de toda a British Library).

Edward Snowden é um tópico inevitável. O antigo contratado da National Security Agency (NSA) e, depois, delator frustrou e encolerizou muita gente em Doughnut. O antigo director Sir David Omand, actualmente professor de segurança nacional e contra-terrorismo em Kings College London, está frustrado com a deficiente interpretação que a comunicação social fez a partir das revelações de Snowden sobre a forma como se trabalha na GCHQ.

by Dr. D

"A distinção entre vigilância massiva e acesso ‘a granel’  aos dados é confundida nos media”, diz ele. “Vigilância massiva significaria persistente observação da população. Ora observação requer observadores. Não há tal vigilância massificada na GCHQ.  Computadores, não pessoas, têm acesso aos dados a granel, zilhões de gigabytes, de modo a encontrar o pequeno conjunto de informação relevante para a intercepção legalmente autorizada ao terrorista, ao criminoso ou a qualquer outro alvo legítimo.”

Neste momento, um analista GCHQ apenas pode ver o endereço IP do dispositivo suspeito ou do endereço de email do utilizador, quando e a partir de onde a informação teve origem e a identificação do servidor acedido. O analista pode descobrir que o suspeito fez pesquisas no Google mas não vê as palavras que ele usou para pesquisar,  que ele acedeu ao site da Amazon mas não ao que ele comprou; o endereço de email para o qual um email foi enviado mas não o título da mensagem nem a mensagem em si. 

Se um analista quiser ver o conteúdo de um mail ou mensagem, terá que ter um mandato assinado pelo Home or Foreign Secretary.

by Banksy

O Doughnut foi ideia de Omand. Foi ele que teve a ideia de trazer para debaixo do mesmo tecto várias agências anteriormente dispersas. Aberta em 2003, o custo foi um tímido £1 billião ($1.67 billion), quase metade do que custou a instalação de equipamento técnico.

É um edifício impressionante. Não há lugares fixos, sentam-se onde há lugar livre e vão para onde a missão atribuída determinar, guardando os pertences pessoais num pequeno armário (pequeno até à altura dos joelhos); todos os gadgets são plug-and-play. E não é fácil arranjar-se lá emprego.

A selecção de novos empregados é um processo personalizado que leva cerca de nove meses e envolve testes para garantir que não usou drogas no passado. Os cozinheiros, os empregados dos bares e os empregados da limpeza são escrutinadados ao mesmo nível dos agentes e o pessoal admitido é sujeito a pesquisas aleatórias conduzidas por oficiais de segurança.

by Banksy

Um número significativo de funcionários da GCHQ tem uma pontuação elevada no espectro do autismo. 


Os gestores tentam encaixar pedidos inusuais como foi o caso de um pedido para organizar a mobília segundo um determinado padrão geométrico. 

Das centenas de empregados que se vêem em The Street, dois não são brancos, cerca de meia dúzia são mulheres e apenas uma mão cheia tem mais de quarenta anos. Os restantes são homens, nos vinte e poucos, aspecto nervoso (uma velha piada interna na GCHQ é: um extrovertido é alguém que olha para os teus sapatos quando estás a falar com ele) e cerca de 5 por cento usam t-shirts (muitas com motivos Marvel ou super-heróis da DC).


by Banksy

Ponham-nos ao pé de um hacker e não se vai perceber a diferença. Um desses hackers era o adolescente inglês Jake Davis (AKA Topiary), um elemento chave nos grupos activistas de hackers Anonymous e LulzSec. Traído pelo hacker americano que se tornou informador do FBI Hector Monsegur (AKA Sabu), Davis usou um dispositivo electrónico durante dois anos (para que as autoridades pudessem monitorizar as suas actividades) e acabou a passar um mês na prisão em 2013.

Monsegur foi poupado a uma longa sentença pela sua extraordinária cooperação e foi libertado no dia 28 de Maio depois de um ano sob supervisão.

Sabemos, graças a documentos divulgados por Snowden, que Davis era visado pelos GCHQ, através dos antes secretos Human Science Operations Cell (HSOC), que combatem o fogo com o fogo, disfarçando agentes como hackers, infiltrando grupos online, distribuindo ataques de (DDoS), armadilhas e vírus de forma a tomar conta dos seus alvos.


by Banksy

E aqui reside o dilema moral. 

Para apanhar o mau da fita, até onde se pode ir? Podem inocentes ser apanhados uma operação da GCHQ HSOC? 

E o que acontece quando a GCHQ se engana? 

De acordo com os relatórios Interception of Communications Commissioner, o orgão que inspecciona o trabalho do GCHQ, o GCHQ comete poucos enganos quando acede a dados pessoais – um total de oito em 2011-12, o que é menos do que uma taxa de erro de 0.2 por cento.

(…)


by Banksy

Perto da saída de Doughnut está a Employee Assistance (Assistência ao Empregado), onde é providenciado aconselhamento, incluindo por um especialista em assuntos relativos a ética. 

Também há um centro de bem estar e uma sala de recreio com matraquilhos, televisão, jornais, dominós e cartas. 

Há um placard com um anúncio de um grupo de empregados gays e um outro anúncio de um Internet Café onde é permitido o acesso ao Facebook e ao Twitter.


Tudo razoavelmente normal – num extraordinário edifício de escritórios em Cheltenham.


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O artigo completo da NEWSWEEK, intitulado Inside England’s NSA e da autoria de Kris Hollington, pode ser lido aqui.


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Relembro: sobre os 4 baldes de água fria em cima das estrelas do Reality Show Selecção Nacional com Rinaldo incluído, é favor descerem até ao post seguinte.


E já cá volto com a descodificação do enigma de ontem

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