O LS é um generoso Leitor que muito estimo e de quem recebo poemas, frequentemente lidos pelo próprio.
Creio que ele não se importará da minha inconfidência: apetece-me partilhar com os demais Leitores deste meu jornal não apenas os dois poemas que hoje recebi bem como parte do texto que os acompanhava:
Sei que foge, a sete pés, dos estados melancólicos. Melhor, em si, a luz e alegria de viver interditam a ligação osmótica com a sombra e a nostalgia.
Apesar disso...
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Não concebo que estejas ausente Num outro lugar, mesmo que inventado Na substância que a invenção consente: Foz de rio, mar navegado, Recanto escondido no pensamento, Caminho feito ao arrepio, Rasgado no grito, aberto no lamento, Coado na vastidão do frio. Me dizem da irremediável partida Algures num já distante dia Com vozes caladas de despedida Asas quebradas pelo vento, Urgências que nenhuma força adia. Me dizem da tarde inacabada Do rasteiro voo de um tormento, Vestígios de um débil respirar Na voz quase apagada Ímpio chicote vergastando o ar. Me dizem e mesmo assim não acredito Continuo a encontrar-te por aí São falsas notícias para me deixarem aflito Quem sabe, tentarem que me esqueça de ti. Companheira nas mesmas viagens, Como sempre imprevistas e casuais Acontecidas no largo rio sem margens, Nos gestos abrangentes e totais. Não me deixarei pelo desespero dobrar, Talvez chegues novamente com o chegar De alguma, ainda que longínqua, alvorada Na minha memória, apesar de tudo, intocada
Julgo-te longe e distante,
Perdida num sítio indefinido do espaço,
Algures em algum levante
Onde o sol desenha a rota do seu passo,
Galopante,
Em redor do teu abraço.
Mas que sei eu de distâncias,
De enigmáticas lonjuras?
Das ressonâncias
Do caminhar nessas ruas escuras,
Da conversão do breu
Em rituais de rutilâncias
Onde a luz, de todo, ensandeceu?
Como entender o substantivo
Lugar, algures no infinito,
Onde fica cativo
O eco do teu grito?
Resta-me apenas esta dormência,
Esta estranha inquietude
Negando a tua ausência,
Forjando a plenitude
Deste incessante tateio
Sobre e sob a pele,
O abraço e o enleio
Do indomado e liberto corcel.
Não que as palavras do LS precisem de imagens mas isto é coisa minha: gosto sempre de as ter, tal como gosto de música que, neste caso, vem pela mão do pianista Sviatoslav Richter que interpreta Bach sobre filme Nostalgha de Andrei Tarkovsky. As pinturas que ilustram a melancolia são, respectivamente, de Olaya Caldera, Degas, Louis Jean François Lagrenée e Edvard Munch.
Afinal na outra noite pouco deu para ler o Butcher's Crossing. Este fim de semana peguei nele e peguei também num outro, pensando ir petiscando deste segundo e, como pièce de résistance, ir degustando o primeiro. Mas as coisas (não profissionais), comigo, não costumam ser bem como as penso - quando me deito a ler, ou adormeço ou nem lá chego, metem-se outros programas. Também, verdade seja dita, não me forço a coisa nenhuma (a nível não profissional, uma vez mais). E, portanto, acabei por me ficar, e fiquei de gosto, pelos petiscos.
O livro a que me refiro é Think Like an Artist (... and lead a more creative, productive life) de Will Gompertz.
Gostando eu de ler livros sobre arte, estava curiosa sobre este; e, de facto, foi uma agradável surpresa.
Para que se tenha uma ideia sobre o que versa, traduzo o título dos seus capítulos:
A flagelação de Cristo de Piero della Francesca, 1458-60
1. Os artistas são empreendedores [com referências a Andy Warhol, Vincent van Gogh, Theaster Gates]
2. Os artistas não falham [com referências a Bridget Riley, Roy Lichtenstein, David Ogilvy]
3. Os artistas são verdadeiramente curiosos [com referências a Marina Abramovic, Gilbert & Gilbert, Caravaggio]
4. Os artistas roubam [com referências a Picasso]
5. Os artistas são cépticos [com referências a J.J. Abrams, Piero della Francesca]
Ski Jacket, Peter Doig, 1994
6. Os artistas pensam no todo e no detalhe[com referências a Luc Tuymans, Johannes Vermeer]
7. Os artistas têm um ponto de vista [com referências a Peter Doig, Rembrandt, Kerry James Marshall]
8. Os artistas são corajosos [com referências a Michelangelo, Ai Weiwei]
9. Os artistas param para pensar [com referências a David Hockney, Marcel Duchamp]
10. Todas as escolas deveriam ser escolas de arte [com referências a Bob and Robert Smith]
11. Pensamento final
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Tão interessantes são os diversos temas abordados que, a cada capítulo, me deu vontade de aqui falar sobre ele. Contudo, não dá, tenho que escolher um. E escolho o capítulo que refere que os artistas, por norma, não criam a partir do nada e aproveitam, de alguma forma, as experiências e as conquistas dos que os precederam.
Não vou ser exaustiva pois este não é um espaço que se compadeça com tratados. Vou antes transcrever algumas citações ou mostrar alguns dos pontos sobre os quais se fala nesse capítulo 4 já que é um tema que me interessa bastante.
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"Não há nada de novo debaixo do sol" - Eclesiastes 1:9
"Os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam" - Picasso.
A frase de Picasso foi roubada a Voltaire que, dois séculos antes, disse: "A originalidade não é senão uma judiciosa imitação"
"Se eu vi mais longe foi porque me ergui sobre os ombros de gigantes" - Isaac Newton
"Criatividade é saber como esconder as suas fontes" - Albert Einstein
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Como exemplo de obras inspiradas por outras, limito-me a dois ou três dos exemplos referidos no livro, justamente relativos ao Picasso dos primeiros tempos e que fizeram parte de uma exposição que deve ter sido espantosa: Becoming Picasso, e sobre a qual mostro abaixo um vídeo:
Pablo Picasso, Bailarina anã (1901)
que terá sido inspirada pela seguinte escultura de Degas (à qual Picasso deu um certo toque de flamengo):
Refere-se ainda que Steve Jobs, o co-fundador da Apple, citava Picasso naquilo de 'os bons artistas copiam, os grandes artistas roubam' antes de dizer que "Nós (na Apple) nunca tivemos qualquer vergonha em roubar grandes ideias". O New York Times refere que a Apple estimula os seus designers a depurarem as linhas e as formas, mostrando-lhes a série de 11 litografias de Picasso (1945) na qual ele parte de uma representação naturalista de um touro, evoluindo até uma representação quase abstracta.
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No domínio da literatura, fala-se na disrupção social que começa frequentemente por ser interdita para, mais tarde, se tornar admissível. O exemplo referido é o romance de D. H. Lawrence, O amante de Lady Chatterley, cuja versão integral se manteve banida no Reino Unido até 1960 devido à linguagem explícita na descrição de cenas sexuais.
Para ilustrar, em vez da transcrição de um trecho do livro, opto pela adaptação para cinema e, embora goste imenso da versão francesa, de Pascale Ferran, mostro o vídeo de anúncio da nova versão da BBC.
Lady Chatterley's Lover: Trailer
Will Gompertz diz que, aproveitando a onda de permissividade que, entretanto se formou após a autorização da versão completa de Lady Chatterley's Lover, a Philip Larkin já lhe foi possível usar linguagem sexualmente explícita, como é o caso do seguinte poema de 1971 (cujo título, de resto, foi extraído do poema Requiem de Robert Louis Stevenson)
This Be the Verse de Philip Larkin (lido pelo próprio) - poema do qual extraí o actualíssimo título deste post
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O tema é aliciante mas forço-me a atalhar porque o post já vai extenso, muito para além da conta. Contudo, como acima referi, deixo-vos ainda com um pequeno vídeo da exposição que decorreu em 2013 na The Courtauld Gallery
Já agora, à laia de apresentação de Will Gompertz, mostro também um vídeo feito a propósito do lançamento do seu livro anterior:
What are you looking at?
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Maravilhoso o mundo da arte.
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O essencial é ser comovido, amar, ter esperança, estremecer, viver - disse Auguste Rodin (e talvez tenha razão)
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Muito gostaria ainda de receber a vossa visita no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje vou pela mão de Gastão Cruz ao som de sinos que cruzam esta noite de chuva intensa.
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Desejo-vos, meus Caros leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.
A todos desejo sorte, saúde, amor e dinheiro para os gastos.
Pamela Lucciarini com a Orquestra do Divino Sospiro interpreta Antigono (1755) de Antonio Mazzoni, ária escrita propositadamente para Caffarelli
Bailarinas de Degas
Todos os anos havia a festa da escola. Era um acontecimento que era precedido por meses de trabalho. Se era só bailado não garanto. Mas era no bailado que eu participava e é só isso que recordo. Tenho ideia que havia figurantes, acontecimentos paralelos em fundo ao longo dos cenários, o que permitia acomodar todos os meninos, mesmo os que não dançavam, mas disso já não estou certa.
Durante meses, os treinos, as aulas de dança, decorriam na escola. Ao fundo da grande sala, todo o espaço estava liberto para permitir os exercícios e, depois, as mais diversas coreografias. A professora de dança, também tocava piano e muitas vezes era ela que tocava enquanto a ajudante verificava a nossa precisão e elegância de gestos. Mas, a maior parte do tempo, era com música gravada ou com discos que dançávamos. Era ríspida, perfeccionista, zangava-se facilmente essa professora. Para alguns dos meninos, os que não gostavam de dançar, as aulas acabavam por ser um castigo. Mas para mim era um prazer.
Bailarinas de Edgar Degas
Depois, depois de muitas e muitas horas de treinos, quando já estávamos bem encaminhados, começávamos a ir de tarde para a grande sala em que nos iríamos exibir. Íamos em carrinhas, logo a seguir ao almoço. Uma festa. Lembro que no inverno íamos apertados, encasacados e, quando saíamos dos ensaios, já era de noite, talvez porque os dias fossem pequenos.
Ali chegados, subíamos para as salas por trás do palco e era uma tremenda agitação, uma alegria, uma excitação. Queríamos ir logo para o palco e espreitávamos atrás da grande cortina de veludo, ansiosos.
Umas semanas antes acontecia outro momento alto: começavam a chegar os fatos.
Bailarinas de Edgar Degas
Fatos lindos, tules, sedas, fantasias maravilhosas e coloridas. Não sei de onde vinha tudo aquilo mas era uma emoção extraordinária que me fazia sentir um frio gostoso no estômago, borboletas azuis na alma, um nervosismo que começava a desenhar-se. A professora e a ajudante começavam a atribuir os fatinhos a cada menino e nós experimentávamos e ficava sempre tudo bem. Fatos lindos.
Podíamos levá-los para casa para algum acerto e para irmos ao fotógrafo imortalizar o personagem. Era um orgulho.
No entanto, da primeira festa lembro sobretudo a humilhação, a primeira humilhação. Creio que, felizmente, a única.
Era a festa das estações. Primavera, Verão, Outono, Inverno. Entravam os meninos da primavera, dançavam, iam-se embora, entravam os do verão e assim sucessivamente.
Bailarinas de Edgar Degas
Eu entrava logo na primavera, era uma flor, ia vestida de violeta. Vejo-me ainda na fotografia. Estou sentada num banco comprido, forrado de seda. Tenho os pés cruzados e as mãos apoiadas de lado, numa posição elegante de ballet. A saia, curtinha, tinha por baixo tule lilás, a armar, mas o tule era visível, parecia uma espuma violeta, e, por cima, uns gomos de seda verde musgo e umas pétalas de seda em lilás que arqueavam para fora. A corola da violeta. A parte de cima era cingida ao corpo em veludo no mesmo tom de lilás, debruado a seda, no mesmo verde musgo. Uma pequena florzinha com quatro anos. Os cabelos compridos ao longo dos ombros, levemente ondulados, claros. Por fora compenetrada, por dentro muito feliz.
No dia da festa toda a gente andava num grande nervosismo, nós não parávamos sossegados nem calados e a professora e a ajudante e todas as outras empregadas da escola tentavam garantir que estávamos bem arranjados, prontos, a postos atrás da cortina. A professora, nesse dia, andava ainda mais encarnada, enervada, numa tensão terrível apenas atenuada, junto de nós, pela boa disposição da ajudante.
Depois de muito esperarmos, finalmente, começou a música, ouvimos bater palmas.
Entrámos, éramos as florzinhas da primavera. Dançámos, dançámos e, depois, a coreografia pressupunha que as florzinhas se deitassem no chão e que ali ficássemos enquanto a música mudava e começavam a entrar as florzinhas de verão, os frutos, as abelhas. Nessa altura, levantar-nos-íamos e dançando, retirar-nos-íamos e começaria a coreografia dos meninos do verão.
Bailarina de Edgar Degas
Cada menino ficava deitado numa posição pré determinada e eu ainda me lembro da minha. De barriga para baixo, com um braço dobrado para apoiar a cabeça, uma perna flectida, olhando para a frente.
E, nessa altura, pela primeira vez, reparo que a sala está cheia, imensa gente. Fico admirada, tanta gente, tanta. Mas a luz incidia nos artistas do palco, não na assistência. Tento descobrir os meus pais. Mas não consigo. Olho, olho e nada. Depois resolvo fazer uma pesquisa sistemática, fila a fila, cadeira a cadeira. Mas com tão pouca luz, mal se vê. Começo a ficar um bocado aflita, não os vejo.
Fotografia de Helmut Newton
Só dou por mim quando toda a gente bate palmas e alguém me vem levantar. Em vez de sair na altura certa, tinha ficado ali deitada, o tempo todo, a olhar para a assistência. Não dei pela passagem do verão, do outono, do inverno. Nada. Sempre ali humilhantemente estendida no meio dos outros que dançavam, sem dar por nada.
Quando saímos para os bastidores, a professora perguntou-me: 'Então, deixaste-te dormir ou o que é que te aconteceu?' e eu nem consegui ânimo para explicar. Senti que não havia desculpa para tamanha falta de profissionalismo. Tantos meses de preparação para chegar ao grande dia e acontecer uma coisa destas. E, no fim da festa, quando finalmente, os meus pais me resgataram, já eu ia cheia de vergonha, também me perguntaram: 'Então mas o que foi que te aconteceu, entravam e saíam os outros e tu ali, deitada no chão...?'. Senti, nessa altura uma culpa horrível, uma vontade de não encarar ninguém.
Lembro-me que na segunda feira seguinte fui cheia de vergonha, com medo que gozassem comigo, tinha vontade de não mais voltar à escola. Era grande demais a humilhação.
Mas não, ninguém me disse nada, nem os meninos, nem a ríspida professora, nem a ajudante brincalhona. Senti que estavam a ser misericordiosos, que me estavam a poupar. E nesse dia, à medida que as horas passavam e que ninguém gozava comigo, a minha alegria ia aumentado. Acho que foi a primeira vez que tive a noção tão explícita da imensa generosidade dos outros. E, se sempre fui uma criança alegre e despreocupada, acho que foi a partir daí que passei a sentir-me sempre agradecida pelo que tenho, pela amizade dos outros, pela vida.
Nos anos seguintes a festa correu sempre bem, pelo menos do que me lembro.
Fotografia de Helmut Newton
Lembro-me especialmente da última vez que participei. Já andava no liceu, no 1º ano (actual 5º) mas a professora pediu aos meus pais que autorizassem que eu, apesar de já não andar lá, ainda participasse. Foi uma despedida em beleza. Eu era a abelha rainha. Adorei.
Num tom dourado, tule, sobre tule, corpete de seda, eu dançava, dançava. Havia os zangãos, as obreiras e todos construíam um bailado harmonioso, coordenado. Mas eu era abelha rainha. Tinha o papel mais difícil, a coreografia era complicada e muito longa. Mas a música era linda, o meu fato era lindo e o meu corpo era flexível, ágil, elástico, extensível. As minhas pernas elevavam-se até ao impensável, e eu elevava-me e, ao saltar, sentia que voava, e rodopiava como se não fosse eu, eu fora de mim, dançando, tomada pela magia e encanto da música. Eu, menina, cheia de graça.
Fotografia de Lois Greenfeild
Não sou saudosista, nunca digo 'no meu tempo' porque acho que 'o meu tempo' é aquele em que vivo, o tempo presente, talvez até o tempo futuro. Ao longo de toda a minha vida tenho tido a sorte de ter momentos bons, mas nenhum melhor que os que se seguiram e, certamente, não melhores do que os que estão para vir. Não obstante, é sempre com carinho, que volto aos dias cheios de encanto da minha infância.
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Espero não vos ter maçado muito (além disso, uma vez mais, escrevi demais; por mais que parta com a intenção de ser sucinta, começo a escrever e distraio-me).
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Quem aqui costuma visitar-me conhece a minha admiração por Sylvie Guillem. Tivesse eu sido bailarina, era como ela que eu gostaria de ter sido. Aqui vos deixo mais uma interpretação desta bailarina vibrante, bem humorada, de longas pernas e imensa elegância.
Não sei responder. Poderia tentar mas ficaria sempre aquém
do que qualquer outra pessoa diria. É uma coisa tão subjectiva. Eu gosto de
amarelo porque, para mim, é luz, é alegria. Para outras pessoas o amarelo pode
ser considerado berrante, uma cor de mau gosto. Ou acho um homem moreno mais sexy mas haverá quem os prefira lourinhos.
Quando há uns anos andei à procura de casa, vimos dezenas
de casas, novas ou usadas. Algumas das usadas ainda estavam mobiladas e nós
ficávamos espantados com a fealdade do que víamos. Móveis escuros em chão escuro ou com carpetes
escuras, portas escuras, bibelots soturnos, quadros horríveis pregados quase
junto ao tecto, sofás medonhos, etc, e no entanto as pessoas mostravam as casas
com o desvelo de quem mostra uma coisa muito bonita, muito querida. O que para
nós era horrível, para eles era a casa dos seus sonhos. Uma vez fomos parar a uma moradia que, pela descrição parecia uma maravilha. Quando lá chegámos só não virámos costas de imediato por boa educação. O chão era de mármore mas todo cheio de efeitos especiais, as portas tinham vidrinhos encaixados em metal, puxadores trabalhados de um dourado reluzente, no hall vitrais do mais duvidoso que se imagina, e cortinados cor de rosa no quarto e uma colcha inenarrável e tudo cheio de enfeites, quadrinhos de péssimo gosto, uma coisa que só vista . Por onde passávamos, eu só não ficava de boca aberta porque sei comportar-me em público. Pois a senhora, que me contou a sua história (o marido tinha-a trocado por outra e, para efeito de separação de bens, ela não tinha como compensar o marido caso ficasse com a casa pelo que a iam vender). E, ao falar em desfazer-se da casa, a senhora chorava, era a casa que tinha escolhido, que tinha decorado com tanto carinho, uma casa tão boa, tão bonita. Eu ouvi-a e senti a sua genuína angústia, era como se estivesse a desfazer-se de uma parte de si. Ela não compreenderia se soubesse que eu achava a casa horrorosa.
É como a caligrafia. O que é 'ter-se uma letra bonita'? Bem, em abono da verdade se diga que é questão que quase não se põe, dado que quase não escrevemos à mão. Mas, ainda assim, o que é uma letra bonita?
Há poucos anos frequentei o curso de Grafologia no Centro Nacional de Cultura, ministrado pelo Dr. Alberto Vaz da Silva. O local é óptimo, as instalações lindas e o professor uma pessoa interessantíssima. Pois bem, aprendi que a letra de uma pessoa revela muito do que ela é. Uma pessoa solar terá uma letra solta, fluida, as letras juntando-se umas às outras com elegância e naturalidade, uma escrita rápida. Pelo contrário, uma pessoa com amarguras terá uma escrita mais densa, uma letra mais apertada, mais incerta. E há a escrita ascendente e a inclinada para a frente que significa um apelo pelo futuro, pela novidade, uma vontade de seguir em frente, e há o contrário que já indica o peso do passado ou alguma depressão. E há a forma como se terminam as palavras e as margens à direita e à esquerda e a forma como se assina e o local em que se assina e tudo tem o seu significado. Uma letra pode ser muito certinha, muito bem feitinha e isso significar que a pessoa ainda é um bocado imatura ou que é muito sujeita a convencionalismos ou que é artificial, prezando, acima de tudo, as aparências..
(O estudo da grafologia é aliciante. Sempre que posso, pratico estas análises e, de facto, sabe-se muito de uma pessoa pela análise dos seus manuscritos. Só ainda não fiz a análise da minha escrita; acho que corria o risco de ser tendenciosa)
Por isso, o que é uma letra bonita?
Resumindo, a beleza não existe enquanto tal: é algo que varia
consoante a pessoa que a aprecia.
O que eu sei é que a beleza proporciona um bem estar
mental e emocional, eleva-nos, apazigua-nos. Apetece-nos estar perto, tocar,
deixarmo-nos envolver pelo que é belo. Um quadro, uma paisagem, uma escultura,
um filme, um rosto, uma expressão, um movimento.
Por isso, mais do que teorizar sobre o conceito abstracto
‘beleza’, vou antes exemplificar mostrando-vos algumas coisas que acho belas, estando eu muito certa de que alguns dos que
me estão a ler acharão que, de belo, o que vou mostrar não tem nada. Seja.
Rodin - La danaide (a pedra macia que se transforma em carne de uma alvura transcendente)
Degas - Bailarinas (a cumplicidade e a feminilidade em toda a sua graça, a harmonia da cor e do movimento)
Van Gogh - Seara com ciprestes (a cor, o sol não no céu mas na seara, o movimento da aragem,
o céu e a turbulência da alma - e falo nesta turbulência numa altura em que há quem ponha em causa
a tese do seu suicídio, vide documentário 60 minutos na SIC N)
Annie Leibovitz - Kate Moss (a leveza da imagem que capta a essência do retratado)
Fractal - a beleza abstracta que se desmultiplica (ou que se divide? ou que se multiplica?
Joana de Vasconcelos e os seus Corações Independentes
(Brilho, luz e leveza nas formas tradicionais - filigrana ou talheres de plástico? Que importa?)
Jardim Botânico do Príncipe Real em Lisboa - a beleza sem tempo de um fresco, mágico, intemporal jardim
Sophia de Mello Breyner - a caligrafia de uma mulher livre, inteligente, sensível, lutadora, única
Van Cleef and Arpels - Colar de diamantes, a beleza de uma jóia perfeita. Será cara, esta...? :)
O Piano - dirigido por Jane Campion
Grupo Corpo - aqui dançando 'Mi corazón'
Procurem a beleza e sintam-se bem, sim? E tenham, meus Amigos, um belo sábado! Divirtam-se!