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quinta-feira, fevereiro 25, 2021

O que tenho dentro da minha carteira (leia-se: na minha mala) -- eu e outras duas madames bem conhecidas

 



Uma vez estava ao telefone do lado contrário da sala àquele em que tinha deixado a carteira -- e vou já avisando que, quando me refiro a carteira, quero dizer aquele recipiente a que outras pessoas chamam mala. 

Então, precisando de um documento, fiz sinal ao colega que estava lá perto e pedi-lhe que me desse a bolsinha de documentos que estava dentro da dita carteira. Fez-me sinal que não. Não percebi. Pedi um minuto ao meu interlocutor telefónico e insisti com o meu colega, pensando que ele não tinha percebido: 'Desculpe. Faz-me um favor? Pode abrir a carteira e tirar de lá a bolsinha dos documentos?'. E ele: 'Não, desculpe mas não vou fazer isso'. E eu, sem perceber: 'O quê? Não pode fazer-me esse favor?'. E ele: 'Não. Desculpe. Não vou fazer isso. Tenho medo.'. E eu, sem perceber: 'Medo? Medo de quê?'. E ele: 'Tenho medo de enfiar a mão na carteira das senhoras'. 

Os outros deram-lhe razão. Todos disseram que também tinham medo. 

Tive que interromper mesmo a chamada e dizer que voltaria depois, com o documento. 

Não queria acreditar. Estavam no gozo, claro. Dizia um: 'Não se pode arriscar. Quando se mete a mão na carteira de uma senhora, nunca se sabe o que se vai encontrar'. Todos concordaram. Um risco, diziam. 

E eu, de repente, caí em mim e dei graças a todos os santinhos por ele não ter acedido ao meu pedido. Bolas... que sorte.

A quantidade de coisas que sempre tive nas carteiras é indescritível. Carradas de coisas. Resmas. Paletes.

A coisa começa sempre bem, só o indispensável, tudo muito racional. Mas depois é a embalagem dos lencinhos, depois o baton. Depois outro baton. Depois um gloss. Depois outro, noutro tom. Depois o perfume de bolso. O pente, claro. O eyeliner. Pastilhas elásticas. Uns ganchinhos. Travessão para apanhar o cabelo. Bolsa das moedas. Porta-documentos. Uma caneta. Outra caneta. Um lápis. Uma fita métrica velha do ikea. Um bocado de papel. Uma talão de uma loja de que já não se consegue ler uma única letra ou número. E mais tudo o que se lá for juntando.

Antes da menopausa podia também haver uma bolsinha com um penso ou um tampão. E foi nisso que pensei naquele dia ao imaginar o desastre que poderia ter acontecido se ele lá tem enfiado a mão e agarrado um tampão.

De cada vez que mudo de carteira, mudo para lá os essenciais e fica na outra o que carece de escolha para, mais tarde, ver o que deve ser deitado fora e o que deve ser resgatado. Até que me esqueço. Ficam carteiras com toda a espécie de coisas lá dentro. Não sei se lixo, se relíquias. 

Contudo, com o corona, tudo mudou: até o conteúdo da minha carteira. Agora a própria carteira é mínima, pequenina, fininha, nada a ver com as que transportavam toneladas. Agora é uma bolsinha espalmadinha com uma correntezinha para usar. Pouco saindo de casa, a minha carteira agora tem apenas o porta-chaves com as minha muitas chaves, a bolsa dos documentos*, uma factura**, uma caneta e uma máscara de reserva. Levezinha de dar gosto. 

Explico os asteriscos.

* Sobre a bolsa dos documentos tenho a dizer que, depois de ter experimentado toda a espécie de bolsas -- porta-moedas, porta-documentos, grandes, gigantes, com mil divisórias, pequenas também com divisórias, multifunções -- encontrei a ideal. Antes todas acabavam bojudas, deformadas, mal fechando, pesando quilos. Agora é um descanso. Comprei uma bolsinha mínima, simples, apenas com uma pequena divisória lateral. Salvo erro, custou doze euros. Parece de pele mas não deve ser. Comprei-a numa lojinha chinesa. Os cartões ficam na bolsinha principal, mesmo à medida. Abdiquei de usar parte dos cartões que raramente uso. Na bolsinha lateral tenho uma nota e duas ou três moedas. Levezinha, prática, pouco espaço ocupando e com tudo à vista e à mão de semear.

** A cena da factura tem a ver com isto do confinamento. Pode ser preciso mostrar onde moro. Nunca foi preciso mas também não pesa nem chateia.

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Nestes dias de total imersão em teletrabalho, não tenho de que falar. Só saio de casa para fazer uma rápida caminhada à hora de almoço e não tenho paciência para notícias. 


Há bocado, num zapping, apareceu-me aquele mangas de alpaca que pode ter algum jeito para contabilidade mas zero para política. Sempre com ar de mestre-escola maldisposto, é criatura que não apenas é de má catadura como de maus fígados. O que ele está a fazer é abrir a porta aos laranjas, empurrando-os para os braços do chega. Pode dizer-se que são laranjas podres, gente vendida que não interessa nem ao menino-jesus, gentalha que se vende por dez réis de mel coado e um lugar numa autarquia, numa junta, numa empresa municipal, no que for. Antevendo que o alpacas não vai longe, devem estar todos a bandear-se para quem se está nas tintas para ideologias e quer é pôr as patas nas máquinas do poder. Por isso, se vejo gente destas ou do género, o que logo faço é fugir a sete pés.

Conclusão: não tenho temas frescos nem nada que interesse para aqui dizer. Não que nos outros dias tenha mas, pelo menos, sempre posso tentar. Assim nem isso.


Então, reduzo-me à minha insignificância e ponho-me a ver vídeos. Podia ver instagrames, feicebuques ou quejandos mas também nem isso. Sou muito rudimentar: só iutubes e blogues, coisas datadas, pouco féchanes.

E, hoje, o que o meu amigo algoritmo teve para me propor foi coisa inusitada. Uma senhora com idade para ser minha mãe -- e que eu não via desde o tempo em que ela já era assim, como é hoje, muito artilhadinha, e que era eu, então, uma jovem -- mostra o que tem na sua carteira. E o mais curioso de tudo é que o tempo passou, eu tornei-me uma anciã qualquer dia centenária e ela... ela, caraças, ela continua igualzinha ao que era nos tempos da Dinastia. 

E não estou a ironizar. É ver para crer. Ainda por cima, vejam a graça: anda com um santinho na carteira, o Sto António, imagine-se. Eu que gosto tanto de Stos Antónios.

Joan Collins: In The Bag 


E, a seguir, uma outra senhora também entrada na idade mas igualmente com tudo em cima, jovem, linda, elegante, simpática e, ainda por cima, bem open minded

Jane Fonda: In The Bag


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O  Dude with sign vem pela mão de Elvis Costello & Charles Aznavour com She

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Um dia feliz
Saúde. Alegria. Boa disposição.

sexta-feira, novembro 20, 2020

Uma criatura em decomposição

 

Um colega meu, ao princípio, dizia que, quando eu tomava alguém de ponta, coitada dessa pessoa. Agora já não diz o mesmo porque, em relação às poucas pessoas a quem ele achava que eu não podia ver nem pintada, também ele está na mesma, acabou a dar-me razão.

Só para dar um exemplo. Havia um que eu dizia que era uma lesma traiçoeira e ele gozava, dizia que lá estava eu a ser mazinha. Uma vez, numa daquelas coisas maravilhosas que dá pelo nome de avaliação 360º, esse meu colega teve uma avaliação desgraçada pois um dos colegas que o tinha avaliado lhe tinha dado 1 a tudo numa escala de 1 a 5. As avaliações são anónimas mas a pontuação dele foi tão má que ele, coitado, fez tudo para perceber quem o tinha apunhalado pelas costas. Com espanto, descobriu que tinha sido a 'lesma traiçoeira', por sinal um que ele tinha por seu amigo. Quando antes ele ainda achava que eu é que embirrava com o outro, se eu dizia alguma coisa em seu desabono, ele passava o indicador sobre o pulso da outra mão e eu já sabia que ele estava a dizer-me que aquilo era para mim uma questão de pele, não racional. 

Essa dita lesma era beijoqueira. Mal me via, vinha direito a mim. Eu tentava evitar, fazendo um aceno de mão que era mais um adeusinho que um olazinho. Mas nada o demovia: 'Dê cá um beijinho'. Toda eu me encolhia. Tinha a boca sempre gelada o que me deixava na cara a sensação de estar babada. Tinha que me conter para não passar logo as costas da mão para limpar a baba. Por isso, a partir de certa altura passei a referir-me a ele por lesma babosa. o meu colega, volta e meia, quando via o outro, avisava-me logo: cuidado, vem aí a lesma babosa. E toda eu me encolhia, antecipando a horrível sensação de ficar com uma gosma fria colada à cara. No entanto, aqui entre nós, acho que não me babava, apenas tinha os lábios nojentamente gelados.

Outra vez, foi admitido um alemão para um cargo relevante. Toda a gente se derretia com a eficiência e o charme do dito cujo. Era, de facto, uma simpatia. Tratava-me pela inicial do meu nome, era divertido, dizia piadas com muita graça. Mas eu, vá lá saber-se porquê, achava que era um embuste. Na volta é aquele sexto sentido coisa que sempre irritou os meus colegas quadradamente racionais. Tudo o que o alemão dizia, e com que segurança o dizia, me soava a banha da cobra. Mas ele era um animal de palco, as suas apresentações punham o resto da malta a rir, a beber-lhe a prosa. Era convincente. Conseguia usar palavras dúbias. Quando, em privado, eu o confrontava com as suas mentiras, ele demonstrava-me que não tinha mentido, tinha apenas dito aquilo que nós queríamos ouvir. Eu passava-me. Ele dizia que havia ali pessoas que não lhe perdoariam se ele falasse verdade. E dizia-o como se falasse com o coração nas mãos. Era hábil. Fazia o que queria. Correu mundo, ficou nos melhores hotéis, viveu à grande e à francesa, tudo à conta. Às tantas, ocorreu-me que aquela formação dele parecia feita à medida para a função. O meu colega bonzinho dizia que lá estava eu de embirração, que não tinha motivo, que o alemão era topo de gama, presa de head hunter internacional, coisa fina, bife do lombo. E, a julgar pelas excelentes condições, devia mesmo ser bife do lombo. Resolvi ver os cursos daquela universidade. Não tinha nem nunca tinha tido aquele curso, coisa nenhuma. Tinha inventado um curso universitário. Contei ao meu colega. Disse que era melhor eu ficar calada, que quem acabaria mal vista seria eu. Fiquei. Tempo depois veio a descobrir-se que trabalhar não era com ele, as viagens eram mesmo só passeio e rica vida. Veio a saber-se também que a formação dele era outra, nada a ver. No seu último dia lá, veio ter comigo, despediu-se, e com ar malicioso, disse-me: vou trabalhar na minha área... E riu. Sabia que eu desconfiava. Era, na realidade, um oportunista e um tratante de primeira.

E esta conversa vem a despropósito do que aconteceu esta quinta-feira a uma execrável criatura. O meu colega bonzinho, se aqui estivesse, talvez agora passasse o dedo pelo pulso oposto a dizer-me que o problema não estava na execrável criatura mas na brotoeja que, volta e meia, brotava da minha pele. Mas não. Talvez haja quem, perante o estado de decomposição em que a fétida criatura se encontra, o desculpe, pensando que já foi uma pessoa em condições. Pois. Mas não vem ao caso. Não é disso que estou a falar. Estou a falar do presente. Da falta de moral, da falta de escrúpulos, da falta de tino, do cliente que representa e da forma como o representa. Fétido. 

Pois bem. Numa daquelas sessões macacas em que tudo parece uma comédia de quinta categoria, mais concretamente uma conferência de imprensa em que defende que as eleições foram uma fraude, uma fraude na qual participaram a China, Cuba e Venezuela, acusação da qual, como sempre, não apresentou qualquer evidência, Rudy Giuliani, advogado de Donald Trump, desatou a suar a bom suar, a transpiração cobrindo-lhe a testa, a cara. Até aqui, nada de mais. O que teve de extraordinário é que a tinta do cabelo começou a escorrer-lhe pela cara. De cada lado, um escuro fio escorrente, uma coisa meio estranha. Claro que era tinta do cabelo. Mas parecia que lhe estava a sair um sangue negro, prutefacto, neurónios dissolvidos em sangue estragado.

Depois daquela cena ordinária, a mão dentro das calças, deitado numa cama de hotel e apanhado em flagrante pelo Borat, agora isto. Há qualquer coisa de fim de linha nesta desonrosa derrota de Trump, a avançar para os tribunais com queixas absurdas e a ser acompanhado por um advogado decrépito, ordinário e a escorrer tinta escura pela cara 'abaixo'. Chega a ser triste. O meu colega bonzinho estaria a dizer: embirra com ele, não lhe perdoa nada. Mas não é uma questão de embirrar, é que isto é mesmo deprimente. Mau demais para ser verdade. O advogado do presidente dos EUA ainda em funções não pode ser isto.

Sweaty Rudy Giuliani suffers hair malfunction in latest bizarre press conference

Rudy Giuliani appears to sweat hair dye as he makes election claims without evidence


Rudy Giuliani borat 2 scene everyone needs to see


Como é que tudo isto vai acabar?

Mal, só pode. 

Já vi chamar a atenção para esta cena do maravilho filme Morte em Veneza mas, embora a situação da tinta a escorrer seja a mesma, a envolvência é outra. E até custa associar a ideia de um filme tão belo a um espectáculo tão deprimente. Mas, enfim, de facto, a ambos a tinta do cabelo escolhe-lhes pela cara parecendo sangue negro a sair-lhes da cabeça. Não é bonito de ver.


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Voltando a Giuliani, tal como a Trump, seria bom que poupassem ao mundo a indignidade do seu comportamento, das suas atitudes. É que é preciso saber retirar-se, preservar a dignidade.


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E que seja um dia feliz!

terça-feira, outubro 02, 2018

Charles e Ulla, cinquenta anos de amor




Gostei de saber que Aznavour viveu um amor eterno. Sempre gostei muito das suas interpretações mas nada sabia da sua vida. Nem tinha que saber. A sua voz e a simpatia da sua presença era o que bastava. O conhecimento da vida concreta daqueles cuja obra admiramos pode distrair-nos do que importa. Tendemos a incomodar-nos com o lado humano dos que queremos quase divinos, perfeitos, isentos de pecado, de mácula. Exigimos demais daqueles a quem deveríamos amar sem condições. Por isso, não procuro conhecer as intimidades daqueles a quem admiro.


Mas agora, ao ler a notícia, fiquei a saber deste seu amor e gostei de saber. Chama-se Ulla e foi a sua terceira mulher. Dizia ele que quando conheceu a primeira era muito novo, quando conheceu a segunda era muito parvo mas que, quando conheceu a terceira, ela o pôs nos carris, o ensinou a ser tolerante e melhor pessoa. Com ela ficou até ao fim.

Era bem mais nova que ele, bem mais alta que ele, bem mais loura que ele. De outra cultura, de outro mundo. Mas a sua maneira de ser prendeu-o para sempre. Tiveram três filhos. Envelheceram juntos. Ver as suas fotografias emocionou-me. Eram jovens. Sorriam de amor. No fim, a idade tinha pousado sobre os seus corpos mas mantinham o mesmo sorriso gaiato e cúmplice de jovens apaixonados. 


Quando o amor é assim -- laço e vício, perdição e refúgio -- ele é terno e forte, resistente ao tempo, resistente aos embates e aos vendavais. Podem decorrer mil anos que sempre o vazio será preenchido pela memória e pela reinvenção de um amor que resistirá a tudo, a todos.

Ele dizia que, contra a vontade dela, não queria reformar-se. Deu uma entrevista uns dias antes de partir. Estava bem, irónico, sorrindo ao futuro. Certamente Ulla estaria à sua espera para, de braço dado, regressarem a casa. Assim são os amantes eternos. Sabem esperar um pelo outro, sabem aceitar as diferenças, sabem acolher os sonhos e os desejos do outro, amparam-se e defendem-se da morte .


Ulla Thorsell, a bela sueca, agora viúva, tem agora setenta e sete anos e, imagino, uma tristeza e uma solidão que não serão fáceis de ultrapassar. Sempre quis ter uma vida normal, longe dos holofotes. O seu galã, que ela já queria longe do palco, partiu para um espectáculo no outro lado do mundo.

Continuaremos a ouvi-lo. Felizmente há as gravações, os vídeos. Quantas vezes nada fica senão um sorriso numa memória que se vai desvanecendo? Uma carta quase rasgada de tantas vezes lida? Ou nem isso? Talvez apenas a recordação de um encontro distante num lugar tão improvável quanto miraculoso. E, no entanto, de um ténue fiapo de lembrança se pode alimentar toda uma vida.


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Los amantes rendidos se miran y se tocan
una vez más antes de oler el día.


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sexta-feira, junho 29, 2018

Boas maneiras à mesa




Não serei a Paula Bobone nem, tão pouco, candidata a sua discípula. Nem tenho a mania das etiquetas nem sou muito convencional. Contudo, tenho que reconhecer, apesar de todas as minhas limitações, há coisas que tenho para mim que são regras a seguir quando estamos à mesa. Geralmente decorrem não de manias mas de tradições que, em dada altura, fizeram sentido ou que, vendo bem as coisas, ainda o fazem.

Por exemplo:

1 -  Acho que é compreensível que mandem as boas práticas que, quando a sopa está quase no fim, não se incline o prato na nossa direcção mas no sentido oposto. É que, a haver algum deslize, não há risco de nos sujarmos.

2 - Também me parece óbvio que se segurem os copos de pé alto pelo pé e não de mão à volta do recipente em si. Não apenas é uma questão de elegância como, sobretudo, uma questão de temperatura. Os vinhos devem ser servidos à temperatura certa (mais coisa menos coisa) e uma mão à sua volta causará troca de temperaturas.

3 - Claro que também nunca se junta gelo ao vinho. Vinho é vinho, não é refresco.

4 - E não se deve encher o copo de vinho até quase a cima. O vinho deve poder respirar e, quem o vai beber, não deve correr o risco de enfiar o nariz na bebida mas, sim, deve poder aspirar o aroma que dele se liberta.

5 - Também mandam as boas práticas que, numa refeição que não as habituais em casa, no fim, não se dobre o guardanapo direitinho. Isso é quando vamos voltar àquela mesa na próxima refeição, usando o mesmo guardanapo. Caso contrário, deve ser deixado, naturalmente, não esparramado mas displicentemente colocado ao lado do prato. Não se pretende que pareça pronto para voltar a ser usado, mas o contrário.

6 - A menos que estejam poucas pessoas à mesa e todas cheguem facilmente ao centro, não se devem colocar as terrinas, as travessas da comida ou a fruta ou as sobremesas em cima da mesa mas sim num aparador ou mesa lateral. Os convivas levantar-se-ão e servir-se-ão levando o seu prato para a mesa. Se, pelo contrário, se puser a comida em cima da mesa, a toda a hora os que comem estarão com braços a cruzarem-se e descruzarem-se e todos a atrapalharem a refeição uns dos outros.

7 - Se surgir uma espinha na boca, não é preciso fazer muita ginástica: pode, com a ponta dos dedos, discretamente retirá-la, apondo-a na beira do prato (e, de preferência, limpando, de seguida, discretamente, os dedos). Idem com os caroços de azeitona. São coisas que acontecem e não vale a pena fazer de conta que não.

8 - Claro que em circunstância alguma se põe a faca na boca. E escuso de explicar porquê.

9 - Comer uma asinha de frango ou uma perninha de perdiz claro que se pode comer à mão. Com discrição e não com alarvidade, bem entendido. Mas claro que sim.

10 - E hoje pode parecer coisa marialva ou de dondoca -- mas eu que não sou (ou não me acho) uma tiazona, não abdico -- mas é o homem que serve as bebidas à mulher e não o inverso. Se há coisa que, juro, me faz muita impressão é ver algumas mulheres muito solícitas a acharem que mostram uma grande delicadeza pondo vinho no copo do vizinho do lado. Nunca. Não me perguntem porquê, à luz da igualdade de género, mas eu tenho para mim que é daquelas coisas que ponho ao nível de os homens fazerem a barba e as mulheres não ou as mulheres depilarem as axilas e (quase tdos) os homens não. Coisas que são assim porque sim. Bebo vinho se um homem me servir. Gosto de ser servida. No vinho (e noutras coisas também).

11 - E, claro!, é a comida que vai à boca e não o contrário. Ou seja, a pessoa não deve debruçar-se sobre o prato mas, sim, deve levar o garfo à boca, mantendo o corpo direito. Não deve a pessoa manter-se hirta à mesa como se tivesse engolido o garfo. Pode estar descontraída.

Mas estar descontraído não é sinónimo de fazer da mesa um apoio para o corpo descansar.

12 - Uma regra que não sigo e que acho que, nos dias de hoje, é para esquecer é a de que não se deve repetir o queijo. Supostamente, quem se enche de queijo é porque prefere o queijo aos acepipes que os donos da casa com tanto gosto prepararam ou mandaram preparar. Mas que se lixe: queijo é bom e convém não exagerar no cumprimento à risca. É como não ser 'bem' cortar a salada com faca. Supostamente, para ajudar, só o pão. Mas isso pode ter feito sentido com talheres impróprios, de ferro que, oxidados e em presença do vinagre do tempero, enferrujariam de vez num instante. Com talheres de aço, não há risco de a alface se sentir molestada e muito menos de a faca ficar inflamada. Portanto, se dá mais jeito usar a faca com a salada, que se use. Contudo, se a folha da alface estiver muito grande, acho mais razoável dobrá-la antes de a levar à boca do que estraçalhá-la e a verdade é que, frequentemente, apenas uso o garfo para comer a salada. Poderia usar pão se não estivesse a esforçar-me para o evitar. Assim, só quando não resisto a molhar o pão no molho da salada, que adoro.

13 - As flores ou quaisquer outros elementos decorativos sobre a mesa não devem cortar a visibilidade de quem está em frente: ou devem ser baixas ou, em alternativa, estar altas, por exemplo, colocadas em floreira ou jarra de pé alto e estreito. Os enfeites são para embelezar, não para atrapalhar.


14 - Quanto à ordem dos copos e talheres, é simples: de fora para dentro pela ordem de utilização. Mas nada como ver o esquema:


15 - Em refeições à mesa, especialmente se houver alguém a servir, quem abre as hostilidades é a dona da casa. Ninguém se deve atirar ao prato enquanto a anfitriã (ou, se fora de casa, a mulher mais velha) não começar a comer.
Em refeições volantes isto não se aplica. Não faria sentido. E, nos casos em que há muita gente a servir-se em side board, então também se releva a etiqueta de esperar pela dona da casa.
16 - Quando não há uma multidão a auto-servir-se mas um número comportável e  (para aí até umas 12 ou 15 pessoas razoavelmente despachadas e disciplinadas) é simpático esperar que todos se tenham servido e sentado para se começar a refeição e, sendo assim, será delicado esperar que a dona da casa comece. 

17 - Regra de ouro: não se limpam os pratos à mesa nem se passam restos de uns pratos para outros, à mesa. Isso faz-se na cozinha. Quando se levantam os pratos, levantam-se assim mesmo, sobrepondo-os tal como estiverem, com ou sem restos. Quanto muito, retiram-se os talheres.

18 - Finalmente: é preciso saber retirar-se. Nunca por nunca se deve ficar eternamente sentado à mesa, nos copos, com conversa mole, obrigando a refeição a prolongar-se para além dos limites suportáveis pela paciência alheia.

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Para quem se entenda com o francês, aqui ficam três vídeos que ilustram algumas das regras de etiqueta à mesa







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E claro está que isto a que por aqui têm vindo a existir não é outra coisa senão eu a precisar de férias e já com os neurónios em modalidade light. Bem pode o mundo pôr-se a fazer flic-flacs à rectaguarda, com mortais encarpados à rectaguarda em pleno espaço sideral que a mim só me dá para coisas deste calibre. Pior que isto só se me puser a falar de dietas de verão ou de cremes anti-celulite para podermos ir para a praia com o corpinho todo photoshopado. Mas, pelo caminho que este blog está a levar, não será de espantar se um dia destes a coisa descambar de vez para aí.


Abaixo as estrias e as socias-estrias e vivam os barrigudos!


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E viva a vida
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sexta-feira, abril 22, 2016

Arroz doce
-- ou uma questão de química


Bom. Catroga para trás das costas. Aliás, melhor: pontapé no rabo pelado da velha ratazana para que fique bem longe de mim.

E parto para outra. Arroz-doce. Quando há, nunca deixo de comer. Mas fazer, lamento, mas não faço.


Il faut savoir, coute que coute
Garder toute sa dignité
Et malgré ce qu'il nous en coute
S'en aller sans se retourner

Há bocado, ao responder ao comentário do Carlos, disse-lhe que eu também gosto de arroz doce e contei que o fiz uma única vez e que correu tão mal e que fui tão gozada que fiquei de tal forma traumatizada que ainda não me recompus. Não é bem aquilo de que é preciso saber quando nos devemos levantar e ir embora, nem, muito menos, é por uma questão de dignidade, não querer que gozem comigo -- é, sobretudo, o reconhecer de que não tenho mão para doces e, portanto, prefiro guardar-me para aquilo que me sinto bem a fazer.

Portanto, nem preciso de o confessar de novo, tantas as vezes já o referi: não gosto de fazer sobremesas, bolos, bolachas - doces em geral. Não dá para improvisar e eu tenho o problema que se sabe: não consigo fazer nada by the book. Como me disse uma amiga que padece do mesmo mal que eu: 'é como que uma driving force, não é?'. É. É mesmo. Mal dou por mim, já estou a fazer de outra maneira.

Mas, então, deixem que vos conte.

Estava eu lá in heaven, e eu gosto tanto de estar na minha cozinha que tem uma janela onde à tarde bate o sol, e resolvi fazer arroz doce. Mas claro está que não liguei aos pormenores, fiz como me aprouve. Leite, pitadinha de sal, tal e tal, gemas de ovos, e arroz e açúcar e casquinha de limão. E lá fui mexendo, esperando, mexendo, esperando. E o sacana do arroz, em vez de absorver o leite, chapéu. O leite permanecia intacto com os grãos de arroz em suspensão ou a flutuarem. Os miúdos, que já nem eram muito miúdos: então, e o arroz doce? quando é que fica pronto? E eu, ainda esperançosa: não deve tardar, estou há séculos nisto, há-de engrossar.

Mas é o engrossas. Eu, intrigada, lembrava-me da minha mãe que sempre fez um belo arroz-doce com uma perna às costas. E pensava, oh caraças, mas se o arroz absorve sempre a água da cozedura, porque raio de carga de água agora não absorve o caraças do leite?

Pois. Mas não absorveu. O meu filho, gozão até à quinta casa, quase chorava a rir com o fiasco. A minha filha, decepcionada, apetecia-lhe tanto arroz-doce. O meu marido, o gozão do costume, com aquele seu ar compenetrado, devia fazer elogios como se falasse a sério só mesmo para achincalhar. 

Até hoje. Nunca mais fiz. Sou do tipo fundamentalista: não dá certo, fechou a porta, acabou, pedra em cima.


Mas um dia estava eu a falar com essa tal amiga e diz-me ela que estava a estudar umas 'cenas' relacionadas com a química na cozinha e que tinha começado a divulgar o que ia aprendendo e que havia muita curiosidade em volta do tema. E começou a contar-me até umas experiências que andava a fazer, a cozinha transformada em laboratório. Coisas impensáveis.


Um dia chegou cá a casa com uma garrafa com um líquido transparente que parecia água. Pediu-me uns copinhos de vidro pequenos e serviu, que era para abrir o almoço. Espantoso. Era gaspacho. Tal e qual. O sabor perfeito do gaspacho. Ela explicou como o tinha feito mas já não me lembro, provavelmente tinha destilado o gaspacho. 

Um dia, mais tarde ainda, estava eu num jantar privado em que a refeição estava a cargo de um chef muito conhecido (uma vez até inventei um conto em que usei um desses jantares como inspiração) e são-nos servidas iguarias fantásticas e do mais criativo que há (um bacalhau todo xpto, cozinhado em leite a baixas temperaturas, caviar de tomate e de alface, gelado feito ali à mesa debaixo de fumos de azoto - se não estou em erro). Quando ele veio à sala de jantar para nos cumprimentar e para saber se tinha estado tudo bem e para lhe agradecermos e essas coisas, eu disse que aquilo era muito inovador, verdadeiros exercícios de química aplicada. E perguntei-lhe como conseguia ele fazer coisas daquelas. Respondeu-me, então, aquilo que eu tinha intuído desde a primeira garfada: estava a ter aconselhamento e formação por parte de fulana de tal -- a minha divertida amiga.


Pois bem. Recuo ao dia, in heaven, em que ela me contou dessas suas incursões inventivas em volta do tema da culinária e da química. Perguntei-lhe: 'Mas como é que nasceu essa ideia?'
É certo que ela, tempos antes, tinha ficado desempregada dado que a empresa onde trabalhava tinha fechado e que estava com pouco que fazer, aborrecida até à medula por não ter o que fazer depois de uma vida tão activa e que, portanto, deitava a mão a qualquer ideia para conseguir estar com a cabeça entretida.
Então ela explicou-me e, se as palavras não foram estas, não devem ter andado muito longe: 'Fui fazer arroz doce e o estupor não inchou, ficou uma porcaria, os grãos a boiarem no leite. Fiquei a pensar: mas que raio é que aconteceu? Isto deve ter uma explicação química e de química sei eu. E então pensou que o arroz, para não absorver o leite, é porque tinha ficado como que revestido por uma camada a modos que isolante. Ora o que é que pode ter provocado isto? Pensei e vi que só pode ter sido por ter colocado o açúcar no início e não no fim. O açúcar teve esse efeito, selou o grão. Por isso é que se deixa que o grão absorva o leite e, só no fim, é que se deita o açúcar'.

A partir daí ganhou-lhe o gosto. Fez programas de divulgação na televisão, formou uma empresa que faz consultoria a chefs, vende produtos, investiga, faz seminários, etc.
A viragem na vida das pessoas acontece, por vezes, na sequência de episódios de nada, acidentais.
E eu fiquei a perceber que também na culinária há ocasiões em que a ordem dos factores não é arbitrária. Seja como for, por via das dúvidas e sabendo que dificilmente consigo seguir uma receita à risca, não me meto a fazer arroz-doce nem, por regra, doces. Só salgados.


Mas, meus Caros, adoro arroz-doce. A minha avó também o fazia bem. A minha mãe coloca-o num tabuleiro e o arroz fica molhadinho, como que envolto num cremezinho amarelinho, macio, bom e nós servimo-nos daí para um pratinho ou tacinha. A minha avó não, a minha avó punha-o em pratinhos. Eu chegava a casa dela e, em cima do aparador, havia vários pratinhos, e, em cima de cada um, ela, com o pó da canela entre o polegar e o indicador, fazia desenhos diferentes: um coração com o bico inclinado, bolinhas, lacinhos; e, no meu, fazia a inicial do meu nome, num desenho artístico. Aquele cheirinho bom, a ternura dos enfeites, o sabor a docinho caseiro, tudo aquilo era especial.

(E, agora que escrevo isto, estou até com vontade de tentar aventurar-me, de novo. Quem sabe não me ajeitava? E punha-o também em pratinhos. E num deles desenhava um R e um P entrelaçados, e depois oferecia-o à Rosa Pinto).
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E vamos mas é para a cozinha. Com Mozart, claro.


Birthday de Mozart pelos bailarinos do Nederlands Dans Theater numa coreografia de Jiri Kylian

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E agora queiram, por favor, não misturar arroz-doce com os gestos untuosos de Catroga.


domingo, março 20, 2016

O Hotel Grand Amour de André Saraiva, em Paris




Salvo honrosas excepções, os hotéis no centro de Paris ou são de cinco estrelas, hotéis de luxo e caríssimos, ou são acanhados, sem história e sem grande graça.

Talvez por isso, quando abre um hotel diferente, o acontecimento não passa despercebido. Os sites onde se anunciam as grandes novidades do género, como a Vogue ou a Harper's Bazaar, dão conta que André Saraiva, meio português e conhecido como Mr. A na sua vertente de autor de graffiti, abriu um novo hotel (já tinha outro) no centro de Paris. E, justamente porque não é um hotel qualquer, está a dar que falar: Hotel Grand Amour.


Transcrevo um excerto da Harper's Bazaar:

A great hotel isn't just a place to rest your head at the end of a long trip - it's an experience that adds flavor to your travels, which can certainly be said of graffiti artist and club mogul André Saraiva's Grand Amour. Centrally located in Paris' 10th Arrondissement, the hotel is an immersive celebration of Parisian art and culture. Behind the historic pre-Haussmannian façade are 42 totally unique rooms inspired by the artist's extensive travels and his favorite places in the world. If the Hotel Chelsea were to meet a Viennese café in modern-day Paris, it might look something like this. 


(...)

Saraiva has also been busy conquering New York. His new bistro, Café Henrie, opened in September of 2015 just down the block from his apartment and studio on Forsyth Street, and next, he his sights on another property nearby, which he hopes to turn into a deli. Is he planning to take over the neighborhood? In an exclusive interview, Saraiva told BAZAAR about the suite life, how to throw a party, and his latest ventures in art and hospitality.


Harper's BAZAAR: Who would be your ideal guest to host at the hotel?

André Saraiva: I would have loved to have Man Ray, if he was around. Of course Picasso would be welcome too. Andy Warhol, Marcel Duchamp. I have a chess game so he could come and play chess. Of course there are some iconic actresses. Everyone would be welcome!

(...)

HB: What are your favorite pieces of furniture in the Grand Amour?

AS: We've been collecting for 10 years. There's a lot of furniture from the early Viennese designers. We have some chairs by Josef Hoffman, and a few things from the French architect Pierre Chareau. He is the one that did Glass House. It's really rare to have originals and not reproductions. We also have stuff that's not signed and just things that I like. It's not about putting out a showroom of names.


HB: What kind of knick-knacks might a guest find in his or her hotel room?

AS: Glen O'Brian did a room where he made me buy two Hermès typewriters—one with a French keyboard and one with an American keyboard with a little desk. So it's a writers' room. I put some of my easels in the rooms so painters can come and paint their little view of Paris. 


HB: Maybe they'll leave their painting there.

AS: Yes, I hope so.


HB: And the art on the walls?

AS: Some of it is my art because I didn't know where to put it. We have a lot of photography, and there is a lot of painting and artwork from some of my friends.
(...)


HB: Tell me about your upcoming projects. I hear you're working on a mural near the Botto Machado garden in Lisbon.

AS:  That's my Sistine Chapel. I am originally Portuguese, even if I never lived there. I wanted to give to the city a mural, and I thought about the Portuguese tile tradition called Azulejo. I combined the ephemera of graffiti art with this technique, which stays for hundreds of years. It's more than 400,000 tiles, so I am working on the biggest puzzle you can imagine. But it's going well! We are almost finished.

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domingo, junho 07, 2015

Ema






Ema senta-se à janela e, se alguém entrasse nessa altura, pensaria que é uma mulher serena. Imóvel, ela olha o rio que corre lá em baixo; o tempo parece ter uma outra dimensão para esta mulher cujo olhar voa transportando inacessíveis sonhos; de vez em quando, fecha os olhos e quem a observasse com mais atenção perceberia um leve altear do peito; quase respira fundo, quase denuncia uma leve inquietação. 

Depois Ema retoma a leitura, passa as mãos pelas folhas do livro -- e há sensualidade na forma lenta como as suas mãos afagam o papel, tal como há quando olha vagarosamente o rio ou quando as narinas quase imperceptivelmente procuram os cheiros das árvores ou do corpo amado. E assim, nessa dança, ocupa o seu tempo: o olhar a levantar-se do livro e a dirigir-se ao rio, de novo ao livro. De vez em quando, encosta a cabeça, absorta, o olhar perdido.

Depois levanta-se, apoia-se no peitoril da janela. O cabelo solto, a blusa descaindo, deixando um dos ombros levemente à vista. O calor pesa-lhe. Afasta levemente o cabelo das costas, puxa-o para um dos lados. 

Carlos assoma à porta, sorri-lhe; Ema devolve-lhe o sorriso. Traz-lhe um copo de sumo gelado, um toque de gin, e beija-a no rosto. Ema sorri, olha-o e é amor que há no seu olhar. Carlos beija-a no pescoço, do lado em que o cabelo foi desviado. Ema fecha os olhos, deixa-se beijar. Depois toca-lhe o cabelo, uma carícia suave, e aproxima o seu corpo do corpo de Carlos, oferece-se. Beijam-se enquanto a aragem faz esvoaçar ao de leve os cortinados.

Mais tarde, Ema diz que vai passear junto às margens do rio. Carlos pensa que é quase noite, que a aragem está a esfriar, que são perigosos os recantos que se escondem junto às águas mas não diz nada. Há muito que aprendeu que Ema precisa de se evadir e que jamais a poderia ter se a prendesse ou vigiasse.



Ema sai, os cabelos voam à sua volta, pensa que deveria ter trazido um casaco mas não volta atrás. Quando se aproxima das margens, começa a correr, e um cão corre a seu lado. Ema corre como se tivesse dezoito anos. Ou oito anos. Sorri. Lembra-se como corria ladeira abaixo quando ia da casa da avó para a escola, íngreme a descida, o corpo sem freio, quase a voar. Alguns cabelos brancos, algumas rugas, ela sabe-o bem, mas os anos não lhe tiram a necessidade de sentir o vento na cara nem o gosto da liberdade.




Depois, quando o sol já se pôs, Ema desliza pelos labirintos feitos de canas e murmúrios, desce até às pedras, à areia, descalça-se, deixa que a água molhe os pés. O cão segue-a inquieto, gane, tem medo. Mas Ema não escuta lamentos, não quer saber de prudências. Um outro vulto se move por perto, Ema não tem medo, sabe que o entardecer junto ao rio atrai os seres livres, os espíritos insubmissos. 

Quem passe por perto nada verá. Talvez ouça apenas vozes, risos. Depois uma música, talvez flauta, e, a seguir, em voz baixa, uma toada, uma voz de homem que diz poesia.

Quando já anoitece, Ema retoma o caminho para casa, o cão mais descansado ao seu lado. Ema sorri. Depois pára, põe a mão sobre o coração. Ao retomar o caminho limpa os olhos mas o rosto está tranquilo.

Quando entra em casa, Carlos diz-lhe que está frio, que deveria ter mais cuidado. E diz-lhe que Pedro está na sala, à sua espera.

Ema sorri e corre a abraçá-lo. 'Pedro! A esta hora...? Não pensei. Que bom... Vieste.'. Pedro fica sempre levemente embaraçado com a exuberância da alegria de Ema quando o vê. Ela abraça-o com um afecto efusivo enquanto ele mantém a contenção. Carlos pergunta se ele quer ficar para jantar. Ema interrompe 'Claro que sim!'

Ema corre para a cozinha, rapidamente prepara uma refeição. Ao jantar, conversam os três animadamente, amigos, e todos os temas são abordados com bonomia. De vez em quando, Ema provoca Pedro, goza com a sua falta de jeito para arranjar uma mulher, diz-lhe 'Tanta inteligência, tanto brilhantismo, tanta citação, tanta conversa, e depois, na prática, zero...'. Pedro disfarça algum incómodo, Carlos repreende-a com o olhar. Ema ri.




Depois de jantar, Carlos vai dar uma volta pelos limites da propriedade, fechar portões e portadas. Ema e Pedro continuam a conversar e há uma cumplicidade entre eles, e falam de livros, de todos os livros que leram, dos que gostavam de ler, da paixão pela leitura que é mais do que paixão, que é vício, e do que pensam dos tempos que correm, e relembram histórias do passado, e falam do campo, e dos filhos, do que os filhos fazem, do que os filhos gostavam de fazer, e os olhos de ambos brilham quando falam dos filhos, e conversam, e conversam com vontade que o tempo não acabe para poderem continuar a conversar para sempre.

Ema enternece-se porque Pedro, nessas alturas, ele perde o olhar fechado e sombrio que tantas vezes tem e olha-a como se sentisse que nunca nenhuma outra mulher o compreendeu e aceitou desta maneira. Mas Ema sabe que ele sabe que o que sente não é correspondido, sabe que Ema ama Carlos, que Ema ama a sua liberdade.

E Pedro pensa que Ema não suspeita sequer do que ele sente nem do efeito que a sua feminilidade e sorriso exercem nele. E, por tudo isso, Pedro pensa que um dia deixará de aparecer porque não suporta viver uma paixão não correspondida. Mas, ao mesmo tempo, sabe que voltará sempre. Voltará para ouvir a voz de Ema, ver o sorriso de Ema, espreitar o decote de Ema, sentir o perfume que se desprende do cabelo de Ema, sentir o calor do rosto de Ema quando o beija e abraça para o cumprimentar. Voltará pensando que um dia deixará de voltar.

Carlos regressa quando Pedro se está a despedir.

Depois Ema espreita pela janela. O rio escuro lá em baixo parece imóvel. Ema aspira o ar fresco. Está feliz.



Liga então o computador. Escreve um texto no seu blog, escolhe uma música, imagens. A seguir abre a caixa de correio. E lê um mail de alguém que se assina com um nome desconhecido e que lhe diz que tem que parar de a ler porque não quer alimentar a paixão virtual que sente por ela (Por isso vou parar até um dia. Já não tenho fôlego para paixões dirigidas a quem não conheço, para paixões impossíveis, só porque gosto da sua maneira de estar na vida e das coisas que diz).

Ema ri e responde-lhe que tem pena de o perder como leitor. Depois desliga o computador, olha uma última vez pela janela, passa carinhosamente as mãos pelos livros e vai dormir.

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As fotografias são de Isabelle Hubbert que interpretou Emma Bovary no filme Madame Bovary de Claude Chabrol baseado na obra homónima de Gustave Flaubert.




Os nomes das personagens da ficção dominical que acabei de escrever -- a Ema (chamada a Bovarinha), o Carlos e o Pedro -- foram repescados de Vale Abraão, um filme de Manoel de Oliveira com argumento de Agustina Bessa-Luís.




A música lá em cima é She -- porventura mais conhecida na interpretação de Elvis Costello mas que me apeteceu ouvir interpretada por Charles Aznavour.

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Fotografia de Alexander Yakovlev
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E, se me permitem a sugestão, desçam até ao post seguinte, até ao Porto, uma cidade linda e que a Harper's recomenda como um dos dez destinos ideais para uma visita neste verão.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

E que -- esteja eu numa de ficções, rêveries ou tropelias e gostem mais ou menos do que escrevo -- continuem aí, desse lado, a fazer-me companhia. 

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quarta-feira, maio 28, 2014

António Costa avança para a liderança do PS...? Será...? Será desta? Não recolherá as unhas perante os apelos das beatas do Partido? Não se acobardará perante as concelhias e distritais dominadas pelo Totó Zero? Será desta...?


Abaixo deste post, já fiz a minha boa acção do dia. Uma Milonga para Lídia, dedicada pelo Leitor P. Rufino. E, caso queiram começar a praticar, a Lovely Lídia dá as coordenadas: Chapitô às quintas à noite.

Um pouco mais abaixo ainda, poderão ouvir um telefonema entre o Nilton e uma Funcionária das Finanças. Esclarecedor.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Não me vou entusiasmar antes de tempo. Não quero correr o risco de achar que o PS vai voltar aos seus tempos de luta vibrante e de defesa aguerrida de ideais republicanos, que vai avançar de peito feito contra os traidores que tentam destruir o país, com as tropas socialistas comandadas por um homem lúcido, inteligente, rápido no gatilho como é António Costa, para depois, à última hora, ele bater em retirada, saindo pela porta dos fundos como o fez antes.

Não gostei de o ver, como o vi há tempos atrás, a dar passos em falso, acabando nos braços do Totó Zero, pouco faltando para selarem o amor com beijo na boca. Sei que foi o aparelho que lhe barrou o caminho, sei disso. Mas, ainda assim, um lutador não afrouxa e sai de fininho como me parece que aconteceu com ele.

Por isso, agora vou esperar. Não quero deitar foguetes antes de o ver, de facto, seguir em frente. Sei lá se no sábado ou num qualquer outro dia não vai acabar outra vez a levar enternecidos xi-corações do outro.

No entanto, não posso deixar de dizer que acho que, perante a situação pastosa em que o País se encontra do ponto de vista eleitoral, com o povo desligado do actual quadro partidário, e perante a dispersão de votos ao centro e à esquerda, o António Costa é, de entre os nomes que conheço, um dos que melhor poderá afirmar-se - empático, agindo de pé, de cabeça erguida, com ideias claras, com um espírito fino - como um futuro primeiro-ministro mobilizador. E vejo-o não apenas a ser um bom primeiro-ministro, um homem experiente, inteligente e honrado, que governará para os portugueses e não para os mercados, como a ter uma presença forte nas instâncias internacionais, bem ao contrário dos actuais sabujos que se vergam perante qualquer poder, por mais fátuo que seja.

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Para António José Seguro: Il faut savoir




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Daqui, deste meu pequeno e insignificante púlpito, manifesto o meu apoio a António Costa mas, claro, a minha voz vale coisa nenhuma. No entanto, seria bom que os conselheiros do Seguro lhe fizessem chegar o sentimento de desconforto dos tradicionais eleitores do PS. Portugal precisa que à frente do seu governo esteja gente honrada e valente, gente inteligente e lutadora - e, como se vê através dos resultados das eleições, o Seguro não mobiliza, não convence. 


O Seguro é o seguro de vida para o Passos Coelho e para o Vice-Portas. 


Com o Seguro no PS, basta que os trafulhas da actual coligação acenem com um futuro abaixamento de impostos (mesmo que saibam que não o vão cumprir) para que os 120.000 votos que o PS teve agora a mais se bandeiem para os lados do PSD (refiro apenas o PSD porque o CDS já não existe, vai colocar menos deputados no Parlamento Europeu do que o MPT que lá vai pôr 2).



Há muitos anos, tantos, e acho que já aqui falei disso, um amigo meu, grande amigo da família Soares por via do pai (jurista entretanto falecido) e, daí, conhecedor dos meandros socialistas, dizia-me que havia no PS um tipo muito bom, de uma inteligência fulgurante, e que um dia haveria de ser o nº 1 do PS e primeiro-ministro, um tal António Costa. Depois tive o privilégio de trabalhar com um outro velho socialista, pessoa carismática, amigo de Soares, que também me dizia que havia lá um tipo de quem se haveria de falar, um António Costa, um tipo muito bom.

Portanto, quando o comecei a ver na esfera pública, as minhas expectativas já estavam altas mas, ainda assim, não me desiludiu. Entre um António Costa e um Totó Seguro,  não há comparação possível. O Totó é um Hollande - um Hollande sem a pedalada sexual do Hollande (ou então é mais discreto), coisa que, de resto, para este efeito também não faz falta nenhuma - um fracote, um titubeante, um zero, uma concierge permissiva que facilita a vida ao governo e que abre a porta à abstenção e ao populismo.


Numa Europa dominada pela Alemanha (face à ausência de outros líderes) e agora polvilhada de extremas-direitas, extremas-esquerdas, populistas, nazis e um centrão envelhecido, só um líder forte pode elevar a sua voz na defesa de um país pequeno e frágil e, entre o Tozé e o António Costa, acho que ninguém tem dúvidas. E falo assim, porque, no meu optimismo, estou a dar de barato que, nas próximas legislativas, as pessoas sairão da sua abulia e darão um valente chega para lá no sinistro Passos Coelho (coisa que, com o Tozé à frente do PS, como se sabe, não é líquida).

Mário Soares, Augusto Santos Silva, Isabel Moreira, João Galamba, Carlos César, Manuel Alegre apoiam o avanço de António Costa. E, estou certa, aos poucos, muitos outros se seguirão.


Só espero que o Totó não tente aguentar-se através da Secretaria. E só espero que aqueles que, da província, já começaram a mostrar os dentes, tentando defender o grande-chefe Seguro, com medo de sairem do ranço dos seus pequenos lugares,  não arranjem maneira de bloquear a candidatura de António Costa.

O sistema político português - talvez porque os portugueses são boa gente, confiam, delegam, deixam-se ir em cantigas - acabou nas mãos de gente medíocre, sem cabeça, sem alma, de carácter maleável. Está na altura de acordar, de voltar a ter gente de fibra e com cabeça à frente dos destinos do País.

A Europa estrebucha, perplexa. A França está nas mãos de uma direita xenófoba, o Reino Unido nas mãos de populistas eurocépticos, a Dinamarca nas mãos de um partido anti-imigração, a Grécia com um partido nazi em terceiro lugar, a Áustria também com a extrema direita em terceiro lugar. De repente (de repente ou talvez não), a Europa transformou-se numa uma inesperada manta de retalhos, numa manta de forças contrárias, numa soma nula.


A Europa, que era o ideal da igualdade, da liberdade, da fraternidade, do conhecimento, do estado social, da luz, é agora um edifício ingovernável, com lideranças fracas que não dão conta de 28 estados membros desiguais, agregados às três pancadas.

As altas instâncias europeias, face à falta de liderança e carisma, tentam compensar a falta de estratégia com burocracia. Uma teia inerte, sem rosto, abate-se sobre os cidadãos, longe deles. Os povos em estertor, sob a pata feroz da austeridade e os burocratas na maior indiferença, em reuniões e mais reuniões, discutindo medidas absurdas, incapazes de compreender os anseios dos povos.

Face a isto, os tempos devem ser para que se pense com desprendimento, com elevação. Raciocínios pequeninos como lealdades a líderes efémeros, conversa de estatutos ou de não discutir lideranças depois de vitórias eleitorais (mesmo quando são vitórias tangenciais), etc, parece-me de uma mesquinhez descabida.


Por isso, espero bem que alguém explique ao Tozé que ele trabalha para ser primeiro-ministro desde que é pequenino e que se tem esfalfado para isso e que, de cada vez que se vez ao espelho, acha que está quase lá, mas que tem que ter paciência porque isso nunca vai acontecer e, por isso, que faça o favor de se levantar da mesa e abandonar a sala.

E que o faça conservando a dignidade, salvando a face, que o faça como um gesto de grandeza.

Il faut savoir
Coûte que coûte, 
Garder sa dignité
Et malgré
ce qu'il coûte,
S'en aller sans se retourner
Face au destin
Qui nous désarme

Il faut savoir
Quitter la table
Il faut savoir
Garder la face

Nem mais. 

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A canção é Il Faut Savoir na voz de Charles Aznavour

Desconheço a proveniência original de todas as imagens excepto a que, como é bom de ver, provém do blogue We have Kaos in the Garden

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Acabei há bocado de ler o livro que tinha em mãos e tinha resolvido transcrever alguns muito apropriados excertos, pareciam-me mesmo vir a calhar e até já tinha escolhido uma música para acompanhar. Mas a verdade é que não estou boa do ombro, estou medicada mas, apesar dos anti-inflamatórios e analgésicos, custa-me escrever. Por isso e porque já é quase 1h30 e porque amanhã o dia é longo - centenas quilómetros de autoestrada (não vou a conduzir, claro, pois até para meter a marcha atrás me vejo aflita), reuniões de horas e horas - vou já recolher-me aos meus aposentos.

Por esse motivo, também não vou responder a comentários ou mails. As minhas desculpas. Mas saibam que os leio e vos agradeço. Aliás, acho que vocês sabem disso.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia.