Estes dias têm sido bem animados e poucas notícias tenho visto. Há pouco pus-me a ver os Jogos Olímpicos, momentos exultantes, e, em vez de me pôr a exultar também, adormeci profundamente. Deve ter sido coisa de cinco minutos, não mais, pois logo de seguida o meu marido chamou-me para jantar. Ainda havia arroz de salmão de ontem ao almoço, era só aquecer e juntar salada de alface.
Das notícias do dia há uma que me está a fazer espécie: a libertação de prisioneiros pela Rússia e pelos Estados Unidos. Parece que foi uma troca. Não sei a que se deve, a que propósito, porquê agora. Alguma coisa é. Se calhar, se me debruçar sobre os Guardians desta vida, facilmente me esclareceria -- mas isso fica para depois, agora ainda estou meio abananada de ter sido acordada à pressão.
Também li (mas só o título) que a temperatura no Antártico está 10º acima da média e palpita-me que isso não são boas notícias. Caraças para as alterações climáticas. Tenho medo.
E também vi a indignação do Partido Comunista Venezuelano ao saber que o PCP apoia a 'vitória' do Maduro. Situação extraordinária esta... O PCP português, sempre, sempre, ao lado dos tiranos e dos ditadores, agora até já actua em contramão em relação aos partidos congéneres desses países que, como se vê, se demarcam da actuação anti-democrática do regime vigente. Uma vergonha. O PCP continua a sua deriva a caminho da extinção. Ninguém os obriga a isso. São eles mesmos que estão determinados nisso. Situação bizarra.
Há dois dias tinha feito um daqueles meus vídeos mas, em vez de falar de abelhas ou da minha voz de Castelo Branco ou de Dona Lady Betty, falava do apoio do PCP ao que se passava na Venezuela. Ainda não sabia da barracada acima referida. Por isso, de certa maneira, o vídeo está um pouco desactualizado.
Mas, por hoje, é o que me apraz partilhar convosco.
Ainda tenho que ir ali pôr creme hidratante no corpo porque, há bocado, tomei banho e não o pus pois com miúdos cá é tudo tão à pressa que não dá para frioleiras dessas. De manhã, quando fui ao supermercado, comprei um de azeitona e estou curiosa. Só espero que não me deixe a cheirar a azeite.
In heaven não se fala só de abelhinhas e de coisinhas fofas, também se fala das cavaladas do Maduro e das maluquices do PCP
Dormi que foi um regalo. Acordei tarde, acordei descansada.
E foi um dia bastante produtivo.
Tenho sempre muitas coisas que fazer e isso agrada-me, em especial quando são coisas que me agradam (passe a redundância). Mesmo quando trabalhava, quando não havia coisa nova e se entrava quase na monotonia, ficava stressada. De vez em quando, o Grupo comprava empresas e era preciso assimilá-las rapidamente, metê-las no perímetro de gestão das empresas do grupo (metê-las no sentido de enfiá-las, nem que fosse contra a vontade delas), organizá-las, pô-las a funcionar como as demais, e tudo em prazo recorde. Se grande parte dos meus colegas ficava em ponto de rebuçado, achando que eram prazos impossíveis, que as circunstâncias eram irrealizáveis, toda eu vibrava.
Nada me agradava mais do que ter desafios que pareciam irrealistas e equipas descrentes ou equipas que tinham que ser formadas à pressão para começarem a colaborar nesses projectos. Mesmo quando era acusada de me atravessar 'à maluca' ou me atirar para a piscina ainda sem saber se teria condições para isso, e mesmo se eu própria, cá para mim, me assustava e pensava 'caraças, para que é que me fui meter nisto...?', a verdade é que essa adrenalina era um tónico indispensável para a minha existência.
Agora, reformada, também não paro de me meter em cenas e de me atirar 'à maluca'. Gosto de arriscar, gosto de ir à luta e, apesar das derrotas (que tendo a encarar como percalços naturais), muito dificilmente desisto. Posso ajustar o rumo, posso repensar estratégias mas desistir é para mim muito difícil.
Bem. Adiante.
A meio da tarde deitei-me cá fora e pus-me a olhar para o céu. E só pensava: 'Azul'. Ou não pensava nada, simplesmente olhava. Estive ali durante muito tempo a olhar para o céu e a única coisa que atravessava a minha mente era a palavra azul. Depois reparei que, muito lá em cima, um pequeno pontinho branco se movia. Como estava presa ao 'azul' levei algum tempo a pensar: 'avião'. Mas logo retrocedi e me fixei no mesmo: 'azul'. Depois ocorreu-me que, se calhar, estava a meditar. Para a coisa ser mais consubstanciada, pus-me a fazer respirações.
No fim estava ainda mais descansada.
Depois estraguei tudo. Fui aos figos. Comi uns poucos. E isto preocupa-me pois já sei que a balança vai castigar-me. Mas é o que é. Parece que nasci mais para pecar do que para ser abstémica.
E, como habitualmente, andei a passear in heaven e, mais uma vez, me deu para fazer vídeos. Fiz dois. Mas, para não ser uma overdose de maluqueira, hoje partilho apenas um.
Um dia destes tenho que ver se é possível transformar os vídeos feitos com telemóvel em vídeos de écran inteiro. Acho que seria melhor, não acham?
Durante a noite trovejou e choveu chuva grossa embora não farta. Pelo menos, assim me pareceu. De dia, a terra continuava seca.
Durante o dia, ao passear, deu-me para fazer um vídeo pois já há muito tempo que o não fazia.
Aí falo numa lagartixa ou osga ou crocodilo, não sei, que apareceu na banheira. Disse que mostrava e aqui está ela. Mostro quando já estava a ser transportada em cima de uma pá a caminho da rua.
Ao rever o vídeo, parece que digo instagrama. Contudo, acho que disse instagram. Mas, se me distraí com qualquer coisa e deixei descair a palavra, aqui deixo as minhas desculpas.
Claro que fico sempre surpreendida com a minha voz mas tenho que me resignar. Na volta, é mesmo assim.
Mas, antes de passar ao grande momento cinéfilo, deixo a receita da sopa que fiz ontem. Quando estive no Algarve, fomos duas vezes a um restaurante vegan e, numa das vezes, comi uma sopa de curgete e ervilhas que me soube muito bem. Então, ontem, resolvi ver se conseguia fazer alguma coisa afim. Diria que sim.
Fiz assim:
Com receio de que, ao moer as ervilhas cozidas, subsistissem aquelas pelezinhas que dariam aspereza à sopa que eu queria aveludada, cozi-as à parte. Não pesei. Faço tudo a olho mas diria que uns 200 ou 300 grs. Quando vi que estavam cozidas, triturei bem. Provei. Estava tudo lisinho. Se não estivesse, coaria. Mas não foi preciso.
Na panela principal, coloquei água, uma cebola gigante (devia pesar meio quilo, pelo menos), daquelas meio novas, meio brancas. Coloquei um alho francês bem gordo, todo. Coloquei duas curgetes verdadeiramente gigantes. Só tiro a parte do pé. Não tiro a pele. Coloquei duas cenouras, também com pele. Claro que lavo tudo bem. Coloquei salsa e fui generosa. E, claro está, um pouco de sal.
Quando estava tudo cozido, juntei azeite virgem de baixa acidez. Juntei o caldo grosso das ervilhas moídas e moí tudo junto, bem, bem, bem. Garanti que ficava um puré nem grosso nem caldoso, bem aveludado.
À parte, numa mini-frigideira, juntei um dente de alho e o conteúdo de uma embalagem de bacon às tirinhas fininhas e cortadinhas. Deixei fritar um pouco, sempre mexendo para não queimar mas para ficarem com alguma agradável crocância.
Como servi directamente da panela, deitei nela, devagarinho, sobre a sopa, para ficarem a boiar, à vista, as ripinhas de bacon bem como o bocadinho de molho que se tinha formado.
Entretanto, por minha alta recreação, num tacho amplo, pus água a ferver à qual juntei um pouco de vinagre. Quando a água levantou fervura, um a um, abri sobre ela, com cuidado, 1 ovo por pessoa. Deixei escalfar.
Na mesa, ao lado da panela da sopa, coloquei os ovos escalfados numa taça e uma tacinha com coentros migados (esta dos coentros também foi minha ideia).
Quem se servia da sopa, querendo, juntava um ovo e polvilhava com coentros.
Sem falsas modéstias, direi que agradou.
Creio que é de baixas calorias e, que, com o ovo, pode constituir até refeição quase completa. Não foi o caso pois era dia de festa e tinha várias outras iguarias para agradar a todos. Comemo-la morna e estava bem. Nesta altura, não dá para sopas quentes. Curiosamente, os miúdos comeram-na sem protestarem. Soube-lhes bem.
E, agora que cumpri o tópico culinário de que ontem tinha falado, aqui vai a reportagem in heaven na qual abordo um tema assaz intrigante. Como filmei com telemóvel, ficou em formato Slim Fit.
Um passo atrás, e regresso a sábado. Dia tranquilo, de passeios vagarosos por entre as árvores, pisando o musgo, a caruma molhada, a terra macia e perfumada.
A casa estava fria depois de ter estado fechada durante duas semanas. As casas entristecem quando se sentem sozinhas.
Quando entro, sinto logo aquele cheiro tão característico. Parece que ainda guarda, meses após, o registo olfactivo dos últimos aconchegantes calores da lareira. Ou talvez seja da lenha que ainda ali está, a lenha dos cedros que o meu marido desbasta. Ou das azinheiras. Madeira tão perfumada e boa. Abro portadas e janelas, quero que entre a luz. Sinto a felicidade do reencontro. Admiro-me: deixei a almofada fora do sítio? Deixei. Recordo-me que não tive tempo de deixar tudo em ordem. Depois não quero saber, mal posso esperar por sair e ir ver o que há de novo.
Ontem não contei que voltaram a aparecer aquelas grandes pegadas. Um bicho que escava a terra nos sítios em que a terra é mais fofa. Tenho ideia que é na altura em que os cogumelos rebentam da terra que aparecem as marcas daquele bicho misterioso. Javali, talvez. O J. diz que sim, que aquilo é obra de javali, e eu acredito. Não sei onde se esconde. Talvez na gruta maior, mas não averiguamos. Há mistérios que não devem ser desvendados.
Depois, volto a casa. A sala de baixo, desde que a minha filha a transformou, está agora um elegante e clean lugar de tranquilidade. Apetece estar. Foi dia de leitura. Reclinada no cadeirão, uma mantinha macia no colo, aquele calorzinho bom das tardes de outono. Nas mãos, Sapatos de Corda. Mónica Baldaque fala das suas memórias, fala dos seus pais. Gosto do que ela diz da mãe. As filhas podem ser intransigentes, pouco benevolentes para com as mães. Por vezes guardam memória de apontamentos insignificantes que as marcaram sem que as mães sequer tenham ideia de que falam. Idealizam uma mãe perfeita e as mães são como elas são enquanto mães, mulheres normais, esforçadas, dedicadas e cheias de amor, mas humanas, imperfeitas. Mas Mónica, quando fala de Agustina, não se coloca como uma filha que avalia ou julga a mãe, muito menos como uma filha que acerta contas com a mãe que habita o seu passado. Não. Há ali uma muito genuína e muito profunda admiração. Mais do que como mãe, ela vê Agustina como um Ser.
Minha Mãe, mais do que uma filha, uma mulher, uma mãe, era um Ser. Um Ser raro, indefinível, pairante, impossível de encaixar em qualquer modelo. Exercitou a paciência para com Deus e a Vida, e sempre procurou o sentido dela e das criaturas que a habitam.
E fala do pai também com admiração, como se fosse outro ser especial, um guardião da liberdade e da criatividade da mãe, alguém que também reconheceu na mulher aquele toque da excepcionalidade que se presencia de perto once in a lifetime e, por tê-lo reconhecido e venerado, lhe deu todo o espaço e tempo do mudo. Viveu até ao fim, serenissimamente devotado à mulher da sua vida.
Para entrar na vida de minha Mãe, arrumou o seu próprio passado, não sei se com um sentimento de culpa, e caminhou ao lado de sua mulher. Aceitou partilhar um destino, construiu-o, por amor a minha Mãe e à inspiração que ela transmitia, e sustentava os sonhos.
Lê-se o livro e reconhece-se que Agustina paira naquelas memórias. São as memórias de Mónica a propósito da mãe e a influência daquela mulher misteriosa e ímpar está marcadamente presente.
De vez em quando saí para ver os verdes das árvores, dos arbustos, dos musgos ou o rubro das folhas das parreiras, aspirar os odores da terra e ouvir os pássaros. E, contei-o também, voltei a ver o gatinho. Não sei se é sempre o mesmo. Deixou-me chegar muito perto. Eu aproximo-me e ele, ou ela, deixam, expectantes. Há curiosidade de parte a parte, um namoro longo.
Fiz um vídeo. Não está capaz. Não sei filmar, já se sabe. Mas mostro-o, ainda assim. Talvez um dia volte a mostrar outro, já eu a fazer uma festa no enigmático animal que me espia. Senta-se a olhar para mim. Talvez ache estranho que, de vez em quando, ali apareça esta que passeia como se flutuasse, em estado de encantamento, olhando tudo como se fosse a primeira vez.
De volta à cidade e tentando manter-me agarrada ao espírito sagrado do meu heaven, agora que já tratei da lida doméstica, aterro no meu sofá para rever fotografias e vídeos.
Tal como referi no post anterior, este domingo de Páscoa fiz uma descoberta que me deixou não apenas surpreendida como mais do que encantada.
Parece que, de semana para semana, aquele meu lugar é mais habitado. Os pássaros são invisíveis mas penso que cada vez são mais. Cantam, cantam. Um despique, cantares diferentes, alto e bom som, uma alegria. E lagartixas. E gatos. E volta e meia uns cãezinhos pequenos que vêm da casa do outro lado da estrada. E penso que coelhos que sempre os lá houve embora, tal como os pássaros, sejam geralmente invisíveis. E borboletas e abelhas e formigas.
E sei lá que outros seres por lá vivem. Espreitei melhor para um dos ramais da gruta e parece-me impossível que seja desabitada. Uma rocha linda, a que está dentro da gruta. Macia, umas cores inesperadas mas suaves.
Mas, então, andava eu por lá passarinhando e fotografando e filmando quando vi, em cima de um arbusto de alecrim, uns ramos já secos de pinheiro. Depois da fase do desbaste, enquanto o meu marido anda a acabar com os rebentos no chão, eu ando a apanhar restos de ramos, pauzinhos secos.
Então, quando me debrucei para os apanhar, ouvi um barulho. Depois, uma corrida assustada por entre os arbustos. Olhei e vi que tinha saído de lá a correr um gatinho branco. De manhã já tinham saído a correr, à minha frente, dois gatinhos brancos mas isso foi perto da casa e agora, ali, estava bem longe. Espreitei. A caruma quando cai dos pinheiros, forma uma cama no chão e, quando cai em cima de arbustos, fica como que suspensa -- e eu já tinha reparado que se formam uma espécie de tocas.
E foi no fundo de uma dessas tocas que vi outro gatinho branco, já grandinho e, olhando melhor, pelo menos mais dois bebés, um todo branquinho e outro preto e branco. E eu fiquei ali a olhar para eles e o maior a olhar para mim, um olhar fluido, quase transparente.
A princípio parecia-me apenas um. Mas depois vi uma cabecinha pequenina a mexer-se.
Aproximei-me. Foquei melhor. Baixei-me. O pequenino dava às patinhas, queria mexer-se.
Depois vi que, ao lado (à esquerda na fotografia), outro serzinho se mexia. Um gatinho preto e branco
Não percebo qual o papel do que fugiu e qual o do que ficou. Não me parecem ainda adultos mas a verdade é que ali estavam dois gatinhos bebés. Talvez este maior seja um irmão mais velho dos bebés. Não sei. Ou será a mãe e o que fugiu o pai? Seja como for, uma ternura.
Que este meu espaço acolha estas vidas que aqui se reproduzem não me parece apenas maravilhoso, parece-me bem mais que isso. Sinto-o como uma bênção, uma dádiva, um presente divino, uma recompensa que me enternece, mais um laço que aqui me prende de uma forma visceral.
Depois afastei-me devagarinho, para que percebessem que sou bicho de paz, que comigo podem sentir-se tranquilos.
Fiquei foi a pensar: de que se alimentam? O meu marido diz que caçam. Mas será que o que há dá bem não apenas para os animais crescidos como também para os bebés quando forem mais crescidinhos?
Bem. A natureza é mãe, sabe o que faz. Não vou pôr-me a levar ração para tornar os gatinhos gordos e preguiçosos.
Para gordinha e preguiçosa já basto eu que, de tarde, estive deitada ao sol, no banco de pedra debaixo do pinheiro grande (aquele da primeira fotografia, lá em cima).
Mas aqui chegada devo esclarecer que resolvi voltar a fazer dieta. À vinda não pedi para o meu marido se desviar para eu ir comer o gelado de kumquat que adoro e o meu jantar foi uma barrigada de fome. A ver se não vou voltar a poder usar, nas calmas, calças 40, justinhas - ah vou, vou. Nem que jejue durante dias, nem que fique todos os dias aqui a escrever e com uma vontade danada de ir comer amêndoas, bananas, queijo.
Mas pronto, mostro-vos mais um dos vídeos feitos hoje de manhã. Por vezes, parece que está com a imagem um bocado tremida, não sei porquê. Falta de jeito minha, só pode.
O meu marido ouviu-o, há bocado, e perguntou porque é que eu, ao princípio, parecia cansada. Pois não sei. Tinha estado a caminhar e a apanhar ramos secos e coisas assim mas nada que me fizesse ficar cansada. Na volta sou eu que, antes de começar a gravar, retenho a respiração para ver se a voz me sai com maior potência e depois, em vez de voz, sai uma expiração ofegante. Mistérios. Mistérios irrelevantes, acho eu.
Mais um passeio in heaven para mostrar como as árvores foram limpas até grande altura
Dia tranquilíssimo. Uma aragem suave, um sol ameno. Limpei a casa, pasmei com o que a casa se suja mesmo com pouco movimento. A casa tem cinco portas que dão para a rua. Destas usamos regularmente três. E como andamos sempre dentro e fora, deve entrar pó ou somos nós que o trazemos connosco. Pó, não. Terra. Folhinhas, coisinhas do campo.
E passeei, sentindo-me de férias. Três dias de férias.
E fiz uma descoberta que me deixou maravilhada e de que falarei mais logo.
E vi, espantada, que as roseiras bravas floriram. Costumo chamar-lhes rosinhas de Maio (e se calhar é mesmo o nome delas -- não sei) e, vendo-as agora, em Abril, perfumadas e efémeras, enterneci-me.
E o gatinho cor de mel veio pôr-se no banco de pedra junto à casa, como se fosse um barão. Ou uma baronesa -- não faço ideia.
E outro, o preto e branco, andou a passear-se sobre um muro e eu, que estava noutra, só o apanhei em desfocagem.
Depois, mais à frente, apareceram dois branquinhos a correr, assustados.
E, portanto, andei pelos campos a flanar e a fotografar e, de novo, fiz vídeos.
O meu marido hoje apanhou alguns dos infinitos rebentos ladrões que despontam por todo o lado mas circunscreveu-se à parte de cima do terreno. Está com dor nas costas.
Esta nossa terra, pela morfologia e por tudo, nunca poderá ser um terreno agrícola mas de terreno seco e pedregoso virou esta terra fértil onde tudo nasce, tudo cresce. E cresce de forma descontrolada. Se um dia deixarmos de tentar conter toda esta exuberância tenho a impressão que os caminhos desaparecerão no meio de árvores e arbustos e que a própria casa se tornará mais uma gruta para animais ou outros seres dos bosques.
Depois queimou o que apanhou mas num bidão para não ter que levar tudo lá para baixo. Não sabemos se mesmo para queiminhas destas tem que haver autorização mas, por via das dúvidas, pedimos na mesma.
Um dos vídeos que fiz foi uma tentativa de repetir um que tinha feito ontem ao fim do dia e que não pude aproveitar.
Como sempre que ando muito tempo fora quando a tarde vai alta, o meu marido começou a chamar por mim. Não respondi, claro, pois estava a filmar mas, na ausência de resposta, ele foi andando e chamando e o meu nome acaba por se ouvir perfeitamente.
Hoje repeti mas não ficou nada bem pois deu-me para fazer com a máquina o que faço quando lá estou mas, pelos vistos, a uma velocidade muito maior. Portanto, uma almariação. Uma das coisas que tenho que aprender é a pôr alguns bocados dos vídeos em slow motion. Assim, como poderão constatar, fica complicado de ver. Fechem, por favor, os olhos para, no fim do vídeo, não caírem para o lado ou então tomem antes comprimidos para o enjoo.
Mas, acreditem, a intenção é boa.
Círculo de pedras in heaven
Entretanto, vou procurar uma coisa.
Cá está. Mostro um bocadinho daquilo do livro de Feng Shui para não pensarem que é delírio meu.
Aliás, o livro tem boas ideias e a disposição das coisas e dos jardins transmite uma sensação de grande harmonia. Não sei se algo mais que isso mas serenidade e harmonia transmite.
Tenho também a dizer que, quando me ouço, percebo que a meio das frases parece que me distraio e me esqueço de conjugar o sujeito com o predicado ou outras coisas do género. Um exaspero. Não sei se isso daria para editar mas devia dar porque há casos em que é uma vergonha.
E uma rectificação. Quando estamos na cidade a preparar as coisas para virmos para cá, andamos numa azáfama, a guardar isto, aquilo e o outro, e eu arrumo umas coisas, ele arruma outras e eu pergunto-lhe se ele já guardou isto e ele diz que eu me despache, que está farto de estar à espera. Ora bem. Eu sou despassarada, faço as coisas em piloto automático e, volta e meia, no meio destes preparativos, nem me lembro bem de as ter feito. E tão habituada estou a cometer gaffes que hoje, quando constatei que, em vez do cabrito pascal, tinha vindo porco, logo assumi que tinha sido mais uma das minhas. Quando, arreliada comigo mesmo, contei ao meu marido que não iríamos sacrificar nenhum cabrito, ele saíu-se com esta: 'Mas não era o saco que estava em cima, no congelador?'. E aí percebi que não fui eu, foi ele. Mas pronto, o assado de porco, cozinhado como um cabrito, ficou quase a saber ao dito. E comeu-se.
Fiz assim:
Num tabuleiro de forno, coloquei uma grande cebola nova cortada grosseiramente, um bom ramo de salsa, uns dentes de alho, um bocado de casca de laranja. Por cima a peça de porco. Por cima, pouco sal, mais salsa, orégãos, alecrim. Reguei com um pouco tinto alentejano e de azeite. O forno que estava previamente aquecido, foi reduzido para receber o tabuleiro. Esteve lá cerca de duas horas em forno a 170º. De vez em quando, virava a carne. No fim, cozi batata doce e, quando cozidas, verti-as sobre o tabuleiro. Parte das batatas absorveu o molho. Por cima pus um pouco mais de orégãos e um fio de azeite. Voltou tudo ao forno para bronzear.
E esta fotografia é para o Soliplass que talvez reconheça a silhueta que se vê ao fundo.
Boa Páscoa, Lenhador que se fez ao Mar
Bem. Disse contralto mas também poderia ter dito soprano, mezzo soprano e, até mesmo, sabe-se lá, encorpando a voz, tenor ou, mesmo, quiçá, barítona. Também poderia ter dito outra coisa qualquer nessa base embora, para falar verdade, me pareça que nem que nasça mil vezes aparecerei com outra voz que não esta.
Imaginem quando dava aulas. Incapaz de gritar. Se queria zangar-me em voz alta está bem, está. Se tentava, dava-me tosse. Portanto, não podia ir por aí senão destavam-se todos a rir. Ficava calada. E eles, vendo-me calada, acabavam por se calar.
Quando faço apresentações em salas grandes ou bem que há microfone ou tenho que me focar na forma como coloco a voz. E até consigo colocá-la. Mas tem que ser coisa propositada pois, se não estiver focada nisso, a voz sai-me mais apropriada à intimidade do que ao palco, ou seja, soft, sem elevações nem espinhos.
Se virem num post mais abaixo há por aí quem ache que a minha voz é uma porcaria. Eu não seria tão derrotista mas, já se sabe, tendo a ser caridosa (em geral, incluindo comigo mesma). No entanto, reconheço que não poderei fazer a vida com esta voz com que nasci. E daí... não sei, não. Ainda vou pensar no assunto. Estou aqui a ter uma ideia que, se bem explorada, capaz de ter alguma saída. É que, pensando bem, ter uma voz baixa ou ter umas mãos pequeninas ou a pele assim ou assado é daquelas coisas que não faz bem nem mal, são o que são e a gente adapta-se ao que tem. Agora uma pessoa com má índole, não é por nada mas duvido que tenha grande saída. Mas ao contrário da voz ou das mãos ou da cor da pele que são coisas sem salvação, já o mau feitio pode ter tratamento. Eu, pelo menos, acho que sim. E recomendo.
Bem, adiante.
Temos estado no campo e, como sempre, tem sido aquela luta contra o mato que rebenta, as árvores que devem ser mais desbastadas, as plantas secas que devem ser retiradas e queimadas.
No entanto, in between, ainda consegui estar deitada ao sol. Estava um calorzinho divino. Deitada sob o plátano, apanhando um solzinho dos deuses, ouvindo os passarinhos, não podia estar melhor.
Estava com a máquina a fotografar o céu e as folhas e tudo quando, uma vez mais, me senti observada. Aquela sensação oblíqua sobre a pele, um meio arrepio. Um olhar silencioso e penetrante pousado em mim.
Olhei em volta até que o vi,
Lá estava ele, o gato de mel. Lindo, uns olhos lindos, um pêlo macio e lindo. Fiquei a olhá-lo e ele a mim. Depois fotografei-o. E ali ficámos. Não sei se um dia serei capaz de me aproximar dele, nem sei se ele quererá chegar-se até mim. Nunca fui capaz de fazer uma festa num gato. Tenho medo que se vire a mim. E, no entanto, que encantamento ver a elegância arisca e inteligente dos gatos.
Andei também a fotografar rosmaninho, alecrim, musgos, líquenes, pedrinhas, folhinhas, florzinhas secas. Tudo me encanta.
Fiz também, outra vez, vários filmes. Mas nuns apanho o meu marido e isso não me parece bem, noutros é ele que chama outra vez por mim e ouve-se distintamente o nome e eu fico furiosa com ele, noutros mostro mais do que devo e isso também não se recomenda, etc. Uma luta. Tenho que aprender a editar estas obras, nomeadamente a truncar trechos de vídeo.
A verdade é que nunca o tempo me chega. Tantos os afazeres no campo que chegamos ambos aqui à noite e estamos cansados e eu sem vontade para explorações e aprendizagens.
Portanto, sem mais delongas, eis o brilhante vídeo que se salvou e que era para ser uma coisa mas que, por causa de dois ramos de cedro caídos e secos que pediram para irem saltar à fogueira, se ficou por aquilo que é e que aqui, com vossa licença, se mostra.
Muito frio. Ao sol ainda vá mas, ainda assim, se se levanta o vento, logo se infiltra por entre as malhas do meu casaco. Trouxe um de lã macia, grossa e aveludada. Mas foi feito com agulhas ainda mais grossas pelo que ficou solto, leve e, portanto, o ar entra por ele com a maior facilidade.
Quando chegámos a casa, estava mesmo fria. Como gosto sempre de abrir as janelas para arejar, o meu marido veio logo dizer que nem pensar. E à noite já tivemos que dar uso à salamandra. Muito bom, o calorzinho ameno aqui junto a nós.
Ontem estive a ler o livro que tinha começado a ler no carro e do qual estou a gostar muito: Os testamentos traídos de Milan Kundera. É daqueles que estou a ler e a lamentar não ter a capacidade de memorização daquele meu amigo que até desconfio que seja pouco normal (e digo assim para não dizer anormal de todo): memoriza tudo. Tudo. Estamos a conversar e ele lembra-se de passagens de livros e depois di-las. Por vezes são livros que já li e ele diz: 'Lembra-se daquela parte em que ele se insurge e, com uma ironia fantástica, diz que...' (whatever) e eu não me lembro de nada. Até me faz sentir como se estivesse a querer enganá-lo. Este do Kundera dá vontade de memorizar e de transcrever para vos mostrar. Mas, como é bom em contínuo, desisto.
Agora a seguir vou voltar a ele. Já não vou poder deitar-me lá fora, ao sol, a respirar o perfume da figueira. Ou fico aqui ou vou ali para o lado, deitar-me no sofá, talvez com uma mantinha. E talvez deixe que o sono pouse sobre mim.
De manhã andei a caminhar, a fotografar, a fazer os meus vídeozinhos bucólicos, a limpar a casa, a fazer o almoço.
Agora, enquanto estava a escrever, reparei num pequeno vulto ali entre as folhas. Fui ver. Era um cogumelo. O primeiro cogumelo de outono. Fui fotografar.
E só surpresas. Estava também agorinha mesmo a colocar aqui a fotografia, diz o meu marido: 'Olha, um faisão'. Ao princípio nem percebi. Ele disse: 'Aqui à porta'. Nem queria acreditar. Era mesmo. Esta sala tem portas de vidro que dão para a rua. Um faisão lindíssimo passeava-se mesmo junto à porta. Rapidamente peguei na máquina mas ele já tinha ido para o pé da fonte. O meu marido disse: 'Se abres a porta, voa'. Mas, para o fotografar, para ter ângulo, tinha mesmo que abrir. Em silêncio. Mas ele ouviu, sobressaltou-se e voou. Grande, pesado, levantou voo e num ápice deixei de vê-lo. Ainda não estou em mim. Um faisão belíssimo aqui. Este meu heaven é habitado por seres muitos misteriosos.
Bem. Vou ler.
Deixo-vos com um dos vídeos de ontem. O meu marido já aqui esteve a gozar por eu, por muito que queira, não conseguir ter uma voz encorpada e lisa. Sai-me sempre esta voz sumida, com graozinho. Uma irritação. Ele diz: 'Mas se é a tua voz, como querias que parecesse outra?'. Olha, desisto. Paciência. Terão é que pôr o som bem alto para perceberem alguma coisa.
Ora bem. O dia foi talvez um pouco atípico e com uma componente inicial de tristeza. Vão partindo aqueles que amamos e que, de alguma forma e, pelo menos em alguns momentos, foram uma presença importante na sua vida. Mas vão chegando novos seres e a nossa família é cada vez mais os que viverão muito para além de nós do que os que chegaram antes de nós. E isto significa que estamos a aproximar-nos da linha da frente. Quando a última das minhas avós morreu, uma amiga da minha mãe abraçou-a e disse isso: 'Agora já somos nós que estamos na linha da frente'. Fez-me impressão isso. No outro dia a minha mãe contou-me que essa sua amiga tinha morrido. Diz-se nestas circunstâncias: é a lei da vida. E é. As gerações vão dando a vez às gerações mais novas.
E eu, talvez porque essa consciência está sempre presente, dou, cada vez mais, mais valor à vida.
Enfim.
Mas a tarde foi descansada. Até dormi um pouco. (Era bom que todos os dias pudesse dormir um bocadinho à tarde. Penso que seria o regime mais adequado ao meu biorritmo).
Agora, depois de afazeres diversos, arrumações, montagem de uma mini-estante para arrumação de brinquedos dos meninos e outras coisas, elas sim, muito típicas na vida doméstica, eis que estou aqui na sala enquanto na televisão passa o primeiro programa do Casados à Primeira Vista.
A minha mãe tinha-me já falado deste programa que se passa noutro país qualquer e que ela costuma ver não sei em que canal, talvez na Sic Mulher. Como não costuma ser de gostos fáceis mas acha graça a este, deixou-me, a mim, curiosa. E, de facto, o programa tem graça. Comecei a pensar que era uma parvoíce e que tinha tudo para ser uma foleirada, cheia de gente esquisita para, ao fim de algum tempo, estar a achar que é preciso coragem para uma pessoa se meter nisto, assumindo publicamente que precisa de ajuda para encontrar um parceiro (que precisa ou que, vá, não rejeita). Faz-me um bocado impressão as pessoas exporem a sua vida a ponto de se casarem perante as câmaras de televisão (e, do que vi no final -- porque, entretanto, já acabou -- também a lua de mel) mas, do que percebi por esta amostra, a coisa passa-se com decoro e sem grandes apelos ao choradinho, pelo que vou dar um bocadinho de benefício da dúvida. Acho que isto já é fruto de tantos anos de reality shows: mesmo que a gente não veja e rejeite liminarmente este tipo de exposição, acaba por já não se escandalizar perante um programa destes.
Mas achei graça à forma como as famílias e os amigos aceitam tão bem uma decisão tão arrojada como esta de alguém se atirar nos braços de um perfeito/a desconhecido/a. E achei graça à forma como aparentemente os pares deste primeiro programa parecem acasalar tão bem. Assim como acho que é preciso nem sei bem o quê -- também coragem? -- para uma pessoa acreditar assim na presciência alheia a ponto de deixar que decidam o seu destino.
O casal de cinquentões do Porto, então, pareceu-me, a todos os títulos, perfeito. De tal maneira que até os respectivos amigos parecem também feitos uns para os outros. E as famílias também. Tudo parece feito de propósito para se completar -- ou seja, tudo muito inteligentemente escolhido.
Mas os outros casais, do que se viu, também. O surfista e a sua noiva sonhadora e emotiva, o camionista e a sua poderosa instrutora de ginástica. Tudo ali parece encaixar às mil maravilhas. Tem graça, isso.
Até comuniquei ao meu marido que se calhar vou também candidatar-me a ver se arranjo algum melhor que ele. Parece-me uma boa ideia, na volta com resultados inacreditáveis. Não reagiu.
Mas vou aqui cometer uma indiscrição: ele odeia este género de programas, não condescende, não facilita, aborrece-o até que eu tenha curiosidade. Pois bem, esteve aqui calmamente, sem tentar mudar de canal e, em especial quando o antiquário do Porto chegou à sala e se submeteu ao divertido exame das extraordinárias amigas da noiva, até se riu (em particular quando uma delas, entusiasmada com o charme do noivo, se esqueceu da situação e lhe perguntou se era casado).
Bem.
Neste momento estou a ver na RTP 2 uma bela pianada. Distraí-me e não vi que peça está Elisabeth Leonskaja a tocar. Tão bom. Vou pô-la aqui a tocar para nós.
Agora com esta conversa e a verdade é que estou aqui a pensar que deveria era ir rever a apresentação que amanhã vou fazer e deveria também preparar-me para uma investida que pretendo fazer; mas estou sem disposição porque há situações que prefiro que aconteçam sem preparação, em que preciso da adrenalina da espontaneidade e do acaso. Tenho isto: no que é relevante para mim não deixo que a perfeição de uma performance bem ensaiada diminua o nervosismo de que preciso para sentir que estou a atirar-me às cegas para o meu destino. (Não sei se já vos tinha confessado que não sou boa da cabeça)
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Entretanto, no pouco tempo que ontem tive para estar descansada da vida, in heaven, andei por lá cirandando, respirando o ar cheiroso, ouvindo a música da aragem e dos pássaros e, imagine-se o dispautério, outra vez a filmar. Esforcei-me por, desta vez, não fazer o pino com a máquina para mostrar a altura das árvores, tentei não deslizar rapidamente demais as imagens para não causar tontura e tentei falar mais alto para não parecer que estou a dizer segredinhos ao vosso ouvido. Contudo, como poderão comprovar, não fui lá muito bem sucedida.
Fiz este que aqui partilho e fiz mais uns quantos mas só mais um é que tem um mínimo de préstimo pois em dois ouve-se a roçadora de um vizinho do lado de lá e que, apesar de relativamente longe, naquele silêncio, parece que é ao lado e noutros não sei como manejei a máquina que apareço reflectida nos azulejos, perfeitamente identificável. Portanto, a menos que amanhã ou depois consiga mesmo repescar o outro, a faena não foi famosa.
Bom, chega de desculpa. Bora lá a uma caminhadazinha.
Terceiro passeio in heaven com a Sta UJM
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Conselho: nada de descer até ao fake post que se segue, Rui Rio contrata Cristina Ferreira para Ministra da Cultura do seu Governo sombra. Aquilo ali é tudo mentira.
Como se não bastasse ter tido pouco tempo ter para dormir, ainda por cima não o aproveitei. Custei a dormir e, quando a meia noite acordei, estava com frio e não dava com o lençol para me tapar. Com a manobra de andar à procura, o meu marido acordou, acendeu a luz e, ao ver as horas, disse que já pouco faltava para serem horas para se levantar. Depois disse que foi ironia mas a verdade é que espertei. Não dormi mais. Ou seja mal dormi. Também estava um bocado preocupada e passada com o dia de cão que tinha vivido. O meu marido, para se desculpabilizar, disse que não tinha sido por acender a luz e dizer que já faltava pouco para serem horas de acordar, que tinha sido era a preocupação que tinha. Não quero saber. Sabendo disso, não deveria ter acendido a luz nem dar-me a ideia de que já nem valia a pena tentar adormecer.
Em cima disso, ter que ir cedíssimo. Depois um dia cheio, sem um minuto de descanso. Uma pessoa não tem tempo para respirar, para olhar pela janela. E a sentir-me cada vez mais constipada. Espirros, um friozinho a subir dos pés, pelas pernas (sem meias) acima. E como os meus dias andam mesmo assim, com sombras a pairar sobre a minha existência, vinha eu de regresso, já totalmente lusco-fusco, absorta, quando, na avenida, parada no semáforo, abre o verde para a via à direita e se mantém encarnado para que, como eu, ia em frente. Estava eu a acabar de espirrar, sinto o carro a dar um valente salto e um estrondo. Percebi logo. Pelo retrovisour vi um homem jovem a pôr as mãos na cabeça. Saí. Nestes momentos, sempre muito calma. Enervantemente calma, disse uma vez um colega para me caracterizar.
Ainda por cima, o meu carro estava na oficina, para revisão, aquele era um carro de substituição. Quando com carro de substituição, vou com mil cuidados não vá fazer um risquinho de nada e meter-me em trabalhos. E era nisso que pensava: caraças, eu com tanto cuidado e fazem-me isto. A parte de trás do carro toda amachucada, transversalmente partida. O jovem, bonito, muito simpático, pediu desculpas, que se tinha distraído com o semáforo da outra via, queria saber se eu estava bem, todo ele preocupado comigo. A grelha da frente do carro dele partida, metida para dentro. Enquanto se preocupava com o meu estado, olhava também para o seu próprio carro. Todo aborrecido, coitado. Perguntei-lhe se tinha seguro. Que sim, claro, mas só contra terceiros. Cabelo curto, barba, ar de menino muito bem.
Confirmei: então agora preenchemos a declaração amigável, não é? Ele disse que sim mas, para não estarmos a atrapalhar o trânsito, que fossemos lá para a frente, ao pé da placa. No entanto, a minha calma é aparente e, de tal modo, que até a mim me engana. Então não é que me meto no carro e avanço? Nem me lembrei de ver se o semáforo estava verde. Não estava. Os carros que vinham de lá todos a apitar e eu ali no meio do cruzamento. Quando pararam, avancei e, de novo, os que vinham da direita a cruzar para o outro lado, todos a apitarem. Pensei: era mesmo o que faltava. Depois de levar uma à Ronaldo (salvo seja, claro) vou meter-me no meio de um cruzamento, à maluca, e levo mais uma pela frente e outra de lado?
Não sei como, lá escapei incólume. Quando preenchemos a declaração amigável constatei o pedigree do nome. De facto. O nome da detentora do seguro falou por si: nome sonantíssimo da nossa praça. Pensei: soube educar bem o filho, sim senhora.
E pronto. Cá estou. Amanhã tenho que ir outra vez cedíssimo e, ainda por cima, antes de uma reunião que estou curiosa para saber no que vai dar, tenho que explicar, a quem me vai levar o carro e trazer o meu, o que se passou. E, com isto, dói-me a garganta e sinto-me mesmo constipada. Daqui a nada vou tomar um anti histamínico. Já sei que vai pôr-me a dormir durante uma semana. Mas tem que ser. Não posso estar assim não apenas porque não me sinto bem como não é civilizado estar numa reunião com gente muito importante e cheia de nove horas e eu ali a espirrar e a assoar-me feita inconveniente.
Acho que não vou, outra vez, conseguir responder aos comentários. Acreditem que não é falta de educação ou de consideração: é mesmo isto. Peço desculpa. Custa-me porque acho que se temos a caixa de comentários aberta é para interagir com os Leitores. Mas, juro, acho que não vai dar.
Há bocado deixei-me dormir. Mal dormida, constipada e cansada, foi, uma vez mais, tiro e queda. E isto antes do anti-histamínico, fará depois. Acordei cheia de frio. Já fui pôr uns pezinhos, aquela espécie de meiinhas que a gente põe para cobrir a sola, os dedos e o calcanhar, para os sapatos não ficarem em contacto directo com a pele dos pés. São de algodão bege, coisinhas de nada. Mas são-me confortáveis, aquecem-me.
Não tive tempo para ler ou ouvir notícias, só sei que o Ronaldo se vai defender dizendo que afinal havia outro. Onde se pensava que aquilo tinha sido uma cena a dois, coisa simples, amor no coração e violinos em background, terá sido, afinal, uma picante e tresloucada ménage a três. Como parece que o nosso CR7 lá estava com um primo e um cunhado, na volta agora um dos dois é que vai pagar as favas. Aquela anedota do velho no comboio que, no meio da confusão, apanha uma bofetada quando o outro é que tinha curtido. Mas não interessa. Não faço ideia de nada destas cenas. Não estava lá para ver nem sou arraçada de Diácono Remédios portanto não me pronuncio. Let's wait and see que a coisa promete e os advogados estão em campo a facturar e a ter ideias.Li também que o buliçoso multimilionário rapaz antes tinha estado numa party com a Paris Hilton e que ela tinha dito que não tinha engraçado com ele, que era demasiado gay para o gosto dela. Assim. Parece que prefere os caniches. E o pobre Ronaldo, de repente, por aí anda a ver as suas intimidades aí expostas para que o mundo inteiro mande bocas, invente anedotas, faça comparações, evoque outros casos igualmente anais. Uma festa. À falta de coisa mais suculenta, o pagode agarra-se a qualquer coisa. Salvo seja, claro.
Bem.
Adiante que se faz mas é tarde.
O meu filho, ontem, quando me ligou, disse-me: A tua voz no vídeo. Falas muito baixo, parece que estás a segredar. Disse-lhe que não era a intenção mas que agora, pensando nisso, de facto, enquanto ia por ali com a máquina, a falar sozinha, se calhar ia falando baixo, sem querer quase disfarçadamente, não sei, se calhar para não me sentir amalucada se fosse conversando sonoramente. Para a próxima, vou tentar ir na descontra, conversando alto e bom som como se fosse acompanhada.
Mas perguntei ao meu marido:
O que achaste da voz?
- Qual voz? A minha, nos vídeos.
- O que é que tem? Diz lá.
- Digo o quê? É a tua voz. O que é que há para dizer? Não achaste muito coisinha?
- É a tua voz, que é que queres fazer?
Portanto, não sei.
Ou seja. Vou mostrar o segundo filme, aquele que acabou abruptamente por se ter esgotado o espaço de armazenagem. A qualidade é a mesma do outro: máquina aos pinotes, imagem revirada, deslizamentos apressados demais. Um dia destes ainda vou ver se descubro como editar, cortar bocados, dar vagar aos movimentos, retirar as bolinhas de contraluz. Mas, enquanto não, vai assim mesmo, coisa bruta, rústica como eu, como o tojo rompendo do chão.
Segundo passeio in heaven com a Sta UJM sussurrando* como se estivesse a dizer segredinhos
* No outro dia li que parece que agora estão na moda os vídeos em que as pessoas sussurram, murmuram, fazem barulhinhos silenciosos. Parece que o pessoal se amarra em coisa assim, vazia de conteúdo, só sonzinhos cúmplices, parece que fica tranquilizador, aconchegante. Vídeos de uma hora inteira só com suspiros, sussurros, papelinho a ser amachucado, barulhinho de água a gotejar. Li. Espreitei um ou outro. Pareceu-me uma seca mas eu também não sou exemplo para coisa nenhuma. E, de resto, eu sou mais mato, muros para pintar e maluqueiras assim. Mas pronto, para a próxima vou ver se me lembro de tentar fazer uma voz mais encorpada.
Inspirada pela fabulosa Gina Geia, a mais inspirada e descomplexada blogger que conheço, decidi voltar a fazer vídeos. Tinha feito uma meia dúzia deles por altura dos dois milhões de visitas ao Um Jeito Manso mas aquilo não me deve ter entusiasmado por aí além pois a verdade é nunca mais me lembrei de reincidir. Mas também, diga-se em abono da verdade, aquilo não era bem uma cena de vídeos-vídeos, era nem sei bem o quê com o telemóvel, talvez uma graça, uma diversão, uma experiência. Ou outra coisa qualquer, não faço ideia.
Mas agora andava com vontade de fazer uma espécie de reportagem. Mas já se sabe que, em coisas assim, não sou capaz de ter paciência para me aplicar a sério. Podia estudar alguma coisa, ver uns tutoriais. Mas, a sério, não me chega o tempo e a paciência para grandes apuros em matérias que prefiro de puro gozo.
O caso é que hoje de manhã peguei na máquina fotográfica e usei-a para filmar enquanto andava. Nunca antes o tinha feito com a máquina. Sempre fui de fotografar, não de filmar. Mesmo dos meus filhos em pequenos: milhares de fotografias e uma coisa que havia na altura, diapositivos, mas zero filmes. Prefiro o imobilismo dos instantes.
Mas isto a gente tem fases. Ou vipes. Whatever. Apeteceu-me. Então, fui andando e filmando. Fiz um primeiro para ver se estava a gravar o som. Depois fiz outro. Às tantas aquilo começou a apitar, uns pi-pi-pis discretos. Olhei e não vi nada de especial. Continuei. De seguida fiz mais uns quatro ou cinco, pensei: 'se ficar razoável, publico um por dia' -- e aquilo com aqueles pi-pi-pis. Quando me ocorreu ir ver se tinham ficado bem gravados, vi que o segundo tinha sido interrompido e, portanto, acabava abruptamente. E mais nenhum. Fiquei a pensar no que é que teria feito mal. Depois percebi: a pastilha tinha ficado cheia. Portanto, fiquei com o primeiro que era só uma experiência para perceber se funcionava e com o segundo que acaba sem se perceber porquê. Um desastre.
Agora à noite estive a ver a obra no computador, com o meu marido ao lado. Escuso de reproduzir os seus comentários: minimalistas, irónicos, como se isto não fosse coisa para levar a sério e, portanto, nem valesse a pena comentar. E eu concordo com ele.
Estive, então, a ver se isto dava para ajeitar, para corrigir aquelas partes imperdoáveis em que, pensando que estava a fazer uma coisa habilidosa, pus a máquina ao alto e o resultado foi a imagem a fazer o pino ou a fazer uma prancha. Ou aqueles travellings tão velozes que até dão tonturas. Mas não descobri. Portanto, não levem a mal mas vai assim mesmo. Um nonsense pegado mas, acreditem, com a melhor das intenções. Amanhã ou noutro dia mostro o segundo. Não está melhor. As minhas palavras não são melhores que as imagens. Volta e meia não bate a bota com a perdigota. Se é assim que falo habitualmente vou ali e já venho. Mas agora não posso apagar o que digo e dizer coisas inteligentes. Fica assim e, se não se importam, conto com a vossa santa benevolência.
A ideia era tentar mostrar imagens do meu bocadinho de terra, captando o canto dos pássaros ou a música da aragem nas ramagens. Mas não consegui. Se calhar teria que accionar um outro modo de captação de som. Só que o manual da máquina é um tratado gigante e eu não me apetece pôr-me a ler aquilo tudo. Com tanto livro bom que tenho para ler não vou gastar o meu ex´guo tempo a estudar manuais de máquinas fotográficas. Penso sempre que, um dia que tenha tempo, aplico-me, esmero-me, apuro-me. Mas, cá para mim, isso nunca vai acontecer porque, quando tiver tempo para mim, hei-de dedicar-me à política, a missões não sei onde ou a outra coisa qualquer e marimbo-me para me aplicar a estudar para fazer coisas bem feitinhas.
[E, enquanto escrevo estou a ver as notícias desgraçadas sobre as eleições no Brasil e, por isso, estou meio desconcentrada. Era para aqui escrever sobre um tema inspirado por um vídeo muito interessante mas acho que terá que ficar para outro dia, talvez amanhã, pois, como perceberão se virem o vídeo e querendo eu escrever sobre casos reais, tenho que medir bem as palavras -- e isso não é consentâneo com estar com um olho no burro e outro no cigano]
E pronto. Esta conversa mole toda é para protelar o momento em que vou partilhar o vídeo "Passeio in heaven com a autora do blog Um Jeito Manso" porque sei que é uma maluqueira sem explicação. E a seguir vou ver se faço outra experiência aqui na máquina, a ver se dá para fazer filmes aqui em casa.
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As fotografias foram feitas este fim de semana in heaven e mostram telhas e reflexos do interior na janela da sala.