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sexta-feira, agosto 21, 2020

Estantes, maminhas, marteladas e etc.




Acordei com uma dor numa perna. Tantos esforços tenho feito, tantos pesos tenho carregado, tão abaixo e acima tenho andado, debruçando-me nas caixas, esticando-me para arrumar os livros, alguns em prateleiras bem altas, livros e o demais,  que algum músculo se esticou para além da conta. Em simultâneo o trabalho, as reuniões, os telefonemas, e sempre a correr, sempre a pensar no que falta fazer. E, portanto, o corpo deu de si. Em mim, volta e meia, o muito esforço manifesta-se assim. Posso carregar caixas como um estivador que até eu fico espantada com a minha força, posso trabalhar dias a fio, horas a fio, e toda a gente acha de mais e me pede que abrande e eu só percebo que estou cansada quando aqui, à noite, caio instantaneamente a dormir. A energia e a resistência física não me faltam. Mas a ligação dos músculos aos ossos não deve ser das mais famosas. Acho que é aí, em cima, na zona de uma das virilhas, que me dói. Já tomei um ben-u-ron pois fomos ver se comprávamos candeeiros (e uma broca e buchas e extensões) e fiz mais uma máquina e tive uma reunião complicada e fomos ao supermercado. E, como estava com aquela dor e toda coxa, não tive outro remédio senão tomar um comprimido. Mas não arrumei livros nem deu para me esforçar muito, seria impossível.

De manhã, o meu filho veio com os meninos buscar as bicicletas para irem pedalar. Depois vieram largá-las e foram à vida deles. Mas estava em reunião nem consegui estar com eles. Ao fim da tarde vieram para fazer o favor de colocar as portas nas sacanas das estantes cor de rato quando foge. Desisti de me meter em trabalhos. Não era isto que eu queria mas a verdade é que, vendo bem as coisas, sendo benevolente e ceguinha, a coisa até é capaz de ficar com uma certa pinta. Uma parede toda em clarinho e outra, em perpendicular, toda em platinado foncé. Quando lá tiver os livros dentro logo faço a minha avaliação final. Como não gosto de me martirizar, quando acho que não vale a pena o desgosto, marimbo-me para as reticências e faço por descobrir vantagens. Na volta é a isto que se chama optimismo. 

A minha menininha mais linda queria ir trabalhar, ajudar-me, queria arrumar livros. Como eu estava impossibilitada, tal a dor, fomos sentar-nos na chaise longue que fica entalada entre a dita estante e a janela. Os parapeitos aqui são baixos e, por isso, ficamos a ver a rua, o jardim. Ela encostada à parede, entre a estante e a janela, eu reclinada no encosto. Ali estivemos a conversar. Adora estar cá. Disse-me que já escolheu a cama. Diz que o irmão a seguir fica na outra. A mãe perguntou onde fica o bebé. Ela disse que fica ou com ela e com o mano. Depois acrescentou: tu e o pai dormem no outro quarto. A mãe riu: ah, nós também dormimos cá? Ela sorriu, fez que sim. A mãe respondeu-lhe: 'Não... eu e o pai vamos mas é passar a noite a um hotel...'. Ela disse: 'Está bem'. E sorriu, toda contente. 

O mais pequeno queria ir à viva força para a cave, queria que eu fosse abrir-lhe a porta. Não fui. Expliquei que não havia ninguém para ir com ele. Disse que não fazia mal. Depois disse que podia ir o avô. Expliquei que o avô estava a acabar uma coisa, que tinha mesmo que acabar, não podia falhar. Depois perguntei-lhe: Mas queres ir lá para baixo fazer o quê? Respondeu: Para ir descobrir coisas. De facto, esta casa é uma verdadeira arcazinha do tesouro. Entre os recantos (e o que eu gosto de recantos...) e o que os anteriores donos cá deixaram, há sempre, de facto, coisas para descobrir. De vez em quando, a senhora, quando andava nas suas mudanças, perguntava-me se podia deixar algumas coisas. Eram coisas difíceis de retirar ou transportar, que não lhe serviam na casa nova. Tenho ideia que disse que sim a tudo. Vasos muito grandes, alguns candeeiros, prateleiras, arcas de madeira, uma mesa metálica que pesa toneladas e que, aproveitando os possantes homens das mudanças, veio para debaixo do telheiro. Portanto, de vez em quando, em especial na cave e garagem, vejo coisas que não sei bem para que servem. Por exemplo, uns módulos de gavetinhas. O meu marido perguntava no outro dia: 'Para que é que os gajos quereriam isto?'. Não faço ideia. 'Para guardar facturas, coisas assi...'. O meu marido achou que não: 'Só tu é que ias pensar numa coisa dessas'. Pois bem. Ontem, para minha surpresa, vi que já ocupou um módulo. Buchas, pregos, parafusos. Só o vi usar uma gaveta mas, na volta, vai organizar as suas ferramentas e afins por gavetinhas.

Mas o bebé não sabe disso. Se soubesse, então, ficaria curiosíssimo. Gosta de montar coisas. O pai até lhe ofereceu um martelo a sério. Quando o vejo de martelo em punho fico em pânico, a temer que me destrua a casa. Mas, até ver, ainda não.

O mano do meio é de outro calibre. Estava a ver televisão e, de repente, deixei de vê-lo. Chamei, chamei. Nada. Fui em busca, de divisão em divisão, e nada. Depois vi a luz da casa de banho acesa e pensei, ora, coitado, já não pode ir à casa de banho em paz. Passado um bocado a irmã veio dizer-me: o mano não está na casa de banho: ele é muito esperto, acendeu a luz e fechou a porta para nos enganar. Chamei por ele e ouvi a voz a vir da sala. Perguntei-lhe: 'Onde estavas?' Respondeu-me, com ar lampeiro: 'Estava aqui...'. e eu: 'Não estavas nada. Diz lá.' Detectei-lhe um arzinho de quem queria disfarçar a matreirice. E aí tive um lampejo: 'Não me digas que foste outra vez a procura daquele livro...'. Desmanchou-se: 'Descobri outro também com mulheres nuas...' e fez um ar malandro. Só me ocorreu dizer: 'Não posso crer. És maluco'. Não disse mas pensei: sai ao pai que, era quase bebé e já todo ele se entusiasmava com maminhas. Tudo o entusiasmava: fotografias, estátuas, manequins em montras. Pois quem sai aos seus não degenera e cá está o mano do meio, oito anos acabados de fazer, sempre empolgado com seios femininos.

E depois, uma vez montadas as portas das estantes, lá foi o casal fazer uma corrida e, uma vez regressados, lá se foram os cinco.

E eu fui trabalhar e o meu marido lá continuou. Depois fiz os meus telefonemas. Depois fui fazer o jantar. Jantámos às dez e meia da noite. 

Uma vez aqui chegada ao sofá, ainda circulei pelos jornais a ver se alguma coisa puxava por mim. Pode andar por aí meio mundo às turras, os médicos e o Costa, o Rio e o Albuquerque armados em não sei o quê ou pode o Marcelo andar feito nadador-salvador, pode a imprensa e as redes sociais andarem com o André Populista ao colo ou pode o Chiquinho-bebé andar a brincar aos partidos... que eu, Caro Anónimo, não sei se é das canseiras, se é da falta de pachorra para coisas assim, a verdade é que nada disto me dá pica para escrever sobre.

O que me interessa é seguir o conselho do Amofinado sobre o reencaminhamento do correio, o da Gata Aurélio sobre a forma de fixar quadros sem furar paredes (já cá cantam, já os trouxe do Leroy), a solidariedade do Francisco quanto à corzinha arratada da estante, a empatia da querida Sol Nascente e a todos que, em comentário ou mail, me deixam palavras sempre tão simpáticas e a quem aqui deixo os meus agradecimentos.

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E usei aqui pinturas de Wassily Kandinsky ao som de Max Richter: Never Goodbye.

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Entretanto, adivinhando que ando à volta das minhas estantes, o meu amigo algoritmo tinha estes vídeos aqui abaixo para me sugerir. Não é a primeira vez mas é o género de vídeo que posso ver várias vezes pois descubro sempre alguma palavra nova.

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A estante do Pedro Mexia


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A estante de Clara Ferreira Alves

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A estante de Rui Cardoso Martins


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A estante de Teolinda Gersão


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E uma bela e feliz sexta-feira

quarta-feira, fevereiro 26, 2020

As estantes deles. E alguns dos livros que arranjaram guarida in heaven. E o que os livros que escolhemos dizem de nós.
E outras coisas.





Há sempres partes dos meus dias de que aqui não falo. Mesmo quando parece que falo de muito, em geral aquilo de que falo não é senão o que se passa in between. Geralmente também não falo do que me preocupa enquanto me preocupa. Quanto muito, falo quando já não estou preocupada. 

De vez em quando sou surpreendida com comentários que nem chego a publicar ou mails nos quais as pessoas querem mostrar-me que conseguiram traçar as linhas que juntam os pontos que me definem e só falta desenharem o que pensam ser o meu retrato robot. Pasmo. Mas, se calhar, pasmo porque sei que o que omito é mais do que o que revelo. Mas aos ousados que me escrevem a evidenciar a prova da sua inteligência não passa pela cabeça que jamais se pode traçar um perfil e, muito menos, enchê-lo com carne e espírito, quando, na realidade, pouco se sabe de uma pessoa.

Mesmo que eu aqui expusesse os meus dados biográficos, o meu curriculum vitae detalhado, a minha ficha clínica e as actas das reuniões em que participo não se poderia concluir muito. A vida de uma pessoa é sempre tão mais do que aquilo que parece ser.

Mais: mesmo de pessoas cuja vida se pode consultar na wikipedia, que têm presença regular na comunicação social e na vida pública e mesmo quando praticam um estilo quase confessional, dificilmente se pode concluir que as conhecemos. Por exemplo, quem nos garante que, em privado, não se desdobram em disfarces ou que cultivam segredos ou que alimentam vícios inconfessáveis ou que escondem amores intangíveis? Ninguém garante.

Portanto, ninguém conhece ninguém, excepto, quanto muito, quando se trata de pessoas bidimensionais, desinteressantes até à quinta derivada, pessoas que se comprazem numa vida de inutilidade absoluta. Conheço pessoas assim. Olha-se e dir-se-ia que são pessoas que vivem vidas absurdas de tão desprovidas e nulas que são e, no entanto, são felizes nas suas rotinas e gestos inúteis. Dou por mim a pensar que, justamente, talvez sejam essas as pessoas que me melhor interpretam o absurdo ofício que é viver. 

Estou com isto pois hoje, de tarde, estando no campo, dei por mim a olhar alguns dos livros que por lá param. Geralmente são livros que levo para ler e que acho que é melhor lá ficarem para os completar no fim de semana seguinte ou para quando tiver tempo. Ou livros que acho que é melhor que estejam à mão quando quiser ir ler à sombra. Ou livros que quero ler com mais tempo, talvez nas férias. E pensei: será que, por estes livros desirmanados, alguém poderia decifrar o meu ADN?

Fui buscar a máquina e fotografei alguns dos montinhos. Ao ver agora as fotografias descobri alguns, poucos, uns dois ou três se tanto, que não sei bem o que são. Provavelmente esses ficaram justamente por não saber isso mesmo: o que são e onde melhor se encaixarão. 

Já agora, a propósito, um apontamento confessional: andei a ver aquilo de que a casa está precisada. E é tanto. Falta-me tempo para deitar mão a isso mas não poderemos adiar por muito mais. A parte mais antiga precisa de pintura por fora e por dentro, as madeiras do chão e do tecto precisam de óleo protector. Se calhar no chão, cera. Gosto muito do cheiro da cera. Dá mais trabalho mas o cheirinho é um consolo.

Também estive a abrir os roupeiros dos quartos que eram dos meus filhos e constatei que estão cheios de roupas que eram deles. Penso que jamais as voltarão a usar mas, com alguma esperança, iludo-me que, talvez um dia aos miúdos, os seus filhos, lhes dê jeito usar alguma daquela roupa, ou porque se sujaram  ou porque se molharam. Mas tenho que rever o que ali está pois o mais provável é que tenha os armários cheios de coisas inúteis.

Entretanto, a minha filha pediu que tentasse encontrar os seus livros de pautas de quando estudou piano. Por isso, fui ver a grande estante que está na despensa e que, quando comprámos a casa, estava em lugar de destaque na sala da lareira, e descobri não apenas imensos livros e brinquedos de ambos, de vários escalões etários, bem como cadernos e livros da escola -- e também pensei que não sei se faz sentido ter aquilo tudo ali, entocado e inútil. E, como sempre acontece quando procuramos alguma coisa, tudo menos pautas. Fui, então, à casinha lá fora onde estão as máquinas de cortar mato, a serra eléctrica, tintas, uma mesa de ping-pong, uma mesa de plástico desmontada e uma grande arca antiga, de sândalo, trabalhada, e para a qual nunca descobri um lugar digno e visível. Pensei que talvez as pautas ali estivessem. Mas não. Estava um grande saco com cobertores e um outro com lençóis bordados e com rendas. E isso encheu-me de pena. Eram de tias do meu marido, talvez até dos avós. Na altura, tive pena de deitar fora coisas que eram tão estimadas e que estavam numa casa tão bonita, tão bem cuidada. O meu marido queria deitar fora, dizia que nunca iríamos utilizar. Não fui capaz. Mas agora, ao ver que tinha posto ali as coisas e que nunca mais delas me tinha lembrado, pensei também que tenho que repensar algumas decisões. Guardo coisas que penso que têm memórias associadas a elas, coisas que, daqui por algum tempo, alguém possa gostar de conhecer. Mas quem? Quando? 

Mesmo os livros. Receio o que um dia lhes venha a acontecer. As pessoas têm as suas casas e elas não são elásticas, podem não conseguir acomodar o que lhes possa ser destinado. Vi quando foi dos meus avós, de qualquer deles. Nenhum dos meus primos quis ficar com alguma coisa. Disseram que não tinham onde pôr. Pude ficar com tudo o que quis mas, verdade seja dita, pude porque tenho uma casa no campo, com espaço.

Ao ir agora escolher uma música para ouvir enquanto escrevo, o YouTube tinha para me mostrar estantes em casa de pessoas conhecidas. Claro que vi todos os vídeos, e com que interesse os vi. Uma estante é um mundo e o amor que se tem a cada um dos livros que ali está transporta um pouco de nós para aquele lugar que, para quem ama livros, é do domínio do sagrado.
Mas fico a pensar, tal como penso em relação a mim: o que acontecerá quando a pessoa for desta para melhor e alguém se vir a braços com tudo isto, tendo que dar destino a todos estes volumes? 
Há coisas que fazemos que só fariam sentido se vivêssemos eternamente. Assim é tudo meio louco. E o melhor é nem pensar nisso.

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E estas são algumas das estantes de alguns deles








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As fotografias foram feitas esta terça-feira in heaven e achei que uma Bachianas Brasileira de Villa-Lobos vinha mesmo aqui a calhar
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Desejo-vos uma bela quarta-feira


segunda-feira, junho 09, 2014

Tarde de domingo com escritores dentro. Teolinda Gersão, J. Rentes de Carvalho, Mia Couto, Rita Ferro, Lídia Jorge, Ondjaki, Mário Zambujal e outros. A Feira do Livro de Lisboa a bombar. E uma dúvida: autógrafos - como pedi-los?


No post abaixo já conversei com a Leitora JV na sequência de um interessante comentário que ela escreveu. Dei a esse post o título Viver ou amar. Ler ou fazer amor. Esperar ou procurar

Claro que o 'ou' que usei não deve ser lido de forma exclusiva - mas isso muitas vezes não se escolhe. Por vezes a vida é mesmo avara. No entanto, nada nos impede de reflectir sobre o assunto pois, da reflexão, pode, quem sabe?, surgir uma atitude diferente perante a vida. 
Não sei se sou a pessoa mais indicada para este tipo de reflexões mas isso não me inibe: dou a minha opinião com espontaneidade e sem receio de que alguém possa desdenhar da sua simplicidade porque gosto de pensar que as minhas palavras podem ser de alguma utilidade ou, pelo menos, que sejam um entretenimento razoável enquanto ouvem a música que escolho e vêem as imagens que coloco. 

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


A palavra a um escritor: Bate-me à porta, em mim




Fui à Feira do Livro.

Durante anos e anos percorri uma e outra e outra vez a Feira do Livro. Primeiro, menina ainda, com os meus pais. Depois com um namorado. Depois com um outro que se tornou marido. Depois com os filhos. Depois de novo apenas com o marido. Hoje com o marido, a filha e já os filhos dela (o meu filho não quis ir, achou que ia ser uma aventura conseguir controlar as quatro crianças. Fez bem pois, mesmo só com dois, já foi o bom e o bonito e, pelo meio, até apanhámos um susto que nos deixou gelados: por uns instantes deixámos de ver o mais pequeno, parecia que o tínhamos perdido; o pavor que senti nem queiram saber; mas afinal estava por perto só que, numa fracção de segundo, mudou de direcção e não estava em nenhum dos lugares onde seria expectável que estivesse; mas foi uma sensação de pânico - que a mim me sugou o interior, nem sei explicar - enquanto não o vimos a brincar, na boa, até perto de nós). 

Bom, mas falava eu da Feira do Livro.

Antes não havia internet, o acesso à informação era mais difícil. Então, eu ia uma primeira vez apenas para percorrer os stands e recolher catálogos; nesse primeiro dia, para além dos catálogos, apenas trazia os livros que fossem livros do dia e nos interessassem. Depois, em casa, fazia listas com os livros que eu e o meu marido queríamos e fazia contas, depois voltava atrás e riscava uns quantos até que a selecção fosse comportável. A seguir, passava a limpo e fazia um roteiro. Quando lá voltava já sabia o que queria comprar em cada stand.

Falei no plural mas quem tem mais a pancada dos livros sou eu pelo que, para ele, tudo aquilo era excessivo.

De facto, o meu marido e os meus filhos acabaram por ficar um bocado traumatizados porque quer a primeira incursão quer a segunda implicavam fazer o percurso completo e, às tantas, já estavam fartos, cheios de calor, cansados. E no segundo dia regressávamos carregados como burros de carga. Por vezes, apetecia-me voltar uma outra vez e era sempre uma luta, não queriam, se iam, iam contrariados.

Ultimamente quase não vou lá. A Fnac, parecendo que não, com os seus descontos para aderentes e com as suas promoções e as feiras de livros que volta e meia se encontram por aí, vieram democratizar a aquisição de livros. E, sobretudo, cada vez mais, para comprar um livro, preciso de o folhear, tomar-lhe o pulso, perceber como flui a escrita. Ora, no meio da balbúrdia que é a Feira, isso não me é possível. Só se lá fosse a um dia de semana à noite mas, durante a semana à noite, apetece-me é estar em casa.

Os locais com muita gente parecem-me incompatíveis com a aquisição de livros, coisas que, cada vez mais, gosto de associar a algum vagar, a algum recolhimento. 

Mas a minha filha queria ir com os miúdos e, claro, não conseguiria arrastar para isso o marido pelo que nos sugeriu uma ida dominical. Depois de tanto a ter sacrificado em miúda, não poderia recusar-lhe isso.

Pelo meio compraram-se bolas de berlim da praia, waffles, e houve gelados e, já ao fim do dia, às sete e tal, uma fatia de pizza, e estivemos na relva a lanchar e depois, com os miúdos no parque infantil, e foi, apesar de tudo, uma bela tarde, uma festa para os rapazinhos que até receberam balões.

E, para descansarmos, abancámos debaixo de um toldo onde se vendia o Mar de Ricardo Henriques com ilustrações de André Letria e onde os miúdos estiveram entretidos a fazer um chapéu de pirata e desenhos e recortes.


Eles estiveram entretidos e nós estivemos à sombra, sentados, sossegados e encantados a vê-los a fazer os seus trabalhos. 

O André Letria tem um jeitão com crianças, conseguiu pô-los a trabalhar com a maior das facilidades.


A minha filha comprou uns quantos livros. Eu não. Ela até estava admirada comigo, habituada que está à minha compulsão. Mas não consegui mesmo. Sempre com medo que algum deles se escapulisse, depois ora não queriam andar de mão dada, ora queriam ir espreitar não sei o quê, e depois gente e mais gente. Impossível.

Por isso, com uma mão a ver se segurava algum deles pela mão ou pela gola e com a outra a ver se dava para tirar alguma fotografia, assim foram as minhas andanças.

Mas o que quero referir aqui é outra coisa. Os escritores. Há (sempre houve) o hábito de haver escritores junto aos stands das respectivas editoras a dar autógrafos. Dantes, quando não havia as grandes megas-editoras, eles estavam em pequenas mesas, por vezes com chapéu de sol, ao lado dos ditos stands. Agora as grandes editoras têm grandes espaços com muitas cadeiras, toldos, palcos, onde se concentram, por vezes, vários escritores.


Vejo-me sempre perante uma dificuldade: geralmente já tenho o livro que lançaram recentemente e outros. Por isso, não me faz muito sentido ir comprar livros repetidos apenas para ter um autógrafo.

Depois, é frequente vê-los a conversarem animadamente uns com os outros. Que jeito dá chegar ali, interromper a conversa? Até parece falta de educação. 

Depois há os que estão desoladamente sozinhos, sem que ninguém ali pare. Dá pena. O Embaixador Seixas da Costa também já falou disto. Vários escritores ali à espera que algum leitor se digne parar, sozinhos durante uma tarde inteira; ou, então, com algum amigo que nitidamente ali está para ajudar a passar por aquela provação. Custa-me tanto ver. Por vezes tenho vontade de me acercar mas temo que pareça que o faço por pena, que se sintam envergonhados. Cobardemente, faço de conta que nem vejo.

O meu marido ontem até perguntava, Porque será que se sujeitam a isto? Se calhar faz parte do contrato que têm com as editoras, admito eu.

Mas depois, para quem supera estas barreiras, há o acto, em si, de pedir o autógrafo. O que dizer?


Mia Couto, um escritor/escultor e um homem muito bonito,
aqui a olhar para a minha filha

Hoje à minha filha aconteceu uma coisa. Ela adora o Mia Couto. Quando o viu, foi a correr comprar o último livro e ali foi para lhe pedir um autógrafo. Ela é uma óptima comunicadora e nunca se inibe quando tem que falar seja com quem for. Pois, para seu próprio espanto, sentiu-se tolhida e apenas pediu que Mia Couto lhe assinasse o livro e, com voz quase sumida, pediu para escrever o nome dela e dos filhos. Mal se afastou, já vinha a morder-se por não ter sido capaz de lhe dizer o quanto gostava da escrita dele. Achou que podia soar a bajulação, não foi capaz.

Comigo aconteceria o mesmo. Uma pessoa chega e, do nada, começa a gabar o autor...? Imagino que ao autor a coisa até soe a postiço, ou a vulgar, ou a despropositado. Não sei. Sei é que eu também não sou capaz.

Por todas estas razões, apesar de lá ter visto autores de que gosto e de quem não me importaria de ter um livro assinado, não fui procurá-los. Limitei-me a fotografá-los. Em vez de ter o seu nome escrito nas páginas dos livros, tenho-os aqui, em pessoa (em pessoa é como quem diz: em imagem). Talvez seja a minha forma de mostrar o meu reconhecimento pelo trabalho que têm e pelo esforço que fazem, estando ali presentes durante longas tardes de calor e exposição pública. Um escritor é para mim um ser especial. Os escritores de verdade, claro.


Teolinda Gersão, alguém que pode muito bem ter sido inventado


José Rentes de Carvalho, feições e escrita esculpidas em pedra


Ondjaki,
um escritor especial, com uma presença amena


Rita Ferro, uma mulher carismática, com uma presença forte
 e Lídia Jorge, uma mulher de feições suaves, cara de boneca de porcelana


O sempre jovem Mário Zambujal em contra-luz e Não-Sei-Quem
(mas que também tinha um belo ar, lá isso tinha) -
só que eu, ora bolas!, queria era ver a Helena Sacadura Cabral ...


Para o ano há mais e talvez eu descubra uma maneira de me organizar e de conseguir comprar livros e obter autógrafos. 

Mas, independentemente disso, é um prazer estar num lugar que é muito belo e onde se podem adquirir livros e ver escritores e, não menos importante, estar num lugar que atrai tanta e tanta gente, tão heterogénea mas tão unida pelo gosto da leitura.


Na Feira do Livro de Lisboa 2014 - parte central do Parque Eduardo VII
(e a Estátua do Marquês de Pombal, a seguir a Avenida da Liberdade com o arvoredo central, depois o Tejo, e ao fundo, a Margem Sul)


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O vídeo lá em cima, da autoria de Cine Povero, é Herberto Helder :: Bate-me à porta, em mim / Dito por Luís Lucas

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Relembro: sobre a vida, sobre ansiedades e dúvidas, sobre amor e sobre os dilemas de como o encontrar ou aproveitar, fala-se a duas vozes no post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana já a começar por esta segunda-feira.

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terça-feira, março 25, 2014

Teolinda Gersão, João Bigotte Chorão, Dulce Maria Cardoso e outros (fazedores de livros que tão boa companhia me fazem) e Sylvie Guillem, la Mademoiselle Non - 'Force Of Nature'. Ou um corpo que é a arte ao dispor da mulher que o possui. Ou uma bailarina e uma mulher admirável. [Luís Filipe Castro Mendes junta-se a nós e faz ele muito bem.]


Nos dois posts abaixo falo do ataque cerrado e traiçoeiro quee José Rodrigues dos Santos fez a José Sócrates durante o seu espaço usual de comentário semanal na RTP 1. Foi deselegante e não foi jornalismo o que ele fez, foi uma entrevista à má fila. Mas, ainda que involuntariamente, acabou por fazer um favor a Sócrates pois deu-lhe a oportunidade perfeita para que este pudesse defender-se de todos os ataques (grande parte injustos e irracionais) que lhe fazem.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito diferente.

*

Apetece-me falar de coisas de um outro mundo. Tenho aqui um post quase feito, que ontem tinha começado a escrever e que interrompi por causa do que acima referi, mas agora estou na dúvida. Apetece-me, antes, falar de livros.

Não sou dada a medos mas há alguns que tenho. De alguns não quero nem falar, tenho medo de atrair. De coisas más quero distância. Mas falo de um deles pois refere-se a algo de que já aqui falei mil vezes: tenho pavor a que alguma desgraça me aconteça e que me impeça de poder comprar livros.
Por vezes, sabendo da dificuldade em que vive grande parte das pessoas do meu país (ainda esta segunda feira se soube que uma em cada cinco pessoas vive no limiar da pobreza), tenho até vergonha de aqui confessar a facilidade com que compro livros.
Os livros hoje são um luxo. Cada livro custa cerca de 15 euros, senão mais. Comprar quatro ou cinco livros significa gastar entre 60 a 70 euros. Poderei então confessar aqui que comprei mais uns quantos? Não estarei a ser ostensiva perante quem tanto gostaria de poder comprar um ou dois e não tem como?
Se o for, peço que me desculpem.
Mas, apesar de agora não ter tempo para ler tudo o que tenho, assalta-me frequentemente este medo: e se, um dia, quiser ler um livro e não tiver dinheiro para o comprar? Se me faltarem os livros para ler? Sei que é um receio absurdo (acho que tenho livros para ler enquanto viver, mesmo que viva até aos 200 anos como conto viver) mas tenho este medo. Então tenho vontade de os ir amealhando para o caso de um dia precisar.

Ainda hoje. A minha mãe faz anos e eu já tinha comprado o último livro da Rita Ferro para lhe dar e tencionava que fosse o complemento de uma qualquer outra coisa. Contudo, disse-me que não quer mais nada, só livros. Quase me implora que não lhe ofereça mais écharpes, mais molduras, mais roupa, mais colares, que não precisa, que não quer, que já lhe falta espaço para guardar essas coisas. Só livros. Lá fui, então, à FNAC. Ia para comprar livros só para ela e na minha cabeça convencia-me a não olhar para nada que a ela não interessasse, ia mesmo decidida a não me deixar cair em tentação.

Mas qual quê...? Para além dos que comprei para ela, trouxe mais uma braçada deles para mim. Sempre a mesma coisa.

E agora aqui estou toda contente, espreitando-os, lendo aqui e ali, passando a mão pela capa, sentindo-lhes o cheiro.

Mostro-vos, então, os que comprei para mim.

Juntei na fotografia dois brasileiros (assinalados com *) que já aqui tinha mas que acho que não vos tinha mostrado ainda.


  • A noite roda de Alexandra Lucas Coelho - da Tinta da China
  • Tudo são histórias de amor de Dulce Maria Cardoso - da Tinta da China
  • Além da literatura de João Bigotte Chorão (que dedica o livro, que tem uma bela capa, a Maria José, sua mulher, e ao Pedro, o filho Pedro Mexia)  - da Quetzal
  • Resumo, a poesia em 2013 - da Documenta
  • * A cidade ilhada de Milton Hatoum - da Livros Cotovia
  • * Malagueta, Perus e Bacanaço de João Antônio - da Livros Cotovia
  • A Porta para a Liberdade de Pedro Prostes da Fonseca - da Matéria Prima
  • Passagens de Teolinda Gersão - da Sextante Editora


(fotografei-os em cima de um maple, com uma écharpe de cada lado - tento sempre encontrar uma forma bonita de os mostrar mas, com as pressas, acaba por ser vira o disco e toca o mesmo). 


A ver se um dia destes se proporciona ocasião para transcrever um pouco de cada para que vos possa dar ideia do que é. Do que já espreitei, estou desejando ler o livro de João Bigotte Chorão. Livros sobre livros ou escritores ou sobre as circunstâncias que envolvem a literatura atraem-me muito: é a decantação mais pura da vida.

Mas hoje, dado o adiantado da hora (e dado que amanhã me espera uma daquelas que requereria que eu antes estivesse uma semana num spa a ganhar forças para o embate que se adivinha), vou então completar o post sobre uma mulher pássaro.

*

Como forma de me abstrair de tudo o que é mediano ou medíocre, penso noutras coisas - no cheiro da maresia nestas noites junto ao rio, em que caminho cheia de frio; no voo livre das gaivotas que atravessam o Tejo; na sabedoria tranquila dos gatos indiferentes perante a beleza imensa de Lisboa. E imagino-me a voar ou a dançar.

Volta e meia penso que seria bom se pudesse elevar-me como a Sylvie Guillem. Tivesse eu pernas assim e braços longos como asas e, com a minha alma de pássaro livre que é irmã gémea da dela, voaria para bem alto, bem, bem alto.



Deixa que a escuridão se instale completamente sobre a terra
e acende só então o pequeno candeeiro
para que a tua sombra encontre a noite do mundo.



  Esperanças de um maior contentamento
na areia dos dias que se espraiam
Sylvie Guillem tem agora 49 anos. Na altura do documentário que abaixo vos mostro, tinha 48 e um corpo extraordinário: leve, flexível, voador. 

O seu sentido artístico é notável. 

E tem fibra, uma personalidade forte.

E é uma mulher comprometida com a realidade que a rodeia, sendo também uma convicta ambientalista.

Se estou a fazer o que os outros querem, estarei a viver a vida deles e não a minha, diz Sylvie.

De vez em quando volto a Sylvie como se fosse uma amiga da qual tenho saudades.

Gosto de a ver a dançar, gosto de a ver a ensaiar ou, simplesmente, a falar. Gosto de saber o que anda ela a fazer. 

Contra a mediania que tudo transforma em nulidade, as televisões inundadas de lixo, os jornais quase só divulgando banalidades ou ruínas, as pessoas desfiando ódios imaturos e irracionais, abençoada internet que traz até mim imagens que me levam a voar.

Vamos Sylvie, vamos voar, vamos conversar.








*

O primeiro poema é  '1. Incipit' - de 'Glosas à Esperança'. 

O segundo poema é 'A noite do mundo'.


Ambos fazem parte do fantástico 'A Misericórdia dos Mercados' de Luís Filipe Castro Mendes


*

Relembro: abaixo poderão ver um post escrito como reacção aos vibrantes comentários de alguns Leitores a quem muito agradeço e que escreveram, encalorados, acerca de Sócrates e Rodrigues dos Santos. Que este seja um espaço de partilha de opiniões é algo que me traz alegria. 


*

E, assim sendo, por aqui me fico por agora. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira. 
Be happy!


quarta-feira, novembro 13, 2013

E ali? No cantinho do muro? - Não. De pé não quero . . . . . . . . . . . . . . . . . [A química entre nós, aquela atracção quase magnética.]




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- E ali? No cantinho do muro?
- Não. De pé não quero.
Meio selvagem. Entre suspiros breves, gemidos fundos. Quase não fala - até hoje.
- Rapidinho, não quero. Seja uma vez só. Mas com tempo. Não de pé. Contra o muro.
(...)
- Quero te ver. Mais uma vez. Sei que dá em nada. Com vocês, homens. Faz o que quer. Depois nunca mais.
- Aí que se engana. Não eu.
- Te vejo sempre com outras. Sou novidade. Depois sem interesse. Só mais uma. Isso não me serve.
- Só depende de você. Mais que de mim.
- Agora eu vou.
Mil beijos loucos. As mãos duras por ali viajando.
- Te vejo de novo, baixinha.
- Qualquer dia. Qualquer hora. Sei lá.
- Estou sempre por aí.

[1]

Vê a ninfa
sair do bosque

Identidade intacta
como tem a rosa

O ruído e as palavras
tropeçam-lhe na língua

e no seu corpo desliza
o insaciável desejo

[2]



E no meio de tudo isso o amor em que explodíamos, um dentro do outro, na nossa cama de todos os dias e nas camas casuais de outros lugares.

A química entre nós, aquela atracção quase magnética.

Tínhamos modos de ser, sentir e pensar, estimulantes e compatíveis e, como pensei muitas vezes, também mentalmente éramos amantes.

Mas não posso negar que o corpo tinha uma sabedoria só dele e a cama era o lugar número um do mundo. Todos os amantes sabem disso.

Éramos felizes, achávamos, sem palavras. Queríamos continuar assim.

[3]


Pousa a mão
no chifre do Unicórnio

Descendo
os dedos em torno

Como 
se fosse...

A boca
do poço

A boca da face
A boca do corpo
[4]



Dois dias depois (...) vi-me frente a frente com o meu belo anjo.

Estava vestida de freira.

Como a nossa ternura recíproca nos fazia sentir igualmente culpados, imediatamente nos pusemos de joelhos um diante do outro. (...)

Como os perdões que tínhamos que pedir um ao outro não podiam explicar-se por palavras, consistiram apenas num dilúvio de beijos num sentido e no outro, cuja força sentíamos nas nossas almas apaixonadas, encantadas nesses momentos por não precisarem de linguagem diversa para explicar os seus desejos e a alegria que as inundava.

[5]




Seduziste-me
Senhora
e eu deixei-me seduzir

de bom grado

No sigilo de vosso
colo
na devassa de vosso espelho


[6]




Bom, afinal estávamos a ter um romance.

Não se tem destas conversas se não se está a ter um romance.

(Eu pelo menos pensei isso, não sei o que pensaram vocês).

E essa era mais uma razão para eu ficar triste. Com o romance vinham os equívocos. Os equívocos geralmente vinham antes do romance, quando nem sequer havia romance nenhum nem estava para haver, mas isso não impedia que houvesse equívocos associados ao romance.

Havia-os de certeza.

Foda-se.

[7]


^^^^^^^^^^^^^^

1 - Excerto de A Polaquinha de Dalton Trevisan
3 - Excerto de A Cidade de Ulisses de Teolinda Gersão
5 - Excerto de História da Minha Vida de Giacomo Casanova
7 - Excerto de Os Idiotas de Rui Ângelo Araújo

2, 4, 6 - Poemas de A Dama e o Unicórnio de Maria Teresa Horta


As fotografias foram obtidas na internet e não consegui detectar a sua proveniência original.

O vídeo mostra Elis Regina interpretando Me deixas louca


^^^^^^^^^^^^^^^


A propósito: sobre a baixa de natalidade e o quão preocupante isso é, desçam por favor até ao post abaixo. 

(Espero que o post que acabaram de ler ajude, de alguma forma, a resolver o problema de que abaixo falo)

***


Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta feira!

terça-feira, agosto 20, 2013

Leituras de verão - ou o elogio do caos


1.


Tu tens medo dos lobos, tontinha!? - pronunciou Louvadeus em tom amável de repreensão.

- Olha que os lobos são bichos valentes, bichos simpáticos.

- Medo do homem, sim, do homem ladrão, do homem fera! Os lobos não metem medo.



Kate Moss by Mert and Marcus


2.

Quando os bobos uivam, até os lobos precisam de recolher à toca para recuperarem alguma paz. E levam consigo um livro.



Kate Moss by Tim Walker


(Pego então num livro antes de me recolher)

3.

A confiança não vive de uma imagem estática ou aprisionada do outro. Ter confiança é admitir a possibilidade de mudança, de viragem, de deslocação e, num certo sentido, também de 'traição'.

Para sermos fiéis ao núcleo mais fundo de autenticidade, temo-nos de interrogar constantemente: 'o que é trair?'. Não esqueçamos o que ensina Kierkegaard: a única traição é não ter querido nada, profunda e autenticamente.



Kate Moss by Tim Walker



(E num outro livro)


4.

Sorriu, alegre, sentada na beira da mesa, e escutou a música baixa, quase em surdina, rigorosa, talvez Vivaldi transparente, sem inquietação e sem perguntas, caindo leve sem tocar em nada.








A nota discordante, pensou. E sorriu outra vez, porque o que quer que dissesse seria uma agressão a tudo isso, começaria  falar e iria abrindo brechas na perfeição fictícia das coisas, e deixaria entrar subitamente a angústia.




Kate Moss by Mert and Marcus



É um mundo que começou a enlouquecer, disse de repente, sem preparação. Um mundo eficiente, de silêncio total, em que ninguém mais fala com ninguém. As pessoas estão sentadas, ombro contra ombro, à espera, mas o motivo da espera é sempre falso, o autocarro, o comboio, o avião, porque todos os lugares são iguais e nada é diferente em parte alguma.




Kate Moss by Mario Testino



Nada a dizer no dia claro, nada a dizer no dia claro. Assim fora, assim era, portanto. Voltou para dentro e fechou a janela.



(E ainda um outro livro)

5.

Um homem vencia os obstáculos do caminho e voltava finalmente para uma mulher amada, que tinha esperado por ele a vida inteira.




Kate Moss by Tim Walker


Havia milénios que homens e mulheres viviam a esperança dessa história. E uma vez por outra, talvez não muitas vezes e talvez apenas para alguns, bafejados pela sorte, pelo acaso ou pelos deuses, essa história inverosímil do regresso a casa entrava na vida real e acontecia.



*****

As leituras pertencem respectivamente (e sendo que cada excerto não segue por vezes a ordem original nem a ordem que escolhi obedece a nenhuma lógica - transcrevi tal como me apareceu e apeteceu) a:

1 - Aquilino Ribeiro, Quando os lobos uivam  (excerto que abre o livro seguinte)
2 - Onésimo Teotónio Pereira, Quando os bobos uivam
3 - José Tolentino mendonça, Nenhum caminho será longo
4 - Teolinda Gersão, O silêncio
5 - Teolinda Gersão, A cidade de Ulisses


A música é Verão de Vivaldi, interpretada por Julia Fischer no violino, acompanhada pela "Academy of St Martin in the Fields".



***

Permitam ainda que vos informe:

  • E muito gostaria ainda de vos convidar a virem comigo até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje, levada pela mão de Armando Silva Carvalho as minhas palavras são calientes como convém a um dia quente de verão. Segue-se-lhes a voz de uma grande fadista, Gisela João.

***

E por hoje é isto. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira. E boas leituras!