Antes de soarem as vinte badaladas, ninguém sabia o que justificaria tal despropósito: iria anunciar uma reestruturação de monta? Iria anunciar grandes medidas de fundo, quiçá fracturantes?
Afinal, depois de o ver e ouvir, toda a gente continuou na mesma. Um acto falhado, foi o que toda a gente, em todos os canais, concluiu. Parece que tudo se resumiu a anunciar, mais uma vez como se fosse coisa dele, a compra de carros de que o Governo do Costa já tinha tratado. Uma reincidência patética em querer ficar com louros do trabalho alheio, algo que deveria merecer tratamento psicoterapêutico.
Passou-se, disseram quase todos. Não tem noção, disseram os restantes. Absurdo, concluíram todos em uníssono.
Mas não eu. Eu alcancei o propósito da coisa.
Nem vale a pena imaginar grandes motivações pois 'o saloio de Espinho' (Marcelo dixit) é rasteiro demais para isso. Geralmente, com pessoas assim, os propósitos são apenas os que estão à vista.
E o que esteve à vista foi a árvore de Natal. E foi isso que ele ali esteve a fazer, nem mais nem menos: a mostrar a árvore de Natal.
Bem, talvez tenha tentado um pouco mais que isso. Bimbo que é bimbo, não perde oportunidade de exibir a sua bimbalhice. E, portanto, penso que não errarei se disser que ele ensaiou também apresentar-nos um presépio humano. Todos sabemos que, com aqueles seus arroubos de macho alfa e sorrisinho de joker, o seu pratinho é exibir-se em modo moderno, arrojado. E, portanto, ao lado da árvore de Natal, ali esteve o Presépio de São Bento à moda do saloio de Espinho.
Ele, o São José, claro (e nem vou comentar); a Rita Júdice (coitada, de tão boas famílias e agora a ver-se metida nestas alhadas), a Nossa Senhora; a fofinha Fiasco, o menino Jesus. Provavelmente, terá mesmo pensado em apresentá-la nuazinha, deitada nas palhinhas, a dar às perninhas, numa little manjedoura colocada ali em cima da mesa. Mas ela deve ter dito que estava frio, que se não fosse isso até dizia que sim, chefe, e para reforçar a sua posição, apresentou-se de echarpe enrolada ao pescoço. Dos restantes que ali estiveram a fazer figura de corpo presente, coitados, não sei qual aceitou fazer o papel de burro, qual o de boi (acho que eram homens pelo que vamos esquecer a vaca). E ainda estava ali gente que chegava para dar para os Reis Magos e para mais uns quantos carneiros.
Admirou-me foi o saloio de Espinho não ter levado a sua Senhora, que se veste tão a preceito, quiçá poderia desta vez não ir toda de pink com blusinha em transparências e rendas como se apresentou no Parlamento para comemorar o 25 de Novembro, mas ir toda de branco, com um piedoso véu, para tentar disputar o lugar de Primeira Nossa Senhora e atirar a Rita para um papel secundário. Cá para mim, alguém do protocolo deve ter aconselhado a desta vez não ir até porque já não cabia mais gente naquele presépio.
Quanto ao resto, cá para mim não vale a pena querer encontrar mais alguma justificação. Não há. Foi só isto.
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Até aqui tenho o vídeo do encontro dos Reis Magos antes de lá irem levar os seus presentes. Foi pena não termos visto o momento em que fizeram a oferta: provavelmente o senhor da ASAE levou as azeitonas que, segundo ouvi dizer, foram apreendidas naquelas magníficas rusgas, o da Judite uma carteira Kelly de contrafacção e o da GNR a cavalo deve ter levado umas chamuças ainda quentinhas que arrebanhou nalguma lojinha do Martim Moniz.
Como geralmente acontece, o Dia de Ano Novo foi vivido cá em casa. Só por isso já é, para mim, um dia feliz e a melhor maneira de começar o ano. E o meu desejo é que seja também um dia feliz para todos os que aqui partilham o dia.
Claro que, enquanto isso, fui fazendo um esforço para não deixar que a nuvem sombria que paira sobre mim não transparecesse e não ensombrasse também os demais.
Agora estou com as unhas pintadas de azul claro e, em algumas, há desenhos em cor de rosa, em branco e em dourado. Foi a minha menina que as pintou, de tarde, tal como pintou as da tia. E a tia pintou as dela.
E o meu menino mais novo, sempre reguila e esquivo, hoje estava mais meiguinho, deixou-se abraçar e beijar sem protestar. E todos aceitaram juntar-se na escada para uma fotografia em família que ficou muito bem.
Momentos sempre bons, vividos em harmonia e doçura.
Para não me pôr para aqui com mais votos ou com ladainhas, avanço já para o lado prático da questão.
Para o almoço fiz duas saladas, um rolo de salmão, arroz de carnes e salada de frutas
Vou contar como fiz.
Para picar:
Queijos, rolinhos de presunto e tostinhas com trufas trazidas pela minha filha, azeitonas.
Para começar:
Salada de salmão
Coloco alface iceberg no fundo (do ponto de vista vitamínico, acho que esta alface é a mais fraca. Mas é do agrado de todos, pelo que aposto nela para todos comerem salada, nomeadamente os miúdos). Era para ter posto abacates mas esqueci-me. Dois queijos mozzarellas frescos desfiados. Salmão fumado. Tempero com azeite, um pouco de sumo de lima e orégãos.
Salada de ovo
Numa tigela de vidro, coloco alface iceberg em baixo. À parte misturo maionese, ketchup e três ovos cozidos, um quarto de cebola branca (doce) migada, umas quantas azeitonas pretas sem caroço migadas. Coloco essa papa sobre a alface e envolvo. Por cima, migo dois ovos cozidos e mais umas quantas azeitonas pretas descaroçadas picadas. Passo um leve fio de azeite e uns quantos orégãos.
Para continuar:
Rolo de salmão
Numa frigideira, fritei, em azeite, uma cebola branca bem picada. Juntei salsa picada. Quando a cebola estava bem mole, juntei uma maçã cortada em cubinhos minúsculos. Temperei com sal. Deixei que quase se desfizessem. Depois juntei duas embalagens de espinafres frescos. Tapei a frigideira e deixei que os espinafres amolecessem. Misturei.
Temperei os lombos de salmão com um pouco de sal, abundante sumo de lima e cebolinho picado.
Estendi uma folha de papel de ir ao forno. Em cima coloquei um rectângulo de massa folhada fresca. Na parte central da massa, longitudinalmente falando, coloquei a cama de espinafres (e cebola e maçã). Por cima os lombos de salmão temperados. Cobri com abundante, mas ponham abundante nisso, mozzarela ralado. Fechei o rolo, puxando a massa para cobrir o dito recheio. Para dar graça, fiz-lhe suaves golpes em diagonal. Antes tinha batido um ovo inteiro (ia lá desperdiçar a clara...) com o qual pincelei o rolo.
Peguei no papel sobre o qual o rolo tinha sido montado e enfiei-o numa forma de bolo inglês. Ensinou-me isso o meu filho: o rolo fica aconchegado, não se corre o risco de abrir e desmanchar-se.
Por acaso, não fiz um: fiz dois rolos. O outro foi igualzinho só que, por cima, depois de pincelar com ovo, espalhei-lhe em cima sementes variadas, incluindo de abóbora, e ainda orégãos.
Antes tinha posto o forno a aquecer a 200º. Quando lá enfiei as formas com os rolos de salmão baixei para 170º. Não vi o tempo, talvez uns 40 ou 50 minutos, não sei. Sei que a meio quando me pareceu que corria o risco de tostar rapidamente demais, reduzi para uns 150º.
Arroz de carnes
Num panelão coloquei azeite, duas grandes cebolonas picadas, um bom ramo de salsa picada, dois tomates bem maduros cortados aos pedaços, louro, dentes de alho, três grandes cenouras cortadas aos cubinhos, uma mini (sim, mini: cerveja), rojões de porco e moelas bem lavadas e cortadas aos bocadinhos. Passado um bocado juntei coxas de frango do campo ao qual tirei previamente a pele. Apenas para dar um certo leve apontamento de sabor e graça, juntei um niquinho de bacon aos bocadinhos e um outro de chouriço de carne, de boa qualidade, também aos bocadinhos.
Enquanto cozinhava retirei um pouco de caldo para outro tacho. Aí coloquei carne cortada em strogonoff de novilho dos Açores. Depois de levantar fervura, um ou dois minutos e desliguei. Acho que assim fica mais macia.
Quando as outras carnes estavam macias, desossei as coxas de frango. Juntei água a ferver para ficar quase o dobro da quantidade de caldo relativamente à quantidade de arroz. Quase porque depois ia chegar mais caldo. Ajustei o tempero de sal. Quando levantou fervura, juntei o arroz basmati. Quando estava quase, juntei a carne de novilho e o tal respectivo caldo. Antes que estivesse o caldo todo absorvido, vazei tudo para um tabuleiro de forno.
Enfeitei com tirinhas de bacon e rodelas do tal chouriço. Foi ao forno para acabar de cozinhar, para secar e dourar as carnes enfeitantes da superfície.
Para terminar
Doces
Usei os bolos que sobraram do Natal e que descongelei, um bocado de tarte de amêndoa que a minha nora trouxe e que tinha sobrado da véspera, um doce de limão merengado que comprei e bombons.
Salada de frutas gelatinada
Numa tigela, coloquei duas maçãs cortadas aos cubinhos, quatro nectarinas aos cubinhos, vários bagos de uva sem grainha. Juntei uma embalagem de kefir de morango e umas quantas de gelatina de morango. Tudo sem açúcar. Misturei. Cobri de mirtilos.
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Temo-nos revezado nas visitas à minha mãe. Durante a semana fui eu, no fim de semana, os meus filhos. Quando regressaram, contaram que, apesar de tudo, estava menos queixosa. Menos mal, portanto.
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Saíram de cá, depois do lanche, já era noite, já os meninos tinham brincado, já quase todos tinham jogado a um jogo de cartas (claro que o 'quase todos' não me inclui, não consigo jogar a estas coisas, não tenho paciência para aprender regras).
Consegui que levassem alguns restos (porque, já se sabe, sempre com medo que falte, faço invariavelmente comida a mais).
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Quando aqui me sentei adormeci logo. Depois, primeiro que conseguisse energia para escrever isto foi difícil. Durante esse processo, de despertar, estive a vir alguns vídeos, por vezes adormecendo pelo meio, dos quais partilho estes três.
Anderson Cooper on freeing yourself from the burden of grief
The World Ahead 2024: five stories to watch out for
Why the world is going crazy—and how to win back our minds | Jamie Wheal | Big Think
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Nota: No dia de Natal de manhã, andando eu a lamentar não termos enfeitado a casa, o meu marido, madrugador, foi apanhar musgo e, sobre um tabuleiro, montou um presépio feito com presepiozinhos que gosto de coleccionar e com duas figurinhas que eram de quando ele era pequeno. Face à gripe da minha filha, como contei, o Natal foi em casa dela pelo que só hoje puderam ver o presépio feito de vários presépios. Por ter sido iniciativa do meu marido, gostei imenso. Direi mesmo que fiquei sensibilizada.
A fotografia não ficou famosa, reconheço..., mas a esta hora não me apetece ir fazer outra. Mas acho que dá para ficarem com uma ideia, não dá?
Fomos caminhar no início da noite. A temperatura agradável. Muita humidade mas sem chuva. Soube-me muito bem.
De tarde tive uma daquelas reuniões.
Isto das reuniões por teams ou zoom tem muitas coisas boas mas tem uma coisa que, ao fim deste tempo, já me cansa. Estou sempre a dar de caras comigo. Vejo que a blusa não me assenta tão bem como gostaria, vejo o cabelo e fico sem saber se o hei-de cortar, apanhar ou deixar para lá, vejo-me com cara de poucos amigos. Podia fingir que não estou a ver-me. Claro que sim. Mas já me conheço de ginjeira. Não preciso de olhar para mim para me ver. Uma seca.
A reunião estava a impacientar-me. Há pessoas que não atam nem desatam. Forcei-me a estar calada. Imponho-me contenção. Admito que sabem o que andam a fazer.
Do lado de fora da janela, no pequeno pátio junto à porta, a pequena fera peluda sentou-se depois de estar a olhar para dentro, provavelmente tentando descobrir-me atrás do monitor.
Ouvi os argumentos, as desculpas, ouvi as generalizações do costume que só servem para empatar e nunca para resolver. A noite começou a cair. De vez em quando intervinha mas discretamente.
Até que comecei a falar sem me impedir de dizer o que queria. Falei e vi que estavam todos muito sérios a ouvir-me. Quando acabei ficaram calados. Durante uns segundos ninguém disse nada. Pensei que o que vinha a calhar era que a pequena fera enchesse o espaço que tinha sido ocupado pelo vazio com um prolongado uivo.
[E abro aqui um parêntesis. Hoje, tinha-se ligado experimentalmente um alarme parcial. Esquecido disso, às tantas o meu marido foi lá. Aquilo desatou a apitar feroz, aguda e ensurdecedoramente. Como não sabia o que estava a passar-se, apanhei um valente susto. Eu e o little teddy bear. Ao meu lado, ladrou, ladrou, andou de um lado para o outro sem sair de pé de mim. E, então, fez uma coisa extraordinária. Uivou. Mas uns uivos a sério. Parecia um lobo. Parecia que um lobo tinha encarnado nele. Em quase treze anos nunca a nossa doce cãzinha tinha uivado. Passava-se com cavalos ou com gatos, ladrava e eriçava-se e corria como se estivesse possuída. Mas uivar nunca uivou. Este foi de tal ordem que o meu marido, que estava longe, ouviu. Não sei qual foi a dele. No fim, quando o meu marido apareceu e a coisa se esclareceu, o lobo felpudo dava ao rabo e olhava para nós como se estivesse a sorrir e a pedir o nosso reconhecimento. Disse-lhe: menino lindo, tomou muito bem conta da casa. E fiz-lhe festinhas.]
Quando a reunião acabou, tive que fazer uns telefonemas. Sentia-me livre. Fiz um chá. Estava mesmo a apetecer-me um chá. Mas quando o meu marido me perguntou se queria ir dar uma volta nem pensei duas vezes. Sair. Caminhar. Já era de noite e foi ficando cada vez mais de noite. Por volta das sete já é de noite. Perto das oito é mesmo noite cerrada. Sem chover, as decorações de Natal ganham outra graça. Grande parte das casas tem os interiores à vista. Grandes vidraças e, lá dentro, árvores de Natal a piscar, paredes iluminadas, pessoas sentadas à mesa, alguém sentado em frente a um computador, pessoas a circular na cozinha. De noite, as casas iluminadas parecem cenários de filmes que somos convidados a ver. Há qualquer coisa de íntimo numa casa iluminada, vista de fora. Acho engraçado que aqui as pessoas não se importem que vejam as suas casas por dentro.
Os meus novos vizinhos do lado também tem a casa cheia de decorações de Natal. Hoje, ao sairmos, reparei que uma das crianças estava sentada a uma mesa, escrevendo. E, à sua volta, luzinhas a piscar. Achei enternecedor. Também pensei que iam estar dias a retirar todas as aquelas decorações e iluminações; mas depois eliminei esse pensamento pois o meu sentido prático tem pouco de natalício.
Há pouco, quando aqui me sentei, estive a ler mais um pouco de 'Para quê tudo isto?'. As casas, as ausências, os afectos, as palavras.
Tenho que ter mais tempo para poder ler mais devagar, para poder ficar parada entre as palavras. Sentar-me a ler, os olhos pousados nos silêncios. No domingo estava sentada a ler, no piso de cima, na sala grande dos livros. E vi uma rola a esvoaçar junto à janela. Batia as asas e não saía do mesmo lugar. Foram segundos. Mas foi uma visão maravilhosa.
Quando estou a ler ali, no cadeirão junto à janela, o lobo felpudo deita-se aos meus pés e dormita. Se sente algum movimento lá fora, soergue-se mas, como percebe que dali não virá mal ao mundo, volta a dormitar. Nesses momentos é um companheiro tranquilo. Respeita o acto da leitura.
Estar em casa é bom. Dantes pouco estava em casa. Saía cedo, regressava tarde. Agora posso usufruir da minha casa.
Na pequena estante com portinhas de vidro que tenho à minha frente, a que tem a televisão em cima e que foi feita pelo meu pai depois de se ter reformado, há um pequeno presépio. Gosto de presépios. Há ali aquela convergência de ternura a que sempre se assiste quando as pessoas se reúnem para conhecer uma criança acabada de nascer. Não havia iluminações de Natal na gruta. Agora quase só há iluminações e pais natais. Acho que os presépios caíram em desuso. A bem dizer acho que pouca gente relaciona o Natal com o nascimento do menino Jesus. Mas não faz mal. Parece que, na realidade, nem nasceu a 25 de Dezembro e, de resto, já foi há tanto tempo que já pouca gente se lembra dele. Quantos meninos já nasceram -- em grutas ou em barcaças, os pais foragidos -- depois dele? A boa acção agora não é rezar a esse longínquo menino Jesus: a boa acção seria acolher nos nossos países tantos meninos de pais foragidos quantos pudéssemos.