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sexta-feira, junho 26, 2026

A mulher fatal subiu ao céu.
E regressou -- e conta como foi e como tem sido a sua vida

 

Do que a gente se apercebe, uma coisa é o que as pessoas são no dia a dia e outra é o que são por dentro. A gente vê pessoas que convivem, que dizem piadas, que riem, que trabalham, que são bem sucedidas, que têm uma vida normal, dir-se-ia que bem-sucedida e feliz, e, depois, quando mergulham dentro de si próprias, começam a desenterrar demónios, memórias angustiantes que, aparentemente, as têm mutilidado toda a sua vida.

Uma vez mais concluo que as pessoas são muito diferentes umas das outras pois as coisas de que muitas pessoas se queixam, passei por elas e não me fizeram mossa. De resto, só me apercebo disso ao ouvir relatar, com mágoa, o que lhes aconteceu. Penso: 'Olha, comigo também aconteceu isto...', porque, na verdade, nem me lembrava, pouca ou nenhuma relevância lhes tinha atribuído.

E, note-se, comparo comigo não porque me considere o fiel de alguma balança ou o alfa e o ómega do pedaço mas porque é o caso que tenho mais à mão e de que posso falar sem estar a cometer nenhuma inconfidencialidade.

Sou fã do Anderson Cooper em tudo o que faz. E o podecast em que conversa com pessoas sobre perda, sobre luto, sobre dar a volta, é muito interessante. Ele não apenas pergunta como ouve, ouve empaticamente, e faz observações sobre si próprio. São sempre momentos de partilha e, dado o tema que é, momentos de uma considerável intensidade.

Aqui fala com Sharon Stone. A bomba sexual de Instinto Fatal, a mulher com o cruzar e descruzar de pernas mais sensual do planeta, tem tido uma vida do caraças. E há que definir 'caraças' pois se há alturas em que ser do caraças é do melhor que há, noutras é o exacto oposto. É o caso.

Desde a hemorragia cerebral que a tirou deste mundo e a fez deslocar-se pela célebre luz branca, até ao complicadíssimo divórcio, à perda da guarda partilhada do filho, os vários abortos, a difícil relação com a mãe.... tudo lhe tem acontecido.

Mas está cá para contá-lo e isso é o mais importante. Com os olhos muito abertos, tentando controlar o choro, com a voz embargada, quase não conseguindo falar, Sharon Stone -- que já não é a mulher jovem e apetecível mas sim uma mulher interessante, pintora, defensora da igualdade de oportunidades entre homes e mulheres --, não contorna os obstáculos: vai de frente, fala, expõe-se, despeja o saco. 

A mãe nunca lhe disse: 'Orgulho-me de ti. Gosto muito de ti'. E ela toda a vida carregou esse não-reconhecimento com uma grande mágoa. A minha mãe também nunca me disse isso. Mas nunca me importei. Provavelmente a diferença é que eu sempre acreditei que não são precisas palavras, e que, apesar de não o verbalizar, era isso que a minha mãe sentia por mim. De resto, há palavras que, a mim, muitas vezes me parecem enfeites desnecessários. Basta-me tomar o pulso à essência, senti-la lá, viva. Basta-me, e basta-me muito bem. Do que se percebe, e certamente por todos os antecedentes, Sharon Stone duvidava que a mãe o sentisse. 

Mas não é só da mãe que ela fala. Carrega outras dores. A que foi uma das mulheres mais desejadas do mundo, que espalhava glamour por onde passava, tem, afinal, carregado muitas provações ao longo da sua vida.

Convido-vos a ver.

O luto complexo de Sharon Stone: "Para mim, está tudo bem sentir-me livre da minha mãe."

Sharon Stone viveu muitas perdas na sua vida, a mais recente das quais a morte da mãe, Dorothy, em 2025. Conta a Anderson Cooper que sentiu alívio após a morte da mãe e se sentiu "livre da minha mãe, livre do trauma dela".

0:00 O luto complexo de Sharon Stone
11:49 Stone fala sobre a sua falecida mãe
18:00 "Queria que ela morresse em paz"
23:59 "É normal ter todos os sentimentos que se tem"


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

segunda-feira, maio 04, 2026

Quanto custa despedirmo-nos de árvores?

 

Esta tarde estiveram cá uns rapazes ágeis, cheios de força e determinação. Quase conseguiram levar a cabo a tarefa de derrubar todos cedros grandes que estavam tombados. 

Antes, um deles já tinha vindo sozinho, durante dias, e já tinha cortado um deles que estava totalmente caído, a obstruir um dos caminhos, e também uns três ou quatro pinheiros muito altos e secos, um cedro que inexplicavelmente também secou (e que ainda não tinha atingido um porte gigante), um outro que estava bem vivo mas muito tombado, apenas sustentado por outras árvores, pernadas grandes de pinheiros e de aroeiras que se tinham partido. Mas a tarefa de hoje era a pior: cedros enormes, muitos metros de altura, possantes, uma ramagem compacta de alto a baixo -- e inclinados pelo vento, quase a cair.  Tudo fruto da depressão Kristin.

E, entre os dois, conseguiram dar conta de quatro. A complexidade maior, para além da envergadura e do risco de lhes cair em cima, é que estavam entre muretes e em volta de uns muros/bancos forrados a azulejos que importava preservar.

Conseguiram. Mas ainda há muito trabalho pois, para cada um, o grande torrão composto por terra, raízes e parte do tronco, ainda está intacto, um volume compacto, pesado --- e entre muros. Ou seja, um tractor não consegue lá chegar. 

E, para além disso, agora há troncos por todo o lado, ramagens e mais ramagens. 



No fim, teremos que pedir a alguém para cá vir levantar tudo isto. Das ramagens talvez façamos uma queimada. Já estamos registados no portal das queimas e queimadas e solicitamos aprovação. Talvez a família se junte, os meninos gostam de ver a grande fogueira que, em dias assim, se forma. O resto será lenha que alguém um dia consumirá. Nós já não temos onde acondicionar mais. O meu marido já transportou muitos troncos cortados para o telheiro da lenha.

Falta ainda o cedro mais complicado, talvez o mais alto, o maior de todos, que está entre painéis de azulejos. Nem quero pensar. Vê-se da nossa casa, faz parte da paisagem directa, não precisamos de ir passear para lá para o vermos. 

Isso será feito de seguida. Não quero ver.

Destes que já foram abatidos, enquanto os rapazes lá andaram, mantive-me em casa. Ouvia as serras a cortarem em contínuo. Só fui quando se foram embora. 

Uma desolação inexplicável. Onde antes havia uns vultos gigantes, frondosos, cheirosos, há agora o vazio e restos de troncos espalhados por todo o lado. 

Tento abstrair-me, não dramatizar, pensar que acontece. Aconteceu connosco e com tantas pessoas e muito mais grave que nós. Tivemos sorte. Bem sei. 

Mas também sei que antes de ir trabalhar, muito cedo, ia aos viveiros, escolhia as arvorezinhas, depois plantava-as, depois regava-as todas as semanas, fazia uma protecção em volta para o vento não os perturbar, para os coelhos não os comerem. Até que vingassem, tratei deles com cuidado e amor. Anos. Depois senti-me orgulhosa quando os vi, adolescentemente a deitarem corpo, espigados, a crescerem todos os dias. Finalmente, senti orgulho por serem tão fortes, tão belos, a darem aquela sombra com que tanto sonhei, a exalarem a frescura que tanto me reconforta. 

E agora tivemos que os abater.

É a vida, é a natureza. 

E foi também a nossa ingenuidade e impreparação. Sempre adorei cedros e nunca me passou pela cabeça que os cedros não fossem o tipo de árvore mais adequado a um lugar como este. Só depois disto soube que os cedros não enraízam em profundidade, em especial se o terreno é pedregoso. Quando pequenos, de facto deitam raízes para baixo mas, com a idade, quando atingem alturas grandes, estendem as raízes na horizontal. E com o vento a fazer o efeito de vela e as terras molhadas, empapadas, não houve pressão subterrânea para os aguentar. 

Fica a aprendizagem. E fica a memória da sua beleza quando estavam majestosos. 


De qualquer forma, não acabo sem responder à pergunta que formulei no título: Quanto custa despedirmo-nos de árvores?'. Custa muito.

sexta-feira, fevereiro 09, 2024

Eu numa fotografia, eu nas palavras que escrevo, eu nas minhas memórias -- em dia de descobertas e trabalhos pesados

 



Ainda não arrumei grande parte das coisas que vieram em sacos no sábado passado mas, ainda assim, resolvemos lá voltar hoje, só os dois, dar um avanço. 

A minha filha já tinha dito que podia ficar com um serviço de jantar, a minha nora, embora pouco convencida, disse que ainda conseguia acomodar mais um serviço de chá. E eu, não tendo nenhum deles referido um serviço de café que escolhi com a minha mãe quando ainda andava no liceu e de que sempre gostei muito, resolvi que esse viria para mim. O que elas escolheram é da Vista Alegre mas o que eu escolhi é de uma fábrica na Baviera, um desenho e umas cores completamente diferentes. Na altura a minha mãe hesitou pois era muito diferente das louças que ela tinha. Mas consegui convencê-la. Quando o desembalar a ver se fotografo para vos mostrar.

Acondicionar este tipo de louças, especialmente quando serviços completos, é muito trabalhoso e demorado e mais vale estarmos os dois sozinhos pois despachamos muito mais serviço. 

O serviço com que a minha filha ficou, disse-me a minha mãe não há muito tempo, nem chegou a ser estreado. É muito bonito. Já aqui falei nisso pois, quando ela me contou que na parte de baixo do móvel do lado esquerdo havia um segundo Vista Alegre ainda por estrear, fiquei com muita pena. Não sei para que o comprou tendo já um outro e isto para não falar de um outro, da Sociedade das Porcelanas de Coimbra (que viria a ser comprada e absorvida pela Vista Alegre) que, esse, era frequentemente usado. Não sei qual a ideia ao comprá-lo pois era óbvio que não chegaria a ser usado. Não sei se terá pensado que era um investimento. Provavelmente, mais que um investimento, um legado. Acontece que os destinatários já não têm onde guardar mais pratos, mais chávenas, mais copos. Neste caso, em particular, a minha filha diz que vai reformular a arrumação do aparador da sala de jantar para ver se lá o consegue encaixar. 

Mas o que acontece é que, porque me custa desfazer de coisas que a minha mãe adquiriu e conservou com tanto cuidado e agrado, vou trazer tudo. Fica tudo encaixotado num canto da cave e, com sorte, quando os meus netos tiverem a sua casa, virão cá abastecer-se.

No sábado tinha trazido toalhas e mais toalhas de mesa de renda e bordadas que agora tenho que ver onde as vou guardar. Hoje trouxe sacos de lençóis de linho, bordados, lençóis cheios de rendas, a dobra toda em renda, ora em bicos, ora em palas, ora a direito, ou a renda como entremeio, ou com renda e bordados, ou seja, também de toda a espécie e feitio -- predominantemente brancos com rendas e bordados também em branco. Mas vi uns de que me lembrei. A partir de certa altura, não sei bem, talvez tendo eu uns dezassete anos, a minha mãe e as minhas avós resolveram começar a fazer-me o enxoval. E lembro-me de ir a uma senhora que pregava rendas e fazia bordados para escolher para mim e de a minha mãe aproveitar a embalagem e mandar também fazer alguns para ela e lembro-me de ter sugerido que fizesse lençóis brancos com um bordado em cinza claro. Já não me lembrava do efeito mas, na realidade, estão muito bonitos. 

Pelo toque do tecido e pela forma como estão tão imaculadamente dobrados e arrumados tenho a certeza que não foram usados uma única vez. É que no roupeiro do corredor há pilhas de lençóis normais e eram esses que andavam a uso. Uns coloridos, outros com bordado inglês, outros com bordados simples. De alguns ainda me lembro de quando vivia lá. Imagine-se. Mas, portanto, todo aquele afã de fazer rendas, bordados, de escolher o melhor pano, de escolher a pessoa mais perfeccionista para fazer a obra de arte mais perfeita, foi para encher gavetas e prateleiras com coisas que não eram destinadas a ser usadas.

E agora tudo me vem parar a mim que também não uso nada disso. E fico cheia de pena, quase como se parte dos interesses ou ocupações da minha mãe tivessem sido inúteis. Na prática, como se tivesse desperdiçado parte da sua vida com coisas que, em termos muito pragmáticos, não servem para nada. Isso deixa-me triste.

Quando me encher de coragem para arrumá-los a ver se antes os fotografo. Ao menos vêem a luz do dia e podem ser observados por alguém em vez de estarem, em prateleiras no topo de roupeiros, votados ao ostracismo.

Ao tentar avaliar o volume de trabalho que ainda tenho pela frente, espreitei para dentro de alguns roupeiros. É de pesadelo. Coisas infindáveis. Mas num deles, ao tentar perceber o que me parecia um embrulho feito de tecido, fiz uma descoberta que me deixou emocionada. O vestido de casamento da minha mãe. Era estreita e magra como uma modelo. Não sei como cabia naquele vestido, lindo. Parecia-me que estava embrulhado num tecido fino, branco. Afinal, percebi despois, parece ser uma camisa de dormir, também até aos pés. Deve ter sido a que usou na noite de núpcias. Não sei agora onde vou guardá-lo. Se tivesse uma casa gigante com uma divisão a servir de museu, engomá-lo-ia, mandaria fazer uma caixa de vidro e pendurá-lo-ia lá dentro, como se vê nos museus, um lindo vestido em exposição.

E fiz uma outra descoberta extraordinária: numa gaveta da grande escrivaninha, que tem um conteúdo também infinito, por baixo de exames médicos, dentro de um envelope que estava dentro de um saco, ou seja, totalmente camuflado, estavam cartas escritas pelo meu pai quando estava na tropa e namorava a minha mãe. No endereço estava Menina tal e tal (o nome da minha mãe). Não sei se vou gostar de ler ou se vou sentir-me intrusa. Ao pegar no molho, vi que a última estava num envelope feito à mão, quase a desmanchar-se. E tinha escrito 'Por mão própria'. Uma letra muito bonita, mais bonita que a do meu pai (que é bonita). Se bem percebi, datada de mil novecentos e vintes e tais, é uma carta do meu avô materno dirigida à Menina tal e tal, minha avó. Tenho que rever a data pois, se vi bem, a minha avó pouco mais seria que uma criança. Aliás, a minha mãe, se não estou em erro, nasceu quando a minha avó ainda nem tinha dezassete anos. Tê-los-ia quase, estava por dias, mas ainda não feitos. Creio. 

E muitos envelopes com muitas fotografias. Dos meus pais em jovens, dos amigos, de primos, minhas em bebé e até adolescente, dos meus avós. Tantas, tantas fotografias. Eu deveria ter paciência e tempo livre para ler tudo o que tenho encontrado, para organizar as fotografias e todos os achados.

Mas não sei quando será que isso pode acontecer.

Comecei  também já a separar roupa da minha mãe. Fico com muita pena. Há tão pouco tempo ela ainda usava aquelas blusas, aqueles casacos, aquelas echarpes. A vida é efémera, ingrata. Sei que é da natureza, que não há volta. Tantas vezes eu dizia: 'Ninguém cá fica'. Ninguém. Mas quando nos toca a nós, de perto, as coisas ficam muito difíceis.

Ainda no início de Novembro, há três meses apenas, quando a minha mãe resolveu ir para uma residência assistida, estive com ela a escolher a roupa que ia levar. Só levou roupa de inverno porque, segundo dizia, na primavera ou no verão, ela mesma iria a casa para escolher roupa mais fresca. Estava cheia de planos. Foi carregada. Pensava que ia ainda viver muitos anos, queria levar muitas 'mudas', sempre gostou de se arranjar bem e, além disso, tinha lá amigas e isso ainda incentivava mais os seus brios. Ainda assim, nos primeiros dias em que lá esteve e antes de começar abruptamente a decair, ainda queria mais ténis, uns pares de calças de fato de treino para fazer ginástica, mais casaquinhos, mais não sei o quê. Voltei a casa várias vezes para ir procurar o que ela me ia pedindo. Tinha-se esquecido também de levar o casaco de tricot que estava a fazer, lá andei à procura disso e mais de um saco com novelos dessa lã. Em qualquer instante desses dias em que estava a fazer as malas ou a pedir que lhe levasse mais coisas eu adivinhei que, traiçoeiramente, um monstro silencioso estava a devorá-la por dentro. Dois meses e poucos dias depois estava morta. E eu pensar nisto deixa-me ainda perplexa e tristíssima. Quando escrevo ou digo ou penso que a minha mãe está morta ainda me parece mentira. Uma mentira muito cruel.

Sei que, num plano racional, pode dizer-se que a minha mãe sofreu durante pouco tempo e viveu bem, motivada e autónoma, até pouco antes de cair doente e, em pouco tempo, morrer. Mas, num plano emocional, é muito difícil.

Por exemplo, vendo aquelas suas roupas, as suas carteiras, as suas coisas, tudo ainda tão presente em mim, custa-me muito. E custa-me a acreditar. 

Estou a pôr quase tudo em montes em cima da cama dela. E tenho combinado com a senhora que a ajudava nos cuidados ao meu pai -- e que continuou a ir a casa dela no mínimo duas vezes por dia ver se estava tudo bem e que a ajudava nas compras --, que ela vai lá a casa (tem a chave), vê o que eu coloco em cima da cama, escolhe para ela o que quiser, vê se há coisas que se possam dar a quem precisar. E, se houver coisas que ninguém conhecido queira, ela mesma doa ou põe no lixo. Isso para mim é uma grande ajuda pois não tenho que ser eu a desfazer-me das coisas da minha mãe.

Ah, é verdade. Descobri também um rolo grande e grosso, atado com uma fitinha, e com um papel por fora a dizer Diplomas. Só vi o que era cá em casa. Muitos diplomas. Do meu pai, da minha mãe, meus. E, no meio, uma aguarela da autoria do meu tio, irmão da minha mãe. Lembrava-se daquela pintura. Era eu pequenina e achava que aquela pintura era insólita, inesperada, bonita. Depois deixei de vê-la. Agora descobri-a no meio dos diplomas. Estas descobertas enternecem-me.

Enfim. Irei dando notícias.

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Uma boa sexta-feira

Saúde. Força. Paz.

sábado, janeiro 27, 2024

A minha última tia e a outra autobiografia

 

Para além dos comentários aqui e dos mails de Leitores a quem muito agradeço, tenho recebido muitas mensagens de amigos, palavras de conforto e solidariedade.

Nos últimos tempos (na verdade, nos últimos dias -- foi tudo tão rápido que quase perco a noção do tempo), como a minha mãe quase não tinha voz nem coordenação motora suficiente para atender chamadas, pediu-me para eu trazer o seu telemóvel para casa. Aqui tem estado. Enervadíssima como andava, tirei-lhe logo o som pois sei que me faria impressão ouvir o seu telemóvel a tocar. Mas, de vez em quando, ao longo do dia, ia vendo se havia chamadas não atendidas ou mensagens. E ia respondendo ou devolvendo chamadas, tendo sempre o cuidado de dizer logo de início que não era a minha mãe mas a filha e explicando a razão de ser. Mas, por via disso, fui falando com várias das suas amigas. 

Hoje recebi, no meu telemóvel, uma chamada de um número que não faz parte dos meus contactos. Nada de mais pois não apenas o ano passado deixei de ter o telemóvel da empresa como tive que trocar o aparelho em si, por avaria, e, com estas mudanças, não sei como -- ou melhor, sei: certamente por nabice --, perdi inúmeros contactos. Quando atendi a chamada, do outro lado uma foz sumida, entrecortada, falta de rede, quase não se percebia. Deu apenas para entender que, muito ao longe, era uma voz de uma idosa e consegui distinguir o nome da minha mãe. Quando tentei perceber quem falava, a chamada foi entrecortada, posta em espera, e depois caiu. Quando contei isto aos meus filhos, ao chegar a este ponto, ambos me perguntaram se eu tinha pensado que estava a receber uma chamada do além. Não, não pensei. Pensei que poderia ser uma das suas amigas embora isso fosse pouco provável pois tinha-me comunicado com elas através do telemóvel da minha mãe e não do meu.

Devolvi a chamada e tive outra vez muita dificuldade em perceber. A pessoa estava num local com pouca rede ou não devia estar a pegar bem no telemóvel. Até que, ao fim de algum tempo, lá consegui perceber que era a minha tia cujo nome é o mesmo do da minha mãe. É casada com o irmão do meu pai. São os meus dois últimos tios vivos.

Esta minha tia está muito debilitada, com muitas dificuldades entre as quais a da fala. Não foi ao velório nem ao serviço fúnebre pois tem grandes limitações, entre as quais a nível locomotor. 

Aliás, na pequena cerimónia antes da cremação, um dos momentos em que quebrei foi quando chegou a minha prima com o meu tio pelo braço, já um pouco trôpego, muito abatido e muito triste. Não tinha ido ao velório na véspera porque estava frio e para a minha tia não ficar sozinha à noite. Veio ter comigo e abraçou-me, muito comovido, e vi-o a balbuciar, certamente queria dizer-me algumas palavras, mas não conseguiu dizer nada. Ele e a minha mãe conheciam-se desde sempre, sempre foram amigos e sempre cuidaram do jardim um do outro quando algum deles se ausentava. Tinha-me a minha prima dito que os pais nem queriam acreditar que a minha mãe tivesse morrido pois a minha mãe era, para eles, o exemplo a seguir, a pessoa cheia de dinamismo, com uma vida activa, a estudar, a caminhar, a conviver. Ver o meu tio, já tão velhinho, tão comovido, tão sem palavras, partiu-me o coração.

E a minha tia deve ter estado a ganhar coragem para me telefonar pois estava também muito emocionada, muito triste. É inevitável que pensem que, do grupo de familiares daquela idade, já só resistem eles. Custou-me muito falar com a minha tia, a voz muito apagada, estava a evitar chorar, muito triste. Às tantas, depois de falar das suas maleitas, disse-lhe que ela, se calhar, devia ir mais para o jardim, apanhar algum sol. Faz-me impressão que esteja o dia todo dentro de casa. Mas mal consegue andar e tem medo de cair. E eu percebo-a. A minha prima é incansável. Não sei como, dada a sua muito absorvente vida profissional, consegue ir a casa dos pais todos os dias. Mas, claro, só o consegue ao fim do dia. E os meus tios também só aceitam uma pessoa para ajudar na lida da casa três manhãs por semana, pois o meu tio sempre foi muito activo e quer manter alguma actividade e, além disso, querem manter a ideia da sua independência e a sua privacidade. Portanto, no resto do tempo, estão por sua conta. Ora, face a isso e consciente das suas fragilidades, tentam limitar os riscos. Mas é muito triste pois sentem-se diminuídos nas suas capacidades e, de certa forma, isso retira-lhes muita da sua alegria de viver. 

Uma das minhas dúvidas, e sobre a qual não cheguei a falar com a psicóloga e ser-me-ia muito útil, tem a ver com eu não saber bem o que dizer para animar uma pessoa que está prestes a morrer, como era o caso da minha mãe, ou que, pela idade e pela sua condição física, já não tem esperança de recuperar a sua anterior mobilidade ou agilidade ou, por consequência, a sua independência. Acho que não se deve mentir mas também me parece cruel pedir à pessoa que aceite com naturalidade a sua condição ou a finitude da vida. Tenho que me informar, pedir conselho, pedir ajuda.

A minha tia ligou para me tentar confortar mas, na verdade, eu é que queria confortá-la a ela. Falei-lhe na filha, sempre tão dedicada e amiga, nos netos, na bebé bisneta, tão linda, disse para ela pensar nos momentos bons. Mas ela, já tão cheia de limitações, sentindo-se tão triste por já praticamente nada poder fazer em casa, naturalmente não se anima com conversas destas.

Por isso, fiquei bastante triste com este telefonema. Disse-lhe que quando agora for à casa da minha mãe, vou a casa dela dar-lhe um beijinho. Até lá tenho que resolver aquela minha dúvida pois agora que a minha mãe morreu, ainda mais desanimados e tristes eles estão.

Acontece que desde o dia da cremação fiquei aflita com dores, primeiro numa anca, depois num dos joelhos. Não sei se foi por estar muitas horas de pé, se foi do frio, se foi pelo stress, parece que fiquei tolhida. Ontem fomos buscar as coisas da minha mãe mas quem foi ao quarto buscar as malas foi o meu marido. Eu não saí do carro não apenas porque me custaria demais mas também porque estava quase sem conseguir dar passo. De noite tomei um comprimido para as dores. Dormi imenso. E acordei melhor. E hoje estive de repouso, nem fiz as caminhadas do costume nem nada. 

Portanto, aproveitei para ler. E fui ler o segundo livro da autobiografia da Rita Lee. Chama-se 'outra autobiografia'. Estava na dúvida dado que foi o que ela escreveu no período que decorreu entre o diagnóstico de cancro e a sua morte. Mas, por algum motivo, foi justamente esse o livro que quis ler. 

Acabei-o há pouco. Divertido como o anterior, leve, alto astral, uma escrita colorida, vibrante, bem temperada. 

Descreve como descobriu a doença, os exames, depois a a radioterapia, a quimioterapia, os efeitos secundários, a fragilidade, as metástases que iam aparecendo, o tumor externo que apareceu e a que apelidou de Jair e como queriam ver se acabavam com ele, os ataques de pânico, a casa transformada para a acolher, a enfermeira lá em casa, as idas e vindas ao hospital. Tudo descrito sem meias palavras, sem falsos pudores, sem tabus. Não me impressionou nada. Não é um livro triste, depressivo. Não. É apenas a descrição do que se passou, uma descrição que se lê com curiosidade e, por vezes, aliás, muitas vezes, com um sorriso. 

E fez-me muito bem. Ainda com mais certeza fiquei de que a minha mãe tomou a decisão correcta. 

Note-se que não estou a dizer que é a decisão correcta em geral. O cancro hoje não é a fatalidade que era há uns anos. Há cada vez mais casos de cura e há cada vez mais casos em que o cancro se torna uma doença crónica, algo com que se vive quase como se não existisse. Mas, no caso da minha mãe, com uma insuficiência cardíaca que afinal também já era terminal, já não suportaria tratamentos agressivos. Portanto, para quê a angústia de exames complicados, para quê a angústia de tratamentos que, mesmo que sobretudo de contenção, menos agressivos como a radioterapia, poderiam ter implicações que, se calhar, a deixariam  ainda mais debilitada? 

Assim, guardou o assunto apenas para si própria. E, desde que o corpo fraquejou até ao fim, foi rápido. Sofreu bastante, sobretudo, porque assistiu, em toda a sua lucidez, ao avançar galopante da doença, mas foi rápido, menos de dois meses.

No caso da Rita Lee é natural que tenha feito de tudo para tentar travar a doença pois tinha apenas setenta e cinco anos e há combinações terapêuticas cujas taxas de sucesso são encorajadoras. 

Mas o caso dela é daqueles casos em que, como diria o meu filho referindo-se a um familiar próximo, se pode dizer que se esforçou bastante para ter aquele cancro. Conta ela que sempre fumou muito, cerca de dois maços por dia, e que, durante a pandemia, já ia em três maços e meio por dia. Claro que o tabaco não é a única causa mas quando se fuma tanto como ela fumava as probabilidades aumentam. 

Eu, que fui fumadora, sei bem que a gente só pára quando tem mesmo vontade de parar, uma vontade nossa, que vem de dentro. Não é a conversa dos outros que nos leva a essa decisão. Toda a gente sabe que fumar faz mal. Mas quando vejo tanta gente que ainda fuma, em particular parece que agora até são mais as mulheres que fumam, fico com pena que não tenham vontade de deixar de fumar. 

Mas, enfim, não tenho espírito de missionária pelo que as missões antitabagistas têm que ficar para quem tenha vocação para tal.

Pela parte que me toca tenho agora que apanhar ar, apanhar sol, começar a ocupar a cabeça com pensamentos alegres. Claro que tenho pela frente tarefas que, por antecipação, me atormentam um bocado, ou melhor, muito: as papeladas, as malas que tenho na cave, a casa... Mas, enfim, uma coisa de cada vez. Para já tenho que respirar.

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Rita Lee - Ôrra meu

[Gravado em casa, com o marido e um dos filhos, durante a pandemia, antes de lhe ter sido diagnosticado o 'troço', como ela, por vezes, se refere ao cancro]


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Desejo-vos um bom sábado. 
Saúde. Alegria. Paz.

quinta-feira, abril 02, 2020

Ao dia não sei quantos de quarentena, dia frio, triste e chuvoso, com o peito vazio





Dia muito preenchido, dia absurdamente cansativo. Na empresa, e, se calhar, em quase todas as empresas, parece que toda a gente está a reagir de forma hiperactiva. Toda a gente quer avançar em força com muitos projectos, toda a gente ao mesmo tempo, como se toda a gente quisesse compensar a perda de actividade económica com uma forte dosagem de trabalhos que, podendo-se fazer em teletrabalho, mais vale fazê-los já antes que seja tarde demais.

Então, estou em sucessivos meetings e a ver que estão a convocar-me para outros e, passado um bocado, já vejo o meeting, que não aceitei, no ar e que, estranhamente, estão a tentar puxar-me para lá. Envio mensagem a dizer que estou noutra reunião. Mas, mal acabo aquela em que estava, já estou a receber uma convocatória para daqui por dois dias para fazer o seguimento da reunião que acabou de haver e na qual não estive. Uma loucura. É desde que me ponho o pé no chão até tarde na noite. Mal tenho tempo para almoçar, janto às quinhentas. Exaurida. E aborrecida com tudo isto.


E, ao sentar-me, um telefonema. Um conhecido diz-me que um familiar próximo está com covid e ele e a mulher, e sabe-se lá mais quem, certamente também. E uma pessoa fica pregada. Pregada. Do outro lado, o silêncio, depois a voz do medo. Medo. Ligo a outra pessoa a tentar perceber o que podemos fazer. Do outro lado, o silêncio. O medo. Nunca antes senti, como sinto agora, do outro lado, a materialidade do medo, mesmo quando o sinto traduzido em silêncio. Medo. O contágio invisível, o contágio entre os que se amam. A dor, o medo.


Como se não bastasse, esteve um frio de rachar e choveu que se fartou. Tive que me encher de roupa o que, em mim, é coisa nunca vista. Não faz parte de mim ter várias camadas de roupa em cima. Sou bicho de pele descoberta ou, vá lá, apenas levemente coberta.

Acresce que, obviamente, estamos os dois a partilhar na mesma casa, ambos cheios de trabalho e de videoconferências. Não podemos estar ao pé um do outro. Toca um telefone, toca outro, ouve-se um a falar, ouve-se o outro. Toda esta zona da casa comunica entre si, sem portas. Uma dificuldade acrescida, nestas circunstâncias. E aquecer a casa toda tem sido uma dificuldade.

O dia foi de tal maneira que nem consegui pôr o pé na rua. A bem dizer, nem consegui chegar-me à janela. Em dias assim, gosto de estar junto às janelas de vidro vendo a chuva, vendo o vento e o frio a dar nas árvores. Ficam muito bonitas as árvores em dias de frio, vento e chuva. Lavadas, livres, belas, vestidas de verdes exuberantes. Mas hoje apenas vi de longe. Vi e ouvi mas, infelizmente, sem poder prestar atenção. A dado momento pareceu-me ouvir um ribombar ao longe. Agucei os sentidos. Quis que trovejasse, mesmo. Se era para estar mau tempo, pois que viesse trovão, relâmpago, golpe de vento, gelo a valer. Mas se era trovão ao longe, pelas lonjuras se ficou. Não vi azul, nem nesga. Nem para saudade tive tempo.


Em tempos, distantes tempos, houve uma varanda florida, uma escada que descia para a rua, entre flores, e acho que o céu estava azul e que tudo sorria, o azul do céu, a sombra das árvores, as cores das flores, nós. Há muito, muito tempo. Numa outra vida. Não sei se noutra vida, se até noutro planeta. Não sei mesmo se outra-eu. Daqui por algum tempo talvez pense que nem nunca existiu esse outro tempo. 

Não há muito, talvez há uns dias, alimentei a esperança de que por esta altura estaria eu a sacudir almofadas, a arejar cobertores, colchas e almofadas. A casa iria ser invadida, haveria meninos a brincar, a correr na rua, a jogar à bola, sentados à mesa. O ano passado, um dos meninos, à mesa, lambendo-se com os petiscos da sua Tá, disse: 'Isto sim, isto é que é vida'. Quando nos rimos e, perguntámos porquê, disse que aqui podiam brincar, subir às árvores, fazer o que queriam e comer comidas boas. Fiquei toda contente e ainda me lembro do ar satisfeito dele. Contou-me a mãe que, numa composição, escreveu que tinha saudades de cá estar. Entristeço-me. Como aconteceu uma coisa destas?, não me canso de me interrogar. Fez no outro dia anos, este meu querido menino, e gostou da festinha virtual que a mãe organizou, com família e amigos. Vamos inventando novas formas para tudo. Somos animais mutantes. Mas sinto tanta falta de os abraçar. Quando fazem anos, depois de apagarem as velas, gosto de me me chegar a eles para lhes dar um beijo e desejar que contem muitos e felizes anos de vida. Desta vez não foi possível. E ainda não aprendi a dar abraços virtuais, em especial quando o amor é muito.


Há pouco escrevi um mail pessoal mas em contexto profissional. Andava para fazê-lo. Sei que é assunto que agora parece disruptivo, sei que quem o recebeu não está ainda preparado para encarar a verdade que antevejo. Sei, pois, que o que escrevi vai ser recebido com desconfiança e sei que, se bem conheço aquele que a esta hora deve estar a lê-lo, depois vai ficar inquieto, hesitando entre fazer de conta que não leu ou levar-me a sério. Sei que se esforçará para não me levar a sério. Mas tomara que leve pois o que aí vem -- não sei quando -- será uma realidade apesar de ainda não a conhecermos. Não vai ser a continuidade do que era nas primeiras semanas de Março deste ano que eu pensei que, pela graça do número, 2020, seria um ano bom e que, até ver, está a ser um ano pavoroso. Mas, se fomos apanhados desprevenidos, batidos por um merdinhas invisível, temos agora a obrigação de ser inteligentes e saber dar a volta por cima, tornado-nos menos nocivos para o planeta, para a natureza, para os outros.

Mesmo num dia frio, triste e chuvoso, mesmo sentindo o peito vazio, esforço-me por pensar nos dias que virão a seguir e que quero imaginar que serão os promissores dias de um mundo novo, dias que festejaremos com a ajuda de Sophia, dizendo:

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

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Bem. Para ver se me animo, vou ver o mais recente vídeo de Liziqui.
Comidas floridas, aspecto delicioso, uma paz feita de gestos silenciosos, vagarosos.

不能去人多的地方扎堆儿,赶在上巳节这天家门口春个游


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A street art dedicada ao merdiúnculo do corona foi avistada por um Panda aborrecido

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E eu desejo-vos um dia caloroso e bom. Apesar de tudo.

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sábado, março 21, 2020

No fim, quando o verão chegar, o que diremos desta primavera?




Talvez seja porque os números subiram um pouco mais e eu, optimista, queria ver na pequena descida de ontem uma promessa de inflexão e afinal hoje vi que ainda não, talvez seja porque esteve frio, escuro, e choveu todo o dia, impedindo-me de sair de casa, talvez porque os problemas desabaram, como uma torrente, sobre mim, mails e telefonemas e videoconferências sem parar, talvez porque, nem todos os que foram para casa têm muito que fazer e se entretêm a fazer prova de vida, atentando a paciência aos outros, talvez porque não consegui descansar um segundo nem arejar as ideias, talvez porque me preocupo com o abastecimento aos meus pais já que a minha mãe, habituada a ir às compras quase todos os dias, não tem grande apetência pelo planeamento insistindo em dizer que ainda não precisa de nada e não quer que eu encomende nada  - ou talvez por tudo isso junto.


E talvez porque não percebo o que está a passar-se em Itália, em isolamento há tanto tempo e ainda naquele trágico descalabro, e talvez porque me deixe impressionar muito com o que está a passar-se aqui ao lado, em Espanha, e talvez porque, como me avisa o meu marido, eu leia demais, pesquise demais, consuma informação a mais e, depois, assoberbada por mil solicitações e, sobretudo, esmagada pela minha ignorância, não consiga processar um milésimo do que me atola.

E talvez seja porque ouvi o que temia e no que não queria acreditar, que esta hibernação vai durar até ao verão, e nem é a hibernação em si que me perturba, embora perturbe, nem é tanto o distanciamento daqueles que gosto de sentir perto de mim, mas é, e é também o medo antecipado por saber que vou ouvir voltar a notícias más e que vou sentir medo, e é o medo também por saber que a economia se vai ressentir, e muito, e porque receio muito o day after porque o mundo vai ser outro e não sei se, desnorteados que todos devemos estar, saberemos interpretar o que aconteceu e saberemos enveredar pelas melhores opções.


Mas talvez também seja porque, no fim de um noticiário, não me lembro de qual, mostraram o Porto deserto e iluminado, belo e triste, e depois Lisboa, minha amada Lisboa, deserta e tão triste e eu, sem palavras perante tamanha tristeza, tive vontade de chorar.

E nem trago mais razões porque acho que as que aqui aventei já são suficientes. Suficientes para explicar a minha falta de inspiração e o meu desânimo e a minha apreensão e tristeza.

Este sábado, os telefonemas e os mails de trabalho não devem chover, videoconferências não devem acontecer, talvez o tempo abra, talvez eu consiga caminhar por entre as árvores -- e a caruma deve estar molhada e macia --, talvez cheire a terra fértil e talvez o rosmaninho esteja mais perfumado e florido, talvez a maruca que vou cozer com batata, feijão verde e cenoura fique uma delícia, em especial depois de regada por um fio de azeite e sumo de limão, talvez eu consiga pegar no livro que está aqui ao meu lado e cujo autor eu nunca me vou cansar de ler, seja em livro seja onde for, talvez amanhã os números sejam animadores, talvez eu volte a saber sobre o que escrever e fique animada enquanto escrevo. 

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Enquanto escrevia, vi o Governo Sombra. Confirma-se: está melhor, deixou um pouco o modelo apalhaçado, já acrescenta alguma coisa. Mas o João Miguel Tavares está gasto. Pouco tinha para dar e o pouco que tinha já deu. Ricardo Araújo Pereira por vezes tem um ou outro laivo de graça mas, na maioria das vezes, é uma tentativa de clone do 'boneco' que, em temos, criou. 

Agora estou a ver Original é a Cultura. Gosto imenso deste programa. Sempre a horas tardias como se programas destes apenas interessem a uma minoria. E, no entanto, se este programa fosse transmitido a horas normais, a seguir ao telejornal, por exemplo, certamente teria um lugar de destaque. 

Se a minha vida tivesse seguido outro rumo e, por exemplo, pudesse ter um programa de televisão ou de rádio à minha escolha, teria conversas com pessoas assim. Talvez juntasse o Pedro Mexia e o Rui Vieira Nery, devia ser sempre interessante, deixava-os conversar, talvez lançasse algumas provocações para os ver, tão ponderados e comedidos que são, a tentar manter a compostura, e talvez também juntasse o Carlos Fiolhais com a Hélia Correia, talvez o Pedro Paixão e o Manuel João Vieira, talvez tentasse o Rogério Casanova (encoberto, em silhueta e voz distorcida) e Miguel Esteves Cardoso, talvez a Paula Moura Pinheiro e o Souto de Moura. E etc. Seria feliz ouvindo pessoas inteligentes, pessoas que respeitam a verdade possível e as palavras. Pessoas diferentes entre si, talvez não consensuais, mas com visões distintas sobre o mundo e com um olhar que sabe valorizar a estética das coisas. 


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As fotografias foram feitas esta sexta-feira triste que não me pareceu o primeiro dia de uma primavera que não chegou envolta em luz. Foram feitas de dentro de casa. E a canção, lá em cima, foi-me sugerida pela minha filha. Diz que há anos que não via telenovelas e que ontem começou a ver o 'Amor de mãe' que tem esta música e que eu podia pô-la aqui porque, segundo ela, nesta fase dificil...é colo, é esperança e mimo. Aqui está. 

Não poderia ter feito melhor sugestão. E nem me parece que sejam palavras de esperança e mimo. Parecem-me palavras tão tristes, tão sem esperança, palavras que nem parecem conhecer a doçura da saudade, apenas tristeza.

Como esta noite findará
E o Sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós sós
Onde estará o meu amor?

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Enquanto agora escrevo, vejo uma cena de África Minha. Denys diz uma frase olhando Karen nos olhos e ela, apaixonada, olhando-o também a ele nos olhos, tenta iniciar uma história; mas a força do amor e do desejo impede-a de usar mais palavras. Gostava um dia de experimentar. Se o exercício fosse com um homem neutro talvez eu pudesse inventar uma história e estar ali, em voz baixa, desfiando palavras. Mas perante um homem especial talvez também me faltassem as palavras, talvez não quisesse arriscar dizer mentiras.

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Desejo-vos um bom sábado

domingo, novembro 10, 2019

Sara, 22 anos, sem-abrigo, mãe de Salvador





Quando se está grávida, depois da emoção da descoberta de que vem aí um bebé, começa por haver a expectativa de ir vendo que se está mesmo a concretizar, que vai adiante. Há alegria em ver o ventre a arredondar, depois a surpresa de sentir o primeiro movimento. A princípio mal de sente, fica-se até na dúvida se foi. Depois é nítico. Pequenos movimentos, uma alegria, um serzinho de verdade ali dentro. O ventre crescendo, o bebé a mexer. Depois começam os seios também a crescer, os mamilos a aumentarem. Sente-se como que repuxar, o volume a pressionar a pele, os seios cada vez mais tensos. Para o fim os movimentos do bebé são mais fortes, o bebé, apertado, estica-se, espeta um joelho, espeta um pé. A barriga parece deformar-se para um lado, depois para o outro. Há um bebé de verdade dentro do nosso corpo e sentimos que, não tarda, ele vai querer sair. 

Ao mesmo tempo que há alegria, há também a expectativa: como será o bebé? estará mesmo tudo bem com ele? E como será depois? Quem ficará com ele, quando formos trabalhar? Pensamos, avaliamos. Queremos o melhor. Já nos custa a perspectiva de o deixarmos entregues a outros que não nós. Transportamos dentro de nós um ser, carne da nossa carne, queremos tê-lo nos nossos braços e tudo faremos para que seja o mais feliz possível.

É bom termos quem nos acompanhe num período em que as emoções fervilham, que partilhe os nossos receios e anseios, quem nos ajude. A família, os amigos, o pai do bebé, todos unidos na alegria de estarem prestes a acolher uma criança que é e sempre será um motivo de felicidade. Preparamos o enxoval, o berço, preparamos tudo para a sua chegada.

Para o fim da gravidez, quase não há posição quando estamos deitadas. E o ventre pesado pressiona a bexiga e temos que ir muitas vezes à casa de banho, mesmo quando estamos a dormir e acordamos amiúde.

Até que um dia aparece um sinal, um pouco de sangue. É o rolhão mucoso que sai dando sinal de que o dia se está a aproximar. E depois rompem-se as águas. E aí sabe-se que vai mesmo acontecer.

O ventre contrai-se, fica muito duro. Dói. Pode doer muito, muito, muito. Há anestesias mas, quando as não há, as dores podem ser insuportáveis. Contracções cada vez mais seguidas, cada vez mais dolorosas.

Se é importante que uma gravidez seja acompanhada para que os exames atestem a viabilidade do feto, para que haja a garantia de que a mãe está de boa saúde, para que o bebé também venha saudável, no momento do parto ainda mais acompanhamento deve haver. Não só é necessário garantir assistência em caso de problema da mãe ou do bebé como o pós parto pode exigir cuidados para um ou para outro. E, não menos importante, o apoio emocional, o afecto. Num momento tão especial, tão física e emocionalmente intenso, a presença de quem nos ampare e dê carinho é quase indispensável.

Até que o grande momento chega: o bebé sai de dentro de nós, por vezes rasgando-nos. Ensanguentado, frágil, dependente de nós.

E logo todas as dores param, advém o supremo alívio.

E logo a seguir há a suprema emoção e alegria de sentir o bebé nos nossos braços. Nasceu. Um filho a quem desejamos o melhor do mundo. Para sempre quereremos o seu bem, para sempre contará com o nosso amor.

E logo o leite começa a subir, os seios a incharem, todo o corpo preparado para alimentar e ter o bebé nos braços. E imediatamente se estabelece a cumplicidade entre mãe e filho, aquela intimidade boa que queremos que dure a vida inteira.

Nada disto sentiu Sara, a jovem de 22 anos que atravessou a gravidez sozinha, escondida. em situação precária. Sem acompanhamento médico, sem acompanhamento afectuoso, sem apoio emocional. Como se alimentava? Se queria ir à casa de banho, onde iria? Quando lhe custava estar deitada, como se deitaria? Numa pequena tenda, assente em chão duro, como ajeitaria o corpo? Nestes dias em que choveu e em que a temperatura desceu à noite, como se aqueceu? Quando pensava como seria o seu bebé e que vida lhe poderia proporcionar, que abismo se desenharia perante os seus olhos? Pensaria, com lágrimas escorrendo, que não tinha roupinhas, não tinha berço, não tinha apoio familiar, não tinha futuro?

Nada sei de Sara a não ser que ninguém sabia que estava grávida, que fugia de quem pudesse descobri-la, que vivia numa pequena tenda, que talvez seja de ascendência cabo-verdiana.

O corpo dela passou pelas mesmas transformações de todas as mulheres grávidas mas em vez de alegria talvez sentisse apenas medo e desespero.

Quando soube do que aconteceu, foi nela que logo pensei. Coitada, coitada. Que coisa mais triste. Como deve precisar de um abraço, como deve precisar de se sentir amada. Coitada. Que pena sinto dela. Coitada, coitada. 

Li que vivia em condições de extrema vulnerabilidade e que quando descoberta, não tinha sinais de ter consumido drogas, não ofereceu resistência e pareceu estar triste.

Não sei como funciona a justiça neste casos nem sei do que se passou com Sara para chegar ao ponto a que chegou. Mas sei que, com o meu desconhecimento, o que eu faria seria acolhê-la numa daquelas casas que acolhem mães desprotegidas, trataria de que sentisse apoio, carinho, companhia, tudo faria para enquadrá-la socialmente, para lhe arranjar um trabalho e para que sentisse que tinha um lar.

E se, nessas circunstâncias, ela sentisse que queria criar  seu filho, nada faria para impedir que esse vínculo se estabelecesse. Pelo contrário, ajudá-la-ia de todas as maneiras.

Não há amor maior que o amor de uma mãe pelo seu filho e toda a sociedade se deveria mobilizar para que nenhuma mãe sentisse alguma vez não ter condições para criar o seu filho e, temendo pela sua vida futura, o abandone. Nunca.

O mesmo amor que o bebé precisa, precisa, certamente, Sara, sua mãe.

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As fotografias de grávidas provêm do site Photo-Maternité

segunda-feira, dezembro 24, 2018

Já é véspera de Natal




Já aqui o contei e desculpem por me repetir. Lembro-me muitas vezes de quando a minha mãe -- numa altura em que deu aulas perto de um bairro de lata -- no regresso à escola depois das férias, chegou a casa impressionada com a resposta que recebeu de uma aluna à pergunta sobre os presentes de Natal. A menina, toda contente, disse que tinha recebido um plástico muito bonito para pôr por cima da cama para não chover. A minha mãe ficou muito comovida e eu, que era adolescente, também o fiquei. Tanto que essa imagem não mais me abandonou.


Lembro-me também de quando ia beber café a uma pastelaria perto de casa e me fazia muito impressão, no dia de Natal, perto da hora de almoço, ver pessoas a comer sozinhas, com ar apagado, olhar baixo, quase como se não suportassem a imagem alvoroçada dos sorridentes que ali iam beber café, comprar pão ou buscar bolos de última hora para apressadamente voltarem para casa, para junto da família.

Também me lembro de um colega que dizia que na noite de Natal jantava com a mãe, ia para casa cedo porque a mãe jantava muito cedo e, no dia, ia com ela comer um prego o que, para ela, era uma excentricidade, uma aventura especial. E ele contava esse seu programa de Natal como se quisesse disfarçar o que quase me parecia vergonha.

A minha véspera e o meu dia de Natal são festas em família, felizmente gente sempre animada. Temos tido problemas, e quem os não tem?, temos perdido pessoas que amamos, alguns têm estado doentes, sustos daqueles mesmo maus mas que, por sorte, têm sido ultrapassados, outros assistem ao lento declínio dos que lhes são mais próximos. Mas, talvez porque há sempre crianças e as crianças, com a sua graça e alegria, fazem ultrapassar qualquer sombra e mágoa, até agora e desde que me lembro, por sorte, os meus Natais têm sido sempre felizes. 

Contudo, tempos houve em que, num lado da família herdada, algumas pessoas incompatibilizaram-se com outras e deixaram de passar os Natais juntos. Custava-me muito isso mas nada podia fazer. Nessa altura, eu, o meu marido e os meus filhos íamos ver esses que tinham sido banidos pelos outros. Tentávamos levar-lhe um pouco do calor familiar e de alegria. Quando a última dessas pessoas morreu e tivemos que 'desmanchar' a casa, encontrei os presentes que lhes deixávamos pelo Natal, muito estimados, com a data desse Natal escrita à mão.

Não é um dia diferente dos outros mas, em volta dele, a sociedade criou toda esta imagem de ilusão, de inclusão, prosperidade e afecto que, provavelmente, deixa um pouco desamparados os que não têm a possibilidade de viver o Natal dessa forma. Penso especialmente naqueles que perderam entes muito queridos e em que as circunstâncias da vida e o tempo ainda não não esbateram a dor. Penso em Leitores que, ao longo do tempo, me têm contado as suas perdas e os seus imensos desgostos. Lamento muito e gostava que, um dia, a memória suavizasse a perda, transformando-a sobretudo em saudade, em doce saudade.

Esta segunda feira vou ter um dia bem preenchido com todo o tanto que tenho que fazer mas penso que, antes de sair de casa para ir festejar a véspera de Natal junto de parte da família, ainda conseguirei vir aqui -- mas temo que seja muito a correr. Por isso, é agora que me alongo.


E o que agora me apetece dizer é que perdas e dores sempre acontecem, sempre, mas que a vida sempre continua.

E também que não é de agora que o mundo está cheio de infortúnios, de injustiças, de desigualdades, de pobreza e de solidão. Penso que o mundo nunca foi perfeito e nem valerá muito a pena encontrar culpados. Se hoje as disparidades são tão escandalosas, se há tanta gente a viver no limiar da miséria, a verdade é que não consigo apontar o dedo a um grupo de culpados em particular, especialmente quando são os mais desfavorecidos que elegem aqueles que mais os prejudicam e mais acentuam o fosso entre extremos opostos. Somos todos nós, globalmente, que plantamos as sementes do mal e que, dessa e de outras formas, nos afastamos da nossa humanidade.


A felicidade não é eterna, não é infinita, e também não tem receita, nem tem que ser igual à dos outros, e, claro, não se mede. Acredito que a felicidade pode ser um somatório de breves instantes, de coisas de nada, de coisas muito cá nossas. E, mesmo quando se perde, pode voltar a ser encontrada. Pode vir sob a forma de uma palavra, de um sorriso, de um gesto, de um vislumbre, de uma recordação.

Durante algum tempo eu gostava de, nesta altura, aqui referir o nome de todos os meus Leitores cujo nome, por me terem contactado, eu sabia. Mas são muitos e temo esquecer algum. Por isso, apesar de não o nomear agora aqui, querido Leitor ou Leitora, saiba que não esqueço quem um dia quis chegar até mim. Para si vai o meu afecto e, ainda que apenas desta forma tão limitada, vai também a minha companhia.


Abaixo mostro vídeos onde se podem ver as casas dos muito ricos em Nova Iorque, depois as inconcebíveis 'casotas' dos mais desfavorecidos em Hong Kong, depois o que é a vida nas favelas do Rio de Janeiro e, finalmente, o que é viver no deserto. São vídeos que acho muito interessantes e que fazem pensar. Este é o mundo em que nos foi dado viver e não sei se temos sido suficientemente inteligentes para o usarmos da melhor forma.

E talvez isto nem tenha muito a ver com o espírito natalício mas permitam que vos diga que acho que não há relação entre o valor das habitações e o nível de felicidade dos seus habitantes. Não há regras de três simples nestes casos. A felicidade não depende do número de presentes recebidos pelo Natal nem dos metros quadrados ou do conforto da nossa casa. A felicidade é outra coisa, uma coisa muito só nossa. 








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E, agora, a palavra a Cora Coralina: Poesia de Natal



E apetece-me terminar com Jorge de Sena:

[...]
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

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As imagens mostram pinturas de Bertrand-Jean Redon, conhecido como Odilon Redon. Se calhar também não têm nada a ver com o Natal mas acho-as bonitas

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Recebam a minha estima

terça-feira, outubro 03, 2017

Ver sempre o lado maluco da vida





Estava aqui a contar da minha vida a uma pessoa, para exemplificar que podem chover facas e canivetes que eu, sei lá como, consigo arranjar maneira de preservar na minha vida um espaço de normalidade e alegria. Mesmo quando o espaço é exíguo, mesmo quando o tempo para isso é limitado.

E, ao escrever sobre isto, estava a pensar que podia contar ainda mais. Porque não sou só eu que consigo sobrevoar a infelicidade sem que esta me puxe para o fosso de agruras que, por vezes, parece querer abrir-se sob os meus pés. A minha mãe, por exemplo, é como eu. E a senhora que a ajuda com o meu pai, ainda mais.

Estava com vontade de contar. Mas depois hesitei. Se o meu marido, ele que está tão habituado, volta e meia fica espantado com a minha capacidade de alienação... fará quem não me conhece de perto. A minha e a da minha mãe. Volta e meia, deparando-se com momentos complicados, ele fica quase chocado como, num instante, eu e a minha mãe fazemos a agulha e, se for preciso, nos desatamos a rir com uma parvoíce qualquer.

Vou dar um exemplo. Vou arriscar. Não fiquem chocados porque somos malucas mas somos pacíficas.


Aqui há pouco tempo, vendo-me lá chegar no meio de uma sucessão de crises cruzadas, diz-me a senhora que ajuda a minha mãe e que será talvez uma meia dúzia de anos mais velha que eu: 'Então isso é que estão a ser umas férias, hein...? A velhada até faz fila para ver quem é que vai à frente...' A minha mãe, a rir, e a bater três vezes na cama do meu pai: 'Ai, credo, não diga isso, vire essa boca para lá...' E rimo-nos as três. Mas ela não estava a ser incluída pois, apesar de oitenta e picos, não parece nada uma velha. Acontece que o marido da dita cuidadora também estava doente, tinha sido operado, andava debilitado. Então ela acrescentou com a maior das naturalidades: 'E o meu também não sei se dura muito. Um dia destes dá o peido mestre e vai desta para melhor'. Desatei-me a rir com a expressão. E ela e a minha mãe, vendo-me a rir, desataram também a rir. E ali estávamos as três, na galhofa, como se a situação fosse para rir.

Acontece que um dia destes, vinha ele de um tratamento, na ambulância, sentiu-se mal e, coitado, foi mesmo desta para melhor. Contava-me a minha mãe: 'Um caso sério. Como morreu na ambulância, meteu tribunal, uma chatice'. E eu admirada: 'Mas, então, tribunal porquê?''. A minha mãe não sabe explicar: 'Não sei. Coitado do homem da ambulância' E continuando a falar das circunstâncias da morte do marido da sua ajudante: 'Ele sentiu-se mal, caíu para cima de uma mulher que vinha também lá dentro, também de um tratamento. E a mulher desmaiou'. E eu: 'Credo. Mas desmaiou porquê? Quase morria de medo, com um morto a cair-lhe em cima, não?'. E a minha mãe já se ria: 'Sabes lá, ainda nos rimos aqui todas com ela a contar isto, o pobre do homem da ambulância todo enervado com aquele par de jarras ali, tombados, ele sem saber se tinham morrido os dois'. 

E eu a rir e a ouvir a minha mãe a rir, a contar como ela, as vizinhas e a viúva também se tinham rido... e a pensar: mas será que não batemos bem da cabeça ou será que é normal encontrar motivo de risota mesmo no meio da maior desgraceira?


O que sei é que o meu marido, a quem ainda não contei esta, de certeza que vai encolher os ombros, descoroçoado, talvez mesmo agastado. 'Malucas. O homem morto e elas a rirem como se a coisa tivesse alguma graça. Malucas.'. Penso que não é capaz de visualizar a cena, coisa de filme cómico, senão também se ria. Penso que ele acharia normal que se falasse nisto com consternação. Ou melhor, que nem se falasse nisto. 

E esta minha conversa, agora, a que propósito? 

Bem. Quando sei que alguém está um bocado em baixo ou se sente triste ou desmotivado, eu tenho vontade de dizer que não vale a pena, que é um desperdício, que bom, bom mesmo, é termos vontade de rir, é não ligar muito às coisas más, bom, bom mesmo, é vermos o lado bom da vida. Há sempre um lado bom. Ou um lado maluco que dá vontade de rir.


Olhar sempre para o lado luminoso da vida



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E é isto.

As fotografias provêm do National Geographic.

Antonio Meneses interpreta Bach : Cello Suite No.1 "Sarabande"

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E, para quem não seja dado a estas conversas, pois então que faça o favor de descer caso queira saber o que acho dos resultados mais estrondosos do PCP -- estrondosos no bom (Setúbal) e no mau sentido (Almada).

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