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segunda-feira, abril 06, 2026

Somos o acontecimento mais raro do universo e somos, ao mesmo tempo, o universo a observar-se a si próprio

 

Não vou falar de política, Isabel. Nem vou falar dos dementes que, com as mãos sujas de sangue, tentando iludir os ignorantes, invocam o nome de Deus para justificar os crimes que cometem. Não vou falar deste mundo que, em parte, parece estar esquecido das conquistas da humanidade, ameaçando a paz e a sustentabilidade do planeta e de tantas vidas, humanas e não só.

Hoje vou apenas falar da bênção de existirmos, nós, ocorrências improváveis.


Vivemos num universo de dimensões quase incompreensíveis. As estimativas actuais apontam para cerca de 2 biliões de galáxias, cada uma com centenas de milhares de milhões de estrelas. No total, isso significa algo entre 10²² e 10²⁴ estrelas no universo observável. Uma dimensão que vai para além de qualquer entendimento humano.

Foi neste cenário vastíssimo que tudo começou, há cerca de 13,8 mil milhões de anos, com o Big Bang.

Mas há um facto ainda mais surpreendente: somos feitos de matéria estelar. Os elementos químicos que compõem o nosso corpo — carbono, oxigénio, ferro — foram forjados no interior de estrelas e espalhados pelo espaço quando essas estrelas morreram em explosões como supernovas. Como disse o astrofísico Neil deGrasse Tyson, baseado na ideia inicial de Carl Sagan, somos poeira de estrelas que ganhou consciência.

Agora, consideremos a (im)probabilidade de estarmos aqui. Cada um de nós resulta de uma cadeia contínua de eventos:

  • Milhares de milhões de anos de evolução da vida na Terra
  • A sobrevivência através de extinções em massa
  • A formação da Terra a partir da matéria que orbitava o Sol, a uma distância adequada para a existência de água líquida
  • E, mais recentemente, a sucessão contínua de gerações que tornou possível a nossa existência

Centrando-me especificamente no nível humano, a improbabilidade cresce rapidamente. Cada pessoa nasce de uma combinação genética única entre dois progenitores. Recuando gerações, o número de possíveis combinações de ancestrais cresce exponencialmente, ultrapassando largamente o número de estrelas da Via Láctea.

Do ponto de vista genético, a improbabilidade é ainda mais extrema:

  • O corpo humano tem cerca de 30 a 70 biliões de células
  • Cada célula contém cerca de 3 mil milhões de pares de bases de ADN
  • A combinação específica que resulta em cada um de nós é essencialmente irrepetível

Algumas estimativas populares sugerem que a probabilidade de um indivíduo específico existir pode ser algo como 1 em 10²⁶⁸⁵⁰⁰⁰ — um número tão vasto que ultrapassa o total de átomos no universo observável (cerca de 10⁸⁰). Embora este valor seja ilustrativo e não exacto, ele transmite bem a ideia defendida por Neil deGrasse Tyson: a nossa existência é extraordinariamente improvável.

E ainda assim, aconteceu.

Num universo com um número imenso (possivelmente infinito) de eventos e combinações, até acontecimentos com probabilidades quase nulas podem ocorrer. Não porque sejam prováveis — mas porque há tempo e tentativas suficientes para que aconteçam.

Nós somos um desses acontecimentos.

Somos o resultado de estrelas que viveram e morreram, de átomos que viajaram pelo cosmos, de uma cadeia contínua de vida que nunca foi interrompida durante milhares de milhões de anos. Tudo isto teve de alinhar-se com uma precisão extraordinária para que estivéssemos aqui, neste momento.

Por isso, do ponto de vista científico, há uma ideia difícil de ignorar: temos uma sorte imensa em existir.

Num universo onde a nossa existência é tão improvável, o facto de estarmos conscientes, de podermos pensar, sentir e observar o mundo, torna-se algo profundamente raro.

E talvez por isso não devamos desperdiçar essa oportunidade.

Durante um intervalo extremamente breve — uma fração mínima na escala do cosmos — temos a possibilidade de experimentar a vida tal como a conhecemos: ver, aprender, amar, questionar e compreender, ainda que parcialmente, o universo que nos deu origem.

Tal como Sagan o interpretou e eu acho a ideia belíssima, somos o universo a observar-se a si próprio.

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Para mais informação e considerações sobre o tema recomendo os vídeos em que Neil deGrasse Tyson fala sobre o assunto. Este aqui abaixo é apenas um deles.

Um dos factos mais espantosos  -   Neil deGrasse Tyson

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As fotografias foram feitas in heaven
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Desejo-vos uma boa semana

terça-feira, julho 01, 2025

E se vivêssemos dentro de um buraco negro?

 

Sabemos tudo e mais alguma coisa a propósito de tudo. É ver os comentadores que aparecem nas televisões mal algum acontecimento salta para a ribalta. Os mesmos que sabem tudo sobre a Ucrânia e sobre a Rússia sabem também tudo sobre Israel e sobre a Palestina mas também sabem sobre Trump e sobre a legislação americana e, se necessário for, também são capazes de dissertar sobre as eleições no Benfica ou sobre a nuvem-rolo que galgou a linha do horizonte para ir a banhos. Mas pouco sabemos do que se passa dentro de nós, em especial no cérebro, e também muito pouco sobre o 'lugar' em que vivemos, como viemos aqui parar e para que freguesia vamos pregar quando o nosso corpo tão pobremente humano perecer.

Pasmo com as pessoas que põem e dispõem como se fossem viver para sempre, que tomam decisões definitivas sobre porcarias sem qualquer interesse como se estivessem a definir o futuro da humanidade.

E, igualmente, pasmo com as dúvidas que, por vezes, assolam à cabeça de cientistas.

O tema dos buracos negros é daqueles do caraças: matematicamente demonstra-se a sua existência e consegue-se saber (ou pensa-se que se consegue) as leis físicas que os regem. Mas ir lá vê-los, saber ao certo como são e sair de lá para contar... isso está quieto.

Até que alguém se lembra: espera lá... e se vivêssemos dentro de um? E se o que (pensamos que) conhecemos seja apenas o que existe dentro do buraco negro? Ou seja, e se o que (pensamos que) conhecemos não for o universo mas, apenas, uma ínfima parte dele? Ou seja, e se vivemos numa cápsula dentro do mega universo?

Claro que nada disso alteraria a nossa realidadezinha pequenina: o que amanhã vamos fazer para  jantar, o que temos que trazer do supermercado, em quem vamos votar nas autárquicas, como vamos desenrilhar-nos do enredo marado que prometem ser as presidenciais. Tudo isso existe e é inalterável estejamos nós dentro ou fora do buraco. E que raio de espaço habitamos é também uma coisa tão intangível que até se perceber alguma coisa não nos doa a nós a cabeça. Mas que teria graça percebermos alguma coisa disto, lá isso teria.

Mas isto, na volta, é conversa de quem tem os neurónios a derreter. Este calor derrete-me. Por mais que me banhe, nada arrefece as minhas células (nem as estátuas que tentam refrescar-me as entranhas).

Por isso, passo a palavra a Neil deGrasse Tyson.

Is Our Universe Inside a Black Hole?

Is our universe inside a black hole? Neil deGrasse Tyson (Astrophysicist & Hayden Planetarium director) breaks down intriguing new evidence along with other curious parallels that could point to the universe being inside a black hole. Is the edge of our universe an event horizon on a black hole in some other universe?  

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NB: As esculturas que aqui veem não existem, são totalmente inventadas por mim (com a ajuda da Sora)

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Dias felizes

sábado, junho 28, 2025

Uma terra muito rara

 

Celebro os acasos, celebro a boa sorte das inexplicáveis coincidências, celebro a felicidade do que acontece apenas porque sim. 

A terra, este pontinho azul que voga no infinito, nascido por milagre, que, por milagre, se mantém a flutuar em harmonia, sem se despenhar, sem explodir, sem se desintegrar, continua a ser o nosso chão, o nosso céu, o nosso sustento e amparo. Sem sabermos como nem porquê nem para quê temos o dia e a noite, temos as estações do ano, temos o quem e o frio, o seco e o molhado, o sólido, o líquido, o vaporoso e o tule e o insondável, o feio e o belo, o dizível e o indizível. E digo que não sabemos mas talvez alguém saiba, talvez os físicos, certamente os matemáticos, muito provavelmente os mais loucos poetas tenham as fórmulas, as demonstrações científicas e as outras, as feitas de palavras que cantam, que voam, que se escondem. 

De todas as poeiras invisíveis que se escondem por entre as ondas também invisíveis que transportam palavras e imagens agradeço às que habitam o meu corpo e as árvores e as flores que me rodeiam.

Tudo parece impossível de mais para ser verdade. E, no entanto, damos tudo por adquirido. Não agradecemos a perfeição, a harmonia, a beleza, a raridade.

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The Rare Earth Hypothesis: What Is It? | Aliens: The Big Think | BBC Earth Science


A hipótese das Terras Raras sugere que há algo de especial na Terra – mas o que é?


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De 'Aliens: The Big Think' (2016)

A caça aos alienígenas começou! Após uma distinta carreira em cosmologia, o Professor Martin Rees, astrónomo real, assumiu a procura de extraterrestres. Procurar alienígenas já não é ficção científica - é uma questão que está a envolver algumas das mentes mais brilhantes da ciência. À medida que o nosso conhecimento do universo aumenta, aproximamo-nos das respostas. Muitos cientistas acreditam agora que vivemos numa galáxia com mil milhões de planetas semelhantes à Terra, muitos dos quais podem estar repletos de vida. Mas que tipo de vida? Evoluiu alguma coisa para seres com os quais podemos comunicar? Este filme entra na mente dos cientistas que consideram uma das perguntas mais emocionantes e profundas que podemos fazer - estamos sozinhos no universo? O Professor Rees acredita que podemos ter a nossa ideia de como é um alienígena completamente errada. Se ele estiver certo, não são extraterrestres orgânicos que devemos procurar, são máquinas.

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Dias felizes

sexta-feira, junho 27, 2025

Nós somos a matéria dos sonhos mas somos também a matéria que sonha

 

As coisas vêm ter comigo. É aquilo de ir na rua e alguém, que não conheço, chegar ao pé de mim e começar a contar-me a sua vida. Ou estou com uma em mente, abro o youtube e, sem que antes tenha feito pesquisas (porque 'ele', o algoritmo google, poderia migrar informação do motor de busca genérico para o motor de busca do youtube), aparece-me um vídeo que tem tudo a ver com aquilo em que ando a pensar. Não sei porque é que isso acontece. Mas acontece. Coincidência ou coisa do caraças, eu não sei.

Sei que ando numa onda zen (o que V. poderão já ter testemunhado pelo que vou divagando por aqui e que os vídeos que tenho estado a publicar no instagram também demonstram) mas, quando abro o youtube, não vou à procura de nada. Limito-me a ver o que 'ele' tem para me mostrar. Gosto de ser surpreendida.

E abaixo já verão qual o vídeo que hoje estava em posição de destaque e que estive a ver até agora.

Chegámos a casa perto das dez da noite. Depois de nos instalarmos, pusemos a reportagem sobre o Sócrates. Falarei disso depois pois tenho que deixar assentar. A seguir abri, então, o Youtube.

Hoje tive mais um dia calmo, com arrumações domésticas, com caminhadas, com um passeio bom, e, pelo meio, com mais uma tentativa de prosseguir a leitura da biografia do Herberto Helder -- mas a achar aquele tijolo um repositório ora excessivamente detalhado ora desnecessariamente ficcionado --, a espreitar  'O outro lado dos livros', Memórias de um editor, Manuel Alberto Valente, e a achá-lo um bocado 'seco' (seco ou seca?), e, pelo meio, a olhar as árvores, a sentir o perfume das flores, a ouvir os passarinhos, a olhar o céu.

Fui buscar uma espreguiçadeira e levei-a para um sítio onde não costumo estar, debaixo de uma árvore onde antes nunca tinha estado a preguiçar. 

E foi uma maravilha, um encantamento, uma sensação de que eu poderia ser uma folha, um fruto a ganhar forma, um dos passarinhos que passarinha por aqui, uma pétala de rosa. Por acaso, sou esta que agora aqui escreve e que dá conta da perplexidade agradecida que sente por estar viva, por poder presenciar tanta beleza, tanta harmonia entre todos os elementos. 

E, com este estado de espírito, abro o youtube e dou com uma conversa entre o Bial e Marcelo Gleiser, um físico que me deixou fascinada a ouvi-lo.

Apetecia-me transcrever várias coisas que ele disse e que correspondem ipsis verbis ao que penso (ou que me deixam a pensar), coisas como estas duas aqui abaixo que podem não ser a última coca-cola do deserto mas que são grandes verdades (pelo menos a mim tocam-me bastante pois é destas evidências que parece que meio mundo anda esquecido):

  • Celebrar o privilégio de estar vivo neste mundo 

  •  Cara, acorda, você é feito de estrelas!

Somos feitos da mesma matéria que as estrelas, da mesma matéria que as árvores, há átomos de outras coisas e de outras pessoas dentro de nós. Somos magia, um acaso que, por milagre, se materializou em nós. 

O vídeo é um bocadinho longo mas acreditem que é interessante do princípio ao fim. Espero que gostem.

ESTRELAS, ÁTOMOS e mais com o físico Marcelo Gleiser | Conversa Com Bial | GNT

Um bate-papo que mistura ÁTOMOS, ESTRELAS, NATUREZA e o "mundo sobrenatural": o físico e astrônomo Marcelo Gleiser chega no #ConversaComBial para uma entrevista de expandir mentes.


Dias felizes

quinta-feira, maio 09, 2024

O grande silêncio.

[Ou: onde param os aliens?]

 

Gosto da expressão 'o grande silêncio'. E gosto do grande mistério: se há vida noutros planetas, por onde viajam eles que não os vemos?

Ou será que há civilizações que são como as orquídeas raras que florescem e depois morrem? E que, devido à distância no tempo e no espaço, não tenha havido sobreposição? Será que algumas ruínas que por vezes se encontram têm a ver com isso?

E como serão essas formas de vida? Terão também tentação para se destruírem como nós, por vezes, parece que nos sentimos tentados a fazê-lo?

O vídeo abaixo é interessante. Tem legendas em português. Brian Cox conduz-nos pelos labirintos do universo.

Why haven’t we found aliens? A physicist shares the most popular theories. | Brian Cox

Chances are, we’re not alone in the universe. But if that’s true — why can’t we seem to find our neighbors? 

This question is known as the Fermi paradox, and it continues to go unsolved. However, some theories could offer potential solutions. 

Physicist Brian Cox explains the paradox and walks us through our best guesses as to the reason for our quasi-isolation. 


domingo, setembro 24, 2023

Um outro mundo por cima de nós -- OVNIS, asteroides e etc.

 

Eu, é daquelas coisas, nem sim nem sopas. Nem acredito nem deixo de acreditar. Do que não sei não dou sequer palpites.

Sobre haver formas de vida inteligente fora do planeta Terra o que posso dizer é que, no mero plano das hipóteses, neste caso formuladas por uma leiga (e, portanto, sem valor acrescentado para o caso), me parece muito provável que exista.

E, se aqui, através das condições e das circunstâncias, os humanos (que, para o efeito, acreditamos que são os inteligentes cá do burgo) evoluíram para o que somos, acredito que, noutras condições e noutras circunstâncias, a vida inteligente pode encontrar-se noutros formatos. Porque não coisas parecidas com árvores que sejam inteligentes, comuniquem entre si, tracem planos? Ou bichos parecidos com iguanas que tenham mais inteligência e capacidades que nós...? Não faço ideia. Até podem ser minerais dotados de inteligência e que não se pareçam com nada com que se consiga fazer uma comparação.

Mas admito como provável que enquanto por aqui a discutir amendoins e a distribuir milho pelos pardais, algures no universo outros seres construam as suas específicas civilizações e deambulem por aí a observar-nos na maior das calminhas.

Estou como o Neil DeGrasse Tyson a olhar com algum cepticismo para aqueles ETzinhos que foram exibidos no Congresso do México. 

Parecem abonecados demais, perfeitinhos demais, humanizados demais... tudo demais para ser verdade. 

Mas sei lá.

Outro aspecto que refiro muitas vezes, meio a sério meio a brincar, quando vejo alguém excessivamente preocupado: sabemos lá se um dia destes não vamos levar com um big calhau na cabeça e vamos todos desta para melhor...?

Com tanto asteroide, tanto lixo espacial, tanta coisa que por aí anda, é do domínio da improbabilidade que passem todos ao largo desta bolinha que dá pelo nome de Terra.

E é sobre tudo isto que no vídeo aqui abaixo da CNN o astrofísico Neil DeGrasse Tyson aqui diz.

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Um apontamento mais pessoal. Penso que por causa do estado um pouco variável da minha mãe e sobretudo por causa do seu imprevisível estado de espírito em que é ela que sabe, ela que decide e ela que faz, e que me traz preocupada pois intuo (ou melhor, tenho quase a certeza) que não toma a medicação conforme deveria, não dormi bem, tive pesadelos. Estranhamente os pesadelos envolviam o meu pai. Eu estava num lugar a fazer já não sei o quê, só sei que havia muita gente, eu tinha que prestar muita atenção a tudo, e estava sempre a ver o telemóvel com medo de receber uma mensagem a dizer que o meu pai tinha morrido. E, por isso, eu estava numa pilha de nervos. Mas a disfarçar e a trabalhar e prestar atenção a tudo e a todos para que ninguém se apercebesse. Com isto, acordei várias vezes, aflita e com muita dificuldade em voltar a adormecer.

Portanto, durante o dia andei um bocado cansada e com sono. 

Agora à noite estivemos a ver o Task Master, programa que, só se não pudermos é que não vemos, e agora estamos a ver uma reportagem bastante interessante sobre o cenário de guerra na Ucrânia, depois de outra sobre os envenenamentos e muitos outros indícios que o ocidente descurou em relação à Rússia. 

Tinha ideia de voltar a escrever sobre o estado da Saúde e sobre o SNS mas não estou com pedalada para isso. Mas não deixem, por favor, de ver os comentários bastante interessantes que constam do post abaixo.

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Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Força. Paz.

terça-feira, agosto 16, 2022

Uma conversa em família sobre deuses e outras crenças.

[E, no meio disto tudo, o que Michio Kaku acha do nosso futuro também não me deixa lá muito consolada]

 


Hoje, dia feriado, durante a tarde, estávamos todos juntos cá fora quando os meninos começaram na brincadeira. O mais velho, um refilão do mais refinado que existe, queria ir comprar um jogo que não dava para encomendar online. Preparando o terreno para a persuasão, começou, então, a derreter-se em simpatias com a mãe. Creio que foi nessa altura que a conversa divina começou. Tenho ideia que já dizia que a mãe era uma deusa. O mais novo dizia que antes estava eu, a mãe da deusa.

Dizia ele, o mais crescido, que era um contrassenso ter sido batizado e não acreditar em deus. 

[A propósito do batizado surgiu, então, a conversa dos padrinhos. A minha filha lembrou que o pai é o padrinho do neto. O avô ficou muito admirado. E eu também, já não tinha nem ideia disso. Ela explicou que, na altura, tinha querido que fosse o irmão mas que, como o irmão não é batizado, o padre disse que, se era o que ela queria, então na prática era como se fosse... mas que oficialmente tinha que ser alguém batizado. Ela, então, quis que fosse o pai. Com esta explicação, lembrei-me. É verdade, tinha sido isso.

Mas lembrei-me só de metade pois, nessa altura, ela recordou-me que também eu embarquei numa assim: ou seja, sou a madrinha do mais novo. Também não me lembrava. Ela explicou que, nessa altura, a ideia é que fosse a prima a madrinha do menino. Mas a madrinha era quase tão bebé como o bebé a batizar. Tem uns quantos meses a mais. Para além disso também não é batizada. Portanto, neste caso avancei eu. Mas avancei nesse dia e nunca mais de tal me lembrei. Ou seja, quer eu quer o meu marido somos uns padrinhos desnaturados.

Isto dos batizados foi coisa do pai das crianças. Já o casamento foi pela igreja para ele e, para a minha filha, na igreja. Uma nuance que faz a diferença. Ele fez questão e ela não se importou. A mesma coisa com as famílias. A família dele é praticante e a nossa não está nem aí. Excepção talvez para a minha mãe que não frequenta a igreja mas tem a sua fé e faz as suas orações. Aliás, não sei se foi no casamento da neta ou num dos batizados dos bisnetos que, para minha surpresa, foi comungar. Perguntei-lhe se se tinha confessado antes. Na minha cabeça, a confissão era premissa indispensável para a comunhão. Respondeu-me que não tinha pecados. Lembro-me que o sogro da minha filha ouviu a conversa e achou muita graça, tendo-me dito: 'Pois, certamente que não tem'].

E tenho a impressão que foi nessa altura que a conversa derivou para a metafísica pura e dura. O menino mais crescido, catorze anos recém-feitos, já todo peludo, com voz grossa e dúvidas existenciais, perguntou-me se eu acreditava em deus. Disse-lhe que há muitos deuses, cada um acredita no seu deus ou no que quiser, que há quem queira encontrar uma explicação para as coisas e que eu acredito na natureza, na superioridade da natureza. Desatou a rir. Pôs-se a imitar-me, disse que ainda viro uma avozinha hippie, que qualquer dia chega lá, in heaven, e estou eu, toda peace and love, a adorar a natureza, numa caravana, a enrolar uns charros, envolta em cheiro a erva. Claro que o avô, ao ouvir isso, derivou para a paródia e, portanto, uma conversa que tinha tudo para ser elevada degenerou na gozação do costume.

Mas eu, gozem ou não comigo, curvo-me perante a beleza, a magia e a inteligência da natureza, mesmo nas suas mais ínfimas manifestações. Por exemplo, maravilho-me com a existência de esquilos nos nossos pinheiros e azinheiras. Não sei como lá apareceram mas o facto de lá terem aparecido parece-me milagre do melhor que há. Haver tantos pinheirinhos a nascerem a partir daqueles que o meu pai plantou há dezenas de anos é também daquelas que me faz sentir abençoada. E não sei se sou eu ou se é a terra que é abençoada mas para o efeito tanto dá. Ou que as árvores e os arbustos resistam a tanta secura, tanto tempo sem chover, parece-me outro fantástico milagre. 

Os cedros, os ciprestes, os pinheiros, as aroeiras estão verdes, verdes, como se a seiva corresse fresca nas suas veias. Os verdes guardam a memória das chuvas e parecem preservar-se até que elas regressem. Acho isto uma coisa superior. Já para não dizer 'do além'.

Mas alguns arbustos estão com pouco viço, as figueiras daqui a nada estão a deixar cair as folhas, muitas florzinhas estão secas, a terra está ressequida, uma dor de alma. Tenho esperança que, mal venha o outono e comece a cair alguma chuva ou comecem a descer as primeiras névoas matinais, a terra se volte a cobrir de musgos e os cogumelos voltem a rebentar do chão.

Mas claro que estes calores e estas secas continuadas me preocupam. Como não? 

Quando aquele terreno era apenas pedra e mato ralo e rasteiro, imaginava que conseguiria transformá-lo nom bosque onde os meus filhos e os filhos dos meus filhos e os filhos dos filhos dos meus filhos (e por aí afora) haveriam de passear e desfrutar as delícias das sombras das árvores e dos cheiros campestres.

Nessa altura não se falava nas alterações climáticas nem na situação de emergência em que iríamos entrar. Nessa altura jamais me ocorreu que, anos mais tarde, eu haveria de estar preocupada com as condições de vida na terra para os meus filhos, para os filhos dos meus filhos, para os filhos dos filhos dos meus filhos... E, no entanto, estou.

As notícias que chegam de todo o lado não podem deixar ninguém tranquilo. 

E, claro, as previsões de Michio Kaku não me sossegam. Pode ser que o futuro da humanidade resida nos outros planetas. Mas quando? Mesmo que, até que isso seja possível, sobrevivam os exemplares suficientes para se reproduzirem em condições mais viáveis... o que acontecerá a tantos milhões de outros...?

E isto, claro, se até lá um asteroide qualquer não nos mandar a todos desta melhor ou o planeta não secar, não mirrar, não ficar murcho e irrelevante.

Preocupações...

Michio Kaku: The laws of physics doom Planet Earth

Humans won’t survive if we stay on Earth. Michio Kaku explains.

On Earth, extinction is the norm: 99.9% of species eventually go extinct. Even worse, the laws of physics have destined our planet for destruction. Whether it be from a planet-killing asteroid or the death of our Sun, Earth is doomed.

Humanity needs an insurance policy. Ultimately, if we want to survive long-term, we need to inhabit other planets. 

We are entering a new Golden Age of space exploration, but there are obstacles we must overcome.


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Fotografias feitas in heaven na companhia de Gautier Capuçon que interpreta Après un rêve de Fauré
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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Paz.

domingo, julho 21, 2019

Quem é Margaret Hamilton?
Alguma coisa a ver com aquilo da ida à Lua?



Claro que houve a tremenda coragem de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins, os  homens que há 50 anos se montaram em cima de uma bomba (Teresa Lago dixit) e foram por aí afora, pelo espaço adentro, sem saberem se conseguiriam voltar, sem saberem se aquilo não explodiria, se não se desintegrariam todos em mil fanicos, se conseguiriam comunicar com a Base, se seriam devorados por monstros, se o combustível daria, se não morreriam à fome e de sede, para sempre náufragos numa jangada espacial sem possibilidade de resgate. Uma coragem quase insana, quase inumana.


Visto a esta distância, pasmamos como aquela verdadeira geringonça equilibrada num foguetão pronto a explodir, conseguiu a proeza que deixou o mundo pregado à televisão, todos incrédulos, emocionados. Mas correu bem.

E, para que tenha corrido, muita gente trabalhou durante anos, acreditando para além do que é razoável acreditar. Mas acreditaram. Confiantes nos seus conhecimentos, nos seus estudos e trabalhos, nos seus testes e nos seus métodos de trabalho. E foram, certamente, muitos os cientistas e engenheiros que colaboraram para que uma nave espacial, albergando uns valorosos homens, tenha ido à Lua e regressado com os mesmos que levara, prontos para contar as suas experiências.


Ainda hoje se vê aquilo e se pasma: ainda hoje, em certos pontos de Lisboa, na era das comunicações, a cobertura de rede é tal que caem as chamadas. Contudo, foram por aí, pelo vasto espaço sideral, e mantiveram o contacto, ouvimo-los, vimo-los com nitidez, conseguiram trasnmitir o som e a imagem. Afoitaram-se e tudo correu bem. 

Quantos cálculos tiveram que ser feitos, quanta programação e simulação teve que ser desenvolvida -- e isto numa era em que os computadores eram a pedal face ao que é hoje a computação.

E se em todos estes festejos, justos festejos, ouvimos falar nos astronautas, foi com surpresa que li o artigo do Madame le Figaro Sans Margaret Hamilton, l’homme n’aurait pas marché sur la Lune. Afinal por trás de tudo esteve uma mulher. Uma matemática. Margaret Hamilton. Fiquei espantada. 


Transcrevo da Wikipedia para ser em português:
Margaret Heafield Hamilton (Paoli, Indiana, 17 de agosto de 1936) é uma cientista da computação, engenheira de software e empresária estadunidense. Formou-se na Hancock High School em 1954 e estudou matemática na Universidade de Michigan. Formou-se em Matemática pelo Earlham College no estado de Indiana (EUA) no ano de 1958 e fez pós-graduação em Meteorologia no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Depois de se formar lecionou matemática e francês no ensino médio por pouco tempo, enquanto seu marido terminava a graduação. Mudou-se para Boston, Massachusetts para fazer pós-graduação em matemática pura na Universidade Brandeis. Em 1960 assumiu uma posição interina no MIT para desenvolver programas de predição climatológica nos computadores LGP-30 e PDP-1 (no Project MAC de Marvin Minsky) para o professor Edward Norton Lorenz no departamento de meteorologia Foi diretora da Divisão de Software no Laboratório de Instrumentação do MIT, que desenvolveu o programa de voo usado no projeto Apollo 11, a primeira missão tripulada à Lua. O software de Hamilton impediu que o pouso na Lua fosse abortado.
Na NASA, a equipe de Hamilton foi responsável por estar à frente do software de orientação de bordo da Apollo, necessário para navegar e pousar na lua, e suas variações usadas em várias missões (incluindo a Skylab, posteriormente).
Apollo 11
O trabalho de Margaret Hamilton evitou que o pouso na lua da Apollo 11 fosse abortado. Quando faltavam três minutos para a Apollo 11 pousar na lua, vários alarmes do módulo lunar começaram a tocar. O computador ficou sobrecarregado com atividades do radar de aproximação, desnecessárias para a aterragem. 
No entanto, devido à arquitetura robusta do software, o sistema continuou funcionando de maneira que as atividades prioritárias interrompessem as menos prioritárias. Mas ela sabia, por ter escrito o código do computador, que ele seria capaz de realizar o pouso, pois foi programado para desconsiderar as tarefas desnecessárias no momento da alunissagem. A falha foi atribuída a um erro humano na lista de comandos a serem executados pelos astronautas.
Margaret publicou mais de 130 artigos, atas e relatórios relacionados aos 60 projetos e seis programas importantes nos quais ela esteve envolvida. Em 22 de novembro de 2016 foi premiada com a Medalha Presidencial da Liberdade pelo presidente dos Estados Unidos Barack Obama, honraria recebida por seu trabalho sobre o desenvolvimento do software de voo a bordo das missões Apollo da NASA (...)

O vídeo abaixo é muito impressionante. Uma homenagem extraordinária.
8:07 p.m. Mojave Desert. Moonlight strikes more than 107,000 solar mirrors to create a portrait of Apollo 11 computer programmer Margaret Hamilton. Bigger than New York’s Central Park, the portrait is a tribute to Hamilton's contributions to the Apollo program and the field of software engineering.


E agora Margaret Hamilton por ela própria


E eu só me interrogo: porque é que só hoje me dei conta do trabalho dela, da relevância da sua intervenção? Por ser mulher? Porque os trabalhos de programação passam despercebidos à maioria das pessoas? Ou fui eu que andei distraída? Na volta foi isso. Tudo.

quinta-feira, novembro 29, 2018

As fantásticas primeiras imagens de Marte.
A InSight está em campo e o mundo assiste espantado ao que lá se passa.
Será que a nossa última fronteira foi ultrapassada?


Podia tecer várias considerações, pôr-me para aqui a divagar, lançar rêveries para o espaço, enunciar esperanças, desfiar dúvidas (e são tantas), carpir receios (mas nem vale a pena falar disso pois recear o desconhecido é pura cobardia e eu posso ser muitas coisas mas cobarde eu acho que não sou). Mas não. Vou ficar caladinha a viver o momento. É tão extraordinário o que se está a passar que me limito a partilhar duas das imagens do que, para já, se pode saber do que lá se passa. Por enquanto ainda não há humanos por lá. Mas nunca digamos nunca.

NASA’s InSight’s -- First Photos from Mars







Mais imagens aqui

sábado, agosto 05, 2017

Estrelas cadentes, desejos, afectos, solidão -- coisas assim
[Com um desfecho inesperado]





Até fiz uma gravação. Se não fosse uma preguiçosa, até aqui a publicava. Mas as manobras de passar o vídeo para o youtube parecem-me cansativas demais para a vitalidade de que, a esta hora, disponho. Mas conto o que eu lá dizia: vínhamos para cá, eu meia a dormir, e o meu marido chama-me: Olha! E olhei e vi uma estrela cadente. Um rasto de luz atravessando o espaço. Pensei que devia pedir um desejo e, então, pedi os três do costume. Depois pensei que a coisa não devia ser bem assim, a estrela não devia despenhar-se no chão senão havia borrasca pela certa -- que apanhar com uma estrela em cima não devia deixar o que estivesse por baixo em grande forma. Fui informar-me e, de várias fontes, transcrevo o que fiquei a saber:
Meteoro, chamado popularmente de estrela cadente ou estrela fugaz, designa o fenómeno luminoso observado quando da passagem de um meteoroide pela atmosfera terrestre.
Ao atingir a atmosfera, a velocidade média da estrela cadente é de 250 mil km/h. A maioria delas são totalmente desintegradas antes de chegarem ao solo, normalmente entre os 90 e 180 km acima da superfície terrestre.
Aliás, do ponto de vista científico, caso o corpo celeste consiga atingir a superfície da Terra a sua nomenclatura muda, passando a ser chamado de meteorito. O termo meteoro ou estrela cadente costuma ser usado apenas para as partículas cósmicas que se desfragmentam totalmente quando entram em contato com a atmosfera terrestre.
Reza uma lenda ocidental que os deuses, muito curiosos, para saber como era a vida na Terra, punham-se a olhar para baixo, e nestes momentos podiam fazer deslizar uma estrela. A estrela cadente simbolizava, portanto, o momento exato em que um deus estava olhando para baixo, por isso criou-se a lenda de que era um bom momento para fazer um desejo, pois ele seria ouvido e realizado.
Vim feliz da vida durante o resto do caminho por ter visto a estrela que não era estrela e por ter aprendido isto. 


Depois de termos arrumado os mantimentos no frigorífico e etc, vim pousar-me aqui. Tenho sempre vários mails. Gosto de os ver a todos mas, tarde como é, para ter tempo de aqui escrever não consigo tempo para lhes responder. Um deles comoveu-me. Tinha fotografias de uma pequena casa numa árvore no meio de uma serra de onde se podem contemplar múltiplos horizontes. Era a propósito de eu, numa noite muito complicada, ter escrito que gostava de escrever sobre as casinhas nas árvores (e acho que deixei perceber que gostava de aqui, in heaven, ter uma). Fiquei a olhar as fotografias com uma emoção talvez inusitada. O encantamento em que fico com coisas assim não o sei explicar.

No deve e haver da minha vida acho sempre que recebo mais do que dou. Talvez por isso tenha sempre em mim este quase insconsciente sentimento de agradecimento.


A semana passada voltou a ligar-me o meu ex-colega que está muito doente, aquele que tem uma doença degenerativa que o condiciona severamente. Pela segunda vez, pedia-me que lhe arranjasse uma consulta de uma determinada especialidade, não relacionada com a principal doença mas para um outro problema que também o condiciona bastante. Como quase não se percebe o que diz e como vive sozinho, penso que não consegue aguentar-se com as marcações via contact center nem deve ter mais a quem pedir. Penso, mas não estou certa. Não questiono. Ele pede-me e eu faço. Na quinta-feira ligou-me de novo. Fico sempre numa aflição porque são chamadas longas em que percebo apenas uma pequena parte e, como não quero dizer-lhe que não percebo, tenho que accionar um descodificador mental para conseguir discorrer o sentido da conversa a partir de uma ou outra palavra que perceba. Pensei que, às tantas, tal como na vez anterior, à última hora tinha desistido. Mas não, era só para me dizer que no dia seguinte, tinha, então, a tal consulta e que estava esperançoso, que acreditava que o médico ia arriscar e operá-lo, que estava desejando de lá ir. Ouvi vozes à sua volta. Perguntei-lhe onde estava. De vez em quando, percebe-se melhor o que diz. No outro dia disse-lhe que estava a percebê-lo melhor e respondeu que é quando está sob efeito dos comprimidos. Respondeu-me, então, com aquela sua voz entaramelada, que tinha ido ver a mãe ao lar. Fiquei admiradíssima. Perguntei que idade tinha a mãe. 94. E que estava melhor que ele. Com aquela ironia dele, acrescentou: Sempre a acusar-me. 'De quê?!' E ele: De tudo. Volta e meia, não me conhece e passa o tempo todo a dizer-me mal do filho. Quando me conhece, acusa-me, diz que a culpa é toda minha. Não sei de que é que sou acusado, se é dela já ter 94 anos, se é de eu estar doente, se é a de a minha mulher me ter deixado. Depois pergunta-me pela família, a memória intacta, o nome dos meus filhos bem presente. Mas sinto que a pergunta é sobretudo um pretexto para se queixar da filha que vive fora e do neto que vê apenas uns dias por ano. Diz que o menino é vivo, esperto, mas que fica sempre um bocado estranho porque vê muito pouco o avô e porque vê o avô naquele estado. Fico sempre com muita pena. Não é só dele, é de todas as pessoas que se vêem sozinhas, debilitadas, a perceberem-se a caminhar para um estado de dependência. No entanto, no meio daquele amontoado de palavras em grande parte incompreensíveis, noto sempre o seu antigo e ainda presente sentido de humor.


Hoje, ao fim do dia, ligou-me de novo. Todo contente. Que tinha gostado muito do médico, muito atencioso. Diz que, por ele, opera e escreveu uma carta para o colega, para que o colega saiba os riscos que ele identifica. Tem riscos mas, se não operar, dentro de dois ou três anos não ando. E eu se não ando, morro. Agora é que me custa cada vez mais que eu, antes, era um galdeirão. Por isso, agora vou ao meu médico a ver o que ele diz. Depois, ligo-lhe a si também para me aconselhar. Não posso fazer ressonâncias magnéticas. E a primeira operação pode não resultar e ter que fazer uma segunda. Mas eu não me importo. Ficar sem andar é que não. E eu ouço e fico numa apreensão, porque o mal dele, o outro, o principal, que é progressivo, também condiciona, e não é pouco, o andar. Mas ele passa por cima disso e agarra-se à esperança de ficar melhor. Tomara que sim. Tomara.


Entretanto, anuncia-se outro fim de semana de calor. É assustador. O mundo não tem cuidado de se preservar. O que há uns anos parecia um prenúncio de terror -- antevendo-se, no futuro, altas temperaturas, secas extremas, o solo gretado -- começa a ser uma realidade. E o terror é tanto maior quanto o gelo, ao derreter, está a deixar à vista os corpos de gente que estava desaparecida há décadas. Antes tinham sido encontrados um casal suíço e dois soldados austríacos da Primeira Guerra Mundial. Agora mais um homem, nos Alpes. O passado regressa para nos lembrar que, durante este tempo todo, andámos a violentar o equilíbrio do planeta. Como é que o mundo não acorda de vez para a necessidade de repensar este modo de vida absurdo e não elege como uma das prioridades máximas a de tentar preservar o respeito pela natureza? Como é que os americanos foram eleger aquele anormal que faz gala em mostrar que se está a marimbar para este tipo de questões? E como é que, depois do que já viram, não arranjam maneira de correr de lá com ele? E a China, com as cidades a rebentarem pelas costuras, quando é que põe em prática os princípios que já percebeu serem incontornáveis?


Mas, enfim, a esta hora já é sábado, não é dia para estar com conversas soturnas. Daqui a nada tenho que estar a pé a limpar a casa, a preparar refeições, a adiantar tudo para, quando chegarem, ter todo o tempo do mundo para eles.

Por isso, fico-me por aqui. Termino com um vídeo extraordinário. Mesmo quem não é dado a ver vídeos, acho que deve ver este. Delicioso. Aliás, mais do que isso. Uma graça e muito, muito trabalho. E muito, muito talento que, para fazer o que aqui se faz, apesar de parecer uma brincadeira de amigos, é preciso ser-se muito bom.

When someone asks if you work out



São eles Harper Watters & Rhys Kosowski do Houston Ballet 

As fotografias são algumas das vencedoras do National Geographic Travel Photographer of the Year 2017

Lá em cima era Bernardo Sassetti em Sonho dos Outros (Timbuktu Solo Sessions #5)

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A si, Caro Leitor que está aí desse lado, desejo um sábado muito bom.

E vai com um abraço, esse meu desejo.

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sábado, abril 15, 2017

O pó das estrelas, eu, aquilo que fui, aquilo que serei



Muitas vezes sinto que tenho em mim memórias de outros tempos. Se recuar até eles, parece que me vejo lá. Casas vitorianas, saias roçagantes, chás perfumados, tertúlias literárias. E recuando mais ainda: aquelas sombras dos átrios em que, etrusca, me deliciava com prazeres vários, liberdades a céu aberto. Tenho também a impressão que me identifico com bichos, árvores, como se fosse feita da mesma matéria que eles. Irmã de árvores, cúmplice de bichos. Como se eu agora fosse uma mulher a viver um intervalo de tempo e que, depois, muito de mim continue por aí, não tanto nestas palavras que talvez perdurem através dos vastos espaços siderais, mas vivendo através da natureza. Átomos que vão e vêm, viajando através dos tempos, pós estelares que pousam onde o tempo lhes dê espaço para viver.

Digo isto e, se me olhar de fora destes meus pensamentos, sou capaz de me atribuir momentos de pura navegação imaginativa, a mente à deriva.


Contudo, sei também que isto que digo não são apenas palavras de efeito. Há nelas qualquer coisa de verdade. Dizia Sagan:“The nitrogen in our DNA, the calcium in our teeth, the iron in our blood, the carbon in our apple pies were made in the interiors of collapsing stars. We are made of starstuff.”

Transcrevo de um site que encontrei ao procurar isto escrito em língua portuguesa.
Uma pesquisa comprovou o que Carl Sagan já falava há tempos: os humanos realmente são feitos de poeira de estrela. Depois de analisar 1500 estrelas, astrônomos chegaram à conclusão de que tanto os seres humanos quanto os astros brilhantes possuem 97% do mesmo tipo de átomos. 
Constataram ainda que os elementos essenciais para a vida como a conhecemos (hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre) são mais prevalecentes nas estrelas que estão no centro da galáxia. 
A questão é: como os astrônomos sabem quais elementos compõem as estrelas se eles não conseguem chegar até elas? Elementar, meu caro Watson. Eles usam uma técnica conhecida como espectroscopia.
O vídeo abaixo, da autoria de Emma Allen, de certa forma remete para isto.

An animated self-portrait exploring the transfer of energy of life forms from one incarnation to another. 

Ruby - Stop-motion face paint animation



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E queiram descer caso queiram contemplar a luz das flores em Lisboa


quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Cenas que me fascinam


Há muitas. Não poderia sequer enunciá-las. Coisas que têm a ver com pessoas, com a mente das pessoas, com a natureza, com artes, com livros, com física, com matemática (especialmente se forem cenas maradas), com música, com a forma como os artistas vêm o mundo.

E com culinária. E com decoração. E com mar. Também com rios. E com coisas que não percebo. Essas são as que prefiro. Em particular coisas que não existem. E com as sombras que a luz desenha. Com extravagâncias. Adoro extravagâncias.

Em suma: com mil, mil, mil coisas.

Exemplifico com uma. No dia em que leio notícias que dão conta da nossa pequenez (e passo a transcrever):


Descobertas sete "Terras" num sistema solar distante


A maioria destes novos mundos serão rochosos e pelos menos três deverão ter oceanos de água líquida e, quem sabe, talvez vida.
A descoberta é anunciada como sensacional: são sete "Terras" duma vez, em torno de uma única estrela, todas com as dimensões aproximadas do original - o nosso próprio mundo -, e tudo indica que a maioria desses exoplanetas é de natureza rochosa (como o original), e três pelo menos terão oceanos de água líquida na superfície. Ou seja, têm as condições certas para a possibilidade de lá existir vida.
Neste momento é impossível dizer se haverá vida nalgum destes novos mundos, que estão na órbita de uma estrela chamada Trappist-1 (o nome é o do telescópio do ESO, instalado no Chile, que permitiu fazer a descoberta), a cerca de 40 anos-luz de distância daqui. Mas para os cientistas, a descoberta deste verdadeiro jackpot planetário vem também confirmar uma coisa essencial: os planetas idênticos à Terra serão a regra, e não a exceção, na órbita das estrelas da Via Láctea. E a vida, provavelmente, também.

Descubro este vídeo que me deixa fascinada:

Vivemos num multiverso?



E, já agora, um outro vídeo que versa um tema que me prende:

Porque é que o tempo passa?



...

Até já.

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domingo, agosto 28, 2016

Filmes caseiros e a casa virada do avesso
- e, quem sabe, os da Próxima a observarem todas estas cenas




Pois é, a questão é que aqui estou outra vez já bem depois da meia-noite. É a história da minha vida. Tinha pensado que, durante o dia, algures no tempo e no espaço, conseguiria chegar até ao blog e escrever sobre o que ontem tinha em mente: o novo planeta, parecido com a terra, talvez com vida. Apetecia-me tanto divagar sobre isso.

Na minha santa ingenuidade até pensei que ia conseguir responder a mails. Gosto de escrever cartas e responder a mails é, na minha mente sonhadora, quase como voltar ao tempo em que havia tempo para escrever cartas que o carteiro haveria de ir entregar aos destinatários. Queria tanto e, no entanto, mais um dia sem o conseguir. Também precisava de escrever uns mails de trabalho. Na noite passada, acordei a meio com uma epifania que mudava tudo. De manhã pensei que tinha que mandar uns mails a fazer uma série de mudanças, talvez primeiro uns a saber a opinião ou a dar conhecimento antes de passar à acção. Mas... e o tempo para isso...? O dia já aqui vai e não é a esta hora que vou começar a tratar de coisas que requerem ponderação.

Impossível. O dia todo preenchido e cada vez mais preenchido à medida que o dia foi avançando.

Tive cá a tropa miúda toda e parte da graúda e, como sempre, gera-se aquela potenciação energética de sempre. Os mais pequenos chegam com as pilhas todas mas, à medida que brincam, correm, saltam, lutam, cantam, representam, gritam, riem e fazem a festa, mais as pilhas se recarregam. Energia gera energia.

O mais crescido, talentoso e ágil na execução de tudo o que lhe ocorre,  deu em realizador e faz uns filmes deliciosos com os outros mas os filmes metem lutas, perseguições e correrias e aquilo é o desassossego, a casa virada do avesso. Vinham raptar a princesa mas a coisa deu em batalha campal. Até eu apareço no filme a dizer 'Cuidado! Não se magoem!' e, às tantas, o realizador 'Oh Tá, vais passar o filme todo a dizer a mesma coisa?'

Quando o filme ficou pronto e o vimos, todos têm a voz mais grossa que a minha, dir-se-ia que sou eu a princesa.

Uma coisa constrangedora.

No fim das gravações havia almofadas pelo chão, as banquetas todas fora do sítio, e até bolas de natal saíram à cena, acho que eram o tesouro da princesa, a outra, a verdadeira.

O meu marido aborrece-se, que eu sou muito permissiva. Mas que posso eu fazer: andar feita avozinha aos gritos atrás das crianças, a obrigá-los a estarem sentados com as mãos nos joelhos e a falarem baixinho? Impossível.

Há bocado, chegou à sala, tinham eles tirado a parte do assento do sofá dele para darem saltos no chão em cima daquilo, um número tipo Jogos Olímpicos. Quando viu, ficou fulo. Deu-lhes um berro: 'Éh pá, que vem a ser isto? As almofadas já postas no sofá!'. Eles fizeram-no de imediato, obedecem sempre ao avô, mas continuaram a brincar como se nada se tivesse  passado. O ex-bebé, um artista, é que se virou para mim como que indignado: 'Oh Tá, e tu deixaste...?'. Nem quis acreditar. Como se a culpa fosse minha. Uma coisa mesmo de gajo.  E o meu marido: 'E tu aí, sentada, na conversa, podem os gajos destruir a casa que nem dás por nada, sempre na boa'. Também não lhe respondi, continuei na conversa, observando a minha filha a ser maquilhada pela sobrinha.

E o mais pequeno? Um comediante de primeira: faz palhaçadas, canta, dança, atira-se para cima dos outros, um brincalhão de primeira. Cresceu no meio do reboliço dos outros (e tem ainda outro primo rapaz, para além de uma prima bebé) pelo que não se torce nem se amolga no meio daquelas lutas livres que eles lá fazem, especialmente com o primo do meio, o dito ex-bebé, que é possante como um touro. E eu sempre com medo que ele se magoe. Neste momento, dos três rapazes, é o maior vendaval, nada teme, nada o inibe, e é um motivo permanente de atracção artística

Derreto-me a observá-los.

Contudo, a verdade é que chego ao fim do dia sem pilhas: os miúdos comem como uns lobos, falam muito alto, fazem-me andar num revirote, brincam e perseguem-se em contínuo, gera-se uma tal dinâmica entre eles que é quase impossível sossegá-los -- e uma pessoa fica com a cabeça feita em água.
No entanto, talvez o sono a começar a descer, os três rapazes acabaram a noite sentados no sofá com o avô, a verem desenhos animados e nós três, meninas, nos penteados e maquilhagens.

Às tantas, às escondidas, a bela menina pegou num gloss meu e pintou os lábios de cor de morango. A tia já lhe tinha posto um brilho branco nas pálpebras que ainda iluminou mais o seu incrível olhar azul. Estava linda. Mas zanguei-me: 'Não pode ser, vai limpar os lábios'. Respondeu-me com a sua irredutível calma olímpica: 'Nunca'. Fez agora seis anos e cada vez está mais coquette e, ao mesmo tempo, determinada. A minha filha desatou-se a rir e imitou-a em voz baixa para ela não se aperceber: 'Nunca.' Mas eu insisti: 'Vá, tira isso. Quando os pais chegarem vão zangar-se'. Fez de conta que não ouviu e foi buscar umas lãs de várias cores para a tia lhe fazer uma pulseira. Claro que, logo de seguida, chegaram os pais e não tive tempo de lhe tirar o gloss. O meu filho não achou graça nenhuma, claro que não podes permitir, mãe, não tem jeito nenhum ela andar assim, e com certeza um baton que não é de criança. Claro que não. Mas como, senhores? Depois das onze da noite, eles frescos que nem viçosas alfaces e eu e o meu marido quase inânimes, Como impedi-los de fazerem avarias?

E, dito isto, não conto como são inteligentes, divertidos, bem educados, autónomos, resolutos. São. Umas crianças encantadoras. E, quando ficam cá aos dois de cada vez, a coisa até é relativamente pacífica. Mas quando se juntam os quatro...! E é que uma coisa é estarem juntos mas ao ar livre e darem largas à sua extraordinária energia em espaço aberto e outra, bem diferente, é estarem confinados a divisões da casa onde, apesar de haver alguma largueza, há móveis, tralha, obstáculos, coisas que os impedem de exteriorizar a genica e a alegre vivacidade em todos os sentidos

Mas pronto, é o que é, e nós ficamos sempre com o coração cheio, felizes, com aquela sensação boa de que a nossa vida se tem movido no sentido bom. A esta hora eu e o meu marido já repusemos as coisas no lugar e, depois de mais umas quantas arrumações, ele foi dormir e eu aqui estou, mais adormecida do que acordada.

Tinha aquilo do planeta para falar. Está pertinho, apenas a quatro anos-luz, e sabido que é improvável que não haja mais formas de vida em todo o universo, haveria de ter graça que os nossos vizinhos estivessem, afinal, aqui tão perto de nós. Mas já não consigo escrever mais nada. Durmo e acordo e, de cada vez que acordo, já nem sei a quantas vou na prosa.

Portanto, deixo-nos apenas com o vídeo.  Caso para perguntar: 'Eles andem aí...?' Pois não sei. 

The exoplanet next door


Astronomers have discovered evidence of a small, rocky planet orbiting our nearest star – and it may even be a bit like Earth. Nobody knows whether the planet, called Proxima b, could ever sustain life. The little planet orbits our sun’s nearest neighbouring star, Proxima Centauri, making it the closest exoplanet ever found.

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Devia identificar os pintores cujas obras escolhi hoje por terem crianças muito bem comportadinhas - mas não dá.
[E imagino o lindo estado de imperfeição em que está o que escrevi. Relevem, please.]

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E desejo-vos, meus Caros Leitores, um feliz dia de domingo.

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