Enquanto escrevo, estou a ver um programa fantástico na RTP 1, 'Em casa de Amália' em Elvas. Muita gente na rua a assistir a contagiantes momentos de partilha com o António Zambujo, o Buba Espinho e o Luís Trigacheiro, apresentado por um José Gonzalez que eu não conhecia mas que é um tipo bem simpático.
Muito bom. Penso que o país caminha no bom sentido quando se fomentam momentos assim, de comunhão em torno de uma língua comum, em que as pessoas saem à rua para ouvir cantar, quase tudo canções que toda a gente canta, em que há sorrisos no ar. O cante alentejano é maravilhoso.
Mas não tem que ser o típico cantar alentejano. Canções que muita gente conhece, melodicamente ricas, em que se toda a gente se junta a cantar, são uma riqueza cultural inesgotável.
E estes três jovens cantam lindamente. Estou impressionada. Por exemplo, não conhecia bem o Luís Trigacheiro e tem uma voz e um poder de interpretação extraordinários. Neste momento está a cantar uma que não é muito conhecida (digo-o pois não o acompanham a cantar) mas que é uma canção linda. Estou encantada.
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Mudando de assunto. Ontem à noite, sem querer, dei com um documentário tocante. Fiquei a ver até ao fim. Foi na RTP 2. Feito pela Charlotte Gainsbourg sobre a mãe, Jane Birkin, mulher de uma inocência e franqueza totais.
Se não viram, sugiro fortemente que ponha a box para trás e o vejam. Partilho o trailer só para se perceber o género.
Jane by Charlotte - Official Trailer (2022) Charlotte Gainsbourg
Watch the trailer for Jane by Charlotte, a documentary by Charlotte Gainsbourg about her mother, Jane Birkin. It features intimate conversations between parent and child, as well as footage of Birkin performing onstage, and explores the emotional lives of two women as they talk about subject matter that ranges from the delightful to the difficult: aging, dying, insomnia, celebrity, and their differing memories of their shared past, which includes Charlotte's father and Jane's husband, Serge Gainsbourg.
Como estou com um olho no burro e outro no cigano (e espero não ser censurada pela utilização deste ditado popular), não me dá para me pôr para aqui agora com divagações. Vou já direita ao assunto.
A forma como as pessoas vivem por esse mundo varia de uma maneira que se calhar não julgamos possível. Eu, se fizesse programas educativos, incluía o conhecimento de hábitos, dificuldades, excentricidades e gostos ao longo de todo o planeta. Penso que é bom que tenhamos noção das disparidades, da diversidade. O que aqui podemos observar atesta a criatividade humana quer a nível arquitectónico, quer tecnológico, quer estético ou económico quer a nível da própria sobrevivência.
Pode ser difícil de acreditar, mas as pessoas realmente moram nestas casas
Não vou dizer aqui, claro. Senão não era adivinha, ora essa. E é mesmo uma adivinha.
Penso que os homens, de forma geral, estarão melhor habilitados do que as mulheres para acertar. Pela parte que me toca, confesso: eu não adivinharia.
Mas, na volta, estou enganada. Sou muito inexpeiente em certas matérias.
Mas, enfim, conto com a vossa presciência. Com tanto cientista, tanta gente letrada e culta, tanta gente que sabe tanto de tanta coisa, acredito que o que não falta é quem tire de letra.
Como simples amuse-bouche deixo aqui alguns dos desenhos ou pinturas da autora da dita classificação.
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E para ajudar, uma canção que não digo se tem ou não alguma coisa a ver. Pelos menos, à primeira vista. Convém não esquecer: esta que aqui vos escreve não é dada a coisas muito complicadas. De alma e coração, com muita crença, em toda a minha religiosidade, eu sou uma pagã. E isto também não tem nada a ver e nem sei porque o estou a escrever.
Agora uma coisa é certa: metade do que digo é da pele para fora, outra metade é da pele para dentro. E a metade que falta é a que é escrita com a cabeça na lua e as asas à solta.
E mesmo que não tenha nada a ver, agrada-me. Os clássicos preferirão o Bob Dylan mas eu não sou uma clássica.
E um poema (do José Bento) que este, de certeza, é que não tem nada a ver com a adivinha. Mas é bom e os bons poemas são bem vindos em qualquer lugar.
Mesmo sem ave, a asa pousa:
é tão ondeante e alta a sua sombra
que sobre a terra se incorpora e voa.
E, para os francófonos e para os verdadeiramente connaisseurs, um texto -- que não sei se é poema ou não -- da autoria de Francis Ponge: A ostra. E também não sei dizer se é uma dica ou apenas a continuação do amuse-bouche.
Vou repetir-me outra vez mas, desta vez, para disfarçar, parafraseio Vinicius: os muito feios que me perdoem mas beleza é fundamental.
Até hoje, que me lembre, nunca nenhum homem muito feio me atraíu. Acho que a fealdade distrai e eu acho que, nos homens, nada deve distrair a atenção da sua essência. Por exemplo, se vejo um homem todo aperaltado, fatinho à maneira, imaginemos cinzento escuro, boa gravata, nó bem dado, camisa a propósito, digamos que branca, e, de repente, reparo nos sapatos e vejo uns sapatos bons, bem tratados, em castanho, como é de bom tom entre os queques, então logo são os sapatos que captam a minha atenção e dou por mim a pensar, olha, um cagãozinho, e, vá lá saber porquê, parece que já nada do que o pobre faça ou diga fará mudar a minha opinião: um pipi armado em carapau de corrida. E sou assim com tudo. Horrível, isto. Sempre fui assim. As minhas amigas diziam: diz onde é o teu caixote do lixo. E estavam certas: muito homem capaz foi, directinho, para o meu caixote do lixo. E o drama é que, por muito que faça, dificilmente de lá sai.
E, se isto é com sapatos ou uma camisa disparatada ou relógio amaricado ou coisa do género, imagine-se o que é com uma cara de meter medo ou um corpinho mal jeitoso. E não vale a pena virem dizer-me que ninguém tem culpa e que ser feio não é problema. Sei disso. Aliás dou-me lindamente com toda a espécie de camafeus. O que digo é que, numa perspectiva de atracção sexual ou amorosa, digamos, comigo não dá.
Mas os muito feios que não se entristeçam: é que, se eu sou de má boca - para mim só filet mignon - o que não falta são mulheres que parece que, quanto mais feios, melhor.
(La Decadanse: muito dancei eu ao som disto)
Fez esta terça-feira, dia 2 de Março, 25 anos que Serge Gainsbourg (nascido Lucien Ginsburg) se foi. Tinha 62 anos e uma vida preenchida, transbordante. Escandaloso, polémico, excessivo, foi também uma pessoa extremamente talentosa. Compôs cerca de 550 canções e os sucessos foram inúmeros, tal como inúmeros têm sido os covers a partir dos seus originais.
E feio. Feio, feio todos os dias, e um corpinho franzino, sem história, todo ele mal amanhado. E, contudo, como acontece a tantos homens assim, com uma fenomenal saída junto das mulheres. Mas que, quem não conhece a história, não pense que foram as muito feias, ceguinhas e vencidas da vida que, à falta de melhor, não tiveram outro remédio senão resignar-se a ficar com os restos. Nada disso: mulheres belíssimas, cortejadíssimas, caíram sob o efeito do seu sex-appeal (por muito escondido que, à vista desarmada o sex-appeal estivesse, a verdade é que consta que o homem era uma bomba). As fotografias mostram-no feiozinho, coitadinho, e ao seu lado, belas e cobiçadas mulheres que podiam escolher o que quisessem. Fumava uns atrás de outros, os dedos já queimados, uma chaminé a céu aberto, a toda a hora com um cigarro nos dedos; e bebia, bebia até cair para o lado -- e as mulheres sempre a olharem-no com paixão, doidas por ele.
(Foi o coração que o atraiçoou mas falava-se também de cirrose.)
Mostro, então, as principais mulheres da vida de Serge Gainsbourg
(por facilidade, vou buscar algumas das fotografias legendadas que aparecem no Madame Le Figaro).
Com Juliette Gréco para quem numa noite, em 1959, escreveu a célebre La Javanaise.
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Françoise Pancrazzi, a segunda mulher (a primeira foi Elisabeth Levitsky): tiveram dois filhos e divorciaram-se em 1964 pois Françoise não suportava o comportamento de Serge, tinha ciúmes e ciúmes mais que fundados. [E eu olho para a fotografia e pasmo: como era possível? Ela linda e ele um feio deslavado]
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France Gall que ganhou o festival da canção com Poupée de Cire, Poupée de Son, composta por ele. Gainsbourg compôs outras canções para ela, tal como Les Sucettes, canção cujo teor erótico ela diz que apenas compreendeu mais tarde, já mais crescidinha.
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Brigitte Bardot, um amor interdito (já que ela era casada). Sobre a relação que os uniu, confessou ela mais tarde: « La beauté c'est quelque chose qui peut être séduisant un temps. Ça peut être un moment de séduction. Mais l'intelligence, la profondeur, le talent, la tendresse, c'est bien plus important et ça dure beaucoup plus longtemps. » Para ela, compôs ele várias canções, entre as quais Je t'aime moi non plus e Initials B.B.
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Com Jane Birkin, o grande amor. Começaram por detestar-se. Depois tornaram-se inseparáveis. Jane torna-se a sua inspiração, a sua musa, e com ela ao lado, os sucessos sucedem-se. Faz uma nova versão de Je t'aime.. moi non plus. Para ela faz também, entre outras, 69 Année Erotique
Com a filha, Charlotte Gainsbourg, em 1971, em Londres
Com a filha Charlotte Gainsbourg, ainda uma miúda, faz um dueto que deixou quase toda a gente escandalizada com a canção Lemon Incest (1984). Compreende-se.
A seguir, faz um filme, também com a filha, Charlotte Forever, que causa igualmente a maior perplexidade (digamos assim). Em vez de um excerto do filme, partilho convosco uma entrevista em que se pode ver a timidez de Charlotte e o polémico pai. Desconcertante, no mínimo.
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Depois da ruptura com Jane, segue-se Catherine Deneuve que o ajudou a esquecer o seu grande amor. Para ela e para o filme Je vous aime, compôs Dieu fumeur de havanes
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Caroline Paulus, mais conhecida por Bambou, a última mulher. Com ela teve o 4º filho
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Com Vanessa Paradis em 1990, a última musa, para quem compôs, para além de uma outra, Tandem
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Para terminar, uma emocionante homenagem que reuniu alguns dos seus devotos.
Em 1990, perto do fim.
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Em 2011 saíu um filme sobre a sua vida
Gainsbourg: A Heroic Life
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Repesco as palavras de BB -- não é a beleza ou o breve instante da sedução: são a inteligência, a profundidade, o talento, a ternura que perduram. Deve ter sido isso que fez com que elas o amassem tanto. E, de resto, admito, a beleza tal como o amor e tantas outras coisas são una cosa mentale.
[NB: Centrei o texto na relação dele com as mulheres mas, bem entendido, o talento de Gainsbourg foi e é apreciado enquanto multi facetado e talentoso artista]
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E agora, se ainda não viram, desçam, por favor, até ao post seguinte: aí se pode ver o hábito que Pablo Iglesias, o líder do Podemos, tem de beijar na boca os seus correlegionários. Pelo que se vê, ele beija qualquer um em qualquer lugar, incluindo no Parlamento. Os cartazes humorísticos começam a surgir e eu imaginei casais que gostaria de ver a cumprimentar-se assim na nossa Assembleia e até me ocorreu uma forma original dos nossos deputados do sexo masculino se despedirem do ainda Cavaco.
Ao lado da casa de uma das minhas avós, já o contei, vivia uma senhora de porte imponente, que tinha um atelier de costura, com muitas 'raparigas', costureiras. Ela, a patroa, era a modista e nós, em casa, chamávamos-lhe 'a vizinha modista'. A vizinha tinha dois netos, uma das quais uma rapariga muito independente que quis fazer a universidade no estrangeiro. Vinha de férias e ela própria já vinha com modos de estrangeira. Até que um dia apareceu com um namorado que era o dobro dela. Ela era baixinha e miudinha e ele era um gigante. Negro. Preto retinto. Aquilo foi um choque para toda a gente. Estrangeiro e preto. Toda a gente ficou como que com pena. Lembro-me de a minha mãe se fartar de rir com uma coisa que a vizinha modista disse à minha avó. 'parece ser um bom rapaz apesar de ser preto'. Aquilo, para mim, ainda por cima acentuado pelo riso da minha mãe, soava-me a disparate de alto calibre. Lembro-me que na altura se discutia o assunto e de os meus pais se interrogarem como reagiriam se eu, mais tarde, viesse a arranjar um namorado preto. Por acaso não calhou, os meus namorados foram todos brancos. Mas na escolha em definitivo pelo último pesou bastante o facto de ser bem moreno e de, quando apanha sol, ficar com ar de marroquino.
Adiante.
O filme que fui ver tem a ver com uma inesperada relação afectuosa entre uma mulher branca (bela actriz, a Charlotte Gainsbourg, a menina de seus pais), e um homem negro, Omar Sy (um homem negro lindo).
Mas o filme não é sobretudo sobre isso. Tem muito a ver com uma realidade terrível, uma realidade invisível. Quando penso em dramas humanos nas sociedades ditas modernas e civilizadas penso sobretudo no drama dos imigrantes. É gente que veio sem nada de países em guerra ou que vivem afogados na pobreza mais absoluta, que vem em busca de um sonho, mas que tem que se anular, quase esquecer a sua identidade, viver num mundo oculto, sem direitos, explorados, acossados. Quando vejo aqueles barcos em Lampedusa, carregados de gente esfaimada, sedenta, desidratada, enrolados em plásticos como um desgraçados, muitos sendo recambiados sem compaixão, dá-me tanta, mas tanta pena. Gente igual a nós, com afectos, com laços, com ambições e que, no entanto, vive na penumbra do mundo.
Não vou contar o filme mas, independentemente da tristeza pungente que por vezes transparece, tudo é mostrado com humor, com uma grande ternura. Ri-me imenso, ri-me de gosto, devo ter sorrido grande parte do filme, uma ironia, uma graça. E uma música. Há uma cena deliciosa de uma festa, uma alegria, tudo uma boa onda que dá gosto. E é um filme francês e eu gosto tanto da língua francesa, soa-me bem.
Não encontrei o trailer legendado em português. Apenas o encontro no cinecartaz mas não o consigo colocar aqui, apenas posso deixar o link.
Coloco com legendas em inglês pois sei que muitas pessoas não sabem francês.
Excerto da sinopse do Cinecartaz do Público:
Samba Cissé (Omar Sy) é um imigrante senegalês que sonha fazer carreira como "chef" de cozinha. Contudo, apesar de viver em Paris há mais de dez anos, nunca conseguiu a autorização de residência de que tanto precisa para atingir os seus objectivos. Durante este tempo, foi sobrevivendo com pequenos trabalhos mal remunerados, tentando sempre regularizar a sua situação. Um dia, é apanhado pela polícia e encaminhado para o serviço de estrangeiros e fronteiras para ser deportado. É então que conhece Alice (Charlotte Gainsbourg), uma mulher que há anos luta contra uma depressão e que trabalha como voluntária numa organização de apoio a imigrantes ilegais. Apesar de saberem que deveriam manter a distância para não se envolverem emocionalmente, Samba e Alice vão encontrar um no outro aquilo de que tanto necessitam para avançar com as suas vidas.
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Se puderem, não deixem de ver que, de certezinha, vão gostar.