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segunda-feira, agosto 22, 2022

Salada de verão made in heaven (com receita) e, uma vez mais, um susto nocturno, desta vez por conta de um urso desaparecido

 

Alguma preguiça em cima de mim. Estava na dúvida em fazer ossobuco ou choquinhos com tinta para o almoço. Mas havia ainda tantos leftovers que disseram: come-se o que houver, não é preciso fazer nada. E francamente foi o que eu queria ouvir. Apetecia-me uma refeição mais ligeira, nomeadamente a nível da confecção.

Então, improvisei. Fiz assim:

Numa taça grande coloquei o resto do arroz (basmati) e o frango assado desfiado (ambas as coisas sobras do almoço de sábado). Depois cortei três maçãs de alcobaça aos cubinhos pequeninos, três tomates grandes maduros também aos cubinhos (e ao cortá-los o suco ia escorrendo), depois cortei às tirinhas finas o conteúdo de um pacote de salada exótica (rebentos disto e daquilo), piquei finamente um bom molhinho de coentros, temperei com orégãos e azeites. Envolvi tudo bem. Por cima. coloquei um queijo fresco de cabra cortados aos bocados, três ovos cozidos picados e vários figos às rodelas. Voltei a temperar com um fio de azeite.

E estava saborosa, uma salada fria da qual não sobrou nada. A seguir comeu-se melão e alguns mais gulosos também uma sobremesa doce.

De tarde, acabei de ler o Sonechka da Ludmila Ulitskaya que, no outro dia, quando ao fim da tarde bateu uma saudade de entrar numa livraria de verdade e ver uma livreira de verdade, trouxe da Escriba

Vale um passeio de propósito a Almada para escolher uns bons livros e estar à conversa com a Rosa Alface, livreira de gema e de uma simpatia inexcedível. E dali poderão partir para o Parque da Paz para lerem um livro à beira do lago ou para a Casa da Cerca ou, claro, para um passeio a pé até ao rio com derivação para o querido Ginjal de onde se tem a melhor vista sobre Lisboa.

Li o Sonechka de seguida, agradada. Não há rodriguinhos, histórias mirabolantes, reviravoltas inesperadas. Há simplesmente boa escrita, uma história com personagens credíveis e cujo desenrolar de vida gostei de acompanhar. Não conhecia Ludmila Ulitskaya mas uma coisa é certa: vai estar sob o meu radar.

Depois, como me apeteceu continuar de enfiada, peguei na A Praia de Cesar Pavese. 

Estava calor mas não tão abrasador quanto no sábado. Penso que já o disse: até os arbustos do campo mostram as folhas enroladas e alguns parecem estar a querer secar. Uma coisa meio assustadora. A terra está seca, seca.

De manhã, quando foi dar a sua volta matinal pelo campo, o meu marido encontrou, a atravessar o caminho, lá em baixo, um esquilo. Até agora, das duas vezes que tinham sido avistados, sempre tinha sido cá em cima. Quando o pressentiu, o esquilo correu e enfiou-se por entre um cedro. E desse, saltou para o cedro do lado. Também é novidade: julgávamo-los amantes de pinheiros. De facto, nesta última semana não apareceram cá em cima tantas pinhas roídas quanto é costume. Na volta, dada a movimentação que agora tem havido por cá, resolveram procurar poiso mais tranquilo.

Claro que andei de cabeça no ar a ver se o descobria mas nem pouco mais ou menos. Os cedros são frondosos, impossível descortinar qualquer coisa cá de baixo e do lado de fora.

Para o jantar, resolvemos ir a uma das cidades mais próximas petiscar numa esplanada agradável onde se come bem. Para evitar os stresses do urso felpudo que é territorial e possessivo até em relação ao espaço da mesa à volta da qual nos sentamos, ficou em casa.

Não quisemos deixá-lo na rua não fosse meter-se em algum sarilho, enfiar-se nalguma gruta, cair da barreira, sabe-se lá, ou arranjar maneira de se escapulir para a estrada. Não é como a nossa querida cãzina que era tranquila, obediente, bem comportada. Este é temperamental, atrevido, teimoso.

Fomos cedo, por volta das sete. Dissemos-lhe o que sempre lhe dizemos: 'Fica a tomar conta da casa, está bem? Os donos já vêm'. Mas a dinâmica de saída desestabilizou-o porque não eram só os donos, era muita gente a entrar e sair, a entrar e sair. Depois de finalmente estar toda a gente cá fora e ele metido à traição dentro de casa, o meu marido viu que se tinha esquecido do álcool gel (coisa a que se afeiçoou) e um dos meninos também resolveu que queria ir beber água. Passado um minuto saíram de novo e, supostamente, o cão de guarda ficou dentro de casa. Eu, pelo menos não o vi sair. 

Depois de jantar, não viemos logo, fomos ainda dar um passeio até ao parque onde havia música e bailarico.

Quando regressámos, não sei que horas seriam, talvez umas dez ou dez e tal, não sei, esperávamos vê-lo logo ao pé da porta. Mal ouve o portão ou o carro ou mexer na porta, vem sempre sentar-se à porta à nossa espera. Desta vez não. Nada dele.

Chamámos. Nada. Na volta tinha caído num sono profundo e não nos tinha ouvido chamar. Chamámos alto. Nada. Fomos acendendo luz após luz, chamando, espreitando. Nem na cozinha, nem na despensa, sala de jantar, nem na sala da lareira, nem na sala de baixo, nem na da televisão, nem no meu quarto, nem nas casas de banho. Nada.

Todos já assustados, a chamar por ele, preocupados com o que estaria a passar-se, temendo que algo de grave se tivesse passado. 

Perguntei: 'Vocês viram-no de certeza, quando voltaram a casa?'. Sim, tinham-no visto, tinha ficado na cozinha. E eu, de facto, não o tinha visto sair.

Avançámos, então, para a parte antiga da casa onde, de novo, temos tido pernoitantes. A porta estava fechada. Estranho. Não é costume aquela porta estar fechada durante o dia. Chamámos. Nada.

Acendeu-se a luz. E lá estava ele, ao cima as escadas, encolhido, orelhas murchíssimas, imóvel, ar assustado. Não sabemos o que lhe aconteceu, como fechou a porta. E, claro, se a fechou, já não a conseguiu abrir que a porta é um pesadelo, enorme, de madeira maciça. Ali às escuras, no topo de umas escadas, sem acesso à zona da casa onde estão as portas da rua, e isto já para não dizer que também sem acesso à comida e à água, imagino como se sentiu infeliz.

Depois, quando subimos as escadas e fomos ter com ele, foi uma festa, todo agarrado a nós, o rabinho a dar a dar, só a pôr-se de pé para nos dar abracinhos e beijinhos, uma alegria. Parecia que ria a olhar para nós, todo contente. Respirámos de alívio e toda a gente lhe fez mil festinhas. A seguir, bebeu água como se não houvesse amanhã e comeu que se fartou. Pudera, tiraram-lhe um peso de cima, afinal, coitado do pobre infeliz, não tinha sido abandonado... Cãozinho mais fofo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Saúde. Boas ondas. Boas vibes. Paz

sexta-feira, agosto 20, 2021

Ideias lebres


Ideas liebres son las ideas que corren, y, por consiguiente, las que nadie tiene

José Bergamín


Ontem, quando pensava que o meu marido se tinha ido deitar, apareceu-me aqui dizendo que tinha ido ao jardim ver o sistema de rega. Deve ter ido ver se estava a funcionar, não sei. Sei é que lhe disse que me podia ter dito que ia lá fora àquela hora. Pela configuração da casa, não se ouve o que se passa do outro lado e, por isso, nem tinha dado por nada. 

O sistema esteve sem funcionar alguns dias e a relva ressentiu-se. Pois bem, de madrugada, acordou-me para me dizer que ia lá fora pôr a funcionar. Virei-me para o outro lado, convencida que estava a levantar-se. Levanta-se sempre cedíssimo. Passado um bocado, voltou para a cama. Fiquei espantada. Que ideia era aquela? Perguntei que horas eram. Cinco. Fiquei passada. Porquê tão cedo e porque me tinha acordado? Explicou a razão de ser tão cedo e disse que me tinha informado pois, de noite, eu lhe tinha dito que me deveria ter avisado. Fiquei fula: nem três horas eu tinha dormido desde que me tinha deitado. Como sempre, disse-me que deixasse de protestar e que voltasse a adormecer. E eu, fula, disse-lhe que não funciono como um interruptor. Mas parece que não percebe isso.

Só voltei a adormecer quando ele saiu da cama mas, passado um bocado, tocou o telefone. Portanto, o meu défice de horas de sono, agudiza-se.

Como habitualmente, desejei amargamente poder dormir durante meia hora a seguir ao almoço. Mas, também como habitualmente, não consegui. 

Fomos almoçar já tarde, depois de uma caminhada à hora do calor. Aproveitei para lhe pedir que, a menos que haja urgência com a família ou que o céu esteja a cair aos bocados, jamais voltasse a acordar-me. Fingiu que estava a receber este pedido pela primeira vez. Mas isto dura há anos e anos. 

Quando os nossos filhos saíram de casa, para ver se conseguia dormir sem interferências, fui dormir para o quarto da minha filha. Geralmente a meio da noite, aparecia no quarto e ia enfiar-se na cama comigo: dizia que não dormia bem sozinho. Portanto, era pior a emenda que o soneto pois, sendo a cama mais estreita, ainda mais perturbação me causava. Acabei por desistir com a promessa que não me acordava de noite. Mas está bem, está. Acha que não está a acordar-me, que eu é que tenho o sono leve ou que embirro. Um chato.

De tarde, uma reunião que pensei que não duraria mais do que uma hora acabou por durar cerca de três. Do outro lado, uma pessoa ia de férias e queria deixar o trabalho em marcha e, sabendo que não tarda irei eu, ainda mais assuntos vieram para cima da mesa. Às tantas, recebi um mail do meu marido dizendo que me despachasse pois queria que fossemos escolher uma tinta para pintar o portão da horta para ver se o pintava ainda hoje.

Enfim. A gente bem tenta mas parece que há sempre um pequeno motivo que nos impede de conseguir algum tempo para nós. E assim vão passando os dias. Ou seja, passa o verão e não consigo apanhar sol no jardim ou tempo para pegar num livro.

Quando me despachei, estava também ele a despachar-se e lá fomos. Já à pressa, já atrasados.

Enfim. É o que é.

Tenho aqui dois livros que trouxe no outro dia da pequena e agradável livraria de bairro onde consegui ir, numa inesperada incursão. 

Fica longe e nada em caminho mas queria mesmo lá ir. Encomendar livros online não se compara com o contacto presencial com uma livraria de verdade onde existe uma Livreira de verdade e onde tudo é muito genuíno e onde os livros são livros e não meras embalagens de uma qualquer fancaria. Ir lá é um gosto, não apenas pelos livros mas, também, pela simpatia da Livreira. 

Achei graça que, quando lhe falei num certo livro, ela me tenha dito que não tinha lido nem recomendava pois embirra com o autor. Disse-lhe que também eu, e deu-me vontade de rir a reacção espontânea dela, e acrescentei que o livro me tinha surpreendido pela positiva. Rimo-nos com a coincidência de opiniões e ela contou-me o que lhe tinha lido nas redes sociais e que só provava que o tipo é um vaidoso e um convencido. Contei-lhe que é também essa a ideia que tenho dele. Estivemos à conversa, pois, e para concluir ela disse aquilo que eu também tendo a pensar: que mais vale a gente nem saber nada dos escritores, que há com cada estupor... e que, depois, ficamos com preconceitos contra a obra. 

Gosto de conhecer a vida de alguns escritores mas não para entender melhor a sua obra. Aliás, acho que nem me lembro de relacionar com a sua obra. Acho que gosto apenas porque, por vezes, são pessoas com vidas cheias de contradições, com uma maneira curiosa de ser. Gosto de os conhecer quase como se lesse sobre um personagem interessante. 

Há poucas pessoas com quem goste de falar sobre livros pois a maior parte das pessoas com quem falo sobre livros diz coisas que não me interessam ou interessam-se por livros que a mim não me interessam. Mas quando as pessoas têm coisas para me ensinar ou têm gostos compatíveis com os meus gosto muito de falar de livros. Aprendo. Gosto de aprender. Assim de repente sou capaz de pensar em duas ou três pessoas com quem a conversa sobre livros me abre portas e, ao mesmo tempo, me conforta. Pessoas raras.

Os dois livros que trouxe para mim foram 'Ideias lebres' de Ernesto Sampaio e 'Zonas de baixa pressão' de António Guerreiro. E estou desejando de os ler. Enquanto escrevo isto, olho-os: capas elegantes. Passo-lhes a mão pelo pelo: capas macias. Folheio-os: as palavras chamam por mim.

A ver se arranjo tempo para elas.


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Livraria Escriba



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Pinturas de Faith Ringgold na companhia de Nina Simone em I Wish I Knew (How It Would Feel To Be Free)

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira!