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sábado, julho 25, 2026

Bilionários, Musk e o fim do dinheiro: uma profecia por medida

 

Li esta semana a newsletter do Robert Guest, director-adjunto da Economist, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk. O texto é curto, mas junta num único parágrafo três ideias que merecem ser separadas antes de serem discutidas: a defesa da fortuna dos bilionários, a profecia de Musk sobre o fim do dinheiro e o aviso, vindo do próprio Musk, de que a IA poderá deixar de nos obedecer.

Imagem gerada pelo Chat GPT

Começo pela primeira. O Economist argumenta que a maior parte da riqueza dos bilionários actuais não vem de heranças nem de cunhas, mas de indústrias competitivas, e que isso beneficia o público. É uma tese defensável, e Guest tem a honestidade de admitir a sua própria ironia biográfica: foi bilionário durante uma noite, em Angola, na era da hiperinflação, o que reduz o conceito ao absurdo antes mesmo de o discutir a sério. Mas a tese generaliza um argumento sectorial (tecnologia, sobretudo) para uma classe inteira de fortunas que inclui petróleo, imobiliário e finanças, sectores onde a relação entre riqueza e benefício público é muito menos evidente. Defender os bilionários em bloco porque alguns deles inovaram é o mesmo erro, ao contrário, de condená-los em bloco porque alguns herdaram ou exploraram posições dominantes.

A segunda ideia é a mais reveladora. Musk prevê que, dentro de poucos anos, o dinheiro deixará de ter importância, incluindo a sua própria fortuna de 750 mil milhões de dólares, porque a IA criará uma abundância tal que acumular moeda deixará de fazer sentido. É uma promessa antiga com roupagem nova: sempre que uma tecnologia promete acabar com a escassez, promete também acabar com o poder que a escassez sustenta. Ora quem faz esta previsão é, precisamente, quem mais beneficia de adiar a redistribuição desse poder até esse dia hipotético chegar. Enquanto a abundância não chega, a fortuna, o controlo das empresas e a influência política continuam concentrados nas mesmas mãos que prometem dissolvê-los amanhã. É uma escatologia conveniente: pede-se fé no fim dos tempos a quem já detém o presente.

A terceira ideia é a que devia preocupar mais gente e preocupa menos. Musk admite, na mesma entrevista, que a IA poderá vir a ser tão mais inteligente do que os humanos que a nossa relação com ela se pareça com a relação entre um chimpanzé e um humano. A proposta de segurança que oferece, os próprios pioneiros da IA vigiarem-se uns aos outros, com o governo como rede de protecção, é notavelmente fraca para o tamanho do risco descrito. Confiar a auto-regulação a um punhado de empresas em competição directa entre si, cada uma com incentivos financeiros para acelerar em vez de travar, não é uma política de segurança, é uma declaração de intenções. O próprio artigo lembra a fuga recente de um modelo de uma jaula supostamente segura, o que só sublinha a distância entre o discurso tranquilizador e os factos já disponíveis.

Vale a pena juntar a isto a crítica de Tim O'Reilly, citada no mesmo texto: Musk estaria a construir uma forma de capitalismo sem os controlos que os accionistas normalmente exercem sobre os gestores. Esta observação liga as três ideias anteriores. Um homem que concentra poder sobre empresas sem supervisão efectiva dos accionistas, que promete uma abundância que ainda não chegou, e que ao mesmo tempo admite não ter a certeza de conseguir controlar a tecnologia que está a construir, não está a oferecer garantias, está a pedir confiança antecipada. E a história do luddismo, também referida na mesma edição, devia servir de aviso: não é que os luditas estivessem errados sobre o impacto da mecanização nas suas vidas, estavam errados sobre a possibilidade de a travar. A pergunta que interessa hoje não é se a IA vai mudar tudo, é quem decide os termos dessa mudança enquanto ela acontece, e não depois, quando já não houver nada a negociar.

Este texto parte do editorial de Robert Guest na newsletter da Economist de 24 de Julho de 2026, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk.

terça-feira, janeiro 02, 2024

Dia de Ano Novo -- com as receitas da culinária envolvida
[E ainda três vídeos que não garanto que venham totalmente a propósito]

 



Como geralmente acontece, o Dia de Ano Novo foi vivido cá em casa. Só por isso já é, para mim, um dia feliz e a melhor maneira de começar o ano. E o meu desejo é que seja também um dia feliz para todos os que aqui partilham o dia. 

Claro que, enquanto isso, fui fazendo um esforço para não deixar que a nuvem sombria que paira sobre mim não transparecesse e não ensombrasse também os demais. 

Agora estou com as unhas pintadas de azul claro e, em algumas, há desenhos em cor de rosa, em branco e em dourado. Foi a minha menina que as pintou, de tarde, tal como pintou as da tia. E a tia pintou as dela.

E o meu menino mais novo, sempre reguila e esquivo, hoje estava mais meiguinho, deixou-se abraçar e beijar sem protestar. E todos aceitaram juntar-se na escada para uma fotografia em família que ficou muito bem.

Momentos sempre bons, vividos em harmonia e doçura.

Para não me pôr para aqui com mais votos ou com ladainhas, avanço já para o lado prático da questão.

Para o almoço fiz duas saladas, um rolo de salmão, arroz de carnes e salada de frutas 

Vou contar como fiz.

Para picar:

Queijos, rolinhos de presunto e tostinhas com trufas trazidas pela minha filha, azeitonas.

Para começar:

Salada de salmão

Coloco alface iceberg no fundo (do ponto de vista vitamínico, acho que esta alface é a mais fraca. Mas é do agrado de todos, pelo que aposto nela para todos comerem salada, nomeadamente os miúdos). Era para ter posto abacates mas esqueci-me. Dois queijos mozzarellas frescos desfiados. Salmão fumado. Tempero com azeite, um pouco de sumo de lima e orégãos.

Salada de ovo

Numa tigela de vidro, coloco alface iceberg em baixo. À parte misturo maionese, ketchup e três ovos cozidos, um quarto de cebola branca (doce) migada, umas quantas azeitonas pretas sem caroço migadas. Coloco essa papa sobre a alface e envolvo. Por cima, migo dois ovos cozidos e mais umas quantas azeitonas pretas descaroçadas picadas. Passo um leve fio de azeite e uns quantos orégãos.

Para continuar:

Rolo de salmão

Numa frigideira, fritei, em azeite, uma cebola branca bem picada. Juntei salsa picada. Quando a cebola estava bem mole, juntei uma maçã cortada em cubinhos minúsculos. Temperei com sal. Deixei que quase se desfizessem. Depois juntei duas embalagens de espinafres frescos. Tapei a frigideira e deixei que os espinafres amolecessem. Misturei.

Temperei os lombos de salmão com um pouco de sal, abundante sumo de lima e cebolinho picado. 

Estendi uma folha de papel de ir ao forno. Em cima coloquei um rectângulo de massa folhada fresca. Na parte central da massa, longitudinalmente falando, coloquei a cama de espinafres (e cebola e maçã). Por cima os lombos de salmão temperados. Cobri com abundante, mas ponham abundante nisso, mozzarela ralado. Fechei o rolo, puxando a massa para cobrir o dito recheio. Para dar graça, fiz-lhe suaves golpes em diagonal. Antes tinha batido um ovo inteiro (ia lá desperdiçar a clara...) com o qual pincelei o rolo.

Peguei no papel sobre o qual o rolo tinha sido montado e enfiei-o numa forma de bolo inglês. Ensinou-me isso o meu filho: o rolo fica aconchegado, não se corre o risco de abrir e desmanchar-se.

Por acaso, não fiz um: fiz dois rolos. O outro foi igualzinho só que, por cima, depois de pincelar com ovo, espalhei-lhe em cima sementes variadas, incluindo de abóbora, e ainda orégãos.

Antes tinha posto o forno a aquecer a 200º. Quando lá enfiei as formas com os rolos de salmão baixei para 170º. Não vi o tempo, talvez uns 40 ou 50 minutos, não sei. Sei que a meio quando me pareceu que corria o risco de tostar rapidamente demais, reduzi para uns 150º.

Arroz de carnes

Num panelão coloquei azeite, duas grandes cebolonas picadas, um bom ramo de salsa picada, dois tomates bem maduros cortados aos pedaços, louro, dentes de alho, três grandes cenouras cortadas aos cubinhos, uma mini (sim, mini: cerveja), rojões de porco e moelas bem lavadas e cortadas aos bocadinhos. Passado um bocado juntei coxas de frango do campo ao qual tirei previamente a pele. Apenas para dar um certo leve apontamento de sabor e graça, juntei um niquinho de bacon aos bocadinhos e um outro de chouriço de carne, de boa qualidade, também aos bocadinhos. 

Enquanto cozinhava retirei um pouco de caldo para outro tacho. Aí coloquei carne cortada em strogonoff de novilho dos Açores. Depois de levantar fervura, um ou dois minutos e desliguei. Acho que assim fica mais macia.

Quando as outras carnes estavam macias, desossei as coxas de frango. Juntei água a ferver para ficar quase o dobro da quantidade de caldo relativamente à quantidade de arroz. Quase porque depois ia chegar mais caldo. Ajustei o tempero de sal. Quando levantou fervura, juntei o arroz basmati. Quando estava quase, juntei a carne de novilho e o tal respectivo caldo. Antes que estivesse o caldo todo absorvido, vazei tudo para um tabuleiro de forno.

Enfeitei com tirinhas de bacon e rodelas do tal chouriço. Foi ao forno para acabar de cozinhar, para secar e dourar as carnes enfeitantes da superfície.

Para terminar

Doces

Usei os bolos que sobraram do Natal e que descongelei, um bocado de tarte de amêndoa que a minha nora trouxe e que tinha sobrado da véspera, um doce de limão merengado que comprei e bombons.

Salada de frutas gelatinada

Numa tigela, coloquei duas maçãs cortadas aos cubinhos, quatro nectarinas aos cubinhos, vários bagos de uva sem grainha. Juntei uma embalagem de kefir de morango e umas quantas de gelatina de morango. Tudo sem açúcar. Misturei. Cobri de mirtilos.

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Temo-nos revezado nas visitas à minha mãe. Durante a semana fui eu, no fim de semana, os meus filhos. Quando regressaram, contaram que, apesar de tudo, estava menos queixosa. Menos mal, portanto.

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Saíram de cá, depois do lanche, já era noite, já os meninos tinham brincado, já quase todos tinham jogado a um jogo de cartas (claro que o 'quase todos' não me inclui, não consigo jogar a estas coisas, não tenho paciência para aprender regras). 

Consegui que levassem alguns restos (porque, já se sabe, sempre com medo que falte, faço invariavelmente comida a mais). 

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Quando aqui me sentei adormeci logo. Depois, primeiro que conseguisse energia para escrever isto foi difícil. Durante esse processo, de despertar, estive a vir alguns vídeos, por vezes adormecendo pelo meio, dos quais partilho estes três.

Anderson Cooper on freeing yourself from the burden of grief


The World Ahead 2024: five stories to watch out for


Why the world is going crazy—and how to win back our minds | Jamie Wheal | Big Think


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Nota: No dia de Natal de manhã, andando eu a lamentar não termos enfeitado a casa, o meu marido, madrugador, foi apanhar musgo e, sobre um tabuleiro, montou um presépio feito com presepiozinhos que gosto de coleccionar e com duas figurinhas que eram de quando ele era pequeno. Face à gripe da minha filha, como contei, o Natal foi em casa dela pelo que só hoje puderam ver o presépio feito de vários presépios. Por ter sido iniciativa do meu marido, gostei imenso. Direi mesmo que fiquei sensibilizada. 

A fotografia não ficou famosa, reconheço..., mas a esta hora não me apetece ir fazer outra. Mas acho que dá para ficarem com uma ideia, não dá?

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Desejo-vos um dia feliz.
Saúde. Boa sorte. Paz.

quinta-feira, abril 20, 2023

Eu, analógica, num mundo cada vez mais digital

 

De manhã fui com a minha mãe a uma clínica para ela fazer um exame sofisticado que só se faz ali, pelo menos que a gente tivesse descoberto. Não fui só eu, foi também o meu marido e, claro, o nosso companheiro de guarda.

Tirando a minha mãe que fica sempre meio baralhada no meio do trânsito, em especial quando anda nas vias mais frequentadas, dos outros só o urso não conhece a cidade. Contudo, o nosso conhecimento não nos salva. Quando não se conhece bem o pedaço para onde se vai, se não levamos um bom gps é certo e sabido que vamos andar às voltas sem atinar com a estrada onde virar. Portanto, salva-nos o Waze. E ainda assim, está bem, está... Por vezes é preciso tomar decisões na hora e, no meio de várias faixas preenchidas em contínuo, se a gente pensa que é para virar lá mais à frente e, afinal, é antes, quantas vezes já não conseguimos virar para lá...

Quando chegámos à clínica, tudo muito automatizado, desde a inscrição até à entrada para os gabinetes, pensei que a minha mãe sozinha não conseguiria orientar-se. Habituada a ser autónoma, está contudo muito virada para o mundo analógico. Ali, ou as pessoas já estão programadas para encarreirarem naquela lógica ou, então, vão sentir-se perdidas.

Mas as coisas começam logo antes. Ao entrarmos para o parque, o meu marido não viu o botão da via verde. Mas, às tantas estava à espera de um botão, e aquilo já está uns passos mais à frente e já não funciona com botão. Tirou um bilhete.

O pior foi para sair. Há que pagar antes de sair, como é óbvio. E, também como é óbvio, não se vê vivalma. Portanto, a primeira dificuldade foi descobrir a máquina. A segunda foi atinar com a dita. O meu marido foi tratar do assunto. Passado um bocado voltou ao carro, que eu fosse lá para ver se descobria onde enfiar o bilhete. Lá fui. Os dois a olharmos para a máquina, hermética, sem descobrirmos uma única ranhura viável. E digo viável pois vimos uma mas púnhamos lá o bilhete e não acontecia nada. Claro que o tempo a contar.

Lá vi, na big e prá frentex caixa negra, discreto, quase invisível, o símbolo de um telefone. Carreguei. Ao fim de um bocado, uma voz saiu da máquina. Perguntei onde é que enfiava o bilhete. A voz disse-me que se encostava ao sítio onde estava uma luz âmbar. O meu marido encostou e no visou apareceu uma verba. Lá conseguimos pagar e, com o bilhete pago, lá nos dirigimos para a saída.

Posso ainda contar um outro episódio.

Em mim, a mania de escrever já vem lá de trás. Nos idos do outro século escrevi umas coisas. Usava-se disquettes e eu, numa de querer preservar as coisas, temendo que os computadores se estragassem ou fossem substituídos, guardei essas obras em disquettes. E nunca mais me lembrei de tal coisa. Tal como me esqueci de converter os ficheiros de DW4 ou 5 em Word. Agora que ando numa de tentar recuperar coisas, tenho para ali tralha a que não consigo aceder nem por mais uma. Então tive a ideia de ver se há algum zingarelho que leia disquettes e permita passar os ficheiros idosos para dentro de computadores actuais. Pareceu-me que sim. Alegrei-me. Então passei pela Fnac e perguntei se tinha tal coisa. O rapaz ficou estupefacto, que já não há disquettes desde o tempo em que as galinhas viviam debaixo de água (não usou estas palavras mas vi que era em coisa assim que estava a pensar). Completou dizendo-me que tentasse online pois nas lojas físicas já não há disso. 

E eu pensei também que dito desta forma também dá que pensar: este mundo ainda é o mundo da minha mãe mas como poderá ele orientar-se se lhe faltarem as lojas físicas? 

E eu? Quanto tempo levarei até sentir-me obsoleta, incapaz de me encaixar no mundo virtual em que os humanos já só se manifestam a partir de máquinas e em que as lojas tendem a não ser físicas.

E hoje, ao ler A torneira, pensei que também já me aconteceu ver uma bela torneira, sem dúvida uma interessante peça de design, mas não fazer ideia de como manejá-la. No meu caso só me ocorria que devia haver um botão ou comando algures, mas, por razões estéticas, completamente oculto. A sensação de impotência e desadaptação bem vincadas...

Isso ou uma vez que estava num daqueles encontros em que há actividades em permanência não nos dando um minuto para desfrutar a excelência das instalações em que, à pressa para não chegar atrasada, entrei no elevador e não lhe vi um único botão. Sozinha numa caixa de vidro, totalmente transparente, a ignorância totalmente exposta, e incapaz de marcar o piso para onde queria ir. Tive que fazer o papel de saloia e ir à recepção pedir explicações. Claro que agora isso já se banalizou mas, há uns anos, era, para mim, absoluta novidade.

Outro exemplo: no outro dia, ao querer fazer uma qualquer coisa, um jovem disse-me que só dava via app. E estava admirado por eu ainda não ter a app.

Todo o mundo caminha aceleradamente para a digitalização, para a desmaterialização, para a sofisticação cada vez mais abstracta e vai deixando para trás os que não conseguem acompanhar o passo. 

Isso ou o que me aconteceu no outro dia. Deitei-me com o telemóvel carregado. De manhã estive a ver as mensagens e as notícias. Tranquilo. Nos noventa e tal por cento de bateria. E, de repente, desligou-se. Tentei ligá-lo e nada. Até que, na fracção de segundo entre tentar ligá-lo e ele desligar-se instantaneamente consegui ver que estava com 0% de bateria. Não encontro explicação. Só que, depois, não consegui carregá-lo pois o que tinha comigo era para carregá-lo via PC e o PC também se tinha avariado. Portanto, fiquei totalmente incomunicável e incapaz de interagir com imensas coisas. 

Numa situação destas, que pode acontecer a qualquer um, como é que um cidadão sobrevive neste mundo como o nosso?

E se esta conversa tem a ver com coisas comezinhas, imagine-se com a inteligência artificial. Como conseguiremos acompanhar o passo sem sermos cilindrados? Já não vai ser possível travar a força do mar com as mãos. Só vejo uma hipótese: hibernar. 

How to stop AI going rogue

Artificial intelligence is improving so fast that no one knows what it might be capable of. It brings huge opportunities, but also huge risks. Arjun Ramani, The Economist's global business and economics correspondent, explains what could go wrong.


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Um dia bom
Saúde. Paciência. Paz.

quinta-feira, dezembro 30, 2021

Envelhecer de levezinho
(isto é, sem que se seja um peso para os outros)

 


Há o lado bonzinho da questão: a sabedoria, a felicidade tranquila e contagiante. As rugas que são lindas, sinónimo de histórias de vida. Os cabelos brancos que são sinónimo de orgulho numa longa vivência. Claro que sim, é verdade. Termos na família pessoas que vivem até muito tarde, tendo eles a alegria de assistir à propagação dos seus genes, bisnetos crescidos e bem dispostos, a progredirem nos estudos, é uma alegria. E, para todos, termos respectivamente a mãe, a avó e a bisavó viva é uma bênção.

Creio que, num ponto de vista estritamente pessoal, ninguém contesta isto. São bons princípios, boas intenções. E, de resto, o que seria da vida sem o bom condimento do lirismo?

O problema é que, ao viverem muitos anos depois de se reformarem, passando a ser beneficiários líquidos da segurança social, as pessoas de idade tendem a deixar esse sistema exaurido. 

O dinheiro que cada um desconta não fica guardado numa caixinha à espera que a pessoa precise dele. Não. Cada ano há os que descontam e, simplificadamente falando, com essa verba paga-se a quem se deve nesse mesmo ano.

E tudo estaria bem se o edifício demográfico estivesse equilibrado. Melhor ainda se tivesse uma enorme base de gente jovem a alimentar o sistema.

O grave é quando a pirâmide começa a ficar distorcida, quando começa a haver poucos jovens e poucos contribuintes e muitos idosos a ganhar as pensões e a consumir muitos recursos, nomeadamente nos serviços de saúde.

Aqui chegados, quando a manta não chega para tapar todos os que precisam, quando estamos perante impossibilidades aritméticas, quando o edifício da democracia e da solidariedade intergeracional ameaça ruir há que começar a tomar medidas. 

  • A primeira medida será conseguir que a pirâmide tenha uma base sólida. Elementar. Para isso há que fazer de tudo para que haja condições para que as famílias tenham mais filhos. São necessárias mais crianças. Os jovens adultos tem que procriar mais abundantemente. Faça-se o que for preciso: licenças parentais longas sem quebra de rendimentos, creches gratuitas, livros e material escolar gratuito, redução no IRS, alargamento do período de férias, redução do horário de trabalho -- tudo o que for necessário.
  • A segunda medida será 'injectar' contribuintes no sistema. Para tal, é fomentar a imigração. É bom para a cultura, é bom para a economia. É bom para tudo. Seja acolhendo refugiados, seja facilitando a integração de imigrantes, seja o que for (desde que o seja de forma controlada quer em quantidade quer em 'qualidade' -- mais concretamente, sem risco de importar casos que ponham em risco a segurança nacional)
  • A terceira medida será conseguir que os trabalhadores sintam prazer em trabalhar (e descontar para impostos e segurança social) até mais tarde e estejam disponíveis para abraçar novos desafios, ter novas ocupações. Não apenas isso os ajudará a terem um envelhecimento de qualidade como ajudará a que tenham rendimentos para suportar os seus gastos não tendo, forçosamente, que viver apenas, durante tantos anos, apenas das pensões de reforma: e, desejavelmente, poderão também custear alguns dos seus tratamentos não tendo que recorrer exclusivamente aos serviços de saúde públicos (e gratuitos). Dirão alguns que isso irá ser bom para o negócio dos seguros privados de saúde. É verdade. E isso não é problema para ninguém. Será, também aí, uma ajuda à economia, criação de postos de trabalho, mais impostos pagos para ajudar a suportar os cuidados de quem não os pode pagar. 
  • A quarta medida é uma decorrência das anteriores e consiste em encarar o envelhecimento não como um pesadelo para a sociedade mas como oportunidade de trabalho para muita gente. Em vez de ter as pessoas de idade, especialmente as doentes e dependentes, fechadas em casa, sendo um 'peso' para a família, ou a definharem em lares e residências, passar a ter formas de ter as pessoas acompanhadas e tratadas, disponibilizando serviços de assistência ao domicílio ou, então, residências seniores de qualidade. Cada um pagará o que os seus rendimentos o permitirem mas, ao gerar emprego para muita gente, teremos essas pessoas a efectuarem descontos e, portanto, a ajudarem a equilibrar as contas.
O tema é daqueles que não se recomendam para os dias de festas. Bem sei. Mas é bom que haja consciência que, sem isto resolvido, um dia não haverá razão para festejar.

Há problemas graves que ameaçam a humanidade: a deterioração climática com todos os desastres que se anunciam, as pandemias e a falta de qualidade do ar que se respira... e o desastre demográfico em alguns países, nomeadamente e de forma preocupante, em Portugal. 

[Já agora: em minha opinião, estes deveriam ser os principais temas das próximas legislativas e a forma como os partidos se posicionam perante eles o principal factor de decisão nas nossas escolhas]. 


O vídeo abaixo aborda o tema do envelhecimento -- e está bem feito e é elucidativo. Se puderem, por favor vejam-no.

The World Ahead: the true costs of ageing | The Economist

The rich world is ageing fast. How can societies afford the looming costs of caring for their growing elderly populations? 
00:00 The wealthy world is ageing
01:17 Japan’s elderly population
02:11 The problems of an ageing world
04:01 Reinventing old age
05:48 Unlocking the potential of older years
07:09 Reforming social care 
08:20 A community-based approach
11:08 A fundamental shift is needed 

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Pinturas de Franz Marc ao som de Prince Kaybee, Shimza, Black Motion, Ami Faku interpretando Uwrongo

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Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Ânimo. Descobertas boas.

terça-feira, dezembro 28, 2021

Para 2022, alguns dos meus desejos e as antevisões do Economist

 

Estamos quase lá e creio que já ninguém se aventura a fazer grandes previsões. Com sorte, entre vacinas, reforços, sprays, comprimidos e outras gracinhas, haveremos de conseguir controlar as nossas vidas. Mas enquanto a luz ao fundo do túnel não está ao alcance das nossas mãos, mais vale batermos a bolinha baixa e assumirmos a nossa insignificância perante um enxame invisível de merdinhas, pior que praga de microscópicos gafanhotos ranhosos.

Hoje fui à farmácia à hora de almoço. No balcão, entre uma miríade de produtos, vi uma lata grande onde dizia que era um desinfectante para o ar. Fiquei sem perceber se era para matar moscas, melgas ou mosquitos. Apurei a vista pois o que fazia tal coisa no balcão de uma farmácia? Pois bem. Entre várias coisas, dizia que matava vírus. Claro que não sei se, de caminho, não mata também um bocadinho das pessoas que respiram o ar assim desinfectado mas em tempo de guerra não se limpam armas e, portanto, se a prioridade é matar coronas, que se lixem as pessoas. Dum-dum para cima de toda a gente a ver se a malta se desencarde deste sebo covídico.

Isto para dizer que eu, pouco dada a visões e, ainda por cima, com um bocado de miopia e de estrabismo, ainda pior para ver ao longe. Sei lá o que vai acontecer em 2022... E não é estrabismo, é outra coisa mas agora não me estou a lembrar. 

Ah, sim, astigmatismo. Na última consulta soube que tenho também um bocado de astigmatismo. Não sei se é coisa que costume aparecer com a idade mas a mim apareceu. Felizmente nada forte de mais já que ando sempre sem óculos... e ainda não me perdi. Melhor: quando me perco não é por não ver bem mas por ter o meu gps interior mal configurado.

Portanto, não me arrisco a avançar com palpites sobre como vai ser o 2022. Gostava era de estar cá para ver como vai ser o 2222. Isso, sim. Os malucos por números vão delirar. É ano para se fazer o pleno e para toda a gente se desforrar antes que seja tarde. 

Dormir ao relento na praia, ao pé de uma fogueira. Por exemplo. Vestir-me de noiva e pregar um susto ao meu marido. Também por exemplo. Contratar o Benedict Cumberbatch para me dizer um poema ao ouvido. Também por exemplo.

Mas, se calhar, por essa altura já cá não estou, pelo menos igual ao que hoje sou. A menos que me congelem e em 2222 me ponham no microondas a descongelar. Pode ser que descongele bem e esteja em boa forma, ou seja, que não me desfaça em água. Nunca se sabe.

Portanto, se não sou capaz de fazer conjecturas sobre o que o longínquo 2222 e o próximo ano nos trazem, posso é dizer aquilo que eu gostaria que acontecesse já para o ano que aí está quase a dar as caras. E, então, sem qualquer outra ordem senão a ocasional, resultante do que me vai ocorrendo, aqui vai:

1) Semanas de trabalho de 4 dias úteis, rotativamente. Ou seja haveria escalas de dias de descanso. Trinta horas de trabalho por semana, no máximo.

2) 26 dias de férias [já muita gente tem 25, seria apenas alargar a todos e acrescentar-lhe 1]

3) Forte incentivo (seja fiscal, seja de que forma for) a que, em férias, pelo menos duas vezes por ano, num mínimo de três dias de cada vez, sejam passados em Portugal, num concelho diferente daquele em que se vive.

4) Oferta de uma viagem por ano de comboio em Portugal a todos os cidadãos portugueses

5) Para todas as profissões que o permitam, pelo menos metade dos dias úteis em teletrabalho

6) Licença parental de 1 ano, sem perda de rendimento, repartido entre pai e mãe, conforme o desejem

7) Abertura de um número significativo de creches gratuitas com horários de 24 horas (nos locais em que tal se justifique, para que os pais que trabalham em turnos tenham onde deixar os filhos em segurança)

8) Abertura de um número significativo de espaços gratuitos de ATL 

9) Abertura de residências séniores públicas, com mensalidades ajustadas aos rendimentos, e com actividades tais com fisioterapia, ginástica, aulas sobre matérias diversas, enfermagem, cabeleireiro e manicure, etc

10) Obrigatoriedade de disponibilização de várias hortas urbanas e jardins partilhados em cada localidade com apoio de agrónomos, agricultores, arquitectos paisagistas e jardineiros

11) Disponibilização de espaços para arte pública (escultura, pintura, azulejaria, artesanato, artes tradicionais, música, dança, etc) em cada localidade

12) Obrigatoriedade de um número mínimo de aulas ao ar livre em cada ano lectivo

13) Obrigatoriedade de aulas de Sustentabilidade e Defesa do Planeta desde o primeiro ao último ano de cada curso (Medicina, Engenharia, Direito, Biologia, Urbanismo, Farmácia, Teatro, etc)

14) Obrigatoriedade de aulas de Língua Portuguesa do primeiro ao último ano lectivo de todos os cursos 

15) Obrigatoriedade de aulas de Nutrição e de Exercício Físico do primeiro ao último ano lectivo de todos os cursos 

16) Reforma compulsiva do Super-Judge Alex e do seu destrambelhado Rosarinho 

17) Criação de um canal televisivo alternativo que mostre o lado bom das coisas e arrume com a TVI, a SIC, Correio da Manhã, CNN Portugal e até com a RTP quando copia os outros

18) Criação, em cada distrito, de residências de acolhimento, escolas e estruturas de apoio para imigrantes

19) Que se descubra maneira de que todos quantos carregam nuvens negras à sua volta -- e que conseguem contaminar com má sorte quem lhes está por perto -- desamparem a loja e vão existir para bem longe, quiçá enviados para o espaço naquelas naves do maluco do Musk.

       (etc. etc. etc. )

Ou seja, não previsões mas uma lista de wishful thinkings. 

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Mas se eu não passo de uma pomba lesa a antever o futuro, já o The Economist não. Ali bebe-se do fino. Eles falam e é bom que a gente os ouça. Convido-vos a verem o vídeo.

O que é que o futuro nos reserva para 2022?

The World Ahead 2022: five stories to watch out for | The Economist

What will be the biggest stories of 2022? As the pandemic continues to wreak havoc across the globe, President Xi will cement his power as leader of China, tech giants will coax more of us into virtual worlds and the space race reaches new heights. The Economist is back with its annual look at the top stories of the year ahead. Film supported by @TeneoCEOAdvisory

00:00 The World Ahead 2022
00:40 China revels in democracy’s failings
04:11 Hybrid working becomes the new normal
07:48 The metaverse expands
11:26 An African fashion boom
14:12 The space race picks up

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Ilustrações de Nick Knight, 'Flora', ao som de Y La Bamba em Ojos Del Sol 

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Desejo-vos um belo dia, apesar de tudo

domingo, setembro 12, 2021

Quanto vale o sangue dos outros?
Ou como é fácil fazer nascer unicórnios

 

Muito loura, uns olhos muito azuis que a maquilhagem tornava maiores e que pouco piscavam, uma voz estranhamente grave (aliás, forjadamente grave), uma toilette a la Steve Jobs (quase sempre de gola alta preta), um sorriso charmoso, uma conversa convincente (para quem queria deixar-se convencer), uma audácia mascarada de assertividade, uma opacidade mascarada de transparência, um à-vontade perante potenciais investidores e representantes do poder político, um descaramentos que não desarmava -- tudo ingredientes que fizeram de Elizabeth Holmes um caso sério no mundo dos negócios emergentes e muito promissores.

Em especial os homens mais velhos babavam-se perante a jovem e formosa fundadora e gestora daquela fantástica empresa que se anunciava como the next big thing. Era uma nova Apple que estava a nascer. Uma tecnologia inovadora que revolucionava o mundo das análises de sangue e que renderia milhões e milhões. 

E, perante a inexistência de evidências, apenas levados pela lábia da juvenil e sorridente loura de olhos de boneca e voz grossa, os investidores abriram os cordões à bolsa e o dinheiro começou a entrar. Num instante. a Theranos valia brutalidades. Ninguém queria ficar para trás. 

Na minha vida profissional já testemunhei um caso idêntico embora, obviamente a uma mais modesta escala: uma mão cheia de nada a ser apresentada como um tiro certeiro num mercado em brutal expansão. Quem mantivesse a cabeça a funcionar facilmente percebia que só um maluco investiria um cêntimo numa coisa que até podia ser mas que, de facto, não era nada. Quando a máquina da mentira é posta em marcha dificilmente pára. 

Só pára se alguém, totalmente descomprometido com o projecto, à bruta e de forma pública e irrefutável, a parar. Caso contrário, os enganados não querem aparecer como uns patos e vão ficar calados, os que apadrinharam não vão querer parecer uns otários e ficam caladinhos, os que lá trabalham não querem perder o emprego e nem um pio, os mais próximos não querem dar uma facada nas costas e fazem de conta que não sabem de nada. Todos, de uma maneira ou de outra, se tornam coniventes, todos encobrem o inexistente unicórnio. 

No caso de Elizabeth Holmes o caso é mais grave pois não apenas enganou os investidores como se esteve nas tintas para a saúde das pessoas cujo sangue era analisado naquelas máquinas da treta que vendia como se fossem revolucionárias e fiáveis. Resultados errados que levavam a medicação inadequada podendo pôr a vida dos doentes em risco enquanto o sucesso da empresa era incensado e recompensado -- dois mundos antagónicos que existiam sob gestão da sua CEO que continuava a apresentar-se em conferências, entrevistas e encontros com altas figuras da política e do mundo dos negócios. Sempre segura, combativa e sorridente.

Agora, cerca de três anos depois de ter sido publicamente desmascarada, apresenta-se a julgamento menos maquilhada, já sem a farda a la Steve Jobs, toda ela num estudado low profile, responsavelmente grávida -- e sorridente como se não fosse nada com ela. Já não se mostra como a grande empreendedora mas como a inocente que os outros querem derrubar e que está ali disponível para contar como foi manipulada, enganada.

Como qualquer psicopata, não assume a responsabilidade pela gravidade dos seus actos. É capaz de invocar desculpas, fazer-se de vítima e, de olhar tranquilo e ingénuo, continuar a apresentar-se como bem intencionada. 

Descrita por quem sabe como uma narcisista, tudo nela evidencia os traços psicológicos de gente assim. Em maior ou menor grau os narcisistas têm sempre qualquer coisa de psicopata, de sociopata, de tóxico, de perigoso. No caso de Elizabeth Holmes estar-se-á perante um expoente máximo mas não nos enganemos: de gente assim a única coisa a fazer é guardar distância pois desde que começam numa de ser cativantes até à fase em que se fazem de vítimas, nunca assumem responsabilidade pelo mal que espalham à sua volta. Esvaziam animicamente os que os rodeiam e que, tantas vezes, ingenuamente tentam ajudá-los.

O vídeo abaixo mostra bem toda esta história. Poderia ser ficção: a ascensão e queda de uma extraordinária lunática. Mas não é ficção: é verdade. A lunática, Elizabeth Holmes, é bem real.

Elizabeth Holmes exposed: the $9 billion medical ‘miracle’ that never existed

Elizabeth Holmes promised the world a medical revolution. At 19, she claimed to have invented a miniaturised machine that with a single drop of blood could map a person’s health quickly, reliably and cheaply. She boasted that her technology meant serious diseases like cancer would be prevented before they happened. And it was not only a “wow” moment for patients. High-profile investors rushed to pour a fortune into Holmes’ company, Theranos, and she became Silicon Valley’s first self-made female billionaire. But as Tara Brown reports, her invention was an invention – it simply didn’t work. Elizabeth Holmes is no visionary. She’s a cruel fraudster who has put people’s lives at risk, and because of that, now faces 20 years in jail.



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Desejo-vos um bom dia domingo

[Apesar de ser um dia triste]

quinta-feira, janeiro 07, 2021

O estranho ano de 2020

 

Quando, daqui por um ano, se fizer a resenha do mais relevante em 2021 haverá muito a dizer: a eficácia ou não da vacina, o sucesso ou não da operação logística relacionada com o seu fabrico, armazenagem e distribuição, a sustentabilidade ou não dos regimes democráticos face à inquietante evolução do populismo e do desvario popular, a absurda reacção de Trump face à sua derrota, a terrível mortandade entre os mais velhos, o declínio de vários sectores da economia, alguns deles de forma irreversível. Também haverá coisas boas a reportar, caminhos que começaram a desenhar-se. Mas, neste momento, qualquer futurologia parecerá deslocada. Acontecem agora coisas tão surreais que a normalidade começa a parecer uma ficção. A invasão do Capitólio por toda a espécie de grunhos que apoiam Trump vai para além de qualquer possível previsão. Os modelos matemáticos que se usam para fazer previsões assentam no estudo de padrões. Ora num mundo caótico em que os principais dirigentes são destituídos de princípios é impossível antever o que pode vir a acontecer. A aleatoriedade é total, fruto da medicação que tomam ou da ausência de medicação em situações em que ela era imprescindível.

E se, a nível pessoal, 2020 foi para mim um ano emocionalmente intenso, com sustos, medos, uma perda, mas também contacto profundo com a natureza, ainda maior estreitamento de relações com os mais próximos, a verdade é que foi também um ano de várias mudanças, todas profundas. Não sei o que o 2021 me reserva. Se consultar os astros vejo desafios, conquistas, poder. Coisas assim. A habitual falta de sossego. E tudo efémero.

Mas não interessa o que se pensa que pode ser, o que interessa é o que vamos fazer para que seja como gostaríamos que fosse. E o que passou já passou e nem vale a pena chorar sobre leite derramado, o que vale a pena é perceber que o que aconteceu aconteceu porque estávamos na rota para que tivesse acontecido e que, se não mudarmos de rota, os erros voltarão a acontecer.

Hoje não consigo dizer muito mais: continuo com dores, continuo com frio, continuo com sono. Continuo a trabalhar como se estivesse bem mas não me sinto bem. The show must go on. Não sou insubstituível mas as reuniões que tenho que ter neste arranque de ano estão no caminho crítico para que as coisas tenham maior probabilidade de correrem bem. 

Antes de ir descansar partilho dois vídeos com factos de que não iremos esquecer-nos. Para memória futura.



Dias felizes.

sábado, julho 11, 2020

As viagens de antes. Os segredos dos outros. A noite abençoada.


Estive a trabalhar presencialmente. Já tinha passado antes pelo escritório mas sempre de raspão, para ir buscar ou fazer qualquer coisa pontual. Mas esta sexta-feira foi mesmo um regresso ao passado, ao trabalho na minha secretária, no meu gabinete.

Não me apetece falar disso pois foi uma experiência que me perturbou e que me deixou atolada em mixed feelings. Tempos complexos. Um destes dias logo falo disso, quando tiver as ideias mais estabilizadas.

Há temas que devem ser pensados de forma aberta e transversal pois o mundo está a mudar. Pode a Terra não estar a ficar cúbica, pode o movimento de rotação não ter desatado a fazer-se aos tropeços e arrecuas, pode a blogger sentenciosa e descrente que por aí anda a desfiar azedumes e arremedos não estar a virar uma simpatia, pode o comentador atravessado e maldisposto que por aí paira não estar a tornar-se um fofo, pode o João Miguel Tavares não estar a ficar inteligente ou o super-judge Alex não estar a deixar de ser invejoso... mas que muita outra coisa está a acontecer, a mudar, lá isso está. Queiram ou não os céticos, os eternamente ressabiados, queiram ou não as madamas que andam o dia todo com um tremoço entalado no rabo ou os cavalheiros demasiado intelectuais que andam o dia todo com uma vírgula cabeluda presa entre os dentes, a verdade é que, não obstante, muita coisa vai mudar.

E mudará mais do que agora se antevê -- e isto vos diz esta aqui que, apesar de míope, gosta de fechar os olhos e imaginar o que veria ao longe se, no mínimo, usasse óculos. Dizem os entendidos que a fractura vai ser funda: uma recessão braba, um desemprego de fazer ganir de medo as pedras da calçada. A menos que os milhões chovam do céu, que o investimento público permita aguentar o embate. Tudo o que se faça será pouco. Mas será ainda mais poucochinho se for despejado em cima do mundo velho e não como ajuda a alicerçar um mundo novo.

Temos que nos unir e querer o melhor para todos -- essa é que é essa.

Não é tempo de linguarudas, de imberbes, de maledicentes, de totós, de comentadeiras e prostitutas, de avençados e cornudos, de rabejadores, de troca-tintas, de académicos frustrados, de ladies atrás de likes: é tempo, isso sim, de gente de bem, de homens feitos (homens e mulheres, bem entendido), de gente de trabalho, de gente com cabeça, de gente com os pés na terra, de gente com coração e que saiba manter as mãos estendidas para ajudar quem de ajuda precisa.

Essencial é conseguir-se enfrentar a fractura que está a acontecer sob os nossos pés sem sermos sugados por ela. E, a seguir, avançar na direcção de um mundo melhor. E, se haverá muita carneirada a ir atrás da má língua ou do saudosismo, então que haja bons líderes para os levar por bons caminhos. 

Mas, enfim, estamos a virar a página da sexta-feira, já estamos a entrar no sábado, e eu estou com vontade de me ir entregar aos prazeres do rival do blog. Por isso, calo-me já e partilho convosco um vídeo do The Economist em que se fala de uma das mudanças mais profundas e fracturantes, com consequências extensas nos tempos que aí vêm. Viajar. Ir de um lado para o outro. Conhecer o outro lado do mundo. Ir tomar banho a uma praia a milhas de casa. Ir ter uma reunião de duas horas a outro país e, com isso, perder o dia todo e gastar milhares de euros (já para não falar na pegada de carbono). Coisas assim.
Conheço uma pessoa que ia jantar a Paris quando fazia anos. Outra que ia aos saldos a Londres. Eu própria ia comprar lingerie a Madrid. Não sei se eram luxos ou hábitos de quem se podia dar ao luxo de tê-los. E todos, uns mais que outros, poderíamos tê-los. É que, por exemplo, conheço um outro que, não tendo um ordenado por aí além, tinha o filho no colégio mais caro de Lisboa, punha-o num explicador que lhe custava os olhos da cara, comprava os óculos na melhor fábrica de lentes, perseguia o que achava que era 'o melhor' e que, depois, com ar revoltado, se queixava que, para ir passar duas semanas a Istambul, tinha que recorrer ao crédito e, portanto, perseguia o chefe com a 'necessidade' de ser aumentado. 
Outros tempos.


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Ao fim do dia tive uma reunião, mas uma daquelas remotas, uma team meeting já a partir de casa.

Por razões que por vezes não se explicam, às tantas, um disse-me que queria contar-me uma coisa e que eu não o interpretasse mal. E depois outro avançou pelo mesmo registo. Cada um em sua casa, mantivemos uma daquelas conversas francas de que antes se pensava serem apenas possíveis se olhos nos olhos, cara a cara, em pessoa. E, no entanto, apesar dos quilómetros que nos separavam, estivemos a conversar olhos nos olhos, cara a cara.
Sou muito franca, não fujo a questões directas ou difíceis. Nem tenho qualquer problema em expor abertamente as minhas dúvidas ou dificuldades. Penso que o facto de ser assim deixa as pessoas à vontade. A conversa flui com naturalidade, num registo de empatia e confiança. 
Saí da conversa com aquela sensação de que todas as pessoas, se motivadas, querem fazer coisas, querem dar mais do que normalmente são chamadas a dar. E senti aquela ponta de frustração que, volta e meia, sinto por não ter a margem de manobra suficiente para dar asas a todas as pessoas a quem sinto a vontade de voar.

E, porque estou muito habituada a ouvir segredos, gostei de ver o vídeo que o algoritmo do youtube me propôs (tenho que arranjar um nick name para o meu amigo algoritmo; quiçá gô-gô).

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Volto a informar: pode acontecer que fotografias nada tenham a ver com o texto e que, em cima disso, não pretendam nada a não ser aqui aparecer. Se distrairem os meninos que se distraem com facilidade não tenho nada a ver com isso pelo que agradeço que não venham chatear-me com isso. A primeira e terceira são da autoria de Ellen von Unwerth. A segunda é de © o_nozdracheva

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Quero ainda dizer outra coisa. Como muito bem sabe quem por aqui me acompanha, gosto da noite. É de noite que sou mais eu, que estou mais acordada, os sentidos mais disponíveis, as emoções mais intensas, maior a vontade de mergulhar no negrume e na frescura sublime que se eleva da terra para abençoar os corpos despertos. E tenho muita pena que seja tão curta e que o dia se faça anunciar tão cedo. Como tenho que tentar aparentar alguma normalidade e viver em sincronia com os que vivem de dia, falta-me o tempo para usufruir em tranquilidade a beleza da noite. Por isso, deixem que partilhe convosco, em especial com os noctívagos que por aí estejam: Laissez durer la nuit

Laissez durer la nuit, impatiente Aurore.
Elle m’aide à cacher mes secrètes douleurs, 
Et je n’ai pas encore assez versé de pleurs; 

Pour ma douleur, hélas! est-il des nuits trop sombres?
Depuis que mon Berger quitta ce beau séjour, 
Ah! je ne puis souffrir le vif éclat du jour;

Laissez-moi donc pleurer à la faveur des ombres
Autant que voudra mon amour.


E a todos desejo um bom sábado.