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quarta-feira, setembro 22, 2021

Autárquicas 2021 -- é impressão minha ou é tudo mais do mesmo?

 



Há vários dias que praticamente não vejo televisão. Cansa-me a televisão. Quando não estou nas minhas lides profissionais ou nas minhas coisas de casa ou de família, e antes de vir aqui cumprir o vício do dia, vejo Homeland (a extraordinária série que em português dá pelo nome de Segurança Nacional). De cada vez que abro a netflix aparece-me anúncio de outras séries e várias delas me parecem tentadoras. Como o tempo escasseia, cinjo-me à Carrie e ao Quinn e ao Saul e ao Brodie e a todos aqueles fantásticos personagens que me trazem presa à intriga internacional e ao jogo mais do que duplo e tantas vezes sujo da espionagem e da contra-espionagem. 

E, se aqui à noite espreito as notícias nos onlines, nada me convoca. Cá pelo burgo tudo gira em torno das autárquicas. Em termos de notícia, é tudo coisa de interesse nulo. Identicamente, de cada vez que vejo um cartaz ou um folheto, tendo a achar que é quase tudo de uma tremenda falta de imaginação. 

No outro dia, quando andávamos a caminhar, vimos dois homens a andar junto às vedações das moradias. Achei aquilo intrigante. Tinham bom ar, é um facto. Não era gente de que se suspeitasse que andasse a ver se dava para assaltar alguma casa. Nada disso. Reparei que tinham qualquer coisa na mão. Pensei que, quando nos cruzássemos, nos dissessem qualquer coisa ou dessem um papel. Isto se andassem a distribuir papéis. Poderiam ser Testemunhas de Jeová, que andam sempre aos pares. Mas os das Testemunhas têm um ar menos urbano e andam todos mais arranjadinhos. Estes tinham um ar desempoeirado. Bom ar, já o disse. O meu marido disse que deviam ser de alguma imobiliária. Cruzámo-nos com eles sem lhes darmos atenção e eles também não nos deram. Nem atenção nem qualquer papel.

Mais à frente, noutra rua, junto a uma outra moradia, vimos uma mulher muito vistosa, ampla melena platinada. Foi deixar um papel na caixa de correio. O meu marido disse: ''Vês? Não te disse? Acho que esta é da remax'. Não fiquei convencida que os outros também andassem ao mesmo.

Hoje fui ver a caixa de correio e, para além das cartas, tinha vários papéis. Remexi os papéis para ver o que ali havia. De agências imobiliárias, de empresas de obras e reparações e, vários, de partidos. E, de repente, ao ver as fotografias de um dos papéis, juraria que eram os dois que tínhamos visto. Pelos vistos andam por aí, pelas casas, a distribuir folhetos. 

Dei-me ao trabalho de ler alguns: uma ou outra ideia vagamente interessante mas, em geral, mais do mesmo. 

(As ideias que eu teria para o meu município... Caraças, as ideias que eu teria.)

Esta gente é muito virada para o passado: 'o que nós fizemos', a 'obra feita'. Ou, se é para a frente, nada mais é do que replicar a dita 'obra feita'. Mais do mesmo. Não há um golpe de asa, não há uma disrupção para partir para outra. Não há uma verdadeira visão de cidadania, de conhecimento, de partilha, de modernidade. Ora, sem modernidade não há futuro que valha a pena.

Não vejo escolas abertas para gente de todas as idades, espaços de arte e de investigação, bibliotecas e museus abertos e livres, creches e residências seniores abertas, voluntariado a sério, mobilização dos cidadãos para o arranjo e limpeza das casas e das ruas e dos jardins, a natureza dentro dos espaços urbanos -- mas com uma visão moderna, a começar na arquitectura de todos os espaços (que é determinante para abrir mentalidades). Não vejo propostas arrojadas, daquelas que nos deixam de boca aberta, daquelas que nos fazem ficar a pensar. Não vejo.

A cidadania constrói-se caminhando nos caminhos da democracia. Mas constrói-se sem peias, sem ditames, sem preconceitos, sem amarras a feudos ou preceitos partidários, sem a disciplina das casas burocráticas em que nas concelhias ou nas distritais se cozinham os tachos, os favores, os amiguismos.

Estive a pesquisar na net alguns programas partidários de autarquias que não a capital: tretas. Só de olhar para as caras de parte das listas, logo se vê que é gente arregimentada nos partidos não por terem uma visão de futuro para as autarquias mas por serem disciplinados e acéfalos. Não vamos longe assim.

Não vou referir nem autarquias nem listas (até porque numa delas concorre um meu sobrinho) mas direi que, salvo uma ou outra honrosa excepção, é tudo o nosso portugalzinho a marcar passo. 

Não nego que o país está mil vezes melhor agora do que estava há vinte anos. Mas o que digo é que, salvo algumas modificações verdadeiramente diferenciadoras (do que conheço, grande parte delas em Lisboa e grande parte relacionadas com urbanismo -- honra seja feita a Manuel Salgado), o resto é um mero melhorzinho na continuidade.

O país pode e deve dar um salto qualitativo: temos uma geografia e um clima extraordinários, uma beleza natural ímpar, temos mão de obra bastante qualificada. Temos tudo para atrair imigrantes que nos façam abrir os olhos à diferença e à inclusão, temos tudo para lançar programas de apoio à natalidade, temos tudo para atrair e fixar jovens, temos tudo para nos tornarmos um lugar de futuro -- em vez de continuarmos a ser um país envelhecido, em que quase não nascem crianças, em que grande parte do país ainda parece que vive no século passado, em que ainda há demasiados guetos de pobreza e marginalidade. 

Hoje soube de um jovem que acho muito promissor e cuja selecção passou por mim há cerca de um ano: tenciona ir-se embora daqui por uns meses. Terá dito que já pouca coisa o prende cá. Senti uma enorme tristeza. Disse para o desafiarem a ficar connosco, em teletrabalho a partir do outro país para onde quer ir para se juntar à namorada. Não me interessa onde é que ele viva nem a partir de onde trabalha. Gostava era que continuássemos a contar com ele. Olharam-me com estupefacção mas depois deram-me razão. O mundo mudou. E as nossas mentes também têm que mudar. O mundo pode e deve organizar-se de outra maneira. E as cidades, as vilas e as aldeias têm que saber acolher estas novas formas de viver.

Acho eu de que.


Inté. Vou pregar para outra freguesia.

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As fotografias aqui usadas são do 2021 WildArt Photographer Of The Year

Sheku Kanneh-Mason acompanha-nos em Nimrod de Elgar

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Mas, antes de me ir, que entre Sergei Polunin com The Road To Eternity

Voa, Sergei, voa


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Desejo-vos uma feliz quarta-feira
Saúde. Alegria. Motivação.

quinta-feira, abril 22, 2021

Cinza e blue

 


Detesto estes dias assim. Se for chuvada a sério, coisa boa de assistir, eu gosto. Agora dia arrastado, cinzento, escuro, pingão, com chuva mansa e entediada, escuro dentro de casa, frio na rua, isso não gosto.

A meio da tarde, fui sair, para o jardim, para apanhar ar, de chinelinhos de trazer por casa. Fui com cuidado mas tão ensopada estava a relva que molhei os pés. Abriguei-me, depois, junto à porta. Mas não vi rolas nem ouvi canto de pássaros. Só ausência, silêncio, quase vazio. De regresso a casa tive que acender a luz como se estivesse nos dias pequenos de chuva e frio. Aborrecem-me os retrocessos e este dia foi assim, de retrocesso.

E várias maçadas, várias. Valeu uma coisa: a comida grega que trouxemos: tiropita, skanocopita, gyros. 

À hora de almoço, metemo-nos no carro e fomos mudar a morada em dois bancos. Num deles a coisa foi tão inacreditavelmente demorada, a senhora que nos atendeu tão intoleravelmente funcionária, tudo tão burocrático, demorado e acéfalo, connosco, por várias vezes, em ponto de rebuçado, a contestar o que ela nos pedia, prestes a interromper e desandar dali, que saímos de lá tarde e más horas e a bufar que nem uns massacrados. No outro banco nem conseguimos entrar, só com marcação. Novos tempos. Sentimo-nos destratados, abaixo de cão. Pomos lá o dinheiro e nem entrar nos deixam. De lá, da porta, tentei ligar a ver se nos poderiam receber. Está bem, está. Ninguém atendeu o telefone. Liguei, liguei, liguei. Nada.

Tarde, com fome, com coisas para fazer, metemo-nos no carro para regressar a casa. Mas tínhamos passado por um grego. Lembrámo-nos de quando íamos almoçar ou jantar na esplanada junto à praia. Eu quis. Ele não, já era tarde, tínhamos que ir para casa. Mas, de súbito, deve ter-lhe dado o apetite que a lembrança às vezes acorda. Deu meia volta. Fomos encomendar e, em dez minutos, tínhamos a encomenda embalada.

Mas, no caminho, pensámos melhor: já eram quase três da tarde, seria mal empregado despachar o petisco a correr. Por isso, ficámo-nos por uma sopa, uma sandes e uma fruta. Foi ao jantar que, comidinha aquecida no microondas, nos deliciámos com os petiscos gregos. Ainda por cima, por simpatia, o dono do restaurante ofereceu uma sobremesa. Tudo bem bom.

Quando estava a encomendar e à espera fez-me impressão estar ao pé de pessoas que estavam sem máscara. Estavam a almoçar, a conversar. Eu estava de máscara mas já se sabe que a máscara protege sobretudo os outros, não os próprios. Mas, enfim, teremos que nos habituar a ter que conviver com a ideia de estarmos perto de pessoas que estão sem máscara. Razão para preocupação terão os empregados dos restaurantes que estão horas em espaços habitados por gente sem máscara. Nas esplanadas ainda vá que não vá, agora em espaços fechados é mais problemático. Mas, enfim, melhor nem pensar nisso.

Tirando estes pequeno nadas, só a chatice de ter que recolher, uma vez mais e o mais possível, as taças com as suculentas. Não consigo protegê-las completamente pelo que, com tanta chuva, a ver se não ficam em risco. São plantas que não querem água e passam a vida a apanhar chuva. O meu marido troça, diz que o meu next step vai ser arranjar chapelinhos para as gordinhas. Não ligo a provocações. 

E o que sei dizer é que -- talvez por não ter férias há tempo demais, talvez por trabalhar demais e frequentemente debaixo de pressão, talvez porque andar enfiada no trânsito ou em torres herméticas não é bom mas estar tempo demais em casa também não -- ando um bocado cansada, um bocado impaciente, um bocado com vontade de não sei bem de quê.

Frequentemente, quando pego nisto, geralmente depois de ver o House, penso que não tenho nada a dizer, que melhor faria ir dormir. Mas depois lá cedo ao vício de deixar os dedos dar uma esticada. Só que, sinceramente, não sei se vou conseguir aguentar este cadência diária por muito mais tempo. E sei que, se interromper, será para sempre porque não sou de fazer coisas por metade. 

Acho que isto, este cansaço misturado com um certo desalento, me passava com umas boas férias, só que nem tão cedo as poderei ter. Uma chatice. A ver se esta quinta o dia está mais animado porque os dias cinzentos deixam-me blue.

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Pinturas de Marguerite Gérard ao som de Salut d'Amour, E. Elgar por Anastasiya Petryshak

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Um dia feliz para si que está aí desse lado

quinta-feira, agosto 06, 2020

Devagar, o futuro começa a desenhar-se




Ontem foi um dia importante na minha vida. Concretizei um desejo antigo, tão antigo que já tinha afastado da mente. Acho que uma maneira de uma pessoa não se sentir frustrada é deixar para lá aquilo que está para além das nossas possibilidades, para além daquilo que está sob o nosso alcance e controlo. Lutar por aquilo que se quer, sim, mas medindo o poder de fogo de todos os lados. Se a gente quer coisa que não é para o nosso bico, passo maior que a perna ou coisa do género, então, mais vale pôr os pés na terra e deixar que o tempo faça o seu caminho e nós o nosso. É que, quando o desejo é forte, a sua raiz fica submersa, viva, e, quando surge a oportunidade, eis que logo o sonho floresce. A vida tem-me ensinado isto: não se deve forçar nada. Quando a coisa não flui, não vale a pena insistir. Ou melhor, não vale a pena fazer de conta que não se percebe que não vai dar. Padecer ou fazer de conta não. As coisas, quando não têm que acontecer, não acontecem. E, quando é para a acontecer, acontecem. Parece La Palice? Pois, se calhar é. Claro que esperar, saber esperar, saber esperar que a oportunidade se cruze com a nossa disponibilidade para aproveitar a oportunidade, não é fácil. A gente gosta de se impacientar, de se armar em injustiçados ou frustrados, a gente gosta de cair no chorinho disfarçado de raiva. Ficar na nossa, à espera que apareça o bocado que nasceu para ser comido por nós, é coisa que ou é genética e se consegue na calminha ou tem que ser trabalhada.

Mas, portanto, foi dia bom. Um consolo, um sentimento de sonho feito realidade. Mais: a sensação de que o caminho está no início. Uma nova vida está a começar e tão, tão diferente do que foi até aqui.

Penso: há muitos anos, durante muitos anos, o quis. Não era possível. Não era ainda a altura. Se o tivesse forçado, não estaria aqui onde estou hoje. E, olhando para o dia de hoje e o que poderia ter sido, penso que ainda bem que, na altura, não aconteceu.

E, se na terça-feira foi dia bom, esta quarta-feira não lhe ficou atrás. Não. Ultrapassou. A alegria e o prazer partilhados. Todos contentes com esta opção. Um dos meninos dizia, espantado com o que estava a conhecer: eu não admito...! eu não admito...! Mas penso que era confusão vocabular, confusão causada pela alegria, devia querer dizer que não acreditava.

Contudo, dado o muito trabalho, afazeres e obrigações, não me são fáceis estes dias. Chego à noite e sobram-me deveres por cumprir e, portanto, em vez de estar a descansar, estou a trabalhar. Ao longo do dia, vendo os mails a chegar ou os telefonemas por fazer a acumularem-se, algum stress se vai apoderando de mim. Mas vou gerindo pois, apesar de um pouco de stress ser saudável [J. dixit], tento manter-me serena, penso que, à noite, recuperarei os pendentes.

Um destes dias, talvez desvende aquilo de que falo. Mas não agora. Agora ainda me sinto debaixo da crista da onda, em risco de, em vez de cavalgar o canhão, ser esmagada por ele. Mas não é nada de especial. Só é especial para mim. Apenas mais uma parcela da minha vida em mutação.

Mas, apesar de tudo, apesar de ainda estar longe do tempo em que conseguirei desfrutar em plena liberdade e tranquilidade o que é esta minha nova opção de vida, a verdade é que, ainda assim, já é bom.

Também soube que a minha mãe foi ao médico e lhe calhou a que, em tempos, foi a minha melhor amiga. Ela perguntou por mim e a minha mãe esteve a contar-lhe. E esteve a falar dela própria e eu, sabendo o que a minha mãe me contou, fiquei muito contente com as novidades. Ríamo-nos tanto. Tanto, tanto. Eu chorava a rir e ela, embora menos exuberantemente, também. Depois arranjou um namorado muito fora do mainstream e afastou-se um pouco. Seriam as últimas pessoas que eu imaginaria juntas. Mas, na realidade, embora por motivos talvez diferentes, ambos eram incomuns. E essa invulgaridade uniu-os. Depois, iniciaram o seu caminho e eu fui pelo meu. Mas lembro-me muito dela. Ainda no fim de semana passado tinha perguntado por ela à minha mãe. No fundo, gostava de perceber se ainda nos daria para desatarmos na galhofa, ambas a rir como umas perdidas, eu a chorar a rir, o rosto todo molhado de lágrimas que rebentam com a explosão de alegria, ela a tentar conter-se mas também a rebentar a rir só de ver o meu estado hilariante.

Penso que, um dia destes, hei-de voltar a estar com toda essa gente boa que, de certa forma, faz parte das minhas memórias e, logo, de mim, e a quem a vida introduziu distância e alheamento de permeio. Ela e a outra que se desviou creio que fatalmente. Dessa também gostava de saber. Nunca percebi que coisa aconteceu naquela cabeça para ter virado uma pessoa tão tresloucada, tão desligada daquilo a que antes dava valor. Tão crazy. Nunca consegui perceber, ela nunca deixou que ninguém percebesse. Era uma menina bem comportada e, do nada, virou uma doida que não acautelava nada. As situações em que se meteu não lembram ao diabo. Uma menina família, ajuizada, de repente a fazer toda a espécie de maluquices. Que será feito dela? No outro dia, a minha filha pesquisou pessoas minhas conhecidas no facebook. Não a encontrou. Terá mudado de nome? Usará um nome que nada tem a ver com o nome de solteira? Que eu saiba, apesar de uma vida amorosa fértil, não chegou a casar-se. Portanto, deveria ter o mesmo nome. Fiquei intrigada. A minha mãe também nunca mais soube dela. Como seria se nos encontrássemos? Seríamos duas estranhas? As últimas vezes foram tensas. Critiquei-a e ela não gostou. Nem foi tanto criticar, foi perguntar, foi não conseguir explicar e pedir-lhe que me explicasse. E ela, tomada por uma urgência caótica, sem querer fazê-lo, creio que sem conseguir fazê-lo. Dir-se-ia que talvez drogada. Mas não. A droga dele era outra, creio que era o medo de ficar sem ninguém, a urgência em ficar com qualquer um não fosse ficarem todos 'tomados' e não sobrar nenhum para ela. Uma coisa difícil de compreender. Era linda. Mas as mulheres muito bonitas têm frequentemente esta insegurança.


Mas estou capaz é de ir já deitar-me a ver se consigo dormir. Cansada como ando, volta e meia nem capazmente consigo dormir. Se calhar, vou pôr um daqueles valdispert debaixo da língua. Preciso de descansar senão, de noite, começo a elencar o que tenho que fazer, aquilo de que não posso esquecer-me, e, de dia, nem rendo o que tenho que render. Bolas para isto. O calor também não ajuda. Tanto calor.

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O vídeo abaixo não tem nada de nada a ver com a conversa. Ou, se calhar, tem. Sei lá. 
Cavalos e flamingos -- e cada um que escolha o seu lado. Ou não escolha coisa nenhuma e fique-se apenas a observar.

O Salut d'amour, Op. 12, de Elgar também aqui apareceu nem sei porquê. 

Muito menos a Menez. A não ser que seja por gostar da sua obra.

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E, bora lá, para a frente é que é caminho.

E uma bela quinta-feira

sábado, dezembro 27, 2014

José Maria Ricciardi desmente e ataca Marcelo Rebelo de Sousa. Outra vez, e agora já envolvendo Rita Amaral Cabral, a companheira de Marcelo e ex-administradora do BES. O professor é tão esperto, tão esperto, e ainda não aprendeu que uma pessoa não se deve meter com um destravado como o primo 'Zé Maria'? --- E mais outra: António Arnault ofereceu livro a Sócrates mas, vá lá saber-se porquê, o livro não passou no crivo dos serviços de segurança da prisão de Évora e foi devolvido ao remetente. --- E para haver uma notícia boa: grande livro que me está a parecer que é o Stoner de John Williams.


No post abaixo já contei uma piada sobre louras
(que isto eles gostam é das louras mas, depois, para disfarçar, fingem que as acham burrinhas. Tá bem, abelha. 
Se bem que há louras que só dão mau nome à classe como aquela que agora tem andado tão caladinha.)

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Mas, se não se importam, vamos com música.


Yo-Yo Ma no violoncelo
com a Orquestra Sinfónica de Chicago conduzida por Daniel Barenboim
interpreta o Concerto para Violoncelo de Elgar



Hoje, depois de arrumações e de andar horas a mondar as carpetes e a garimpar o sub-solo debaixo de sofás e recantos insuspeitos, descobri vários sinais de trânsito e um pequeno polícia que andavam perdidos, descobri uma caneta de que a minha filha já me disse que levou a tampa e voltei a irmanar peças de lego, de puzzles e outras que andavam tresmalhadas. E revolvi pacotes e sacos a ver se não continham talões de troca ou restos de presentes para, em segurança, os ir colocar para reciclar. E pesquei almofadas transumantes para as devolver ao local onde harmoniosamente devem estar em repouso.

A seguir, devidamente possuída pelo espírito da dona de casa arrumadeira, ainda olhei várias vezes para a minha mesa, coitada, tão em risco de sucumbir, tão vergada ao peso do conhecimento - mas não me aventurei a encetar um processo arrumativo. 

Sempre que enveredo por uma coisa dessas, há uma altura em que a coisa ameaça correr mal. Faço montes no chão por temas, depois por autores, e, às tantas, está o chão pejado e o meu marido todo irritado que quase não há sítio para pôr um pé, depois há que reorganizar as estantes para onde os quero destinar e começo a tirar livros que disponho também em montes e, enfim, tudo se complica. 

Portanto, não deu, desisti dos meus putativos bons propósitos. Qualquer dia tenho que escrever no chão, enxotada por estes meus livros que tudo invadem sem dó nem compaixão e, nesse altura, o meu marido vingativo dir-me-á que é bem feita, que há séculos que me anda a avisar e que isto, aquilo e o outro. Paciência.

Resumindo, em vez de me atirar a essa guerra, resolvi, antes, pegar num livro que andava aqui a namorar: Stoner de John Williams. Reclinei-me no meu sofá, acendi a luzinha de leitura, porque gosto de ler assim, quase às escuras e com uma luz dirigida, e entre almofadas e com uma fofa mantinha cobrindo-me as pernas, iniciei a sua leitura. Ainda vou na página 53 mas, desde que lhe peguei até que agora interrompi, com um pequeno intervalo para um jantar rápido e para fazer o post das louras já acima referido, foi de seguida, tipo shot. E estou desejando ter tempo amanhã para o retomar, nem sei se não terei que acelerar o Expresso para me atirar ao William, William Stoner.


Que livro tão bem escrito, que belíssima caracterização de personagens, que forma fluida e despojada de nos levar pela mão, sem rodriguinhos, sem tiradas arrebatadas ou pseudo-existencialistas, tudo ali na maior limpeza. Que bom escritor aquele John Williams (1922-1994) de quem eu nunca tinha ouvido falar.

Li apenas um quinto do livro mas não hesito quanto a recomendá-lo. Caso tenham recebido de presente algum livro que já tenham, troquem-no pelo Stoner. Ou se tiverem recebido algum livro do Valter Hugo Mãe ou do José Rodrigues dos Santos, mesmo que ainda não os tenham, troquem-nos também, vão por mim. 

Bem. Mas com isto tudo tenho andado arredada das mundanidades. Aliás, das poucas vezes em que calhou conseguir ouvir o início das notícias, logo desisti de prosseguir. É um disparate: começam os noticiários com o número de pessoas que morreram em acidentes. Como se não houvesse nada mais relevante do que isso! Uma contabilidade sinistra que parece fazer as delícias de quem decide o alinhamento noticioso. Ou então meio mundo à volta das anormalidades daquele sujeito estranho que está à frente do Sporting, um tal Bruno de Carvalho, que ainda não percebi se anda sempre com uma laringite ou se é copofónico. Primeiro estava em blackout e agora parece que há um romance qualquer com o treinador, Marco qualquer coisa. Desisto, claro. Quero lá saber de coisas assim. Será que não acontece nada de verdadeiramente relevante no país ou no mundo?

Portanto, agora, querendo perceber a quantas anda o mundo para não vir para aqui fazer figurinhas de alienada, dei um rápido bordejo pelos jornais online e fui dar com uma notícia que me deixou capaz de ir atirar tomates à imaculada parede de entrada da prisão de Évora. Em que raio de país é que eu vivo, senhores?

Transcrevo, não sequencialmente, excertos da obscenidade em causa tal como a li descrita no Observador:

O Estabelecimento Prisional de Évora devolveu ao antigo ministro e ex-dirigente do PS António Arnaut o livro “Cavalos de vento” que ele tinha enviado a José Sócrates. A 10 de dezembro, António Arnaut enviou a Sócrates, por correio, um livro de sua autoria e esta sexta-feira foi “surpreendido” ao receber a encomenda de volta, com a indicação de que tinha sido “recusada pelo Estabelecimento Prisional de Évora”.


Lançado no início de novembro, o livro ‘Cavalos de vento’, que inclui textos de intervenção cívica, contos, ensaio e poesia, pretende assinalar os 60 anos da estreia literária do autor e os 35 anos do SNS.

A atitude da cadeia de Évora “é uma indignidade em democracia”, considerou o histórico socialista, salientando que nem no tempo da polícia política do Estado Novo (PIDE) lhe aconteceu “uma coisa assim, visto que enviava livros” a um seu “condiscípulo moçambicano detido em Caxias”.


Uma indignidade, de facto. Sócrates é alvo de notícias diárias, o segredo de justiça é violado todos os dias com vista a que haja pasto para alimentar a comunicação social, e ele ali tem que estar, em silêncio, sem poder responder, impossibilitado de poder exercer o contraditório, aprisionado, longe da família, a reputação arrasada. E agora isto! Que se chegue ao absurdo de nem lhe entregarem os livros que lhe enviam já me parece uma coisa troglodita, uma violência inadmissível. E que isto não provoque uma onda de indignação geral é o que me admira. 

Poderão dizer-me que poucas-vergonhas destas acontecem a torto e a direito, que é do mais normal que há que se prenda uma pessoa antes de ser julgada como se de assassino se trate, e que se impeça a pessoa de dar entrevistas e, até, de receber os livros que lhe enviam - e que só estou a protestar porque se trata de Sócrates. Aceito. Mas a verdade é que as suspeitas e as intrigas em torno dos outros presos preventivos não andam nas capas dos jornais e, portanto, é coisa que passa despercebida. Mas soubesse eu que você, Caro Leitor ou Leitora, estava sob suspeita de fugir ao fisco ou de ter recebido dinheiro não declarado e que, por isso, ia preso enquanto investigavam para ver se há razão para o julgarem e que, estando preso, via a sua vida devassada nos jornais, mentiras propagadas, e que não pudesse responder e que nem lhe entregassem os livros que os amigos lhe enviavam, a ver se eu não vinha também para aqui armar escarcéu. Claro que vinha! Isto é lá coisa que uma pessoa decente possa aceitar?


Já que falei no Sporting, uma foto do primo Ricciardi
na sua vertente de leão

E, de seguida, dei com outra. Ricciardi deu novo troco ao Marcelo e, uma vez mais, não foi meigo. Quando, no domingo passado, ouvi o Marcelo a responder ao primo Zé Maria armando-se em superior e a dar-lhe lições, pensei cá para mim: Ai levas, levas, que o primo não é de levar desaforo para casa e ainda te vais arrepender de andares, aqui na televisão, a provocá-lo. 

Disse o Prof. Marcelo que conhece bem o outro e que, portanto, não esperava estas reacções. Pois é. Marcelo já por mais do que uma vez mostrou que não é aquela inteligência que se pensa. Então se conhece bem o outro ainda não tinha percebido que mais valia não o cutucar com vara curta e logo aos ecrãs da televisão?


Transcrevo do Expresso (com destaques meus), excertos da looooonngaa carta que o advogado de José Maria Ricciardi enviou, prosseguindo o louvável e higiénico hábito de lavar roupa suja:


20.  É caso para dizer que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa só assimilou em 21 de Dezembro de 2014, tendo embora conhecimento directo da forma como a gestão era executada no Grupo Espírito Santo, aquilo que toda a gente, sem excepção, tinha apreendido pelo menos seis meses antes. 
21.  Esta situação é tanto mais inexplicável quanto é certo que a companheira do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, Dr.ª Rita Amaral Cabral, era administradora do Banco Espírito Santo e ainda integrava a Comissão de Partes Relacionadas, criada internamente pelo Banco de Portugal, para assegurar o "ring-fencing" entre o banco e as restantes empresas do grupo, cujo desempenho se encontra sob investigação.  
22.  Para além de administradora do Banco Espírito Santo, a referida companheira, ilustre advogada, prestava serviços jurídicos ao grupo, tendo até ditado para a acta na última sessão do Conselho de Administração ainda presidida pelo Dr. Ricardo Salgado, um rasgado elogio ao seu desempenho e deixado um registo da sua gratidão em ter servido tão ilustre personalidade. 
23.  Não admira que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tenha apoiado com entusiamo e defendido no seu comentário, em Junho de 2014, a solução preconizada pelo Dr. Ricardo Salgado de integrar o Conselho Estratégico do BES e de designar como CEO o Dr. Moraes Pires, interveniente directo em graves operações financeiras que estão a ser objecto de investigação. 
24.  E não admira que também em comentário produzido no seu programa, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa haja declarado expressamente, na esteira do afastamento compulsivo do Dr. Ricardo Salgado, que nenhum membro da família Espírito Santo haveria de sobreviver ao colapso do grupo. 
25.  Fica assim por compreender, em função do relacionamento histórico e das múltiplas fontes de que dispunha, a reviravolta operada no espírito do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa no domingo passado, sobre as responsabilidades do Dr. Ricardo Salgado, que não encontra explicação plausível, a não ser a resultante de mais uma habilidade destinada a demonstrar a sua súbita equidistância em relação ao personagem. 
26.  Por último, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tem o desaforo de fazer recomendações públicas, com desajustado paternalismo, sobre qual devia ser o comportamento do Presidente de um banco, o que, não lhe tendo sido questionado, é pelo menos sinal de que se atribui a si próprio demasiada importância. 
27.  Ao meter a foice em seara alheia, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa põe-se a jeito para receber a advertência de que não lhe fica bem desvalorizar ou diminuir os atributos que são exigíveis a um comentador, com capacidade para influenciar a opinião pública. 
28.  A verdade é que os factos expostos não deixam dúvidas de que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não reúne as condições de imparcialidade, isenção e de objectividade que lhe permitam uma avaliação séria e ponderada das responsabilidades de quem está envolvido no colapso do Banco Espírito Santo. 
29.  A bem da credibilidade e do rigor, melhor fora que se abstivesse de comentar este tema, em que lhe sobra apenas a mágoa, como confessa, de não poder partilhar no Brasil a convivência com o seu grande amigo Dr. Ricardo Salgado.


A ver como reage agora o Marcelo. Melhor fará se ficar calado.

Pelo menos a ver se, para distrair as massas, não lhe dá para encenar mais um número como o da semana passada em que resolveu criar um facto para disfarçar o seu embaraço: pôs-se a chorar ao falar no Natal de Judite de Sousa, deixando-a, até, apalermada. Se aquilo era assunto para trazer para ali, à frente de toda a gente, mesmo um apelo primário à lamechice. Se queria recordá-la da perda do filho e da tristeza que ia ser o Natal dela, fazia-o em privado, não ali em público. Que o Marcelo é um artista já todos muito bem o sabemos. Mas, enfim, escusava de usar os sentimentos de uma mãe que perdeu um filho.
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Enfim, para acabar bem, deixem que partilhe convosco um pouco da leitura de Stoner.




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E, assim sendo, fico-me por aqui não sem antes vos desejar, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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