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segunda-feira, abril 07, 2025

No reino da beleza

 

Desde que frequento as agitadas paragens do Instagram deparo-me com milhares (quais milhares... certamente milhões, biliões, zetaliões) de coisas. Cada um mostra ali o melhor que sabe e pode, ou o que lhe apetece, ou sabe-se lá o quê. Mil obras de arte, mil arranjos florais, mil restauros de móveis, mil maneiras de parecer mais nova, mil maneiras de parecer bronzeada, mil maneiras de cortar o cabelo, mil exercícios e mil dietas para perder barriga, mil maneiras de fazer bolos sem ir ao forno, mil maneiras de fazer panquecas, mil livros, mil citações, mil gracinhas do cão, do gato, dos filhos, mil arco-íris, mil decorações de nails, mil, mil, mil de tudo e tudo elevado a um expoente que transforma os mil em muitos, muitos mil.

Apercebo-me, como se me pusessem uns óculos de realidade aumentada, excessivamente nítidos, quase insuportavelmente saturados, que há gostos para tudo, conceitos díspares a propósito de tudo, teorias para tudo. Não que não o intuísse, não que não o soubesse da minha vida real. Mas a amostra era curta: era apenas a realidade que eu conhecia. Agora a amostra é o mundo. Aparecem-me imagens e vídeos e palavras de todo o mundo.

E, no entanto, se, ao fim do dia, eu quiser dizer o que é que me ficou de tudo o que vi, vou ter a maior dificuldade. Talvez fiquem umas palavras límpidas ou uma pintura singela de alguém que já conhecia de outras paragens e que fui ali encontrar, talvez as imagens genuínas e as palavras espantosamente sinceras e simples da Gina, talvez uma forma engraçada de dobrar camisolas com capuz.

Mas aquilo é o mundo. Uma tremenda cacafonia em que parece que o que é mesmo relevante se esbate no meio de tanta exposição.

Fica-me, isso sim, a vontade de silêncio, de alguma reclusão, de regresso às origens, às flores, à terra molhada, ao canto dos pássaros, a vontade da amabilidade sincera, simples, autêntica, a saudade de palavras transparentes.

Debruço-me, então, e vou em busca de uma pedra, de um cogumelo, de um líquen, de uma gota de água a escorrer de uma folha, do reflexo de uma nuvem na água que fica sobre a terra.

E depois é isso. Só isso. O reino da beleza das coisas simples. E chega-me.



quarta-feira, novembro 06, 2024

Só não digo que os cogumelos in heaven são lindos de morrer, porque, enfim, andamos a apanhá-los à força toda para que não aconteça nenhum desastre.
Também há o tema da grande vitória do Sporting que é de gritos.
Depois há a expectativa do caraças sobre os resultados das eleições nos States.
Para me manter serena, vou antes ver a casa de Taís Araujo e Lázaro Ramos

 

Como tem sido hábito nestes últimos dias, o meu marido, depois de ter tomado o pequeno-almoço, foi para o campo com uma pequena pá e um balde apanhar cogumelos. Quando chegou, vinha a bufar, que estava farto da m.. dos cogumelos, que rebentam da noite para a manhã seguinte, que não se dá conta de tanto cogumelo.

Depois estava a chover e não pude ir andar por lá. 

Quando fui, para onde deitava o olho, via um cogumelo. Acho que nascem de hora para hora. 

Voltei para trás para buscar a pá e o balde e fui eu apanhá-los. O meu marido já me tinha dito: ao princípio, nos primeiros dias, apareceram os grandes cogumelos castanhos e os brancos, agora estão a aparecer cor-de-laranja e amarelos. Já ontem os mostrei. Pois, não imaginam. Hoje, quase só desses coloridos mas em tamanho pequeno. Uma gracinha de cogumelos. Parece que brotam a todo o instante.

Tirei uma fotografia a uns quantos já dentro do balde, a fotografia que está lá em cima. Não são tão lindinhos?

Na fotografia estão sujos pois quando enfio a pá, enterro um bocado para apanhar o pé e, portanto, depois trago também a terra, os musgos.

Tirando isso, posso dizer que o meu marido está contentíssimo com o resultado do Sporting. É obra.

Quanto às eleições nos Estados Unidos, espero mesmo que ganhe Kamala Harris e que ganhe por uma margem que não permita ao alarve-mor vir com as suas habituais e prometidas patranhas.

Neste compasso de espera, se me permitem, vou antes entreter-me a ver casas bonitas. E esta, aqui abaixo, é uma maravilha. Um apartamento amplo, luminoso, tranquilo, com móveis com um belo design.

Taís Araujo e Lázaro Ramos abrem o seu apartamento muito brasileiro 

| CASA VOGUE

[Por defeito, acho que vem dobrado em inglês. Para falar com a voz deles é escolher o português, no audiotrack nas definições]

E que os próximos dias nos tragam e confirmem boas notícias

Be happy

terça-feira, novembro 05, 2024

Terra maravilhosa
- E receita de arroz de feijão com picadinho e quiche de frango e espinafres --

 


Choveu que deus a deu. Mal deu para sair de casa. Ao fim do dia, então, foi torrencial. O maluco do cão andava sabe-se lá por onde. O meu marido chamou por ele e nada. Mas com o barulho da chuva, estando ele longe, dificilmente ouviria. Passado um bocado apareceu. Escorria. Um pinto.

De tarde, estávamos na sala, sentados no sofá que dá para a rua. O meu marido, então, exclamou: 'Olha ali, um esquilo.' Mas, com a chuva e sem saber exactamente onde, não vi. Passado um bocado o meu marido viu outra vez. Andava nos cedros. O meu marido acha que eram dois.

Pouco depois, vi um vulto a dar um grande salto na pedra grande aqui ao pé da porta. Levantei-me para tentar confirmar mas já não o vi. 

Por debaixo dos pinheiros há pinhas roídas como nunca vi. Tantas, tantas. Ou andam esfomeados ou são vários. 

Mas talvez ainda mais extraordinário são os novos cogumelos. 

Nascem todos os dias. O meu marido levanta-se cedo e vai apanhá-los. Com a Lens do Google temos visto que vários são venenosos e, por isso, não vá o cão algum dia sentir algum interesse, é melhor não os ter por aí. Claro que o meu marido já anda saturado pois apanha baldes e baldes deles. A curiosidade é que, embora ainda haja dos marrons e brancos, agora aparecem amarelos, cor de laranja, cor de coral. 

E são vibrantes, brilhantes, aparatosos. Lindos. Estes aqui acima bem como o último, lá mais abaixo, já tinham sido arrancados pelo meu marido. Fotografei-os antes de serem levados.

Como é que da terra brota tal quantidade e variedade de seres extraordinários? O que há no subsolo para estas maravilhosas criaturas lá serem geradas desta maneira, tão perfeitas, tão coloridas?





Ando à chuva, a ver tudo isto, a fotografar, encantada com os pequenos filamentos de musgo, as inocentes folhinhas verdes, os líquenes, os pauzinhos, tudo. 

Tirando isso, fiz um arroz de feijão com picadinho para o almoço.

Fiz assim. No outro dia tinha comprado igual quantidade de carne limpa de vaca e outro tanto de porco, tendo pedido no talho para picar 1 vez. Foi para fazer hambúrgueres recheados de queijo para os meninos. Mas era carne a mais e, por isso, não usei toda e congelei o que não usei.

Hoje, numa frigideira coloquei um pouco de azeite, uma cebola picada, uns 3 ou 4 dentes de alho, salsa picada, 1 folha de louro. Quando alourou um pouco, juntei um tomate aos bocados, uma mini, e a carne, entretanto descongelada. Temperei com um pouco de sal e um pouco, mesmo pouco, de açafrão-das-índias. 

Entretanto, para outro fim, tinha a cozer, 2 peitos de frango do campo.

Quando o frango estava cosido, deitei o caldo no tacho do arroz. No conjunto, a olho, calculei que o caldo que estava no tacho deveria ser o equivalente a 2 copos. Juntei, então, 1 copo de arroz. Já sabem que uso geralmente o basmati. Acho mais saboroso e mais fiável.

Quando o arroz estava quase, juntei 1 frasco inteiro de feijão encarnado cozido com caldo e tudo (mas quase não tem caldo). Este foi do Lidl. É bom. Misturei.

Quando o arroz estava cozinhado, desliguei. Coloquei um fio de azeite e deitei umas esguinchadelas de vinagre. E, com um garfo, misturei ao de leve. Ficou a apurar. Ficou bom (modéstia à parte).

Claro que sobrou mas é da maneira que esta terça-feira não preciso de cozinhar. Até porque, para o jantar, fiz quiche de frango e espinafres e sobrou bastante.

Esta fiz assim.

Liguei o forno no máximo. Tinha comprado uma embalagem de massa quebrada já estendida. Untei uma forma com azeite e orégãos. Forrei-a com a massa. Piquei e levei ao forno, colocando o formo em 180º.

Entretanto, desfiei os peitos de frango. Numa frigideira, coloquei um pouco de azeite, uma cebola grande às rodelas e fritei-a ao de leve. Juntei, então, uma embalagem inteira de espinafres folha baby e volteei-os com um pouco de sal. Com o lume baixo, coloquei uma tampa, apenas para não irem inteiramente crus ara a tarde. Mas tive-os lá coisa de uns cinco minutos, se calhar nem tanto.

Num copo misturador, juntei 4 ovos inteiros, um pacote de natas light, umas pedrinhas de sal e também uns pós de perlimpimpim de curcuma (coisa que dizem que é super saudável). Bati, mas não é preciso muito, 1 minuto chega.

Tirei então do forno a forma com a massa já um pouco cozinhada. Coloquei o conteúdo da frigideira, depois o frango desfiado e, a seguir, os ovos com as natas. Tapei com queijo ralado, 1 embalagem. Polvilhei com orégãos e coloquei um fio de azeite.

Foi ao forno a 180º. Cerca de 30 minutos.

Boa. Comemo-la ainda quentinha e acompanhámos com salada.

Sobrou, claro. Com sorte, entre a quiche e o picadinho, com salada à mistura, ainda sobra alguma coisa para quarta-feira...

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Lá em cima Dinah Washington interpreta What Difference A Day Makes

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Desejo-vos uma bela terça-feira

Boa sorte para todos

[E, claro, que ganhe a Kamala Harris]

segunda-feira, outubro 28, 2024

O tempo dos cogumelos

 











Hesitei ao dar o título a este post. Pensei em escrever 'o tempo da magia'. Para mim, o que se passa é mágico. Até há pouco tempo a terra estava seca. Agora, com as chuvas, todos os dias dela irrompem estes pequenos seres. 

Já ontem aqui falei neles. Aliás, todos os anos, por estas alturas, falo deles. Fascinam-me. Nascem já feitos. Vêem-se a levantar a terra e as folhas secas que têm em cima. Se são grandes, nascem logo grandes. E, apesar de virem de dentro da terra molhada, vêm limpos. Os brancos, por exemplo, vêm imaculados. Dá ideia que depois sacodem os grãos de terra pois aparecem polvilhados mas depois ficam limpinhos.


E, com o auxílio da Lens do Google, já vi que tenho cá uns lindos branquinhos que são super-venenosos, nomeadamente os que aqui mostro. Vamos ter que arrancá-los pois embora o nosso cão nunca tenha mostrado interesse por cogumelos, não fico descansada enquanto eles ali estiverem.

Alguns, no dia ou dias seguintes, aparecem com bocados a menos, presumo que haja quem ande por ali a banquetear-se.




A propósito, há bocado fiz iscas para o jantar. Quando ia cozinhar, resolvi ir apanhar umas folhinhas de louro e um pé de alecrim. Mas, com a mudança da hora, já era de noite. Liguei a lanterna do telemóvel e lá fui. Pois bem, digo-vos: fez-me um bocado de impressão. Ao pé de mim, ouvi correr. Não sei se era gato, coelho ou outro bicho mas nitidamente ouvi uns pezinhos a correrem ao meu lado. Depois uns barulhinhos não identificados. Voltei rapidamente enquanto pensava que para a próxima tenho que me abastecer durante o dia. Nem tão cedo me apanham em incursões nocturnas...

Mas não é só da terra que irrompem os cogumelos. Até das nesguinhas de musgo que se formam de  pequenas brechas nos caminhos de pedra eles nascem. Uma coisa extraordinária (mágica, não é?)

Depois, ou porque são comidos ou porque secam, ao fim de poucos dias desaparecem. Nem fica rasto deles.

Fiz não sei quantas fotografias. Encanto-me.

E, ao fim do dia, com o sol dourado por entre as árvores, foi aquela paz que me invade e que me deixa feliz e agradecida.


E portanto, para resumir, o que posso dizer é que por aqui ando, tranquila, descansada e bem disposta, um misto de estar de férias, de ser turista e de ser uma criança à descoberta de tudo.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira.

Saúde. Boa disposição. Paz.

terça-feira, outubro 15, 2024

O primeiro cogumelo, um pesadelo, o stress de domingo de manhã.
E, para um momento simpático, a bela casa de Daniela Mercury e Malu Verçosa

 

Já vi um primeiro cogumelo grande e, por sinal, já um pouco danificado. Antes já tinha visto alguns pequeninos, surgidos com as primeiras chuvas. Mas este prenuncia que muitos mais estão para vir. Isso enche-me sempre de felicidade pois vejo como esta terra se fez mulher, parideira, fértil, generosa, dando vida a muitos seres.

E choveu muito. Estávamos na rua quando desabou uma carga de água. O cão chegou a casa feito um pinto. E depois foi a tourada do costume primeiro que me deixasse limpá-lo: tenta arrancar-me a toalha, salta, rodopia, põe-se de pé com ela na boca. Uma festa.

Mas, tirando esse momento de super energia, como em todas as segundas-feiras em que, no domingo, temos a casa cheia, o cão só quer dormir. Assim estou eu. É que, ainda por cima, acordei muito cedo com um pesadelo e depois não voltei a adormecer. Foi outra vez aquela cena em que desespero com o que tenho para fazer temendo não me despachar a tempo. Desta vez estava fora, tinha ido em serviço. No dia de vir embora, uma carrinha ia buscar-nos para nos levar ao aeroporto. E eu não dava a mala feita. As coisas não cabiam na mala. E encontrava camisolas e casacos do meu marido e não percebia como era possível, achava que tinha trazido, por engano, uma mala dele. Por isso, as minhas coisas não cabiam. Depois, para me maquilhar, ia a uma casa de banho no corredor pois tinha espelhos e luz. Mas estava cheia, tinha que desistir. Depois não tinha tempo para tomar o pequeno almoço e tinha visto uma mesa que devia ter sido de pequeno-almoço descentralizado, no hall junto aos elevadores, mas já só tinha pastéis de nata. Eu ao pequeno almoço só como fruta e iogurte mas não tinha outro remédio senão comer um pastel de nata. E já estava na hora da carrinha partir e eu ainda tinha a mala por fechar, queria lavar os dentes, arranjar-me minimamente e não conseguia. Quando acordei ainda estava nesta azáfama e a tentar perceber como é que tinha tanta roupa do meu marido na minha mala.

Enfim. isto deve ter sido porque no domingo, precisando eu do forno para os meus cozinhados, o meu marido, que tinha resolvido fazer uns bolos que viu no programa da Joana Barrios no 24 Kitchen, ainda estava de roda deles quando fui para a cozinha e mobilizou o forno para ele, fazendo com que os meus tabuleiros só fossem para o forno quase uma hora depois da hora que eu queria. Gosto de fazer tudo antes da hora para, quando o pessoal chega, estar tudo pronto, pratos, acompanhamentos, molhos, saladas, frutas, etc. E, portanto, fiquei em stress com os meus planos atrapalhados. E gosto de estar sozinha, a mexer-me de um lado para o outro e não tê-lo a lavar louça quando preciso de lavar legumes. Portanto, deve ter sido isso que me deu a volta ao miolo e, de noite, deu naquela confusão.

A ver se amanhã ou outro dia conto como fiz os rolos de carnes, um recheado com maçã e farinheira e outro com mozzarella fresca e transparências de bacon. E também os doces que o meu marido fez. Hoje estou cheia de sono...

Mas, antes de desligar o computador, deixo-vos com a simpática casa do simpático casal Daniela Mercury e Malu Verçosa. É sempre bom visitarmos uma casa bonita.

Tour pela casa repleta de afeto de Daniela Mercury e Malu Verçosa | CASA VOGUE


terça-feira, janeiro 09, 2024

A beleza de viver

 


Claro que o dia foi pessimamente escolhido. Chuva e um impossível frio antártico, dentro e fora de casa. 

Mas, nas actuais circunstâncias -- antes, antevendo o que estava por vir, depois, os exames e consultas, depois as idas aos hospital e, em cima disso, sempre temendo que alguma coisa aconteça --, já não íamos ao campo talvez há um mês. Tempo demais.

Como a minha mãe felizmente está francamente melhor e esta segunda-feira a minha filha lá ia, resolvemos tirar, nós os dois, o dia de folga e, depois da visita no domingo, seguimos para o campo.

Chegámos de noite. Não vos digo nem vos conto... Um gelo. Mal abrimos a porta sentimos logo: parecia que estávamos a entrar numa câmara frigorífica. A casa gelada, gelada, gelada. 

Ainda por cima, como há algum tempo, creio que no verão, estiveram a colocar tubagem nova na salamandra, agora, ao acendê-la, desatou a sair uma fumarada. Portanto, noite gelada, tivemos que abrir as portas para limpar o ar. Ou seja, mais frio entrou.

Afinal, hoje, de dia, o meu marido esteve a inspeccionar a situação, voltou a colocar lenha e a deitar-lhe fogo e percebeu o que se passava. Quem lá esteve, instalou um registo no tubo. Pelo menos foi o nome que ele deu a uma coisinha que roda que, se bem percebi, ou deixa ou não sair o fumo. Portanto, rodou aquilo e imediatamente o fumo deixou de sair e a sala ficou quentinha. 

Só que hoje, para além do gelo cá fora, choveu todo o dia. Portanto, não esteve agradável. Se fosse para estarmos mais dias, ao segundo ou terceiro dia já a casa se teria climatizado e já se estaria bem. Além disso parece que esta terça-feira já nem vai chover. Mas querendo vir esta segunda-feira, mal deu para usufruir. Chegámos no domingo à noite e saímos esta segunda, por volta das seis e meia. Não deu para nada. Ou melhor, para quase nada. Quase.

É que, seja como for, vá lá eu saber porquê, tal como sempre acontece quando lá estou, dormi que me fartei. E só isso já é bom. E dormi sem acordar a meio, sem sonhos maus. Dormi que foi um regalo. Acordei descansada.

E ainda consegui dar uma esticadinha pelo campo. De sombrinha aberta, com frio. Mas que se lixem as condições atmosféricas adversas quando se está in heaven.

A terra está verde, atapetada de musgo, há zonas cobertas de etéreos líquenes, o feto que nasce todos os anos de sob uma pedra está viçoso, pujante de vida, um tronco caído de uma pequena árvore, descarnado, parece uma espada esperando o momento de ser garbosamente empunhada, há cogumelos carnudos, húmidos, de um rubro antigo, e encontrei um, imagine-se, lilás, irreal. 

Fascino-me. 

Não preciso afastar-me da minha casa para descobrir maravilhas do outro do mundo.

E depois confirma-se o milagre pelo qual eu tanto esperava: os esquilos voltaram. Sob alguns pinheiros voltaram a aparecer as pinhas roídas. Que alegria. Espero que nunca mais tenhamos que fazer alguma coisa que os assuste e afugente. Gosto de sabê-los por lá, confiantes, livres, como se aquele fosse o seu heaven.


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Agora que tenho estado cara a cara com os mistérios da finitude da vida, com a fragilidade e, ao mesmo tempo, a força dos fios que unem os corpos à vida, gostei imenso de ver o vídeo que abaixo partilho. Também eu me tenho interrogado sobre muitas coisas e me tenho imposto a necessidade de degustar com prazer os pequenos prazeres: olhar o céu, deixar-me estar a ver o voo de um pássaro, encantar-me com a perfeição de uma flor efémera e campestre, contemplar os muitos tons de verde, ouvir uma música de olhos fechados, pensar naqueles que mais amo, sentir e agradecer a paz à minha volta.

The beauty of living

Wrinkles, lines, scars - there are many ways that time leaves its mark on our bodies.  Yet mainstream culture dreads getting older - we are urged to fight the ageing process, and many feel pressure to lie about their age.  But as Betty Friedan famously said: "Ageing is not 'lost youth' but a new stage of opportunity and strength."  

With age can come confidence, and freedom to realize who we really are.  As we age, we grow into a deeper kind of beauty, one which works its way from the inside out. It’s a more authentic beauty because it radiates from within.  So let’s celebrate lives well lived. And feel lucky to wake each morning to appreciate what the new day has to offer.

Filmed in McGregor, South Africa. 

Featuring Annie Norgarb.


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Um dia bom
Saúde. Boa sorte. Paz.

domingo, dezembro 10, 2023

O conforto e o aconchego de ter a família à mesa
(e junto ao coração)

 

Não vou falar do que me preocupa em permanência pois compreendo que não me faz bem nem deve ser agradável de ler. Aliás, já tenho a família inteira a querer despachar-me para ajuda psicoterapêutica. Estão fartos de me aturar e compreendo-os. Mas, pelo menos por enquanto, não creio que já seja caso disso. Tenho é que interiorizar que o que há a fazer extravasa as minhas capacidades, já não está nas minhas mãos. Tenho, sempre, por natureza, vontade de encontrar soluções para todos os problemas. E, neste caso, desde há algum tempo que me sinto completamente impotente. E isso atormenta-me um bocado. Estive a falar com o médico e ele foi muito claro. E, claro, não me deu novidade nenhuma. Aliás, ele fez questão de dizer que não estava a dar-me novidade pois antes de lá entrar já havia os problemas que agora tem. Percebo-o, não quer que haja qualquer hipótese de eu poder dizer que adquiriu aqueles problemas lá. Sei muito bem que não. Aliás, quando, antes de ir, nos perguntou porque é que ela tinha decidido ir para lá, eu esclareci invocando os factos como eles são e com os quais ela concordou. Pede-me ele que eu confie que está a ser feito tudo o que há a fazer, todos os cuidados estão a ser prestados, todos, tudo. Sempre que lá vou e sempre que falo com a equipa clínica constato isso. 

Mas, enfim, disse que não ia falar mais do mesmo e, portanto, mudo de assunto (antes que me apareça aqui em casa a brigada da camisa de forças que, do que hoje lhes ouvi, parece que já faltou mais).

Direi que, à parte essa preocupação que me traz com o coração apertado, o dia foi muito bom. Todos cá em casa, mesa cheia. Todos a conversarem, rindo, comendo. 

Depois uns jogaram paintball no campo aqui perto, outros jogaram badminton, outros ficaram a ver televisão. 

Depois, mudança de cenário e, aí, houve um renhido jogo de basketball, uma hora no duro, com todos os jogadores a acabarem encharcados. 

O mais novo, por sua vez, jogou futebol com um amigo que encontrou no parque. E as meninas mais crescidas e o casal mais idoso ficaram a observar.


Não contei que, pelo meio, o mais novo subiu à árvore e gostou de lá estar, menino mais fofo, e pediu para alguém lá fazer uma casinha.

E apanharam-se cogumelos a ver se o dog não tem a tentação de os provar (e não sabemos se são pacíficos). E eu ainda andei a fotografar os passarinhos que dançam na romãzeira, agora desprovida de folhas.


E, à falta de melhor assunto, vou contar o que fiz para o almoço.

Entrada: salada de salmão

Num tabuleiro grande coloquei alface iceberg aos bocadinhos, cenoura ralada, abacate aos bocadinhos, bolinhas de mozzarela (bastantes), salmão fumado. Temperei com azeite, orégãos e um pouco do caldo da mozzarela.

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Prato principal: arroz de carnes

Numa panelão, alourei duas cebolas (das maiores que encontrei) aos bocadinhos, juntei dentes de alho e louro. Depois juntei carne de vaca aos bocadinhos (daquelas que se vendem para jardineira) e moelas. Juntei uma embalagem de sopa portuguesa (couve lombarda, alho francês, cenoura), um pouco de vinho branco e sal. Passada talvez uma meia hora ou um pouco mais juntei coxas de frango do campo, rojões de porco e entremeada, dois tomates maduros e salsa. Juntei mais vinho branco e um pouco, muito pouco, de pimentão doce. Estufou até as carnes estarem bem macias, tendo juntado, entretanto, mais água.

Depois retirei as carnes, desossei, cortei. 

Num tacho grande coloquei arroz basmati e o dobro da quantidade de arroz em caldo de cozinhar as carnes. Cozinhou até estar apenas com um pouco de líquido.

Liguei o forno para estar bem quente pouco depois.

Num pirex gigante juntei o arroz, misturei as carnes desossadas e cortadas. Por cima, polvilhei com bacon em mini-cubos e enfeitei com rodelas de chouriço de carne. 

Foi ao forno até o arroz ficar mais sequinho e até o bacon e o chouriço estarem tostadinhos e brilhantes.

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Sobremesa: salada de frutas com iogurte e gelatina

Numa grande taça de vidro (aliás, em duas) coloquei maçãs aos cubinhos, dióspiros aos cubinhos, uvas brancas e uvas pretas sem grainha. Misturei em cada taça um iogurte grego de mirtilo e gelatinas (de compra) de morango. Misturei. Por cima coloquei amoras, framboesas e mirtilos.

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E ainda...

No fim, apetecia-lhes qualquer coisa mais doce. Não havia. Por isso, foram ao congelador e acabaram com os gelados. 

(Ainda bem pois, por acaso, estava mesmo a precisar de mais espaço naquela gaveta).

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Entretanto, agora vi este vídeo da Reflections of Life (ex-Green Renaissance

que me trouxe serenidade e paz. 

Aqui está, na esperança de que também gostem.

SHE LET IT ALL BE

Nos cantos silenciosos das nossas mentes, há uma voz que tende a minar e semear dúvidas: o crítico interior. O negativo. Aquele que ataca as nossas inseguranças. Confirma as nossas dúvidas e ataca a nossa confiança. Pode soar como 'você deveria', 'porque não fez isso?' ou 'o que há de errado consigo?'

Reconhecer este diálogo interno é importante porque muitas vezes molda as nossas ações e decisões. Quando somos muito duros conosco mesmos, isso prejudica a nossa confiança e bloqueia a nossa criatividade.

É essencial nomeá-lo, reconhecer a sua influência e, o mais importante, não deixá-lo tomar as rédeas das nossas vidas. Em vez de permitir que a dúvida dite as nossas escolhas, devemos esforçar-nos por promover a auto-aceitação. Ao fazer isso, capacitamos-nos  para nos libertarmos das garras da crítica interior e abraçarmos a nossa autenticidade.

Abraçar as nossas imperfeições e celebrar as nossas qualidades únicas nos capacita a entrar na plenitude de quem devemos ser. E traz consigo uma profunda sensação de paz interior, permitindo-nos enfrentar os desafios da vida com confiança e graça.

Filmado em Hermanus, África do Sul.

Com Catherine Brennon


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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Força. Paz.

sábado, novembro 25, 2023

Contra os desmandos do MP, que avancem os cogumelos in heaven, a roupa estendida ao sol, o cãobeludo feliz e notícias sobre a minha nova roupa de cama

 

Provavelmente o Ministério Público acabará por implodir tal a irresponsabilidade que por ali grassa. Os casos de leviandade e estupidez vão-se somando. Os desentendimentos entre procuradores face aos métodos, à descoordenação, ao quase conúbio com a comunicação social, e face à forma como a sociedade, em geral, vai percepcionando e repudiando a sua actuação, começam a ser bem visíveis.

Mas hoje não vou falar nisso. De vez em quando tenho que descansar a cabeça.

Em casa zangam-se comigo por andar tão preocupada com as razões do costume, dizem que ando a consumir-me com uma coisa que me transcende, uma coisa que não está nas minhas mãos resolver. Compreendo, sei que têm razão. Mas depois dos anos de preocupação com o meu pai -- doze anos de declínio progressivo, sempre a temer um desenlace, várias vezes a passar a noite nas urgências, sempre a recear os telefonemas fora de horas -- quando pensava que a minha mãe poderia usufruir de uns anos mais tranquilos, vê-la neste processo auto-destrutivo, irracional, ilógico, custa-me bastante. 

Mas tenho que ensinar a minha cabeça e o meu coração e o resto do meu corpo a assimilar que, apesar de todos os dias haver peripécias de toda a espécie e feitio, há coisas que não posso controlar e que, assim sendo, tenho que aceitar que o que for, haja ou não solução, não sou eu que conseguirei resolver. E, portanto, tenho que reaprender a descontrair-me.

E, descontração por descontração, também não vou pôr-me a falar dos anhucas e dos terroristas do MP que se sentem empoderados [ah... que palavra mais estúpida esta... Só a uso porque estou a falar disto...] e com autonomia para fazer toda a porcaria que lhes passe pela cabeça sem que ninguém os ponha na ordem.

Vou, isso sim, falar de como o campo está lindo, de como o musgo fica lindo quando lhe dá o sol dourado da tarde, de como os cogumelos estão exuberantes, quase escandalosos de tão belos, de como o cãobeludo fica feliz da vida quando aqui está.






O pior é o frio. Mal cá chegámos e entrei em casa senti um frio antártico. Uma coisa... 

Mas depois das portadas abertas, com o sol a bater nos vidros, a temperatura equilibrou-se. Nem tivemos que ligar o ar condicionado nem acender a salamandra. Claro que tenho uma capa de lã sobre os ombros mas nada de mais.

Trouxemos uns lençóis novos, mais largos e de tecido mais encorpado do que os que cá tínhamos. Lavei-os, bem como os que ainda estavam na cama e umas toalhas de mesa que estavam guardadas há muito tempo. 

Como era muita roupa larga, o meu marido esticou arame plástico entre outras árvores para termos mais estendal. Na fotografia não se vê a corda principal, só a nova e outras pequenas que geralmente são usadas para fronhas, panos de cozinha e afins.


Apesar da humidade, a verdade é que a aragem foi suficiente para secar quase tudo. O que não secou foi recolhido na mesma porque, de noite, na rua, a humidade deixa tudo molhado. De manhã, voltamos a estender. 

Há bocado o meu marido disse: 'Fomos burros... podíamos ter usado a máquina de secar...'. De facto. Gosto tanto de secar a roupa ao sol e ao vento que nem me lembrei da máquina.

Também estou com curiosidade para verificar se a manta levezinha que trouxemos é uma boa opção. Acho que vai ser. Aqui ainda tínhamos cobertores normais, ou seja, pesados. Ora já não estou habituada, já não gosto. Na outra casa já só usamos daquelas mantas fininhas, ultraleves. Fica um calorzinho bom mas sem se dar por elas. Claro que há os edredons que são mais leves que os cobertores mas eu sou encalorada, morro assada debaixo deles. Como o meu marido é mais friorento, com as mantinhas põe um reforço (ie, mais uma mantinha leve) apenas do lado dele. Eu com uma fico bem.

Esta que comprámos é aveludada por fora, em bege claro, e, por dentro, parece lã de borreguinho branca, mas muito fininha. A cama fica muito bonita, quase nem precisa de colcha e, espero eu, proporcionando um sono confortável.

E, pronto, por agora nada mais pois, a bem do descanso da minha desmiolada cabeça, pus os neurónios em stand by e, portanto, como pode constatar-se, não dá para mais que isto.

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Chamo, para ver se salva o post, o Anson Seabra com Welcome to Wonderland


Desejo-vos um belo sábado

Saúde. Alegria. Paz.

domingo, novembro 05, 2023

Cogumelos in heaven e dois cães enfurecidos, vis a vis.
Para adoçar a boca, uma marmelada que não é marmelada e que não leva açúcar

 






Como seria de esperar a terra desdobra-se, reinventa-se. Dela nascem ervinhas. Tudo o que foi cortado renasce. Só os esquilos não voltam. Ofenderam-se. Pelos vistos, irremediavelmente.

Por todo o lado rebentam cogumelos. Vistos de longe parecem folhas de outono sobre a caruma. De perto são belos seres vivos. Se calhar, quando no subsolo falarão entre si, combinarão o surgimento.

Impossível apanhá-los a todos. Certamente centenas. Andávamos sempre a apanhá-los com medo que o dog de guarda os coma. Mas, talvez porque não tenham cheiro ou porque exalem algum odor repelente, ele não mostra sequer interesse por eles. Por isso e porque são demais, desta vez resolvemos deixá-los.

Há brancos, alados, há castanhos, gordos, há amarelados, há os que parecem uma saia rodada. Belos. Belos.

Fotografo-os. Um e outro e outro.

Agora escolhi alguns sentindo que estou a cometer injustiças.

Para além da chuva, do vento e dos cogumelos, na sexta-feira aconteceu uma coisa. 

Estávamos nesta sala com a porta aberta, o dog do lado de dentro. De repente largou a correr, a ladrar, e outro som, um movimento intenso, ganidos, guinchos. Desatei a chamar por ele. O meu marido também, gritando: 'Aqui! Aqui!'. Mas a fúria era imensa.

Não vi o que era mas só me lembrei de quando a nossa boxer via um gato e ficava possuída, querendo apanhá.lo e o gato guinchava de susto. Mas aqui o ruído era maior, pensei que algum animal o estava a querer comer ou vice-versa.

De repente vimos que era outro cão, um cão gigante. Os dois pegados. Pensei que iriam destruir-se. Mas o outro fugiu, o nosso atrás e logo a mesma guincharia. Temi que o outro se atirasse à jugular do nosso. 

Felizmente, ou o outro fugiu ou o nosso obedeceu ao grito do meu marido pois reapareceu na sala, ofegante, a dar ao rabo, a olhar para nós, todo contente. Vinha encharcado quer de lado quer nas barbas. Ferida não vimos nenhuma. Não sabemos se o outro ficou ferido pois aqueles guinchos pareciam de quem estava a ser ferido. Nem sei se o outro tentou morder o nosso e dai este vir todo babado.

Fechámos logo a porta. Passado um bocado reapareceu o outro que se pôs a atirar ao vidro e o nosso, do lado de dentro, a jogar-se ao vidro, furioso. 

O meu marido correu a cortina para não se verem.

Depois ligou ao vizinho novo pois reconhecemos que era um dos três gigantes que ele lá tem e que, quando veem o nosso e vice-versa querem devorar-se mutuamente. O vizinho não estava, disse que vinha logo que possível. Ficámos em casa até que o vizinho disse que ele já estava do lado de lá e que estavam já presos.

Hoje o meu marido, bem cedo, foi ver por onde tinha a fera passado. Tinham feito um buraco na parte de baixo da rede lá em baixo, ao fundo. Tapou com umas tábuas que prendeu com troncos. De qualquer forma, hoje o vizinho deve ter mantido os cães num qualquer lugar pois não os vimos.

Tirando isso, tenho a dizer que hoje aconteceu um milagre: vendo uns marmelos, o meu marido sugeriu que se fizesse marmelada. Sugeri que fizesse ele. E ele fez. 

O resultado não será bem marmelada. Mas é um doce bom. Mas pouco doce (até porque não tínhamos açúcar...)

Marmelos com casca, aos bocados, uma maçã, uma pera, um pouco de alecrim, sumo de lima e um pouco de gin. Cozinhou. Depois triturou com varinha mágica, misturando um pouco de mel. Tudo de sua alta recreação. Só sei isto porque ele contou.

Em cerca de meia-hora. 

E, portanto, é isto a vida no campo (para quem não tem que trabalhar, claro...)

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Junto um vídeo bonito só porque sim.

Tinta em movimento


Desejo-vos um belo dia de domingo

Saúde. Encantamento. Paz.

terça-feira, dezembro 20, 2022

In heaven com rendilhados, delicados orvalhos... e com vizinhos novos e novos desafios para a fera de guarda

 


Ontem de manhã, ainda estava na cama e já o meu marido me dizia que já tínhamos vizinhos novos na casa lá de baixo, do fim da rua. Tinha ouvido e visto os cães e tinha visto, de longe, o dono da casa. Há uma pequena parte em que a vedação deles confina com a nossa e através da qual se vê parte da propriedade.

O meu marido disse que eram três impressionantes pastores alemães. Fui ver. 

Claro que o nosso ficou doido. Habituado a andar por ali sem concorrência já que os vizinhos anteriores não tinham cães, ter agora três bestas a ladrar para o lado de cá é coisa com que não contava e que não consegue admitir. 

Passou o tempo todo a correr de um lado para o outro, a saltar, a ladrar. Quando os cães se retiraram (suponho que foram retirados pois vi que passaram carros para lá e provavelmente o dono prendeu-os) o nosso recuou, saiu dali e veio colocar-se num local mais estratégico, digamos que a meio caminho entre  casa e aquela zona da vedação contígua. Virado para o lugar onde eles antes tinham estado, a ladrar de vez em quando, quase como que a lembrá-los de que estava ali, em guarda. Quando passávamos por ele, olhava para nós, orgulhoso. Um soldado de sentinela.

O meu marido já disse que vai ter que subir a rede num certo ponto não vão aqueles lobos gigantes saltar par o lado de cá. A verdade é que me deu um bocado de medo andar por ali sozinha. Um dos cães nem sei o que parece, gigante, peludo, um vozeirão. Deve ser um pastor alemão gigante mas com mais pelo do que é habitual. Os outros dois são grandes mas não inusitadamente grandes.

Às tantas, depois, o meu marido chamou-me. Já eu estava dentro de casa. Quando cheguei já o motivo do chamamento se tinha ido embora: o vizinho da outra ponta da rua tinha passado com o seu rebanho e tinha agora um cão pastor que, segundo o meu marido, é um cão muito bonito, peludo, maior que o nosso. Claro que o nosso ficou desestabilizado durante uma meia hora ou mais. Já o rebanho e o outro cão tinham passado há séculos e ainda ele andava num frenesim, furioso, a correr e a saltar ao longo do muro. O meu marido disse que o nosso vizinho também está muito diferente, está sem óculos e com barba. Diz que quase não o reconheceu. E eu não consigo imaginá-lo assim. 

Entretanto, claro que há cogumelos de toda a espécie e feitio. Encanto-me. Encanto-me como se visse pela primeira vez, como se não conseguisse perceber o milagre. 

Em algumas rochas cobertas de musgo há agora um mar de ínfimos cogumelos, uma coisa extraordinária. Só andando com muita atenção se consegue ver: não sei como é que a natureza produz tamanha disparidade, tudo tão delicado, tão perfeito. As cores, a elegância do desenho. O que existe no subsolo que os faz nascer como eles são? Uns brancos, outros castanhos, outros amarelos, uns grandes, outros minúsculos, uns lisos, outros em renda, outros aos folhos.






Está tudo verde, húmido, com aquele cheiro orgânico em que se mistura o odor das folhas em decomposição e o perfume dos eucaliptos, cedros, pinheiros. E há musgo, fetos, rebentos de pinheiro. E líquenes, rendilhados, tufos de delicados tecidos, fractaizinhos lindos.


E a névoa que fica suspensa, uma renda muito leve feita de orvalho? Tudo perfeito demais, tudo inexplicável, tudo efémero e muito belo.

Apetecia-me não ter nada mais que fazer senão andar na contemplação, nas fotografias. Adoro, adoro.

Mas tenho muito que fazer. A nível profissional é o de sempre, nem vale a pena falar nisso. É o que é. 

Mas depois há a época. Hoje já comprei algumas coisas, quase tudo na base da utilidade e dos livros, mas ainda tenho muita coisa para comprar. Depois terei que separar, organizar. Estou muito atrasada, este ano. Calhou a minha mãe ter estado a modos que adoentada, requerendo cuidados, obrigando-me a deslocações mais amiúde. As circunstâncias às vezes aparecem na maior inoportunidade.

Não me rendeu o que queria, hoje. É que, quando fui num bocadinho, ia-me dando uma coisa. Meia hora foi gasta a tentar um lugar para o carro. Já me impaciento demais com estas absurdas perdas de tempo. Depois, lá dentro, uma multidão. Fico doente. Para começar, um calor do caneco. Devia ter deixado o casaco no carro mas estava tão desesperada que nem pensei nisso. O calor tira-me a vontade de tudo. Ver que as caixas estão com filas e filas tira-me ainda mais. Depois, as roupas este ano estão horríveis, desengraçadas, pesadas, largueironas. Queria escolher algumas mas a moda este ano veio às arrecuas. Malhas grossas, mal jeitosas. 

Nos livros nem é bom a gente falar. À vista e em destaque apenas o que não vale uma casca de caracol. É preciso garimpar. Mas como...? No meio de uma multidão, cheia de calor, sem tempo...? 

Terei que voltar mas não sei quando conseguirei nem sei qual a melhor hora. 

E ainda não comprei comida nenhuma e, sabido é, quando a maltinha se junta toda é como cozinhar num quartel. Nem sei o que fazer. Estou com ideias malucas mas é arriscado fazer uma coisa que nunca fiz, e logo para tanta gente.

Estou com algum receio de não encontrar o que precisar... isto quando souber o que é que preciso. Hoje pensei que me apetecia fazer uma canja, uma boa canja com ovo e tudo. O meu marido arreliou-se, diz que eu não complique, que não me ponha a inventar, que não me ponha a arranjar maneira de sujar muita louça, que me cinja ao essencial. A minha filha falou em galo capão no forno. Para tanta gente teriam que ser pelo menos dois. E não cabem dois galos no forno. Complicado, isto.

Vida de cão é mais simples. Não complicam. Não inventam, não se metem em embrulhadas de compras e multidões.


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Desejo-vos um bom dia
Saúde. Tranquilidade. Paz.

quarta-feira, novembro 23, 2022

The green fields of heaven

 


Acho que não há grandes novidades tirando as desgraças de sempre e dessas, tão tenebrosas me parecem, não consigo falar. 

O meu dia foi de trabalho e teve aquelas agruras habituais. Na fase em que estamos, uma fase complexa no futuro da empresa, parece que o pior de algumas pessoas se sobrepõe a tudo o resto. Quando se fala em atitudes tóxicas isso não é uma força de expressão, é mesmo uma realidade. Infelizmente, os episódios de stress ou irritação sobrepõem-se aos de motivação e isso desgasta. Mas é uma fase. Logo passa.

Por tudo isto, prefiro falar de momentos de paz e serenidade. 

O tempo cinzento, chuvoso, tristonho. Às quatro e tal estava escuro, às cinco e tal estava de noite. Às seis e tal fui andar lá para fora, estava noite cerrada. Tive que ligar a lanterna do telemóvel. Mas andar no campo, entre árvores, com tão fraca iluminação não é coisa fácil. Não se vê nada, nada, nada. Pensei que se um javali ou uma raposa saíssem da gruta ou de alguma toca eu cairia para o lado de susto. 

Apesar de tudo, gosto. E chuviscava. Via as gotas a percorrerem os fracos raios de luz do telemóvel. Bonito. Podia ficar ali parada a respirar o ar molhado, a sentir os odores e os mistérios da noite.

A fera tinha ido comigo e, de vez em quando, ouvia-o por perto mas, de noite e ele escuro como é, quase não o consegui ver. A certa altura, chamei por ele. Nada. De repente, ouvi um barulho e um monte de pelo passou a rasar por mim. Estremeci. Era ele numa corrida. Mas não o vi. 

Passado um bocado, ouvi o meu marido lá em cima, ao longe, a chamar por mim. Fui na direcção dele. Achava que eu andar por ali às escuras não era boa ideia. Acendeu as luzes todas à volta da casa e que eu andasse por ali. Dei umas três ou quatro voltas e desisti. Não tinha graça.

À hora de almoço tinha feito um pequeno passeio para fotografar cogumelos. É um fenómeno. Não sei a que ritmo se multiplicam aquelas células mas o facto é que, num abrir e fechar de olhos, aparecem e agigantam-se. Belíssimos. Claro que nem todos são de tipo giga. Há os que são delicados, quase como bailarinas, quase comoventes.

Há outros que parecem umas bolinhas brancas, quase pétalas, outros umas ondinhas quase em rendilhado, folhinhos subtis que embelezam os ramos que se fingiam de mortos. Quanto mistério nestas indecifráveis formas de vida.

Outros são carnudos, quase animais saídos da terra, outros parecem algas, são lustrosos, quase parecendo vindos do fundo do mar. 

Os mais exóticos são uns em campânula brilhante em amarelo exuberante. Mas hoje vi uns que parecem vidros de Murano, de uma delicadeza translúcida. Serão que são deuses? Ou serão simples anjos? São inexplicáveis, etéreos. Fiquei com vontade de me deixar ficar a olhar para tanta beleza, tão efémera beleza.

E os campos estão verdes, verdes. Muito musgo, macio, veludo, veludo, e muitas ervinhas, muitos líquenes. É bom estar entre o verde da natureza. Fotografo o que posso. O tempo não é muito. E há a chuva. Fiquei com os pés molhados, o cabelo molhado. Mas soube-me tão bem. 

Por vezes ocorre-me que se, por uma qualquer fatalidade, eu perdesse o que tenho ou soubesse que, em breve, estaria de partida, talvez me sentisse feliz na mesma, agradecida na mesma. Todos os momentos abençoados que tenho vivido estão inscritos no meu adn de uma forma indelével e são carga suficiente na bateria onde armazeno os meus momentos de felicidade. 


E já nem me refiro aos momentos vividos junto àqueles a quem amo e que trago sempre no meu coração. Refiro-me a estas coisas simples como ver como estão grandes e bonitas as arvorezinhas que plantei tão pequeninas, como é especial o círculo de pedras que imaginei e concretizei (tantas vezes carregando ou empurrando pesos que anos mais tarde mostraram o desgaste que provocaram em algumas das articulações que mais se esforçaram), como se tornou tão fértil a terra antes tão árida, como devem ser felizes os pássaros que aqui habitam.

Estava a andar e a pensar como estão bonitos os verdes campos deste meu paraíso. Depois apareceram-me as palavras em inglês e dei por mim a sorrir. The green fields of heaven. Quem conhece o mundo dos negócios e dos investimentos saberá bem o que são os greenfields projects. E na verdade foi isso que, há uns anos, foi esta nossa aventura. Tudo à nossa disposição para daqui fazermos o que quiséssemos. 

Imaginei caminhos, imaginei escadinhas de pedra, imaginei o lugar para os cedros, o lugar para os pinheiros, lá em baixo dois eucaliptos, os elegantes ciprestes pelos quais me apaixonei a ladearem os caminhos, a pimenteira toda leveza, as azinheiras que já cá estavam sob a forma de rústicos e informes arbustos e que fomos desbastando até se transformarem nas majestosas árvores de hoje. 

Tudo se foi concretizando até que ganhou vida própria. O que agora vejo quando por aqui caminho é, tantas vezes, novo para mim. Devem ter sido sementinhas que voaram de longe e que esta terra acolheu. Tal como os gatinhos, os esquilos ou os pássaros ou os bichos cujas grandes pegadas encontramos e que aqui se acolhem, assim as flores, os cogumelos, os arbustos felizes que por aqui vão construindo a sua vida.


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Desejo-vos uma bela quarta-feira
Saúde. Serenidade. Paz.