Hoje o dia foi especial. Aquilo de que não se deve voltar onde já se foi feliz, afinal, não é forçosamente bem assim.
Não sou saudosista e, em geral, página virada é página esquecida. Mas, lá está, também há aquilo do nunca digas nunca.
Assim, hoje fui visitar uma pessoa que, em tempos, foi queridíssima amiga. A vida levou-nos por caminhos distintos e, quando andamos muito atarefados a criar filhos, a trabalhar, a construir uma vida, pouco tempo sobra para o que vai ficando para trás.
Mas nunca me esqueci dela. Enquanto eu sempre fui de ter muitas ideias, muita vontade de fazer coisas, amores intensos, ela sempre foi a serenidade em pessoa, a companhia perfeita e justa, a que ouvia e aconselhava. Nunca uma palavra de julgamento ou censura, nunca um gesto de deslealdade. Nunca. Sempre a presença amiga, autêntica, amável.
Fui, em tempos, muitas vezes a casa dela, na cidade, e passei muitas tardes, belíssimas tardes, na grande casa que tinham no campo, no sopé da serra.
No lugar dessa grande casa há agora duas belas casas, uma dela, outra de uma das irmãs. O que antes era campo, é agora um dos limites da cidade. A casa dela está agora envolta noutras casas. Está na cidade mas com vista para a serra, com a acalmia do campo.
Abraçámo-nos com emoção, um abraço muito amigo. E conversámos como se a conversa nunca tivesse sido interrompida. O seu olhar doce é o mesmo. A compreensão com que antes me ouvia é a mesma. A afabilidade é a mesma. Com ela continuo a sentir-me aceite, acarinhada, apoiada como antes me sentia.
E a casa, que eu não conhecia, é uma casa acolhedora, ampla, de uma beleza delicada, generosa, repleta de memórias, de afectos. Vê-se que é a casa de quem costuma acolher amigos, uma casa que nos abraça.
Falámos das nossas famílias, falámos de nós, falámos do nosso reencontro.
Estava com medo que o urso cabeludo se atirasse a ela mas, estranhamente, foi como se a reconhecesse. Fez-lhe, imediatamente, uma festa, pôs-se em duas patas como se lhe quisesse agradar, como se quisesse abraçá-la. Ficámos admirados com aquela reacção.
E isto foi de tarde. Agora à noite estive à conversa com ela e com outros queridíssimos amigos.
A vida sabe tão melhor quando é vivida em torno de afectos, de afinidades, de compreensão perante as diferenças, de admiração perante o que, nos outros, é bom.
Sempre tive vontade de, quando me reformasse, ter uma vida nova, ter um recomeço numa outra direcção. E é o que está a acontecer. E sinto-me muito agradecida, muito feliz.
Amor Como Em Casa | Poema de Manuel António Pina com narração de Mundo Dos Poemas
A seguir ao almoço, coloquei uma pequena espreguiçadeira ao sol, no terraço. O meu marido prefere sentar-se numa cadeira normal. Estivemos ali, tranquilamente. Não estava frio, o sol reflectido nos muros estava quase dourado.
Os rapazes cuja ocupação nunca consegui perceber foram-se embora da casa ao lado. Depois da limpeza no interior, há agora pinturas e arranjos cá fora. Qualquer dia terei vizinhos novos também deste lado.
Lá mais à frente há outra casa à venda. Hoje, quando fomos fazer a nossa caminhada, vimos um jovem casal com umas crianças pequenas a olhar para a casa. Eu ia à frente, com a pequena fera pela trela. O cabeludo desperta sempre algum olhar divertido e cumprimentaram-me como se eu fosse vizinha.
A tarde estava a pôr-se e, por isso, as casas já estavam com as luzes acesas por dentro.
Há uma casa de que gosto muito. É muito elegante e a cor clara em conjugação com a pedra branca torna-a muito harmoniosa. Poderia ser um templo. No jardim tem umas flores que não consigo descobrir à venda mas que são etéreas, lindíssimas. Dão à casa um aspecto ainda mais elegante e despojado. Já vi algumas vezes a proprietária. É alta, magra e tem o cabelo muito curto. Vejo-a quando está no jardim a aparar as flores e os arbustos. Tem um ar sereno. Cumprimenta-nos em português mas parece-me perceber-lhe um certo sotaque francês. Ao proprietário apenas vejo dentro de casa, sentado ao computador, numa mesa que está junto à grande porta-janela que dá para o jardim.
Hoje as luzes estavam acesas e as portadas externas abertas. Vi a decoração da casa. Minimalista, confortável, também de uma sofisticada elegância, uns grandes quadros e uns candeeiros muito bonitos. Num canto tinham a televisão ligada, grande. E o surpreendente é que estava a passar um desfile de moda, lento.
Lembrei-me de um colega de gostos requintados e comportamento algo excêntrico que dizia que, à noite, para descansar a cabeça antes de ir para a cama, se punha na sala a ver desfiles de moda, a beber um copo, a fumar um charuto. Quando me disse isso, achei que só mesmo ele para uma coisa tão maluca. Quem é que antes de se deitar bebe whiskey, fuma um charuto e... vê desfiles de moda? Explicou que muitas vezes os desfiles aconteciam ao som de boa música, que gostava de ver mulheres bonitas a deslizar, quase a levitar, e que o sabor da bebida e do perfume do tabaco, a névoa do fumo, tudo aquilo era o quase sonho de que precisava para dormir com os anjos.
No outro dia, numa das nossas caminhadas ao fim da tarde, assisti a uma cena memorável. Há uma casa que tem um cão simpatiquíssimo. Quando nos vê a passar com o nosso, vai encostar-se à vedação a dar ao rabo e a querer interagir connosco. Paramos sempre ali para eles poderem confraternizar. Aliás, mal nos aproximamos, já o nosso começa a puxar, numa alegria. Eu digo: 'Vamos ver o amigo, vamos...?' e ele dá ao rabinho, todo contente. Naquele dia, contudo, ouvimos uma música inesperada. Música dita clássica. Talvez Schubert. E, então, vimos o dono da casa a cortar lenha. Um verdadeiro lenhador. Havia um tronco largo de madeira no chão e, em cima, ele punha as peças de lenha que, com um machado e com grande precisão, partia. Ao som de música clássica. Com o cão, tranquilo, ao pé. Há momentos imprevistos que, só por si, fazem o dia valer a pena. Pelo menos para mim... Estava espantada e disse ao meu marido: 'Que coisa mais incrível, não achas...? Acho o máximo, a rachar lenha ao som desta música...' O meu marido não mostrou qualquer interesse, continuou a andar e disse: 'Não acho nada de mais'. Sempre quero ver se, um dia destes, é ele que me surpreende com uma destas...
Mas desviei-me do assunto. Dizia eu que me sentei ao sol a ler. O mesmo livro dos últimos dias: a biografia do Manuel António Pina: 'Para quê tudo isto?'. O pequeno urso estava sentado ao meu lado. De manhã, tinha estado a penteá-lo. Dantes deixava e até gostava. Agora é uma luta, quer pegar na escova, quer tirá-la das minhas mãos para fugir com ela. Com esforço, lá consegui. Ficou com o pelo solto, macio. Estava a ler e a fazer-lhes festas, o pelo farto, fofo e macio onde sabe bem passar e enfiar a mão.
Então, tocaram à campainha. Entrámos para ver quem era pois estávamos nas traseiras da casa. Eram os homens que vieram arranjar o motor de um estore e o comando de um outro. O meu marido foi abrir a porta e eu fui pôr a fera na rua pois agora, sempre que alguém toca à campainha, vira um animal. Ladra ferozmente, vai a correr para a porta e, se o deixamos, sai e ladra alto e bom som a quem estiver do lado de fora. Depois de os homens estarem dentro de casa e a fera na rua, voltei a entrar. O meu marido estava a explicar o que estava a precisar de arranjo. Aproveitei para ir vestir um casaco. Depois ouvi que estavam a partir qualquer coisa na casa ao lado e fui ao andar de cima para, da janela, cuscar. Não vi nada.
Ao fim de um bocado, como percebi que o arranjo estava demorado, resolvi retomar a leitura. Fui ver se o livro estava na espreguiçadeira. Não estava. Também não estava em cima da mesa. Pensei que o teria trazido para dentro quando ouvi a campainha. Mas não o encontrei. Nesta casa isto acontece-me com tudo a toda a hora. Nunca sei onde deixei o telemóvel, as chaves, o casaco.
Passado um bocado fui ver onde andava o urso que estava tão calado.
Juro. Ia-me dando uma coisa. Estava na relva com folhas e papéis rasgados. De repente nem percebi o que era. Aproximei-me. Só não me deu uma coisa porque afinal o meu coração não deve ser tão frágil como o tentaram pintar. Pelo menos deve ser à prova de sobressaltos destes. A contracapa arrancada e despedaçada, várias folhas arrancadas e rasgadas. Sei que a violência não resolve mas foi mais forte que eu: dei-lhe mesmo um estalo. Deve ter sido ao de leve pois não se torceu nem se amolgou. Ainda ensaiou rosnar por eu estar a querer-lhe tirar a brincadeira mas eu estava tão furiosa, tão, tão furiosa, zanguei-me tanto que se levantou e se foi embora como se não tivesse nada a ver com o lindo serviço que ali estava.
Ainda vou tentar colar algumas folhas pois acho que apanhei quase todos os bocados e bocadinhos que esvoaçavam na relva. Do que me parece, para além da contracapa e das páginas das referências, deve ter danificado uma dúzia de páginas a meio.
Só visto.
O meu marido, quando lhe mostrei a desgraça, disse: 'Não devias ter deixado o livro ao alcance dele'. Mas como? Vou andar agora a ter que esconder todos os livros dele? Impossível. Fico passada só de pensar nisto.
Mas, enfim, já é domingo, dia de eleições e vou mas é para a caminha para ver se me levanto cedo pois tenho muito que fazer na parte da manhã, nomeadamente votar.
Mas, antes de ir, gostava muito que vissem esta casa. Acho-a extraordinária. Tudo na casa: as proporções, a luz, a sombra, a distribuição dos espaços, o arejamento, a cortina verde... e a agricultura que ali se pratica. Quando se junta um arquitecto fantástico com uns donos especiais saem verdadeiras obras de arte.
The Planter Box House | Malaysia’s Extraordinary Homes | Award Winning Architecture | Transformation
Fomos caminhar no início da noite. A temperatura agradável. Muita humidade mas sem chuva. Soube-me muito bem.
De tarde tive uma daquelas reuniões.
Isto das reuniões por teams ou zoom tem muitas coisas boas mas tem uma coisa que, ao fim deste tempo, já me cansa. Estou sempre a dar de caras comigo. Vejo que a blusa não me assenta tão bem como gostaria, vejo o cabelo e fico sem saber se o hei-de cortar, apanhar ou deixar para lá, vejo-me com cara de poucos amigos. Podia fingir que não estou a ver-me. Claro que sim. Mas já me conheço de ginjeira. Não preciso de olhar para mim para me ver. Uma seca.
A reunião estava a impacientar-me. Há pessoas que não atam nem desatam. Forcei-me a estar calada. Imponho-me contenção. Admito que sabem o que andam a fazer.
Do lado de fora da janela, no pequeno pátio junto à porta, a pequena fera peluda sentou-se depois de estar a olhar para dentro, provavelmente tentando descobrir-me atrás do monitor.
Ouvi os argumentos, as desculpas, ouvi as generalizações do costume que só servem para empatar e nunca para resolver. A noite começou a cair. De vez em quando intervinha mas discretamente.
Até que comecei a falar sem me impedir de dizer o que queria. Falei e vi que estavam todos muito sérios a ouvir-me. Quando acabei ficaram calados. Durante uns segundos ninguém disse nada. Pensei que o que vinha a calhar era que a pequena fera enchesse o espaço que tinha sido ocupado pelo vazio com um prolongado uivo.
[E abro aqui um parêntesis. Hoje, tinha-se ligado experimentalmente um alarme parcial. Esquecido disso, às tantas o meu marido foi lá. Aquilo desatou a apitar feroz, aguda e ensurdecedoramente. Como não sabia o que estava a passar-se, apanhei um valente susto. Eu e o little teddy bear. Ao meu lado, ladrou, ladrou, andou de um lado para o outro sem sair de pé de mim. E, então, fez uma coisa extraordinária. Uivou. Mas uns uivos a sério. Parecia um lobo. Parecia que um lobo tinha encarnado nele. Em quase treze anos nunca a nossa doce cãzinha tinha uivado. Passava-se com cavalos ou com gatos, ladrava e eriçava-se e corria como se estivesse possuída. Mas uivar nunca uivou. Este foi de tal ordem que o meu marido, que estava longe, ouviu. Não sei qual foi a dele. No fim, quando o meu marido apareceu e a coisa se esclareceu, o lobo felpudo dava ao rabo e olhava para nós como se estivesse a sorrir e a pedir o nosso reconhecimento. Disse-lhe: menino lindo, tomou muito bem conta da casa. E fiz-lhe festinhas.]
Quando a reunião acabou, tive que fazer uns telefonemas. Sentia-me livre. Fiz um chá. Estava mesmo a apetecer-me um chá. Mas quando o meu marido me perguntou se queria ir dar uma volta nem pensei duas vezes. Sair. Caminhar. Já era de noite e foi ficando cada vez mais de noite. Por volta das sete já é de noite. Perto das oito é mesmo noite cerrada. Sem chover, as decorações de Natal ganham outra graça. Grande parte das casas tem os interiores à vista. Grandes vidraças e, lá dentro, árvores de Natal a piscar, paredes iluminadas, pessoas sentadas à mesa, alguém sentado em frente a um computador, pessoas a circular na cozinha. De noite, as casas iluminadas parecem cenários de filmes que somos convidados a ver. Há qualquer coisa de íntimo numa casa iluminada, vista de fora. Acho engraçado que aqui as pessoas não se importem que vejam as suas casas por dentro.
Os meus novos vizinhos do lado também tem a casa cheia de decorações de Natal. Hoje, ao sairmos, reparei que uma das crianças estava sentada a uma mesa, escrevendo. E, à sua volta, luzinhas a piscar. Achei enternecedor. Também pensei que iam estar dias a retirar todas as aquelas decorações e iluminações; mas depois eliminei esse pensamento pois o meu sentido prático tem pouco de natalício.
Há pouco, quando aqui me sentei, estive a ler mais um pouco de 'Para quê tudo isto?'. As casas, as ausências, os afectos, as palavras.
Tenho que ter mais tempo para poder ler mais devagar, para poder ficar parada entre as palavras. Sentar-me a ler, os olhos pousados nos silêncios. No domingo estava sentada a ler, no piso de cima, na sala grande dos livros. E vi uma rola a esvoaçar junto à janela. Batia as asas e não saía do mesmo lugar. Foram segundos. Mas foi uma visão maravilhosa.
Quando estou a ler ali, no cadeirão junto à janela, o lobo felpudo deita-se aos meus pés e dormita. Se sente algum movimento lá fora, soergue-se mas, como percebe que dali não virá mal ao mundo, volta a dormitar. Nesses momentos é um companheiro tranquilo. Respeita o acto da leitura.
Estar em casa é bom. Dantes pouco estava em casa. Saía cedo, regressava tarde. Agora posso usufruir da minha casa.
Na pequena estante com portinhas de vidro que tenho à minha frente, a que tem a televisão em cima e que foi feita pelo meu pai depois de se ter reformado, há um pequeno presépio. Gosto de presépios. Há ali aquela convergência de ternura a que sempre se assiste quando as pessoas se reúnem para conhecer uma criança acabada de nascer. Não havia iluminações de Natal na gruta. Agora quase só há iluminações e pais natais. Acho que os presépios caíram em desuso. A bem dizer acho que pouca gente relaciona o Natal com o nascimento do menino Jesus. Mas não faz mal. Parece que, na realidade, nem nasceu a 25 de Dezembro e, de resto, já foi há tanto tempo que já pouca gente se lembra dele. Quantos meninos já nasceram -- em grutas ou em barcaças, os pais foragidos -- depois dele? A boa acção agora não é rezar a esse longínquo menino Jesus: a boa acção seria acolher nos nossos países tantos meninos de pais foragidos quantos pudéssemos.
A leitura é uma espécie de celebração mágica. É a maneira de paradoxalmente descobrirmos que a realidade é aquilo que sonhamos e não aquilo que temos entre as mãos. É essa espécie de travessia de continentes. Que não existem. E nos quais reconhecemos aquilo que é mais profundo em nós e que não pode ser dito.
. 2 .
O problema é que os poderes do entretenimentos, sedutores e a exigirem uma entrega cega e sem reservas, são destrutivos. É uma das modalidades da irracionalidade do nosso mundo que não convivem bem com o pensamento, com uma certa distância, uma certa afirmação da autonomia individual, que são aspectos críticos para a literatura. Quando se liga a televisão, um dos emblemas maiores do entretenimento, há três coisas maravilhosas que acabam: o escuro, o silêncio e a solidão. Decisivas substâncias de que se faz a literatura, de que se faz a poesia. Onde está a música do pensamento no meio desse som e fúria sem contemplações a que se chama entretenimento?
. 3 .
A poesia e o romance não exprimem factos ou verdades, mas a possibilidade da verdade. Poesia e romance são o tempo interrogativo, o céu da possibilidade.
Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
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Autores das palavras
1. Eduardo Lourenço
2. Luís Quintais
3. Paulo José Miranda
Título e poema no final - Manuel António Pina
[Tudo lido no livro 'Vale a pena?' - conversas com escritores de Inês Fonseca Santos]
Nunca tive um gato. A minha mãe contava a história de um gato que se assanhava, todo ele crescia, arqueado, todo se inflava, dzzzzzzz, silvava ele, os olhos medonhos, metendo-lhe medo -- era ela criança. Guardou esse medo até hoje. Se via um gato, desviava-se, cheia de medo, segurando-me a mão, já pronta a proteger-me mas com medo de ter que o fazer. E eu herdei esse seu medo.
A minha avó, mãe dela, tinha um cão, o Matateu, um cão preto bem disposto que tinha pavor de trovoadas. Essa minha avó tinha patos, perus e, em tempos, porcos. Depois deixou-se disso. Primeiro desistiu dos porcos, depois dos perus. Os patos sobreviviam sozinhos. O cão acabou por morrer atropelado. A minha outra avó de animais só teve galinhas e perus, numa capoeira grande que havia ao fundo, no quintal, nas traseiras da casa.
Outros familiares ou amigos meus, gatos também não. Cães, sim, vários tinham cães. Vim também a ter uma cadela, uma boxer dourada, macia, doce como mel de que ainda hoje tenho saudades como não tenho de outra gente que partiu. Mas com gatos nunca se proporcionou ter que conviver.
Mais proximamente, a então namorada do meu filho tinha um gato. O bicho era feroz e traiçoeiro como uma pantera. Cioso, ciumento, possessivo, dissimulava-se e, quando apanhava o meu filho desprotegido, saltava-lhe para cima, implacável. Arranhava-o sem compaixão. O meu filho, sendo apanhado desprevenido, apanhava grandes sustos. Eu assustava-me só de imaginar.
Lá no campo, de vez em quando aparecem gatos. Por vezes, estou na sala e aparece do lado de fora da porta de vidro um gato que olha fixamente para dentro, indiscreto. Outras vezes, vou a andar silenciosamente pelos caminhos, entre árvores, tentando não espantar pássaros ou coelhos e sinto um arrepio, sinto-me observada. Quase amedrontada, olho e dou com um gato a olhar-me fixamente. Depois, mal vê que o vejo, foge, furtivamente desaparece. Fico estática, meio trémula, como se um ser estranho me tivesse estado a vigiar.
Houve uma altura em que apareceu por lá um gato felpudo, de riscas cor de mel e baunilha. Aparecia frequentemente e ficava a olhar de longe. Talvez pela cor, imaginei que fosse meigo. Tentei cativá-lo, Bschhhhh-bschhhhh-bschhhhh e deixava-lhe lá um prato com leite. Não serviu de nada. Ia quando queria e desaparecia por temporadas. Agora não tem aparecido nenhum.
Onde agora vejo muitos gatos é no Ginjal. Já contei que há uma senhora que, faça sol ou faça chuva ela lá vai, carregada, levando-lhes ração, massa com comida enlatada. Os gatos estão gordos, ronceiros, uma pena. Quando vejo a senhora tenho sempre vontade de lhe dizer que não faça isso, que está a desgraçar os gatos. Mas tenho pena, também me custa desiludi-la.
Mas, apesar de gordos, os gatos conservam aquele olhar inteligente que eu gosto tanto de fotografar. Rondo-os, espreito-os. Por vezes olham-me com displicência, como se lamentassem que eu fizesse tentativas tão inúteis, depois olham noutra direcção, indiferentes, superiores.
Gosto de fotografá-los. Estas fotografias foram feitas lá.
Diz quem tem gatos que são bichos antigos, sábios, que parecem transportar o espírito de seres estranhos, eruditos, habitantes talvez de bibliotecas perdidas no tempo.
Uma colega minha chega sempre tarde a casa. Um dia que chegou cedo, a gata olhou-a com pasmo, e não a largava, intrigada com o que se teria passado.
Um ex-colega meu, pessoa de alguma soberba e forte ímpeto liderante -- a quem vejo agora essencialmente na televisão pois tem agora relevantes funções nacionais -- virava uma torrão de açúcar, todo ele se derretia ao falar do seu gato. Que se enroscava no seu colo ou que se deitava na secretária enquanto ele trabalhava, uma companhia incondicional, uma ternura. Uma vez estávamos a ter um encontro de dirigentes no Algarve e liga-lhe a mulher, em pânico. Contou ele, depois, que, pela aflição dela, pensou que lhe tinha morrido a mãe. (Quando relembra isto, faz um sorriso escarninho: nunca se deu bem com a sogra, uma manipuladora, diz ele). Mas não. Era o gato que tinha fugido. Já não teve parança, um desassossego, sempre a ligar para casa a saber do gato. Nada. Aflito, aflito como se a um filho tivesse sucedido algo de mal. Nem o sol do Algarve lhe soube a férias. Quando regressámos, ao fim de dois dias, ele ia cabisbaixo, parecia de luto. Afinal o gato apareceu pouco depois dele ter chegado a casa. Ainda mais ligado ficou ao animal.
No domingo, enquanto o meu marido conduzia, eu lia em voz alta, de Agustina ainda, em Longos dias têm cem anos:
Tento recordar-me dos momentos em que vi Maria Helena, dos seus gestos, dos seus gatos, dos seus jardins. Havia Lolita, que eu conheci velha e tremendamente sentenciosa, como Deborah, que foi juiz em Israel. Sentava-se debaixo duma palmeira e julgava. Devia ter aquele ar albino e olhos azulados da gata Lolita. A sabedoria também, a aficíon da intriga, as palmas das mãos pintadas com henné, como Lolita as pinta de carmim; e os olhos, com patas de mosca. Agora há outro gato, Bicho, com aquela cara de dragão que faz lembrar um letrado chinês do século XVIII. Se Bicho me dissesse, de repente, a história dos 47 ronins, ou coisa parecida, eu não estranhava. Tem o ar de ter saído duma casa dum Pequim onde se dava importância às mulheres, desde a portadora de água até à tocadora de banjo: porque elas podem ser um dia concubinas, esposas, imperatrizes. Bicho tem ar de ter sido imperatriz noutra incarnação; as garras, cortou-as para tocar piano, como faziam as verdadeiras princesas de Shantung no século XIX. Gosta de levura, acho que isso a droga ligeiramente. Ou é o seu passado opiado que a faz parecer tão concentrada. 'Desperta, desperta, Deborah' - digo-lhe. Ela olha-me severamente, como se estivesse no monte de Efraim, debaixo da sua palmeira. O filósofo Buber dedica aos gatos umas páginas extraordinárias; percebe-se que ele captou o tempo-limite que Teilhard de Chardin chamou o 'passo de reflexão'. O gato está nesse desfiladeiro entre a bestialidade e a consciência; e, às vezes, o seu olhar parece tocar a primeira nota da nossa complexidade, 'Bicho -- digo-lhe --, conheces-me?'. Ela muda o peso do corpo sobre uma e a outra pata dianteiras. É uma maneira de concordar e de me reconhecer.
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Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
['Os gatos' de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa']
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E queiram, por favor, descer até aos amores desencontrados entre António Valada, Carlos Costa e Alexandra Ferreira com o Banco de Portugal e a Quinta das Celebridades à mistura.
Antes que comece o tempo das contagens no final desta amorfa campanha eleitoral, e antes de me ir estender a ler e, quiçá deixar que o sono chegue e me tome nos seus doces braços, venho aqui para vos dizer que não sei como é aí, onde me estão a ler, mas, por aqui, esteve uma temperatura amena, o céu quase limpo e as poucas nuvens apenas serviram de véu, como que querendo atenuar o excesso de luz.
Parece que se adivinha a primavera. A beira do rio tinha muita gente, o parque agora de tarde também. Parece que as pessoas, sentindo o cheiro a bom tempo, procuram o sol.
Ontem, quando cheguei a casa da minha mãe, não apenas as persianas estavam todas levantadas como alguns vidros também abertos. Disse-me que era para deixar entrar o bom tempo. Também eu, aqui em casa, abro as janelas, ponho-me à janela a ver as cores limpas e suaves deste dia luminoso.
Antes, andei rente ao rio, fotografando. As pessoas recortam-se contra um pano de boca de cena sem igual: do outro lado, sobre um chão azul, Lisboa, a bela. Não resisto e capto as suas imagens, actores perfeitos num tableau ímpar, magnífico.
Fotografo as pessoas, a paisagem, e o meu coração expande-se de ternura pela visão de beleza que me proporcionam. Parece-me quase impossível tanta harmonia, tanta tranquilidade.
Ocorrem-me muitas vezes pensamentos terríveis: os que tentam alcançar um mundo em paz e se afogam, não chegando a ver de perto como é também difícil o seu sonho (mas que, sendo difícil, oferece a serenidade que um céu não atravessado por disparos e morte sempre tem para oferecer). Por aqui, em paz e liberdade, os namorados podem brincar, os pais podem passear com os filhos, os donos passear com os seus cães e eu posso deliciar-me, sempre e sempre, contemplando este cenário maravilhoso.
Nos dias de vendaval e invernia os pescadores escasseiam: o fraco pescado não compensa as inclemências do frio e da chuva. Mas, mal o sol desponta, logo os cais se enchem de pessoas pacientes ou necessitadas que, por ali, tentam que um peixe pique o engodo. Não precisam de patranhas, de pentear cabeleireiras, de andar de feira em feira, de dizer balelas e distribuir beijinhos a granel: basta que fiquem imóveis que algum (peixe) palerma há-de morder o anzol.
É um mundo maioritariamente masculino, este dos pacientes. (Pacientes no sentido de terem paciência e não de estarem doentes). Mas há também mulheres pacientes. Gosto de ver as pescadoras. Um dia hei-de ir conversar com uma delas. Não sei se, para elas, haverá o lado lúdico que vejo nos homens ou se há apenas persistência.
Sabe muito bem estar à beira de água, ouvir o som das águas, sentir o calor do sol ameno, ouvir o voo livre das gaivotas, o deslizar dos barcos. Também eu tenho sempre vontade de me deitar ao sol, sentir o prazer de existir junto a um lugar de tanta beleza. Nem sempre o consigo mas é uma sensação de felicidade mesmo boa. Mesmo apenas passar e ver quem sabe descansar o corpo ao sol, já me sabe bem.
Outras vezes, penso que haveria eu de pegar num livro e sentar-me ali, em sossego e pôr-me a ler, com vagar. Mas não me dá para ler livros em lugares assim. Acho que qualquer veleiro que passasse me haveria de distrair, haveria de me dar vontade de voar e ir pousar nele. Tenho como que uma urgência em não deixar de ver aquilo que considero bonito e fugaz: um barco que passa, uma gaivota que dança nos céus, um traço de luz que ilumina uma rua ou o rio, uns cabelos esvoaçando, uma ponte quase invisível ao fundo.
E depois há os gatos. Estão gordos. Uma senhora, vá lá perceber-se porquê, em vez de os deixar andar na vadiagem, comendo peixes que tenham dado à costa ou que tenham sido desprezado pelos pescadores ou rapinando o que lhes apetecer, parece ter feito de razão de viver a engorda dos gatos. Leva-lhes comida enlatada e esparguete. Chama pelos gatos pelo nome: a Milu, a Estrela, a Maria, sei lá. Em tom de reprimenda, chama-lhes a atenção caso não respondam logo à chamada. Até às gaivotas já eu a vi a deixar esparguete cozido com qualquer coisa. Um dia eu estava a fotografar uma gaivota que vinha pousar e ela disse-me, à laia de ralhete: 'assim ela não vem comer'. Fiquei estupefacta.
Não sei se não se devia proibir isto. Os gatos estão a ficar obesos, já andam ronceiramente, pesados. Antes via-os esgueirando-se paredes acima, alcançando num ápice os telhados, saltando de pedra em pedra à beira de água. Agora não, agora deitam-se ao sol, arrastam-se entediados.
Tenho sempre vontade de dizer à senhora que não devia fazer isto. Mas não tenho coragem. Ela vem carregada com caixas, sacos, tem uma mala grande com rodas, por ali vem, chamando por eles, orgulhosa da sua boa acção.
No outro dia, quando me viu a fotografar um gato, disse-me com ar vaidoso: 'Têm uma página no facebook'. Eu talvez tenha dito 'Ai é?' porque não me ocorreu dizer mais nada pois o que tinha vontade de dizer era que só faltava mesmo mais essa.
Mas, enfim, fazer o quê? Se eu dissesse alguma coisa a senhora talvez me achasse insensível por não compreender a sua obra caridosa. Chova ou faça sol, lá vai ela naquela sua missão.
Seja como for, os gatos apesar de anafados, são lindos. Têm um ar inteligente. Gosto de os olhar, gosto de ver como me olham com indiferença. Não sei o que pensam eles da sua benfeitora ou o que pensam de mim que por ali ando, sempre encantada com eles. Talvez não pensem nada, talvez nos achem seres inferiores e, na volta, se calhar até têm razão. Não estou a ver os gatos a irem votar para escolher alguém em que, verdadeiramente, não se revêem. Enfim.
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Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
['Os gatos', Manuel António Pina]
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A quem chegou só agora aqui e ainda não viu a Little Blue Girl, Pearl de seu nickname, sugiro que desçam até ao post já aqui abaixo.
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Uma vez, eu falava deste sítio sagrado, no qual eu gosto de andar feita gata da beira-rio ou voar feita gaivota-danseuse, e dizia que é um lugar mágico de onde se vê Lisboa, a cidade magnífica envolta em beleza e luz, dizia que este é um lugar mesmo em cima do Tejo mas onde o rio já cheira a maresia, que é um lugar de silêncios e contemplação. E acrescentei que é também um lugar de decadência: as casas esventradas, as paredes em ruínas. Disseram-me então que em Portugal é tudo assim, que não se cuida de nada. E, ao ouvir isso, eu desejei não ouvir essas palavras porque há muita beleza nesta decadência e tomara que, se um dia alguém transformar este lugar, consiga preservar a sua alma e a sua perfeição. São visíveis as muitas camadas de vida, muitas histórias vividas nestes armazéns antes ruidosos e agora devastados, nestas casas de cujas varandas certamente alguém espreitava o rio e que agora estão abandonadas, quase destruídas, o que antes foram janelas agora parecendo olhos vazios. Mas há harmonia nesta soma de erosões. E há muita beleza no colorido suave deste casario, como se o tempo tivesse suavizado os desgostos, como se as memórias se tivessem aquietado nos recantos, como se os gatos que se esgueiram calassem segredos e apenas as gaivotas que gritam chorassem ausências. Há muita beleza aqui. Muita, muita, tanta.
[NB: Gostavam que lessem o poema em voz alta mas não muito alta, quase como se estivessem a contar um segredo. Eu também vou lê-lo assim]
À minha volta tudo envelheceu
como se fosse eu, e no entanto
uma casa, ou um espaço em branco
entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.
Pois nada
surge com a sua própria forma.
Digo 'casa', mas refiro-me a luas e umbrais,
a lembranças extenuadas,
às trevas do corpo, lúcidas,
latejando na obscuridade de quartos interiores.
E digo 'palavras' porque
não sei que coisa chamar
à mudez do mundo.
E digo 'sentido' sufocado
sob o pensamento
tentando respirar
a golpes de coração,
agora que se desmorona a casa
sobre todas as palavras possíveis.
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O título deste post faz parte de 'Os gatos' e o poema que escolhi para juntar às fotografias é 'Talvez de noite', ambos de Manuel António Pina in 'Como se desenha uma casa'.
Maria João Pires (que, no outro dia actuou em Londres, levando o público ao delírio e emocionando um ilustre conterrâneo que assistia) interpreta Chopin, Valsa no. 7
As fotografias foram feitas esta terça-feira no Ginjal
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.
Esta noite, fruto de movimentações profissionais que obrigam a um breve reajustamento doméstico, para não ficar em casa, parte da trupe veio para cá em regime de meia pensão. A minha filha fica no quarto que era o dela mas os mais pequenos não quiserem ir dormir para o quarto que era do tio e que é mais distante dos outros e, por isso, estão aqui no sofá cama da sala.
O pior é que uma cena destas a meio da semana é para eles como se o fim de semana tivesse sido antecipado. A seguir ao jantar (durante a recta final do qual, para os manter quietos, contei a história de um barco maluco que pregou um tal susto a um golfinho que este desmaiou e teve que ser içado para bordo a fim de ser acalmado), estiveram sossegados a desenhar, a fazer construções, o mais crescido a fazer um ditado (e só deu um erro: às tantas a frase que inventei dizia que ele tinha dado um pontapé na bola e ele escreveu potapé, esqueceu-se do n. Mas pôs os acentos e tudo). Enquanto estavam entretidos, estive a fazer penteados com tranças à minha filha. Herdou a fartura da minha juba embora a cor do cabelo seja a do pai. O cabelo dá para fazer umas 20 tranças e todas de boa grossura, seria perfeito para fazer penteados românticos como os da era dos vestidos compridos, com rendas e folhos, daqueles penteados cheios de puxos, apanhados e tranças.
Depois de estarem tranquilos e bem comportados, desataram a brincar e a partir daí foi uma coisa jeitosa: saltaram, picaram-se, perseguiram-se, esconderam-se, riram; conseguir pô-los calados e sossegados foi o bom e o bonito.
Depois de terem finalmente adormecido, estive com a minha filha a ver a telenovela Lado a Lado e só agora, bem depois da meia noite, consegui ligar o computador e não vou aqui ficar por muito tempo pois, depois disto tudo, está a dar-me um sono que não é brincadeira nenhuma. E amanhã tenho que me levantar cedo pois esta logística de se levantarem, vestirem-se, tomarem o pequeno almoço vai ser outra tourada. Para começar, devem estar cheios de sono pois estão habituados a deitar-se a horas decentes e hoje foi dia de borga, E depois devem querer pequenos almoços demorados como se fosse fim de semana, já para não falar que haverão de se lembrar de fazer mil coisas à última hora, de ir à procura do pião que trouxeram, do livro dos aviões e sei lá que mais. Eu devia era ter metido dois dias de férias. O que me valeu foi que, de véspera, já tinha deixado o jantar adiantado. Fiz logo uma quantidade grande e, por isso, até vão poder levar farnel. A minha filha tem é que ainda ir deixar as caixas de comida a casa antes de ir trabalhar.
Há bocado, depois de jantar, o meu marido ainda esteve a tentar ver as notícias mas o mais crescido não o largava com montagens de aviões. Bem que ele os tentou mandar calar, a eles e a mim também, pois queria ouvir o Nuno Rogeiro. Tenho ideia que os russos nos quiseram atacar, que mandaram uns aviões e tudo. Não sei se estivemos à beira de ser invadidos, se quê. Teria graça. Logo esta noite em que estive neste forró é que os russos nos vinham invadir. Às tantas, amanhã quando for trabalhar tenho a rua aqui de casa ocupada por pára-quedistas russos, um russo pára-quedista dentro de cada pára-quedas, uma coisa de tipo matrioska.
Aviões russos...? Isto não é normal.
Fui agora espreitar o Diário Digital para ver o que era aquilo de que o Rogeiro estava a falar e, pelo menos nos destaques, não vejo nada.
Pelo contrário, vejo que aquela que tenta fazer-se passar por adolescente retardada anda a ver mosquitos na outra banda, isto é, infiltrados no Citius, dois bugs humanos, e que, loura em excesso, já os acusa sabe-se lá de quê e que, autenticamente possuída, até já os esconjurou e correu (ou se prepara para correr) com eles à vassourada, uma tresloucadice que até dói. Vejo também que o láparo, provavelmente em mais um surto la-feriano, desafia os parceiros a apresentarem propostas com clareza, como se aos outros e não a ele competisse governar o país. Claro que a esta hora já não vou abrir notícia nenhuma, bastam-me os disparates que se adivinham através dos títulos.
E parece que não descubro notícias sobre a invasão russa. Às tantas aquilo dos aviões no espaço aéreo português foi um delírio do Rogeiro. Será...? Ou eu que ouvi mal? Não sei.
Espreitei o Expresso e vi que o Pedro Santos Guerreiro fala na aldrabice pegada que foi o passa-culpas relativo à machadada sem paralelo que aplicaram ao BES. Não vou ler o artigo todo. Mas quase adivinho. Logo na altura eu aqui escrevi que aquilo não tinha sido imposição de Bruxelas coisa nenhuma e que coisa tão mal pensada só podia dar em disparate. Sabe-se agora que foram os espertos do governo (o láparo e a sua chefe) que pariram tal aborto. Mas poderia esperar-se outra coisa daqueles progenitores?
E, uma vez mais, acho que não vale a pena especular muito sobre as intenções subjacentes a tanto disparate. A minha opinião é que, uma vez mais, foi burrice pura e dura. Claro que, tenrinhos como no fundo são todos os burros, houve muita gente que se aproveitou deles mas, de resto, tudo aquilo, decisões em cima do joelho, soluções não testadas nem pensadas, é coisa daquelas cabeças ocas.
E depois Carlos Costa que, em minha opinião, não é menos destituído e que, para além do mais, tem uma grande dificuldade em tomar decisões, prestou-se ao papelinho que os outros lhe encomendaram.
Mas adiante que eu a esta hora não posso dar cabo da minha beleza, tenho é que me despachar para me ir deitar.
Custa-me, no entanto, deixar-vos assim sem nada aqui que se aproveite e, por isso, partilho convosco o que tenho estado a ouvir enquanto escrevo. Duas mentes brilhantes à conversa, Manuel António Pina com Agostinho da Silva em mais uma conversa vadia: muito bom. Com pessoas assim a gente aprende sempre. São o oposto da papagaiada que agora pulula pelas televisões e com quem a gente nunca aprende coisa alguma.
Conversas Vadias
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As pinturas que usei para sarapintar o texto são da autoria de Aelita Andre, uma menina australiana que agora já tem sete anos mas que começou a pintar antes de fazer 1 ano, que teve a sua primeira exposição com quatro e que está no centro da polémica: pode considerar-se uma criança desta tenra idade já uma artista?
Aelita: Secret Universe
Isto também não é normal... Esta Aelita é do além.
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Bem, vou dormir que estou que não me aguento.
(Relevem gralhas que acredito que as haja de toda a espécie e feitio, está bem?)
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.