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segunda-feira, julho 14, 2025

Dois Homens com H

 

Foi um domingo calmo, intercalando a leitura e os banhos de sol por períodos de alguma sonolência. Também andei a regar, pois se há coisa que gosto de fazer é de regar, de preferência descalça para sentir os pés molhados.

Não tive que cozinhar: comemos restos e mais um ou outro complemento. 

Ao almoço ligámos a televisão, mas não suportámos as más notícias. Bem sei que nos alienamos se nos afastarmos do que se passa no mundo. Só que se passam milhões de coisas boas mas se, no meio desse milhão, vier uma rajada de vento que levante uma telha, é nisso que os jornalistas se vão focar esquecendo tudo o que de bom aconteceu. O noticiário estava a ser uma sucessão de infelicidades, uma colecção de acontecimentos nefastos -- desistimos. 

Agora à noite, depois da nossa caminhada, o meu marido quis ver o futebol, era uma final, parece que tinha que ser nesta televisão. Fui para a outra sala. Posicionei-me nos Casados à Primeira Vista. E adormeci. Não sou capaz de dizer se vi alguma coisa pois, se vi, varreu-se-me instantaneamente.

De tarde pensei que hoje poderia escrever sobre o livro que estive a ler pois, lendo aquelas crónicas, uma opinião se vai formando sobre o que é a motivação, o móbil de vida de um editor, em particular aquele que ali vai desfiando memórias, Manuel Alberto Valente. Creio que o que dali depreendo explica muita coisa. Mas ando com um espírito que não sei se é vadio, se é veraneante, se é simplesmente preguiçoso... Por isso, deixo essa conversa para outro dia. E talvez seja mesmo melhor adentrar-me mais na leitura para não correr o risco de tirar conclusões precipitadas.

À noite, geralmente depois de escrever aqui, como escrever me obriga a estar de olhos abertos, aproveito para ver alguma coisa antes de ir dormir. Nos últimos dias tenho visto o Homem com H. Dado ser sempre tarde e dado estar com sono, tenho visto pouco de cada vez pelo que ainda me falta um bocado para acabar. Mas tenho estado a gostar de mais. 

Ney Matogrosso é um personagem extraordinário. E quanto mais o tempo passa mais extraordinário o acho. Há uns anos, embora gostasse muito de o ouvir, havia ali qualquer coisa que era tão extravagante que eu não sabia se era totalmente genuíno ou um certo gosto em provocar e essa dúvida levava-me a não aderir a cem por cento. Gostava, ouvíamos bastante, mas parece que ficava sempre ali a pairar a questão: ele é mesmo assim, tão superlativo e tão fora da caixa, ou há ali uma encenação que exagera o que ele é? Mas, quando evoluí, fui percebendo que isso era de somenos e que a dúvida, que era minha, não podia levar-me a olhá-lo com alguma reserva. Tinha era que aceitar sem questionar. 

Ney era um bicho, um bicho extraordinário, cantava maravilhosamente, tinha um reportório também fantástico -- e tudo isso tinha que ser suficiente para gostar dele sem qualquer reserva. 

E escrevi que ele era, escrevi no passado, só mesmo por burrice, pois ele está vivo, bem vivo, em forma, jovem, ninguém diria tratar-se de um octogenário. Aliás, olha-se, ouve-se e não se acredita. Afinal tantos excessos não lhe causaram danos, parece que bem pelo contrário, deram-lhe foi saúde.

Mas o filme, que tenho visto na Netflix, misto de filme e de documentário, não apenas retrata a vida de Ney Matogrosso em todas as suas dimensões, não apenas a artística mas a pessoal -- e, neste domínio, a activa e algo louca vida sexual (como ele diz, marchava tudo) -- como tem um intérprete que é igualmente fabuloso. 

Reproduz o Ney de uma forma perfeita, quase assustadora de tão perfeita. Segundo abaixo se verá, Jesuíta Barbosa perdeu 12 kg para reproduzir os 53 kg que Ney tinha nessa altura, estudou os seus trejeitos, os requebros, a forma de olhar e falar.

E há algo nele que parece estar desenhado para encarnar o espírito e a carnalidade de Ney. 

Ver para crer.

A quem tenha a oportunidade de mergulhar no filme, muito vivamente o recomendo. E, para abrir o apetite, aqui fica a conversa de Bial com ambos, a cópia e o original, dois homens extraordinários. E botem h nisso.

Pedro Bial entrevista Ney Matogrosso com participação de Jesuíta Barbosa | Conversa com Bial

No último Conversa com Bial (24/04/2025), Pedro Bial recebeu o icônico cantor Ney Matogrosso e o talentoso ator Jesuíta Barbosa, protagonista do filme Homem com H, cinebiografia que retrata a trajetória de Ney.

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Be happy

quinta-feira, outubro 22, 2020

Não confio em médicos que nunca examinam
[Post com mezinhas dentro: para a secura vaginal, para a impotência sexual, para a ejaculação precoce, para as pedras nos rins, para as dúvidas existencialistas e para muitas outras maleitas]


O meu dia foi de seguida, quase sem pausa para almoço. Mas tudo a andar bem, todos in the mood. Não for love mas, ainda assim, na boa. Dia sem stress e sem crise é dia bom, dia em que parece que a paz pousa em mim como uma daquelas abençoadas rolas brancas que, por aqui, pousa nas árvores. 

Ao fim da tarde, quando nos reencontrámos em casa, fomos caminhar. Conversamos, observamos as casas e os jardins enquanto andamos. Depois, de novo em casa, fomos prender ramos e hastes da trepadeira, guiando-os para que floresçam como um arco. 

Os telefonemas do fim do dia também todos tranquilos. Sem chover, os pássaros contentes, as flores a desamarrotar as grandes pétalas, tudo na serenidade.
[Não quero saber dos chiliques e das petulâncias das meninas bloquistas. Aquilo não faz o meu género. Tudo se há-de resolver. Não perco tempo com fricotes.]

Já tarde, a noite já avançada, recolhi ao sofá e adormeci. Uns minutos apenas mas os suficientes, os que me faltavam. Fico logo mais fresca, com vontade de me surpreender. 

Circulo, então, por onde posso. Em dias assim não pego em livros, parece-me que se me fecha a disponibilidade para coisa que se adentre em mim. Ponho-me, então, a navegar aos deus-dará.

E, então, deambulando na vagabundeza, fui parar a mais um antológico trecho de Eberth Vêncio. 

E, ao lê-lo, recordei a vez em que constipada, congestionada e engripada resolvi ir ao médico. Não havia corona-dos-totós pelo que foi sem medos que lá fui, apenas por não saber o que tomar. Era menina recém-casada, andava a estudar e a dar aulas, não queria piorar, não queria faltar aos meus compromissos. Morava num lugar totalmente desconhecido, sem quaisquer conhecidos por perto. O meu marido disse que, ao fim da rua, tinha visto uma tabuleta, médico de clínica geral. Lá fui. Era um homem já entrado. Perguntou de que padecimento me queixava. Não eram precisas grandes explicações: a voz, o semblante, os olhos, tudo falava pelo meu estado. Mandou, então, que passasse para a sala ao lado e me deitasse na marquesa. Mandou-me que despisse as cuecas. 

Estaquei, incrédula. 

Mandou-me que pusesse as pernas num suportes. Admirada, não obedeci: 'Acho que não percebeu o que eu disse'. Mas sentia-me febril, sem energia e doente. Faltavam-me as forças para me rebelar. Ele disse: 'Percebi bem. Mas este é o protocolo.'. Tentei protestar: 'Estou constipada ou com gripe, só isso'. Ele, seco, médico velho e sem paciência para frescura de menina, zangou-se: 'O médico aqui sou eu. Tem que ser observada e fazer uma lavagem vaginal'. Em condições normais, teria saído porta fora, talvez a correr para apresentar queixa na Ordem. Mas estava sem força, doente, zonzinha de todo. Ainda hesitei, mas até para a hesitação me faltavam as forças. Ele já estava com um reservatório na mão, autoritário: 'Deite-se'. E eu, fraca e doente, deitei-me. Pela primeira e única vez na vida, fizeram-me uma lavagem vaginal. Furiosa com o bode velho, furiosa comigo, mas sem energia para atear a fúria, deixei que a fizesse. Logo a seguir, ainda sem perceber o que me tinha acontecido, levantei-me. Auscultou-me, viu-me à transparência, viu-me a garganta, os ouvidos, prescreveu-me o que entendeu, mandou que me apresentasse lá passados uns dias. Nunca mais. Saí de lá doente e desnorteada. Quando contei ao meu marido, ficou espantado. Também eu. Ao fim de tanto tempo ainda estou: o que foi aquilo? Abuso? Reinação? Método arcaico?

Mas, enfim, coisas esdrúxulas que acontecem na vida de uma mulher. 

Mas passo, então, ao texto Não confio em médicos que nunca examinam do grande Vêncio.

Bom mesmo era o doutor Pecker que colocava as mãos na clientela sem pressa, malícia e asco. Sobretudo, aceitava o pagamento em bandas-de-leitoa. Decorava bulas, sonetos e até “O Navio Negreiro”, de Castro Alves. Tinha cultura e boa memória. Para tratar pedras nos rins, quebrava os rigorosos protocolos científicos ao receitar os caminhos tortuosos de Drummond. Para a contenção dos gêiseres fertilizantes e dos fluidos contaminados por intrépidos treponemas que espocavam das varas, instruía o uso de camisinhas-de-força.

Para evitar o dissabor de um neném não planejado, servia-se aos casais um tira-gosto: azeitona; sim, uma azeitona estrategicamente alocada entre os joelhos da mulher amada. Era batata, ou melhor, era azeitona; desde que não se deixasse cair o caroço na cama. Aliás, azeite alentejano, para amenizar a secura vaginal, fazia parte da régia estratégia para escorregar-enguia-na-loca e temperar o relacionamento durante os bravos verões da menopausa.

Para corrimento, pausa. Para os dias de TPM, recomendava guardar melhor distância. Para frieza sexual, receitava jeitinho mais cobertor de orelha. Para ejaculação precoce, indicava manteiga-de-tartaruga e punhetas com a mão esquerda. Macetes para inzonar. Para garantir plena eficácia contraceptiva, caçava gametas com a mesma gana de quem caçava confusão; instalava, ele próprio, fraco e mirradinho, com o artifício de binóculos e de um cilibrim, minúsculas arapucas e umas tais micro-ratoeiras importadas da França (tinham ratos de sobra em Paris naquela época) para surpreender o verter das picas e capturar espermatozoides no arcabouço da cratera vaginal.

Havia uma compreensível, justificável e natural falta de luz no fim do túnel. Ali, deitado em berço esplêndido, jazia boquiaberto um colo uterino, prestes a engolir novas expectativas de vida. A mãe-do-corpo, como sempre acontecia, urrava. Mulher sofria e sofre. Não restava dúvida ao médico ateu de que as fêmeas da espécie tinham levado imensa desvantagem durante o ato divino da criação.

Padecia também o descrente doutor desses tipos de incongruências filosóficas. Para retesar o desatino da frouxidão crônico-involuntária dos esfíncteres e dos orifícios, deveria o moribundo piscá-los em salvas de trinta vezes, a intervalos de oito horas.

Para a impotência sexual masculina, ovos-de-pata mais os famosos exercícios de levitação do professor Karnal. Para dor de veado, tinturas de arco-íris. Para frieira, beirada de rede. Para batedeiras no peito, repiques com o dedo indicador num portal de madeira para ensinar o coração a bater no ritmo correto.

Para as dúvidas existencialistas, listas de exercícios de matemática. Para transtornos bipolares, uma terceira opinião. Para moléstias mentais do tipo desespero de causa e loucura absoluta, cadeiras elétricas de frente ao mar. Amar. Carecia armar o espírito, no qual ele não cria, com aquelas cálidas cápsulas de claves-de-sol. Mais incongruências.

O tempo passou. Há roupa no varal e doses homeopáticas de devaneio nesse texto em tributo à medicina humanizada. Espero ser bem compreendido. Adveio tecnologia avançada com o uso trivial de caríssimas máquinas-de-tirar-dúvidas nas quais se entra numa extremidade, enquanto o laudo sai noutra. Ganha-se de um lado, perde-se de outro. Eis a vida. Já não se fazem mais médicos como o desprovido doutor Pecker que sumiu engolido por sucuri.

Instruído por Hipócrates, arrancava bala à grito, mandava veia parar de sangrar e cochichava coisas que ninguém entendia enquanto operava milagres num singelíssimo hospital no interior do Brasil. Se eu não soubesse da sua flauta de fé, poderia jurar que se aconselhasse com o próprio Deus enquanto desembaraçava tripas.

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E um dia feliz. 

Força. Saúde. Alegria.

quinta-feira, abril 02, 2020

Ao dia não sei quantos de quarentena, dia frio, triste e chuvoso, com o peito vazio





Dia muito preenchido, dia absurdamente cansativo. Na empresa, e, se calhar, em quase todas as empresas, parece que toda a gente está a reagir de forma hiperactiva. Toda a gente quer avançar em força com muitos projectos, toda a gente ao mesmo tempo, como se toda a gente quisesse compensar a perda de actividade económica com uma forte dosagem de trabalhos que, podendo-se fazer em teletrabalho, mais vale fazê-los já antes que seja tarde demais.

Então, estou em sucessivos meetings e a ver que estão a convocar-me para outros e, passado um bocado, já vejo o meeting, que não aceitei, no ar e que, estranhamente, estão a tentar puxar-me para lá. Envio mensagem a dizer que estou noutra reunião. Mas, mal acabo aquela em que estava, já estou a receber uma convocatória para daqui por dois dias para fazer o seguimento da reunião que acabou de haver e na qual não estive. Uma loucura. É desde que me ponho o pé no chão até tarde na noite. Mal tenho tempo para almoçar, janto às quinhentas. Exaurida. E aborrecida com tudo isto.


E, ao sentar-me, um telefonema. Um conhecido diz-me que um familiar próximo está com covid e ele e a mulher, e sabe-se lá mais quem, certamente também. E uma pessoa fica pregada. Pregada. Do outro lado, o silêncio, depois a voz do medo. Medo. Ligo a outra pessoa a tentar perceber o que podemos fazer. Do outro lado, o silêncio. O medo. Nunca antes senti, como sinto agora, do outro lado, a materialidade do medo, mesmo quando o sinto traduzido em silêncio. Medo. O contágio invisível, o contágio entre os que se amam. A dor, o medo.


Como se não bastasse, esteve um frio de rachar e choveu que se fartou. Tive que me encher de roupa o que, em mim, é coisa nunca vista. Não faz parte de mim ter várias camadas de roupa em cima. Sou bicho de pele descoberta ou, vá lá, apenas levemente coberta.

Acresce que, obviamente, estamos os dois a partilhar na mesma casa, ambos cheios de trabalho e de videoconferências. Não podemos estar ao pé um do outro. Toca um telefone, toca outro, ouve-se um a falar, ouve-se o outro. Toda esta zona da casa comunica entre si, sem portas. Uma dificuldade acrescida, nestas circunstâncias. E aquecer a casa toda tem sido uma dificuldade.

O dia foi de tal maneira que nem consegui pôr o pé na rua. A bem dizer, nem consegui chegar-me à janela. Em dias assim, gosto de estar junto às janelas de vidro vendo a chuva, vendo o vento e o frio a dar nas árvores. Ficam muito bonitas as árvores em dias de frio, vento e chuva. Lavadas, livres, belas, vestidas de verdes exuberantes. Mas hoje apenas vi de longe. Vi e ouvi mas, infelizmente, sem poder prestar atenção. A dado momento pareceu-me ouvir um ribombar ao longe. Agucei os sentidos. Quis que trovejasse, mesmo. Se era para estar mau tempo, pois que viesse trovão, relâmpago, golpe de vento, gelo a valer. Mas se era trovão ao longe, pelas lonjuras se ficou. Não vi azul, nem nesga. Nem para saudade tive tempo.


Em tempos, distantes tempos, houve uma varanda florida, uma escada que descia para a rua, entre flores, e acho que o céu estava azul e que tudo sorria, o azul do céu, a sombra das árvores, as cores das flores, nós. Há muito, muito tempo. Numa outra vida. Não sei se noutra vida, se até noutro planeta. Não sei mesmo se outra-eu. Daqui por algum tempo talvez pense que nem nunca existiu esse outro tempo. 

Não há muito, talvez há uns dias, alimentei a esperança de que por esta altura estaria eu a sacudir almofadas, a arejar cobertores, colchas e almofadas. A casa iria ser invadida, haveria meninos a brincar, a correr na rua, a jogar à bola, sentados à mesa. O ano passado, um dos meninos, à mesa, lambendo-se com os petiscos da sua Tá, disse: 'Isto sim, isto é que é vida'. Quando nos rimos e, perguntámos porquê, disse que aqui podiam brincar, subir às árvores, fazer o que queriam e comer comidas boas. Fiquei toda contente e ainda me lembro do ar satisfeito dele. Contou-me a mãe que, numa composição, escreveu que tinha saudades de cá estar. Entristeço-me. Como aconteceu uma coisa destas?, não me canso de me interrogar. Fez no outro dia anos, este meu querido menino, e gostou da festinha virtual que a mãe organizou, com família e amigos. Vamos inventando novas formas para tudo. Somos animais mutantes. Mas sinto tanta falta de os abraçar. Quando fazem anos, depois de apagarem as velas, gosto de me me chegar a eles para lhes dar um beijo e desejar que contem muitos e felizes anos de vida. Desta vez não foi possível. E ainda não aprendi a dar abraços virtuais, em especial quando o amor é muito.


Há pouco escrevi um mail pessoal mas em contexto profissional. Andava para fazê-lo. Sei que é assunto que agora parece disruptivo, sei que quem o recebeu não está ainda preparado para encarar a verdade que antevejo. Sei, pois, que o que escrevi vai ser recebido com desconfiança e sei que, se bem conheço aquele que a esta hora deve estar a lê-lo, depois vai ficar inquieto, hesitando entre fazer de conta que não leu ou levar-me a sério. Sei que se esforçará para não me levar a sério. Mas tomara que leve pois o que aí vem -- não sei quando -- será uma realidade apesar de ainda não a conhecermos. Não vai ser a continuidade do que era nas primeiras semanas de Março deste ano que eu pensei que, pela graça do número, 2020, seria um ano bom e que, até ver, está a ser um ano pavoroso. Mas, se fomos apanhados desprevenidos, batidos por um merdinhas invisível, temos agora a obrigação de ser inteligentes e saber dar a volta por cima, tornado-nos menos nocivos para o planeta, para a natureza, para os outros.

Mesmo num dia frio, triste e chuvoso, mesmo sentindo o peito vazio, esforço-me por pensar nos dias que virão a seguir e que quero imaginar que serão os promissores dias de um mundo novo, dias que festejaremos com a ajuda de Sophia, dizendo:

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

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Bem. Para ver se me animo, vou ver o mais recente vídeo de Liziqui.
Comidas floridas, aspecto delicioso, uma paz feita de gestos silenciosos, vagarosos.

不能去人多的地方扎堆儿,赶在上巳节这天家门口春个游


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A street art dedicada ao merdiúnculo do corona foi avistada por um Panda aborrecido

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E eu desejo-vos um dia caloroso e bom. Apesar de tudo.

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quinta-feira, janeiro 21, 2016

Ok Go -- e o Ney e uma das minhas gaffes para esquecer [Red Alert: Este post, em parte, não é de salão]


Ora bem. Depois de, no post abaixo, ter o Pedrão por quem o Índio estava pedradão (tenho que me concentrar na palavra Pedro porque, com Cabral, posso enganar-me*), sigamos para uma outra realidade. 

* Mas antes deixem que vos conte. Não é coisa fina, não é de salão, a sério que não, mas, com vossa licença, fechem os olhos que eu vou contar.
Sou meio despistada e, então, quando há alguma coisa que me dá vontade de rir e que eu quero evitar, é um problema. Ou se há qualquer coisa que quero ter em mente... outro problema: geralmente o resultado é o oposto do que quero.
O caso que vou contar é do segundo tipo. 
Temos um amigo que é um bacano, um bem disposto. Mas um desbocado. Ele e o meu marido estão bem um para o outro, sempre a precisarem de pimenta na língua. Houve uma altura que, quando nos juntávamos, púnhamos música brasileira -- a Gal, a Rita Lee, o Ney Matogrosso e outros -- alto e bom som e fazíamos coro com eles, cantávamos a plenos pulmões, dançávamos (excepto o pé de chumbo do meu marido, claro). Ora eles, ordinários, divertiam-se com trocadilhos parvos e, se os miúdos não estavam por perto, em vez de dizerem Ney Matogrosso, diziam Ney Mete o grosso.  
Uma vez, havia um concerto e íamos todos, incluindo os meus pais. Antes, fomos jantar e eu estava a todo o momento a repetir mentalmente: Ney Matogrosso, Ney Matogrosso - apesar de não ser eu que fazia o trocadilho, despistada como sei que sou, tinha medo de me trocar e armar barraquinha. 
Sentámo-nos, então, todos à mesa, miúdos incluídos (miúdos que já eram adolescentes, já entendedores) e vou eu, falando do cantor  saio-me com esta: 'Não sei quê, não sei que mais... o Ney Mete o grosso'. Ao dizer isto, fez-se o silêncio. Ficaram todos de boca aberta a olhar para mim, o meu marido estarrecido, os miúdos ainda mais, os meus pais de olhos esbugalhados e eu, ao dar pelo engano, apesar do embaraço, perdida de riso com a estupidez da situação. Ainda agora, ao lembrar-me da cena, estou para aqui já a chorar de rir. Que cena! Claro que o meu marido, só para me deixar ainda mais a fazer figura de parva, deve ter feito um ar chocado, escandalizado com a grosseria, e, ao ouvido, é bem capaz de me ter dito que não se pode mesmo confiar em mim. Coisa que, claro, me deve ter feito rir ainda mais.
Bem. Adiante. Episódios da minha vida que não abonam muito a meu favor. Mas, de qualquer maneira, o que vos digo que, por causa disto, ainda hoje evito dizer o nome do homem em público, com medo de novo deslize. Adiante, adiante.

Mas, então, vamos lá ao que aqui me traz. Gosto dos Ok Go. Já aqui os trouxe e hoje trago de novo. Gosto da boa onda, dos efeitos visuais, acho que o futuro está a passar por mim quando os vejo.




Vou mostrar-vos um vídeo que acho giríssimo e depois vou deixar-vos o link para o site interactivo onde poderão ver algumas cenas. Muita pinta, é o que vos digo.

OK Go - The Writing's On the Wall






E agora, se estiverem para aí virados, cliquem aqui e, quando entrarem no site, vão clicando nos números e depois escolham entre ver a cena no vídeo ou o behind the scene. 

(Gosto destas coisas, gosto mesmo)
...

O filme do Descobrimento vem já a seguir.

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quarta-feira, abril 22, 2015

Livros novos cá em casa


É mais forte que eu e, agora que li a opinião de Umberto Eco, ainda mais legitimada me sinto para me atirar para fora de pé: é uma tentação, enfiar-me nas livrarias. Tivesse eu à mão um museu e se calhar também me ia lá enfiar à hora de almoço mas, como não tenho, servem as livrarias mesmo. 

Percorro a livraria, fujo dos best sellers, poupo a vista não encarando os que têm capas radiosas, não me detenho nos romances históricos, nos policiais, nos de suspense, de vampiros ou de códigos religiosos, nos de auto-ajuda, nos de mandamentos de economia e de sucesso à pressão, nem nos de dietas nem nos de banda desenhada - sou preconceituosa, eu sei - e procuro o que me parece ser mais marginal, mais próximo da minha própria realidade (sendo que a minha própria realidade é qualquer coisa em construção e que ando a tentar descobrir).







A carta de Lorde Chandos, Hugo von Hofmannsthal, introdução de Hermann Broch, Relógio D'Água


É bondade sua, muito estimado amigo, ignorar este meu silêncio de dois anos e escrever-me como me escreve. É mais do que bondade dar à sua solicitude para comigo, à sua perplexidade pela letargia espiritual em que lhe pareço ter caído, esse tom de ligeireza e ironia que é próprio apenas dos grandes homens marcados pelas atribulações da vida, mas que nem por isso se deixam desanimar.

Atelier, Diogo Freitas da Costa, Fundação Francisco Manuel dos Santos


Capítulo 1 - Ana Vidigal, A casa redonda
Ando há 30 anos a cortar e a colar coisas
Ao abrir a porta do atelier, Ana Vidigal estava ao mesmo tempo a abrir-me a porta da sua casa. Vive e trabalha numa típica rua de um bairro popular lisboeta: uma via estreita, ladeando uma encosta que se ergue frente ao rio. É um lugar com muita 'vida de bairro', como se costuma dizer, onde se sente que o quotidiano é feito da permanente fusão entre a vida doméstica e a vida social.

À porta do farol faz escuro, Simone Weil, Apostolado da Oração


O mais puro amor


Tudo o que em nós
é vil e medíocre
se revolta contra a pureza
e necessita,
para salvar a vida,
de sujar essa pureza.

Sujar é modificar,
é tocar.
O belo é aquilo
que não se pode querer mudar.
Exercer domínio sobre,
é sujar.
Possuir é sujar.

Amar puramente
é consentir na distância,
é adorar a distância
entre cada um
e aquilo que se ama.

Éter, António Cabrita, abysmo


Ainda não me saíram da pele os teus quatro tiros de caçadeira. É uma maneira de dizer que o seu eco ainda me perfura os tímpanos, devolvendo-me ao momento em que entrei no táxi e a rádio vomitou, Liquidou a tiro a mulher, o filho (que adoravas) e o gato, antes de virar o cano para si, deixando a boca descaída num esgar contido, bruto. Ainda não me saíram da pele.


How to design a Light, Design Museum


A light is a physical object, just as a chair is a physical object, the specifics of its design shaped variously by aesthetics, technology, materilas, engeneering anf function. But a light is not simply a three-dimensional form: it both occupies space and existis as a means of revealing and describing space. A light makes light, and light is a presence that can't be touched, although it is profoundly felt in an emotional sence.


Walden ou a vida nos bosques, Henry David Thoreau, Antígona (... este acho que já cá anda por casa...)


Quando escrevi as páginas que se seguem, ou melhor, a maioria delas, vivia sozinho, a mais de quilómetro e meio de qualquer vizinhança, numa casa que eu mesmo construíra à margem do lago Walden, em Concord, no Massachussets, e ganhava a vida apenas com o trabalho das minhas mãos. Aí vivi dois anos e dois meses. Actualmente regressei à civilização.

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A música é de Pedro Jóia que a toca com Ney Matogrosso - "Porta do silêncio"


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