Nem de propósito: hoje, quando ligámos a televisão, um pouco antes das 20h, estava a dar uma síntese ou um anúncio, não percebi, do programa Casados à Primeira Vista. E, aí, assisti a outro momento extraordinário: uma senhora de sessenta e picos anunciava-se como Terapeuta Sentimental, explicando que durante cerca de trinta anos tinha sido esteticista. Dava a ideia que a carreira de esteticista tinha sido a base formativa para passar para o degrau acima: exercer terapia sentimental. Mais à frente, mostrava-se com anéis enormes, pavorosos, e enaltecia os benefícios daquela pedraria de pechisbeque na afirmação pessoal.
E eu fiquei a pensar: mas que género de pessoas paga a uma tal 'profissional'? E o que é que ela vende? Conselhos? Anéis?
Passou de esteticista para terapeuta sentimental. E, portanto, concluo eu, isto parece que agora as profissões já não têm que ser homologadas. Nem obedecem a nada. Cada um inventa a profissão que lhe apetece. Aqui não há ASAE que consiga verificar se estão a ser cumpridos requisitos, respeitados valores profissionais, se não está a ser vendido gato por lebre. Nada. Tudo à margem de tudo, imagino.
O que eu gostaria de saber é, a nível de Finanças, como é? Quando recebem dinheiro dos clientes é na base do toma lá, dá cá e... impostos viste-os? E a AT deixa que as pessoas vivam com mais do que o que oficialmente recebem, e não tem mecanismos para ir atrás?
Claro que isto é arraia-miúda. Dir-se-á que não é por aí. Pois. Mas multiplique-se pelos vários milhares de pessoas que exercem estas novas profissões e talvez já tenha expressão. Mas vale para esta como para todas as influencers e toda a matilha que por aí anda a ganhar dinheiro de qualquer maneira, sem acrescentar qualquer valor ao País -- e, às tantas, ainda criticam o estado das coisas quando não devem pagar 1 euro de impostos. Parasitam a sociedade.
NB: Note-se que estou a falar em abstracto pois não conheço a dita senhora de lado nenhum, não é, nem poderia ser, dela, em concreto, que estou a falar. Se a dita concorrente daquele programa for uma zelosa cumpridora de todas as regras, mandamentos e preceitos, maravilha. Mas eu não estou a falar dela, estou a falar em geral, em abstracto.
Outro exemplo. Não há muito tempo, ao falarem-me de uma pessoa, disseram-me que tinha uma empresa. O meu sexto sentido farejou coisa. Para me provarem que eu não tinha razão, disseram-me qual a empresa. Fui verificar. De facto a empresa existe, de facto essa pessoa é sócia, creio que sócia única. Objecto social: registo de patentes. Aí o meu faro apurou-se ainda mais. Melhor: eriçou-se. Registo de patentes?! Sei bem o que é a actividade de registo de patentes, sei o que exige. Afirmei categoricamente que a história estava mal contada. Era impossível aquela pessoa ter uma empresa de registo de patentes. Algum tempo depois, mostraram-me algumas facturas emitidas por essa empresa. Numa facturava 'x dias' a um certo valor unitário, sem especificar dias de quê. E numa outra facturava 'x items' a um outro valor unitário, também sem especificar quais os items. Valores baixos. E, obviamente, nada de nada de nada de nada a ver com patentes. Ou seja, quem tinha emitido aquelas facturas não fazia a mais pálida ideia do que são patentes. Como a internet tem destas coisas, googlei o nome da pessoa. E, claro, certinho, direitino, fui parar à sua página de instagram. Na sua inocência (ou estupidez), a pessoa tinha vídeos a promover os seus produtos, chegava a mostrar-se em casa a abrir uma caixa de cartão e a retirar os produtos: cintas. Cintas a granel. Cintas para afunilar a cintura, ocultar a barriga, salientar o rabo. O que ela vendia eram cintas. Nesses vídeos, dizia às pessoas para lhe encomendarem antes que esgotassem. Percebi que as vendas se faziam por ali. Provavelmente, as pessoas mandam mensagem a dizer que querem, ela deve dizer o MB Way, as clientes devem dizer a morada para envio, e está feito. Imagino eu. Devia fazer uma meia dúzia de facturas por ano para fazer de conta e o resto sabe-se lá como. E volto a dizer: imagino. Não sou inspectora das Finanças, não me compete andar atrás. Por isso, certo, certo, comprovado, não posso afirmar. O que sei é que, nas Finanças, está registada como uma empresa de venda de patentes. Profissão: empresária.
Fico perplexa, banzada, quase em estupor catatónico com o desplante desta gente. Meio mundo a inventar, a passar ao lado, a vender embustes e tretas. E para tudo há clientela. Seja a estupidez encartada do human design, seja os psicoterapeutas somáticos, os terapeutas sentimentais, os mentores de lifestyle, os criadores de conteúdos digitais, seja toda essa chusma de empresários que criam uma empresazeca de vão de escada e que não devem ser sujeitas a qualquer controlo -- para tudo há clientes. Para tudo. Ou seja, se estas pessoas, estas embusteiras, ao todo, serão da ordem dos milhares e se, cada uma, tiver umas centenas de clientes, já estamos a falar de centenas de milhares de obtusos que consomem e pagam por toda a espécie de porcarias -- ou seja, teremos a ideia da dimensão da mancha humana que é a nódoa de gente que consome todas estas patranhas.
Se calhar, verbas não da ordem dos biliões. é que, para além desta arraia-miúda há depois os tubarões. Bem sei. Concordo. Mas, seja muito ou pouco, é dinheiro que outros estão a pagar a mais para cobrir o que os que deveriam pagar não pagam. E é o princípio. E é a seriedade do sistema que é posta em causa. É aquela corrupção miúda, corrupção moral. E aquele sentimento aflitivo de que há os tais 25% da população que integram ignorantes, gente mal formada, obtusos, invejosos, crápulas, estúpidos, gente que, ainda por cima, geralmente entrega o seu voto a partidos que são se alinham com a democracia, com a verdade, ou com o bom desenvolvimento do país.
Não admira, pois, que, em Portugal, também 25% da economia seja paralela. Ah pois é, bebé.
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