Li esta semana a newsletter do Robert Guest, director-adjunto da Economist, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk. O texto é curto, mas junta num único parágrafo três ideias que merecem ser separadas antes de serem discutidas: a defesa da fortuna dos bilionários, a profecia de Musk sobre o fim do dinheiro e o aviso, vindo do próprio Musk, de que a IA poderá deixar de nos obedecer.
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| Imagem gerada pelo Chat GPT |
Começo pela primeira. O Economist argumenta que a maior parte da riqueza dos bilionários actuais não vem de heranças nem de cunhas, mas de indústrias competitivas, e que isso beneficia o público. É uma tese defensável, e Guest tem a honestidade de admitir a sua própria ironia biográfica: foi bilionário durante uma noite, em Angola, na era da hiperinflação, o que reduz o conceito ao absurdo antes mesmo de o discutir a sério. Mas a tese generaliza um argumento sectorial (tecnologia, sobretudo) para uma classe inteira de fortunas que inclui petróleo, imobiliário e finanças, sectores onde a relação entre riqueza e benefício público é muito menos evidente. Defender os bilionários em bloco porque alguns deles inovaram é o mesmo erro, ao contrário, de condená-los em bloco porque alguns herdaram ou exploraram posições dominantes.
A segunda ideia é a mais reveladora. Musk prevê que, dentro de poucos anos, o dinheiro deixará de ter importância, incluindo a sua própria fortuna de 750 mil milhões de dólares, porque a IA criará uma abundância tal que acumular moeda deixará de fazer sentido. É uma promessa antiga com roupagem nova: sempre que uma tecnologia promete acabar com a escassez, promete também acabar com o poder que a escassez sustenta. Ora quem faz esta previsão é, precisamente, quem mais beneficia de adiar a redistribuição desse poder até esse dia hipotético chegar. Enquanto a abundância não chega, a fortuna, o controlo das empresas e a influência política continuam concentrados nas mesmas mãos que prometem dissolvê-los amanhã. É uma escatologia conveniente: pede-se fé no fim dos tempos a quem já detém o presente.
A terceira ideia é a que devia preocupar mais gente e preocupa menos. Musk admite, na mesma entrevista, que a IA poderá vir a ser tão mais inteligente do que os humanos que a nossa relação com ela se pareça com a relação entre um chimpanzé e um humano. A proposta de segurança que oferece, os próprios pioneiros da IA vigiarem-se uns aos outros, com o governo como rede de protecção, é notavelmente fraca para o tamanho do risco descrito. Confiar a auto-regulação a um punhado de empresas em competição directa entre si, cada uma com incentivos financeiros para acelerar em vez de travar, não é uma política de segurança, é uma declaração de intenções. O próprio artigo lembra a fuga recente de um modelo de uma jaula supostamente segura, o que só sublinha a distância entre o discurso tranquilizador e os factos já disponíveis.
Vale a pena juntar a isto a crítica de Tim O'Reilly, citada no mesmo texto: Musk estaria a construir uma forma de capitalismo sem os controlos que os accionistas normalmente exercem sobre os gestores. Esta observação liga as três ideias anteriores. Um homem que concentra poder sobre empresas sem supervisão efectiva dos accionistas, que promete uma abundância que ainda não chegou, e que ao mesmo tempo admite não ter a certeza de conseguir controlar a tecnologia que está a construir, não está a oferecer garantias, está a pedir confiança antecipada. E a história do luddismo, também referida na mesma edição, devia servir de aviso: não é que os luditas estivessem errados sobre o impacto da mecanização nas suas vidas, estavam errados sobre a possibilidade de a travar. A pergunta que interessa hoje não é se a IA vai mudar tudo, é quem decide os termos dessa mudança enquanto ela acontece, e não depois, quando já não houver nada a negociar.
Este texto parte do editorial de Robert Guest na newsletter da Economist de 24 de Julho de 2026, a propósito da entrevista de Zanny Minton Beddoes a Elon Musk.

1 comentário:
O principal problema com as enormérrimas fortunas é a concentração de poder político e económico que lhes é consubstancial. Tanto faz se houve ou não mérito na sua obtenção. Esta acumulação desmesurada de poder é o argumento central para justificar que se limite drasticamente a concentração de riquezas descomunais nas mãos de um fulano ou um pequeno grupo. O mérito e as heranças são palha para esta questão. Se fosse só para comprar iates e top models - tudo bem por mim. (Às vezes pergunto-me o que fumarão e beberão em Oxbridge para que mais tarde escrevam na Economist de forma tão abertamente "disingenuous". )
Acresce que mesmo quando o mérito é real, a questão de saber se o mérito coube a x ou a y não é muito relevante do ponto de vista sistémico/social. Se não fossem x ou y a realizar z, seriam v ou w. As descobertas científicas e técnicas são o resultado de contribuições de vários indivíduos extremamente criativos a trabalharem seja em equipa seja em competição uns com os outros. A ideia de que se Musk, ou outros como ele, não existissem o mundo estaria mais pobre (e z seria uma miragem) é uma ilusão. Se a fortuna fosse o prémio pelo que se realizou, então essa fortuna teria de ser repartida por milhares (ou dezenas de milhar) de cientistas, engenheiros e técnicos cuja contribuição foi crucial - muitos deles com contribuições mais importantes que as do chefe a la Musk.
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