domingo, abril 22, 2012

Num tranquilo sábado de Abril, uma inesperada Poesia deslizando no Tejo, uma noiva subindo uma escada branca no Ginjal, flores brancas de uma robinia ainda despida de folhas e outros pequenos fragmentos de vida


Música, por favor

Ray Charles - Somewhere over the rainbow



Abril é um mês cheio de esperanças, de promessas. Poderia até dizer que é um mês prenhe de vida: cheio de surpresas, de vigor, subtilezas, de revelações.

Depois de uma semana cansativa e algo complexa, cheguei a sexta feira exausta. Quando, quase o dia a cair, fui à janela, estava um rio de uma suavidade quase irreal. Sobre o rio, um navio parecia pousado ao de leve e a Ponte Vasco da Gama, por trás, era um bordadura leve, quase transparente, ondulante. Fiquei ali, parada, encantada. Mil vezes que vá à janela e veja o rio, mil vezes me surpreendo e me emociono.



Talvez o fim de semana fosse, enfim, sereno. Senti que, olhando este rio tão belo, a sua paz passava para dentro de mim. Os grandes espaços tranquilizam-me.

Eis, pois, que cheguei a sábado e, ainda com receio que as coisas pudessem complicar-se, fui andando e agora, já depois da uma da manhã, posso confirmar que foi um dia maravilhoso.

Logo de manhã, fui de novo à janela. Os tons macios da véspera tinham desaparecido e um requintado tom cinzento revestia a paisagem, tudo parecia banhado a prata, belíssimo.


Do lado do sol nascente vinha uma luz coada que atravessava a névoa para se reflectir, branca, no Tejo. O dia anunciava-se, pois, cinzento, chuvoso. Bom para caminhar.

E lá fui.



Caminhar na cidade, olhar as ruas, as casas, as pessoas, fotografar - e assim eu descanso, porque a forma como eu melhor descanso é fazendo as coisas que mais gosto, é andar à solta.

Claro que os meus passos me levaram ao lugar onde o ar é mais fresco, onde se sente a maresia: a beira do Tejo. Por essa altura, o sol começava a despontar, o ar estava mais leve, o céu mais azul.

Comecei pela Boca do Vento, de onde Lisboa se mostra toda, onde se pode ver o rio a vir das cidades até chegar ao mar largo, ao oceano. Na encosta reparo naquela casa misteriosa, vazia, uma boa casa para acolher espíritos livres que voem neste grande horizonte aberto.


Local habitado por gaivotas, por sonhos, por gente imaginária, aquele é um sítio aberto aos ventos, à maresia já filtrada pelas alturas. Tenho que ver como se chega lá, acho que aquela seria uma casa boa para mim ou, pelo menos, para a minha alma de ave vadia (soa kitch esta da 'alma de ave vadia' não é...? Mas paciência... é o que é!).

E, então, levada pela transparência leve que me transporta quando aqui estou, fui andando, lavando o meu olhar, todas os cansaços e preocupações da semana vão ficando tão lá para trás.

Foi, portanto, quase sem surpresa que, no meio do verde intenso do jardim, surgida do nada e envolta em silêncio, vi uma noiva subindo aquela escada que não leva a lado nenhum. Branca, esvoaçante, no meio de sedas, tules, rendas, lá estava ela, loura, radiosa.



O vestido sem mangas e ela, aparentemente sem frio, ali andava, um ramo de flores brancas, muito bonita, certamente cheia de esperança - e tomara que a vida lhe seja sempre assim, leve, cheia de luz.

Claro que estive também com o pequeno pássaro preto de bico cor de laranja que sempre por aqui vejo.



Hoje estava pensativo, sonhador. Costuma olhar para mim, avaliar os meus movimentos, medir a minha aproximação. Hoje não, hoje desfrutava com atenção e tranquilidade o ambiente, talvez estivesse admirado com aquela aparição branca. Eu também nunca tinha visto uma noiva por aqui mas eu sei que aquela figura leve e branca é uma noiva; ele talvez não percebesse isso. 

Ou então estava intrigado com uma outra fantástica aparição.

Um enorme navio, um paquete grande como eu nunca tinha visto, avançava, glorioso pelo Tejo. 


Os outros navios pareciam insignificantes perante a dimensão deste imenso navio branco, Lisboa quase parecia uma cidade de brincar com as suas casinhas às cores, as suas igrejas bem feitinhas, os seus guindastes pequeninos.

Talvez fosse com isso que o meu amigo passarinho preto estivesse admirado. Também eu, que tantos navios sempre vejo, estava admirada. Quantas pessoas lá estariam dentro, quase uma metrópole ali, deslizando sobre o rio.

Continuei a caminhar. Hoje a porta do armazém estava aberta. Eu sei que é feio espreitar mas, olhem, fazer o quê?, a atracção foi grande.


Não sei o que é, se é uma oficina para reparar barcos, se é um simples armazém para guardar sonhos. Vejo barcos, barquinhos, brinquedos de criança quando comparados com o grande paquete que ali vai, cruzando o Tejo, e bandeirinhas, fotografias, pinturas inocentes, recordações de quem ama o rio, de quem se faz ao mar pelo prazer infantil de descobrir prazeres sem mácula. Que sítio fascinante e com que ternura aqueles objectos ali foram pendurados. Quase me apetece transpor a porta mas, claro, não o faço até porque mais me parece um local de culto.

Depois, quase duas horas depois de ter saído, regresso a casa.

Mais tarde, vou ver de perto o grande paquete. Lisboa à beira Tejo transborda de gente com ar de outras paragens. No cais junto a Santa Apolónia eis, então, o imenso edifício flutuante, altíssimo, imenso, imponente. Aproximo-me, quero ver de perto. E, então, eis que vejo, pasmada, o nome do navio.


O grande cruzeiro transatlântico chama-se POESIA. Nem queria acreditar. Uma imensa poesia branca deslizando nos mares, entrando majestosa no Tejo.

E assim, depois destas aparições e surpresas, cheguei a meio da tarde aqui onde estou, in heaven.

Chuviscava e a terra tinha aquele cheiro quente e molhado, aquela doçura húmida dos meses de Abril. Respiro fundo, apetece-me mergulhar neste cheiro a terra fértil (apesar de ser uma terra agreste, pedregosa, com uma vegetação tão rústica, tão livre).

A robinia pseudoacacia está toda florida, flores em cachos brancos, tão puros, tão bonitos. Poderia levá-los para oferecer à noiva que sobe as escadas do Ginjal ou aos viajantes do Poesia.



Os ramos estão quase nus, as flores precederam as folhas. Quanta beleza, uma beleza tão despojada. 

Depois de respirar o ar do mar, aqui estou agora, respirando o ar do campo, abrigada pela grande serra, longe das torres de vidro que habito durante a semana, longe de problemas, longe do trânsito, longe de tudo, longe, longe, longe, livre.



É Abril ,. Flores do campo com gotas de chuva, ramos secos, elegantes, o cheiro limpo do campo. Nesta fotografia a flor cor de rosa da salvia está em primeiro plano e, em segundo, pode ver-se um canteiro que pintei, às cores, figuras coloridas e que não são nada, apenas figuras coloridas que existem na minha cabeça.



Este é um local habitado pela poesia. Ela está no ar aberto e limpo, ela está nas árvores, no mato, nas pedras, nos pássaros que cantam, felizes, na luz e nas sombras, no vento, está escrita nos muros, nas paredes e, neste caso, num canteiro que rodeia uma azinheira.

In heaven os poetas têm o seu espaço e eu tenho grande parte da minha vida.

sábado, abril 21, 2012

As Idades de Mia Couto, A Criação de Michelangelo, A ballet way of live no Royal Ballet of Flanders, a Beatriz de Maria João e Mário Laginha, voando sobre o Tejo - alguns gostos que quero partilhar convosco



Em noite de sono, de um sono avassalador que não me dá tréguas (e já é 1 da manhã, agora que aqui estou a começar a escrever-vos), vou ter que me limitar a partilhar convosco alguns gostos pessoais e nem tenho energia para explicar porquê... Sorry...



1. Idades [de Mia Couto in idades cidades divindades]

                                                             No início,
                                                             eu queria um instante.
                                                             A flor.


                                                             Depois,
                                                             nem a eternidade me bastava.
                                                             E desejava a vertigem
                                                             do incêndio partilhado.
                                                             O fruto.


                                                             Agora,
                                                             quero apenas
                                                             o que havia antes de haver vida.
                                                             A semente.




2. A Criação - Miguel Angelo (Michelangelo Buonarotti, 1475 - 1564). Pintura no Tecto da Capela Sistina. A intemporalidade da arte, a beleza, a felicidade que vem da beleza.







3. Mesmo os que não apreciam ballet vão, de certezinha, gostar deste vídeo. A leveza, a perfeição, a elevação sublime, a suspensão irreal, são qualquer coisa de maravilhoso. Há um momento em que os corpos em voo fazem aproximar os braços, com as mãos quase a tocarem-se - o que me fez lembrar o fragmento da pintura de Michelangelo. Video promocional do Royal Ballet of Flanders. A ballet way of life.

  



4. E por elevação, por suspensão irreal: Maria João e Mário Laginha, maravilhosos, voando sobre o Tejo, e interpretando Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque)


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Desculpem a escassez de palavras mas hoje é-me fisicamente impossível mais.

E tenham, meus Amigos, um sábado em grande estilo!

sexta-feira, abril 20, 2012

A bigamia de Otelo, os estúpidos do Governo segundo Almeida Santos e o Governo que é péssimo segundo Mário Soares, os desmandos do Álvaro que jura a pés juntos que vai fazer mais do que a troika quer, o moralismo ortodoxo de Vítor Gaspar que diz que Portugal é uma lição e que os portugueses não querem outra coisa senão sacrifícios, os alertas do FMI e de Soros (e de meio mundo) para os perigos trágicos do excesso de austeridade, o pragamatismo de Mario Monti que não quer na Itália tantos suicídios como os da Grécia e uma boa notícia: Irina Shayk está em Portugal ao serviço da Intimissi. E uma má notícia: o melhor dia para o sexo é a quinta feira... e hoje já é sexta feira.

 
Música, por favor... e sai um pot-pourrie!

Where is the Remote Control?


1. Leio que, segundo um estudo da London School of Economics and Political Science, o melhor dia da semana para ter sexo é a quinta feira.

Às quintas feiras a testosterona nos homens e o estrogénio nas mulheres estão no máximo, dizem. Por isso, meus Caros, agora não podem dizer que não sabiam.

Casal por Helmut Newton


2. Otelo Saraiva de Carvalho - e isto, digo eu, não tem nada a ver com o ponto anterior - assumiu publicamente a sua bigamia. De segunda a quinta, vive com a mais recente mulher e, de sexta a domingo, com a primeira. Este homem é, de facto, out of the box. E, se os três estão bem, eu também acho que está tudo bem.

Otelo com Dina e Otelo com Filomena

3. Almeida Santos diz que acha que este governo é um governo de tecnocratas sem experiência e faz uma ressalva: diz que acha o governo não é integralmente constituído por estúpidos. Da forma como fala, percebe-se, contudo, que acha que há por lá muitos. Todos achamos.

Ainda há bocado, na Quadratura do Círculo, não houve uma única voz que fosse capaz de defender o Governo e, aliás, nem o tentaram.

Pacheco Pereira deu-lhes um tareão sem tamanho. Explicou que não é um problema de imagem ou de comunicação (que técnicos para isso abundam no governo) mas que é mesmo um problema de políticas erradas e de falta de conhecimentos e de compreensão. E, agastado, revoltado, desancou em Passos Coelho e Companhia... mas desancou duma maneira...!

Até Lobo Xavier, até aqui tão cuidadoso nas análises, nunca querendo ferir muito os ministros deste Governo, desta vez se lhes atirou forte e feio, dando-lhes também uma valente tareia e fazendo notar que medidas avulsas, desnorteadas, desarticuladas, que matam de morte matada a confiança da população é coisa grave.

António Costa nem precisou de se esforçar muito embora, como sempre, tenha estado acutilante e muito objectivo.

Mas os outros dois, senhores, os outros dois... nem sei se não saíram dali para dar uma tareia ao vivo na troupe governativa.



4. Mário Soares diz que Passos Coelho está a fazer um péssimo trabalho e que este Governo não está a funcionar. São os Massamá Boys e de mais não são capazes.



4. O FMI veio de novo a terreiro pedir que reparem que a austeridade excessiva está a destruir a economia,  a impedir a retoma, e explica para quem não percebe senão quando se é muito explícito, que a austeridade deve ser doseada, abrandada, por forma a dar espaço para as indispensáveis medidas de crescimento e relançamento económico.



5. Mario Monti num discurso surpreendente anunciou que vai retardar a redução do défice para evitar que aconteça a desgraça que está a acontecer na Grécia e referiu os 1.725 suicídios, drama que não quer ver no seu País. Gente responsável age assim.



6. George Soros, uma vez mais, vem alertar para o provável fim da zona euro e para o tremendo descalabro, para a ruína e para o caos que acontecerá se os ortodoxos governantes europeus que defendem a política vigente, nomeadamente os da Alemanha, prosseguirem na senda moralista de austeridade a todo o custo que está a destruir a Europa. Explica que é impossível reduzir a dívida, afundando o crescimento. Claro.



7. Entretanto, por cá, um dos tais de que Almeida Santos fala, o Álvaro, apareceu a dizer que não ficará pedra sobre pedra, que vai dar cabo de tudo, que vai alterar o País de forma estrutural, que vai limpar o País de todos os obstáculos, que vai  fazer tudo para que isso aconteça e que está empenhado em ir além do programa da troika.

O que é que se pode fazer perante tamanha sanha?



8. Ainda por cá, mas falando lá fora, outro dos tais referidos por Almeida Santos, mostrou a abissal diferença entre um aluno inteligente e um insignificante marrãozinho que só quer é estar de dedo no ar a mostrar que já fez o trabalheco de casa.

Sem perceber nada do que se passa em Portugal, com o desemprego a disparar, com a Segurança Social a ressentir-se seriamente por estar a receber muito menos do que devia (o número de pessoas a efectuar descontos é cada vez menor) e por estar a pagar muito mais do que devia (o número de pessoas a receber subsídio de desemprego é cada vez maior), com a economia a soçobrar e com a banca sem dinheiro para emprestar, Vítor Gaspar, num desvario de fanatismo, por aí anda a dizer que os portugueses gostam de ser fustigados, enxovalhados, ameaçados, e que isto é uma lição para os outros. Ou seja, não percebe nada da vida real, não percebe o que vê, nem sequer percebe os avisos que chovem de todos os lados. E eu gostava de perceber quem é que lhe passou procuração para andar por aí a inventar coisas sobre os portugueses.



9. Em paralelo com tudo isto, o Governo, num puro exercício de desnorte e delírio, avança para novas medidas de ataque aos trabalhadores. Depois de terem alcançado um acordo periclitante com a UGT (em que a UGT saíu humilhada por ter assinado tão gravoso acordo), lançam-se, uns dias depois, numa inesperada nova campanha. Agora pretendem tornar ainda mais precária a situação de quem trabalha, preparando-se para criar legislação que permita despejar as pessoas com uma mão à frente e outra atrás.

Isto não é apenas desumano, é, sobretudo, estúpido. Haverá alguém com dois dedos de testa que perceba em que é que medidas destas, que fragilizam e desumanizam ainda mais a relação de trabalho, beneficiam a economia? 

Haverá algum empresário que, numa altura destas, invista mais, crie mais emprego, apenas porque, quando quiser pode pôr os trabalhadores na rua apenas terá que lhes dar um pontapé no rabo?! Claro que não.

Isto já é maldade fortuita, liberalismo desbragado, anti-social, um atentado aos direitos mais básicos, entre os quais o direito à dignidade.



10. Mas não podia acabar no número 9, não é? Nem acabar mal, não é? Então, vamos lá minha gente, que para além das notícias 1 e 2 aqui temos, para rematar, outra fantástica. A putativa nora da D. Dolores Aveiro, a menina Irina Shayk está em Portugal! 


Veio em serviço, pela Intimissi e pelos soutiens Perfect Bra. Grande notícia! Diz que estava sorridente. Nem tudo está perdido, portanto.



Vamos lá todos mas é rir com a menina Irina que é pacifista, amiga dos animais e ri que dá gosto!

Sports Ilustrated  Swimsuit 2012  
para saber qual a moda de praia para este ano

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E, por hoje, meus Caros, é isto. As notícias sobre a situação europeia são preocupantes. A evolução da situação em Portugal é preocupante. Mas,

                                                               Venho dizer-vos que não tenho medo
                                                                a verdade é mais forte que as algemas
                                                                Venho dizer-vos que não há degredo
                                                                quando se traz a alma cheia de poemas


(excerto de um poema de Manuel Alegre. No original a palavra usada não é alma mas, sim, arma. Substituí porque não sou da Família Real Espanhola em que se andam a espatifar todos por andarem a brincar com armas, desde o avô ao neto)


E, por falar em poemas, hoje é de dia de gataria no Ginjal e Lisboa. Uma orquestração. As minhas palavras ronronam em volta de um gato com alma de marinheiro de beira de praia, de uma Ode ao Gato e até as Berganzas miam à desgarrada. Coisa digna de ser vista.

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Tenha, meus Caros, um belo dia. E, com isto tudo, já é outra vez sexta feira!

quinta-feira, abril 19, 2012

Um mundo feliz, cidades habitadas e coloridas, campos floridos, casais que se abraçam e que, apaixonados, voam pelos céus celebrando o amor incondicional e puro - não, não estou alienada: falo apenas do mundo festivo e puro de Marc Chagall


Música, por favor

A veia do Poeta - Rui Veloso e Kátia Guerreiro





Falemos, pois, agora, de cidades cheias de vida, de casas às cores, de praças com circos, com cavalos que correm nos circos com artistas vestidos com coloridos trajes; falemos de ruas que se enchem de crianças, de árvores, de pássaros; falemos de um mundo maravilhoso cheio de sons alegres, de crianças, de janelas floridas, de jardins e de lagos, de animais verdes e azuis, de céus diurnos com luas poéticas.


Falemos, portanto, de cidades habitadas por pessoas de verdade, pessoas com um coração transbordante de carinho, com um olhar que se liquefaz em amor, falemos de pessoas que se amam e que se deixam amar. Falemos, portanto, de seres apaixonados.

Entremos, portanto, num universo onírico de tão colorido e festivo que é.

E imaginemos.



A cidade poderá ser no sopé de uma montanha azul e verde. Nessa montanha cujos pontos mais altos parecem azuis de tão perto que estão do céu, pastam tranquilas cabras brancas e, no alto das grandes árvores há pássaros brancos e azuis que transportam nas suas asas pedaços de céu e de nuvens. Mas também pode ser Paris, com a Torre Eiffel, com o arco do Triunfo, com um grande galo colorido que transporta crianças com braçadas de flores. Tanto faz desde que haja pessoas que se afagam, que sorriam no meio de flores e outras cores.

Entremos numa das casas dessa cidade luminosa.

A casa será luminosa e as janelas abrem-se, festivas, aos sons vitais de uma rua cheia de canteiros e pássaros.

As cortinas claras, de renda, esvoaçam, dançando com a aragem macia da tarde.

Dentro de casa poderá ver-se uma mesa com uma jarra com flores frescas, quadros inocentes nas paredes, cadeiras às cores, tapetes de cores infantis, vasos com avencas e vasos com begónias nos parapeitos e, entrançadas nos alpendres, cachos de glicínias lilases.


E, a seguir a essa sala na qual as conversas e os risos se encadearão com olhares cúmplices e com mãos que se afagarão com ternura adolescente, haverá um quarto. Poderia ser um quarto azul, alfazema e dourado, quase um quarto de Arles, um quarto de Van Gogh, poderíamos estar a falar du Midi, de Saint Paul de Vence. Mas poderá ser apenas um quarto pintado de azul claro, com uma cama coberta por uma bela colcha de renda branca, com cortinas macias e transparentes que esvoaçam também enquanto os pássaros cantam na árvore que está no jardim. 



Nesse quarto está um casal romântico, apaixonado, um casal que em tardes ou noites de amor, sai voando, janela fora, cruzando os céus, aproximando-se da lua, sempre de mãos dadas ou abraçados no dorso de um grande pássaro, rodeados das flores que sairão dos canteiros e das jarras para os envolverem enquanto voam.


Cá em baixo, crianças montadas em galos azuis brincarão enquanto o sol encarnado se põe atrás dos montes  e os cavalos sairão do circo para correrem em volta, trotando e trauteando ao som de cornetas e tambores.

É um mundo feliz, este, um mundo colorido e inocente. É o mundo de Chagall.


Picasso dizia que, uma vez Matisse morto,  apenas restaria Chagall como verdadeiro conhecedor das cores. Cores luminosas ou lunares, mas cores afáveis, afectuosas, infantis.


Marc Chagall nasceu Moishe Shagal em 1887 na Bielorrússia, judeu. Era o mais velho de nove irmãos. Cedo percebeu que a pintura o deixava sem opção. E, então, pintou, pintou,  e das suas mãos nasciam a esperança, o optimismo, a vida, a poesia. Repartiu a sua vida entre a Bielorrússia, a Rússia, a França e os Estados Unidos mas, sobretudo a França. Quando se fala nele diz-se que é um pintor judeu franco-russo.

Pintou, fez cerâmica, tapeçaria, cenários e guarda-roupa para teatros, vitrais para igrejas, pintou tectos e o que, em cada obra pode ser observado, é sempre a mesma alegria ingénua, o mesmo lirismo onírico, a mesma emoção apaixonada – e as cores, muitas cores, cores luminosas, festivas, cores e desenhos quase infantis de tão puros que são.


Chagall teve na sua vida um grande amor, Bella Rosenfeld, que conheceu em 1910 e com quem viveu até à morte dela em 1944. Bella aparece em inúmeras pinturas, é a mulher com quem voa pelos céus rodeados de flores, a mulher com quem noiva.


Mas um ano após a morte de Bella, Chagall volta a viver um romace, agora com Virginia Haggard com quem vive 7 anos, até ela o trocar por um fotógrafo, tornando-se, também ela fotógrafa. O queixo proeminente de Virginia revela-a uma mulher determinada, com vontade forte e vincada.


A seguir um novo romance, agora para sempre, Valentina (Vava) Brodsky e as fotografias mostram-nos sempre como grandes e cúmplices companheiros, é a alegria suave que vem com a idade vivida em serenidade e cumplicidade.

Marc Chagall é, claro, um dos pintores que vive in heaven.



Era o verbo e a manhã
e o princípio que nascia
e a apetecida manhã
na boca que me dizia
a proibida palavra.
E aquela fonte escondida
infinita poesia
ou vida de minha vida
que dentro de mim cantava.
E então por ela eu morria
por ela ressuscitava.

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Chagall - breve apontamento biográfico


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O poema é 'Louvor e simplificação de San Juan de la Cruz' de Manuel Alegre in Livro do Português Errante.

E, já sabem, por falar em poesia: hoje lá no Ginjal e Lisboa, as minhas palavras voam em volta de uma bela poesia de Ruy Belo e as vozes de Placido Domingo e Kathleen Battle descem dos céus para interpretar Rossini.

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E, já sabem também, desejo-vos uma bela quinta feira! Procurem a beleza e a felicidade, meus Amigos.

quarta-feira, abril 18, 2012

A grande solidão, o pesado silêncio, os rostos despidos de olhar - e, por acaso, até não estou a falar dos dias de inquietação que vivemos mas, sim, do estranho mundo de Giorgio de Chirico


Música, por favor


Bernardo Sassetti - Da noite ao silêncio



Espaços abertos, desolados, uma imensidão desabitada. As sombras se existem são abstractas, as cores, que existem, são irreais. E há silêncio, muito silêncio, um estranho silêncio. Mas como descrever em palavras este silêncio tão vazio?



Há casas mas estão também vazias ou, então, estão ocupadas por rostos de pedra, por esfinges amorfas de expressão sombria, vultos sem nome; e há monumentos mas foram deixados ao abandono, um abandono asséptico, e não há qualquer forma de vida, apenas manequins sem olhos, estátuas ocas – e silêncio, silêncio.

Se há figuras, elas não são humanas embora adoptem posturas quase humanas. Mas, apesar de não terem feições, pela forma como inclinam a cabeça, podemos imaginar-lhes a tristeza, a pesada solidão. Ou, então, se as figuras são humanas, dir-se-iam pequenas figurinhas de brincar com que as grandes e silenciosas estátuas se entretêm.

E aparecem figuras com as vísceras à mostra mas as vísceras são afinal edifícios, esculturas, e se as figuras são femininas não são crianças o que os seus braços irreais embalam, são pequenos seres embrulhados (na verdade o que se vê é um pano que envolve qualquer coisa). Ou então, serão talvez pequenos seres vivos que os manequins pariram e que agora não podem amamentar, nem sabem o que fazer com eles e a inquietação quase nos invade.



E se há figuras que se abraçam, é, afinal, para partilharem estados de arte, uma arte em queda ou decomposição, não estados de alma.

A vida quedou-se nestes espaços de perdição, o que ficou foi um território desumano onde o vento não existe, onde a chuva nunca cai, onde o sol, se aparecer, será também sombrio, irreal.

Por vezes, nestas ruas que o tempo abandonou, vêem-se silhuetas mas parecem ser apenas as sombras de pessoas que, em tempos, passaram por ali, um homem passando, uma criança brincando. Dir-se-ia que as pessoas desapareceram e deixaram para trás, perdidas, as suas sombras.



Estes espaços de solidão, de quase absurda desolação, são os espaços que habitam a obra de De Chirico.

Claro que há os seus auto-retratos ou outras obras que diferem deste atmosfera rarefeita. Mas a impressão geral que nos fica é esta e foi, aliás, por estas obras que mais foi reconhecido.

Giorgio de Chirico, pintor italiano, nasceu na Grécia em 1888 filho de pais italianos. Viveu até 1978 em vários países (Grécia, Alemanha, França mas, sobretudo, em Itália). Casou duas vezes e, em ambos os casos, com mulheres russas. Pintor integrado nos movimentos metafísicos, surrealistas, pintor que subverte a razão de ser, Giorgio de Chirico é um dos pintores que vivem in heaven.



                      Cansei-me de tentar o teu segredo:
                                 no teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
                                 o meu olhar quebrei, a debatê-lo,
                                 como a onda na crista dum rochedo.

                                 Segredo dessa alma e meu degredo
                                 e minha obsessão! Para bebê-lo
                                 fui teu lábio oscular, num pesadelo,
                                 por noites de pavor, cheio de medo.

                                 E o meu ósculo ardente, alucinado,
                                 esfriou sobre mármore correcto
                                 desse entreaberto lábio gelado:

                                 desse lábio de mármore, discreto,
                                 severo como um túmulo fechado,
                                 sereno como um pélago quieto.

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Giorgio de Chirico -
o trailer de um Documentário que deve ser bem interessante


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O poema acima é Estátua de Camilo Pessanha in Clepsidra. 

E, por poesia, convido-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as mihas palavras voam em volta de um amigo especial e é Emerenciano que regressa. A voz é de Jennifer Larmore para Rossini.]


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Tenham, meus Caros, uma bela quarta feira.
De preferência, sem sombra de inquietação, afastados da solidão, com sorrisos no vosso olhar!

terça-feira, abril 17, 2012

A arte de pagar as suas dívidas e de satisfazer os seus credores sem gastar um cêntimo - conselhos para maiores de 21, para descarados ainda não encartados, para candidatos a comendadores, e para gente que está quase lá e só precisa mesmo deste empurrãozinho


Música, por favor

José Afonso - Os vampiros



Quanto mais se deve, mais crédito se tem; quanto menos credores se têm, com menos recursos se pode contar.

Quem não consegue crédito inevitavelmente entra em falência, mas quanto mais crédito se faz, mais dívidas se conseguem, e quanto mais dívidas, mais negócios, quanto mais negócios se fazem, mais dinheiro se ganha.

Contrair dívidas com quem não possui o suficiente implica incrementar a desordem, multiplicar a infelicidade. Por outro lado, dever dinheiro a quem o tem em demasia significa precisamente o contrário, compensar a miséria, e contribuir para restabelecer o equilíbrio social.

Como é sabido, a situação brilhante de um Estado está em directa relação com o montante da sua dívida (por exemplo, Inglaterra!).

É melhor dever cem mil euros* a uma só e mesma pessoa do que dever mil euros a mil pessoas ao mesmo tempo.

Entre os que têm dívidas, só aqueles que cometeram o erro de começar a pagá-las acabaram na prisão.

«... O que está no bolso dos outros estaria muito melhor no meu! ... Afasta-te para eu poder sentar-me no teu lugar!...» Em poucas palavras, este é o princípio básico de toda a moral.

Lamentavelmente, existe um preconceito fortemente enraizado, segundo o qual, mais tarde ou mais cedo, não há outro remédio a não ser pagar as dívidas. E isto é o que leva os consumidores à perdição. Pois, a partir do momento em que começam a pagar, desaparece o crédito. Por isso, comece por não pagar a ninguém. (...)

Existem (...) maneiras de pagar ou amortizar as suas dívidas. A saber:

. Através de pagamento. É sem dúvida o modo mais simples de as eliminar; se quiser este método, (estes conselhos) tornam-se inúteis.

. Convertendo uma ou várias dívidas numa ou várias diferentes. Este tipo de amortização, que tem muitas vantagens para o credor que raciocina, é comummente chamado enredo.

. Pelo adiamento voluntário que lhe consente o credor. Aqui gostaria de realçar que quase nunca se trata de um acto voluntário.

. Pela confusão que se gera quando as características do credor e do devedor se misturam na mesma pessoa. O tempo e a paciência são os únicos meios para saldar este tipo de dívidas.

. A prescrição é um dos meios legais mais eficazes para pagar aos credores para se livrar deles, sem lhes dar um só cêntimo. Ou seja, você deseja alojar-se, comer, cultivar-se, e além disso, por um impulso humanitário, dar trabalho a artistas e escritores que no momento se encontram desempregados, tudo isto, repito, sem um centavo. Pois bem, não se preocupe mais, o proprietário da casa, o dono do restaurante, o professor, o pintor, o poeta, todos eles, de certa forma terão pago eles próprios depois de um certo tempo, depois de terem esperado seis meses.

... etc   etc   etc ...

NB: Os excertos acima foram transcritos de 'A Arte de pagar as suas dívidas e de satisfazer os seus credores sem gastar um cêntimo' da autoria de Honoré de Balzac, publicado agora pela editora Nova Delphi (editora creio que madeirense), traduzido por João Viale Moutinho e publicado originalmente em França no ano de 1827.

* - Onde aqui se lê euros, no original lê-se francos.


Honoré de Balzac nasceu em Tous, França, em 1799  e viveu até 1850. Foi um dos mais prolíficos escritores franceses, escrevia que se fartava, de forma compulsiva, horas e horas a fio. Empreendedor falhado, gastador, acumulava dívidas e trabalhava depois como um 'mouro' para lhes poder face mas a acumulação de dívidas era um processo contínuo.

Escreveu dezenas de livros, de entre os quais os muitos volumes que constituem A Comédia Humana. Foi também ele que escreveu 'A mulher de trinta anos', sobre as mulheres que, naquela altura, eram umas balzaquianas (agora são-no lá para os 60). Não me alongo porque isto não pretende ser sequer um breve apontamento biográfico pelo que, quanto mais agora escrever, mais omissões me poderão ser apontadas.

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Música por favor

Money Makes the World Go Round - The Patton Brothers


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Nota: O conteúdo deste post não reflecte o que penso sobre o assunto (sobretudo pela falta de ética que transpira do que é dito) embora grande parte das afirmações revele uma grande pragmatismo e reproduza quase na íntegra o que é a realidade associada a este fenómeno. De notar que considero que nem todas as dívidas são más e que é um absurdo pensar que um país pode ou deve viver sem dívidas. 

Mais: Algumas das habilidades descritas não devem ser praticadas senão na presença de adultos e, mesmo assim, podem provocar lesões graves.

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Mudando de assunto: hoje lá para os lados do meu Ginjal e Lisboa, a love affair as minhas palavras voam, tranquilas, em torno de um certo pássaro negro e, sobretudo, em torno de um belo poema de Luís Filipe Castro Mendes. A Callas junta-se-nos, interpretando Rossini. Serão muito bem vindos por lá, venham.

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E tenham, Caríssimos, uma bela terça feira!!!


segunda-feira, abril 16, 2012

Em dia de ventania, 'vou onde o vento me leva e então não preciso de pensar': Fernando Pessoa, plural como o universo - uma grande exposição na Gulbenkian, uma festa feita de palavras


Poesia, por favor

João Villaret - Tabacaria de Fernando Pessoa



Depois de um sábado atribulado, eis que este domingo de tarde, por razões circunstanciais e imprevistas, fomos para os lados da Gulbenkian. Em boa hora.

Nem me lembrava da exposição do Fernando Pessoa mas o acaso tem destas felizes coincidências.

O dia estava todo ele uma ventania mas o vento quando sopra em sítios assim - sítios de um verde suave onde as crianças correm e gritam de alegria, sítios que são recantos a seguir a recantos, recantos em que a intimidade verde e fresca se acolhe, e regatos, lagos, patos e pombos, um alvoroço de sorrisos, arbustos floridos, plumas, imponentes árvores, uma subtileza permanente - em sítios assim, o vento é festa, é brincadeira, é vontade de abraços, de beijos dados às escondidas. E as pessoas festejam o lugar e a vida sem se importarem com o vendo ou, até, abençoando-o. E agora, ao ver esta fotografia, o que vejo é a quietude, a paz. O vento é apenas uma ideia que ficou dentro da minha cabeça.


Nos belos jardins da Gulbenkian tudo é, pois, perfeito e o vento não é senão música, dança, um sopro que nos conduz.

E, portanto, sem que eu tivesse disso ideia, o vento conduziu-me pelos jardins até que cheguei à Exposição Fernando Pessoa, Plural como o Universo.



Como transmitir-vos agora aqui o que senti naquelas salas escuras, em que a personalidade de Fernando Pessoa se desdobra em imagens, em poemas, em sons, em cores?


Pelos vários espaços e recantos, a tal intimidade que os recantos sempre nos reservam, e vozes que vão dizendo poemas ou, sem se perceber de onde vem uma outra voz quente e quase silenciosa dizendo poemas, poemas que se vão multiplicando, uma toada quase sem palavras, ou palavras soltas, palavras que nos vão soando mágicas, puras, muito puras. 

E o ambiente é escuro, íntimo, variado. E o escuro é pontuado por elementos de uma luz azul, limpa, ou por uma luz amarela, quente, ou uma luz encarnada, vibrante.


E as pessoas, tal como eu, deslizávamos em silêncio, um silêncio perturbado, andando no meio dos vários eus e era a caligrafia de cada um, de Ricardo Reis, de Alberto Caeiro, de Álvaro de Campos e os eus continuam e é Bernardo Soares que depois escreve, e as vozes continuam, os recortes, a época, os jornais, os recantos, os poemas. E eu e as pessoas íamos deslizando, recortando-nos contra os painéis com os poemas e nem eu nem as outras pessoas éramos mais do que figuras recortadas, sombras andando no meio de palavras, silhuetas deslizando no meio das muitas palavras.


E o poeta que finge e o poeta sem amigos íntimos, o poeta que colhe flores e depois o homem, o homem que escreve cartas, que escreve, que escreve, que escreve, que fez das palavras a sua vida, o seu sentido de ser, e que precisou de ser muitos para poder dizer o muito que tinha para dizer, o guardador de rebanhos, o pastor que apascentava pensamentos, palavras, o engenheiro, o médico, o homem múltiplo, o homem antes do tempo, o homem grande, inteiro, o homem todo em cada coisa, o homem que pôs quanto foi no mínimo que fez.



E no fim ficou uma arca, uma arca de madeira lisa, uma bela madeira macia e dentro da arca havia milhares de papéis, milhares de palavras, de poemas, de frases, de lamentos. Dentro da arca havia fragmentos de vida, amores não ditos, sonhos por sonhar, palavras, tantas, ainda por dizer. E a arca lá está como arca sagrada num templo feito de palavras.


:::: algumas vozes, só algumas ::::

Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos:

                                      O essencial é saber ver,
                                      saber ver sem estar a pensar,
                                      saber ver quando se vê
                                      e nem pensar quando se vê,
                                      nem ver quando se pensa.


                                      Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
                                      isso exige um estudo profundo,
                                      uma aprendizagem de
                                      desaprender.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego:

                                                                Criei-me eco e abismo, pensando.
                                                                Multipliquei-me
                                                                aprofundando-me.

De Álvaro de Campos:

                                   Pertenço a um género de portugueses
                                   que depois de estar a Índia descoberta
                                   ficaram sem trabalho.


De Ricardo Reis:

                         Tenho mais almas que uma.
                         Há mais eus do que eu mesmo.
                         Existo todavia
                         indiferente a todos.


De Fernando Pessoa:

                                Não pertencer nem a mim!
                                Ir em frente, ir a segui
                                a ausência de ter um fim,
                                e da ânsia de o conseguir!

                                Viajar assim é viagem.
                                Mas faço-o sem ter de meu
                                mais que o sonho da passagem.
                                O resto é só terra e céu.


::::: Fernando Pessoa, palavras ditas, palavras cantadas :::::


Poesia e música, por favor

Maria Bethânia declama poemas de Fernando Pessoa e canta o Doce Mistério da Vida


Música, de novo, por favor

Marisa  interpreta Cavaleiro Monge, letra de Fernando Pessoa


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Apontamento de ordem prática: por ser domingo a entrada foi gratuita. Percorrer os Jardins da Gulbenkian também não custa dinheiro. Afinal, vendo bem, há grandes prazeres que não custam dinheiro. 

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Hoje, lá no meu Ginjal temos palavras que caminham em volta de Hélia Correia e de um gato (e tanto que Hélia Correia gosta de gatos) que tem um olhar orgulhoso. William Tell abre, por aquelas bandas, a semana que dedico a Rossini. Gostarei de vos saber por lá.

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E tenham, meus Caros, uma bela semana, a começar por esta segunda feira.