terça-feira, dezembro 14, 2010

Voluntariado sempre mas, ainda mais, em tempos de crise. Angelina Jolie, Isabel Jonet.

Era bom que só houvesse pessoas boas, generosas. Era bom que só houvesse justiça à superfície da terra. Era bom que houvesse trabalho para todos e que todos quisessem trabalhar, era bom que não houvesse pobreza, nem doença, nem roubos, nem abandono escolar. Era bom que houvesse equilíbrio entre o que se quer comprar e o que há para vender para que os preços fossem justos e equilibrados. Era bom que nascessem tantas crianças que compensassem o acréscimo de esperança de vida das pessoas. Tudo isso seria maravilhoso e já nem falo de outras coisas que também seriam boas (como, por exemplo, que só houvesse pessoas educadas, respeitadoras, inteligentes, etc).

E era bom que em cada canto estivessem, entre canteiros floridos visitados por borboletas e pássaros multicores, pessoas que, discretamente, tocassem, ao violino, suaves melodias. E que dos céus caíssem confettis brilhantes, coloridos, prlim, pim, pim, tudo na maior harmonia, paz e amor.


Mas um mundo idílico assim não há, nem nunca houve.

Gerir recursos finitos, gerir imperfeições, gerir expectativas, gerir sensibilidades, gerir imprevistos, gerir o impacto de influências externas, tudo isso é, de facto, a difícil atribuição de quem anda nesta vida. Seja qual for o papel de cada um na sociedade, ninguém pode fugir a isso, seja a nível doméstico, social, profissional, político.

Podemos também olhar apenas para dentro de nós próprios e ignorar os problemas ou, então, dizer que, se os há, sejam de que natureza forem, os outros que os resolvam, ou que o Estado que os resolva.

E o Estado seria constituído por batalhões de assalariados, governados por forças políticas, pagos com os impostos dos ‘outros’ que dariam resposta a todo o tipo de necessidades. Desde logo as usuais, educação, saúde, segurança pública, etc, mas também as outras necessidades. Quais?

Por exemplo: se há pessoas que, por uso de drogas ou por alcoolismo ou outros desnortes das vida, caem na rua, haveria funcionários públicos para lhes levar cobertores à noite, distribuir comida quente (de notar que, em grande percentagem dos casos, os sem-abrigo não querem abandonar a rua); se há crianças que se têm que tratar hospitalarmente por períodos prolongados longe da sua residência e a família não tem recursos, então haveria residências do Estado, geridas por funcionários públicos para acolher e dar apoio às famílias; se há pessoas hospitalizadas longe de casa e que não recebem visitas, haveria uma legião de funcionários públicos para visitar doentes sós; se, nas zonas carenciadas, há muitas adolescentes grávidas que são abandonadas pela família, ter-se-iam residências do Estado, em que zelosos funcionários públicos apoiariam, dariam carinho e formação às futuras meninas-mães e acolheriam depois do nascimento, as recém-mamãs com os seus bebés, garantido-lhes a subsistência e o apoio emocional.

Talvez isso fosse possível… mas seria muito complicado. Às tantas tudo seria estatal e não haveria impostos suficientes para acudir a tanta solicitação (já para não falar na ineficiência, pois quem é que geriria todos essa imensa legião de funcionários públicos? Directores-gerais, dependentes de secretários de estado escolhidos de entre o partido do poder….? […e onde é que eu já vi isto….?]).

No mundo imperfeito que temos – em que, infelizmente, temos crianças com cancro a precisar de longos e penosos tratamentos, em que infelizmente, temos gente que cai na rua e aí fica desamparada, em que infelizmente, temos mulheres maltratadas que têm que se esconder dos agressores, em que temos pessoas em casa com fome e vergonha de pedir ajuda, em que temos famílias sem dinheiro para comprar roupa e livros para os filhos, em que infelizmente temos jovens que pertencem a famílias carenciadas ou desagregadas sem um adulto que os apoie no processo de crescimento, em que infelizmente há reclusos renegados pela família que nunca recebem uma visita – há também pessoas abnegadas que se dão a si próprias, que dão parte do seu tempo, de forma desinteressada. São os Voluntários.

Há Voluntários de várias actividades: para ajudarem jovens, para ajudarem famílias, para ajudarem crianças, para ajudarem doentes, para recolherem alimentos, para redistribuírem alimentos, ou vestuário, ou livros, para fazerem visitas, para levarem uma comida quente, uma palavra amiga, para dar formação, para dar apoio administrativo, para transportar, enfim, para quase tudo o que for preciso.

E já nem falo nas missões fora do País, em campanhas de vacinação, alfabetização, etc.
Vidé o filme Beyond Borders ou Amor sem Fronteiras, com a Angelina Jolie (ela própria uma Voluntária, uma lutadora por nobres causas) e o Clive Owen, cujo trailer coloquei no post abaixo.


A quem quer ser Voluntário, que eu saiba, ninguém pergunta qual a religião que professa (eu, por exemplo, conheço católicos, budistas, agnósticos e, da maioria, não faço a mínima ideia), qual o partido em que vota, qual o clube de futebol. Que eu saiba, quem vier por bem, é bem vindo.

Apenas fiz uma pequena actividade de voluntariado e é recente o meu contacto com este outro mundo, pelo que ainda não me considero uma voluntária. O que sei é ainda muito pouco; por isso, frequentei uma acção de formação para me preparar para actividades futuras e tenho lido, tenho-me informado.

Sei que é uma realidade dura, difícil. Abdica-se de estar confortável em casa, com os amigos, com a família, para ir lidar com uma realidade difícil, dolorosa.

Por isso que ninguém desdenhe do trabalho dos voluntários. É uma sociedade civil silenciosa, organizada, generosa, que se movimenta geralmente na sombra, para ajudar quem precisa de ajuda.

Seria bom que todos nós percebessemos isso e nos dispuséssemos também a dar um pouco de nós para bem dos outros.


A Isabel Jonet, à frente do Banco Alimentar contra a Fome, é uma das caras mais conhecidas do voluntariado mas há milhares de outras pessoas que, com a mesma dedicação, se entregam, na medida das suas possibilidades, à ajuda desinteressada a quem, seja quem for, dela esteja a precisar (Acreditar, Ajuda de Berço, Entreajuda, Comunidade Vida e Paz, etc, são algumas instituições conhecidas mas há muitas outras).

São pessoas que dedicam parte da sua vida aos outros, que fazem de tudo para conseguir disponibilidade, recursos, para os entregar a quem mais deles necessita. E são pessoas que sabem acompanhar o seu tempo. Isabel Jonet, uma vez mais, é um exemplo: tem sabido tirar partido das novas tecnologias e assim vemos a instituição que gere já inserida no Facebook, vemos o perfil da própria Isabel Jonet no LinkedIn pretendendo com isso estimular os contactos por esta via - porque todos os meios servem; aliás não nos esqueçamos que felizmente há muitos, mas mesmo muitos, jovens voluntários que, com o conhecimento que têm das novas formas de contacto social, contribuem dessa forma para a divulgação da causa e para angariar mais voluntários, mais meios, mais donativos.

E todos nós, mesmo que felizmente ainda não tenhamos precisado ou mesmo que ainda não tenhamos a abertura de espírito ou a experiência de vida para perceber esta outra realidade, deveremos estar muito gratos a estas pessoas.

Um fime sobre voluntariado em missão: Beyond Borders com Angelina Jolie e Clive Owen ('Amor sem Fronteiras' na versão portuguesa)

Um filme sobre Voluntariado. Claro que, para dar cor e romance, foca também a história de amor que surge entre a bela Angelina e o fantástico Clive Owen.

Não obstante, retrata o ambiente de missão que se vive nas zonas mais carenciadas do planeta em que miséria e guerra se misturam perigosamente. Um filme que se recomenda.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Mark Madoff ou o insuportável infortúnio de arcar com as consequências de uma monumental fraude

Conheci uma pessoa que sempre achei de escrupulosidade duvidosa. Tudo o que se dispunha a fazer era sempre a troco de um plus qualquer. A primeira reacção, sempre que era instada a fazer qualquer coisa para além da mera rotina, era, ‘E o que é que eu ganho com isso?’. Sendo uma pessoa com responsabilidades na organização em que se inseria, o exemplo que dava era nefasto.

Uma vez, no meio de acesa discussão, perguntei-lhe para que queria mais dinheiro, uma vez que tendo dois empregos, muito bem remunerado pelo menos num deles (e no outro creio que também) dificilmente tinha como escoar o chorudo income mensal. Com o seu típico esgar (que eu classificava de mercenário), respondeu-me que ‘nunca é de mais’.

O caso Madoff estava recente e eu referi-o, pensando catequizá-lo com um evidente exemplo de crime-castigo: ‘Veja o Madoff: de que lhe valeu tanta esperteza, tanta ardilice, tanto dinheiro ganho, para agora passar pela vergonha planetária de ser conhecido como um trafulha e estar atrás das grades?’.

Mas não o demovi, gente assim não se demove: ‘Mas enquanto esteve cá fora viveu à grande, e, entretanto, já deve ter acautelado o futuro da família e o dele, quando vier cá para fora.”

Vem isto a propósito desta notícia: hoje, exactamente no dia em que passam 2 anos da prisão do pai, Mark Madoff, 46 anos, um dos dois filhos de Madoff, apareceu morto, provável suicídio. Alvo também de processos que tentavam provar o seu envolvimento na fraude, a ser instado a indemnizar as vítimas em milhões e milhões, Mark vinha desde há algum tempo dando mostras de não aguentar a pressão, emocionalmente estava a ir-se abaixo – o que é mais do que compreensível.


Não sei de que fibra é feito Madoff. Mas se, apesar de tudo o que fez, for uma pessoa normal, deve estar a questionar-se sobre o raio de inferno em que transformou a sua vida, ludibriando meio mundo, espoliando das suas economias reformados de todo o mundo, levando à ruína famílias e empresas, para afinal acabar preso (foi condenado a 150 anos de prisão), para um filho de suicidar aparentemente não resistindo à pressão infernal dos acontecimentos. Talvez tente perceber qual foi o momento em que a ganância, o despudor, a falta de escrúpulos, tomaram conta da sua vida, conduzindo-o não aos píncaros da fortuna como desejava mas, sim, aos labirintos escuros e sem fim de um fosso onde não há honra, nem orgulho, nem amor.

O aquário mais inspirado que já vi à venda (num local que apela ao não-consumo) e isto para não ter que falar do Alberto João, do PP e do PPC que são uns maçadores, sempre mais do mesmo

Hoje já escrevi um texto muito sério no Ginjal e Lisboa sobre o estado miserável e perigoso em que se encontra um sítio que é de uma beleza assombrosa. O Ginjal deveria ser um local de culto e, afinal, é um local decadente, em risco de derrocada.

Embora em menor escala, igual abandono se verifica com o Porto Brandão.

Por isso, aqui já não me apetece voltar a falar de coisas sérias. Fico-me, pois, por imagens etéreas.

Peixinhos dourados, dançam numa floresta aquática dourada

Espigas douradas, recantos encantados: um verdadeiro aquário mágico

Na Praça da Liberdade em Almada, no mercado das coisas da terra (não sei se é este o nome mas o conceito é este)

Não é bem mais agradável falar de aquários lindos do que de políticos intelectualmente pouco sérios?

Há lá vontade de falar do previsível anúncio do infatigável Alberto João de que vai recandidatar-se? O grande parodiante, no palco, aos saltos com outros sujeitos de ar energúmeno, invectivando Lisboa, mordendo a mão que o alimenta. É destes estadistas que a história recente de Portugal se vem fazendo.

 (Ok, conforme se vê na legenda, candidata-se na categoria de Artes e Espectáculos: mas quem é que já tem paciência para este tipo de humor?!)


E então este outro estadista? PP, Paulo Portas o grande demagogo, o Paulinho Populista, conversa fácil para feirantes, as palavras simples que o povo entende. Pagar menos impostos, pois claro, quem é que não quer? Eu quero, tu queres, ele quer, nós queremos, vós quereis, eles querem.  

A questão é que não há dinheiro para mandar cantar um cego. Por isso, oh Mickey Mouse, acha que é oportuno acenar com menos impostos....?

Enquanto esta cigarra aqui canta de peito ao léu, o Ministro Teixeira dos Santos lá anda, de malinha na mão a ver se vende alguma dívida aos chineses.

E isto depois de Sócrates e Cavaco andarem a ver se o Brasil também dá uma ajudinha, e os marroquinos, e os argentinos, qualquer um, para o País não fechar a porta de vez.

O problema é sério (chegámos cá também por impreparação, demagogia, má gestão, populismo generalizado, etc, etc,  mas, agora que o desastre aconteceu, ao menos que alguém tente resolvê-lo).

Estadistas do calibre do Alberto João Jardim e do Paulo Portas não ajudam muito à solução, convenhamos.

Não sei o que estava o Pedro Passos Coelho, todo despenteado, a dizer mas deveriam ser os lugares comuns do costume.

Presumo que a legenda nada tivessa que ver com a conversa.

Mas temo bem que nos próximos dias vamos andar entretidos a discutir as coscuvilhices que a Wikileaks anda a divulgar, esquecendo-nos de condenar os métodos ilegais obtidos para saquear a informação.

Vamos ouvir louvar a liberdade, enquanto se branqueiam os deploráveis atentados à liberdade que são a obtenção ilegal de informação. Um mundo que se anda a virar do avesso.

Antes os peixinhos dourados...ou não...?

terça-feira, dezembro 07, 2010

Sócrates, Helena André, a legislação laboral e Geoge Clooney Nas Nuvens. Histórias da vida real.

Declaração: considero que, nas empresas e nas organizações em geral, de vez em quando, (porque a conjuntura se alterou, porque a estratégia do accionista se alterou, porque a operação se automatizou para se garantir a indispensável competitividade, por muitas e legítimas razões), é necessário reestruturar as actividades e essas reestruturações passam, por vezes, por reduzir pessoal.

A economia avança assim, umas vezes de forma evolutiva linear, outras vezes por disrupções. Quase desapareceram os telefones fixos e, em contrapartida, surgiu como um inesperado boom, o mercado dos telemóveis que começaram por ser apenas telefones portáteis para agora já serem o dispositivo que fotografa, de onde enviamos sms, onde acedemos à internet - e estou a falar dos básicos. Neste caso, a oferta tem gerado a procura e este desvio de mercado levou a que, do lado da telefonia fixa, houvesse que efectuar cortes profundos numa mão-de-obra pouco qualificada enquanto, na telefonia móvel, se emprega agora gente ligada às comunicações e informática, ao marketing, às finanças, ao planeamento. E é apenas um exemplo.

Reestruturar não é, pois, sinónimo de termos diabos à solta.

Os mecanismos existentes que mais frequentemente se usam nestas circunstâncias são o despedimento colectivo ou a negociação. Geralmente as empresas preferem o uso da negociação, embora lhes saia mais caro. Convém referir que, quando uma empresa se vai reestruturar porque se encontra em situação difícil, com dificuldade em pagar impostos, a fornecedores, vencimentos, nem sempre é fácil arranjar disponibilidade de tesouraria para fazer face ao valor elevado que é preciso pagar em indemnizações. Por vezes, alocar verba para indemnizações, pode fazer perigar a continuação da actividade da empresa.

Mas este processo da negociação é um processo perverso. Mesmo para quem está por dentro do processo, mesmo para quem está solidário com todo o processo por reconhecer que é isto para alguns ou pior que isto para todos, este processo é muito penoso. A começar por ter o ónus de escolher quem é que vai ser ‘convidado’ a sair. Eu própria já me senti em risco que ver a minha secretária virada do avesso sobre mim, quando num desses dolorosos processos, tive que escolher e convidar algumas pessoas. Um era um colaborador com quase 2 metros de altura e seguramente mais de 100kg que, sentado à minha frente, colocou as grandes mãos por baixo enquanto, encarnado e enraivecido, transtornado, me exigia ‘ Explique porquê eu.’. Ou uma colaboradora que chorou, relembrou a morte do filho e de como era importante aquele emprego por estar perto das filhas de quem não queria separar-se para ir trabalhar longe.

Muito penoso. Doloroso. Destroça-nos.

Mas reconhecemos como imprescindível e tentamos encarar isto com alguma frieza e, entre nós, arranjamos um léxico adequado à situação. Na pior altura que atravessei, lembro que fazíamos reuniões de ponto de situação em que, entre nós avaliávamos aquilo que designávamos, assepticamente, por ‘dinâmica de saída’.

Não tem conta de quantas pessoas me despedi, não tem conta a quantidade de homens que, em determinado período em que saiu muita gente, vi chorarem desamparados, não tem conta as depressões que arranjavam quando não queriam sair mas se viam sem trabalho, temendo que, se não aceitassem sair ‘a bem’ acabassem por sair numa ‘leva’ de despedimento colectivo, levando uma indemnização inferior.

Doloroso.

Há quem não se aguente, há quem vá para casa e não aguente a pressão, se divorcie, vá viver para um quarto, entre em depressão, adoeça, morra. E não estou a dramatizar.

É isto que se passa e, no entanto, na maior parte dos casos, não há como as empresas (e organizações em geral) não enveredarem por este caminho.

E, a todos, isto pode acontecer, a todos eu já vi isto acontecer: a porteiros, a pessoal administrativo, a comerciais, a doutores e engenheiros, directores, administradores.

E os tempos que se avizinham trarão, de novo, muitas situações destas. Não tenhamos dúvidas.

A única boa notícia é que há muitas pessoas que, depois de um abanão destes, acabam por se reencontrar, refazer a vida; a muitos encontramo-los, tempos depois, felizes, prósperos.

É um assunto assustador mas tenhamos, sobre o assunto, uma visão em landscape: é raro conseguir descobrir-se onde estão ‘os maus’. Não há. De uma forma ou de outra, em determinada altura, todos corremos o risco de sermos vítimas da evolução dos tempos.

Lembrei-me de incluir aqui este filme. Não é ficção. É comum, em determinadas empresas (quando a gestão não tem liderança ou força anímica suficientes), contratar empresas ou pessoas para efectuar a dita ‘negociação’. Ganham à comissão. E, mais uma vez, não tenhamos preconceitos. São contratados para fazer o papel mais odioso mas, também eles, não são ‘os maus’.

Vejamos George Clooney no filme Nas Nuvens.


Não é tema apropriado à véspera de um feriado mas ocorreu-me porque é sabido que a legislação laboral vai ser alterada (Sócrates confirmou-o hoje, como era esperado, e a  sofredora  ministra Helena André anda a tentar justificar-se de forma desajeitada - .... mas porque não falam abertamente?!) enquanto a Europa diz que pagamos bem demais as indemnizações.

Já referi que, de facto, às vezes a equação parace não ter solução. Não há verba para aguentar o quadro total de efectivos, não há verba para indemnizar. Por vezes as empresas têm que se humilhar pedindo às pobres pessoas que vão para o desemprego que aceitem receber a indemnização em prestações.

Humilhante mas sem alternativa.

Contudo, há um limiar abaixo do qual não se pode ir. Retirar o trabalho a  uma pessoa é retirar-lhe a dignidade, a segurança, a perspectiva de vida, é cercear-lhe a esperança. Por isso, ao menos que se compense dignamente com  verba necessária para que a pessoa possa garantir, durante algum tempo, algum nível de vida ou fazer face à subsistência quando o subsídio de desemprego se acabar. Para que o 'convite' não seja significado de sentença de morte.

It´s raining cats and dogs...? It´s raining men....? It´s raining spare parts...?

Em dias assim, de chuva continuada, podemos usar várias expressões idiomáticas.

Os ingleses têm fama (mas pouco proveito) de dizerem:



Às vezes, há quem, um pouco confundido ou praticando aquela do wishful thinking, diga que it´s raining men....(espero que, agora que os vampiros estão na moda, gostem do filminho dos Vampires Suck que escolhi...)


Mas, às vezes, acontecem coisas ainda mais fantásticas: choverem peças de avião...

Existe, na teoria das probabilidades, uma lei que se utiliza para ocorrências improváveis. Essa lei probabilística tem um nick name: lei da morte por coice de burro. Dizia-se que era a probabilidade de uma pessoa estar sentada  à beira de uma estrada, passar um burro selvagem a galope e dar um coice na cabeça da pessoa que, por via disso, caía redonda. Coisa de matemáticos nos tempos em que era, apesar de tudo, provável que passasse um burro selvagem a galope numa estrada...

Pois, mas as coisas improváveis, também acontecem. Aconteceu ontem em Almada. Um avião deixou cair peças sobre a cidade. Claro que as peças, ao acertarem em automóveis, voltaram a demonstrar uma lei das probabilidades, não já aquela das coisas improváveis mas qualquer outra mais normal...ou então...foi a mão de Deus. Que as peças não tenham acertado na cabeça de alguém foi, de facto, uma enorme sorte. Felizmente, desta vez, o burro selvagem passou longe.

domingo, dezembro 05, 2010

Duas árvores especiais, dois homens pouco especiais (Louçã e Carlos César) e comentário a uma recomendação de Pedro Mexia relativamente ao Special One

Vou escrever sobre duas árvores muito bonitas da Rive-Gauche.

A primeira completamente BCBG (bon chic bon genre), a segunda cheia de personalidade, carismática, marcando o perfil da zona baixa da cidade.

Árvore de Natal, numa noite com muita chuva

Lisboa vista de Almada

Numa manhã cinzenta, uma vista líndissima: Lisboa, a magnífica, do outro lado, o Tejo qual passadeira azul (cinzenta mais propriamente, porque, nesta altura, o azul não é saison), e a Rive Gauche em primeiro plano com as duas torres da muito bonita Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso em Cacilhas, construída após o terramoto como agradecimento a Nossa Senhora por ter feito recuar as águas do Tejo, e uma árvore gloriosa, que disputa atenções à árvore de natal acima.

E não é justo que se dê mais relevo a estas duas árvores do que à saloice que é o Francisco Louçã andar a gabar-se de que a Casa Branca tem medo dele? Deprimente.

E, claro, Louçã sempre do lado 'dos que estão do outro lado', whatever that is. O Carlos César, qual soba, resolveu, 'aos costumes, dizer nada', e marimbar-se para a crise e para as leis do País que é o seu e cuja lei jurou cumprir e, como bom demagogo, resolveu compensar os funcionários públicos afectados pelos cortes que aí vêm: e o Louçã, demagogo-mor, acha muito bem. Et pour cause... é que os demagogos se atraem.

Este Louçã que, às vezes (mas não muitas), tem coisas acertadas e que se sabe explicar-se (é a veia pedagógica) tem depois atitudes como as duas acima referidas: patetas, patéticas.

É esta (BE, PCP) a esquerda que temos e que, por ser assim, se auto-exclui de qualquer participação séria: populistas, demagogos, para além de, globalmente, conservadores (sempre que falam, com o usual ar soturno, ensimesmado, é sempre um entediante déjà-vu).

E, no entanto, agora é tempo para recriar, para descobrir novos caminhos. Onde estão as mentes capazes de ver de maneira diferente, de puxar pelo lado melhor de todos?

(... Mas, Pedro Mexia, não sei se The Big Winner seria rapaz para tamanha empreitada...Não queiramos sujeitar o Special One à demonstração do que é o Princípio de Peter... ).
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sábado, dezembro 04, 2010

Making Of do Calendário Pirelli - o espírito natalício também já tomou conta de mim e, por isso, aqui está um presentinho e este é pr'o menino e pr'a menina

Resolvi oferecer-vos a versão longa, cerca de 24 minutos, pois penso que dá gosto ver Karl Lagerfeld, essa excêntrica e talentosa figura da moda e da fotografia, com aquele seu cabelo branco apanhado, aquele outfit carismático, a camisa de colarinhos subidos, a gravata cheia de estilo. Vê-lo ali com umas luvas que quase parecem metálicas, shooting de forma quase mecânica, todo ele focado na vítima (digo, na modelo), faz-me lembrar a precisão racional e minuciosa de Hannibal Lecter.

Desta vez o calendário Pirelli tem como tema as mitologias grega e romana. Mithology. A produção é requintada, sofisticada, é Chanel sans vêtements, é o requinte do ouro a preto e branco, são as e os modelos esculturais (Isabelli Fontana, Heidi Mount, Laura Stone, Baptiste Giabiconi, o escultural 'muso' de Lagerfeld et al) como Afrodite, Artemis, Flora, Hermes, Baco e as Bacantes, etc. E é a possante e possessiva Hera, a grande zeladora da família, pela Julianne Moore que gostosamente se entrega à câmara de Karl Otto, o devorador  sistemático.

 Enjoy!

Merry Christmas! O Jeito Manso is coming to town...!


Tenham um bom fim-de-semana.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

O Infante D. Henrique, Fernando Pessoa e Caetano Reis e Sousa: 'o homem sonha, a obra nasce'

Falta cumprir-se Portugal.

(Pescador à linha num cais do Ginjal, contra uma Lisboa magnífica, o Padrão das Descobertas a destacar-se e o Tejo de todas as viagens num dia azul e luminoso)

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendendo a espuma,

e a orla branca foi de ilha em continente,
clareou, correndo, até ao fim do mundo,
e viu-se a terra inteira, de repente,
surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

(O Infante in Mensagem de Fernando Pessoa, uma vez mais na excelente edição Centro Atlântico)

Tal como referido nas anotações de Auxília Ramos e Zaida Braga, há neste extraordinário poema  'um tom desencantado mas no qual se pressente a certeza de que é possível recuperar a grandeza perdida e construir um Portugal novo'.

Em época celebratícia (diz-se? pelo menos rima com natalícia...) de Fernando Pessoa, apetece recordar as suas 'profecias', apetece fazer com que se cumpram.

(Recorte do Expresso: Caetano Reis e Sousa, vacina contra o cancro mais próxima)

É que, se houver liderança, ambição, consciência cívica, sentido de estado, e tudo o que é indispensável para que se construa uma sociedade sustentável (ah, isto da sustentabilidade agora dá para tudo e geralmente, vai ver-se o que é e não passa de uma mão cheia de nada), abriremos espaço para que os nossos cientistas, que se destacam pelos quatro cantos do mundo, redesenhem um novo mapa de competências.

Caetano Reis e Sousa, 42 anos, Cancer Research UK London Research Institute, Immunobiology Laboratory Group Leader, recentemente distinguido com um valioso prémio de 2,5 milhões de euros é um dos casos exemplares.

Onde andam os media que não nos mostram à saciedade estas mentes brilhantes?

Não seria altura de afastar as câmaras e os microfones das reportagens idiotas feitas na rua,
  • ('então o que é que acha? os preços estão melhores ou piores que o ano passado?' ou então 'então e o que acha deste frio? lembra-se de um frio assim?')
não deveríamos, antes, louvar e agradecer a todos estes portugueses que, espalhados pelo mais prestigiados centros de investigação do mundomundo, com a sua criatividade, esforço, dedicação,  vão abrindo novos mundos ao mundo?

Não influenciariam os nossos jovens iletrados e desmotivados?

Não se ajudaria a cumprir Portugal?

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Vamos gastá-lo antes que se faça tarde: Consumo na Grande Catedral, Consumo na Zona Chique, Réveillon, livros a pontapé et al....: Santa Claus is coming to town...!

1. Desde segunda-feira que a catedral do consumo se encontra a transbordar de uma multidão ululante. Não exagero. Os parque de estacionamento estão repletos, os restaurantes repletos estão, nas lojas quase não se consegue dar passo e as caixas têm filas enormes. Não exagero. Os adultos do costume, mais outros que vêm aos magotes não se sabe de onde, jovens em ruidosos grupos (já começaram as férias?), idosos em cadeiras de rodas. Não exagero. Acabo de ver na televisão uma reportagem que mostra que no Chiado se passa o mesmo; até uma comerciante diz que o que se passa não tem nada a ver com crise.

As ruas transbordam, as lojas transbordam.


Penso que só pode ter a ver com o recebimento do ordenado e subsídio de natal. As pessoas devem ter pensado: ’Antes que o cortem, vamos mas é dar cabo dele’ e desataram a consumir de uma forma desenfreada.

2. Logo a seguir às férias de verão, Setembro ao rubro, as lojas de vestuário já só tinham roupa de Inverno. Nós, de algodões ligeiros e frescos, sem meias e de sapatos abertos e as montras cheias de lãs, tweeds, botas para o frio. Agora, que está frio, Dezembro a começar, as montras estão cheias de vestidos sem mangas, saias curtíssimas, lantejoulas, rendas, brilhos: é o réveillon que já aí está.

Como dizem os Deolinda, ‘vivemos todos uma casa ao lado’. Induzem-nos sempre um tempo que não é ainda o nosso.

Não sei que sentido faz isto.


3. Fazemos compras para oferecer pelo Natal e, se temos que trocar alguma coisa, no dia a seguir já está tudo a metade do preço. Ficamos a sentir-nos idiotas por termos dado o dobro do devido. Mas fazer o quê? Chegar ao dia de natal e não ter presentes para oferecer?

4. Entro numa livraria.

Livros com capas esfusiantes, quase iguais, os livros como um objecto de consumo, muitos livros, muitos, romancetes de toda a espécie e feitio, proto-intimistas, proto-históricos, proto-biográficos, de escritores que vendem livros a rodos, escritores que são de gargalhada – não há figura, figurão ou figurinha que não publique livro – e mais livros de auto-ajuda para todo o gosto e paladar: para gordos, para deprimidos, para endividados, para os que não gostam do chefe, para os que não sabem vender, para os que não sabem tratar dos filhos, para os que compram como se não houvesse amanhã, para os que têm dificuldade em adormecer e os que custam a acordar: treta, treta por todo o lado.




E eu sinto sempre alguma pena dos autores sérios, dos que fazem um livro como quem faz um filho, os que estudam, investigam, escrevem com cuidado e amor, rasuram, sacrificam horas, dias, meses de vida, aqueles que com honestidade, dedicação (e sentido artístico e background cultural) vivem da escrita e que têm que competir com todo este junk paper que invade as prateleiras.

No meio de tanto material sem qualquer qualidade, em que o que é promovido é exactamente o que não presta, como garantir a preservação de alguma cultura?

E, afogados em material de consumo, como explicar o que é a cultura?

Nota: Os livros da Fátima Lopes e da Margarida Rebelo Pinto figuram aqui apenas como ilustração. Como estes há aos molhos.

  • É esta absurda sociedade de consumo. É este paradigma que tem conduzido a humanidade ao egoísmo, à estupidez, à regressão e que nos levou a nós, em particular, a sermos uma sociedade amorfa, pouco exigente, inculta, estupidificada, um país endividado com uma economia moribunda.
          Temos que dar um passo atrás e repensar tudo isto.


Até lá, que remédio... vamos ouvindo por todo o lado:

You better watch out,

You better not cry,

Better not pout,

I'm telling you why: 

Santa Claus is coming to town...!

He's making a list

And checking it twice;

Gonna find out Who's naughty and nice

Santa Claus is coming to town!!!!!!!

terça-feira, novembro 30, 2010

Uma pessoa coscuvilheira de avental a preparar-se para divulgar os segredos dos vizinhos...? Perigoso...! Mas não. Nada disso: trata-se apenas do chefe dos espiões no estrangeiro, maçon graduado, a prepara-se para exercer os seus bons ofícios ao serviço de um Grupo ligado à Comunicação Social. What's the matter...? Jorge Silva Carvalho is going to Ongoing...? What a great movie.

Um Grupo que teve origem na indústria, a velhinha e prestigiada Sociedade Nacional de Sabões, nos frenéticos anos 90, como tantos grupos, resolveu largar os ditos negócios maduros, posicionando-se nas cash-cows: media, imobiliária, energia, participações financeiras. Nasceu assim a newcomer Ongoing, encabeçada pelo Nuno Vasconcellos (late yuppie, cabelo puxado a gel comme il fault).

Receita Mckinsey ou BCG ou qualquer outra consultora major.

O site da Ongoing não contem informação financeira, o que é pena.

No Expresso deste fim-de-semana, conforme recorte aqui abaixo, vejo o que deve ser a total alavancagem financeira: participações de leão adquiridas com financiamentos BCP, BES, the usual thing. Mas sem informação nada se pode concluir.


Mas, também curiosas, são as contratações que Nuno Vasconcellos faz para o seu Grupo.

Por exemplo, que ideia a dele convidar para a Ongoing o seu amigo-chefe-dos-espiões-no-estrangeiro?

E que mistura curiosa é esta? Um espião maçon (ao que se diz, colega maçónico do Miguel Relvas e outros). Espião maçónico...deve saber segredos que nunca mais acabam...

São úteis esses segredos para um grupo de comunicação social?

Nuno Vasconcellos, outro destacado maçónico, grande chefe da grande loja, deve achar que sim.

Mas será que o grande mestre espião Jorge Silva Carvalho vai ter o sentido de estado suficiente para declinar a amabilidade do convite?

Recordemos: o ex-Director do SIED saíu da sombra para, no momento mais delicado, 3 dias antes de começar a Cimeira da Nato em Lisboa, mostrar que tem sentido de responsabilidade, que tem jeitinho...demitindo-se com estrondo. Parece impossível mas aconteceu. Cortaram no orçamento do SIED para o ano que vem e o seu sentido de estado não foi suficiente para, ao menos, ficar calado durante duas semanas...


(Do Expresso de 27 de Novembro: Jorge Silva Carvalho, prepara-se para fazer companhia a outra rapaziada fixe que já se mudou para a Ongoing)

Há pouco tempo foi esta outra grande figura da Nação, este reputado deputado do PSD de que se conhece valioso contributo a favor do povo português (aqui pigarreio...mas não sei como se transcreve esse som...) que, causando até embaraço às hostes pê-esse-dê, se mudou de armas e bagagens para a Ongoing.






Que tempos deslustrados estes que vivemos...

Mas acompanhemos este Grupo, a Ongoing. Talvez nos vá continuando a proporcionar surpresas.

segunda-feira, novembro 29, 2010

No melhor pano cai a nódoa, uma andorinha não faz a primavera, uma vez não são vezes, etc e tal....a toda a gente é permitido que, de vez em quando, a coisa não corra bem. Paciência, Zé Mário...

(Um homem de fibra, um setubalense lutador, saberá encaixar uma goleada arreliadora como esta...5 do Barcelona deve ser coisa difícil de digerir mas, na adversidade, os líderes também se sabem distinguir. Para a próxima outro galo cantará!! Aguardem-no. )

José Mourinho, the big winner, versus João Duque (do ISEG), the big looser



A semana passada vi na televisão uma reportagem sobre o galáctico José Mourinho. Todos os que falaram sobre ele elogiaram a capacidade de trabalho, a organização, o método, a determinação e, sobretudo, a liderança. Mas também a capacidade de querer e de crer. Querer uma coisa e crer que se vai alcançar. Lutar por ela. Sem vacilar. Sem dar tréguas.

Dele referem os jogadores todos (portugueses, espanhóis, italianos): 'ele pede-nos que marquemos golos para ele'; 'antes dos jogos ele diz 'vamos ganhar 2 a 0' e, no final, é esse o resultado'.

Mas nada disto é magia ou adivinhação: isto é a arte de bem liderar. Os jogadores, mesmo que racionalmente nem se apercebam, não o querem desiludir e, até ao último minuto, dão tudo para que o mister se sinta feliz, recompensado por ter acreditado neles.

E dizem que, mesmo em jogos de grande tensão, ele entra tranquilo, com a certeza de que vai ganhar.

'Graças a Deus não sou modesto', diz ele. Mas não é imodéstia: é a certeza do dever cumprido até ao limite, o treino, a preparação, o estudo minucioso do adversário, o trabalho cuidado de acompanhamento psicológico dos rapazes, é o saber incentivar, estimular, é a crença partilhada, é o afecto. É tudo aquilo de que se faz um grande líder.

É um vencedor e contagia os que com ele convivem. Puxa para cima. A big winner.

Como reverso - e há tantos que podem ser usados como o reverso do Mourinho (já aqui referi, no futebol, o Jorge Jesus, o absoluto anti-Mourinho)... - refira-se o agora omnipresente João Duque.



Parece aqueles putos marrões, irritantes, com grandes óculos, com ar de quem estudou mais que os outros meninos. Sempre que o ouço a falar, aparece com aquele sorrisinho tolo de quem condescende em ensinar uma coisa a meninos preguiçosos e, ao mesmo tempo, vaidoso por achar que vai impressionar os professores.Tem um arzinho irritante mas, pior que isso, só diz lugares comuns, cavalga a onda mas sempre pelo lado negativo.

Ele já previu sempre tudo o que de mau acontece mas só o ouvimos falar daquilo que já toda a gente sabe. Nunca lhe ouvimos nada de novo, apenas o ouvimos a antecipar que se calhar o pior vai acontecer.

Agora o mantra é que se calhar 'o FMI vem aí', se calhar 'o FMI vem aí', se calhar 'o FMI vem aí', se calhar 'o FMI vem aí'...

Uma pessoa com a responsabilidade que tem, deveria ter a obrigação de apontar alternativas, ter um discurso estimulante, puxar - pelo exemplo - os estudantes do ISEG para novos voos, para serem empreendedores, para virem a ser profissionais cultos, humanistas, responsáveis, com consciência social, ambiciosos mas honestos, visionários mas com capacidade de realização.

Deveria apontar ao povo e aos governantes (já que lhe dão tempo de antena na televisão e páginas nos principais jornais) caminhos para se sair desta, para ultrapassar este sufoco sem termos que nos subordinar aos ditames do FMI; deveria, pelas responsabilidades profissionais que tem e pela audiência que lhe concedem, apontar um caminho e ensinar a caminhar por esse caminho. Mas não.

Parece só se sentir bem a comentar o fracasso, parece só ser capaz de falar com os pés enfiados no pântano. Com aquele arzinho petulante, só sabe falar de derrota. É um sujeitinho que só puxa para baixo, é um perdedor. A big looser.

Para não nos deixarmos deprimir ainda mais, por favor: quando o menino-duque-joãozinho-dos-óculos-grandes aparecer, tiremos o som à televisão, mudemos de canal e, nunca por nunca, percamos tempo a ler o que escreve no Expresso.

domingo, novembro 28, 2010

Enfeites de Natal here in Heaven - não custam dinheiro e ...são comestíveis

Here in Heaven também há árvores enfeitadas antes do Natal...mas são elas que se enfeitam sozinhas...

Mas há mais: são vandalizadas... os enfeites aparecem comidos...

(Nesta altura do ano, os medronheiros estão cobertos de flores brancas e de frutos que variam entre o amarelo e o vermelho)

(E nós disputamos os suculentos frutos aos pássaros)

sexta-feira, novembro 26, 2010

Francis Bacon, o hipopótamo que se deixa comer em vida, 'os mercados', a greve geral, os portugueses perdidos no nevoeiro agora e segundo Fernando Pessoa

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer -
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

(Nevoeiro de Fernando Pessoa in Mensagem)

(Oedipus and the Sphinx after Ingres da Colecção Berardo em exposição no MACE)

Tal como ontem referi volto a Pedro Mexia em As Vidas dos Outros pois nunca vi melhor interpretação da obra de Francis Bacon.

Diz ele: "Esta é a mais violenta das pinturas, aquela que levou a representação do corpo humano a um nível de horror poucas vezes visto. [...] Encontramos infindáveis declinações da ideia de homosexualidade e violência em toda a obra de Bacon. Ele cultivou uma aura de "wild boy from Ireland" que se dava com machões iletrados e delinquentes, e os seus gostos sexuais masoquistas faziam com que aparecesse frequentemente com hematomas, resquícios de uma noitada mais feroz. Nada que uma maquilhagem minuciosa, à base de rouge e graxa, não escondesse, e que um másculo blusão de cabedal não atenuasse.[...] Corpos deformados, decepados, desossados, carcaças humanas num talho grotesco. [...] Bacon usava uma fórmula divertida: confessou-se "an optimist about nothing" [...]"

Curiosamente (ou talvez não), ontem Pedro Mexia no seu blogue escrevia : "Há pessoas que acham que ser pessimista deve ser «angustiante». Estão enganadas. Ser pessimista é sobretudo cansativo. Todos os dias o mundo confirma a ideia que temos do mundo. Imaginem: todos os dias."

Vejo o quadro acima de Francis Bacon, agora exposto no Museu de Arte Contemporânea de Elvas e sinto o desconforto da carne como matéria deliquescente, o pântano a invadir o corpo humano, o sangue fora do corpo, os humores, os líquidos humanos a espalharem-se pelo chão, a sujidade infecta a invadir os espaços.

Olhamos a pintura de Bacon e não sentimos razão para qualquer optimismo.

Os seus quadros retratam o fim da inocência, o fim da alegria, o fim da expectativa num futuro melhor: tudo parece a caminho da decomposição, de volta ao caldo bacteriano primordial.

Entre sábado, quando revi esta pintura, e hoje aconteceu a dita greve geral. Nesse dia fui trabalhar, fui almoçar ao lugar do costume (talvez dos sítios mais populosos da capital), fui e vim sem dar por qualquer alteração relativamente aos dias normais. A única diferença face a um dia sem 'greve geral' foi que, de facto, não vi autocarros, de facto passei por uma escola e via-a sem ninguém, como se fosse fim-de-semana. Por onde passei não vi nenhum vestígio de manifestação, de qualquer tipo de descontentamento: tudo estava absolutamente normal.

Quem fez greve deve ter ficado em casa. Presumo que a maioria foram funcionários públicos. Resolveram dar um dia de salário ao Estado e o Estado, na maioria dos casos, deve ter agradecido.

Além do mais, mostraram aos 'mercados' que, por esta banda, é tudo gente pacífica, que nem sai à rua, que não vai causar embaraços a ninguém. O Governo deve também ter agradecido pois, sem ter que mexer uma palha, o povo mostrou aos 'mercados' que é tudo gente mansa que vai colaborar com o que for preciso.

Eu não concordo com violências, nem com manifestações pacificistas (tudo tão incrivelmente déjà-vu, tudo tão vintage, tão retro-intelectual), nem com manifestações em geral pois parece-me gente em manada, uma cena triste.

Mas concordo com intervenção cívica, com intervenção inteligente, solidária.

No Mar Salgado  vi um filme que me deixou agarrada a mim própria, o horror absoluto. Um leão salta para cima de um animal muito maior, um hipopótamo. Dá ideia que, se o animal grande desse um safanão, o leão voava. Olhamos e achamos que o animal grande devia dar luta, virar-se, reagir. Mas não. Deixa-se estar. E o leão, em cima, vai mordendo, vai arrancando bocados de carne. E o grande hipopótamo não reage e começa a perder as forças, verga, deixa-se comer, por desistência, por total falta de ânimo ou, então, 'por delicadeza' deixa-se morrer.

É outra representação dos corpos de Bacon que se desfazem enquanto vivos. Assim, quase assim, estamos nós. Mandaram-nos largar os campos, colocá-los set aside (como eu conheço bem esta expressão) e nós assim fizemos, mandaram-nos largar os barcos de pesca e nós assim fizemos, mandaram-nos desinvestir de indústrias maduras e nós assim fizemos, mandaram-nos alavancar financeiramente toda a economia e nós assim fizemos, mandaram-nos obter resultados todos os meses e nós assim fizemos, sujeitaram-nos a assessments e outras maravilhas do género e, com isso, afastámos os mais competentes (que, hélas, eram cépticos), mandaram-nos que consumissemos e nos endividássemos para podermos consumir e nós assim fizemos. E aqui chegámos.

Para obterem votos, distribuiram prebendas e reformas e nós fomos agradecendo, descansados, repimpados, regalados. E, agora que 'os mercados' se encontram maçados porque perceberam que obedientemente nos encostámos de boca aberta à espera que o pão caia do céu e não vamos conseguir pagar o dinheiro que nos andam a emprestar, ficamos assim, enfiados em casa, a ver as tardes da júlia, ou vamos ao centro comercial fazer as comprinhas de natal enquanto o carvalho da silva, o mário nogueira, o jerónimo e outros que tais cantam vitória.

Mas vitória de quem sobre quem?

Que tristeza é esta que nos anestesia assim?

quinta-feira, novembro 25, 2010

As Vidas dos Outros num livro de Pedro Mexia e A Vida dos Outros num grande filme

O mais recente livro de Pedro Mexia, um dos proeminentes ministros do Governo-Sombra de Carlos Vaz Marques, chama-se 'As vidas dos outros' e reúne crónicas publicadas no Púlico entre Agosto de 2007 e Setembro de 2010. Por isso, para quem as leu em seu devido tempo, não são novidade. Para mim são.

São pequenos apontamentos biográficos, comentados e interpretados com a inteligência e a delicadeza que se lhe conhecem. Tenho uma certa reserva mental em falar de erudição (e refiro-me ao termo usado por Rui Ramos no prefácio) em relação a alguém que nem 40 anos tem mas há, sem dúvida, investigação, estudo, inteligência e intuição; e fruição do gosto pela escrita.

Desde Paulo de Tarso, a Ticiano, a Darwin, a Sinatra, a Solnado, a Ives Klein, a Francis Bacon (que referirei em próximo texto), passando por Freud, Camus, Lady Di até a uma de que gostei especialmente, pelo sentido tributo de gratidão a João Bénard da Costa, são quase 60 crónicas que se lêem com gosto.

(Um dos montinhos em que os meus livros - quais coelhos...- se juntam quando se reproduzem. Juntei uma lupa, por graça, ao livro do Pedro Mexia)


O título do livro, muito bem escolhido, fez-me recordar um filme de 2006 que vi no cinema à altura da exibição e de que já tenho também o DVD. É um filme alemão e é seguramente um dos filmes de que mais gostei nos últimos anos. Recebeu o Oscar e o Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro.

Uma vez mais temos a ambiguidade das personagens com quem não devemos simpatizar mas em que, à medida que aquele homem - que, de início, merece viva repulsa - vai mudando, o nosso sentimento para com ele vai também mudando.

No início é uma figura que nos desperta desprezo, um agente da Stasi que faz escutas a um casal ligado à cultura, tentando obter pistas incriminatórias; mas, progressivamene, vamos assistindo à sua  lenta, quase insignificante transformação até que, no final, estamos perante um homem que nos emociona com um gesto desprendido de inesperada grandeza.

O actor principal - com uma brilhante e contidíssima interpretação - morreu no ano seguinte.

Recomendo vivamente este filme, tal como recomendo o livro do cinéfilo Pedro Mexia.


terça-feira, novembro 23, 2010

Buddha Eden, Jardim da Paz, um lugar surpreendente

Fui à Quinta dos Loridos, no Carvalhal, conhecer este jardim apelidado por Garden of Peace, propriedade de Joe Berardo. Ainda está em construção: vêem-se muros no início, árvores recém-plantadas. Mas, ainda assim, já é enorme, bonito e, sobretudo, surpreendente. Há imensas (centenas?) de estátuas de grande dimensão, em granito, centenas de soldados, cavaleiros de terracota pintada, cavalos, arcos, colunas espalhadas entre caminhos agradáveis, muitas árvores e recantos, um lago enorme com patos, relvados imensos.

Tentei descobrir de onde vêm todas aquelas estátuas mas não consegui. Não posso acreditar que tudo seja autêntico e que todas aquelas toneladas (6.000) estejam a ser transportadas de algures lá do outro lado do mundo... Presumo que estejam a ser construidas réplicas e, com isso, a dar trabalho a muita gente por cá. Mas não sei. Mas olhando para aquelas que estão em fiada, quase iguais, vê-se que são todas diferentes. E os soldados de terracota também são todos diferentes e têm ar de antiguidade... Mas são incontáveis....

(Cabeça de uma das muitas estátuas 'gigantes')

Transcrevo excertos do texto explicativo que consta do site: "O Buddha Eden Garden é um espaço com cerca de 35 hectares, idealizado e concebido pelo Comendador José Berardo, em resposta à destruição dos Budas Gigantes de Bamyan.

Pretende-se, que o Buddha Eden Garden seja um lugar reconciliação. Sem nenhuma tendência religiosa, abrimos as portas, a todas as pessoas, independentemente, da religião, etnia, nacionalidade, sexo, idade, condição cultural ou social, convidando à união, comunicação e meditação, como forma de redescobrir a felicidade. Ambicionamos, assim, percorrer o caminho contrário à destruição do ser humano e disseminar a cultura da paz.

Esta é uma instituição cultural sem fins lucrativos e ao serviço da comunidade nacional e internacional, que tem como missão sensibilizar o visitante para o conhecimento interior, através do seu jardim em diálogo com um vasto património escultórico, vocacionado para a meditação e promoção da interacção social e cultural, conforme os princípios da solidariedade e da dignidade humana."


(Um dos grupos de centenas de soldados de terracota pintada)

(Sob o arvoredo, enormes figuras que associamos à reflexão, à paz)

(A zona da grande escadaria, talvez a zona mais emblemática; mas, por aqui é tudo tão inusitado que é difícil estabelecer alguma classificação)

Seja como for, é um local aprazível, curioso e merece certamente uma visita. Imagino que as crianças adorarão correr neste espaço imenso, ver estas figuras incomuns.

E...é gratuito. Apesar disso, surpreendentemente, só lá vi mais 2 pessoas.

(Todos parecidos, todos diferentes) .

segunda-feira, novembro 22, 2010

MACE, um museu que se recomenda em Elvas, cidade que também se recomenda



(Entrada e escadaria do Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE) com as enormes flores azuis de Andy Warhol em fundo)

Neste momento encontram-se em exposição no MACE algumas peças da colecção Berardo que eu já conhecia - Picasso, Miró, Albers, Pollock, Bacon, Yves Klein, etc). No entanto, não dei por perdida a visita. Não apenas as peças, pelo seu valor intrínseco, merecem sempre uma visita como, em minha opinião, ganham pela combinação entre elas, pela cumplicidade entre géneros tão díspares, pela dimensão e pela beleza do edifício.
MACE abriu em Julho de 2007 num edifício anteriormente hospital da Misericórdia de Elvas, em estilo barroco tardio de meados do século XVIII. A adaptação do edifício para museu teve o contributo do arquitecto Pedro Reis e dos designers Filipe Alarcão e Henrique Cayatte. A colecção tem cerca de 300 obras que se expõem segundo temáticas diferentes.
A colecção (que, como referi, agora não está exposta e que é propriedade de António Cachola) é composta por arte contemporânea portuguesa criada da década de 1980 em diante. Dela fazem parte artistas de plano internacional, de que se contam, entre outros, Rui Sanches, Xana, Joana Vasconcelos, Jorge Molder, Rui Chafes, José Pedro Croft, Fernanda Fragateiro, Pedro Cabrita Reis, Ângela Ferreira, Pedro Calapez, João Pedro Vale, Manuel Botelho, Edgar Martins, Francisco Vidal, Sofia Areal, Ana Vidigal. O director de programação é João Pinharanda.
Licenciado em economia e com uma pós-graduação em finanças públicas, 57 anos, António Cachola tem como grande hóbi de António Cachola a arte, e fá-lo na qualidade de um quase profissional.

No catálogo de apresentação do museu e da colecção, escreve o próprio: "O objectivo não passa apenas pela descentralização da arte ou da cultura mas pela sua naturalização, por transformar a arte em algo natural e acessível a todos" 

António Cachola, que trabalha na Delta Cafés em Campo Maior, iniciou a sua colecção "mais a sério" no início dos anos 90 e revela que "sempre quis adquirir uma colecção com o objectivo de partilhar com os outros, por isso a escolha da selecção das peças teve que ser ajustada, não só ao meu gosto, mas também ao desejo e vontade do grande público".

Sobre a aquisição de tão valioso espólio, explica:" Tenho os meus rendimentos e, em função desses mesmos rendimentos e de uma forma forma criteriosa e selectiva, fiz a selecção para esta colecção. A disponibilidade dos galeristas e artistas no sentido de perceberem o meu projecto, ao saberem que os recursos eram escassos e ao sentirem que cada venda que faziam ia contribuir para este grande projecto (MACE), aderiram à ideia e também quiseram ser cúmplices desta grande obra que nasceu em Elvas".
(Informação obtida num artigo do DN e aqui)
 
 
  (Uma das salas grandes do MACE)

 
(Mulher de vestido verde, Balthus - magnífico nesta parede de cor vibrante) 


Na minha galeria do Olhares coloquei hoje uma fotografia também feita no MACE em que se vêem dois homens de Juan Muñoz

E já agora falo também da cidade. Fiquei muitas vezes em Elvas mas quase nunca de propósito para a visitar. Era sempre um sítio de passagem. Fui visitá-la este fim-de-semana e fiquei agradavelmente impressionada. Tem aquele casario branco das cidades do sul de que tanto gosto e encontra-se rodeada por campos desafogados (com as fortificações habituais nas zonas fronteiriças).

(Elvas, uma cidade branca)


(Rua de Elvas, uma cidade também de labirintos, de ruas estreitas, íngremes, muito bonitas)