segunda-feira, agosto 10, 2026

Um dia com cantorias, bela comida e milagres e experiências novas. E, agora à noite, em descaminho, comento um comentário do outro dia.

 

Os Leitores que comentam são sempre bem vindos mesmo quando comentam parvoíces e me forçam a esconder o que escrevem. Foi o caso de ontem. Estavam danadinhos para a brincadeira. Esticaram-se cá de uma maneira. Tive que os deixar de castigo, claro. 

Outras vezes escrevem coisas que me parecem surreais, tão surreais que nem sei o que responder.

Acresce que tenho andado com o problema do computador. Uns fanicos que não se entendem. Este domingo, quando o liguei, nada. Nada. Não estava falecido que eu bem via uma little luzinha bruxuleante a circundar o botão (Mr. Jorge de Sena, chapeau). Mas nada. Escuridão absoluta. Com a ajuda do Gemini, fui tentando fazer manobras de reanimação. Reset energético, nada. Acordar a placa gráfica, nada. Reactivar a partir do botão de arranque de reserva, nada. Sei lá que mais. Nada. Nada. Sugestão: levá-lo de novo ao lugar de onde veio (mal) reparado.

Agora imaginem. Sem carro. 

E estamos na época dos leões. Uma das hipóteses era fazer os festejos cá em casa. Mas sem mantimentos para tanta gente e sem carro para ir ao supermercado, como? Compras online, dir-me-ão. Mas não é de um momento para o outro, certo? Portanto, fomos nós os convidados. Ou seja: programa de festas -- Ir a umjantar de aniversário e antes ir levar o computador de volta à oficina.

Uber. Pela segunda vez na vida, uber. Tudo bem. 

Chegámos à oficina dos computadores. Tiro o desfalecido paciente do saco, ponho-o no balcão, descrevo a situação: veio ontem de cá, tenho aqui a guia da reparação, e hoje não arranca nem por mais uma. Nada

"Vamos lá ver", diz o rapaz. Abre a tampa e... o computador normal, a funcionar. Juro: a funcionar!

Estão a ver a minha cara? 

Estão a ver a cara de gozo do meu marido? No caminho veio a gozar e a dizer que eu tinha carregado no botão errado. Como errado? Não há erro possível: só tem um botão. E, aliás, nem é preciso carregar em botão nenhum, liga-se mal se levanta a tampa.

Explicação? Não tenho. O rapaz diz que é como quando é para ir ao dentista, passa logo a dor de dentes.

Depois era para ir para casa do aniversariante. Pensámos: Uber? Ou a pé? 

Resolvemos: a pé. Coisa para uma meia hora. Faz-se bem, pensámos.

O pior foi para sair de lá a pé. Pela primeira vez na vida estavamos ali a pé. Sempre para lá fomos de carro. 

Parecíamos, certamente, uns saloios. A olhar para todo o lado sem saber para onde ir, muito menos como apanhar a estrada por onde era suposto irmos (a pé). Tudo vedado. Um trânsito do caraças em volta. Canteiros, bancos de jardim, e junto às estradas tudo vedado. Para mais acima, tudo vedado. Em direcção à outra rotunda: tudo vedado. Resolvemos, então, ir à papo-seco. E, atravessando aqui e ali, lá demos connosco do outro lado e lá iniciámos o caminho. De saco ao ombro, com o computador lá dentro.

'Porque não pediram boleia? Porque não chamaram um uber?', perguntaram-nos quando lá chegámos Mas não, uma bela caminhada. Experiências novas.

O jantar estava óptimo, a companhia o melhor possível, a cantoria uma animação, a divertida toilette do aniversariante um espectáculo (dentro do género, claro). Sempre uma festa.

De volta a casa, de novo uber. O preço muito mais alto. É a lei da procura e da oferta, disseram. Claro, pois então. Queixei-me: um balúrdio, isto. Encolheram os ombros, acham que é o que faz viver afastada da realidade.

Correu bem com o insignificante senão de não conseguirmos abrir a porta, quando o carro lá foi ter connosco para nos apanhar. Nunca tínhamos andado num carro daqueles, o fecho invisível, a forma de funcionar do puxador deveras atípica. O meu filho estava à varanda, perdido de riso. Mas entrámos. E viemos cá dar. É o que interessa.

Há pouco, liguei o computador. Vinha com o credo na boca, receosa de que estivesse outra vez em greve. Mas não. Em contrapartida sem rede, sem acesso às redes, a qualquer rede. Praguejei mentalmente. Not again, filho da mãe. Reiniciei-o. Aleluia. Funcionou.

Amanhã será a saga do carro. Pelouro do meu marido. Todos nos dizem: comprem outro. Não concordo. Estou cada vez menos consumista. Quando trabalhava, de três em três ou quatro em quatro anos, andava com carro novo em folha. Zerinho. Se havia problema, arranjavam-me carro de substtuição, se era preciso garagem, um motorista levava. Nunca me preocupava com tal coisa. Com o meu marido era o mesmo. Agora é toda uma outra cena, transtornos e obrigações por nossa conta.

Por mim, usava o mesmo carro durante mais vinte anos. Quando digo isto, o meu marido, alerta: 'Não te esqueças da idade que tens'. Mais uma razão. 

Ao passo que os meus colegas vibravam com os carros, escolhiam e reescolhiam, avaliavam, faziam testes, discutiam e analisavam entre eles, viam os acessórios e sei lá que mais, eu era assim: 'o que é que há para entrega?'. Ou 'o que é que há em escuro, de preferência preto?'. Depois, quando vieram as modernices, o requisito era outro: 'o que é que há que ainda tenha mudanças?'. Um castigo, já era tudo automático, e automático eu não queria, fazia-me confusão conduzir sem os 3 pedais e sem as mudanças. Portanto, estão a ver, não quero cá saber de carros xpto nem de carros novos. Tenho esperança que a avaria deste seja simples e que o carro dure pelo menos mais os ditos 20 anos. Mas, de preferência, mais que isso.

Mas, voltando ao tema dos comentários. 

No outro dia, alguém escreveu isto: 

"Por aí...até acho que o que Costa fez com a imigração em massa foi um crime. Em quatro ou cinco anos fez entrar nesta terra cerca de um décimo de população. O dobro dos retornados em 1975. Pior ainda, imigração que na larga maioria não serve para nada em tempos de revolução no trabalho com a automação e a IA. Os empresários agrícolas alentejanos precisam de gente para apanhar fruta? Vejam o youtube e a maquinaria inteligente que já por aí há. Precisamos sim de mão de obra qualificada. Mas essa ou não vem para cá ou está na sala de partidas do aeroporto de Lisboa." 

E eu li e pensei que devia ir buscar os óculos, não devia estar a ler bem. Então esta pessoa ainda não viu quem é que está a manter os hotéis e os restaurantes a trabalhar? Acha que poderia prescindir destas pessoas, em favor de malta das IAs? Ou não sabe quem é que lava e desinfecta os hospitais e quem é que dá banho e muda as fraldas a doentes e idosos em hospitais e lares? Acha que é malta das IAs? Ou já viu quem é que trabalha nas obras? É a malta das IAs?

Mais: este comentador não sabe quais os empregos mais sacrificados com a IA? Não sabe que é a malta formada, engenheiros, arquitectos, advogados, informáticos, gestores, financeiros, etc? Não sabe que a malta do trabalho braçal é a malta que se vai safar?

Se não sabe, então faça o favor de se informar. Ora veja.

Em que mundo vive esta pessoa e todas as que condenam a imigração? Não conseguem perceber que grande parte dos sectores económicos assentam em mão de obra que já é, na maioria, imigrante, e que, se deixar de existir, lá vai a economia para o galheiro? Qual IA qual carapuça nas actividades em que a mão de obra imigrante hoje trabalha... E se não forem eles quem é? Temos cá gente em número suficiente para se ocupar destes trabalhos? Claro que não. 

A minha filha costuma passar uma semana num turismo de habitação que este ano não conseguiu manter-se aberto no regime habitual porque não tem quem faça o trabalho, os pequenos almoços, etc. Não arranjou ninguém.

Eu, no meu latifúndio campestre, em que caíram carradas de árvores e pernadas, ainda não consegui tirar de lá grande parte daquilo porque não arranjamos quem o faça. Há lugares em que a imigração ainda não chegou e em que não se arranja ninguém para fazer este género de trabalhos pesados e debilmente remunerados. Dirão os mais simples de espírito: pague-se mais. Não resolve. As pessoas que há são pessoas de idade, que já não são capazes de trabalhos mais difíceis, ou pessoas que estão a trabalhar, sem tempo livre para uma segunda ocupação.

Tudo isto me parece óbvio. Mas, então, porque é que ainda há tanta gente com medo dos imigrantes? Em vez de estrem agradecidos (eu estou), falam mal deles, querem vê-los pelas costas. Estupidez? Deficiente informação? Espírito caguincha, medo de tudo?

Ainda não leram sobre a preocupação que vai nos Estados Unidos com os industriais a queixarem-se do abrandamento económico por falta de mão de obra, nomeadamente imigrante?

Há gente que tem uma mente tão fechada e tão deformada que nem consegue raciocinar, vivem alimentados pelo medo, medo dos imigrantes. Como se nós, portugueses, não fossemos imigrantes em todos os países por onde nos espalhámos. 

Caraças. Coisas tão simples de perceber.

Bem.

Fico-me por aqui. O dia foi longo (bom! -- mas longo).

Tenham uma bela semana, ok?

1 comentário:

Anónimo disse...

Não gostou? Sorry.

Não, não vou nessa conversa. Pior, este tipo de imigração tem um efeito perverso para a economia: mantém esta terra agarrada a modos de produção inviáveis, sem futuro.

Com tanto hotel, tanta limpeza, quer salários de engenheiro? Foi um acaso que o PIB per capita tenha descido relativamente à média europeia?

Há dias o Le Monde, creio, dizia na essência o mesmo de Itália: importa mão de obra não qualificada e exporta mão de obra qualificada.

O problema de fundo está noutro lado: demos educação aos jovens, mas não podemos decretar o tipo de empresas que temos. Para que serve um curso em ciência se a oferta de emprego é no café? A CIP é o melhor exemplo do país que temos. O presidente da CIP tem um grupo económico (a palavra grupo é bonita). Grupo do quê? Faz o quê? Que empresas tem? Quantos trabalhadores tem?

António Champalimaud gostava de de definir como "industrial". Procure um hoje.