É sempre um prazer ouvir Maria João Pires, seja a tocar, seja a conversar. Aos 82 anos continua a ser uma menina: espontânea, franca, inocente, pura.
Não há nela uma ponta de egocentrismo, vestígios de vaidade, preocupação com imagem. É uma pessoa extraordinária. Perto dela, mesmo que apenas através de uma entrevista, sinto-me bem. Há nela uma leveza, uma bondade, uma simplicidade que ilumina.
E fiquei a saber que tenho uma coisa em comum com ela: não gosto de festejar os meus aniversários. Estar com os meus chega-me. Se quiserem cantar-me os parabéns, tudo bem, canto também, apago as velas. Mais do que isso já seria, para mim, uma violência. Há quem aprecie festanças, muitos convidados, altas produções. Abominaria.
No entanto, gosto de ser convidada para aniversário alheios, gosto de festejar os sucessos e mais um ano de vida dos outros. Gosto mesmo. Mas sem aparatos, só alegria e afecto. Os aparatos são artifícios, futilidades, ilusões efémeras e desnecessários.
No outro dia, quando a minha filha perguntou se eu não gostasse convidar amigos de longa data ou primos e primas para os meus anos, respondi que quando fizer 100 anos reconhecerei que talvez haja motivo para festejar. Digo mais: até me parecerá caso para atirar foguetes -- "olhem para ela, com 100 anos e ainda por cá anda'. Aí, sim. Até lá, é só mais um dia que veio a seguir a outro.
Mas o tema não tem a ver comigo, tem a ver com a menina Maria João, deusa de Belgais. Deixemo-nos ficar na sua companhia.
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