De manhã, o tempo estava fosco, fresco, e chegou a chuviscar. Da terra molhada subiu aquele perfume bom que faz sempre lembrar-me a longínqua e tão presente emoção do regresso às aulas.
Depois abriu, o tempo aqueceu.
Há folhas secas por todo o lado. A caruma parece que atrai toda a espécie de folhagem. Estávamos a contar que o rapaz conseguisse cá vir soprar e aspirar o espaço em volta da casa e alguns caminhos. Afinal, mais uma vez, não conseguiu. Por aqui é muito difícil encontrar quem faça estes trabalhos. Por isso, mais uma vez tive que voltar à minha vassoura. É daquelas volumosas, pesadas, com as franjas em aço. As mais leves não têm força para isto. Ao fim da tarde já tinha a feridinha do costume na mão. O meu marido continuou a sua árdua tarefa de transportar os troncos cortados para junto da lenha e as ramagens que estão espalhados por todo o lado para junto dos montes imensos que, quando puder ser, serão queimados.
Pelo meio, frágil pecadora, fui-me enchendo de figos. Estão dulcíssimos, gordos, suculentos, irresistíveis. Não sei quantos quilos a mais já coleccionei. Depois, há um fenômeno que penso que deveria ser seriamente investigado: se eu comer meio quilo de figos, engordo um quilo. Se, no dia seguinte, comer mais meio quilo engordo mais quilo e meio, que se soma ao quilo da véspera. Uma coisa exponencial, muito dif´cil de controlar.
Acresce que fomos almoçar a uma tasquinha numa aldeia vizinha. Puseram na mesa uma cesta de pão e broa e uma tigelinha de azeitonas bem temperadas. Marchou tudo. É certo que a dividir por dois mas, ainda assim, um estrago adicional. De entrada, não resistimos a ovos com farinheira. Pior um pouco. O prato nem digo o que foi, muito menos falo das deliciosas batatas fritas e da saborosa maionese caseira. No fim, deveria ter-me feito rogada a uma tarte de amêndoa com uma bola de gelada. E fiz-me. Só comi metade. Mas de certeza que aumentei mais dez quilos.
Portanto, não sei como, mas vou ter que arranjar forças para me embrenhar num jejum. Mas não é daqueles a fingir, tem mesmo que ser a doer. Vai é que ter que ser como o voto de castidade do Santo Agostinho: mas ainda não, mas ainda não...
Já agora, a propósito dos figos diabólicos, vou aqui reincidir num texto maravilhoso do D. H. Lawrence sobre como comer um figo. Os apertadinhos tapem os ouvidos. Avisei.
Cena de Mulheres Apaixonadas
Dias felizes
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