Falo por mim: do nazismo não tive, felizmente, conhecimento directo. O que sei, sei de ler ou ouvir. Mas sei que veio devagar, veio com apoio popular, espalhou-se perante o silêncio e a cumplicidade de muitos, se calhar, da maioria.
Daquilo a que assisto agora há muita coisa que me choca. Muita. A cobardia de quem ouve e, em vez de se levantar e virar costas, aplaude; a cobardia dos que, podendo renegar, se calam, se escudam com a diplomacia. Não fico incomodada, desagradada, revoltada apenas com os algozes, os pérfidos, os bandidos, os canalhas -- fico, quase igualmente, com os cobardes, os hipócritas, os oportunistas, os igualmente canalhas.
Assisto ao impensável nos Estados Unidos mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se perante as ingerências, as ameaças e as desconsiderações de Trump e da sua entourage. Assisto ao impensável por parte de Israel mas assisto igualmente ao impensável na Europa, ao calar-se, ao fechar os olhos, na prática, ao ser cúmplice de Netanyahu. Assisto ao impensável por parte da Rússia e, neste caso, assisto ao impensável por parte de todos quantos se têm manifestado a favor da deposição das armas por parte da Ucrânia. Não se extinguem aqui as ignomínias no mundo. Mas prefiro focar-me nos casos de maior dimensão, talvez pelo risco para a ordem mundial, talvez pelo risco para as democracias de todo o mundo, talvez pela quase habituação, e aceitação, da violação do direito internacional, talvez pelo risco da banalização do mal.
A entrevista que aqui abaixo partilho é apenas um caso. Mas é um caso a que não fico indiferente, e não é apenas pela emoção e pela revolta, pela tristeza que se sente nas palavras do entrevistado. Quando a imprensa, que deveria ser livre, fica nas mãos de quem apenas pensa em dinheiro, em lamber as botas do poder, em bajular os maiores inimigos da liberdade de expressão, mal, muito mal vão as coisas. Os sinos tocam a rebate pela democracia quando a imprensa livre é ameaçada.
Independentemente disso, a entrevista vale também pela qualidade da entrevistadora e do entrevistado.
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Scott Pelley: O que aconteceu ao '60 Minutes' é uma tragédia | A Entrevista
Estreada na CBS em 1968, a emissora foi o lar de alguns dos jornalistas mais conceituados da televisão, de Mike Wallace e Ed Bradley a Lesley Stahl, Anderson Cooper e, até à semana passada, Scott Pelley.
Pelley, que trabalhou na emissora por 37 anos, incluindo como correspondente da Casa Branca, âncora do "CBS Evening News" e correspondente do "60 Minutes", foi demitido após uma série de eventos explosivos e muita turbulência nos últimos anos na CBS. Estes acontecimentos incluem um polémico acordo financeiro com o Presidente Trump sobre um segmento do "60 Minutes"; a venda da estação a David Ellison; e a nomeação de Bari Weiss, ex-colunista de Opinião do New York Times e fundadora do The Free Press, sem experiência em jornalismo televisivo, para liderar a CBS News.
A demissão de Pelley ocorreu depois de Weiss ter demitido vários de seus colegas e ter contratado um novo chefe para o "60 Minutes", Nick Bilton, com quem Pelley entrou em conflitonuma reunião de equipe. Pelley, juntamente com vários outros correspondentes do "60 Minutes" que foram demitidos, acusou Weiss de interferência editorial e parcialidade, acusações que a CBS News e Weiss negam.
Na sua primeira entrevista desde que foi demitido, Pelley conta sobre o incidente específico que considerou interferência, sobre as suas experiências na CBS News nas últimas semanas e meses e sobre o que espera que resulte deste período turbulento na emissora onde passou a maior parte de sua carreira.
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