Em todas as áreas pode haver burocracia, aquela arte de fazer bem feito uma coisa inútil. Até na área dos estudos, incluindo os so-called científicos.
Quando se faz um estudo tem que se saber minimamente a realidade sobre a qual se vai investigar, tem que se 'calibrar' o conhecimento conversando com pessoas envolvidas no processo, tem que se ir ao terreno e ver como as coisas funcionam na prática. Sei (mais ou menos) do que falo. Não apenas a nível profissional liderei projectos que envolviam estudos e respectivos planos de implementação e, muitas vezes, acompanhamento da respectiva execução, como orientei, durante alguns anos, vários estágios curriculares de licenciaturas. E quando a universidade pedia que acolhêssemos finalistas e me perguntava que temas poderíamos sugerir, eu atravessava-me com temas muito concretos e complexos demais para serem equacionados internamente sem recurso a apoio de quem tivesse tempo e recursos para fazer análise estatística, para construir modelos, para testar e validar soluções.
E a minha abordagem quando recebia os jovens era sempre a mesma: depois de lhes explicar o que pretendia e de os deixar durante uns dias a consultar informação, atirava-os para o terreno. Queria que fossem perceber qual o problema e porque o queríamos ver resolvido. Deveriam observar, falar com as pessoas, fazer perguntas, ouvir queixas e opiniões. Só depois os queria de volta. E, antes que começassem a fazer estudos, eu queria ouvi-los a falar da realidade concreta, queria ver se já 'sentiam' o problema como se fossem vítimas dele.
E vem isto a propósito de uma notícia do Expresso. "Doentes só vão ao médico de família privado porque o seguro paga a consulta", Análise de investigadores da Nova SBE indica que a “cobertura por seguro de saúde é o principal fator de recurso a médico de família fora do SNS”. Quase 70% dos doentes que procuraram consultas fora da rede pública têm clínico atribuído no centro de saúde (...)
E eu leio isto e penso: que conclusões mais estúpidas...
É que a questão não é essa. A questão é: porque é que, tendo médico de família, optam por ir ao privado usando para isso o seguro (onde pagam sempre qualquer coisa)?
Bastaria terem entrevistado umas quantas pessoas nessas circunstâncias. E essas pessoas ter-lhes-iam respondido todas a mesma coisa: porque não conseguiram consulta no SNS em tempo útil.
Posso falar por mim e pelo meu marido, e temos ambos seguros de saúde, e posso falar por todas as pessoas que conheço. Apesar de termos seguros, gostaríamos de ser seguidos exclusivamente no SNS.
Só que, muitas vezes, não se consegue.
Se marcarmos consulta de revisão anual para daqui por uns seis meses, talvez consigamos. Mas se tivermos um problema e quisermos uma consulta para a semana já não conseguimos.
No outro dia o meu marido precisou de ir ao médico. Se fosse uma situação crítica teria ligado para a Saúde 24 e, se eles assim o considerassem, teriam agendado consulta para o Centro de Saúde onde seria atingido por um médico qualquer, não pelo médico de família. Já usei essa prerrogativa duas vezes, uma quando fui picada no pé e o pé desatou a inchar estupidamente e aí a médica que me viu, uma jovem muito jovem, foi chamar uma mais experiente e vim de lá bem medicada, ou seja, correu bem, e outra, quando tive uma dor e inflamação num pulso. O médico de família tinha combinado comigo que, na próxima vez em que eu tivesse uma destas crises, eu deveria lá ir em plena crise para investigarem bem a sua origem. Liguei para a Saúde 24 e expliquei. Marcaram-me consulta. Dei com uma médica jovem, inexperiente, medrosa e pouco inteligente. Não conseguiu perceber o motivo da consulta, estava atrapalhada. Ir ou não ir foi a mesma coisa. Vim de lá desconcertada. Quando, meses depois, numa daquelas consultas anuais, falei nisso ao médico de família, sorriu, encolheu os ombros como se não se admirasse muito, mas nada pudesse fazer.
Mas, portanto, o meu marido ligou para lá e disse que gostava de ter consulta com o médico de família. Disseram que ou daí por meses ou, se era para já, que fosse lá no dia seguinte de manhã. Foi, creio que talvez por volta das oito e tal da manhã. Já não tinha vaga, só havia duas e já estavam tomadas. Desistiu. Obviamente não faria sentido estar a ir para lá todos os dias, de madrugada, sem certeza de obter vaga.
Porque é que as pessoas vão ao privado? É simples: porque não arranjam vaga no público.
E quando se quer consulta de oftalmologia, ginecologia ou o que for? Ou se está com problema sério que o médico de família referencie para o hospital e aí espera-se que o hospital chame (ao fim de muitos meses, se não mesmo um ano ou mais ) ou que remédio senão ir ao privado. Porque é que se vai ao privado? É porque se tem seguro? Não. É porque não se consegue no SNS.
E tudo isto é tão óbvio que não consigo compreender que raio de estudo mais estúpido foi este que a Nova SBE desenvolveu.
Transcrevo mais um pouco: "Investigadores da Nova SBE vêm contradizer a perceção de que os doentes recorrem a um médico de família privado porque não têm resposta no Serviço Nacional de Saúde (SNS). A análise que fizeram, e divulgaram esta segunda-feira, afirma que a procura de um clínico fora da rede pública é motivada pelo facto de a consulta ser paga pelos seguros privados e a prova é que a maioria dos doentes que recorreram à rede particular para medicina familiar em 2025 têm médico assistente no centro de saúde."
Isto só mostra que é gente que não põe o pé no terreno, que não faz a mínima do que é a realidade.
“Os dados analisados permitem aferir que, em 2025, 14,1% dos adultos recorreram a médico de família no privado e, destes, aproximadamente 70% têm médico de família atribuído pelo SNS”, escrevem os autores Pedro Pita Barros e Carolina Santos. E, acrescentam, “apenas 4,2% da população total recorre ao privado por não ter médico de família no SNS e cerca de 10% da população tem dupla cobertura (médico de família no SNS e no setor privado)”.
Isto é um estudo burocrático: certamente muito bem feitinho mas desnecessário, absurdo, dispensável.
Não conseguiram perceber nada do assunto.
E o Expresso, em vez de fazer uma leitura crítica das conclusões e questionar os autores, Pedro Pita Barros e Carolina Santos, não senhor, limita-se a divulgá-las como se acrescentassem alguma coisa, como se servissem para tirar alguma conclusão.
Quando se falta na falta de produtividade portuguesa é nisto que se fala: muita gente ocupada a fazer coisas que não valem uma casca de caracol.
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