Há pessoas que talvez não seja espectaculares, que talvez não sejam beldades absolutas, que talvez não sejam bombásticas em nada -- e, no entanto, estão constantemente bem e conseguem ser sempre um amor. Gostamos sempre delas, enternecem-nos, temos vontade de as ver e ouvir, parecem transportar a leveza dentro delas.
Para mim, Sally Field pertence a esse tipo de pessoas.
Desde que a vejo a actuar que gosto dela. O seu registo não é exuberante, não leva os seus personagens aos píncaros da exaltação. Consegue ser contida e autêntica. Frequentemente, parece querer ser uma nossa amiga próxima. E estou para aqui a dissertar quando desde o início me apetece, simplesmente, dizer: é uma querida, uma fofa.
E mantém aquele seu ar de menina irrequieta, traquinas. Parece intemporal. E, no entanto, este ano fará 80 anos. Olha-se e não parece possível. Há pessoas assim, em que a infância parece permanentemente irradiar de dentro delas.
E depois tem outra coisa: é uma democrata e uma defensora da liberdade em todas as suas legítimas expressões. E di-lo com todas as letras.
Aqui com outro espírito brilhante: Stephen Colbert. Um prazer.
"Ri tanto que tiveram de refazer a maquilhagem" - Sally Field no set de "Uma Ama Quase Perfeita"
A vencedora de um Óscar, Sally Field, contou a Stephen Colbert que resistiu durante meses às tentativas de Robin Williams para a fazer rir no set de filmagens, mas um único som de pum emitido por Pierce Brosnan fê-la desabar completamente em gargalhadas.
Um dos melhores atores principais com quem já trabalhei - Sally Field em "Remarkably Bright Creatures"
A vencedora de um Emmy, Sally Field, percebe um pouco dos atores principais de Hollywood, e diz que o seu colega de oito patas em "Remarkably Bright Creatures" foi o ator mais presente com quem já trabalhou.
- Hoje o comando do carro acusou carga baixa. Olhámos para aquilo, que geralmente anda no bolso e nunca é usado, sem sabermos como abrir. Simples. Fotografei, mostrei ao ChatGPT e foi só seguir os passos. Disse qual a pilha, qual a sequência, como remover a outra e substituir pela nova. Depois, como, depois de retirar a chave manual (de cuja existência nem eu já me lembrava), ficaram três pequenas ranhuras à vista, e não sabíamos em qual meter a chave de parafusos, fotografei-as -- e de imediato recebemos as instruções exactas. Em menos de dois minutos, todo o assunto estava resolvido.
- O segundo exemplo foi mais significativo. Trouxe de casa dos meus pais, quando tive que esvaziar a casa, uns envelopes com cartas antigas que mal consigo perceber. Aliás, nas quais sistematicamente me perdia, acabando sempre por desistir. Uma das mais impossíveis era uma do meu bisavô que, quando jovem marido e jovem pai de filhos, fugiu para a Argentina. Era dirigida à minha bisavó. A carta foi escrita em 1955 depois de lá viver, creio eu, há uns quarenta e tal anos. O papel está rígido e manchado, a tinta está esbatida. Mal se percebe. Aliás nem sei por onde é que aquela carta andou e como acabou por vir parar às minhas mãos. A minha bisavó vivia no Algarve e o normal é que a carta tivesse ido para sua casa. Como tinha filhas a viver perto dela, o mais provável é que, na morte da mãe, alguma delas tivesse querido ficar com a carta do pai. Mas, pelos vistos, quem ficou com ela foi o meu avô que, naquela altura, já não vivia por aquelas bandas. Isto para dizer que, nas bolandas em que andou, nem sei como é que, apesar de tudo, aquele papel resistiu. Mas, para acrescer à dificuldade, o meu bisavô escrevia num misto de português e espanhol, e, além disso, a letra é bonita e desenhada, mas a caligrafia, antiga, dificulta a leitura -- por vezes as pernas das letras cruzam-se com as hastes das letras da linha de baixo e o emaranhado ainda mais se complica. E aproveitou todo o espaço do papel, pelo que escreveu, deitado, em todas as margens, quase se misturando essas partes com a do texto inicial. Eu tento começar a perceber o que ali está e não passo da primeira linha. Pesco aqui e ali umas palavras mas não consigo, de maneira nenhuma, reconstituir as suas ideias.
Então, lembrei-me de fotografar as páginas. As fotografias ficaram sumidíssimas e, mesmo puxando pelo contraste, mal se identifica o que lá está escrito. Ainda assim, carreguei-as para o ChatGPT, para o Gemini e para o Claude. O Chat patinou e pôs-se a tentar adivinhar. O Gemini arriscou-se a avançou com uma tentativa mas eram muitas as omissões e alguns os tiros ao lado. O Claude devolveu-me uma coisa com sentido e com umas questões: quis confirmar se o nome dele e da mulher eram os que tinha percebido e não eram exactamente, mas, tendo-lhe eu dito quais os nomes, a partir daí reconstituiu mais umas palavras, depois pediu para eu confirmar o nome dos filhos e se ele estava na Argentina e com essa informação descodificou um pouco mais. E, ao fim de mais uns passos, entregou-me uma carta em que, no fim, tem um glossário, e, de repente, tudo fez sentido. E fiquei a saber onde é que ele estava quando escreveu, o que fazia, aquilo por que tinha passado, o que estava a pedir à minha bisavó. Fiquei comovida, deveras comovida. Uma parte de uma história que eu desconhecia, parecia estar a renascer aqui à minha frente. Mesmo as letras deitadas nas margens, tudo isso o Claude conseguiu descodificar. E mais: reconstituiu o percurso provável e como se terá deslocado (do Algarve até Lisboa e de Lisboa até Buenos Aires e depois até mais abaixo) e ainda me sugeriu, caso eu quisesse saber mais, quais os endereços dos arquivos argentinos que me poderão fornecer mais informação. Uma coisa incrível. No espaço de minutos. E a forma como interagiu comigo e o que escreveu... parecia uma pessoa a perceber a peça sensível que ali estava. Dizem que o Claude ainda não tem consciência (embora haja já quem o questione), que tudo não passa de um algoritmo a funcionar sobre modelos matemáticos sabiamente concebidos. Mas a minha opinião é que a consciência também se adquire. E portanto... Preparemo-nos para o mundo novo que está a nascer à nossa vista.
E, por este segundo exemplo, insignificante exemplo, veja-se o que isto é para historiadores, para investigadores, para arquivistas... o espantoso avanço nos trabalhos que isto permite.
Veja-se ainda outra coisa: estas ferramentas ensinam-se a elas próprias. E, neste momento, em todo o mundo, milhões de pessoas, com as suas interacções, estão a ensiná-las. A sua curva de aprendizagem é brutalmente acelerada, imparável. As consequências disto, boas ou más, ainda estão para ser compreendidas.
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